Andresen converte um
espaço urbano cotidiano – de fato, bem mais um rossio interior onde se trava a
batalha entre o amor, a memória e a finitude – no cenário de um drama
universal: o enfrentamento da perda irreparável de seu dileto consorte, em vias
de ocorrer, por quem empreende uma tentativa de fusão identitária, quiçá um irreprimível
mecanismo de defesa psicológica.
A voz poética, numa
espécie de luto antecipatório, luta contra a aproximação da morte de seu
parceiro, mediante a evocação das lembranças encarnadas nesse intitulado
microcosmo – muito à volta de sua humilde existência, vivenciada em comunidade –,
a súplica desesperada ao humano e ao divino, bem assim pelo consolo que lhe
traz a intuição de uma eternidade inscrita na pessoa do ser amado.
J.A.R. – H.C.
Sophia de Mello B.
Andresen
(1919-2004)
A Pequena Praça
A minha vida tinha
tomado a forma da pequena praça
Naquele outono em que
a tua morte se organizava
meticulosamente
Eu agarrava-me à
praça porque tu amavas
A humanidade humilde
e nostálgica das pequenas lojas
Onde os caixeiros
dobram e desdobram fitas e fazendas
Eu procurava
tornar-me tu porque tu ias morrer
E a vida toda deixava
ali de ser a minha
Eu procurava sorrir
como tu sorrias
Ao vendedor de
jornais ao vendedor de tabaco
E à mulher sem pernas
que vendia violetas
Eu pedia à mulher sem
pernas que rezasse por ti
Eu acendia velas em
todos os altares
Das igrejas que ficam
no canto desta praça
Pois mal abri os
olhos e vi foi para ler
A vocação do eterno
escrita no teu rosto
Eu convocava as ruas
os lugares as gentes
Que foram as
testemunhas do teu rosto
Para que eles te
chamassem para que eles desfizessem
O tecido que a morte
entrelaçava em ti
Em: “Dual” (1972)
Um pequeno largo
(Leonid Afremov:
pintor israelense)
Referência:
ANDRESEN, Sophia de
Mello Breyner. A pequena praça. In: __________. Obra poética. Prefácio
de Maria Andresen Sousa Tavares. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tinta-da-china
Brasil, 2018. p. 586. (Coleção “Grandes Escritores Portugueses”)
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