Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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terça-feira, 24 de setembro de 2024

Antoine de Saint-Exupéry - Lyon

Neste pensamento, Exupéry insta-nos a considerar que o verdadeiro valor da vida e da morte radica no amor e no significado que outorgamos à nossas ações e criações: a morte, em última instância, pode ser vista como uma maneira de unir-nos a algo transcendental e duradouro, e o sacrifício em nome daquilo que amamos se converte num ato nobre e de amplos significados.

 

Com efeito, sugere o autor francês que aqueles que dedicam suas vidas a criar algo duradouro e expressivo, como uma obra de arte ou um legado que possam perdurar bem mais além de sua própria existência, estão dispostos a aceitar a morte quando são capazes de contemplar a magnificência de tais criações e desejam fundir-se a elas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Antoine de Saint-Exupéry

(1900-1944)

 

Ninguém morre por ovelhas, nem por cabras, casas ou montanhas. Pois os objetos subsistem sem que nada lhes seja sacrificado. No entanto, morre-se para salvar o invisível nó que os mantém unidos e que os transforma em domínio, em império, em rosto reconhecível e familiar. Damos nossas vidas por essa unidade, pois a constituímos também ao morrer. A morte compensa por causa do amor. O homem que lentamente trocou sua vida pela obra bem-feita, que dura mais que a vida, pelo templo que abre caminho pelos séculos, também aceita morrer quando seus olhos sabem distinguir o palácio da diversidade dos materiais, e quando ele é ofuscado por sua magnificência e deseja fundir-se a ela. Pois é recebido por algo maior que ele e se entrega a seu amor. (SAINT-EXUPÉRY, 2015, p. 42-43)

 

Lyon (FR)

 

Referência:

 

SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. Cidadela. Tradução e nota de Julia da Rosa Simões. Apresentação de Sandra Guimarães. São Paulo, SP: Via Leitura, 2015.

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sábado, 11 de agosto de 2018

Miguel Sousa Tavares - Porto

 
Porto/Portugal

 

“Mas a razão principal nem é essa. A razão principal é que já não há muita gente que tenha tempo a perder com o deserto. Não sabem para que serve e, quando me perguntam o que há lá e eu respondo “nada”, eles riscam mentalmente essa viagem dos seus projectos. Viajam antes em massa para onde toda a gente vai e todos se encontram. As coisas mudaram muito, Cláudia! Todos têm terror do silêncio e da solidão e vivem a bombardear-se de telefonemas, mensagens escritas, mails e contactos no Facebook e nas redes sociais da Net, onde se oferecem como amigos a quem nunca viram na vida. Em vez do silêncio, falam sem cessar; em vez de se encontrarem, contactam-se, para não perder tempo; em vez de se descobrirem, expõem-se logo por inteiro: fotografias deles e dos filhos, das férias na neve e das festas de amigos em casa, a biografia das suas vidas, com amores antigos e actuais. E todos são bonitos, jovens, divertidos, “leves”, disponíveis, sensíveis e interessantes. E por isso é que vivem esta estranha vida: porque, muito embora julguem poder ter o mundo aos pés, não aguentam nem um dia de solidão. Eis porque já não há ninguém para atravessar o deserto. Ninguém capaz de enfrentar toda aquela solidão”. (TAVARES, 2009, p. 116-117)

 

Miguel Sousa Tavares

(n. 1950)

 

Referência:

 

TAVARES, Miguel Sousa. No teu deserto: quase romance. 1. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009.

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sábado, 18 de fevereiro de 2017

José Saramago - Azinhaga do Ribatejo

 
AZINHAGA DO RIBATEJO
  
“Devemos reconhecer que a literatura não transforma socialmente o mundo, que o mundo é que vai transformando, e não só socialmente, a literatura. É ingênuo incluir a literatura entre os agentes de transformação social. Reconheçamos que as obras dos grandes criadores do passado não parecem ter originado, em sentido pleno, nenhuma transformação social efetiva, embora tendo uma forte influência em comportamentos individuais e de geração. A humanidade seria hoje exatamente a mesma que é se Goethe não tivesse nascido. A literatura é irresponsável, mas não se pode imputar-lhe nem o bem nem o mal da humanidade. Pelo contrário, ela atua como um reflexo mais ou menos imediato do estado das sociedades e de suas sucessivas transformações”. (SARAMAGO, 2010, p. 182)

“Saramago: ‘La posibilidad de lo imposible, los sueños e ilusiones, son la materia de mi escritura’”, ABC, Madri, 20 de abril de 1989 [Entrevista a Jesús Fonseca].

