Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Miguel de Unamuno - Salva-nos tu, retórica

Unamuno apela à retórica para que custodie a criação poética, libertando-a dos grilhões impostos pela teoria e pela crítica, numa súplica que, longe de ser uma petição literal de resgate, configura-se numa burla às convenções estabelecidas: o poema do autor basco é tanto uma crítica às imposições estéticas externas quanto um preito à ambiguidade e à vitalidade inerentes à arte – que se nega a ser aprisionada por fórmulas complacentes e sobrecarregadas.

 

A retórica, assim, não seria um mero recurso decorativo, mas a força capaz de restituir à palavra o seu caráter dinâmico, espontâneo e subversivamente criativo, resgatando a espontaneidade da linguagem; não apenas uma técnica de persuasão, mas um instrumental para desamarrar o discurso, por demais frustrado num campo saturado de normatividades: a “poética”, a encerrar a poesia em fórmulas preestabelecidas; a “estética”, a deliberar sobre o belo segundo cânones insuficientes; e, ainda, a “algaravia hipócrita” e a “crítica”, a sufocarem a experimentação genuína.

 

Perceba-se, a propósito, o jogo de palavras empreendido por Unamuno com os termos “píos” e “jipíos” (v. n.r.) na segunda estrofe, mediante o qual enlaça num paralelo fônico a dupla rejeição que preconiza contra, de um lado, o dogmatismo e os freios que tencionam moralizar a arte, e do outro, as afetações exageradas, que a teatralizam: nada, portanto, de disciplinar ou dramatizar a poesia, mas de a libertar, devolvendo-lhe o “gozo impuro de afán inseguro”, isto é, o prazer imperfeito da busca incerta!

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel de Unamuno

(1864-1936)

 

Sálvanos tú, retórica

 

Sálvanos tú, retórica,

libra a la poesía

de la poética,

líbranos de la estética

y de la algarabía

hipócrita

y de la crítica.

 

Líbranos de los píos

y de los jipíos, (*)

danos goce impuro

de afán inseguro;

sálvanos, retórica.

 

4 de febrero, 1929.

 

En: “Cancionero” (1953)

 

Alegoria da Retórica

(Artemisia Gentileschi: pintora italiana)

 

Salva-nos tu, retórica

 

Salva-nos tu, retórica,

livra a poesia

da poética,

livra-nos da estética,

da algaravia

hipócrita

e da crítica.

 

Livra-nos dos piedosos

e dos aulidos queixosos,

dá-nos gozo impuro

de afã inseguro;

salva-nos, retórica.

 

4 de fevereiro de 1929.

 

Em: “Cancioneiro” (1953)

 

Nota:

 

(*). No espanhol andaluz e popular, “jipíos” (ou “jipío” no singular) é uma onomatopeia típica do canto flamenco, referindo-se ao gemido, lamento ou grito emocional e gutural dos cantores – um som carregado de emoção, dor e intensidade.

 

Referência:

 

UNAMUNO, Miguel de. Sálvanos tú, retórica. In: __________. Obras completas. Tomo V: Cancionero / Poesías Sueltas / Traducciones. Edición y prólogo de Ricardo Senabre. Madrid, ES: Fundación José Antonio de Castro, jun. 2002. p. 674.

quarta-feira, 15 de abril de 2026

K. Satchidanandan - Como chegar ao templo do Tao

Nestes versos do poeta indiano replicam-se as ideias que se orientam a levar o leitor até as lindes do inefável, para transcender as humanas limitações e entrar em sintonia com a essência do Tao. Para tanto, o autor nos convida a soltar as amarras – decerto um chamado a que nos desapeguemos de todas as formas e expectativas rígidas – e a adotar uma atitude de leveza perante a vida, como uma folha levada pela brisa.

 

Com efeito, não há pressa na natureza e, nela, o efêmero se desvanece sem resistência, padrões esses que refletem os estados de fluidez e de adaptabilidade, cujos predicados o poeta busca sedimentar no comportamento do ser humano.

 

Outros aspectos abordados no poema são a exaltação do silêncio – uma linguagem que transmite sabedoria sem recorrer à verbosidade superficial –; a prescindibilidade do afã de a tudo controlar, para que possamos atenuar os imperativos do ego e das paixões que nos perturbam; a necessidade de redescobrirmos uma verdade primordial, para além de todas as estruturas e crenças pré-estabelecidas; e por último, mas não menos importante, o primado taoísta da ação sem esforço, da aparente inação para se levar a efeito tão somente aquilo que concorra para uma existência mais plena e em harmonia com a natureza. 

J.A.R. – H.C.

