Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

Johann Wolfgang von Goethe - Curto e grosso

Inserto na seção “Livro do Cantor” (“Moganni Nameh”) da obra em referência, este manifesto poético em miniatura é a voz de um gênio seguro de si mesmo, celebrando a torrente criativa que o define, uma força poderosa, livre, leda e poderosa, a ser defendida contra toda forma de opressão moral ou intelectual, uma vez que oposta à fria razão, às restrições religiosas e mesmo às abstrações de ordem filosófica.

 

Esse anticonformismo artístico vai a par com os valores supremos da autenticidade dos sentimentos e das expressões que lhes dizem respeito, e, uma vez que denota uma potência natural e sincera, não deve, como se disse, ser obstaculizado por normas sociais.

 

Veja-se o tom provocativo do título, atribuído por Goethe ao poema: decerto espelha a convicção de que aqueles que possam, de início, escandalizar-se com as suas obras, haverão de, ao fim e ao cabo, nelas apreender e reconhecer a força e a paixão inerentes à sua arte, nada convencional ou carente de substância – e imodesta, diga-se de passagem.

 

J.A.R. – H.C.

 

J. W. Goethe

(1749-1832)

(Retrato do escritor

por Johann Heinrich Lips)

 

Derb und tüchtig

 

Dichten ist ein übermut,

Niemand schelte mich!

Habt getrost ein warmes Blut

Froh und frei wie ich.

 

Sollte jeder Stunde Pein

Bitter schmecken mir,

Würd ich auch bescheiden sein

Und noch mehr als ihr.

 

Denn Bescheidenheit ist fein,

Wenn das Mädchen blüht,

Sie will zart geworben sein,

Die den Rohen flieht.

 

Auch ist gut Bescheidenheit,

Spricht ein weiser Mann,

Der von Zeit und Ewigkeit

Mich belehren kann.

 

Dichten ist ein übermut!

Treib es gern allein.

Freund’ und Frauen, frisch von Blut,

Kommt nur auch herein!

 

Mönchlein ohne Kapp und Kutt,

Schwatz nicht auf mich ein!

Zwar du machest mich kaputt,

Nicht bescheiden, nein!

 

Deiner Phrasen leeres Was

Treibet mich davon,

Abgeschliffen hab ich das

An den Sohlen schon.

 

Wenn des Dichters Mühle geht,

Halte sie nicht ein:

Denn wer einmal uns versteht,

Wird uns auch verzeihn.

 

A imaginação poética

(Maria Esmar: artista romena)

 

Curto e grosso

 

Poesia é petulância,

ninguém me reprima!

Sangue quente e confiança

leva todos para cima.

 

Se a dor de toda hora

amarga me souber,

eu seria modesto, ora,

e maior do que eu puder.

 

Pois o bom é ser contido

quando a moça enflora,

ela quer um bom partido:

que o bruto vá embora.

 

Modéstia é bom também,

diz um homem sábio,

que do tempo e do além

faz-me muito hábil.

 

Poesia é petulância!

Faço bem sozinho.

Amigo, amada, sangue e ânsia,

entrem, rapidinho!

 

Monge sem manto e capuz,

não me amoles, não!

Por ti cansado me pus,

mas modesto? Não!

 

Do vazio das tuas frases

fujo apressado,

já gastei as tuas crases

bem no meu solado.

 

Gira o poeta a sua moenda,

nunca vai parar.

Pois quem quer que nos entenda

vai nos perdoar.

 

Referência:

 

GOETHE, Johann Wolfgang von. Derb und tüchtig / Curto e grosso. Tradução de Daniel Martineschen. In: __________. Divã ocidento-oriental. Tradução e posfácio de Daniel Martineschen. 1. ed. São Paulo, SP: Estação Liberdade, 2020. Em alemão: p. 38 e 40; em português: p. 39 e 41.

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