José Saramago
(1922-2010)

Referência:

SARAMAGO, José. As palavras de Saramago: catálogo de reflexões pessoais, literárias e políticas. Organização e seleção de Fernando Gómez Aguilera. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2010.
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sábado, 6 de fevereiro de 2016

Sándor Márai - Escritor Húngaro

Košice - Eslováquia

“Os gêmeos, mesmo de longe, mesmo se adultos, conhecem tudo um do outro, e uma estranha lei biológica os obriga a adoecerem ao mesmo tempo e a sofrerem das mesmas doenças, mesmo se um vive em Londres e outro sabe-se lá onde, em algum país estrangeiro. Não se escrevem, não se falam, moram, vivem, se alimentam em condições diferentes, estão separados por milhares e milhares de quilômetros. E no entanto, na idade de trinta ou quarenta anos começam a sofrer, no mesmo momento e com as mesmas probabilidades de cura ou de triste desenlace, de uma doença idêntica, por exemplo uma icterícia ou uma apendicite. Os dois corpos fazem parte de uma unidade orgânica, como no passado no útero materno... E amam e odeiam a mesma pessoa. E às vezes me perguntei se a amizade não constitui um vínculo parecido com esse vínculo fatal que une os gêmeos. Uma identidade singular nos pendores, simpatias, gostos, cultura e paixões, liga dois homens – mesmo se um deles tenta se opor ao outro – em torno de um mesmo destino. É inútil que um dos dois fuja para longe, ainda assim continuarão a saber o essencial um do outro. Inútil que um dos dois escolha um novo amigo ou uma nova amante: sem o tácito acordo do outro não poderá se livrar desse vínculo. O destino desses homens se cumpre em paralelo, mesmo se um deles vai embora, se afasta muito do outro e acaba, por exemplo, nos trópicos” (MÁRAI, 1999, p. 91-92).

“A gente vai envelhecendo aos poucos: numa primeira fase, atenua-se a vontade de viver e de ver nossos semelhantes. Vai prevalecendo o sentido da realidade, vai se esclarecendo o significado das coisas, você acha que os acontecimentos se repetem monótona e fastidiosamente. Isso também é um sinal de velhice. Finalmente, você percebe que um corpo é apenas um corpo e que os homens, pouco importa o que façam, são apenas criaturas mortais. Depois, seu corpo envelhece; não todo de uma vez, é verdade, primeiro envelhecem os olhos ou as pernas, o estômago, o coração. A gente envelhece assim, pedaço por pedaço. E então, de repente, sua alma envelhece: mesmo sendo o corpo efêmero e mortal, a alma ainda é movida por desejos e recordações, ainda procura a alegria. E quando também desaparece esse desejo de alegria, só restam as recordações e a inutilidade de todas as coisas; nesse estágio, estamos irremediavelmente velhos. Um dia você acorda e esfrega os olhos e não sabe mais por que acordou. Já sabe exatamente o que o dia apresentará a seus olhos: a primavera ou o inverno, os cenários habituais, as condições atmosféricas, a ordem dos fatos. Nada de surpreendente pode acontecer: não o surpreendem nem sequer os fatos inesperados, insólitos ou horripilantes, porque você conhece todas as probabilidades, já previu tudo e não espera mais nada, nem para o bem nem para o mal... e esta é a verdadeira velhice. E no entanto, alguma coisa ainda vive em seu coração, uma lembrança, uma vaga e nebulosa esperança, há alguém que gostaria de ver, há algo que ainda gostaria de dizer ou saber. Um dia, você tem absoluta certeza, chegará esse momento, e então, de repente, saber e enfrentar a verdade já não lhe parecerá tremendamente importante como imaginara durante os anos de espera. O homem compreende o mundo um pouco de cada vez, e depois morre. Descobre as causas ocultas dos fenômenos e das ações humanas. A linguagem simbólica do inconsciente... pois os homens recorrem a uma linguagem simbólica para comunicar seus pensamentos, você nunca percebeu? Quando falam das coisas essenciais parece que usam uma língua estrangeira, que falam como os chineses, e é preciso traduzir essa língua para trazê-la ao plano da realidade. Os homens não sabem nada sobre si mesmos. Falam sempre de seus desejos e camuflam obstinadamente seus pensamentos mais secretos. Se você aprender a reconhecer as mentiras dos homens, notará que dizem sempre coisas diferentes do que pensam e querem realmente. E então a vida se torna quase divertida. Depois, um dia você consegue entender a verdade: isso quer dizer que a velhice e a morte chegaram. Mas nessas alturas já não sente dor” (MÁRAI, 1999, p. 150-151).

