Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 24 de outubro de 2026

Raymond Chandler - Poema para Cissy

Preliminarmente, cumpre reportar o fato de que Raymond Chandler, escritor anglo-americano, redigiu o infratranscrito poema, ainda a experimentar a dor fresca da perda, em homenagem à sua falecida esposa, Cissy Pascal Chandler, com que conviveu por quase três décadas.

 

Trata-se, por conseguinte, de uma elegia de Chandler à amada companheira que se foi, a que se conjugam reflexões sobre a própria capacidade de sentir, tendente inevitavelmente a erodir-se pela passagem do tempo, sob cujos efeitos o autor se projeta no futuro como um estranho para as suas próprias recordações.

 

Deveras, a memória, ainda que persista em forma de cartas, ter-se-á desvanecido para sempre em seu poder de suscitar as mesmas emoções que uma vez o narrador terá sentido no gozo de um devotado amor, como se uma borboleta efêmera fosse, destinada a perder-se na consciência de quem o busca reviver.

 

J.A.R. – H.C.

 

Raymond Chandler

(1888-1959)

 

Requiem

 

There is a moment after death when the face is beautiful

When the soft tired eyes are closed and the pain is over,

And the long, long innocence of love comes gently in

Tor a moment more in quiet to hover.

 

There is a moment after death, yet hardly a moment

When the bright clothes hang in the scented closet

And the lost dream fades and slowly fades,

When the silver bottles and the glass, and the empty mirror,

And the three long hairs in a brush and a folded kerchief,

And the fresh made bed and the fresh, plump pillows

On which no head will lie

Are all that is left of the long wild dream.

 

But there are always the letters.

 

I hold them in my hand, tied with green ribbon

Neatly and firmly by the soft, strong fingers of love.

The letters will not die.

They will wait and wait for the stranger to come and read them.

He will come slowly out of the mists of time and change,

He will come slowly, diffidently, down the years,

He will cut the ribbon and spread the letters apart,

And carefully, carefully read them page by page.

 

And the long, long innocence of love will come softly in

Like a butterfly through an open window in summer,

For a moment more in quiet to hover.

But the stranger will never know. The dream will be over.

The stranger will be I.

 

Imagem sem créditos

 

Poema para Cissy

 

Há um momento após a morte em que o rosto se torna belo

e os suaves olhos fatigados se fecham; em que a dor acabou

e a antiga, antiga inocência do amor gentilmente retorna

e fica por perto apenas por mais um instante.

 

Há um momento após a morte (que sequer é um momento)

em que as coloridas roupas penduradas no armário perfumado

e o sonho perdido fenecem lentamente;

em que os vidros e o copo de prata e o espelho vazio

e os três compridos fios de cabelo na escova e o lenço dobrado

e a cama refeita com seus gordos travesseiros

(onde nenhuma cabeça se pousará)

é tudo que restou de um grande sonho selvagem.

 

Mas existem sempre as cartas.

 

Eu as seguro nas mãos, amarradas numa fita verde,

com firme pureza entre os suaves e fortes dedos do amor.

As cartas não morrerão,

esperando pelo estranho que virá lê-las.

Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança,

virá lentamente, desafiador, pelo correr dos anos

cortará a fita e as espalhará a sua volta

e cuidadosamente as lerá página por página.

 

E a antiga inocência do amor voltará, virá lentamente,

suave como uma borboleta por uma janela aberta no verão,

só por mais um momento, em silêncio, para estar perto,

mas o estranho nunca saberá. O sonho acabou.

O estranho sou eu.

 

Folhetim, 02.02.86

 

Referências:

 

Em Inglês

 

CHANDLER, Raymond. Requiem. In: MacSHANE, Frank. The life of Raymond Chandler. 1st ed. New York, NY: E. P. Dutton, 1976. p. 229-230.

 

Em Português

 

CHANDLER, Raymond. Poema para Cissy. Tradução de Newton Goldman. In: SUZUKI JR., Matinas; ASCHER, Nelson (Orgs.). Folhetim: poemas traduzidos. Vários tradutores. São Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 49-50.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Fernando Paixão - Rio das faces

Paixão desenha uma paisagem interior onde o “eu” é um rio cujas águas são todos os rostos que tem sido – ou que poderia ter sido –, mas que, ao fluir, levam consigo a noção de um ser unificado, cabendo à poesia, como derradeiro recurso ou refúgio, a tarefa de capturar, ainda que de modo imperfeito como uma “pegada” ou um “respiro”, os rastros dessa efêmera multiplicidade.

 

Ao final, o poema deixa de resolver o enigma que suscita, fixando-o no leitor com a mesma perplexidade com que o falante observa o seu próprio rosto no espelho do tempo, uma máscara de momento à volta da qual irrompem as mesmas indagações: a quem pertence essa identidade que ora ostenta? É mesmo sua, ou é apenas mais uma “identidade alugada”?

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Paixão

(n. 1955)

 

Rio das faces

 

Tantos que fui

conto a soma de poucos.

 

Alguns nunca tiveram semblante.

Dissiparam-se nas horas

– nem cinzas fiquei.

Outros devastaram cidades

e (santa ironia!)

evaporaram em loucura quase mítica.

 

Muitos que sou

Ficaram à margem de ser.

