Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

George Mackay Brown - O Poeta

Para o autor escocês, a arte é a suprema razão de ser, a força que, apesar de tudo, dá sentido a uma existência consagrada à criação, tornando imperiosa a necessidade de redigir poemas, necessidade essa que define o poeta, se apodera do seu ser físico e espiritual e, em última análise, o redime através do próprio fardo que lhe impõe.

 

Tem-se assim a vida do artista como um serviço a um exigente destino, numa senda de dor, solidão e sacrifício, experiências apenas aliviadas por breves momentos de graça – um ouvinte gentil, um gesto de amor –, de onde se deduz a noção de que, mais do que aquilo que o poeta faz, a poesia é algo que o poeta é.

 

J.A.R. – H.C.

 

George Mackay Brown

(1921-1996)

 

The Poet

 

Nor did you choose, it was fated on you,

That gift.

 

Therefore you must fare on as best you can with it,

That scroll.

 

And it will be a burden to you many a day.

That music.

 

But remembered love and sorrow will nurture it well,

That image.

 

And a kind listener in the street will lighten the pain of it for you,

That song.

 

And a girl perhaps will lift it from your face a moment,

That mask.

 

Yet many a day it will bear in grief to your knees,

That dance.

 

And you will not be loved in the doorways for the light it unleashes,

That jewel.

 

There are those who wish to see it unwinged and tongueless,

That legend.

 

It will clothe you with starkness, no coat-of-songs,

That loom.

 

It will utterly possess your heart and your bones,

That symbol.

 

Retrato de Patrick Moir (1769-1810)

(Henry Raeburn: pintor escocês)

 

O Poeta

 

Você nem mesmo escolheu, o que estava destinado,

Aquele dom.

 

Portanto você deve seguir o melhor que puder,

Aquele pergaminho.

 

E será um estorvo para você muitos dias.

Aquela música.

 

Mas os amores lembrados e as mágoas nutrirão bem,

Aquela imagem.

 

E um ouvinte bondoso na rua vai aliviar sua dor,

Aquela canção.

 

E uma garota talvez retire da sua face por um momento,

Aquela máscara.

 

Mas por muitos dias irá suportar com dor, de joelhos,

Aquela dança.

 

E não será amado no vão das portas pela luz que ela desata,

Aquela joia.

 

Há os que querem vê-la sem asas e sem língua,

Aquela lenda.

 

Vestirá você com sobriedade, sem casaca,

Aquele tear.

 

Irá por fim possuir seu coração e seus ossos,

Aquele símbolo.

 

Referência:

 

BROWN, George Mackay. The poet / O poeta. Tradução de Virna Teixeira. In: TEIXEIRA, Virna (Organização, tradução e notas). Ovelha negra: uma antologia de poesia da Escócia do século XX. São Paulo, SP: Lumme Editor, 2007. Em inglês: p. 42; em português: p. 43.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Elizabeth Bishop - Poema

Bishop, através de sua lente poética, faz-nos ver como a arte, mesmo a mais modesta, pode atuar como uma cápsula do tempo emocional, atravessando décadas e conectando vidas e olhares de pessoas que nunca se conheceram pessoalmente: o poema, tal como a pintura que descreve, captura e preserva uma cena campestre num espaço diminuto, demonstrando que a verdadeira grandeza reside, muitas vezes, nos mínimos – e aparentemente insignificantes – detalhes.

 

Há quem possa ver neste poema da poetisa norte-americana um exemplar de écfrase – a descrição poética de uma obra de arte visual –, no caso, um quadro minúsculo, sem valor comercial, pintado por um tio-avô famoso da Nova Escócia e que lhe foi legado por um outro tio. Mas o que sobressai dos versos é, de fato, a ênfase na fronteira tênue entre a arte e a própria vida, dito de outro modo, na fusão da visão do artista e das recordações da poetisa sobre o mesmo lugar retratado na pintura, com o que se compendia, à apreciação do leitor, a exata dimensão do pouco que permanece no tempo a representar atilhos entre as várias gerações de uma mesma linhagem familiar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Elizabeth Bishop

(1911-1979)

 

Poem

 

About the size of an old-style dollar bill,

American or Canadian,

mostly the same whites, gray greens, and steel grays

– this little painting (a sketch for a larger one?)

has never earned any money in its life.

Useless and free, it has spent seventy years

as a minor family relic

handed along collaterally to owners

who looked at it sometimes, or didn’t bother to.

 

It must be Nova Scotia; only there

does one see gabled wooden houses

painted that awful shade of brown.

The other houses, the bits that show, are white.

