Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Sylvia Plath - Decisão

Como se fosse uma tênue luminosidade na neblina, uma força resistiva que, de súbito, assoma da aparente passividade, a “Decisão” do título firma-se na escolha da falante em sobreviver mais um dia, simplesmente recusando-se a ser arrastada pela corrente do desespero e de expectativas alheias.

 

Nota-se nos versos um quadro de languidez, de alienação, de exclusão, de impotência, tão comum em certos casos de depressão, com potencial para levar à paralisia física e criativa, a uma incapacidade para agir que não seja tão apenas por meio de gestos automáticos, sem maiores propósitos no irreversível transcurso dos dias.

 

Nenhuma epifania sobrevém, nenhuma graça – o mundo não oferece consolo nem beleza transcendente, senão uma sequência interminável de desgastes –, suscitando na narradora a decisão de não agir, de não gastar energia em uma batalha em que se sente incapaz de vencer, de não participar desse jogo de aparências e lutas inglórias.

 

Ou de outro modo: quem quer que sejam os seus “doze examinadores vestidos de preto”, formação clássica de um júri – v.g., a sociedade, a crítica literária ou as vozes internalizadas de expectativa e de julgamento –, decide a voz lírica “desencantá-los”, desapontá-los, não cumprir-lhes as exigências, preferindo preservar as suas forças.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sylvia Plath

(1932-1963)

 

Resolve

 

Day of mist: day of tarnish

 

with hands

unseviceable, I wait

for the milk van

 

the one-eared cat

laps its gray paw

 

and the coal fire burns

 

outside, the little hedge leaves are

become quite yellow

a milk-film blurs

the empty bottles on the windowsill

 

no glory descends

 

two water drops poise

on the arched green

stem of my neighbor’s rose bush

 

o bent bow of thorns

 

the cat unsheathes its claws

the world turns

 

today

today I will not

disenchant my twelve black-gowned examiners

or bunch my fist

in the wind’s sneer.

 

In: “Poems” (1956-1963)

 

Mulher no Jardim

(Claude Monet: pintor francês)

 

Decisão

 

Dia nublado: dia cinzento

 

fico

de mãos bobas

esperando o leiteiro

 

o gato de uma orelha

lambe a pata cinza

 

e ardem brasas em chamas

 

lá fora, vão ficando amarelinhas

as folhas da trepadeira

uma fina fita de leite

embaça garrafas vazias na janela

 

nenhuma glória provém

 

duas gotas se equilibram

numa verde envergada

haste da roseira na casa ao lado

 

ó se arca de espinhos

 

o gato afia as garras

o mundo gira

 

hoje

hoje não irei

desiludir meus doze engalanados examinadores

nem cerrarei meu punho

na ironia do vento.

 

Em: “Poemas” (1956-1963)

 

Referência:

 

PLATH, Sylvia. Resolve / Decisão. Tradução de Elson Fróes. In: FRÓES, Elson (Seleção e tradução). Poemas traduzidos. Edição eletrônica, copyright © Elson Fróes, 2003. Em inglês: p. 28; em português: p. 29.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Augusto Meyer - O poema

Eis mais uma reflexão metalinguística sobre o poder da palavra poética sedimentada no poema, a se erigir como um elemento capaz de vencer a corrosão inevitável do tempo sobre o labirinto de ecos e de reflexos da memória, com o firme propósito de resgatar a essência mais pura de um dado momento, para eternizá-lo num “fruto de aroma misterioso”.

 

É a arte dando sentido à nossa fugaz existência, redimindo-a do olvido pela preservação de nossas lembranças, quer imagéticas quer sensoriais, consolidando-as numa moldura expressiva a albergar o âmago daquilo que se evoca, vale dizer, a verdade cristalizada de um instante que, porventura, vale a pena reter enquanto por aqui estivermos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Meyer

(1902-1970)

 

O poema

 

Corredor do tempo esquecido

Onde o eco responde ao eco,

Em vez de janelas, reflexo

De espelho a espelho, refletido.

 

Que passos repisando passos

Parados vão? A horas mortas,

Fria, uma presença esvoaça

De leves dedos, que abrem portas.

 

Longo é o caminho. Em qualquer parte

Rei dos Ratos rói os brinquedos.

Dos quatro cantos, lá no quarto

Sombras cochicham os teus segredos.

 

Onde a janela que se abria

Ao pôr do sol? Andando em frente,

Andando, andando, eu tocaria

No fim da terra, o ouro do poente.

 

Iriavam-se os cristais do lustre,

Na sala escura o espelho que arde!

Pulava a cortina, de susto,

Ao primeiro sopro da tarde.

 

Mas tudo agora é tão distante!

O rato rói o fio da história.

Só o arrepio de um instante

Sobe a surdina da memória...

 

Súbito, a hora morta no tempo

Amadurece como um fruto!

No misterioso aroma, o poema

Recolhe a essência de um minuto.

