Num tom ritual,
pejado de referências simbólicas, esta seção “Do ciclo das intempéries” enceta
um discurso poético algo místico, no qual o ato de escrever revela-se como
sagrado, a passagem do tempo converte-se num mistério contemplativo, e a
natureza – as magnólias, as estações, as águas – interpõe-se entre o humano e o
divino.
Pode-se fazer, por
conseguinte, uma leitura em chave espiritual do poema, ao se depreender em cada
gesto – de escrever, de contemplar, de deitar lágrimas – um código capaz de abrir
portas para o invisível, região próspera em visões e revelações, em epifanias
suscitas pelo fluxo das palavras, correntes num rio a deitar sulcos inéditos
para uma outra ordem de conhecimento e de compreensão do mundo.
J.A.R. – H.C.
Daniel Faria
(1971-1999)
Do ciclo das
intempéries
8
Prometo-te a palma da
minha mão para a escrita.
Cerca-a de magnólias,
cerca-me. Podes fechar a escrita
No interior da mão ou
na boca dos livros
Podes esquecê-la ou
libertá-la dos mil botões
Que ela sopra no
interior dos homens.
Podes mandá-la
àqueles que mais amas
Ou como pétalas e
mensagens nas anilhas das aves
Aos teus próprios
inimigos.
Podes desarmá-la para
propagares as chamas.
Dou-te, como desde
sempre, o poder
De escreveres na pele
da minha mão
As promessas que te
fiz. Sabes que existo
E que vou repetir-te
todas as coisas outra vez.
As estações, por
exemplo – não sou o único que o digo –,
Não rodam à maneira
dos carrosséis no largo. No Outono
A magnólia é
pensativa como o homem
Que te olha por
detrás da janela onde te escrevo.
No Inverno os vidros
vão embaciando – aproxima
A tua mão da paisagem
que resta
Como se fora o lado
do verbo que encarnou. Repara
No banco de pedra –
ele está
Sobre ti.
Tu és a criança
sentada
Que olha para o céu.
Há um tesouro
No céu – um coração
novo. Reconheces
A magnólia estelar? O
interstício solar
Da pupila celeste?
Ela está sobre ti
E contempla – é
verdade que é pelas lágrimas
Que começam as
visões.
Sim. Agora posso
explicar-te o mistério das águas.
Debruça-te como ele
quando escreveu no chão
Irás entender – elas
jorram das palavras.
Em: “Dos Líquidos” (2000)
Magnólia rosa
(Kay Shanley: artista
tasmaniana)
Referência:
FARIA, Daniel. Prometo-te
a palma da minha mão para a escrita. In: __________. Poesia. Edição de
Vera Vouga. 1. ed. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, mai. 2012. p. 344-345.
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