Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Walmir Ayala - Poema a um Gato

Ayala nos mostra o quanto o gato tem um lugar único no imaginário poético, com uma presença algo etérea – naturalmente elegante e fluida – a encarnar a verdadeira natureza do noturno – o mistério, o intangível, o que está para além do visível –, como se detentor fosse de um conhecimento, último e silencioso, que as palavras humanas não conseguem expressar.

 

O gato teria, com efeito, uma natureza sigilosa e não intrusiva, à maneira de um sentimento de remorso, eis que nos costuma assaltar de modo espontâneo e silencioso, porém intenso – e amiúde na solidão da noite: vê-se, no caso, uma associação do felino com a dinâmica da introspecção humana, sitiada por pensamentos que a visitam na escuridão e pousam sobre a consciência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Walmir Ayala

(1933-1991)

 

Poema a um Gato

 

Te encontramos na noite,

e eras maior que a noite,

mais integral e sombrio.

 

Eras de seda derramada em movimento

e me buscavas sempre com olhar e silêncio

como se quisesses dizer a última palavra,

a única.

 

Tu vieste na noite

sem luz e sem rumor

como o pensamento de remorso.

 

E te estendeste esguiamente sobre a minha solidão.

 

Mulher dormindo com um gato

(Władysław Ślewiński: pintor polonês)

 

Referência:

 

AYALA, Walmir. Poema a um gato. In: ___________. Antologia poética. Rio de Janeiro, GB: Editora Leitura, ago. 1965. p. 16.

ö

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Anne Sexton - O Pássaro da Ambição

Este poema é um mapa da alma atormentada da artista norte-americana, a admitir que o mesmo elemento motor de sua criatividade – “o pássaro da ambição – é o desencadeador de sua tortura e que, talvez, precisa-se dele se desfazer para poder salvar-se, mesmo que isso venha a implicar a renúncia à sua vocação e ao seu empenho em tornar-se imortal.

 

Sob tal contexto, a poetisa divide-se em duas – a mulher que deseja paz e a artista possuída pelas exigências do pássaro em apreço (mais do que aspirações, verdadeiras obsessões que demandam a aniquilação do “eu”): se esta última prevalece, terá ela que pagar o elevado preço da genialidade, tantas vezes contíguo às raias da loucura; se prepondera aquela, há de, porventura, submeter-se aos imperativos de um silêncio criativo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Sexton

(1928-1974)

 

The Ambition Bird

 

So it has come to this –

insomnia at 3:15 a.m.,

the clock tolling its engine

 

like a frog following

a sundial yet having an electric

seizure at the quarter hour.

 

The business of words keeps me awake.

I am drinking cocoa,

that warm brown mama.

 

I would like a simple life

yet all night I am laying

poems away in a long box.

 

It is my immortality box,

my lay-away plan,

my coffin.

 

All night dark wings

flopping in my heart.

Each an ambition bird.

 

The bird wants to be dropped

from a high place like Tallahatchie Bridge.

 

He wants to light a kitchen match

and immolate himself.

 

He wants to fly into the hand of Michelangelo

and come out painted on a ceiling.

 

He wants to pierce the hornet’s nest

and come out with a long godhead.

 

He wants to take bread and wine

and bring forth a man happily floating in the Caribbean.

 

He wants to be pressed out like a key

so he can unlock the Magi.

 

He wants to take leave among strangers

passing out bits of his heart like hors d’oeuvres.

 

He wants to die changing his clothes

and bolt for the sun like a diamond.

 

He wants, I want.

Dear God, wouldn’t it be

good enough to just drink cocoa?

 

I must get a new bird

and a new immortality box.

There is folly enough inside this one.

 

In: “The Book of Folly” (1972)

 

Outra noite de insônia

(Janet Lavida: artista norte-americana)

 

O Pássaro da Ambição

 

Então chegou-se a este ponto –

insônia às 3h 15 da madrugada,

o relógio a repenicar sua engrenagem

 

como uma rã a seguir

um relógio de sol, em convulsão

elétrica a cada quarto de hora.

 

O negócio das palavras mantém-me acordada.

Estou bebendo chocolate,

essa mamã morna e morena.

 

Gostaria de ter uma vida simples,

mas a noite toda dedico-me a arrumar

poemas numa caixa alongada.

 

É a minha caixa da imortalidade,

meu plano de reserva,

meu ataúde.

 

A noite toda, asas escuras

esvoaçam em meu coração.

Cada qual, um pássaro da ambição.

 

O pássaro quer que o lancem

de um lugar elevado, como a Ponte de Tallahatchie.

 

Quer acender um fósforo de cozinha

e imolar-se.

 

Quer voar para a mão de Michelangelo

e aparecer pintado num teto.

 

Quer perfurar o vespeiro

e de lá sair com uma longa deidade.

 

Quer tomar pão e vinho

e fazer surgir um homem a flutuar feliz no Caribe.

 

Quer ser cunhado como uma chave

para assim poder revelar os Magos.

 

Quer despedir-se entre estranhos, distribuindo

pedaços de seu coração como hors d’oeuvres. (*)

 

Quer morrer trocando de roupa

e disparar em direção ao sol como um diamante.

 

Ele quer, eu quero.

Meu Deus, não seria bom o suficiente

apenas beber chocolate quente?

 

Preciso de um novo pássaro

e de uma nova caixa da imortalidade.

Já há loucura suficiente dentro desta.

