Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 12 de setembro de 2026

François Cheng - Depois da ferida

O poeta sino-francês detém-se a falar da alquimia do sofrimento, mostrando-nos que uma determinada “ferida”, quando experimentada em toda a sua silenciosa e obsessiva profundidade, orienta-se à formação de um cerne indestrutível de identidade, transformando-se, convertendo-se no crisol onde o “eu” superficial esbraseia-se para deixar a descoberto um “secreto tu”, um núcleo essencial que, embora destinado à terra, corresponde à prova última de que terá vivido e sofrido intensamente.

 

Depois da lesão, tem-se a sua lenta ressonância no tempo que a sucede, petrificando a alma, paralisando-a numa melancolia existencial, até que a dor do trauma tenha sido interiorizada e absorvida por completo numa ruminação tortuosa, esgotando toda a sua capacidade de sentir, jogando-a num vazio – não exatamente vazio – que, mediante um processo metamórfico, encapsula-se em rígido grumo no coração, selado a partir de então como relíquia incorporada ao ser.

 

J.A.R. – H.C.

 

François Cheng

(n. 1929)

 

Après la blessure

 

Après la blessure

Heure muette

La clepsydre de Vaprès-midi

Distille l’ennui humain

La lumière ne sera pas vue

La parole ne sera pas dite

Toutes rosées ravalées

Toutes incandescences bues

La saison rentre en sa chair

Fouillant la plaie

Fouillant le ver

Fouillant à s’en déchirer les fibres

Ce creux trop prononcé

À la pointe du coeur

Déjà noyau durci

Que renfermera bientôt l’argile

Renferm ant dès ici

Renferm ant jusqu’au bout

De l’insondée lave terrestre

Le secret tu

 

Dans: “Le Long d’un Amour” (2003)

 

Rega

(Rita Maikova Zaporozhets: artista ucraniana)

 

Depois da ferida

 

Depois da ferida

Hora muda

A clepsidra da tarde

Destila o tédio humano

A luz não será vista

A palavra não será dita

Todos os orvalhos tragados

E as incandescências bebidas

A sazão retorna à sua carne

Revolvendo a chaga

Revolvendo o verme

Revolvendo até se romperem as fibras

Este vazio acentuado demais

Na ponta do coração

Já núcleo endurecido

Que logo a argila encerrará

Encerrando desde aqui

Encerrando até o fim

Da insondada lava terrestre

O segredo silenciado

 

Em: “Ao Longo dum Amor” (2003)

 

Referência:

 

CHENG, François. Après la blessure / Depois da ferida. Tradução de Bruno Palma. In: __________. Duplo canto e outros poemas. Tradução, cronologia, introdução e notas de Bruno Palma. Edição bilíngue: francês x português. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2011. Em francês: p. 402; em português: p. 403.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Alexandre O’Neill - Quatro Lugares-Comuns sobre Várias Artes Poéticas

O poeta desmistifica certos pontos de vista em relação ao processo criativo, rechaçando tanto a ideia de que seria o resultado de um inspiração divina – de pendor romântico –, quanto o fruto de um trabalho mecânico, circunscrevendo-se, sob tal abordagem, à falsa oposição dilemática entre a espera passiva pelo sopro inspirador da musa e o árduo labor com a palavra, ou ainda, entre as tutelas legendárias da inspiração e da transpiração –, contrapondo-lhes o enfoque de uma dinâmica mais integral e pessoal.

 

“Escrever é tramar o textual”, afirma o autor português, quer no sentido de urdir ou tecer a composição, quer na acepção conotativa de lançar mão de astúcias e de estratégias para se alcançar um resultado final que capture as perplexidades humanas, o fluxo incomodatício da vida, os seus gestos mais triviais e absurdos, sem concessões a rígidos modelos preestabelecidos ou a uma audiência tantas vezes afeita a clichês.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alexandre O’Neill

(1924-1986)

 

Quatro Lugares-Comuns sobre Várias Artes Poéticas

 

1

 

Estou sozinho diante da página em branco.

 

Cedo à inspiração?

Dedico-me ao suor?

 

Vou investir com a caneta o branco da página em branco.

 

Minha tentação era subscrever o branco,

assinar o silêncio.

Mas o branco seria o silêncio,

uma vez assinado?

 

Cedo à inspiração?

Dedico-me ao suor?

 

Nada vem de bandeja.

Nada vem do suor.

 

2

 

Não há modelo exterior a que eu deva obediência,

sequer trabalho.

O modelo exterior seria uma plateia

com centenas de lugares-comuns

ainda mal arejados dos traseiros

que neles depusessem os gomos o tempo da sessão.

O modelo exterior é uma convenção

que te obriga, se o eleges, a trabalhar como arrumador,

lanterninha na mão.

E então, sim! Deves tudo ao suor

(o nobre suor de um senhor escritor).

O modelo exterior é como o jogo do avião:

ao pé-coxinho vais biqueirando a palavra-patela,

de quadradinho em quadradinho,

até fazeres todo o avião.

 

O modelo exterior deixa-te definitivamente fora,

mas fora de ti próprio.

É como se andasses à rabiça

a arar os campos de papel.

 

3

 

A folha de papel em branco

não é o ruedo de nenhuma festa.

A folha de papel em branco

(e tu debruçado sobre ela)

 

é um slogan turístico, um “Spain is different!”

da poesia-espectáculo.

(Nem a ti próprio te dês em espectáculo

sob pretexto de reflexão.)