 

Parlenga de taverna

(Claus Meyer: pintor alemão)

 

Referência:

 

MEYER, Augusto. O poema. In: __________. Poesias: 1922-1955. Rio de Janeiro, RJ: Livraria São José Editora, 1957. p. 260-261.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Wallace Stevens - Esta Solidão das Cataratas

Como que a resgatar, em boa medida, a milenar oposição entre os pontos de vista de Heráclito e Parmênides, filósofos gregos, sobre a natureza da realidade, estes versos de Stevens exploram o humano esforço em aceitar o fluxo constante de todas as coisas e o nosso persistente desejo de permanência, dilema esse para o qual o poeta propõe uma solução estética pela via do congelamento do tempo através da arte, o próprio homem a converter-se numa peça “arcaica” e eterna.

 

A “solidão” final não é de abandono, mas de autossuficiência e paz, alcançada quando alguém se torna um monumento a si mesmo, respirando perpetuamente no tranquilo centro do turbilhão temporal, contudo imune às mudanças, eis que sob o efeito de uma “realização permanente”, um estado de consciência pura, livre das corriqueiras “oscilações” da existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wallace Stevens

(1879-1955)

 

This Solitude of Cataracts

 

He never felt twice the same about the flecked river,

Which kept flowing and never the same way twice, flowing

 

Through many places, as if it stood still in one,

Fixed like a lake on which the wild ducks fluttered,

 

Ruffling its common reflections, thought-like Monadnocks.

There seemed to be an apostrophe that was not spoken.

 

There was so much that was real that was not real at all.

He wanted to feel the same way over and over.

 

He wanted the river to go on flowing the same way,

To keep on flowing. He wanted to walk beside it,

 

Under the buttonwoods, beneath a moon nailed fast.

He wanted his heart to stop beating and his mind to rest

 

In a permanent realization, without any wild ducks

Or mountains that were not mountains, just to know how it would be,

 

Just to know how it would feel, released from destruction,

To be a bronze man breathing under archaic lapis,

 

Without the oscillations of planetary pass-pass,

Breathing his bronzen breath at the azury centre of time.

 

In: “The Auroras of Autumn” (1950)

 

Cataratas do Niágara pelo lado americano

(Louisa Davis Minot: pintora norte-americana)

 

Esta Solidão das Cataratas

 

Ele jamais voltou a sentir o mesmo pelo salpicado rio,

Que seguia fluindo e nunca da mesma maneira, atravessando

 

Muitos lugares, como se estivesse parado num só,

Fixo como um lago sobre o qual esvoaçassem patos selvagens,

 

A ruflarem seus habituais reflexos, como Monadnocks pensantes. (*)

Parecia haver uma apóstrofe que não se pronunciava.

 

Havia tantas coisas reais que não o eram em absoluto.

Queria senti-las da mesma forma repetidas vezes.

 

Queria que o rio seguisse a fluir do mesmo modo,

Que continuasse a correr. Queria caminhar junto a ele,

 

Sob os plátanos, debaixo de uma lua firmemente cravada no céu.

Queria que seu coração parasse de bater, que sua mente descansasse

 

Numa compreensão permanente, sem quaisquer patos selvagens

Ou montanhas que não fosse montanhas, apenas para saber como seria,

 

Apenas para saber como se sentiria, liberto da destruição,

Ser um homem de bronze respirando sob um arcaico lápis-lazúli,

 

Sem as oscilações do vai-vem planetário,

A respirar o seu brônzeo alento no centro azulado do tempo.

 

Em: “As Autoras do Outono” (1950)

 

Nota:

 

(*). Um “monadnoch” (também conhecido como “inselberg”) é uma formação geológica isolada, geralmente uma colina rochosa ou montanha, que se destaca de uma paisagem circundante mais baixa e plana, chamada peneplano; tais estruturas resistem à erosão porque são compostas de rochas mais duras e resistentes, como granito ou quartzito, enquanto as rochas mais brandas à sua volta desgastam-se mais rapidamente; o termo deriva do Monte Monadnock, em New Hampshire, EUA.

 

Referência:

 

STEVENS, Wallace. This solitude of cataracts. In: __________. The collected poems of Wallace Stevens. 11th print. New York, NY: Alfred A. Knopf, feb. 1971. p. 424-425.

domingo, 16 de agosto de 2026

José Saramago - Ouvindo Beethoven

Neste poema com matizes proponentes de resistência ao autoritarismo, à censura e à desumanização, Saramago, por meio da simples escuta de uma sinfonia de Beethoven, anuncia a certeza da queda dos regimes opressores – a exemplo daquele que vigeu em seu Portugal natal por mais de meio século –, com supedâneo na resiliência do espírito humano.