Sándor Márai
(1900-1989)

Apreciação de Samuel Thomas para
“As Velas Ardem Até Ao Fim” (Título em Portugal)
“As Brasas” (Título no Brasil)

As Velas Ardem Até Ao Fim é uma joia redescoberta da literatura da Europa central – originalmente publicado em Budapeste em 1942, mas desconhecido de um público mais vasto até a sua tradução para outras línguas no fim dos anos 90. Contra todas as probabilidades, o romance acabou por tornar-se um best-seller mundial, embora o autor, que se suicidou durante o exílio nos EUA, em 1989, nunca tenha chegado a testemunhar a sua inesperada popularidade.
O livro desenrola-se na Hungria, pouco depois do início da Segunda Guerra Mundial, num remoto castelo no sopé dos montes Cárpatos. Lá, Henrik, um general na reserva de 75 anos, janta com o seu velho amigo, Konrad, que não via há cerca de quarenta anos. Há muitas questões por resolver entre os dois homens, e o que se segue é uma altivez maravilhosamente controlada – uma esclarecedora série de anedotas, reminiscências, silêncios, réplicas, refutações e obscurecimentos. Márai cadencia a obra com talento e precisão, só permitindo que uma nova revelação aflore quando sentimos que uma espécie de reconciliação pode ser possível. Anos de azedo ressentimento são condensados numa única noite.
As Velas Ardem Até Ao Fim, uma obra curta e notável, é um romance ainda impregnado no saber e na atmosfera do império Austro-Húngaro. Trata-se de um livro com sombras compridas e excelentes vinhos, com candelabros, florestas antigas e estalidos de mogno. O autor mantém tal atmosfera sem nunca recorrer a truques baratos. Com todo o seu charme antiquado, o livro continua um estudo cuidadosamente observado – sobre classes sociais, amizade, traição e orgulho masculino.

Avaliação da obra pelo bloguinho (0-10): 9,0.

J.A.R. – H.C.

Referências:

THOMAS, Samuel. As velas ardem até ao fim. In: BOXALL, Peter (ed.). 1001 livros para ler antes de morrer. Tradução de Manuela Brazão et al. Editor da edição portuguesa Karl Heinz Petzler. Lisboa, PT: Lisma, 2007. p. 422.

MÁRAI, Sándor. As brasas. Tradução de Rosa Freire d’Aguiar. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1999.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Carson McCullers - Escritora Norte-Americana

 
Columbus - Geórgia (EUA)

“Nossa missão é atravessar com força e dignidade os dias da nossa humilhação. Nosso orgulho tem que ser firme, pois sabemos o valor da mente e da alma humana. Temos que ensinar nossas crianças. Temos que nos sacrificar para que elas possam conquistar a dignidade do estudo e do conhecimento. Porque vai chegar o dia. Vai chegar o dia em que as riquezas que existem em nós não serão mais encaradas com escárnio e com desprezo. Vai chegar o dia em que vamos poder servir de fato. Em que vamos trabalhar e o nosso trabalho não será desperdiçado. E a nossa missão é esperar por esse dia com força e fé”. (McCULLERS, 2007, p. 246)

A citação acima, extraída da Parte 2 do Capítulo 6 do livro em referência, traduz o discurso que o Dr. Copeland, um personagem negro, faz em sua festa de Natal. Pleno de sabedoria, ele tenta transmitir, às pessoas de seu povo, conselhos e coragem para avançar na luta cotidiana.

Carson McCullers
(1917-1967)

Apreciação de Karl Heinz Petzler para
“O coração é um caçador solitário”
(“The heart is a lonely hunter”)
(PETZLER, 2007, p. 411)

O seu primeiro romance tornou Carson McCullers numa sensação literária, com apenas 23 anos. Dotado de um profundo sentido de isolamento moral e com um compadecido olhar pela vida interior dos seus personagens, Coração Solitário Caçador é considerado não só a sua obra-prima como um marco da literatura do século XX.
Situado numa deprimente vila na Geórgia dos anos 30, o cenário pode parecer provinciano, mas o seu cosmos é universal e eterno. No centro da narrativa está o surdo-mudo John Singer, que se torna confidente de alguns marginalizados, cada um dos quais – preocupado com o seu lugar no mundo – anseia escapar das circunstâncias à sua maneira: Mick Kelly, uma adolescente cuja ambição íntima é compor sinfonias, é filha de proprietários da pensão, onde Singer vive depois do seu melhor amigo ter ficado demente; Jack Blount, um alcoólico por vezes violento, obstinado com as suas ideias socialistas frustradas; Dr. Copeland, um médico negro que luta, em vão, pela causa da igualdade racial e Biff Brannon, o proprietário de uma cafeteria com desejos sexuais ambíguos. Cada um deles acha que o surdo-mudo Singer os compreende e estima. Ironicamente este, também algo obcecado por uma amizade de reciprocidade questionável, suicida-se após a morte do seu amigo enlouquecido.
Conjugando o isolamento espiritual inerente à condição humana com uma hábil compreensão das tensões raciais no Sul dos EUA, McCullers tece uma história inesquecível, dando voz aos rejeitados, esquecidos e maltratados – e, através de Mick, à serena e intensamente pessoal busca por beleza. Coração Solitário Caçador ainda hoje continua a ser uma obra literária incontornável, tão oportuna e poderosa como na altura de sua publicação.

