Estas palavras de Hopkins,
um sacerdote jesuíta, não nos oferece qualquer tipo de redenção ao desespero
humano, somente o reconhecimento de nossa fragilidade frente ao sofrimento e a
morte como único refúgio final, vista aqui como um “consolo” sombrio deslindado
na aceitação de nossa finitude.
Vê-se no soneto o
poder da inovação linguística do poeta inglês, além de certa intensidade visionária,
para assim plasmar em versos uma experiência cabal de dor psíquica e
espiritual, mormente por achar-se invadido por um sentimento de abandono divino,
como se, contemplando um cenário aterrador, o falante se comportasse à maneira
de quem se encontra à beira do abismo. Em suma: é a crise da fé diante de um “Deus
Absconditus”.
J.A.R. – H.C.
Gerard Manley Hopkins
(1844-1889)
No worst, there is
none
No worst, there is
none. Pitched past pitch of grief,
More pangs will,
schooled at forepangs, wilder wring.
Comforter, where,
where is your comforting?
Mary, mother of us,
where is your relief?
My cries heave,
herds-long, huddle in a main, a chief-
Woe, world-sorrow; on
an age-old anvil wince and sing –
Then lull, then leave
off. Fury had shrieked ‘No ling-
Ering! Let me be
fell: force I must be brief.’
O the mind, mind has
mountains; cliffs of fall
Frightful, sheer,
no-man-fathomed. Hold them cheap
May who ne’er hung
there. Nor does long our small
Durance deal with
that steep or deep. Here! creep,
Wretch, under a
comfort serves in a whirlwind: all
Life death does end
and each day dies with sleep.
Dublin, 1885 (?)
(Posthumous publ.)
A dor do mundo
(Tannin Sun: artista
chinesa)
Nada pior, nada
Nada pior, nada. De
cume a cume da dor arremessado,
Piores torturas
virão, treinadas em tortura anterior.
Mas onde, onde achar
o teu consolo, Ó Espírito consolador?
Maria, mãe de todos
nós, onde o alívio esperado?
Arfo em longos
mugidos, montão de uma dor
Mor – a dor-do-mundo;
canta acuada em ancestral bigorna –
Depois amansa, chega
a parar. A Fúria gritara, “Sem demora,
Feroz no malhar;
tenho de ser veloz em meu furor”.
A mente, oh! a mente
tem montanhas, íngremes penhascos,
Terríveis, a pique,
insondáveis. Faça deles pouco
Quem nunca ali ficou
pendendo. Nem por tempo longo
Nossa tênue têmpera
suporta tal escarpa. Vem! de rastros,
Miserável, ao
conforto que serve neste vórtice: a alforria
Da vida é a morte, e
ao dormir se morre cada dia.
Dublin, 1885 (?)
(Publicação póstuma)
Referência:
HOPKINS, Gerard
Manley. No worst, there is none / Nada pior, nada. Tradução de Aíla de Oliveira
Gomes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de
Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1989. Em inglês:
p. 128; em português: p. 129.
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