Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Adrienne Rich - Agosto

Mais do que uma paisagem estival, este poema de Rich é uma viagem a partir de observações que lhe são externas até uma profunda revelação interna, a resultar numa cisão com o passado traumático, num grito de autonomia e de ruptura radical com as estruturas que compõem o núcleo do patriarcado: a propriedade paterna sobre os filhos – especialmente os varões e os herdeiros –, arrimada em controles, violências quotidianas e em encenações egoístas de pretensos sofrimentos que tentam disfarçar as ganas da opressão.

 

As linhas cruciais e mais radicais do poema – “se sou morte para o homem / preciso sabê-lo” – revelam, por parte da falante, esse imperativo categórico de autoconhecimento, disruptivo e estarrecedor, a demarcar o fim de um “conceito” de homem, de uma forma de poder masculino que a define e a limita, tanto física quanto psiquicamente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adrienne Rich

(1929-2012)

 

August

 

Two horses in yellow light

eating windfall apples under a tree

 

as summer tears apart milkweed stagger

and grasses grow more ragged

 

They say there are ions in the sun

neutralizing magnetic fields on earth

 

Some way to explain

what this week has been, and the one before it!

 

If I am flesh sunning on a rock

if I am brain burning in fluorescent light

 

if I am dream like a wire with fire

throbbing along it

 

if I am death to man

I have to know it

 

His mind is too simple, I cannot go on

sharing his nightmares

 

My own are becoming clearer, they open

into prehistory

 

which looks like a village lit with blood

where all the fathers are crying: My son is mine!

 

Solstício de verão:

em memória da castanheira americana

(Charles E. Burchfield: pintor norte-americano)

 

Agosto

 

Dois cavalos na luz amarela

comendo, debaixo duma árvore, maçãs derrubadas pelo vento

 

enquanto o verão se desfaz, as plantas cambaleiam

e a relva fica crestada

 

Dizem que há íons no sol

neutralizando campos magnéticos na terra

 

Que maneira de explicar

o que foi esta semana e a que a precedeu!

 

Se eu sou carne tostando sobre pedras

se eu sou cérebro queimando na luz fluorescente

 

se eu sou sonho como um fio flamante

pulsando com ele

 

se eu sou morte para o homem

preciso sabê-lo

 

Sua mente é simples demais. Não posso continuar

compartilhando seus pesadelos

 

Os meus próprios tornam-se mais claros, abrem-se

para a pré-história

 

que parece um vilarejo aceso com sangue

onde todos os pais estão gritando: Meu filho me pertence!

 

Referência:

 

RICH, Adrienne. August / Agosto. Tradução de Olga Savary. In: KEYS, Kerry Shawn (Org.). Quingumbo - Nova poesia norte-americana: antologia. Edição bilíngue: inglês x português. Vários tradutores. São Paulo, SP: Escrita, 1980. Em inglês: p. 174; em português: p. 175. (Coleção “Marginais, profetas e malditos”)

domingo, 2 de agosto de 2026

Derek Walcott - A Estação da Paz Fantasmagórica

Walcott tece uma visão onírica de um instante suspenso no tempo, entre o ocaso e a noite, circunstanciado por uma paz efêmera, fantasmagórica, a emergir do voo coletivo das aves – legítimas representantes da liberdade e do êxtase natural –, empregando-o como uma metáfora da harmonia e da graça que pode haver todos os seres – os pássaros e os homens aí inclusos.

 

Esse momento transitório revela-se carregado de eternidade, transpassando estações e diferenças, comos se fosse um breve parêntese a abrir a porta ao sagrado no intercurso silencioso entre o visível e o invisível, quando então a natureza se nos apresenta como mediadora de um “Amor” reparador, oferecendo-nos lenitivos para superar os agravos de nossas misérias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Derek Walcott

(1930-2017)

 

The Season of Phantasmal Peace

 

Then all the nations of birds lifted together

the huge net of the shadows of this earth

in multitudinous dialects, twittering tongues,

stitching and crossing it. They lifted up

the shadows of long pines down trackless slopes,

the shadows of glass-faced towers down evening streets,

the shadow of a frail plant on a city sill –

the net rising soundless as night, the birds’ cries soundless, until

there was no longer dusk, or season, decline, or weather,

only this passage of phantasmal light

that not the narrowest shadow dared to sever.