Avaliação da obra pelo bloguinho (0-10): 8,5.

Obs.: Há uma adaptação cinematográfica, de 1968, intitulada no Brasil como “Por que tem que ser assim?”, dirigida por Robert Ellis Miller, apenas razoável quando em cotejo com a obra que lhe deu origem.

J.A.R. – H.C.


Referências:

PETZLER, Karl Heinz. Coração solitário caçador. In: BOXALL, Peter (ed.). 1001 livros para ler antes de morrer. Tradução de Manuela Brazão et al. Editor da edição portuguesa Karl Heinz Petzler. Lisboa, PT: Lisma, 2007. p. 411.

McCULLERS, Carson. O coração é um caçador solitário. Tradução de Sonia Moreira. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2007.
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terça-feira, 28 de julho de 2015

W. G. Sebald - Austerlitz

Considerado por muitos como um dos grandes romances produzidos neste início de terceiro milênio, “Austerlitz”, do alemão W. G. Sebald, é leitura ao mesmo tempo árdua e fascinante. Ele trata, sem angústia ou sentimentalismo, a história de Jacques Austerlitz, contada por seu amigo, o narrador dos eventos do livro que, por inferência, bem pode ser o próprio Sebald.

Austerlitz, um historiador da arte em Londres, mais precisamente da Arquitetura, parte em busca de suas raízes, uma vez que desconhece as circunstâncias de sua infância. Nascido em 1939, em Praga, de pais judeus, foi mandado ainda criança, com quatro ou cinco anos, ao Reino Unido, para que pudesse ser salvo dos alemães.

O fato é que Austerlitz foi criado por pais adotivos no País de Gales, com o nome de Dafydd Elias, completando seus estudos em Oxford, após o que passou à carreira acadêmica.

Foi em suas andanças como pesquisador que ele, casualmente, se encontrou com o narrador, na Estação Central de Antuérpia, mais tarde, em Bruxelas, e, posteriormente, num passeio marítimo em Zeebrugge, oportunidades em que narrou os fatos que compõem a parte mais significativa do romance de que se trata.

Já adulto, Austerlitz volta à sua cidade natal, onde revê a sua antiga babá (Vera), que lhe fala sobre sua mãe (Ágata), presa num campo de concentração, e sobre o seu pai (Maximilian), desaparecido na França. Visita ainda Terezín, local onde sua mãe passou os seus derradeiros dias e onde há um museu em memória dos mortos, que quase ninguém frequenta.

A obra mescla texto com imagens, gravuras, fotos, fazendo o livro parecer um pequeno documentário, cuja pesquisa centra-se na própria memória dos acontecimentos. As imagens que perduram na mente do leitor são as estações de trem, paredes e arcos decorados, capitéis de colunas, cemitérios, água e muita névoa. Daí a sensação de hipnotismo que perpassa o livro. São particularmente belas as fotos da Estação Central de Antuérpia e do Palácio da Justiça de Bruxelas, ambos na Bélgica.

Uma observação final: tal como nas obras de José Saramago, o número de parágrafos existentes no livro de Sebald pode ser contado com apenas alguns dedos das mãos.

Nossa cotação para a obra (0-10): 8,5.

J.A.R. – H.C.

W. G. Sebald
Wertach, Alemanha: 1944
Norfolk, Reino Unido: 2001

Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que se imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mas me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos do mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera (SEBALD, 2008, p. 182).

Wertach
(Bavária - Alemanha)

Referência:

SEBALD, W. G. Austerlitz. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.
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quinta-feira, 10 de julho de 2014

Ernesto Sabato – Buenos Aires

Buenos Aires – Argentina

Entre o Bem e o Mal

“Nos tratados, o escritor deve ser coerente e unívoco, e por isso o ser humano escapa de suas mãos. No romance, o personagem é ambíguo como na vida real, e a realidade que aparece numa grande obra de ficção é realmente representativa. Qual é a verdadeira Rússia? A do piedoso, sofredor e compreensivo Aliosha Karamazov ou a do canalha Svidrigailov? Nem uma, nem outra. Ou, melhor dizendo, uma e outra. O romancista é todos e cada um dos seus personagens, com a totalidade das contradições que essa multidão comporta. É ao mesmo tempo, ou em diferentes momentos de sua existência, piedoso e cruel, generoso e mesquinho, austero e libidinoso. E quanto mais complexo é um indivíduo, mais contraditório ele é. A mesma coisa ocorre com os povos” (SABATO, 2008, p. 60).

