Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 6 de março de 2026

Daniel Faria - Prometo-te a palma da minha mão para a escrita

Num tom ritual, pejado de referências simbólicas, esta seção “Do ciclo das intempéries” enceta um discurso poético algo místico, no qual o ato de escrever revela-se como sagrado, a passagem do tempo converte-se num mistério contemplativo, e a natureza – as magnólias, as estações, as águas – interpõe-se entre o humano e o divino.

 

Pode-se fazer, por conseguinte, uma leitura em chave espiritual do poema, ao se depreender em cada gesto – de escrever, de contemplar, de deitar lágrimas – um código capaz de abrir portas para o invisível, região próspera em visões e revelações, em epifanias suscitas pelo fluxo das palavras, correntes num rio a deitar sulcos inéditos para uma outra ordem de conhecimento e de compreensão do mundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Daniel Faria

(1971-1999)

 

Do ciclo das intempéries

 

8

 

Prometo-te a palma da minha mão para a escrita.

Cerca-a de magnólias, cerca-me. Podes fechar a escrita

No interior da mão ou na boca dos livros

Podes esquecê-la ou libertá-la dos mil botões

Que ela sopra no interior dos homens.

Podes mandá-la àqueles que mais amas

Ou como pétalas e mensagens nas anilhas das aves

Aos teus próprios inimigos.

Podes desarmá-la para propagares as chamas.

Dou-te, como desde sempre, o poder

De escreveres na pele da minha mão

As promessas que te fiz. Sabes que existo

E que vou repetir-te todas as coisas outra vez.

 

As estações, por exemplo – não sou o único que o digo –,

Não rodam à maneira dos carrosséis no largo. No Outono

A magnólia é pensativa como o homem

Que te olha por detrás da janela onde te escrevo.

No Inverno os vidros vão embaciando – aproxima

A tua mão da paisagem que resta

Como se fora o lado do verbo que encarnou. Repara

No banco de pedra – ele está

Sobre ti.

Tu és a criança sentada

Que olha para o céu. Há um tesouro

No céu – um coração novo. Reconheces

A magnólia estelar? O interstício solar

Da pupila celeste? Ela está sobre ti

E contempla – é verdade que é pelas lágrimas

Que começam as visões.

 

Sim. Agora posso explicar-te o mistério das águas.

Debruça-te como ele quando escreveu no chão

Irás entender – elas jorram das palavras.

 

Em: “Dos Líquidos” (2000)

 

Magnólia rosa

(Kay Shanley: artista tasmaniana)

 

Referência:

 

FARIA, Daniel. Prometo-te a palma da minha mão para a escrita. In: __________. Poesia. Edição de Vera Vouga. 1. ed. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, mai. 2012. p. 344-345.

quinta-feira, 5 de março de 2026

Frank O’Hara - Aubade

Num tom surrealista e carregado de ambiguidades, O’Hara mescla imagens oníricas, elementos da natureza e uma velada sensualidade, detendo-se particularmente em andamentos que representam transições – como entre sombras e luzes, ocultamento e revelação, o efêmero e o eterno –, mediante os quais objetiva perscrutar o sentido da existência no instante mesmo em que o mundo dos sonhos se esvai com o advento da alba, e uma sensação de suavidade e harmonia passa a dominar o espírito do falante.

 

A propósito, a interação que se estabelece entre o sujeito lírico e a vastidão do universo sugere haver maior consistência na lida humana quando se entra em conexão equilibrada com a dinâmica e a transitoriedade do mundo que nos rodeia, como se o falante dissesse: “Minha vida não se rende a uma categórica explicação lógica, pois que representa não mais que um intento – tornar-se sal, vento e movimento no mar”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Frank O’Hara

(1926-1966)

 

Aubade (*)

 

to Jimmy Scluyler

 

A million stars are dreaming out

the murderous whims of the apples.

Sinking like celestas in the dawn

already growing faint, beyond temples

 

whose silent throbbing dictates

a green life to my waking heart. Bids

the bones that decorate this shore

become the pearl of loved eyelids’

 

sunlight, withdrawn until unseen

at night, when like the cat’s hand,

the sea, they warmly flutter near

upon the belly of the sable sand.

 

A meaning of my life volleys

thus into the sky to rest, breathes

upon these vessels by the sea,

to be wrought in the frothing waves.

 

New York, October 1952

 

A Aubade

(Pablo Picasso: pintor espanhol)

 

Aubade

 

A Jimmy Scluyler

 

Um milhão de estrelas estão a sonhar

com os caprichos mortíferos das maçãs.

Soçobram como celestas na aurora

já a desvanecer para além dos templos,

 

cujo pulsante silêncio apregoa

uma vida de verdor ao meu coração desperto.

Ordenam aos ossos que guarnecem este litoral

para que se tornem pérola de luz solar

 

a diletas pálpebras, retraídos sem serem vistos

até a noite, quando, como uma pata felina,

o mar os faz tremeluzir calorosamente

rente ao ventre da areia escura.

 

Um dos sentidos do meu viver lança-se

assim ao céu para repousar, sopra

sobre estes batéis à beira-mar,

para ser forjado em meio às ondas espumantes.

 

Nova Iorque, outubro de 1952

 

Nota:

 

(*). Aubade é uma palavra francesa que significa “na alvorada do século”. Em inglês, aubade pode ter dois significados: (i) uma canção ou poema que saúda o amanhecer; ou (ii) um prelúdio ou abertura romântica ou idílica.

