O poeta interroga o
universo com a força de uma exclamação, neste soneto que é, a um só tempo, uma
meditação sobre a consciência e a responsabilidade, sobretudo em relação aos
seres que costumamos classificar como pertencentes a um mundo “inferior”, mas
que, assim como todas as demais criaturas neste plano de existência, têm beleza
intrínseca e direito à vida (e quiçá sejam autoconscientes de seu próprio valor,
como sugere o autor).
O verso derradeiro do
poema carrega uma ironia imensa: a lágrima, símbolo de arrependimento e de dor
moral, é tão avassaladora, quando em contraste com o tamanho da vítima – um
ácaro –, que lhe poderia ter causado o mesmo efeito de extinção por esmagamento
pela unha do falante. Em suma: mesmo a expressão do remorso tem potencial para
ser mais um meio de aniquilação!
J.A.R. – H.C.
Karl Shapiro
(1913-2000)
Writing, I crushed an insect with my nail
And thought nothing at all. A bit of wing
Caught my eye then, a gossamer so frail
And exquisite, I saw in it a thing
That scorned the grossness of the thing I wrote.
It hung upon my finger like a sting.
A leg I noticed next, fine as a mote,
“And on this frail eyelash he walked,” I said,
“And climbed and walked like any mountain-goat.”
And in this mood I sought the little head,
But it was lost; then in my heart a fear
Cried out, “A life – why beautiful, why dead!”
It was a mite that held itself most dear,
So small I could have drowned it with a tear.
In: “V-Letter and
Other Poems” (1944)
Diálogo de insetos
(Joan Miró: pintor
espanhol)
O Interlúdio III
Enquanto escrevia,
esmaguei um inseto com a unha,
E não lhe dei maior
importância. Então chamou-me
A atenção um pedaço
de asa, uma gaze tão frágil
E delicada que
levou-me a cismar ter nela visto algo
Que desdenhava a
crueza daquilo que eu escrevera.
Pendia como um ferrão
agarrado ao meu dedo.
Uma perna, notei em
seguida, fina como um cisco,
“E sobre esse frágil cílio
ele caminhava”, discorrera,
“A escalar e andejar
como qualquer cabra-montesa”.
E, com tal ânimo, busquei-lhe
a diminuta cabeça,
Mas a havia perdido; logo
um assombro vociferou-me
Ao coração: “Uma vida
– por que bela, por que morta!?”
Era um ácaro que se
tinha em grande consideração,
Tão ínfimo que eu o
poderia afogar com uma lágrima.
Em: “V-Letter e
Outros Poemas” (1944)
Referência:
SHAPIRO, Karl. The
interlude III. In: __________. Selected poems. New York, NY: Random
House, 1968. p. 69.
❁












