Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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terça-feira, 6 de janeiro de 2026

Alphonsus de Guimaraens - Epifania

Com um tema bastante afeito à mística e à religiosidade – tão caras ao movimento literário simbolista –, Guimaraens recorre à festa cristã que celebra a visita dos Reis Magos a Jesus para, num tom reverencial, quase litúrgico, oferecer-se espiritualmente em devoção, num ato de adesão à universalidade da fé, simbolizada, a bem dizer, pela presença de tão ilustres visitantes transmontanos.

 

O poeta explora a ideia de uma luz à volta desse evento sagrado, do mistério de humildade encarnada no divino, bem assim do destino sacrificial de Cristo – o Cordeiro de Deus –, elevando a sua voz aos domínios do plano cósmico, pois que, a seu ver, a verdadeira contemplação desse lema revelador transcende em muito as lindes em que se passam os fatos terrenos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alphonsus de Guimaraens

(1870-1921)

 

Epifania

 

A Arduíno Bolívar

 

O menino Jesus, no estábulo distante,

Fita o sol, que o contempla, olímpico de luz.

E ninguém sabe qual tem fulgor mais radiante,

– Se o argênteo olhar do sol, ou se o olhar de Jesus.

 

Cai a tarde. Miriã tomba de joelhos, ante

O divino clarão dos seus pezinhos nus.

E não há por ali zagal que não descante

Em seu louvor: no céu aparece uma cruz.

 

Mais cintilante fulge a áurea Estrela de Efrata.

Vêm outras, e outras mais, todo o céu é de prata,

Anda em tudo o esplendor eterno do Agnus Dei.

 

Vinde, ó Magos! São três os Príncipes do Oriente.

E a Cristo cada um faz, na paz da fé clemente,

A oferenda que, um dia, entre astros, lhe farei!

 

Em: “Setenário das Dores de Nossa Senhora” (1899)

 

A Adoração dos Magos

(Pedro Atanasio Bocanegra: pintor espanhol)

 

Referência:

 

GUIMARAENS, Alphonsus. Epifania. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho et alii. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1997. p. 394. (Biblioteca Luso-brasileira; Série brasileira) 

 

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Adélia Prado - Folhinha

Com aquele seu estilo familiar, a mesclar o místico ao terrenal, a poetisa mineira nos fala de sua persistência no ofício de escritora, bastião que a mantém segura contra as investidas da infelicidade e a lhe permitir seguir na busca de um caminho que lhe faça sentido, estabelecendo conexões como que orgânicas ou naturais com o mundo ao redor.

 

A fé, um tema recorrente na obra de Prado, reflete-se no poema por meio de um contraste entre o grandioso – Deus, ou mesmo a morte – e o modesto – os pormenores quotidianos: o calendário na parede se converte num símbolo dessa espiritualidade doméstica e simples, ao infundir, por meio de seus registros, luzes sobre as veredas mais escuras – luas novas sobre promissores (re)começos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adélia Prado

(n. 1935)

 

Folhinha

 

A morte do escritor

não se quer resolver dentro de mim.

Mas não tenho gosto na infelicidade

e por isso busco meu caminho

como um verme sabe do seu, dentro da terra.

Muitas coisas me valem quando Deus fica estranho

e do que é mínimo, às vezes,

vem o desejado consolo.

Informativo Popular Coração de Jesus

é o nome de um calendário de parede.

Abençoai este lar está escrito nele.

O coração sangra na estampa,

mas o rosto é doce, próprio a enternecer

as mulheres da cozinha, feito eu.

Toquem mal o piano, vou me deliciar

– nada é mesmo perfeito –,

uma gota de mel desce em minha garganta.

No dia 8 de janeiro está escrito na folhinha:

A fé guiou os magos – lua nova amanhã.

Lua nova,

que nome mais bonito pra um consolo.

 

Em: “O coração disparado” (1978)

 

Em frente ao calendário

(Arte digital: autoria desconhecida)

 

Referência:

 

PRADO, Adélia. Folhinha. In: __________. Poesia reunida. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2015. p. 123.

