Nestes versos de rimas
emparelhadas, Meyer oferece-nos uma visão esperançosa e dinâmica da existência,
na qual a morte consistiria, tão apenas, numa porta a mais, na longa sequência
de perpétua evolução espiritual à qual estaríamos devotados: seríamos como que
viajantes cósmicos, almas em constante crescimento, purificadas através das
experiências e fortalecidas por meio de sucessivos embates espirituais, num
ciclo sagrado de partidas e regressos, até alcançarmos a união final com o
Eterno.
Assoma com ênfase a abordagem antroposófica do autor, presente em seus
escritos, um dos quais o poema em questão, todo ele demarcado por simbolismos
planetários à volta de ideias como as de inteligência e comunicação, de
renovação e rejuvenescimento do espírito, de fortalecimento para a luta, de
expansão a planos superiores de sabedoria, até que se venha a alcancar a compreensão acerca
da unidade de todos os opostos.
J.A.R. – H.C.
Rudolf Meyer
(1896-1985)
Der Weltenpilger
Tragt ihr mich einst
hinaus, sprecht nicht: “Zur ew’gen Ruh” –
Legt mir zum
Pilgerkleid ins Grab zwei Wanderschuh!
Drei Tage halt ich
Rast. Dann schreit ich meinen Weg.
Hie Gletscher und hie
Glut: schmal ist der Geistersteg.
Die Höhenluft ist
gut; ich werde bald gesunden.
Mein Schritt steigt
erdbefreit durch sieben Sternenrunden.
Ich trug ein
Erdgewand; es war nicht fleckenrein.
Im Tau der Mondenflut
wird’s bald geläutert sein.
Geh ich den
Büßerpfad, getreu der Silberspur –
Leiht meinem
Wanderschritt die Flügelschuh Merkur.
Des Weges Müdigkeit
weicht frohem Geisterschwung:
Der Venus Gnade
strahlt und macht den Pilger jung.
Wie Rosen
glutverklärt, wie Lilien kinderrein –
Kehrt durch das
Sonnentor die Menschenseele ein.
Der Sonnen-Engel
winkt: “Empfange Speer und Schild!
Dich ruft zum
Weltenkampf das weite Marsgefild.
Willst Du, ein
Menschengeist, zum Weltengeist erwachen –
Am Glanz des Jupiter
mußt du dein Licht entfachen!”
Der Tod und Leben
eint, Saturn wahrt ew’gen Hort,
Aus Schweigen reift
Geburt: “lm Anfang war das Wort.”
Das Weltenwort
erklingt aus allen Sternengründen,
Die ew’ge
Geistgestalt dem Sterben zu entbinden.
So wächst des
Menschen Geist, am Gotteslicht verklärt,
Bis er im Liebesdrang
zur Erde wiederkehrt.
Er kennt nicht “ew’ge
Ruh” – ihm ziemt das Pilgerkleid,
Dazu zwei
Wanderschuh: zum Schicksalsgang bereit!
A transformação interior
(Ivan Car: artista
croata)
O Peregrino do
Universo
Ao me levarem de vez,
não digam “à eterna morada!”:
coloquem, junto à
mortalha, sapatos de caminhada!
Três dias
descansarei. Depois, seguirei meu destino.
Aqui geleira, ali
brasas: árduo é o caminho ao divino.
O ar das alturas faz
bem; em breve estarei sem mazelas.
Meu passo liberto
ascende por sete cirandas de estrelas.
Veste terrena eu
usava, que não era imaculada;
o orvalho, ao
plenilúnio, já a fará purificada.
Se eu trilhar a
penitência, fiel ao argênteo rastro,
Mercúrio emprestará,
a meus pés, áleos sapatos.
O cansaço do caminho
recua ao rumor divino:
A graça de Vênus
brilha e remoça o peregrino.
Fulgurante como a
rosa, como os lírios inocente,
a alma humana
transpõe o portal do Sol ardente.
O anjo solar acena: “Escudo
e lança maneja!
O campo de Marte
chama-te à universal peleja.
P’ra no Espírito do
Cosmo, humano espírito, acordares,
teu lume no brilho de
Júpiter é preciso inflamares!”
Na morte e na vida
cuida Saturno do abrigo eterno;
silêncio matura o
nascer: “No princípio era o Verbo”.
De estelares
profundezas soa o Verbo Universal
p’ra desenlaçar da
morte a eterna forma espiritual.
Assim o espírito
humano à luz de Deus vem crescer,
até que o impulso do
amor à Terra o reinduza a descer.
“Eterna morada”
ignora quem na veste é peregrino,
com sapatos de
jornada, apto à trilha do destino!
Referências:
Em Alemão
MEYER, Rudolf. Der weltenpilger.
In: BURKHARD, Gudrun. Das leben in die hand nehmen: arbeit an der
eigenen biographie. Vorwort von Dr. Michaela Glöckler. 9. aufl. Stuttgart, DE: Verlag
Freies Geistesleben. 2002. s. 194. (“Praxis Anthroposophie”; b. 17)
Em Português
MEYER, Rudolf. O peregrino do universo. Tradução de Jacira Cardoso. In: BURKHARD, Gudrun. Tomar a vida nas próprias mãos: como trabalhar na própria biografia o conhecimento das leis gerais do desenvolvimento humano. 2. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Antroposófica, 2004. p. 168.
❁