 

K. Satchidanandan

(n. 1946)

 

How to Go to the Tao Temple

 

Don’t lock the door.

Go lightly like the leaf in the breeze

along the dawn’s valley.

If you are too fair

cover yourself with ash.

If too clever, go half-asleep.

That which is fast

will tire fast:

be slow, slow as stillness.

 

Be formless like water.

Lie low, don’t even try to go up.

Don’t go round the deity:

Nothingness has no directions,

no front, nor back.

Don’t call It by name, 

Its name has no name.

No offerings: empty pots

are easier to carry than full ones.

No prayers too: desires

have no place here.

 

Speak silently, if speak you must:

like the rock speaking to trees

and leaves to flowers.

Silence is the sweetest of voices

and Nothingness has

the fairest of colours.

 

Let none see you coming

and none, going.

Cross the threshold shrunken

like one crossing a river in winter.

You have only a second here

like melting snow.

 

No pride: you are not even formed.

No anger: not even dust is

at your command

No sorrow: it doesn’t alter anything.

Renounce greatness:

there’s no other way to be great.

Don’t ever use your hands:

they are contemplating

not love, but violence.

 

Let the fish lie in its water

and the fruit on its bough.

The soft one shall survive the hard,

like the tongue that survives the teeth.

Only the one who does nothing

can do everything.

 

Go, the unmade idol

awaits you.

 

Monge em contemplação

na frente de um templo

(Imagem sem créditos)

 

Como chegar ao templo do Tao

 

Não tranque a porta.

Caminhe leve como a folha na brisa

ao longo do vale do amanhecer.

Se você é muito bom,

cubra-se com cinzas.

Se é muito esperto, vá sonolento.

O que for mais rápido

Cansará mais rápido:

seja lento, lento como a permanência.

 

Seja sem forma como a água.

Deite embaixo, não tente sequer levantar.

Não dê voltas na deidade;

O nada não tem direções,

Nem frente, nem ré.

Não chame pelo nome,

seu nome não tem nome.

Nenhuma oferta: potes vazios

são mais fáceis de carregar do que os cheios.

Nenhuma prece tampouco: desejos

não têm lugar aqui.

 

Fale silenciosamente, se precisar falar:

como a pedra fala às árvores

e as folhas às flores.

O silêncio é a mais doce das vozes

e o Nada tem

a cor mais bela de todas.

 

Não deixe ninguém ver você chegar,

nem ninguém ver você sair.

Cruze o enrugado limítrofe

como se cruza um rio no inverno.

Você tem um momento aqui

como derrete a neve.

 

Nenhum orgulho: você sequer se formou.

Nenhuma ira: nem mesmo a poeira

está sob o seu comando.

Nenhum remorso: ele não altera nada.

Renuncie à grandeza;

não existe outra forma de ser grande.

Nem mesmo use suas mãos:

elas estão contemplando

não o amor, mas violência.

 

Deixe o peixe ficar na água

e a fruta, no seu galho.

O macio sobreviverá ao duro,

como a língua sobrevive aos dentes.

Só aquele que não faz nada

pode fazer tudo.

 

Vá, o ídolo não criado

lhe espera.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

SATCHIDANANDAN, K. How to go to the Tao temple. In: __________. How to go to the Tao temple / 如何去道觀. A bilingual edition: English x Chinese. Hong Kong, CN: The Chinese University of Hong Kong Press, 2019. p. 28-30.

 

Em Português

 

SATCHIDANANDAN, K. Como chegar ao templo do Tao. Tradução de Ana Paula Arendt. Cadernos de Literatura em Tradução, São Paulo (SP), FFLCH/USP, n. 19, Especial Índia: 100 grandes poemas da Índia, p. 56-57, jan. 2018.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Vitorino Nemésio - A minha voz

A voz, para além de ser um mero som que se emite ao interagirmos com o mundo, é o reflexo da existência mesma, o resultado de um processo contínuo de criação, de confrontação com a escuridão interna e de conversão da dor – quase um alimento para neutralizar o vazio que nos vai na alma – em sustento vital, tornando-nos verdadeiramente humanos e dotados de uma nova e autêntica identidade.

 

Ao acolher tanto as luzes quanto as sombras que coexistem dentro de nós, expomos, por igual, a dualidade do eu que cria e do duplo que emerge desse ato, imbricados num fluxo imparável – entre sereno e turbulento –, no qual tristeza e dor, palavras e silêncio, fundem-se para renovar a essência do ser, aproximando-nos quotidianamente dos arcanos inefáveis da poesia.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vitorino Nemésio

(1901-1978)

 

A minha voz

 

Vamos a ver se te levanto

Com estas palavras escuras

Que são a luz do meu canto.

