Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Aníbal Machado - Iniciativas

Como se fosse um manifesto sobre a criação, no qual os atos da espécie se transformam numa série de comandos carregados de metáforas e de simbolismos, cada linha deste poema convida o leitor a romper com as convenções e a deixar a imaginação moldar a realidade, numa sucessão liberatória de elementos contingentes e efêmeros por meio dos quais a beleza comumente se manifesta.

 

A teor da ideia heraclitiana do primado da permanência da mudança, tem-se uma visão de mundo calcada na maleabilidade e na suscetibilidade à reinvenção, quer os sobreditos elementos sejam orgânicos quer socialmente construídos, ou seja, quer naturais quer culturais – e agora já não mais como mera imitação da realidade, pois que reinterpretados e reconstruídos, passando a dispor de força bastante para pautar a identidade coletiva, as aspirações e o futuro de toda gente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Aníbal Machado

(1894-1964)

 

Iniciativas

 

Faça o que lhe digo. Solte primeiro uma borboleta.

Se não amanhecer depressa, solte outras de cores

diferentes.

De vez em quando, faça partir um barco. Veja aonde

vai. Se for difícil, suprima o mar e lance uma planície.

Mande um esboço de rochedo, o resto de uma floresta.

Jogue as iniciais do lenço. Faça descer algumas ilhas.

Mande a fotografia do lugar, com as curvas capitais

e as cópias dos seios.

Atire um planisfério. Um zodíaco. Uma fachada de igreja.

E os livros fundamentais.

Sirva-se do vento, se achar difícil.

Eles estão perdidos. Mas nem tudo o que fizeram

está perdido.

Separe o que possa ser aproveitado e mande. Sobretudo,

as formas em que o sonho de alguns se cristalizou.

Remeta a relação dos encontros, se possível. E o horário

dos ventos.

Mande uma manhã de sol, na íntegra.

Faça subir a caixa de música com o barulho dos canaviais

e o apito da locomotiva.

Veja se consegue o mapa dos caminhos.

Mande o resumo dos melhores momentos.

As amostras de outra raça.

Com urgência, o projeto de uma nova cidade.

 

A partida do navio alado

(Vladimir Kush: artista russo)

 

Referência:

 

MACHADO, Aníbal. Iniciativas. In: __________. Cadernos de João. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2002. p. 177.

terça-feira, 21 de abril de 2026

Vladimir Nabokov - O Poema

O escritor russo nos apresenta uma reflexão metapoética, não tanto a falar de paisagens ou de sentimentos concretos, mas da essência mesma do ato poético, isto é, do que diferencia a verdadeira criação daquilo que é mero efeito ornamental de forma ou de fundo, mas que, por prescindir de atributos de maior relevo, não logra inflamar a chispa interior – somente despertada sob a tensão de emoções autênticas.

 

O poema, a seu ver, há de resultar povoado por elementos linguísticos e imagéticos advindos de uma inspiração indômita e misteriosa, somente fomentada quando o poeta está disposto a se perder na incerteza e deixar que as palavras se movam instintivamente com autonomia, ao encalço de multifacetados sentidos e padrões.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vladimir Nabokov

(1899-1977)

 

The Poem

 

Not the sunset poem you make when

you think aloud,

with its linden tree in India ink

and the telegraph wires across its pink cloud;

 

not the mirror in you and her delicate bare

shoulder still glimmering there;

not the lyrical click of a pocket rhyme –

the tiny music that tells the time;

 

and not the pennies and weights on those

evening papers piled up in the rain;

not the cacodemons of carnal pain;

not the things you can say so much better

in plain prose –

 

but the poem that hurtles from heights unknown

– when you wait for the splash of the stone

deep below, and grope for your pen,

and then comes the shiver, and then –

 

in the tangle of sounds, the leopards of words,

the leaflike insects, the eye-spotted birds

fuse and form a silent, intense,

mimetic pattern of perfect sense.

 

Jovem à mesa em seu ofício

(Christian van Donck: pintor holandês)

 

O Poema

 

Não o poema do ocaso que se compõe pensando

em voz alta,

com sua tília esboçada em tinta-da-china

e nuvens rosáceas atravessadas por cabos telegráficos;

 

não o espelho que em ti habita e os nus e delicados

ombros da amada que ainda ali cintilam;

não o lírico tilintar de uma rima de bolso –

a breve melodia a marcar o compasso do tempo;

 

e não os trocados e os pesos em cima daqueles

jornais vespertinos empilhados sob a chuva;

também não os cacodemônios da dor carnal,

tampouco as coisas que se podem dizer muito melhor

em prosa simples –

 

mas o poema que se precipita de inauditas alturas

– e se fica à espera pelo salpico da pedra nas águas

lá no fundo, e se tateia à procura da caneta,

quando então sobrevém um frêmito, e sem delonga –

 

num emaranhado de sons, os insetos foliformes,

os pássaros ocelados e os leopardos das palavras,

se fundem para formar um padrão silencioso,

intenso e mimético de perfeito sentido.

