O poeta francês nos
apresenta a sua visão romântico-mística acerca da unidade sagrada e consciente
de toda a Criação: de fato, o soneto é uma defesa poética do pampsiquismo – a
crença de que tudo no universo possui consciência, alma ou sensibilidade –, com
paralela reprimenda ao antropocentrismo arrogante do ser humano.
Há muito de
pitagorismo – como indica a epígrafe do poema – e de laivos herméticos ou de
correntes esotéricas nestas linhas. Seja como for, têm elas o sabor oportuno de
algo tão concatenado aos recentes reclamos pela integridade ecológica do
planeta, convocando-nos a desertar de nossa soberbia, para reconhecer a chispa
divina em tudo quanto há no plano tangível e intangível.
Viver com reverência
ética por todo o universo, desde os animais até a pedra – símbolo máximo do inerte,
mas, sob tal perspectiva, também dotada de espírito –, é o lema maior desta
exortação para agirmos com respeito em relação aos recursos do nosso teto
provisório, sem profaná-lo – ou como diz o próprio Nerval –, sem fazê-lo “servir
a propósitos ímpios”.
J.A.R. – H.C.
Gérard de Nerval
(1808-1855)
Vers dorés
Eh quoi! tout est
sensible.
Pythagore
Homme ! libre penseur!
te crois-tu seul pensant
Dans ce monde où la
vie éclate en toute chose?
Des forces que tu
tiens ta liberté dispose,
Mais de tous tes
conseils l’univers est absent.
Respecte dans la bête
un esprit agissant:
Chaque fleur est une
âme à la Nature éclose;
Un mystère d’amour
dans le métal repose;
“Tout est sensible!”
Et tout sur ton être est puissant.
Crains dans le mur
aveugle, un regard qui t’épie:
A la matière même un
verbe est attaché...
Ne la fais pas servir
à quelque usage impie!
Souvent dans l’être
obscur habite un Dieu caché;
Et, comme un oeil
naissant couvert par ses paupières,
Un pur esprit
s'accroît sous l’écorce des pierres!
Espíritos Afins
(Asher Durand: pintor
norte-americano)
Versos áureos
Mas como! Tudo é
sensível!
Pitágoras
Oh! homem pensador,
julgas que é em ti somente
Que há a razão neste
mundo onde em tudo arfa a vida?
Das forças que tu
tens tua vontade é servida,
Mas dos conselhos
teus o universo está ausente.
Respeita no animal um
espírito agente:
Cada flor é uma alma
à natureza erguida;
Um mistério de amor
no metal tem guarida;
“Tudo é sensível!”
Tudo em teu ser é potente.
Teme, no muro cego,
um olho que te espia:
Pois mesmo na matéria
um verbo está sepulto…
Não a faças servir a
alguma função ímpia!
No ser obscuro às
vezes mora um Deus oculto,
E, como olho a nascer
por pálpebras coberto,
Nas pedras cresce um
puro espírito desperto!
(16/3/1990)
Referência:
NERVAL, Gérard de. Vers
dorés / Versos áureos. Tradução de Alexei Bueno. In: BUENO, Alexei (Org. &
Trad.). Cinco séculos de poesia. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ:
Record, 2013. Em francês: p. 90; em português: p. 91.
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