And men could not see, looking up, what the wild geese drew,

what the ospreys trailed behind them in silvery ropes

that flashed in the icy sunlight; they could not hear

battalions of starlings waging peaceful cries,

bearing the net higher, covering this world

like the vines of an orchard, or a mother drawing

the trembling gauze over the trembling eyes

of a child fluttering to sleep;

it was the light

that you will see at evening on the side of a hill

in yellow October, and no one hearing knew

what change had brought into the raven’s cawing,

the killdeer’s screech, the ember-circling chough

such an immense, soundless, and high concern

for the fields and cities where the birds belong,

except it was their seasonal passing, Love,

made seasonless, or, from the high privilege of their birth,

something brighter than pity far the wingless ones

below them who shared dark holes in windows and in houses,

and higher they lifted the net with soundless voices

above all change, betrayals of falling suns,

and this season lasted one moment, like the pause

between dusk and darkness, between fury and peace,

but, for such as our earth is now, it lasted long.

 

In: “The Fortunate Traveller” (1981)

 

Através de pássaros, através do fogo,

mas não através do vidro

(Yves Tanguy: pintor francês)

 

A Estação da Paz Fantasmagórica

 

Entrementes, linhagens de aves, todas juntas,

ergueram a enorme rede de sombras desta Terra,

em multitudinários dialetos, línguas chilreantes,

cosendo-a e entrelaçando-a. Ergueram

as sombras dos longos pinheiros nas encostas sem trilhas,

as sombras de torres envidraçadas ao cair da tarde,

a sombra de uma planta frágil no peitoril de uma janela da cidade –

a rede a se erguer silenciosa como a noite, inaudível o galreio das aves,

até que não houvesse mais crepúsculo, estação, ocaso ou intempérie,

somente esta passagem de luz fantasmagórica

que nem mesmo a mais tênue sombra teve a ousadia de romper.

E os homens, olhando para cima, não podiam ver o que

os gansos selvagens puxavam,

o que as águias-pesqueiras arrastavam atrás de si em cordas prateadas

que reluziam à gélida luz solar; não podiam ouvir

os batalhões de estorninhos a soltar gritos pacíficos,

erguendo mais alto a rede, cobrindo este mundo

como as videiras de um pomar, ou uma mãe a passar

a gaze trêmula sobre os trêmulos olhos

de uma criança que está prestes a dormir;

 era a luz

que se vê ao entardecer na encosta de uma colina

no amarelado outubro, e ninguém, à escuta, saberia dizer

qual mudança havia se infundido no grasnar do corvo,

no guincho do maçarico-real, na gralha ao redor das brasas,

uma tão vasta, insondável e acentuada inquietude

pelos campos e cidades onde as aves se sentem à vontade

– a não ser pelo fato, Amor, de que era a sua passagem sazonal,

sob a feição de uma estação acrônica, ou, pelo alto privilégio

do seu nascimento,

algo mais refulgente do que a piedade pelos desprovidos de asas que,

sob elas, partilham tocas escuras em janelas e casas –,

levando-as a erguer mais alto a rede com vozes inaudíveis

acima de toda mudança, traições de sóis cadentes;

e essa estação durou um momento, como a pausa

entre o crepúsculo e a escuridão, entre a fúria e a paz,

mas, para o que a nossa Terra é agora, longa foi a sua duração.

 

Em: “O Viajante Afortunado” (1981)

 

Referência:

 

WALCOTT, Derek. The season of phantasmal peace. In: __________. Collected poems: 1948-1984. 1st publ. London, EN: Faber and Faber, 1992. p. 464-465.

sábado, 1 de agosto de 2026

Yehuda Amihai - O Diâmetro da Bomba

Amihai emprega a metáfora geométrica dos círculos concêntricos para demonstrar o contrário do que sugere a avalição inicial acerca das consequências da explosão de uma bomba: o verdadeiro raio de seus efeitos é infinito, não apenas matar e ferir corpos, senão lesionar o tecido mesmo da humanidade, estendendo-se no espaço – desde o seu epicentro até pontos geográficos os mais distantes – e na consciência – desde o plano físico até o espiritual.

 

Não há “ataques cirúrgicos”, como se costuma dizer nas pretensas investidas com objetivos definidos, pois que tal orientação extrapola a própria lógica das conflagrações modernas, cuja eficácia é mensurada exatamente pelo número de baixas que é capaz de desencadear. Como corolário, a dor daí derivada, desconhecendo quaisquer contornos geopolíticos, amplifica-se numa ferida cósmica que não pode ser contida, remediada ou inclusive apreendida por nenhuma força superior.

