Walcott tece uma
visão onírica de um instante suspenso no tempo, entre o ocaso e a noite,
circunstanciado por uma paz efêmera, fantasmagórica, a emergir do voo coletivo
das aves – legítimas representantes da liberdade e do êxtase natural –, empregando-o
como uma metáfora da harmonia e da graça que pode haver todos os seres – os
pássaros e os homens aí inclusos.
Esse momento
transitório revela-se carregado de eternidade, transpassando estações e diferenças,
comos se fosse um breve parêntese a abrir a porta ao sagrado no intercurso
silencioso entre o visível e o invisível, quando então a natureza se nos
apresenta como mediadora de um “Amor” reparador, oferecendo-nos lenitivos para
superar os agravos de nossas misérias.
J.A.R. – H.C.
Derek Walcott
(1930-2017)
The Season of
Phantasmal Peace
Then all the nations
of birds lifted together
the huge net of the
shadows of this earth
in multitudinous
dialects, twittering tongues,
stitching and
crossing it. They lifted up
the shadows of long
pines down trackless slopes,
the shadows of
glass-faced towers down evening streets,
the shadow of a frail
plant on a city sill –
the net rising
soundless as night, the birds’ cries soundless, until
there was no longer
dusk, or season, decline, or weather,
only this passage of
phantasmal light
that not the
narrowest shadow dared to sever.
And men could not
see, looking up, what the wild geese drew,
what the ospreys
trailed behind them in silvery ropes
that flashed in the
icy sunlight; they could not hear
battalions of
starlings waging peaceful cries,
bearing the net
higher, covering this world
like the vines of an
orchard, or a mother drawing
the trembling gauze
over the trembling eyes
of a child fluttering
to sleep;
it was the light
that you will see at
evening on the side of a hill
in yellow October,
and no one hearing knew
what change had
brought into the raven’s cawing,
the killdeer’s screech,
the ember-circling chough
such an immense,
soundless, and high concern
for the fields and
cities where the birds belong,
except it was their
seasonal passing, Love,
made seasonless, or,
from the high privilege of their birth,
something brighter
than pity far the wingless ones
below them who shared
dark holes in windows and in houses,
and higher they
lifted the net with soundless voices
above all change,
betrayals of falling suns,
and this season
lasted one moment, like the pause
between dusk and
darkness, between fury and peace,
but, for such as our
earth is now, it lasted long.
In: “The Fortunate
Traveller” (1981)
Através de pássaros,
através do fogo,
mas não através do
vidro
(Yves Tanguy: pintor
francês)
A Estação da Paz Fantasmagórica
Entrementes, linhagens
de aves, todas juntas,
ergueram a enorme rede
de sombras desta Terra,
em multitudinários
dialetos, línguas chilreantes,
cosendo-a e
entrelaçando-a. Ergueram
as sombras dos longos
pinheiros nas encostas sem trilhas,
as sombras de torres
envidraçadas ao cair da tarde,
a sombra de uma
planta frágil no peitoril de uma janela da cidade –
a rede a se erguer
silenciosa como a noite, inaudível o galreio das aves,
até que não houvesse
mais crepúsculo, estação, ocaso ou intempérie,
somente esta passagem
de luz fantasmagórica
que nem mesmo a mais tênue
sombra teve a ousadia de romper.
E os homens, olhando
para cima, não podiam ver o que
os gansos selvagens
puxavam,
o que as águias-pesqueiras
arrastavam atrás de si em cordas prateadas
que reluziam à gélida
luz solar; não podiam ouvir
os batalhões de
estorninhos a soltar gritos pacíficos,
erguendo mais alto a
rede, cobrindo este mundo
como as videiras de
um pomar, ou uma mãe a passar
a gaze trêmula sobre
os trêmulos olhos
de uma criança que
está prestes a dormir;
era a luz
que se vê ao
entardecer na encosta de uma colina
no amarelado outubro,
e ninguém, à escuta, saberia dizer
qual mudança havia se
infundido no grasnar do corvo,
no guincho do
maçarico-real, na gralha ao redor das brasas,
uma tão vasta, insondável
e acentuada inquietude
pelos campos e
cidades onde as aves se sentem à vontade
– a não ser pelo fato,
Amor, de que era a sua passagem sazonal,
sob a feição de uma
estação acrônica, ou, pelo alto privilégio
do seu nascimento,
algo mais refulgente
do que a piedade pelos desprovidos de asas que,
sob elas, partilham
tocas escuras em janelas e casas –,
levando-as a erguer
mais alto a rede com vozes inaudíveis
acima de toda
mudança, traições de sóis cadentes;
e essa estação durou
um momento, como a pausa
entre o crepúsculo e
a escuridão, entre a fúria e a paz,
mas, para o que a
nossa Terra é agora, longa foi a sua duração.
Em: “O Viajante
Afortunado” (1981)
Referência:
WALCOTT, Derek. The season of phantasmal peace. In: __________. Collected poems: 1948-1984. 1st publ. London, EN: Faber and Faber, 1992. p. 464-465.
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