O poeta se vê com
honestidade e autoironia, utilizando o fracasso e a falta como materiais para
construir a sua singular identidade poética: ao expor suas próprias limitações
com tanta crueza e lucidez, quiçá impremeditadamente, universaliza-se, pois que
se converte num espelho da condição humana, sempre contraditória em seus
desejos – muitas vezes incumpridos.
Sendo o poeta um
homem vocacionado à palavra, resta-lhe a linguagem para esquadrinhar
despojadamente, embora de modo preciso, os seus próprios paradoxos, falhanços, a
sua falta de sofisticação, a sua distância em relação aos centros culturais
hegemônicos, nomeando-os como atributos de sua personalidade pacífica,
introspectiva, presa a um corpo mórbido que teima em ser amante da arte, a
despeito de – a seu ver – mostrar-se inábil ou incompleto para bem expressá-la.
De resto, vê-se
Bandeira como um ser desprotegido, sem teto, a céu aberto, privado de todas as
certezas que, tradicionalmente, tutelam-nos do frio da dúvida existencial, como
se náufrago fosse a flutuar num mar de espaventos, sem jangada – uma religião –
ou bússola – uma filosofia de vida – a lhe indicarem um rumo, até mesmo sem vínculos
sociais que lhe façam as vezes de uma família.
J.A.R. – H.C.
Manuel Bandeira
(1886-1968)
Autorretrato
Provinciano que nunca
soube
Escolher bem uma
gravata;
Pernambucano a quem
repugna
A faca do
pernambucano;
Poeta ruim que na arte
da prosa
Envelheceu na
infância da arte,
E até mesmo
escrevendo crônicas
Ficou cronista de
província;
Arquiteto falhado,
músico
Falhado (engoliu um
dia
Um piano, mas o
teclado
Ficou de fora); sem
família,
Religião ou
filosofia;
Mal tendo a inquietação
de espírito
Que vem do
sobrenatural,
E em matéria de
profissão
Um tísico
profissional.
Em: “Mafuá do
Malungo” (1948)
Retrato do Poeta
(Cândido Portinari:
artista paulista)
Referência:
BANDEIRA, Manuel.
Autorretrato. In: __________. Bandeira de bolso. Organização e
apresentação de Mara Jardim. 1. ed., 1. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM,
2013. p. 149. (L&PM Pocket; v. 675)
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