 

J.A.R. – H.C.

 

Yehuda Amihai

(1924-2000)

 

O Diâmetro da Bomba

 

Trinta centímetros era o diâmetro da bomba

cujo raio efetivo de ação

– cerca de sete metros –

continha quatro mortos e onze feridos.

E ao seu redor, aqui e ali, num círculo

mais amplo de dor e tempo,

há dois hospitais e um cemitério.

Mas a jovem enterrada em seu

lugar de origem

a mais de cem quilômetros de distância

amplia consideravelmente o círculo.

E o homem solitário que, num canto remoto

de um país do além-mar, chora-lhe a morte

inclui no círculo o mundo inteiro.

Não vou sequer falar do pranto dos órfãos

que alcança o trono de Deus

e o ultrapassa, criando

um círculo sem fim nem Deus.

 

O caos se desenreda

(Grey Anatoli Cross: artista norte-americano)

 

Referência:

 

AMIHAI, Yehuda. O diâmetro da bomba. In: ASCHER, Nelson (Tradução e Organização). Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. p. 356. (Coleção “Lazuli”)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Mário Beirão - Da Ausência Miraculosa

Este poema de Beirão fez-me lembrar, pelo título e pela temática, de um outro poema já aqui postado, nomeadamente, “País da Ausência”, da chilena Gabriela Mistral (1889-1957): ambos se fixam na ausência para enfatizar o quanto a verdadeira essência da existência se revela, por mais paradoxal que seja, na fugacidade do momento.

 

Na abordagem de Beirão, contudo, a efemeridade da vida vincula-se a um momento de epifania experimentado diante do que é inerentemente transitório – impossível de se fixar ou de se possuir, quer seja tangível – como uma rosa – quer intangível – a exemplo de um pensamento ou da própria identidade –, sem que se deixe, nada obstante, de contemplar a beleza que lhe corresponde num vislumbre indicativo do eterno.

 

A presença neste mundo, sob tal contexto, passa a ser percebida como uma ilusão, uma “cega miragem, no deserto triste”, haja vista que tudo o que apreendemos como real e palpável nada mais se equipara do que a um espelhismo no ermo da existência. Contudo, daquilo que se perde a cada instante, do vazio que sobrevém à ausência das coisas, assoma a graça de uma força espiritual reveladora, uma “Manhã de Anunciação” grávida de promessas, de esperanças numa dádiva divina.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mário P. G. Beirão

(1890-1965)

 

Da Ausência Miraculosa

 

Incerta é a Vida; incerto, o instante...

 

Essa rosa de seda e mármore, de lindo

Esplandecer, toda em louçãos

Brincos de Abril, aroma penetrante,

Morreu, desfeita, em minhas mãos,

Quando a colhi, morreu,

No mesmo instante em que, sorrindo,

Me entremostrara o Céu!

 

Esta imagem do inquieto pensamento,

Que, de surpresa, acode e me fascina,

Vou a fixá-la e já se vai no vento,

E, no vento, saudosa, peregrina...

Quando falamos,

É para além de nós

Que, súbito, escutamos,

Nos ecos, longe, o mar da nossa voz...

 

Tudo nos foge e deixa,

No pó da estrada, míseros, a olhar:

Seja estrela a nascer... sonho a florir...

Música em fumos de perdida endecha...

Nuvem que doira o ar...

Partir! Partir! Não há senão partir!

 

Quero ter o sentido,

Quero apreender o fim

Do que me cerca... (e o imaginar cansa, vencido!).

Sei lá quem sou, quando reparo em mim!

 

Este instante que passa, este instante que passa,

Fulge e apaga-se... existe e não existe...

 

– Presença, és outra forma da Ilusão,

Cega miragem, no deserto triste!

 

É só na Ausência

Que a vida se revela, em sua essência...

 

A Ausência é luz, espírito da Graça,

Manhã de Anunciação!

 

Em: “O Pão da Ceia” (1964)

 

A virada do tempo

(Natali Antonovich: artista bielorrussa)

 

Referência:

 

BEIRÃO, Mário. Da ausência miraculosa. In: __________. Poesias completas. Edição organizada por António Cândido Franco e Luís Amaro. Prefácio de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa, PT: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, jun. 1996. p. 587. (“Biblioteca de Autores Portugueses”)