Vamos a ver se pode ser.

Na minha lama azeda e quente

Crias a tua forma

E compões o teu vulto no meu amor,

Por isso creio que és gente.

Toma lá pão, sinal humano,

Conhecimento e dor.

 

Bem, já existes,

Embora sem a graça de um nome;

Eu, que te sinto em mim, já não hei-de chamar-te.

Quando acabares o pão, pede mais,

Pois te darei a tua parte:

Já resolvi ficarmos tristes

Para matar a fome,

Que os tristes a tudo são fatais.

 

Aí está: triste. Se era a palavra, aí está.

Tens frio, e um nome é manta pela cabeça:

Talvez abrigue a cabeça de quem vá

Sozinho, à noite, pelos caminhos ladrados

De uma aldeia estelar, sem fim, que em mim começa.

Seu nome, como um Outro, serve de companhia:

Só os viandantes são enganados

Sobre a verdade de quem lá ia.

 

Vamos a ver se eu te crio,

A ti que me encheste de ser

E enches o escuro de confiança

Adiante dos meus passos,

Como os choupos levam o rio.

 

Sai um pouco de mim para eu te ver,

Cuida a tua aparência.

Abre na escuridão um rodado qualquer

E veste-te de lume ou de essência

Ou do teu cabelo, se és mulher.

 

Quando te cito, canta,

Longe, uma voz diversa.

Uma voz aguda como um grito e o espinho que o fez dar.

Ninguém lhe conhece garganta:

É uma simples coisa imersa

Em mim, na noite e no mar.

 

Outras vezes não te cito: tu me citas,

A tua angústia trava o meu mínimo gesto,

Tremo diante do teu látego,

Cheio de palavras aflitas

E do suor do meu protesto.

Então do meu transe se adianta

O teu vulto coberto do meu vulto,

E é sempre assim que o meu duplo canta.

 

O farrapo de mim, a que se agarraram uns limos,

Lá no seu tanque pútrido mexe,

Lá vive e cria suas bichezas.

Assim nos vimos,

Minha voz:

Assim o cabo do látego remexe

Bichos, limos, vozes, tristezas.

E tudo isto dentro de nós.

 

Em: “O Bicho Harmonioso” (1930)

 

Formas de plantas

(Margaret Watts Hughes: artista galesa)

 

Referência:

 

NEMÉSIO, Vitorino. A minha voz. In: HELDER, Herberto. Edoi Lelia Doura: antologia das vozes comunicantes da poesia moderna portuguesa. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 1985. p. 157-158.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

George Thaniel - Não Progrido

O poeta greco-canadense contrapõe à ideia de um progresso sem desvios, sempre a avançar em linha reta, um percurso interior que se retorce e se reverte sobre si mesmo, em “inescapáveis círculos”, evocando, dessa maneira, a natureza cíclica e reiterativa da vida, nem sempre a fluir do modo que se julga convencional – para a frente –, embora, seja como for, não deixe de ser bela em suas repetições e peculiar autenticidade.

 

Ao reconhecer o inalterável em si mesmo – resguardado imperturbavelmente em sua “concha” interior, à espera de ser descoberto –, a voz poética, longe de atribuir uma conotação fatalista puramente negativa em relação ao seu destino, interpreta-o como um ato libertador, mediante o qual se reconhece como um acumulado de intensas e distintivas experiências, no curso das quais parece estar num contínuo reencontro consigo mesmo, mantida a própria essência do ser, a despeito dos vaivéns emocionais e temporais.

 

J.A.R. – H.C.

 

George Thaniel

(1938-1991)

 

I Do Not Progress

 

I do not walk the line

to some visible end,

I snake my way inside

inescapable circles.

 

This revelation did not come to me

with maturity.

It had always been there,

in the muted sobs

of my childhood,

the inflammations

of adolescence,

the oyster-shells of my later years.

 

Yes, I was born

as I still am today.

You would call this fate.

 

Homem numa concha

(Imagem sem créditos)

 

Não Progrido

 

Não sigo em linha reta

rumo a algum fim visível,

serpenteio minha trilha no interior

de inescapáveis círculos.

 

Tal revelação não me chegou

com a maturidade.

Sempre esteve ali,

nos soluços abafados

da minha infância,

nas exaltações

da adolescência,

nas conchas de ostra dos meus últimos anos.

 

Sim, nasci

como ainda sou hoje.

Dir-se-ia que isso é destino.

 

Referência:

 

THANIEL, George. I do not progress. Translated from Greek to English by Edward Phinney. In: __________. Seawave & Snowfall: selected poems (1960-1982). Toronto, CA: Amaranth Editions, 1984. p. 31.