Inserto na seção
“Livro do Cantor” (“Moganni Nameh”) da obra em referência, este manifesto
poético em miniatura é a voz de um gênio seguro de si mesmo, celebrando a torrente
criativa que o define, uma força poderosa, livre, leda e poderosa, a ser defendida
contra toda forma de opressão moral ou intelectual, uma vez que oposta à fria
razão, às restrições religiosas e mesmo às abstrações de ordem filosófica.
Esse anticonformismo
artístico vai a par com os valores supremos da autenticidade dos sentimentos e
das expressões que lhes dizem respeito, e, uma vez que denota uma potência
natural e sincera, não deve, como se disse, ser obstaculizado por normas
sociais.
Veja-se o tom
provocativo do título, atribuído por Goethe ao poema: decerto espelha a convicção
de que aqueles que possam, de início, escandalizar-se com as suas obras,
haverão de, ao fim e ao cabo, nelas apreender e reconhecer a força e a paixão inerentes
à sua arte, nada convencional ou carente de substância – e imodesta, diga-se de
passagem.
J.A.R. – H.C.
J. W. Goethe
(1749-1832)
(Retrato do escritor
por Johann Heinrich
Lips)
Derb und tüchtig
Dichten ist ein
übermut,
Niemand schelte mich!
Habt getrost ein
warmes Blut
Froh und frei wie
ich.
Sollte jeder Stunde
Pein
Bitter schmecken mir,
Würd ich auch
bescheiden sein
Und noch mehr als
ihr.
Denn Bescheidenheit
ist fein,
Wenn das Mädchen
blüht,
Sie will zart
geworben sein,
Die den Rohen flieht.
Auch ist gut
Bescheidenheit,
Spricht ein weiser
Mann,
Der von Zeit und
Ewigkeit
Mich belehren kann.
Dichten ist ein
übermut!
Treib es gern allein.
Freund’ und Frauen,
frisch von Blut,
Kommt nur auch herein!
Mönchlein ohne Kapp
und Kutt,
Schwatz nicht auf
mich ein!
Zwar du machest mich
kaputt,
Nicht bescheiden,
nein!
Deiner Phrasen leeres
Was
Treibet mich davon,
Abgeschliffen hab ich
das
An den Sohlen schon.
Wenn des Dichters
Mühle geht,
Halte sie nicht ein:
Denn wer einmal uns
versteht,
Wird uns auch
verzeihn.
A imaginação poética
(Maria Esmar: artista
romena)
Poesia é petulância,
ninguém me reprima!
Sangue quente e
confiança
leva todos para cima.
Se a dor de toda hora
amarga me souber,
eu seria modesto,
ora,
e maior do que eu
puder.
Pois o bom é ser
contido
quando a moça
enflora,
ela quer um bom
partido:
que o bruto vá
embora.
Modéstia é bom
também,
diz um homem sábio,
que do tempo e do
além
faz-me muito hábil.
Poesia é petulância!
Faço bem sozinho.
Amigo, amada, sangue
e ânsia,
entrem, rapidinho!
Monge sem manto e
capuz,
não me amoles, não!
Por ti cansado me
pus,
mas modesto? Não!
Do vazio das tuas
frases
fujo apressado,
já gastei as tuas
crases
bem no meu solado.
Gira o poeta a sua
moenda,
nunca vai parar.
Pois quem quer que
nos entenda
vai nos perdoar.
Referência:
GOETHE, Johann Wolfgang von. Derb und tüchtig / Curto e grosso. Tradução de Daniel Martineschen. In: __________. Divã ocidento-oriental. Tradução e posfácio de Daniel Martineschen. 1. ed. São Paulo, SP: Estação Liberdade, 2020. Em alemão: p. 38 e 40; em português: p. 39 e 41.
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