Ernesto Sabato
(1911-2011)

Referência:

SABATO, Ernesto. Entre o bem e o mal. In: __________. A resistência. Tradução de Sérgio Molina. 1. ed. 1. reimpressão. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. p. 47-63.
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sexta-feira, 4 de julho de 2014

Roland Barthes - Cherbourg

 
CHERBOURG - FRANÇA

 

O Prazer do Texto

 

“Poder-se-ia imaginar uma tipologia dos prazeres de leitura – ou dos leitores de prazer; não seria sociológica, pois o prazer não é um atributo nem do produto nem da produção; só poderia ser psicanalítica, empenhando a relação da neurose leitora na forma alucinada do texto. O fetichista concordaria com o texto cortado, com a fragmentação das citações, das fórmulas, das cunhagens, com o prazer da palavra. O obsessional teria a voluptuosidade da letra, das linguagens segundas, desligadas, das metalinguagens (esta classe reuniria todos os logófilos, linguistas, semióticos, filólogos: todos aqueles para quem a linguagem reaparece). O paranoico consumiria ou produziria textos retorcidos, histórias desenvolvidas como raciocínio, construções colocadas como jogos, coerções secretas. Quando ao histérico (tão contrário ao obsessional), seria aquele que toma o texto por dinheiro sonante, que entra na comédia sem fundo, sem verdade, da linguagem, que já não é o sujeito de nenhum olhar crítico e se joga através do texto (o que é muito diferente do se projetar nele)”.

 

Roland Barthes

(1915-1980)

Referência:

 

BARTHES, Roland. O prazer do texto. Tradução de J. Guinsburg. 6. ed. São Paulo: Perspectiva, 2013. p. 73-74.

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quinta-feira, 19 de junho de 2014

Harper Lee – Monroeville, Alabama, EUA

Monroeville
Old Monroe Courthouse

Um dos poucos livros da autora norte-americana Harper Lee, se não for o único, “To Kill a Mockingbird” aparece com frequência em listas das obras literárias mais lidas nos EUA. Vencedor do Prêmio Pulitzer de 1961, é uma história que aborda o amadurecimento de crianças, em especial os filhos do advogado viúvo Atticus Finch – Jem, um garoto de 10 a 13 anos à época dos fatos, e Scout, uma pouco mais nova e que os narra –,  mas é, sobretudo, o enredo da discriminação contra os negros em uma cidadezinha hipotética no sul dos Estados Unidos, Maycomb (Alabama), lá pelos anos 30 do século passado.

O livro, escrito nos idos de 60, teve o título vertido ao português, no Brasil, como “O Sol É Para Todos”, obviamente não uma tradução literal da expressão em inglês, mas uma versão que retrata o sentido de interpretação que se extrai do enredo. A tradução literal seria como que “Matar um Rouxinol” (ou uma cotovia, ou melhor assim, um pássaro cuja espécie não é comum neste torrão).

Lee faz alusões ao pássaro a cada vez que procura denotar um sentido ético nos eventos que descreve pouco a pouco: decerto o negro Tom Robinson, o acusado do caso, é o exemplo mais nítido da alegoria configurada pelo pássaro, inocente e inofensivo.

O tema do racismo, embora hoje um pouco mais atenuado na sociedade americana – basta ver que Barack Obama, um presidente de cor, seria impensável no começo dos anos 30! –, mereceu incursões judiciárias candentes ao longo desse tempo, e, para quem tem interesses na seara legal, se poderia sugerir a leitura de obras que retratassem a ascensão dos “Movimentos dos Direitos Civis” nos EUA, de onde emergiram figuras negras de destaque como Luther King e Malcolm X, aliás, ambos assassinados, como o negro de Lee, ao tentar fugir da “gaiola” que o aprisionava.

O tema sempre leva a reflexões que engendram miríades de controvérsias aqui no Brasil, com alguns chegando a negar a existência de processos discriminatórios nestas plagas. Outros interpretam a concentração de renda pernóstica do país como uma questão de binômio “ricos x pobres” e não entre “brancos x negros” ou “homens x mulheres”. Contudo, o impacto estatístico é sobranceiramente desfavorável aos negros!

Argumentos de justiça, obviamente originários da filosofia política, sempre são avocados pelas partes para justificar determinadas linhas de ação, sejam elas de vocação liberal, libertária, neomarxista, feminista ou de outras tendências. 

Seja como for, neste momento, as políticas governamentais têm dado maior ênfase à implementação de ações afirmativas, em especial as voltadas à educação em instituições públicas de ensino superior. Penso que isso não seja nenhum favor para um componente de nossa população que supera a casa dos 50%, tanto mais se levarmos em consideração que tais políticas, conforme se depreende das convenções internacionais acolhidas pelo Brasil, não hão de se protrair indefinidamente no tempo.

