Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Emilio Prados - Adormecido sobre a relva

A modo de um manifesto para fazer frente ao mundo do fazer e do falar superficial, opondo-lhe a via do estar, do sentir e do silenciar, Prados apresenta-nos nestes versos a tese de que a percepção aguda também é uma forma de conhecimento, permitindo-nos apreender a vida em profundidade, bem assim a morte, eis que integrada à paisagem como se um sonho fosse, no qual a natureza acolhe o ser humano e o devolve à sua origem.

 

Para o poeta espanhol, com alguma frequência, a sabedoria maior consiste em estender-se sobre a relva e escutar o estalido da rosa já morta, porque nesse som está contida a verdade do eterno ciclo: cumpre-nos perceber os seus sinais – a lua que acaricia, o vento que arruína, o sol que já não nos fervilha o sangue –, todos eles indicativos de um corpo que se apaga lentamente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Emilio Prados

(1899-1962)

 

Dormido en la yerba

 

Todos vienen a darme consejo.

Yo estoy dormido junto a un pozo.(1)

 

Todos se acercan y me dicen:

– La vida se te va,

y tú te tiendes en la yerba,

bajo la luz más tenue del crepúsculo,

atento solamente

a mirar cómo nace

el temblor del lucero

o el pequeño rumor

del agua, entre los árboles.

 

Y tú te tiendes sobre la yerba:

cuando ya tus cabellos

comienzan a sentir

más cerca y fríos que nunca,

la caricia y el beso

de la mano constante

y sueño de la luna.

 

Y tú te tiendes sobre la yerba:

cuando apenas si puedes

sentir en tu costado

el húmedo calor

del grano que germina

y el amargo crujir

de la rosa ya muerta.

 

Y tú te tiendes sobre la yerba:

cuando apenas si el viento

contiene su rigor,

al mirar en ruina

los muros de tu espalda,

y, el sol, ni se detiene

a levantar tu sangre del silencio.

 

Todos se acercan y me dicen:

– La vida se te va.

Tú, vienes de la orilla

donde crece el romero y la alhucema(2)

entre la nieve y el jazmín, eternos,

y, es un mar todo espumas

lo que aquí te ha traído

porque nos hables...

Y tú te duermes sobre la yerba.

 

Todos se acercan para decirme:

– Tú duermes en la tierra

y tu corazón sangra

y sangra, gota a gota,

ya sin dolor, encima de tu sueño,

como en lo más oscuro

del jardín, en la noche,

ya sin olor, se muere la violeta.

 

Todos vienen a darme consejo.

Yo estoy dormido junto a un pozo.

 

Sólo, si algún amigo

se acerca, y, sin pregunta

me da su abrazo entre las sombras:

lo llevo hasta asomarnos

al borde, juntos, del abismo,

y en sus profundas aguas

ver llorar a la luna y su reflejo,

que más tarde ha de hundirse

como piedra de oro,

bajo el otoño frío de la muerte.

 

Rapaz descansando

(Paul Cézanne: pintor francês)

 

Adormecido sobre a relva

 

Todos vêm dar-me conselhos.

Estou adormecido junto a um poço.

 

Todos se aproximam e dizem-me:

– A vida está a escapar-te,

e deitas-te sobre a relva,

sob a luz mais tênue do crepúsculo,

atento apenas

a contemplar como nasce

o frêmito da estrela d’alva

ou o pequeno murmúrio

da água, entre as árvores.

 

E deitas-te sobre a relva:

quando os teus cabelos já

começam a sentir,

mais perto e frios do que nunca,

a carícia e o beijo

da mão constante

e o sonho da lua.

 

E deitas-te sobre a relva:

quando mal consegues

sentir no teu lado

o úmido calor

do grão que germina

e o amargo estalido

da rosa já morta.

 

E deitas-te sobre a relva:

quando mal o vento

contém o seu rigor,

ao ver em ruínas

os muros de tuas costas,

e o sol nem sequer se detém

para levantar o teu sangue do silêncio.

 

Todos se aproximam e dizem-me:

– A vida está a escapar-te.

Tu, vens da margem onde, eternos,

crescem o alecrim e a alfazema

entre a neve e o jasmim,

e foi um mar todo espumas

que te trouxe até aqui

para que nos fales...

E adormeces sobre a relva.

 

Todos se aproximam para me dizer:

– Tu dormes sobre a terra

e teu coração sangra

e sangra, gota a gota,

já sem dor, sobre o teu sonho,

como no mais escuro

do jardim, na noite,

já sem perfume, morre a violeta.

 

Todos vêm dar-me conselhos.

Estou adormecido junto a um poço.

 

Apenas se algum amigo

se aproxima e, sem perguntar,

me dá um abraço entre as sombras:

eu o levo até nos debruçarmos

juntos à beira do abismo

para, em suas profundas águas,

vermos chorar a lua e o seu reflexo,

que mais tarde há de afundar-se

como uma pedra de ouro,

sob o frio outono da morte.

 

Notas:

 

(1). A comunicação com os outros é impossível: o poço simboliza o efeito opaco da solidão. (ORTEGA, 1987, n.r., p. 99)

 

(2). Alhucema: Alfazema, planta com caules lenhosos, folhas ligeiramente pubescentes e flores azuis perfumadas em espigas, utilizada em perfumaria; lavanda.

