Estes versos de
Schmidt transmitem ao leitor um marcante senso de herança emocional e coletiva,
mediante o qual o sujeito lírico se reconhece como portador de dores e de
angústias não vivenciadas diretamente, mas legados por seus ancestrais, circunstância
que o faz oscilar entre o pesar e o desejo de paz, revelando-lhe a tensão entre
a memória de pregressas injustiças e a busca por horizontes mais serenos.
Sob tal perspectiva,
pode-se supor que a imagem de um “pássaro cego” venha a simbolizar a sua
incapacidade de ver a luz exterior devido a essas “sombras interiores”, como
resultante do sobredito conflito entre, de um lado, as expectativas por uma
condição de transparência ou de clareza, e de outro, o aprisionamento no
domínio da própria subjetividade.
É essa consciência de
uma fatalidade plasmada nos bastiões da história e nos escaninhos dos dramas familiares
que permite a esse pássaro, ainda que sob a ausência de luz, perceber a sua
existência e almejá-la, tornando o seu voo um belo e inquietante percurso
lírico, a dar voz aos “mil tormentos sem voz”.
J.A.R. – H.C.
Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)
Pássaro cego
Sinto clamar em mim
vozes tristes, chorando.
Sinto gritar em mim
longos martírios
Que não sofri.
Sinto que sou a
forma, o lamento, a expressão
De mil tormentos
mudos abafados.
De mil tormentos sem
voz.
Mil tormentos sem
voz!
Minha poesia é um
pouco da queixa de homens errantes,
De homens sem lar e
sem repouso.
De homens que foram
meus avós.
Deles herdei a angústia
infinita,
Deles herdei o tédio
de todas as paisagens,
A inquietação de
todos os momentos.
Sou a última folha de
uma árvore infeliz
Que o vento rude
desprendeu.
Trago comigo a desolação
da pátria abandonada
E a revolta de mil
incompreensões e injustiças sofridas,
Mas há em mim um
infinito desejo de pacificação;
O ódio de meus avós não
está comigo,
Ficou apenas a
indecisão,
Ficou apenas a
instabilidade.
Sou como um pássaro
cego voando na eterna escuridão.
No entanto a escuridão
está em mim somente.
Sei que fora de mim há
um clima diferente,
Sei que há céu azul,
supremas claridades,
E que as trevas estão
nos meus olhos apenas.
Em: “Pássaro cego”
(1930)
Pássaro cego
(Morris Graves:
pintor norte-americano)
Referência:
SCHMIDT, Augusto
Frederico. Pássaro cego. In: __________. Poesia completa: 1928-1965.
Introdução de Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro, RJ: TopBooks; Faculdade
da Cidade, 1995. p. 93.
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