O autor carioca dedica o seu poema ao poeta amazonense Thiago de Mello (1926-2022)
– bastante conhecido por seu ativismo ambiental e social –, estruturando-o em
duas seções bem demarcadas, a primeira a apresentar o ser humano imerso num
ecossistema em ruínas, espelho agônico do colapso do mundo natural, enquanto a
segunda, mais esperançosa, abre-se a uma possível redenção através da poesia e
da tomada de consciência.
Entre um grito de alerta
e um canto de esperança, os versos fluem numa relação de paralelismo absoluto
entre a floresta e o homem, dependentes um do outro como se fossem entidades
simbióticas, a enfatizarem as perdas irreparáveis nos elementos vitais do bioma
amazônico, promovidas pelo incessante processo de devastação que lhe é imposto,
muitas das vezes inconsequente.
A mensagem final do
poema firma-se na ideia de resiliência, de fé na vida e no poder transformador
da poesia: mesmo quando a floresta exterior se desarboriza, a “floresta
interior” – a capacidade de sentir, criar e amar – permanece intacta como um
último e indestrutível tesouro no coração humano, uma flor que não se deixa arrastar
pelas lâminas argentárias dos buldôzeres.
J.A.R. – H.C.
Paulo George M. de
Souza
(n. 1956)
A Thiago de Mello
Estão devastando o
homem.
Não há mais sol na
floresta
não há mais luz no
homem.
Não há mais vento na floresta
não há mais canto no
homem.
Não há mais árvore na
floresta
não há mais certeza
no homem.
Com você aprendo a
festa de ser homem,
a floresta imensa de
ser poeta.
Aprendo que a flor
resta na floresta
fechada no peito do
homem.
Thiago de Mello
Ilustração de autoria
desconhecida
Referência:
GEORGE, Paulo. A
Thiago de Mello. In: __________. Calendário di-versos. São Paulo, SP:
Futurama Editora, 2023. p. 44.
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