 

Referências:

 

PRADOS, Emilio. Dormido en la yerba. In: __________. Jardín cerrado. Edición de Juan Manuel Díaz de Guereñu. Madrid, ES: Ediciones Cátedra, 2000. p. 235-237. (Letras Hispánicas)

 

ORTEGA, Esperanza (Edición, introducción, notas, comentarios y apéndice). Antología de la generación del 27: varios autores. Madrid, ES: Anaya, 1987. p. 98-99. (Biblioteca Didáctica Anaya; v. 23)

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segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Heinrich Heine - O conteúdo que um poema encarna

Heine, nesta abordagem concreta e artesanal da criação literária, rejeita a ideia de que o poema surja do nada, afirmando que, à semelhança da criação divina, o poeta necessita de matéria prévia para dar forma à sua visão, transformando-a num artefato autoconsciente, bem mais além de sua origem bruta.

 

Trata-se, como se vê, de uma paródia dessacralizadora do relato bíblico, a equiparar o poeta com qualquer outro criador, com Deus inclusive – em sua versão judaico-cristã –, a quem nega a capacidade de criar “ex nihilo”: a seu ver, o que dá origem à espécie humana – e, por analogia, ao poema – não seria o pó sagrado a partir do qual o Criador moldou Adão, mas a matéria-prima mais mundana, até ignóbil – dir-se-ia vulgar, anti-idealista e corpórea –, logo convertida, pelo ofício e pela técnica, em uma obra de arte grávida de valor, sentido e beleza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Heinrich Heine

(1797-1856)

Retratado por Moritz Daniel Oppenheim

 

Der Stoff, das Material des Gedichts

 

Der Stoff, das Material des Gedichts,

Das saugt sich nicht aus dem Finger;

Kein Gott erschafft die Welt aus nichts,

Sowenig wie irdische Singer.

 

Aus vorgefundenem Urweltsdreck

Erschuf ich die Männerleiber,

Und aus dem Männerrippenspeck

Erschuf ich die schönen Weiber.

 

Den Himmel erschuf ich aus der Erd’

Und Engel aus Weiberentfaltung;

Der Stoff gewinnt erst seinen Wert

Durch künstlerische Gestaltung.

 

(1844)

 

Ilusão espacial da matéria

(Sergio Arcos: artista colombiano)

 

O conteúdo que um poema encarna

 

O conteúdo que um poema encarna

Jamais surgiu num estalar de dedos;

Se demiurgos não criam do nada,

Ah, muito menos os mortais aedos.

 

Do preexistente lixo primordial

Foi que eu formei o corpo masculino;

Dele eu tirei o osso com o qual

Moldei o da mulher ainda mais lindo.

 

O céu saiu do entulho aqui da Terra,

Os anjos desdobrei da mulherada;

Somente pelo esforço do “poeta” –

É que a matéria é valorizada.

 

(1844)

 

Referência:

 

HEINE, Heinrich. Der stoff, das material des gedichts / O conteúdo que um poema encarna. Tradução de André Vallias. In: __________. Heine, hein? – poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo, SP: Perspectiva; Goethe Institut, 2011. Em alemão: p. 260, em português: p. 261. (Coleção “Signos”; v. 53)

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domingo, 25 de outubro de 2026

Robert Graves - A Linguagem das Estações

De um lado, a verdade elementar da vida natural; do outro, a artificialidade da urbe: eis aí o tema de que trata este poema de Graves. Para ele, o homem somente no campo recupera a sua linguagem primária, na qual conceitos abstratos, como o amor e o tempo, traduzem-se em realidades tangíveis e, com alguma frequência, desconfortáveis.

 

Já agora, estamos nós marcados pela linguagem do intelectualismo, pela psicologia, pela abstração; uma linguagem que media e dilui a experiência direta nos domínios do entorno citadino, onde se percebe o clima somente como frio ou calor, pelo uso de casacos ou roupas térmicas, pelas flores artificiais e exóticas sem quaisquer conexões com a ordem natural.

 

Parece-lhe, sob tal perspectiva, que a natureza, com os seus ciclos ineludíveis e suas leis implacáveis, seria o único dicionário legítimo para compreender a própria vida, mensurá-la, avaliar-lhe as consequências físicas reais, seus extremos de abundância e de escassez, em conexão tanto com a beleza quanto com a destruição – diga-se por oportuno, à maneira dos antigos, cuja sabedoria muito se fundamentava no ritmo das estações.

 

Daí porque aos olhos de Graves a nossa desaprovação a tal infringência aos repertórios do meio ambiente há de ser “legitimista”, um termo político a vincular a ordem natural com um direito monárquico divino que não deve ser violado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Graves

(1895-1985)

 

Language of the Seasons

 

Living among orchards, we are ruled

By the four seasons necessarily:

This from unseasonable frosts we learn

Or from usurping suns and haggard flowers –

Legitimist our disapproval.

 

Weather we knew, not seasons, in the city

While, seasonless, orange and orchid shone,

Knew it by heavy overcoat or light,

Framed love in later terminologies

Than here, where we report how weight of snow,

Or weight of fruit, tears branches from the tree.

 

Parada das Estações

(Anne Gifford: artista norte-americana)

 

A Linguagem das Estações

 

Vivendo entre pomares, somos regidos

Necessariamente pelas quatro estações:

Aprendemo-las com as geadas fora de época

Ou com sóis usurpadores e flores murchas –

Legitimista é a nossa desaprovação.

 

Na cidade, conhecíamos o clima, não as estações,

Já que lá, orquídeas e laranjas reluzem intempestivas;

Sabíamo-lo pelos casacos pesados ou leves,

o amor delimitado em terminologias mais tardias

Que as daqui, onde percebemos como o peso da neve

Ou dos frutos arrancam os ramos das árvores.

 

Referência:

 

GRAVES, Robert. Language of the seasons. In: __________. Poems: 1938-1945. 1st ed. New York, NY: Farrar, Straus and Giroux, 1967. p. 23.

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