  

domingo, 4 de janeiro de 2026

Garrison Keillor - Janeiro

Este poema de Garrison, entrecruzado por elementos ao mesmo tempo sombrios e edificantes, pode ser lido como uma reflexão do falante sobre a passagem do tempo, os efeitos de sua ceifa inapelável, suavizada pela presença luminosa e inspiradora da pessoa amada, trazendo esperança para o novo ano, num autêntico ato de fé e de disposição resiliente frente ao desconhecido.

 

O poeta contrapõe ao peso da idade e à inevitabilidade da morte os antídotos do amor, da cumplicidade e do desfrute de uma vida plena, apesar das cicatrizes: a “dança” e a “ária” reportados nos derradeiros versos do soneto evocam arte e celebração, no exato momento em que todos desejamos um futuro melhor – a virada do Ano-Novo –, a despeito de que somente em retrospectiva sejamos capazes de compreender o que realmente importa de tudo por que passamos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Garrison Keillor

(n. 1942)

 

January

 

Another year gone and the old man with the scythe

Is mowing closer. He hasn’t been subtle, has he.

Too many good people gone, and I could sit and cry

For them – except that you look exceptionally snazzy

And sexy despite the miles on your odometer,

As if you have a few more aces up your sleeve.

Maybe you were born under a lucky comet or

Maybe it’s just the delirium of New Year’s Eve.

I gaze in your face and take your hand – you’re

Positively glowing. Maybe we’ve been sorry a

Long enough time and now we get some grandeur

And do our dance and sing our aria.

May the New Year bring us before it has flown

All we would have wished for had we only known.

 

Dança no campo

(Pierre-Auguste Renoir: pintor francês)

 

Janeiro

 

Mais um ano se passou e o velho com a foice

Está segando mais perto. Ele não tem sido sutil, pois não?

Muitas pessoas boas se foram, e poderia agora sentar e chorar

Por elas – se não fosse por teu porte excepcionalmente elegante

E sexy, apesar da quilometragem em teu hodômetro,

Como se tivesses alguns trunfos a mais sob a manga.

Talvez tenhas nascido sob os auspícios de um cometa da sorte

Ou quem sabe não se trate de um delírio da noite de Ano-Novo.

Olho para o teu rosto e pego tua mão – estás

Positivamente radiante. Talvez tenhamos estado pesarosos

Por tempo bastante e agora nos alcance alguma grandeza:

Coreografemos nossa dança, cantemos nossa ária.

Que o Ano Novo nos traga, antes que se esvaia,

Tudo o que desejaríamos, se o soubéssemos.

 

Referência:

 

KEILLOR, Garrison. January. In: __________. 77 love sonnets. St. Paul (MN): Common Good Books, 2009. p. 107.

 

sábado, 3 de janeiro de 2026

César Vallejo - Cantiga de Janeiro

Nesta “janeira”, o poeta peruano exibe os seus inequívocos sentimentos ante a proximidade da morte de seu pai, exatamente num momento em que o calendário se abre a um novo ano, já não de absoluto proveito para a figura alquebrada que tem diante de si, deperecida em seu estado anímico e físico, exposta ao inexorável anúncio terminal da véspera.

 

O poema alonga-se pelo tríplice espectro temporal a que estamos submetidos, vale dizer, de indeléveis memórias e experiências, de condicionamentos e modicidades presentes, de esperanças pelo que possa haver de perdurável em cada um de nós na eternidade. Enquanto isso, o ciclo de nascimento, vida e morte se reinicia, trazendo alento por meio de uma rumorosa alvorada de pássaros!

 

J.A.R. – H.C.

 

César Vallejo

(1892-1938)

 

Enereida

 

Mi padre, apenas,

en la mañana pajarina, pone

sus setentiocho años, sus setentiocho

ramos de invierno a solear.

El cementerio de Santiago, untado

en alegre año nuevo, está a la vista.