Elm trees, low hills, a thin church steeple

– that gray-blue wisp – or is it? In the foreground

a water meadow with some tiny cows,

two brushstrokes each, but confidently cows;

two minuscule white geese in the blue water,

back-to-back, feeding, and a slanting stick.

Up closer, a wild iris, white and yellow,

fresh-squiggled from the tube.

The air is fresh and cold; cold early spring

clear as gray glass; a half inch of blue sky

below the steel-gray storm clouds.

(They were the artist’s specialty.)

A specklike bird is flying to the left.

Or is it a flyspeck looking like a bird?

 

Heavens, I recognize the place, I know it!

It’s behind – I can almost remember the farmer’s name

His barn backed on that meadow. There it is,

titanium white, one dab. The hint of steeple,

filaments of brush-hairs, barely there,

must be the Presbyterian church.

Would that be Miss Gillespie’s house?

Those particular geese and cows

are naturally before my time.

 

A sketch done in an hour, “in one breath,”

once taken from a trunk and handed over.

Would you like this? I’ll probably never

have room to hang these things again.

Your Uncle George, no, mine, my Uncle George,

he’d be your great-uncle, left them all with Mother

when he went back to England.

You know, he was quite famous, an R.A....

 

I never knew him. We both knew this place,

apparently, this literal small backwater,

looked at it long enough to memorize it,

our years apart. How strange. And it’s still loved,

or its memory is (it must have changed a lot).

Our visions coincided – “visions” is

too serious a word – our looks, two looks:

art “copying from life” and life itself,

life and the memory of it so compressed

they’ve turned into each other. Which is which?

Life and the memory of it cramped,

dim, on a piece of Bristol board,

dim, but how live, how touching in detail

– the little that we get for free,

the little of our earthly trust. Not much.

About the size of our abidance

along with theirs: the munching cows,

the iris, crisp and shivering, the water

still standing from spring freshets,

the yet-to-be-dismantled elms, the geese.

 

In: “Geography III” (1976)

 

Cena Pastoral

(Jan Siberechts: pintor flamengo)

 

Poema

 

Mais ou menos do tamanho de uma nota antiga de um dólar

americano ou canadense,

basicamente os mesmos tons de branco, verde-cinza e cinza-aço

– essa pequena pintura (estudo para outra maior?)

jamais ganhou dinheiro na vida.

Inútil e livre, viveu setenta anos

como uma relíquia de família sem valor

passada adiante a proprietários

que ora olhavam para ela às vezes, ora nem isso.

 

Deve ser a Nova Escócia; só lá

há casas de madeira com cumeeiras

pintadas desse tom horrendo de marrom.

As outras casas, o que delas se vê, são brancas.

Olmos, morros baixos, um fino pináculo de igreja

– aquele traço azulado – ou não? No primeiro plano

uma várzea com vaquinhas mínimas,

duas pinceladas cada, mas são vacas com certeza;

dois minúsculos gansos brancos na água azul,

um de costas para o outro, comendo, e um pau inclinado.

Mais de perto, um íris silvestre, branco e amarelo,

recém-espremido do tubo de tinta.

O ar é limpo e frio; início de primavera, fria

e límpida como um vidro cinzento; um centímetro de céu azul

sob as nuvens carregadas cinza-aço.

(Elas eram o forte deste artista.)

Uma ave que parece um cocô de mosca voa para a esquerda.

Ou será um cocô de mosca que parece uma ave?

 

Meu Deus, reconheço este lugar, eu estive lá!

Fica atrás – quase recordo o nome do fazendeiro.

Essa várzea ficava atrás do celeiro. Lá está ele,

branco de titânio, uma pincelada. O esboço de pináculo,

filamentos de pincel, quase invisíveis,

deve ser a igreja presbiteriana.

E aquilo lá, seria a casa da sra. Gillespie?

Aqueles gansos e vacas específicos

não são, é claro, do meu tempo.

 

Um esboço feito em uma hora, “num só fôlego”,

tirado de um baú e dado a alguém.

Quer pra você? Acho que eu nunca mais

vou ter espaço pra pendurar essas coisas.

O seu tio George, não, era meu tio,

de você seria tio-avô, deixou tudo com a mamãe

quando voltou pra Inglaterra.

Ele era até famoso, sabe, da Real Academia...

 

Não o conheci. Nós dois conhecemos este lugar,

ao que parece, esse pequeno cafundó,

e o contemplamos o bastante para guardá-lo na memória,

em duas épocas diversas. É estranho. E ele ainda é amado,

ou melhor, sua lembrança (o lugar terá mudado muito).

Nossas visões coincidiram – “visões” é

uma palavra séria demais – nossos olhares, dois olhares:

a arte “copiando o real” e o próprio real,

a vida e sua memória de tal forma comprimidas

que uma vira a outra. Qual é qual?

