Mais que um poema
sobre o joão-de-barro – aliás, um pássaro muito comum aqui pelo centro-oeste
brasileiro –, este soneto de Frost é uma discreta elegia por tudo quanto se
perde ao longo de uma existência que, inevitavelmente, submete-se a imparáveis mudanças:
a força vital com o avanço da idade, as oportunidades baldadas, a fugacidade da
beleza etc.
Refletir a sério, indagar
sempre e existir conscientemente são formas válidas de se manter resiliente o
espírito, nesse trânsito pelas sendas minguantes: somos o pássaro que, nalgum
dia, haverá de se deparar com o declive no verão avançado, no outono ulterior –
com a consequente perda de frescura e de flama –, quando então, contritos, entoaremos
redobres ao domínio soberano da natureza, à realidade sem ilusórios arrimos.
J.A.R. – H.C.
Robert Frost
(1874-1963)
The Oven Bird
There is a singer
everyone has heard,
Loud, a midsummer and
a mid-wood bird,
Who makes the solid
tree trunks sound again.
He says that leaves
are old and that for flowers
Mid-summer is to
spring as one to ten.
He says the early
petal-fall is past
When pear and cherry
bloom went down in showers
On sunny days a
moment overcast;
And comes that other
fall we name the fall.
He says the highway
dust is over all.
The bird would cease
and be as other birds
But that he knows in
singing not to sing.
The question that he
frames in all but words
Is what to make of a
diminished thing.
In: “Mountain
Interval” (1916)
Pintura da série “O joão-de-barro”
(Rubens Matuck: artista
paulistano)
O João-de-Barro
Há um cantor que
todos já ouviram
Cantar alto, ave de
bosque e de verão
Que faz os sólidos
troncos soarem novamente.
Ele diz que as folhas
estão velhas e que para as flores
O meio do verão está para
a primavera, como um para dez.
Ele diz que a queda
da primeira pétala já passou
Quando as flores das
peras e cerejas caíram como chuva
Em dias de sol por um
momento escurecido;
E vem a queda de folhas
que chamamos outono.
Ele dizendo que a
poeira da estrada envolve a todos.
O pássaro acabaria e
seria como os outros;
Se não soubesse
cantando, não cantar.
A pergunta que ele
articula sem palavras
É o que fazer do que
lá vai sumindo.
Em: “Pausa na
Montanha” (1916)
Referências:
Em Inglês
FROST, Robert. The
oven bird. In: __________. Collected poems of Robert Frost. Garden City,
NY: Halcyon House, 1942. p. 150.
Em Português
FROST, Robert. O joão-de-barro. Tradução de Marisa Murray. In: __________. Poemas escolhidos de Robert Frost. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Lidador, 1969. p. 40.
❁







