Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 9 de julho de 2026

William Carlos Williams - A um Cão Ferido na Rua

Williams não se esquiva ao mister de tocar a face do horror que sentimos diante do sofrimento alheio – animal ou humano –, tampouco a desnudar a sombra da crueldade que habita em cada um de nós: ao explorar a complexa relação entre dor, memória e impotência, o poeta, numa tentativa de “corrigir todos os males”, busca afirmar o poder da arte – digo melhor, da poesia – para levar a humanidade a suplantar a sua própria natureza animal.

 

A voz lírica admira a forma como René Char (1907-1988) – um poeta da resistência francesa –, tendo testemunhado os horrores da guerra, escolheu escrever sobre a beleza da natureza – rios, narcisos, tulipas –, decerto à procura de um salvatério diante da crueldade do mundo, da nossa própria brutalidade, para desse modo difundir a beleza não como uma forma de escape ou de fuga à realidade, mas como uma afirmação da vida contra a destruição e a morte.

 

J.A.R. – H.C.

 

William Carlos Williams

(1883-1963)

 

To a Dog Injured in the Street

 

It is myself,

not the poor beast lying there

yelping with pain

that brings me to myself with a start –

as at the explosion

of a bomb, a bomb that has laid

all the world waste.

I can do nothing

but sing about it

and so I am assuaged

from my pain.

 

A drowsy numbness drowns my sense

as if of hemlock

I had drunk. I think

of the poetry

of René Char

and all he must have seen

and suffered

that has brought him

to speak only of

sedgy rivers,

of daffodils and tulips

whose roots they water,

even to the free-flowing river

that laves the rootlets

of those sweet-scented flowers

that people the

milky

way.

 

I remember Norma

our English setter of my childhood

her silky ears

and expressive eyes.

She had a litter

of pups one night

in our pantry and I kicked

one of them

thinking, in my alarm,

that they

were biting her breasts

to destroy her.

 

I remember also

a dead rabbit

lying harmlessly

on the outspread palm

of a hunter’s hand.

As I stood by

watching

he took a hunting knife

and with a laugh

thrust it

up into the animal’s private parts.

I almost fainted.

 

Why should I think of that now?

The cries of a dying dog

are to be blotted out

as best I can.

René Char

you are a poet who believes

in the power of beauty

to right all wrongs.

I believe it also.

With invention and courage

we shall surpass

the pitiful dumb beasts,

let all men believe it,

as you have taught me also

to believe it.

 

In: “The Desert Music” (1954)

 

Cão Ferido

(Frans Snyders: pintor belga)

 

A um Cão Ferido na Rua

 

Sou eu mesmo

não o pobre animal ali estirado

a uivar de dor

que me devolve a mim mesmo com um sobressalto –

como na explosão

de uma bomba, uma bomba

que devastasse todo o mundo.

Nada posso fazer

senão consignar em versos o incidente

para assim mitigar

a minha dor.

 

Um torpor letárgico afoga os meus sentidos

como se eu tivesse

bebido cicuta. Penso

na poesia

de René Char

e em tudo o que ele deve ter visto

e sofrido

que o levou

a falar apenas de

rios cheios de juncos,

de narcisos e de tulipas

cujas raízes são por eles regadas,

até mesmo do rio que corre livremente

e banha as radículas

daquelas flores de doce perfume

que povoam

a Via

Láctea.

 

Lembro-me de Norma

a nossa setter inglesa da minha infância

com as suas orelhas sedosas

e olhos expressivos.

Certa noite ela deu à luz

uma ninhada de cãozinhos

em nossa despensa e eu desferi um pontapé

num deles

pensando, alarmado,

que estavam

a morder-lhe os seios

para a destroçar.

 

Lembro-me também

de um coelho morto

que jazia inofensivo

na palma estendida

da mão de um caçador.

Enquanto eu ali estava

a observar

ele pegou a sua faca de caça

e a gargalhar

espetou-a

nas partes íntimas do animal.

Quase desmaiei.

 

Por que me irromperiam tais memórias agora?

Os uivos de um cão moribundo

devem ser abafados

como melhor me for possível.

René Char,

és um poeta que acredita

no poder da beleza

para corrigir todos os males.

Nisso eu também acredito.

Com engenho e coragem

haveremos de superar

os pobres e limitados animais:

que todos os homens assim o acreditem,

como também me ensinaste

a acreditar.

 

Em: “A Música do Deserto” (1954)

 

Referência:

 

WILLIAMS, William Carlos. To a dog injured in the street. In: __________. The collected poems of William Carlos Williams. Volume I: 1909-1939. Edited by A. Walton Litz and Christopher MacGowan. 9th print. New York, NY: New Directions, 1991. p. 255-256.

quarta-feira, 8 de julho de 2026

Francisco de Quevedo - Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!

Através de uma Roma em ruínas, Quevedo constrói uma elegia memorável sobre a fugacidade do tempo e a decadência de quaisquer proeminências mundanas diante de sua inexorável passagem: o peregrino – a exemplo de um turista de hoje – já não encontra em Roma a glória e a magnificência da Roma antiga, daquele império que uma vez esteve no topo do mundo.

 

Roma em escombros serve como “memento mori” para nos recordar sobre a vaidade das ambições humanas e da busca por lustres terrenos a todo custo: mais vale, segundo o poeta, ir em busca da felicidade por meio de um processo de autoconhecimento e de crescimento espiritual, cultivando uma ampla gama de virtudes, tendo em mira o alcance de sabedoria interior.