 

Referência:

 

NABOKOV, Vladimir. The poem. In: __________. Selected poems. Edited by Thomas Karshan; new translations by Dmitri Nabokov. 1st ed. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2012. p. 160.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Eduardo Galeano - Paradoxos

Galeano, escritor e jornalista uruguaio, mostra-nos como pessoas e eventos desafiam, com alguma frequência, as expectativas e as definições convencionais que se lhes atribuem, configurando paradoxos que não são apenas curiosidades históricas, mas que dizem muito em relação às contradições inerentes à política, à religião, ao comportamento humano e, até mesmo, à arte e cultura popular.

 

Num tom irônico e crítico, o autor parece zombar dos que acreditam poder compreender ou controlar o fluxo das circunstâncias, tanto mais que questões como identidade, ideologia e a crônica dos fatos estão longe de ser lineares ou lógicas, pois que continuamente sob a percussão do tilintar complexo da realidade, sempre a nos exigir olhos lúcidos para discernir, com clareza, os meios-tons existentes entre os polos de todos os enfoques que se pretendem binários.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Galeano

(1940-2015)

 

Paradoxos

 

Se a contradição for o pulmão da história, o paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história usa para debochar de nós.

Nem o próprio filho de Deus salvou-se do paradoxo. Ele escolheu, para nascer, um deserto subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. E para mais inri, o nascimento de Jesus é, hoje em dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do templo.

Napoleão Bonaparte, o mais francês dos franceses, não era francês. Não era russo Josef Stálin, o mais russo dos russos; e o mais alemão dos alemães, Adolf Hitler, tinha nascido na Áustria. Margherita Sarfatti, a mulher mais amada pelo antissemita Mussolini, era judia. José Carlos Mariátegui, o mais marxista dos marxistas latino-americanos, acreditava fervorosamente em Deus. O Che Guevara tinha sido declarado completamente incapaz para a vida militar pelo exército argentino.

Das mãos de um escultor chamado Aleijadinho, que era o mais feio dos brasileiros, nasceram as mais altas formosuras do Brasil. Os negros norte-americanos, os mais oprimidos, criaram o jazz, que é a mais livre das músicas. No fundo de um cárcere foi concebido o Dom Quixote, o mais andante dos cavaleiros. E cúmulo dos paradoxos, Dom Quixote nunca disse sua frase mais célebre. Nunca disse: Ladram, Sancho, sinal que cavalgamos.

“Acho que você está meio nervosa”, diz o histérico. “Te odeio”, diz a apaixonada. “Não haverá desvalorização”, diz, na véspera da desvalorização, o ministro da Economia. “Os militares respeitam a Constituição”, diz, na véspera do golpe de Estado, o ministro da Defesa.

Em sua guerra contra a revolução sandinista, o governo dos Estados Unidos coincidia, paradoxalmente, com o Partido Comunista da Nicarágua. E paradoxais foram, enfim, as barricadas sandinistas durante a ditadura de Somoza: as barricadas, que fechavam as ruas, abriam o caminho.

 

Sr. Paradoxo

(Loui Jover: artista servo-australiano)

 

Referência:

 

GALEANO, Eduardo. Paradoxos. Tradução de Eric Nepomuceno. In: __________. O livro dos abraços. Tradução de Eric Nepomuceno. 1. ed. L&PM Pocket, 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, jan. 2023. p. 126-127. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 465)

domingo, 19 de abril de 2026

Richard Howard - Como a Maioria das Revelações

As ideias deste poema associam-se diretamente às obras do norte-americano Morris Louis Bernstein (1912-1962), um dos primeiros expoentes do movimento “Color Field Painting”, reputado pelas técnicas ousadas de veladuras fluidas de tinta, aplicadas de tal modo que os derramamentos dos pigmentos se convertiam no elemento definidor da forma de suas telas.