Se não for despropositado o comentário, poderia descrever um pouco de minha experiência como jurado em doze sessões em que fui sorteado numa das varas do tribunal do júri, em Belém do Pará: seria por acaso que nove dos réus eram negros e sete moravam em bairros muito pobres da periferia da cidade? Que 100% deles eram homens entre vinte e trinta anos?

Tal evidência – a de que a Justiça brasileira, no âmbito penal, serve apenas para aprisionar, majoritariamente, homens negros e pobres –, em meados da primeira metade dos anos 90, firmou-me a convicção de que o ponto de partida para essas pessoas deveria ser melhorado, elevado, estruturado – e nunca peremptoriamente ignorado pelo Governo, em qualquer de suas três instâncias!

A igualdade que se deseja não é meramente uma igualdade legal, perante a lei, mas uma igualdade formal, material, com oportunidades reais para todos. Por isso, selecionei o excerto abaixo, da obra sob epígrafe, para ilustrar o que ora se propugna:

“Thomas Jefferson disse uma vez que todos os homens são criados iguais, uma frase que os ianques e certos membros do Executivo em Washington gostam muito de atirar em nossa cara. Neste ano da graça de 1935, determinadas pessoas estão com uma tendência para utilizar essa frase fora de propósito, aplicando-a em todas as situações. O exemplo mais ridículo que me ocorre agora é o dos indivíduos encarregados da educação pública que estão aprovando os estúpidos e os ociosos juntamente com os diligentes – porque todos os homens são criados iguais, dirão os educadores com ar solene, as crianças são promovidas de série sofrerão um terrível sentimento de inferioridade. Mas nós sabemos que todos os homens não nascem iguais, não no sentido que algumas pessoas querem nos impingir: alguns são mais espertos do que outros, alguns têm melhores oportunidades porque nasceram com elas, alguns homens fazem mais dinheiro do que outros, algumas senhoras fazem bolos mais gostosos do que outras, algumas pessoas nascem com talentos muito superiores aos do normal dos homens” (LEE, 2007, p. 263).

Para dar contornos finais a esta postagem, gostaria ainda de sugerir outra obra literária de destaque, a abordar também o problema da discriminação, seja esta sorrateira ou brutalmente explícita: “O Homem Invisível”, de Ralph Ellison, com toda a força de seu virtuosismo verbal, num retrato que enquadra a exploração, a manipulação e a hipocrisia no cerne da sociedade norte-americana.

Leia ambas as obras mencionadas, internauta. Depois me fale das suas impressões!

J.A.R. – H.C.

Nelle Harper Lee
(n. 1926)
Referência:

LEE, Harper. O sol é para todos. Tradução de Maria Aparecida Nóbrega de Moraes Rego. 2. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.
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terça-feira, 17 de junho de 2014

Virginia Woolf – Londres

Londres – Inglaterra

“To the Lighthouse” (“Rumo ao Farol” - 1927), uma das obras solares da britânica Virginia Woolf, impacta os seus leitores menos pelos efeitos de seu enredo, senão pelo poder da introspecção filosófica do qual está permeado. Ali estão os temas da complexidade da experiência humana e de seus inevitáveis relacionamentos. Raros são os diálogos. Em contraste, as divagações são muitas, partindo da mente de personagens distintos, como a que transcrevemos abaixo, a vaguear pela psique do Sr. Ramsay.

A passagem, de fato, é relatada por um narrador anônimo – no fundo, a própria autora –, mas através do ponto de vista do personagem. Se a exposição em terceira pessoa introduz certo distanciamento, ao enfocar o Sr. Ramsay de uma mirada externa, o facho interno permite a aproximação, o mais possível, à percepção subjetiva do protagonista. O efeito deliberado é o desmanche ou a ausência de nitidez dos confins entre o mental e o resto do mundo, ou melhor, a psique é apresentada como elemento integrante do mundo natural no qual está imersa. Madame Woolf é mestra nesse tipo de recurso, pois o usa com prodigalidade em muitas de suas obras.

J.A.R. – H.C.
O Olho do Lagarto

“O olho do lagarto pestanejou de novo. As veias de sua testa intumesceram. O gerânio no vaso tornou-se surpreendentemente visível e destacado entre as folhas; podia ver, sem o desejar, a velha, a óbvia distinção entre as duas espécies de homens; de um lado os que avançam com força sobre-humana e, com esforço e perseverança, repetem o alfabeto inteiro, ordenadamente, vinte e seis letras ao todo, do começo ao fim; de outro lado os bem-dotados, os inspirados que, miraculosamente, vislumbram todas as letras de uma só vez, numa única visão – o caminho dos gênios. Ele não era genial; e não tinha nenhuma pretensão quanto a isso; mas tinha, ou poderia ter, a capacidade de repetir cada letra do alfabeto, de A a Z, primorosamente em ordem” (WOOLF, 2003, p. 39).

