Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 25 de julho de 2026

Rafael del Castillo - A Espera

Tem-se aqui a espera (tenho-a como um cômpar à esperança) na condição de análogo do poema, a partir da sugestão de que, em uma vida desgastada e sem brilho, torna-se ela a única via capaz de conservar os atributos dos versos sobre a página, a saber, os meios hábeis para nos arrancar à passividade, dotando-nos a existência com foco, beleza e sentido.

 

Ao mesmo tempo cética e inspiradora, a esperança é essa força paradoxal que nos visita misteriosamente sem aviso prévio, num evento episódico e gratuito, fazendo-se irromper em nosso solo árido e pedregoso, digo melhor, na monotonia mesma da vida, com promessas de nos levar aos lampejos súbitos de uma graça restauradora da fé no futuro e que nos sirva de antídoto contra a resignação total.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rafael del Castillo

(b. 1962)

 

La Espera

 

Esta es la Espera

este el sol de la Espera

quizá lo único que le queda a tu vida parecido al poema

 

Deslucido en todos los momentos

escéptico de muy mala gana

a veces

como una inspiración

te visita la Espera

 

Luminosa

parecida a un poema

como una inspiración

 

De repente

sin que nadie la llame

a la brava

entre los secos breñales de las horas contadas

te visita la Espera

 

El poema

o algo que querría parecerse al poema:

la Espera pura

a veces,

te visita,

y entonces pareciera que la vida tiene aún qué ofrecerte...

 

À espera

(Edgar Degas: pintor francês)

 

A Espera

 

Esta é a Espera

este o sol da Espera

talvez o único que resta à tua vida parecido com o poema

 

Desbotado em todos os momentos

cético muito a contragosto

às vezes

como uma inspiração

a Espera te visita

 

Luminosa

parecida com um poema

com uma inspiração

 

De repente

sem que ninguém a chame

à força

entre as secas brenhas das horas contadas

a Espera te visita

 

O poema

ou algo que gostaria de se parecer com um poema:

a Espera pura

às vezes,

te visita,

e então pareceria que a vida ainda tem o que te oferecer...

 

Referência:

 

CASTILLO, Rafael del. La espera. In: __________. Palabras escuchadas en un café de barrio: selección de poemas. Bogotá, CO: Departamento de Publicaciones de la Universidad Externado de Colombia, dic. 2005. p. 45-46. (Colección “Un libro por centavos”; v. 17)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

James Dickey - O Céu dos Animais

Dickey oferece-nos uma visão diferenciada do paraíso, buscando celebrar a alteridade radical do mundo animal, libertando-o de nossas projeções sentimentais e apresentando-o em seu mais puro estado: um equilíbrio eterno, indomado e sereno, onde cada criatura submete-se ao seu destino instintivo como parte de um todo perfeito e imperturbável.

 

Trata-se, como se pode deduzir, de uma reflexão ecológica sobre a casa comum (“oikos”) e as regras que a governam, reflexão essa que se deixa permear por uma perspectiva – a um só tempo – brutalmente realista (pois que reconhece a necessidade da predação) e misticamente tranquila (haja vista que a eleva a um ato de graça e de beleza cósmica).

 

Como chave para a interpretação do poema, o constante renovar no âmbito da natureza, num “loop” eterno em cujas circunvoluções a presa volta a se integrar ao paraíso, para que o ciclo de vida e de morte tenha continuidade, aperfeiçoando-se numa marcha que, pelas palavras do poeta, se cumpre sem sofrimento.

 

J.A.R. – H.C.

 

James Dickey

(1923-1997)

 

The Heaven of Animals

 

Here they are. The soft eyes open.

If they have lived in a wood

It is a wood.

If they have lived on plains

It is grass rolling

Under their feet forever.

 

Having no souls, they have come,

Anyway, beyond their knowing.

Their instincts wholly bloom

And they rise.

The soft eyes open.

 

To match them, the landscape flowers,

Outdoing, desperately

Outdoing what is required:

The richest wood,

The deepest field.

 

For some of these,

It could not be the place

It is, without blood.

These hunt, as they have done,

But with claws and teeth grown perfect,

 

More deadly than they can believe.

They stalk more silently,

And crouch on the limbs of trees,

And their descent

Upon the bright backs of their prey

 

May take years

In a sovereign floating of joy.

And those that are hunted

Know this as their life,

Their reward: to walk

 

Under such trees in full knowledge

Of what is in glory above them,

And to feel no fear,

But acceptance, compliance.

Fulfilling themselves without pain

 

At the cycle’s center,

They tremble, they walk

Under the tree,

They fall, they are torn,

They rise, they walk again.

 

O Céu dos Animais

(Nancy Tillman: ilustradora norte-americana)

 

O Céu dos Animais

 

Cá estão. Suaves olhos abertos.

Se viveram num bosque

São o bosque.

Se nos prados viveram

São a grama girando

Sob seus pés para sempre.

 

Não tendo alma chegaram,

Mesmo assim, sem perguntas.

Seus instintos brotam plenos

E eles crescem.

Suaves olhos abertos

 

Para igualá-los, viceja a paisagem,

Excede-se ansiosa

Além do que é pedido:

A selva mais rica,

O campo mais fértil.

 

Para alguns deles,

Não seria o lugar

Se não houvesse o sangue.

A caça, como convém,

Mas com garras e dentes aperfeiçoados,

 

Mais mortais do que acreditam ser.

Aproximam-se, furtivos.

Saltam dos braços das árvores,

E seu assalto

Sobre o dorso brilhante das presas

 

Pode levar anos

Num régio e alegre arremate.