 

Sob tal perspectiva, os versos dialogam com a tendência em apreço, na medida em que outorgam destaque à ação por meio da repetição da expressão “é o movimento que” (promove a gênese da forma, incitando-a, moldando-a, delongando-a, estando sempre ao seu alcance), como que para enfatizar que nada é estático na criação, uma vez que esta pressupõe, fundamentalmente, mutação constante a se processar mediante antagonismos de forças invisíveis e quase caóticas – ora de composição, ora de decomposição –, dando ensejo a outras tantas formas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Richard Howard

(1929-2022)

 

Like Most Revelations

 

(after Morris Louis)

 

It is the movement that incites the form,

discovered as a downward rapture – yes,

it is the movement that delights the form,

sustained by its own velocity. And yet

 

it is the movement that delays the form

while darkness slows and encumbers; in fact

it is the movement that betrays the form,

baffled in such toils of ease, until

 

it is the movement that deceives the form,

beguiling our attention – we supposed

it is the movement that achieves the form.

Were we mistaken? What does it matter if

 

it is the movement that negates the form?

Even though we give (give up) ourselves

to this mortal process of continuing,

it is the movement that creates the form.

 

Sarabanda

(Morris Louis: pintor norte-americano)

 

Como a Maioria das Revelações

 

(inspirado em Morris Louis)

 

É o movimento que incita a forma,

a revelar-se num arroubo descendente – sim,

é o movimento que leva a forma à fruição,

sustentada em sua própria velocidade. E, contudo,

 

é o movimento que retarda a forma,

enquanto a escuridão o abranda e estorva;

de fato, é o movimento que atraiçoa a forma,

enredando-a em tais tramas de facilidade,

 

a ponto de convertê-la em algo enganoso,

capaz de nos ludibriar o olhar – quando julgávamos

que fosse apenas o movimento a alcançá-la.

Incorríamos em erro? Qual a relevância em ser

 

o movimento um constituinte negador da forma?

Ainda que nos entreguemos (ou nos rendamos)

a esse processo mortal de continuidade,

seja como for, do movimento é que nasce a forma.

 

Referência:

 

HOWARD, Richard. Like most revelations. In: PINSKI, Robert; LEHMAN, David (Eds.). The best of the best american poetry. 25th anniversary edition. 1st Scribner edition. New York, NY: Scribner Poetry, apr. 2013. p. 119.

sábado, 18 de abril de 2026

Paul Celan - Ouvi dizer

Forjada nestes breves versos, Celan apresenta-nos uma enigmática tapeçaria na qual a linguagem, como se fosse uma ponte sobre o abismo, torna-se veículo de memórias, de perdas e de transformações, por intermédio das quais intenta-se reintegrar as ruínas de um mundo fragmentário, assim dizendo, os sentidos que permitam vislumbrar, deveras, alguma sorte de redenção simbólica.

 

Pedra, círculo e palavra, enquanto insígnias, respectivamente, do resistente à mudança, da totalidade e de sua recorrência e do princípio mediador da existência, conformam um ritual no qual matéria, forma e significado entrelaçam-se numa tentativa de capturar a essência mesma da realidade, empreendimento esse que, com alguma frequência, resulta incompleto, haja vista que, nos recessos da linguagem, sempre nos escapa algo que se desmembrou nas circunvoluções da história e da dor, deixando para trás um rastro de conotações não apreendidas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Celan
(1920-1970)

 

Ich hörte sagen

 

Ich hörte sagen, es sei

im Wasser ein Stein und ein Kreis

und über dem Wasser ein Wort,

das den Kreis um den Stein legt.

 

Ich sah meine Pappel hinabgehn zum Wasser,

ich sah, wie ihr Arm hinuntergriff in die Tiefe,

ich sah ihre Wurzeln gen Himmel um Nacht flehn.

 

Ich eilt ihr nicht nach,

ich las nur vom Boden auf jene Krume,

die deines Auges Gestalt hat und Adel,

ich nahm dir die Kette der Sprüche vom Hals

und säumte mit ihr den Tisch, wo die Krume nun lag.

 

Und sah meine Pappel nicht mehr.

 

Aus: “Von schwelle zu schwelle” (1955)

 

Lago e árvores mortas

(Thomas Cole: pintor anglo-americano)

 

Ouvi dizer

 

Ouvi dizer que há

na água uma pedra e um círculo

e sobre a água uma palavra

que estende o círculo em torno da pedra.

 

Vi meu choupo descer para a água,

vi como o seu braço agarrou as profundezas,

vi suas raízes implorarem a noite aos céus.

 

Não o segui,

somente colhi do chão aquela migalha

que tem a forma de teu olho e a nobreza,

tirei de teu pescoço o colar de sentenças

e com ele adornei a mesa, onde já estava a migalha.

 

Não voltei a ver meu choupo.

 

Em: “De limiar a limiar” (1955)

 

Referência:

 

CELAN, Paul. Ich hörte sagen / Ouvi dizer. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal. Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue: alemão x português. 1. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 46; em português: p. 47.