Cuántas veces sus pasos cortaron hacia él,

y tornaron de algún entierro humilde.

 

Hoy hace mucho tiempo que mi padre no sale!

Una broma de niños se desbanda.

Otras veces le hablaba a mi madre

de impresiones urbanas, de política;

y hoy, apoyado en su bastón ilustre

que sonara mejor en los años de la Gobernación,

mi padre está desconocido, frágil,

mi padre es una víspera.

Lleva, trae, abstraído, reliquias, cosas,

recuerdos, sugerencias.

La mañana apacible le acompaña

con sus alas blancas de hermana de caridad.

 

Día eterno es éste, día ingenuo, infante,

coral, oracional;

se corona el tiempo de palomas,

y el futuro se puebla

de caravanas de inmortales rosas.

Padre, aún sigue todo despertando;

es Enero que canta, es tu amor

que resonando va en la Eternidad.

Aún reirás de tus pequeñuelos,

y habrá bulla triunfal en los Vacíos.

 

Aún será año nuevo. Habrá empanadas;

y yo tendré hambre, cuando toque a misa

en el beato campanario

el buen ciego mélico con quien

departieron mis sílabas escolares y frescas,

mi inocencia rotunda.

Y cuando la mañana llena de gracia,

desde sus senos de tiempo

que son dos renuncias, dos avances de amor

que se tienden y ruegan infinito, eterna vida,

cante, y eche a volar Verbos plurales,

jirones de tu ser,

a la borda de sus alas blancas

de hermana de caridad ¡oh, padre mío!

 

En: “Los heraldos negros” (1918)

 

O pai do artista

(Paul Cézanne: pintor francês)

 

Cantiga de Janeiro

 

Meu pai mal consegue,

na manhã despertada pelos pássaros, pôr

os seus setenta e oito anos, os seus setenta e oito

ramos de inverno, para tomar sol.

O cemitério de Santiago, ungido

em alegre ano novo, está à vista.

Quantas vezes os seus passos levaram-no até lá

e, de algum humilde enterro, trouxeram-no de volta.

 

Faz muito tempo que o meu pai não sai!

Uma anedota infantil não cumpre a que veio.

Outras vezes, põe-se a conversar com a minha mãe

sobre impressões urbanas, sobre política;

e hoje, apoiado em sua ilustre bengala

que soava melhor nos anos de Agente Público,

meu pai está irreconhecível, frágil,

meu pai é uma véspera.

Leva, traz – abstraído – relíquias, coisas,

memórias, sugestões.

A plácida manhã o acompanha

com suas asas brancas de irmã de caridade.

 

Dia eterno é este, dia ingênuo, infante,

coral, oracional;

o tempo coroa-se de pombas,

e o futuro povoa-se

de caravanas de rosas imortais.

Pai, tudo ainda está a despertar;

é Janeiro que canta, é o teu amor

que, ressoando, vai até a Eternidade.

Rirás ainda de teus pequerruchos,

e haverá uma balbúrdia triunfal nos Vazios.

 

Ainda será ano novo. Haverá empanadas;

e eu terei fome quando, no fervoroso campanário,

for anunciada a missa

pelo bom e mélico cego com quem

dialogaram as minhas frescas sílabas de colegial,

a minha rotunda inocência.

E quando a manhã cheia de graça,

a partir de seus seios de tempo,

– duas renúncias, dois avanços de amor

que se estendem e rogam por infinitude, por vida eterna –,

vier a cantar e derramar Verbos plurais pelos ares,

retalhos de teu ser,

à borda de suas asas brancas

de irmã de caridade – oh, meu pai!

 

Em: “Os arautos negros” (1918)

 

Referência:

 

VALLEJO, César. Enereida. In: __________. Poesía completa. Edición crítica y exegética al cuidado de Juan Larrea, con la asistencia de Felipe Daniel Obarrio. 1. ed. Barcelona, ES: Barral Editores, abr. 1978. p. 356-357.