Em poucas palavras,
Randall, poeta afro-americano, consegue transmitir o seu prospecto para uma
luta histórica, a saber, a de afirmação da identidade e de libertação cultural
da comunidade negra, pois que lhe parece que a liberdade política e social há
de ser acompanhada, também, por uma reconstrução interna.
A luta vai bem além
das pautas de rua ou de salvaguardas jurídicas, devendo alcançar a psique
coletiva, mediante o desmantelamento das cadeias mentais da opressão, para,
desse modo, poder se forjar, com orgulho e consciência histórica, uma nova
identidade baseada na autêntica, serena e clássica beleza de ser negro.
Não mais a máscara do
estereótipo racista – a do menestrel (vide nota ao final desta postagem) –, mas
uma que revele a verdadeira essência, dignidade e poder da herança do povo negro,
teluricamente conectada às forças vitais e aos seus ancestrais; não mais a
expressão caricatural torpe, consectária às formas coercivas de escravidão na
América, mas uma autoimagem restaurada, com lastro na autonomia e na grandeza da
vida pré-colonial em África.
J.A.R. – H.C.
Dudley Randall
(1914-2000)
A Different Image
The age
requires this task:
create
a different image;
re-animate
the mask.
Shatter the icons of
slavery and fear.
Replace
the leer
of the minstrel’s
burnt-cork face (*)
with a proud, serene
and classic bronze of
Benin.
Esqueleto a deter as
máscaras
(James Ensor: pintor
belga)
Uma Imagem Diferente
A época
exige esta tarefa:
criar
uma imagem diferente;
reanimar
a máscara.
Despedaçar os ícones
da escravidão e do medo.
Substituir
o riso torpe
do rosto de cortiça queimada
do menestrel
por um orgulhoso,
sereno
e clássico bronze de
Benim.
Nota:
(*). Trata-se de uma referência
direta aos espetáculos de blackface (rostos pintados de negro), uma
forma de entretenimento extremamente popular nos séculos XIX e início do XX nos
EUA e na Europa.
Nesses espetáculos,
artistas brancos pintavam seus rostos de negro com cortiça queimada e
exageravam os lábios, criando uma caricatura grotesca e desumanizante das
pessoas negras, tudo como forma de representar os estereótipos racistas: o
negro ignorante, preguiçoso, supersticioso, covarde e musical, sempre pronto
para servir e fazer palhaçadas.
A palavra “leer” pode
ser entendida, por conseguinte, como a expressão facial que acompanhava essa
caricatura – o sorriso exagerado e vazio, o olhar arregalado e supostamente “ingênuo”
ou “astuto”, em reforço a tais estereótipos; em suma, a personificação visual
do racismo internalizado e disseminado pela cultura popular.
Referência:
RANDALL, Dudley. A
different image. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth
century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 175.
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