 

Se tens o lampo da inspiração

a crescer, em formigueiro, na mão da faina,

não te deixes embevecer por imagens toureiras.

São bonitos.

São analogias que não colam

ao trabalho de escrever.

 

Se tens o lampo da inspiração,

despede-o para o papel como instantaneidade

de incertos resultados.

Depois se verá se deixou resíduos

ou se o lampo não deu mais que um trovão.

 

4

 

Nada vem de bandeja.

Nada vem do suor.

 

Não te deixes cindir por um falso dilema.

Escrever é tramar o textual.

Bandeja e suor são problemas teus,

maneiras de ser, de agir, processos de trabalho.

 

Onde começa um poema?

Quando começa um poema?

 

No espaço quadrado da folha de papel?

No momento em que pegas da caneta?

 

Ou no espaço redondo em que te moves?

Ou quando, alheio a tudo, te pões de cócoras,

a coçar, perplexo, a cabeça?

 

Em: “Feira Cabisbaixa” (1965)

 

Chama

(Anita Louise West: artista norte-americana)

 

Referência:

 

O’NEILL, Alexandre. Quatro lugares-comuns sobre várias artes poéticas. In: MEDINA, Cremilda de Araújo (Sel. & Org.). Viagem à literatura portuguesa contemporânea. Rio de Janeiro, RJ: Nórdica, 1983. p. 233-235.

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Eduardo Galeano - A Nona

A verdadeira força de uma obra-prima expressa-se em sua capacidade para sobreviver a todas as interpretações, inclusive as mais monstruosas: como, mais extensivamente, a própria arte, a Nona Sinfonia de Beethoven testemunha de modo eloquente o fluxo da história, como se fosse um espelho no qual se refletem alternadamente o poder e a resistência, a opressão e a liberdade, demonstrando que o sentido último de uma obra não é decidido por seu criador, mas pelo uso – e abuso – que dela faz a complexa e contraditória condição humana.

 

A última estância desta infratranscrita composição é o ápice de todas as contradições numa só imagem – a do muro de Berlim: o símbolo máximo da divisão do mundo foi erguido e desmoronou aos acordes da mesma sinfonia do músico alemão, servindo a Galeano como tese máxima de sua lavra, a saber, a de que a música não é boa nem má, nem de direita nem de esquerda, senão uma espécie de recipiente vazio que a humanidade preenche com as suas próprias paixões, conflitos e esperanças.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Galeano

(1940-2015)

 

La Novena

 

La sordera impidió que Beethoven

pudiera escuchar ni una nota

de su Novena Sinfonía.

Y la muerte impidió que se enterara

de las aventuras y desventuras

de su obra maestra.

 

El príncipe Bismarck proclamó

que la Novena inspiraba

a la raza alemana.

 

Bakunin escuchó en ella

la música de la anarquía.

 

Engels anunció que sería

el himno de la Humanidad.

 

Y Lenin opinó que era

más revolucionaria

que la Internacional.

 

Von Karagán la dirigió en concierto

para el gobierno nazi

y años después consagró con ella

la unidad de la Europa libre.

 

La Novena acompañó

a los kamikazes japoneses

que morían por su emperador.

y a los combatientes que dieron la vida

peleando contra todos los imperios.

 

Fue cantada por quienes resistían

la embestida alemana

y fue tarareada por Hitler

que en un raro ataque de modestia

dijo que Beethoven era

el verdadero führer.

 

Paul Robeson la cantó contra el racismo

y los racistas de África del Sur

la usaron de música de fondo

en la propaganda del apartheid.

 

En 1961, al son de la Novena

se alzó el muro de Berlín.

En 1989, al son de la Novena

el muro de Berlín cayó.

 

En: “Espejos: una historia casi universal” (2008)

 

A Orquestra

(Max Oppenheimer: pintor austríaco)

 

A Nona

 

A surdez impossibilitou que Beethoven

pudesse escutar uma única nota

de sua Nona Sinfonia.

E a morte impediu-o de se inteirar

das aventuras e desventuras

de sua obra-prima.

 

O príncipe Bismarck proclamou

que a Nona inspirava

a raça alemã.

 

Bakunin nela escutou

a música da anarquia.

 

Engels anunciou que seria

o hino da Humanidade.

 

E Lenin opinou que era

mais revolucionária

que a Internacional.

 

Von Karajan regeu-a em concerto

para o governo nazista

e anos depois consagrou com ela

a unidade da Europa livre.

 

A Nona acompanhou

os kamikazes japoneses

que morriam por seu imperador

e os combatentes que deram a vida

lutando contra todos os impérios.

 

Foi cantada por aqueles que resistiam

ao avanço alemão

e foi cantarolada por Hitler

que em um raro ataque de modéstia

disse que Beethoven era

o verdadeiro führer.

 

Paul Robeson cantou-a contra o racismo

e os racistas da África do Sul

usaram-na como música de fundo

na propaganda do apartheid.

 

Em 1961, ao som da Nona

ergueu-se o muro de Berlim.

Em 1989, ao som da Nona

o muro de Berlim caiu.

 

Em: “Espelhos: uma história quase universal” (2008)

 

Referência:

 

GALEANO, Eduardo. La novena. In: __________. Entre los poetas míos... Cuaderno de poesía crítica. Disponível neste endereço. Acesso em: 02 set. 2026. p. 23-24. (Biblioteca Virtual Omegalfa / Colección “Antología de Poesía Social”; vol. 18)