 

J.A.R. – H.C.

 

Francisco de Quevedo

(1580-1645)

Retratado por Velázquez

 

Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!

 

Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino!

Y en Roma misma a Roma no la hallas;

cadáver son las que ostentó murallas

y tumba de sí propio el Aventino.

 

Yace donde reinaba el Palatino;

y limadas del tiempo las medallas,

más se mustran destrozo a las batallas

de las edades que blasón latino.

 

Sólo el Tibre quedó, cuya corriente,

si ciudad la regó, ya sepultura

la llora con funesto son doliente.

 

¡Oh Roma, en tu grandeza, en tu hermosura,

huyó lo que era firme, y solamente

lo fugitivo permanece y dura!

 

Ruínas de Roma

(Giovanni Paolo Panini: pintor italiano)

 

Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!

 

Buscas em Roma a Roma, ó peregrino!

e em Roma dessa Roma só vês falhas:

cadáver são as que ostentou muralhas,

e de si próprio túmulo o Aventino.

 

Jaz hoje onde reinava o Palatino;

e, do tempo limadas, as medalhas

mais se mostram destroços das batalhas

das idades do que brasão latino.

 

Só o Tibre restou, cuja corrente,

se cidade a regou, já sepultura

a chora com funesto som dolente.

 

Roma, em tua grandeza e formosura

fugiu o que era firme; e tão-somente

o fugitivo permanece e dura.

 

Ruínas Romanas

(Guido Borelli: pintor italiano)

 

A Roma sepultada nas próprias ruínas

 

Procuras Roma em Roma, ó peregrino,

mas não há Roma em Roma onde as muralhas

altivas transformaram-se em mortalhas

e, em túmulo de si mesmo, o Aventino.

 

Jaz, onde antes reinara, o Palatino,

e, pelo tempo gastas, as medalhas

parecem mais destroços das batalhas

de outras idades que brasão latino.

 

Só resta o Tibre ali, cuja corrente

regara uma cidade e é sepultura

o que funesta chora em tom plangente.

 

Ó, Roma! Na grandeza e formosura,

fugiu-te o que era sólido e somente

o fugidio é o que persiste e dura.

 

Referências:

 

QUEVEDO, Francisco. Buscas en Roma a Roma, ¡oh, peregrino! / Buscas em Roma a Roma, ó peregrino! Tradução de Fernando Mendes Vianna. In: VICENTE, Gil et alii. Poetas del siglo de oro español / Poetas do século de ouro espanhol. Edição bilíngue: espanhol x português. Seleção e tradução de Anderson Braga Horta; Fernando Mendes Vianna e José Jeronymo Rivera; estudo introdutório de Manuel Morillo Caballero. Brasília, DF: Thesaurus; Consejería de Educación y Ciencia de la Embajada de Espana, 2000. Em espanhol: p. 304; em português: p. 305. (Coleção “Orellana”; n. 12)

 

QUEVEDO, Francisco. A Roma sepultada en sus ruinas / A Roma sepultada nas próprias ruínas. Tradução de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Organização e Tradução). Poesia alheia: 121 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. Em espanhol: p. 50; em português: p. 51.

terça-feira, 7 de julho de 2026

Dante Milano - Passagem do poema

Milano nos afiança que a poesia mais autêntica reside no que escapa às palavras, nesse “ar que se respira” que os versos apenas tentam capturar, enquanto correm em direção ao inefável: são “versos sem palavras”, em sua forma mais pura e fugidia, tão elusivos e inapreensíveis, eis que germinados num caldo de cultura de um espírito insone, como imagens, lembranças, representações do subconsciente ou da própria imaginação.

 

Sob tal contexto, a noite se converte num espaço psicológico e criativo, no qual a mente, entre introspectiva e agitada, espera num suspense por um “relâmpago mental” nas “trevas do cérebro”, capaz de lhe suscitar um facho de inspiração visionário, cheio de vislumbres enleantes, os quais, à medida que se aproximam, infaustamente, se apagam ou se transformam antes que venham a adquirir estrutura definitiva.

 

J.A.R. – H.C.

 

Dante Milano

(1899-1991)

 

Passagem do poema

 

O olhar no escuro,

Não dormir, esperar, acordado na noite.

Um verso feito em gesto rápido

Traça nas trevas do cérebro o rabisco de um raio.

É um poema ou talvez lá fora a tempestade?

As portas se abrem sozinhas com violência.

Passam vultos que não existem.

 

Meu corpo parado, entanto corro livre

pelos descampados.

Estende-se a perder de vista a dolorida praia.

O mar avança pela areia com as patas

de seus cavalos.

O vento chicoteia o fugitivo.

 

Não fujas da vida, espírito!

Volta, covarde!

 

Apagadas visões

Não tirarão teu brilho, realidade!

 

A poesia me leva a perdidos caminhos

De onde volto mais só, mais desesperançado.

De tudo resta apenas a página rabiscada.

Deixo cair da mão o verso que se parte.

Outro me foge escrito sem palavras,

Buscando outros sentidos...

 

O verso é feito do ar que se respira.

 

Correi, correi, ó versos sem palavras...

 

O sonhador

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

Referência:

 

MILANO, Dante. Passagem do poema. In: __________. Poesia e prosa. Organização de Virgílio Costa. Civilização Brasileira; Núcleo Editorial da UERJ, 1979. p. 93. (Coleção “Vária”)