Ao menos tivessem cicatrizado

seu corte.

Teriam sido passagem

corpo e nome

aluguel de meu alguém.

 

Perdi-me entre muitos.

Fico sem mim.

Alguns poemas apenas sujeitam

pegadas, e eram respirações...

Foram tantos tão pouco.

Mesmos em outros.

 

Que nem desdobrar sei

este agora eu

(de quem?)

fixado contra o rosto.

 

Dúvidas em sonhos míticos

(Katerina Sapozhkova: artista ucraniana)

 

Referência:

 

PAIXÃO, Fernando. Rio das faces. In: MASSI, Augusto (Org.). Artes e ofícios da poesia. Porto Alegre, RS: Artes e Ofícios, 1991. p. 152.

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Louise Glück - Lago na Cratera

Com um título a evocar um lago formado na cratera de um vulcão – uma beleza nascida de uma explosão cataclísmica, imersa na calma consecutiva à destruição –, este poema de Glück propõe-nos questionar os fundamentos de nossa cosmovisão espiritual, apontando o elemento maior da fragilidade humana – a nossa forma de amar, condicionada pelo medo que nos é incutido pelo mesmo corpo que nos permite experimentá-lo.

 

De fato, Glück está nos revelando como as categorias e os construtos morais que impomos às coisas modelam a nossa percepção tanto da vida, quanto da morte e do amor: a poetisa nos deixa à borda da sobredita cratera, para contemplarmos as águas tranquilas de uma consciência a colocar em xeque os dogmas mais arraigados, tornando-nos propensos a reconhecer que temos estado a combater o espectro errado durante todo o tempo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Louise Glück

(1943-2023)

 

Crater Lake

 

There was a war between good and evil.

We decided to call the body good.

 

That made death evil.

It turned the soul

against death completely.

 

Like a foot soldier wanting

to serve a great warrior, the soul

wanted to side with the body.

 

It turned against the dark,

against the forms of death

it recognized.

 

Where does the voice come from

that says suppose the war

is evil, that says

 

suppose the body did this to us,

made us afraid of love –

 

In: “Averno” (2006)

 

Lago na Cratera

(Thomas Kinkade: pintor norte-americano)

 

Lago na Cratera

 

Houve uma guerra entre o bem e o mal.

Decidimos chamar o corpo de bem.

 

E assim à morte coube o mal.

Isso fez a alma

virar-se de vez contra a morte.

 

Como um soldado raso querendo

servir a um grande guerreiro, a alma

dispôs-se a cerrar fileiras com o corpo.

 

Virou-se contra a escuridão,

contra as formas de morte

que lhe eram reconhecíveis.

 

De onde vem a voz

que nos diz: e se a guerra

fosse o mal? Que nos diz:

 

e se fosse o corpo que nos fez isso,

tornou-nos receosos do amor?

 

Em: “Averno” (2006)

 

Referência:


GLÜCK, Louise. Crater lake. In: __________. Poems: 1962-2012. 1st ed. New York, NY: Farrar, Strauss and Giroux, 2012. p. 513.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Tymoteusz Karpowicz - Uma lição de silêncio

O poeta e dramaturgo polonês oferece-nos uma crítica mordaz aos regimes opressivos – a exemplo do nazismo e do estalinismo, que bem os conheceu –, nos quais a ordem é, na realidade, um silenciamento forçado de qualquer laivo de vitalidade, dando ensejo a uma quietude antinatural, por ele metaforizada na figura de um elefante que é coagido a caminhar sem ruído.

 

Trata-se de uma calma artificial, que faz com que “as árvores se ergam silenciosas, como os cabelos se eriçam diante do espanto”, a desvelar os caracteres de um terror paralisante engendrado por um poder político arbitrário e controlador, cujos propósitos destinam-se a eliminar eventuais traços insopitáveis de individualidade, espontaneidade ou expressões naturais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Tymoteusz Karpowicz

(1921-2005)

 

Lekcja ciszy

 

Gdy motyl

Zbyt gwałtownie

Czasem złożył skrzydła –

Wołano: proszę o spokój!

 

Zaledwie piórko

Spłoszonego ptaka

Trąciło o promień –

Wołano: proszę o ciszę!

 

Tak nauczono

Bezszelestnie chodzić

Słonia po bębnie,

Człowieka po ziemi.

 

Wstawały drzewa

Bez szumu nad polem

Tak jak powstają

Włosy z przerażenia.

 

Borboletas

(Odilon Redon: pintor francês)

 

Uma lição de silêncio

 

Quando uma borboleta

batia suas asas

forte demais, gritavam-lhe:

Silêncio, por favor!

 

Se um pássaro assustado

roçava a pluma num

raio de sol, gritavam-lhe:

Silêncio, por favor!

 

Assim os elefantes

aprenderam a andar

sem som sobre o tambor –

os homens, sobre a terra.

 

As árvores nos campos

se erguiam silenciosas

como os cabelos quando

se eriçam de terror.

 

Referências:

 

Em Polonês

 

KARPOWICZ, Tymoteusz. Lekcja ciszy. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 out. 2026.

 

Em Português

 

KARPOWICZ, Tymoteusz. Uma lição de silêncio. Tradução de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Org. & Trad.). Poesia alheira: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. p. 348.

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