Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 2 de agosto de 2026

Derek Walcott - A Estação da Paz Fantasmagórica

Walcott tece uma visão onírica de um instante suspenso no tempo, entre o ocaso e a noite, circunstanciado por uma paz efêmera, fantasmagórica, a emergir do voo coletivo das aves – legítimas representantes da liberdade e do êxtase natural –, empregando-o como uma metáfora da harmonia e da graça que pode haver todos os seres – os pássaros e os homens aí inclusos.

 

Esse momento transitório revela-se carregado de eternidade, transpassando estações e diferenças, comos se fosse um breve parêntese a abrir a porta ao sagrado no intercurso silencioso entre o visível e o invisível, quando então a natureza se nos apresenta como mediadora de um “Amor” reparador, oferecendo-nos lenitivos para superar os agravos de nossas misérias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Derek Walcott

(1930-2017)

 

The Season of Phantasmal Peace

 

Then all the nations of birds lifted together

the huge net of the shadows of this earth

in multitudinous dialects, twittering tongues,

stitching and crossing it. They lifted up

the shadows of long pines down trackless slopes,

the shadows of glass-faced towers down evening streets,

the shadow of a frail plant on a city sill –

the net rising soundless as night, the birds’ cries soundless, until

there was no longer dusk, or season, decline, or weather,

only this passage of phantasmal light

that not the narrowest shadow dared to sever.

And men could not see, looking up, what the wild geese drew,

what the ospreys trailed behind them in silvery ropes

that flashed in the icy sunlight; they could not hear

battalions of starlings waging peaceful cries,

bearing the net higher, covering this world

like the vines of an orchard, or a mother drawing

the trembling gauze over the trembling eyes

of a child fluttering to sleep;

it was the light

that you will see at evening on the side of a hill

in yellow October, and no one hearing knew

what change had brought into the raven’s cawing,

the killdeer’s screech, the ember-circling chough

such an immense, soundless, and high concern

for the fields and cities where the birds belong,

except it was their seasonal passing, Love,

made seasonless, or, from the high privilege of their birth,

something brighter than pity far the wingless ones

below them who shared dark holes in windows and in houses,

and higher they lifted the net with soundless voices

above all change, betrayals of falling suns,

and this season lasted one moment, like the pause

between dusk and darkness, between fury and peace,

but, for such as our earth is now, it lasted long.

 

In: “The Fortunate Traveller” (1981)

 

Através de pássaros, através do fogo,

mas não através do vidro

(Yves Tanguy: pintor francês)

 

A Estação da Paz Fantasmagórica

 

Entrementes, linhagens de aves, todas juntas,

ergueram a enorme rede de sombras desta Terra,

em multitudinários dialetos, línguas chilreantes,

cosendo-a e entrelaçando-a. Ergueram

as sombras dos longos pinheiros nas encostas sem trilhas,

as sombras de torres envidraçadas ao cair da tarde,

a sombra de uma planta frágil no peitoril de uma janela da cidade –

a rede a se erguer silenciosa como a noite, inaudível o galreio das aves,

até que não houvesse mais crepúsculo, estação, ocaso ou intempérie,

somente esta passagem de luz fantasmagórica

que nem mesmo a mais tênue sombra teve a ousadia de romper.

E os homens, olhando para cima, não podiam ver o que

os gansos selvagens puxavam,

o que as águias-pesqueiras arrastavam atrás de si em cordas prateadas

que reluziam à gélida luz solar; não podiam ouvir

os batalhões de estorninhos a soltar gritos pacíficos,

erguendo mais alto a rede, cobrindo este mundo

como as videiras de um pomar, ou uma mãe a passar

a gaze trêmula sobre os trêmulos olhos

de uma criança que está prestes a dormir;

 era a luz

que se vê ao entardecer na encosta de uma colina

no amarelado outubro, e ninguém, à escuta, saberia dizer

qual mudança havia se infundido no grasnar do corvo,

no guincho do maçarico-real, na gralha ao redor das brasas,

uma tão vasta, insondável e acentuada inquietude

pelos campos e cidades onde as aves se sentem à vontade

– a não ser pelo fato, Amor, de que era a sua passagem sazonal,

sob a feição de uma estação acrônica, ou, pelo alto privilégio

do seu nascimento,

algo mais refulgente do que a piedade pelos desprovidos de asas que,

sob elas, partilham tocas escuras em janelas e casas –,

levando-as a erguer mais alto a rede com vozes inaudíveis

acima de toda mudança, traições de sóis cadentes;

e essa estação durou um momento, como a pausa

entre o crepúsculo e a escuridão, entre a fúria e a paz,

mas, para o que a nossa Terra é agora, longa foi a sua duração.

 

Em: “O Viajante Afortunado” (1981)

 

Referência:

 

WALCOTT, Derek. The season of phantasmal peace. In: __________. Collected poems: 1948-1984. 1st publ. London, EN: Faber and Faber, 1992. p. 464-465.

sábado, 1 de agosto de 2026

Yehuda Amihai - O Diâmetro da Bomba

Amihai emprega a metáfora geométrica dos círculos concêntricos para demonstrar o contrário do que sugere a avalição inicial acerca das consequências da explosão de uma bomba: o verdadeiro raio de seus efeitos é infinito, não apenas matar e ferir corpos, senão lesionar o tecido mesmo da humanidade, estendendo-se no espaço – desde o seu epicentro até pontos geográficos os mais distantes – e na consciência – desde o plano físico até o espiritual.

 

Não há “ataques cirúrgicos”, como se costuma dizer nas pretensas investidas com objetivos definidos, pois que tal orientação extrapola a própria lógica das conflagrações modernas, cuja eficácia é mensurada exatamente pelo número de baixas que é capaz de desencadear. Como corolário, a dor daí derivada, desconhecendo quaisquer contornos geopolíticos, amplifica-se numa ferida cósmica que não pode ser contida, remediada ou inclusive apreendida por nenhuma força superior.

 

J.A.R. – H.C.

 

Yehuda Amihai

(1924-2000)

 

O Diâmetro da Bomba

 

Trinta centímetros era o diâmetro da bomba

cujo raio efetivo de ação

– cerca de sete metros –

continha quatro mortos e onze feridos.

E ao seu redor, aqui e ali, num círculo

mais amplo de dor e tempo,

há dois hospitais e um cemitério.

Mas a jovem enterrada em seu

lugar de origem

a mais de cem quilômetros de distância

amplia consideravelmente o círculo.

E o homem solitário que, num canto remoto

de um país do além-mar, chora-lhe a morte

inclui no círculo o mundo inteiro.

Não vou sequer falar do pranto dos órfãos

que alcança o trono de Deus

e o ultrapassa, criando

um círculo sem fim nem Deus.

 

O caos se desenreda

(Grey Anatoli Cross: artista norte-americano)

 

Referência:

 

AMIHAI, Yehuda. O diâmetro da bomba. In: ASCHER, Nelson (Tradução e Organização). Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. p. 356. (Coleção “Lazuli”)