 

Em: “O Livro da Loucura” (1972)

 

Nota:

 

(*). Termo em francês: canapés, aperitivos.

 

Referência:

 

SEXTON, Anne. The ambition Bird. In: __________. The complete poems: Anne Sexton. With a foreword by Maxine Kumin. 1st ed. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 1981. p. 299-300.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Sylvia Plath - Decisão

Como se fosse uma tênue luminosidade na neblina, uma força resistiva que, de súbito, assoma da aparente passividade, a “Decisão” do título firma-se na escolha da falante em sobreviver mais um dia, simplesmente recusando-se a ser arrastada pela corrente do desespero e de expectativas alheias.

 

Nota-se nos versos um quadro de languidez, de alienação, de exclusão, de impotência, tão comum em certos casos de depressão, com potencial para levar à paralisia física e criativa, a uma incapacidade para agir que não seja tão apenas por meio de gestos automáticos, sem maiores propósitos no irreversível transcurso dos dias.

 

Nenhuma epifania sobrevém, nenhuma graça – o mundo não oferece consolo nem beleza transcendente, senão uma sequência interminável de desgastes –, suscitando na narradora a decisão de não agir, de não gastar energia em uma batalha em que se sente incapaz de vencer, de não participar desse jogo de aparências e lutas inglórias.

 

Ou de outro modo: quem quer que sejam os seus “doze examinadores vestidos de preto”, formação clássica de um júri – v.g., a sociedade, a crítica literária ou as vozes internalizadas de expectativa e de julgamento –, decide a voz lírica “desencantá-los”, desapontá-los, não cumprir-lhes as exigências, preferindo preservar as suas forças.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sylvia Plath

(1932-1963)

 

Resolve

 

Day of mist: day of tarnish

 

with hands

unseviceable, I wait

for the milk van

 

the one-eared cat

laps its gray paw

 

and the coal fire burns

 

outside, the little hedge leaves are

become quite yellow

a milk-film blurs

the empty bottles on the windowsill

 

no glory descends

 

two water drops poise

on the arched green

stem of my neighbor’s rose bush

 

o bent bow of thorns

 

the cat unsheathes its claws

the world turns

 

today

today I will not

disenchant my twelve black-gowned examiners

or bunch my fist

in the wind’s sneer.

 

In: “Poems” (1956-1963)

 

Mulher no Jardim

(Claude Monet: pintor francês)

 

Decisão

 

Dia nublado: dia cinzento

 

fico

de mãos bobas

esperando o leiteiro

 

o gato de uma orelha

lambe a pata cinza

 

e ardem brasas em chamas

 

lá fora, vão ficando amarelinhas

as folhas da trepadeira

uma fina fita de leite

embaça garrafas vazias na janela

 

nenhuma glória provém

 

duas gotas se equilibram

numa verde envergada

haste da roseira na casa ao lado

 

ó se arca de espinhos

 

o gato afia as garras

o mundo gira

 

hoje

hoje não irei

desiludir meus doze engalanados examinadores

nem cerrarei meu punho

na ironia do vento.

 

Em: “Poemas” (1956-1963)

 

Referência:

 

PLATH, Sylvia. Resolve / Decisão. Tradução de Elson Fróes. In: FRÓES, Elson (Seleção e tradução). Poemas traduzidos. Edição eletrônica, copyright © Elson Fróes, 2003. Em inglês: p. 28; em português: p. 29.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Augusto Meyer - O poema

Eis mais uma reflexão metalinguística sobre o poder da palavra poética sedimentada no poema, a se erigir como um elemento capaz de vencer a corrosão inevitável do tempo sobre o labirinto de ecos e de reflexos da memória, com o firme propósito de resgatar a essência mais pura de um dado momento, para eternizá-lo num “fruto de aroma misterioso”.

 

É a arte dando sentido à nossa fugaz existência, redimindo-a do olvido pela preservação de nossas lembranças, quer imagéticas quer sensoriais, consolidando-as numa moldura expressiva a albergar o âmago daquilo que se evoca, vale dizer, a verdade cristalizada de um instante que, porventura, vale a pena reter enquanto por aqui estivermos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Meyer

(1902-1970)

 

O poema

 

Corredor do tempo esquecido

Onde o eco responde ao eco,

Em vez de janelas, reflexo

De espelho a espelho, refletido.

 

Que passos repisando passos

Parados vão? A horas mortas,

Fria, uma presença esvoaça

De leves dedos, que abrem portas.

 

Longo é o caminho. Em qualquer parte

Rei dos Ratos rói os brinquedos.

Dos quatro cantos, lá no quarto

Sombras cochicham os teus segredos.

 

Onde a janela que se abria

Ao pôr do sol? Andando em frente,

Andando, andando, eu tocaria

No fim da terra, o ouro do poente.

 

Iriavam-se os cristais do lustre,

Na sala escura o espelho que arde!

Pulava a cortina, de susto,

Ao primeiro sopro da tarde.

 

Mas tudo agora é tão distante!

O rato rói o fio da história.

Só o arrepio de um instante

Sobe a surdina da memória...

 

Súbito, a hora morta no tempo

Amadurece como um fruto!

No misterioso aroma, o poema

Recolhe a essência de um minuto.

 

Parlenga de taverna

(Claus Meyer: pintor alemão)

 

Referência:

 

MEYER, Augusto. O poema. In: __________. Poesias: 1922-1955. Rio de Janeiro, RJ: Livraria São José Editora, 1957. p. 260-261.