A vida e sua memória amontoadas,

vagas, num pedaço de cartolina,

vagas, mas tão vivas, tão tocantes em detalhe

– o pouco que ganhamos de graça,

o pouco que o mundo nos confere. Pouco, mesmo.

Mais ou menos do tamanho de nossa permanência

e da deles: das vacas a pastar,

dos íris, nítidos, a estremecer, da água

ainda fresca do degelo primaveril,

os olmos ainda não derrubados, os gansos.

 

Em: “Geografia III” (1976)

 

Referência:

 

BISHOP, Elizabeth. Poem / Poema. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. Poemas escolhidos de Elizabeth Bishop. Edição bilíngue. Seleção, tradução e textos introdutórios de Paulo Henriques Britto. 1. ed. 2. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2012. Em inglês: p. 358 e 360; em português: p. 359 e 361.

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Lúcio Cardoso - A voz de Lázaro

Cardoso recorre ao mito bíblico para nos falar da crise no íntimo do homem moderno que, “morto” em uma vida inautêntica, enfrenta o terror e a beleza de um necessário renascer, cujos imperativos, nada obstante, exigem o abandono de tudo quanto se conhece e a coragem para aceitar uma fé intensa e abrasadora, engolfando-o em uma liberdade inequívoca que lhe pode suscitar mil temores.

 

Diante da vastidão da existência, o poeta revela em Lázaro certa nostalgia da paz do sepulcro, da quietude do nada – essa metáfora de prisão existencial, de uma morte em vida –, quando este vem a perceber o resultado do milagre de que foi agraciado: a recuperação da espontaneidade original e da capacidade de sentir, com o consequente pulsar das feridas do passado, não exatamente como dor, senão como prova de que o sangue voltou a lhe correr nas veias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Lúcio Cardoso

(1912-1968)

 

A voz de Lázaro

 

No abismo que se abre em mim uma só voz escuto:

– És tu, Senhor? És tu que sopras o meu nome de tão longe?

Ah! Bem entendo esse ruído que rola como a música no silêncio

de uma nave –

És tu? Responde, ao menos para cobrir de desespero a minha face!

 

Eis que aqui sozinho e cheio de brancas ataduras,

fechado num sepulcro que apesar do odor das mornas

terras banhadas pela chuva,

conserva ainda no âmago o traço do incenso funerário.

Eis-me Senhor, como no dia em que nasci,

longe do amigo e da mulher que traem o meu ciúme,

longe da casa onde na sala arde a lâmpada para a ceia familiar.

 

Não disseste ser preciso estar nu como a criança que vem de surgir

das veias maternas,

não disseste ser preciso abandonar as terras, os vizinhos e tudo

o que trouxesse um nome sem som correspondente?

Longe de mim, pois, estão todas as formas que não têm

o seu berço no espaço que dura,

longe os muros em que a alma é prisioneira.

 

Se é verdade que só aproveitamos na medida daquilo

que atiramos fora,

contempla a minha carne marcada pelos vergões de todas

as correntes com que me aprisionei em vida.

Sinto agora a tua presença porque no meu coração a energia

se renovou como no grão prestes a se transformar em folha,

sinto porque do fundo esquecimento renasceu em mim a aurora

da infância abandonada

e a pele desfeita se uniu e o sangue tornou a borbulhar

nas antigas cicatrizes...

 

Assim nada morre; tudo o que teve um nome, som ou

pensamento, volta do profundo abismo onde

a cegueira mora –

eu vejo, mas um estranho pressentimento perturba

a perfeição da minha alegria:

se és tu, bate com mais força à porta onde as sombras

do sono me envolvem,

bate, pois que estive tanto tempo sepultado no silêncio

que os meus ouvidos já confundem os sons e os perfumes

se turvam irrevelados.

 

É verdade, já não é possível duvidar, pois quem, senão tu,

poderia conceder-me a graça de reverdecer como a planta

seca pelos anos,

mas o meu coração é fraco e os meus olhos se obstinam

na quietude da morte.

Dá-me, Senhor, a fé selvagem que cobre de espinhos

o esqueleto das árvores vencidas,

clareia com fogo imperecível as minhas órbitas escuras

que a noite é imensa e eu sinto a vastidão que se dilata

e tenho medo de me perder, como o santo a quem

o desespero envolve nas trevas da danação.

 

A Ressurreição de Lázaro

(Simon de Vos: pintor flamengo)

 

Referência:

 

CARDOSO, Lúcio. A voz de Lázaro. In: __________. Poesia Completa. Edição crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo, SP: Edusp, 2011. p. 250-251.