 

É que a arte tem o poder de nos transformar e libertar de amarras, reforçando-nos o ânimo e oferecendo-nos refúgio, e usufruí-la pode se tornar um ato revolucionário e uma afirmação de que a beleza, o gênio individual e a liberdade de espírito são forças que não se deixam enclausurar por quaisquer formas de repressão ou de controle totalitário do Estado.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Saramago

(1922-2010)

 

Ouvindo Beethoven

 

Venham leis e homens de balanças,

Mandamentos daquém e dalém mundo,

Venham ordens, decretos e vinganças,

Desça o juiz em nós até ao fundo.

 

Nos cruzamentos todos da cidade,

Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,

Risquem no chão os dentes da vaidade

E mandem que os lavemos a vassoura.

 

A quantas mãos existam, peçam dedos,

Para sujar nas fichas dos arquivos,

Não respeitem mistérios nem segredos,

Que é natural nos homens serem esquivos.

 

Ponham livros de ponto em toda a parte,

Relógios a marcar a hora exacta,

Não aceitem nem votem outra arte

Que a prosa de registo, o verso data.

 

Mas quando nos julgarem bem seguros,

Cercados de bastões e fortalezas,

Hão-de cair em estrondo os altos muros

E chegará o dia das surpresas.

 

A Liberdade Guiando o Povo

(Eugène Delacroix: pintor francês)

 

Referência:

 

SARAMAGO, José. Ouvindo Beethoven. In: __________. Os poemas possíveis: poesia. 5. ed. Lisboa, PT: Editorial Caminho, abr. 1999. p. 75. (Coleção “O Campo da Palavra”)

sábado, 15 de agosto de 2026

Nicanor Parra - XLI: Tudo se pode provar com a Bíblia

Parra, naquele seu estilo antagônico ao da poesia tradicional – afinal, é um dos mentores da “antipoesia” – descerra uma crítica, ao mesmo tempo mordaz e irônica, ao uso dogmático dos textos sagrados, a Bíblia em particular.

 

Os versos, como pode ratificar o leitor, são dessacralizadores, diretos e carregados de um humor negro, com o claro propósito de desmontar verdades absolutas: nele, o ceticismo vai a par com a censura ao fanatismo e a má-fé interpretativa, neste caso, quando se altera o significado, corrompendo o texto original para que se encaixe em uma agenda preconcebida.

 

A imagística empregada pelo poeta chileno – uma galinha submetida a esquartejamento – tudo diz: a interpretação fora dos eixos – “viciada” talvez fosse um adjetivo melhor – assemelha-se a uma carnificina, pois em seu curso, despedaça-se o conteúdo bíblico para dele se extrair apenas as partes que interessam ao expositor, ignorando-lhe o contexto, a totalidade e o espírito.

 

O giro final do poema parece dizer que tais impropriedades convertem o debate teológico numa discussão bizantina, trivializando-o, como se fosse apenas uma escusa dos conferentes para se entregarem aos prazeres da bebida.

 

Em suma, Parra nos adverte: desconfiem de quem afirma possuir a verdade única fundamentada em um texto, porque muito provavelmente a está manipulando, haja vista que ela não se encontra pela via do esquartejamento da mensagem, mas buscando compreendê-la em sua complexidade e contradições.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nicanor Parra

(1914-2018)

 

XLI

 

Todo puede probarse con la Biblia

por ejemplo que Dios no existe

por ejemplo que el Diablo manda más

por ejemplo que Dios

es masculino y femenino a la vez

o que la Virgen era liviana de cascos

basta con conocer un poco el hebreo

para poder leerla en el original

e interpretarla como debe ser

es cuestión de análisis lógico

 

Tienen razón los amigos escépticos

todo puede probarse con la Biblia

es cuestión de saberla barajar

es cuestión de saberla adulterar

es cuestión de saberla descuartizar

como quien descuartiza una gallina:

¡pongan otra docena de cervezas!

 

En: “Nuevos sermones y prédicas

del Cristo de Elqui” (1979)

 

Um Velho Lendo

(Hendrick Bloemaert: pintor holandês)

 

XLI

 

Tudo se pode provar com a Bíblia

por exemplo que Deus não existe

por exemplo que o Diabo manda mais

por exemplo que Deus

é masculino e feminino ao mesmo tempo

ou que a Virgem era uma mulher licenciosa

basta conhecer um pouco de hebraico

para poder lê-la no original

e interpretá-la como deve ser

é questão de análise lógica

 

Têm razão os amigos céticos

tudo se pode provar com a Bíblia

é questão de sabê-la embaralhar

é questão de sabê-la adulterar

é questão de sabê-la esquartejar

como quem esquarteja uma galinha:

tragam mais uma dúzia de cervejas!

 

Em: “Novos sermões e prédicas

do Cristo de Elqui” (1979)

 

Referência:

 

PARRA, Nicanor. XLI: Todo puede probarse con la Biblia. In: __________. Parranda larga: antología poética. Selección de textos y prólogo de Elvio E. Gandolfo. 1. ed. Santiago, CL: Alfaguara, mar. 2010. p. 310.