Virginia Woolf
(1882-1941)
Retrato de Roger Fry

Referência:

WOOLF, Virginia. Rumo ao farol. Tradução de Luiza Lobo. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.
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segunda-feira, 16 de junho de 2014

Albert Camus – Dréan (Mondovi)

A Mesquita de Dréan (Mondovi) − Argélia

“L’Homme Révolté” (“O Homem Revoltado” - 1951), de autoria do escritor franco-argelino Albert Camus, é uma obra e tanto!

A força de sua permanência decorre, certamente, da capacidade de Camus em haver arregimentado as grandes linhas de força do pensamento europeu para ilustrar brilhantemente o arcabouço que houvera programado para desenvolver o tema da revolta, com suas derivações na história, na arte e na filosofia, ou melhor, neste último caso, mais especificamente na metafísica.

Os vários excertos a seguir transcritos, decerto, são traspassados das idiossincrasias deste que vos escreve, pois que revelam um modo particular de ler e assinalar aquilo que julgou relevante sob algum critério, seja estético, seja historiográfico, seja ainda filosófico ou outro qualquer. Obviamente, não há neutralidade nas escolhas. Fazer o quê? (rs).

J.A.R. – H.C. 
Albert Camus
(1913-1960)

O Homem Revoltado

“Há crimes de paixão e crimes de lógica. O código penal distingue um do outro, bastante comodamente, pela premeditação. Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Nossos criminosos não são mais aquelas crianças desarmadas que invocavam a desculpa do amor. São, ao contrário, adultos, e seu álibi é irrefutável: a filosofia pode servir para tudo, até mesmo para transformar assassinos em juízes” (CAMUS, 2011, p. 13).

“Sendo rara a força do amor, o crime continua excepcional, conservando desse modo o seu aspecto de transgressão. Mas a partir do momento em que, na falta do caráter, o homem corre para refugiar-se em uma doutrina, a partir do instante em que o crime é racionalizado, ele prolifera como a própria razão, assumindo todas as figuras do silogismo. Ele, que era solitário como o grito, ei-lo universal como a ciência. Ontem julgado, hoje faz a lei” (CAMUS, 2011, p. 13).

“Em outras palavras, o problema da revolta só parece assumir um sentido preciso no âmbito do pensamento ocidental. Poder-se-ia ainda ser mais explícito ao observar, com Scheler, que o espírito de revolta dificilmente se exprime nas sociedades em que as desigualdades são muito grandes (regime hindu de castas) ou, pelo contrário, naquelas em que a igualdade é absoluta (certas sociedades primitivas). Em sociedade, o espírito de revolta só é possível em grupos nos quais uma igualdade teórica encobre grandes desigualdades de fato. O problema da revolta, portanto, só faz sentido no interior de nossa sociedade ocidental” (CAMUS, 2011, p. 32-33).

“Na experiência do absurdo, o sofrimento é individual. A partir do movimento de revolta, ele ganha a consciência de ser coletivo, é a aventura de todos. O primeiro avanço da mente que se sente estranha é, portanto, reconhecer que ela compartilha esse sentimento com todos os homens, e que a realidade humana, em sua totalidade, sofre com esse distanciamento em relação a si mesma e ao mundo. O mal que apenas um homem sentia torna-se peste coletiva. Na nossa provação diária, a revolta desempenha o mesmo papel que o cogito na ordem do pensamento: ela é a primeira evidência. Mas essa evidência tira o indivíduo de sua solidão. Ela é um território comum que fundamenta o primeiro valor dos homens. Eu me revolto, logo existimos” (CAMUS, 2011, p. 35).

“O mundo é divino porque é fortuito. Por Isso, só a arte, por ser igualmente fortuita, é capaz de entendê-lo. Nenhum julgamento explica o mundo, mas a arte pode nos ensinar ii reproduzi-lo, assim como o mundo se reproduz ao longo dos retornos eternos. Na mesma beira de praia, o mar primordial repele incansavelmente as mesmas palavras e rejeita os mesmos seres espantados com a vida. Mas aquele que pelo menos consente em seu próprio retorno e no retorno de todas as coisas, que se faz eco e eco exaltado, participa da divindade do mundo” (CAMUS, 2011, p. 95).

