O poeta galês celebra
a vida como um estado contingente, a um só tempo, violento e sagrado, no qual a
consciência é lançada em um corpo que já carrega o mapa do seu próprio sofrimento
e morte – forma de ver que se pode associar, de algum modo, a uma recapitulação
do drama cristológico, pois que equipara o momento da encarnação ao desenlace
da crucificação.
A descrição que o
narrador faz de seu estado pré-natal como fluido e informe captura a incerteza
e o potencial da vida antes do nascimento. A sequente intrusão na “armadura” da
carne leva-o a esta inevitável travessia, ao longo da qual o corpo que o
aprisiona torna-se como que veículo de uma herança espiritual e cósmica, um reavivar
de memórias ancestrais ou de conexões primigênias com o universo, a lhe suscitar
reminiscências anteriores à condição de completude dos sentidos – o inverno, a
neve, o vento.
J.A.R. – H.C.
Dylan Thomas
(1914-1953)
Before I knocked and
flesh let enter,
With liquid hands
tapped on the womb,
I who was as
shapeless as the water
That shaped the
Jordan near my home
Was brother to Mnetha’s
daughter
And sister to the
fathering worm.
I who was deaf to
spring and summer,
Who knew not sun nor
moon by name,
Felt thud beneath my
flesh’s armour,
As yet was in a
molten form
The leaden stars, the
rainy hammer
Swung by my father
from his dome.
I knew the message of
the winter,
The darted hail, the
childish snow,
And the wind was my
sister suitor;
Wind in me leaped,
the hellborn dew;
My veins flowed with
the Eastern weather;
Ungotten I knew night
and day.
As yet ungotten, I
did suffer;
The rack of dreams my
lily bones
Did twist into a
living cipher,
And flesh was snipped
to cross the lines
Of gallow crosses on
the liver
And brambles in the
wringing brains.
My throat knew thirst
before the structure
Of skin and vein
around the well
Where words and water
make a mixture
Unfailing till the
blood runs foul;
My heart knew love,
my belly hunger;
I smelt the maggot in
my stool.
And time cast forth
my mortal creature
To drift or drown
upon the seas
Acquainted with the
salt adventure
Of tides that never
touch the shores.
I who was rich was
made the richer
By sipping at the
vine of days.
I, born of flesh and
ghost, was neither
A ghost nor man, but
mortal ghost.
And I was struck down
by death’s feather.
I was a mortal to the
last
Long breath that
carried to my father
The message of his
dying christ.
You who bow down at
cross and altar,
Remember me and pity
Him
Who took my flesh and
bone for armour
And doublecrossed my
mother’s womb.
Matéria Orgânica
(Jessalin Beutler:
artista norte-americana)
Antes Que Eu Batesse
Antes que eu batesse
e a carne me deixasse entrar,
Com as líquidas mãos
submersas no ventre,
Eu, que era informe
como a água
Que modelava o Jordão
perto de minha casa,
Fui irmão da filha de
Mnetha
E irmã do verme que
procria.
Eu, que era surdo ao
verão e à primavera,
Que não conhecia de
nome nem a luz nem o sol,
Ouvia pulsar sob o
arcabouço de minha carne,
Até então sob uma
forma diluída,
As plúmbeas estrelas,
o martelo da chuva
Brandido por meu pai
em suas cúpulas.
Eu conhecia a
mensagem do inverno,
Os dardos da chuva de
granizo, a neve infantil,
E o vento era a minha
irmã prometida;
Assaltavam-me o vento
e o orvalho do inferno;
Minhas veias fluíam
com a canícula do Oriente;
Conheci a noite e o
dia antes que me concebessem.
Antes que me
concebessem, eu já sofria;
O ecúleo dos sonhos
retorcia
Meus ossos de lírio
numa cifra viva,
E a carne era cortada
para cruzar os bordos
De cruzes patibulares
que se erguiam no fígado
E as sarças nos
cérebros convulsos.
Minha garganta teve
sede antes que se formasse
A estrutura da pele e
das veias ao redor do poço
Onde as palavras e a
água produziam uma mistura
Que persistia até que
o sangue arruinasse;
Meu coração sabia
amar, meu estômago tinha fome;
Eu farejava o verme
em minhas próprias fezes.
E o tempo exalava o
meu ser mortal
Para arrastá-lo ou afogá-lo
na crista das ondas
Acostumadas à odisseia
salgada
Das marés que jamais
alcançam as praias.
Eu, que era rico,
tornei-me ainda mais rico
Por embriagar-me com
o vinho dos dias.
Eu, nascido da carne
e do espírito, não era
Nem espírito nem homem,
mas um espectro mortal.
E derrubaram-me as
plumas da morte.
Fui mortal até o
derradeiro
E longo sopro que
transmitiu a meu pai
A mensagem de seu
cristo agonizante.
Tu, que te ajoelhas
ante a cruz e o altar,
Recorda-me e tem
piedade Daquele
Que tomou minha carne
e meus ossos por couraça
E atraiçoou o ventre
de minha mãe.
Referências:
Em Inglês
THOMAS, Dylan. Before
I knocked. In: __________. Collected poems: 1934-1953. 1st publ., 12th
reprint. London, EN: J. M. Dent & Sons Ltd., may. 1959. p. 7-8.
Em Português
THOMAS, Dylan. Antes que eu batesse. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. Poemas reunidos: 1934-1953. Editados pelos professores Walford Davies e Ralph Maud. Tradução e introdução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1991. p. 12-13.
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