 

Referência:

 

O’HARA, Frank. Aubade. In: __________. The collected poems of Frank O’Hara. Edited by Donald Allen with an introduction by John Ashbery. 1st print. Berkeley, CA: University of California Press, 1995. p. 106.

quarta-feira, 4 de março de 2026

Edith Södergran - Beleza

A escritora e poetisa finlandesa, numa escrita em sueco, discorre vividamente sobre a natureza multifacética da beleza, ampliando o seu conceito para abarcar uma gama de experiências humanas e fenômenos naturais, desde o sublime até o trágico, pois que lhe parece não se tratar de algo linear ou superficial, senão de uma expressão dinâmica e, em determinados sentidos, até mesmo paradoxal.

 

Digo isto porque ela não radica unicamente no que se nos apresenta como agradável ou harmonioso, mas também no que se nos revela pungente ou doloroso, haja vista que mesmo na tristeza pode haver uma forma de beleza com potencial para comover e engrandecer o espírito – o que, de alguma forma, revela outro de seus atributos, a saber, a capacidade para reconciliar opostos.

 

Södergran sugere, ademais, que a verdadeira beleza surge quando alguém ousa se tornar autêntico, único, irrepetível, forjando um selo de autenticidade a tudo o que cursa pela via de seus pensamentos, falas e ações – característica inconfundível de uma existência humana em seu estado mais puro, especifique-se melhor, sem máscaras, sem afetações.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edith Södergran

(1892-1923)

 

Skönhet

 

Vad är skönhet? Fråga alla själar –

skönhet är varje överflöd, varje glöd, varje överfyllnad

och varje stort armod;

skönhet är att vara sommaren trogen och naken intill

hösten;

skönhet är papegojans fjäderskrud eller solnedgången

som bebådar storm;

skönhet är ett skarpt drag och ett eget tonfall: det är jag,

skönhet är en stor förlust och ett tigande sorgetåg,

skönhet är solfjäderns lätta slag som väcker ödets fläkt;

skönhet är att vara vällustig som rosen eller att förlåta

allting för att solen skiner;

skönhet är korset munken valt eller pärlbandet damen

får av sin älskare,

skönhet är icke den tunna såsen i vilken diktare servera

sig själva,

skönhet är att föra krig och söka lycka,

skönhet är att tjäna högre makter.

 

Från: “Samlade dikter” (1949)

 

Mulher com um leque

(Jean D. A. Metzinger: pintor francês)

 

Beleza

 

O que é beleza? Pergunta a todas as almas –

beleza é toda abundância, toda brasa, todo excesso

e toda grande pobreza;

beleza é ser fiel ao verão e estar nu para o outono;

beleza é a veste emplumada do papagaio

ou o pôr-do-sol pressentindo tempestades;

beleza é um traço marcado e um tom próprio: sou eu,

beleza é uma grande perda e um cortejo silente,

beleza é o pulsar leve do leque despertando o sopro

do destino;

beleza é ser prazeroso como a rosa ou tudo perdoar

porque brilha o sol;

beleza é a escolha monástica da cruz ou

o colar de pérolas que a mulher recebe do amado,

beleza não é o molho ralo com que o poeta serve

a si mesmo,

beleza é declarar guerra e buscar felicidade,

beleza é servir aos poderes do alto.

 

Em: “Poemas coligidos” (1949)

 

Referências:

 

Em Sueco

 

SÖDERGRAN, Edith. Skönhet. In: __________. Dikter. Helsingfors / Borgå, FI: Holger Schildts Förlag, 1916. s. 87-88.

 

Em Português

 

SÖDERGRAN, Edith. Beleza. Tradução de Marcia Sá Cavalcante Schuback. Poesia sempre: revista trimestral de poesia. Suécia. Fundação Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro (RJ), ano 13, n. 25, p. 148, 2006.

terça-feira, 3 de março de 2026

Adília Lopes - Eu quero foder foder

Numa voz singular e provocativa, Adília combina nestes versos elementos de crítica sócio-política, feminismo e perscrutação psicológica, utilizando o ato sexual quer como metáfora para a aspiração libertadora que tem em mente, quer como lente para pôr em evidência o modo como as estruturas de poder penetram os espaços íntimos ou privados – onde, a seu ver, há de ocorrer a verdadeira “revolução”, com o objetivo de se atender às mais imediatas necessidades humanas.

 

Em busca de plenitude e de autenticidade, a poetisa propõe a insurgência contra as estruturas opressoras do modo de produção capitalista, sistema que a tudo submete e coloniza tendo em vista os seus interesses, inclusive, claro está, a expressão do sexo e a definição dos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres, alentando-as com falsas expectativas, as quais, ao fim e ao cabo, sujeitam-as a uma cultura de otimismo obrigatório ou de felicidade forçada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adília Lopes

(1960-2024)

 

Eu quero foder foder

 

Eu quero foder foder

achadamente

se esta revolução

não me deixa

foder até morrer

é porque

não é revolução

nenhuma

a revolução

não se faz

nas praças

nem nos palácios

(essa é a revolução

dos fariseus)

a revolução

faz-se na casa de banho

de casa

da escola

do trabalho

a relação entre

as pessoas

deve ser uma troca

hoje é uma relação de poder

(mesmo no foder)

a ceifeira ceifa

contente

ceifa nos tempos livres

(semana de 24 x 7 horas já!)

a gestora avalia

a empresa

pela casa de banho

e canta

contente

porque há alegria

no trabalho

o choro da bebé

não impede a mãe

de se vir

a galinha brinca

com a raposa

eu tenho o direito

de estar triste

 

Em: “Florbela Espanca espanca” (1999)

 

Imagem sem créditos

 

Referência:

 

LOPES, Adília. Eu quero foder foder. In: __________. Dobra: poesia reunida (1983-2021). Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2021. p. 374.