“Aquele [Rimbaud] que exultava nos suplícios, que havia ofendido Deus e a beleza, que se armava contra a justiça e a esperança, que se fortalecia no duro ambiente do crime, quer apenas casar-se com alguém que “tenha futuro”. O mago, o vidente, o prisioneiro intratável, sobre o qual a prisão sempre volta a se fechar, o homem-rei da terra sem deuses, nunca deixa de carregar oito quilos de ouro em um cinto que lhe pesa no ventre e do qual se queixa, dizendo que provoca diarreia. Será esse o herói mítico que se propõe a tantos jovens, que não cospem no mundo, mas que morreriam de vergonha à simples ideia daquele cinto?” (CAMUS, 2011, p. 113).

“Quando se está seguro de que o amanhã, na própria ordem do mundo, será melhor do que hoje, é possível divertir-se em paz. O progresso, paradoxalmente, pode servir para justificar o conservantismo. Letra sacada contra a confiança no futuro, ele autoriza, desta forma, a boa consciência do senhor Ao escravo, àqueles cujo presente é miserável e que não têm nenhum consolo no céu, assegura-se que o futuro, pelo menos, é deles. O futuro é a única espécie de propriedade que os senhores concedem de bom grado aos escravos” (CAMUS, 2011, p. 226).

“Ele [Marx] colocou o trabalho, sua degradação injusta e sua dignidade profunda no centro de sua reflexão. Rebelou-se contra a redução do trabalho a uma mercadoria e do trabalhador a um objeto. Lembrou aos privilegiados que os seus privilégios não eram divinos, nem a propriedade um direito eterno. Ensejou um, sentimento de culpa àqueles que não tinham o direito de manter em paz a consciência e denunciou, com uma perspicácia inigualável, uma classe cujo crime não é tanto ter tido o poder, quanto tê-lo utilizado para os fins de uma sociedade medíocre e sem uma verdadeira nobreza” (CAMUS, 2011, p. 242).

Nós lhe [Marx] devemos uma ideia que é o desespero de nosso tempo – mas aqui o desespero vale mais do que qualquer esperança –, a ideia de que, quando o trabalho é uma degradação, ele não é vida, se bem que ocupe todo o tempo da vida. Quem, apesar das pretensões dessa sociedade, pode dormir em paz, sabendo que doravante ela tira seus prazeres medíocres do trabalho de milhões de almas mortas? Ao exigir para o trabalhador a verdadeira riqueza, que não é a do dinheiro, mas a do lazer ou da criação, ele reivindicou, a despeito das aparências, a qualidade do homem. Ao fazê-lo, podemos afirmar com convicção, ele não quis a degradação suplementar que foi imposta ao homem em seu nome. Uma de suas frases, clara e contundente, recusa para sempre aos seus discípulos triunfantes a grandeza e a humanidade que tinham sido suas: “Um fim que tem necessidade de meios injustos não é um fim justo” (CAMUS, 2011, p. 242-243).

“Neste sentido, cada qual procura fazer de sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor dure e sabemos que ele não dura; se até mesmo, por milagre, ele tivesse que durar toda uma vida, estaria ainda incompleto. Talvez, nesta insaciável necessidade de durar, compreenderíamos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar Na falta de uma felicidade inesgotável, um longo sofrimento constituiria ao menos um destino. Mas não é assim, e nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma irreprimível vontade de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade” (CAMUS, 2011, p. 300).

“Todos os grandes reformadores tentam construir na história o que Shakespeare, Cervantes, Molière e Tolstoi souberam criar: um mundo sempre pronto a satisfazer a fome de liberdade e de dignidade que existe no coração de cada homem. Sem dúvida, a beleza não faz revoluções. Mas chega um dia em que as revoluções têm necessidade dela. Sua regra, que contesta o real ao mesmo tempo em que lhe confere sua unidade, é também a da revolta. Pode-se recusar eternamente a injustiça sem deixar de saudar a natureza do homem e a beleza do mundo? Nossa resposta é sim. Esta moral, ao mesmo tempo insubmissa e fiel, é em todo o caso a única a iluminar o caminho de uma revolução verdadeiramente realista. Ao manter a beleza, preparamos o dia do renascimento em que a civilização colocará no centro de sua reflexão, longe dos princípios formais e dos valores degradados da história, essa virtude viva que fundamenta a dignidade comum do mundo e do homem, e que agora devemos definir diante de um mundo que a insulta” (CAMUS, 2011, p. 317).

“Não importa o que fizermos, a desmedida conservará sempre o seu lugar no coração do homem, no lugar da solidão. Carregamos todos, dentro de nós, as nossas masmorras, os nossos crimes e as nossas devastações. Mas nossa tarefa não é soltá-los pelo mundo, mas combatê-los em nós mesmos e nos outros” (CAMUS, 2011, p. 345).

Referência:

CAMUS, Albert. O homem revoltado. Tradução de Valerie Rumjanek. 9. ed. São Paulo: Record, 2011.
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