Os que são caçados

Sabem-no como a própria vida

E recompensa: caminhar

 

Sob as árvores, é estar consciente

Do que acima é beatitude.

E não sentir pavor

Porém acordo, complacência.

Chegando à plenitude sem sofrer

 

No meio da jornada,

Tremem, perambulam

Sob a árvore, e

Tombam, e são massacrados.

Mas erguem-se, caminham de novo.

 

Referência:

 

DICKEY, James. The heaven of animals / O céu dos animais. Tradução de Jane Arduino Perticarati e Mário Livramento. In: KEYS, Kerry Shawn (Org.). Quingumbo: new north american poetry / nova poesia norte-americana. Antologia bilíngue. Vários tradutores. São Paulo, SP: Escrita, 1980. Em inglês: p. 64 e 66; em português: p. 65 e 67.

quinta-feira, 23 de julho de 2026

João Cabral de Melo Neto - A lição de pintura

Na visão do poeta pernambucano, longe de ser um objeto perfeito que se dá por acabado, assim que finalizada a sua confecção, a obra de arte – seja ela uma pintura, seja a própria escrita de um texto em prosa ou poema –, encerra um processo infinito de elaboração, metaforizado nestes versos como uma porta que dá para um corredor e, daí, a outras portas.

 

Em sua linguagem notoriamente precisa no plano da racionalidade, alçada a uma precisa imagística arquitetural, Melo Neto sugere ao leitor que a arte é um processo, um caminho, não um destino, aberta em suas potencialidades, sobretudo conceituais, para evocar algo mais além de seus limites materiais.

 

Tenha-se em mente que uma obra de arte não existe de forma isolada, pois que se conecta com outras que a precederam, a inspiraram ou mesmo a contestaram, numa cadeia de significados que evolui no transcurso do tempo. Ou em outros termos: o artista há de plantar a semente do incomensurável em sua obra, sem saturar a tela de tons (ou a página de palavras), deixando assim espaços vazios (ou “portas ocultas”), que convidem o espectador (ou o leitor) a completar-lhe o sentido, a seguir em frente por essa trilha.

 

J.A.R. – H.C.

 

João Cabral de Melo Neto

(1920-1999)

 

A lição de pintura

 

Quadro nenhum está acabado,

disse certo pintor;

se pode sem fim continuá-lo,

primeiro, ao além de outro quadro

 

que, feito a partir de tal forma,

tem na tela, oculta, uma porta

que dá a um corredor

que leva a outra e a muitas outras.

 

Em: “Museu de tudo” (1974)

 

Hall com várias portas

(Imagem sem créditos)

 

Referência:


MELO NETO, João Cabral. A lição de pintura. In: __________. Poesia crítica: antologia. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio Editora, 1982. p. 8.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

David Ignatow - Resgatai os Mortos

Centrado na dicotomia entre a vida prática – não amar – e a entrega radical – amar –, Ignatow detém-se em evidenciar o alto custo que a autêntica entrega emocional exige – experimentado, ironicamente, pelos “mortos” –, em contraste com a segurança superficial da mera existência em que vivem os “livres”, sem estarem presos aos garrotes e às dores do comprometimento total.

 

Importar esclarecer – e compreenda-se que há algo de especulativo em tais deduções – que os “mortos” são os que, amando, se “perderam” no bosque ou, ainda, aqueles que se transformaram em peixes no mar profundo: se “mortos” para o mundo, para o poeta, contudo, são os que, de fato, apreenderam a essência mesma da existência, ainda que ao custo da aniquilação do eu social.

 

O vocativo final parece ser um pedido de auxílio, emanado a partir do próprio abismo em que se encontram os que se dispuseram a amar com todas as forças, dirigido aos livres que estão a salvo nas margens, para que lhes ajudem a escapar da asfixia de tamanha paixão desmesurada.

 

J.A.R. – H.C.

 

David Ignatow

(1914-1997)

 

Rescue the Dead

 

Finally, to forgo love is to kiss a leaf,

is to let rain fall nakedly upon your head,

is to respect fire,

is to study man’s eyes and his gestures

as he talks,

is to set bread upon the table

and a knife discreetly by,

is to pass through crowds

like a crowd of oneself.

Not to love is to live.

 

To love is to be led away

into a forest where the secret grave

is dug, singing, praising darkness

under the trees.

 

To live is to sign your name,

is to ignore the dead,

is to carry a wallet

and shake hands.

 

To love is to be a fish.

My boat wallows in the sea.

You who are free,

rescue the dead.

 

A brigada da vida

(Winslow Homer: pintor norte-americano)

 

Resgatai os Mortos

 

Enfim, privar-se do amor é beijar uma folha,

é deixar a chuva cair nuamente sobre a vossa cabeça,

é respeitar o fogo,

é perscrutar os olhos do homem e seus gestos

enquanto fala,

é colocar pão sobre a mesa

e uma faca discretamente ao lado,

é passar por multidões

como uma multidão de si mesmo.

Não amar é viver.

 

Amar é deixar-se levar a um bosque

onde se escava em segredo a sepultura,

cantando, bendizendo a escuridão

sob as árvores.

 

Viver é assinar o vosso nome,

é ignorar os mortos,

é portar uma carteira

e apertar as mãos.

 

Amar é ser um peixe.

Meu barco debate-se no mar.

Vós que sois livres,

resgatai os mortos.

 

Referência:

 

IGNATOW, David. Rescue the dead. In: WASHBURN, Katharine; MAJOR, John S. (Eds.), FADIMAN, Clifton (Gen. Ed.). World poetry: an anthology of verse from antiquity to our time. New York, NY: Quality Paperback Book Club, 1998. p. 1215-1216.