Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 2 de julho de 2026

Carlos Nejar - Tratado de bom governo (Excerto)

A associar-se, pelo título, a um dos afrescos de Ambrogio Lorenzetti (1290-1348) no “Palazzo Comunale” de Siena, na Itália, a intitulada obra de Nejar oferece ao leitor uma acerba crítica política, concatenada a refinadas reflexões sobre a morte, o fluxo do tempo e a condição humana, mediada, em seu conjunto, por uma alegoria de “governança dos mortos” – bem mais lúcida e justa aos olhos do poeta, sobretudo quando em comparação ao império dos vivos, onde o caos e a corrupção parecem ser a regra.

 

Compõe-se a recolha de tercetos plasmados numa linguagem densa, simbólica, por vezes erudita, repleta de referências históricas, literárias e filosóficas – de Sêneca a Dante, de Shakespeare a Neruda –, a desvelar as muitas feridas do Brasil e da humanidade, em cujo bojo assoma, axiomática e categórica, a poesia como um espaço de resistência talhado para desenterrar verdades, tecer redes de solidariedade e semear esperanças. Ou por outra: a palavra poética como arma numa trincheira contra a opressão, o olvido e a degradação ética.

 

O excerto, que ora se obsequia ao leitor, canta loas aos poetas universais, num intertexto com a tradição que não se limita a apenas citar grandes nomes da cosmologia poética, mas também a associá-los a detalhes, ações ou imagens que lhes digam respeito, com o nítido objetivo de ressaltar que a arte – e muito particularmente a que milita no chamado “reino das palavras” – não consiste em algo alheio às realidades de poder e de hierarquia que permeiam a sociedade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Nejar

(n. 1939)

 

Tratado de bom governo (Excerto)

 

E vi formarem um corso

Inefável de poetas.

Tal como no pampa o osso

 

Que aos jogadores entesta.

Dante, Camões Ariosto,

Ovídio – longe do exílio.

 

Virgílio, campônio ajeita

A sua roça de esquilos

E trigos para uma festa.

 

Ponge, infante funâmbulo.

Tendo à boca trompete,

Ezra Pound. Sobre a mão,

 

Incandescido falcão.

François Villon no cilício,

Abstinências se repete.

 

Do assassinato e do vicio,

Livre. Sem nenhum jumento,

Francis Jammes se molha

 

De manhãs entre chicórias.

Parras com tesoura poda.

E Hugo, de vista equórea,

 

Com Castro Alves na bruma

Discute versos e toda

História que se despluma.

 

Poe, Baudelaire, Valéry –

Que cofia seu bigode –

Pondo seixos no bodoque

 

Miram árvores, guris.

E é neles que pousam aves.

E Saint-Perse com luneta

 

Contempla Alexis Léger,

Como um mandarim que crê

listar num outro planeta.

 

Com pés da noite acode

C) bom Vallejo, pão

Enorme, dorme, dorme.

 

E Walt Whitman sorve

Américas, Arão

De amêndoas barbas jovens.

 

Lautréamont leva um carão

De Michaux por se entreter

Como um algoz da criação.

 

Auden com Shakespeare

Inseparáveis no ir

E vir. E Yeats a gastar

 

Nos tapetes de ar

Seus sapatos de frio

Zombando deste estio

 

Nevado. Kierkegaard

Com temor e tremor

Se esquece deste rombo

 

Que às vezes faz o amor

Entre vilões e bobos.

Marianne Moore em xis

 

Escreve: “Não poesia,

Este objeto verbal

De vitrine e vasilha.”

 

Prefiro a que perfaz

Das coisas a sextina

E da sextina o caos.

 

E do caos armadilha

Para prender o mar

E ele, de amor, servi-la.

 

Neruda entra no trem

De seu pai ferroviário,

Vê que há vagões, mas sem

 

Locomotiva e horário.

Pessoa com pés videiras,

Correspondente de vinho

 

Prepara barris na feira.

Rilke, hierático, com mechas

De lírios, fundas olheiras,

 

Urde elegias de limo.

Uma rosa com Drummond,

Outra com Celan, cabeça

 

Tão grande, corpo pequeno,

Bebe água lá do cimo

E cata em chapéu sereno.

 

E os olhos ágeis de Shelley

E o coxo Byron, moreno.

E Cabral, vagando em eles

 

Com a cabra sobre o cerro.

Goethe, um lorde, sábio dândi,

Por mais que de um lado ande,

 

Noutro, atrás, terá seu fausto.

Verlaine: solado gasto.

Traz violão na algibeira.

 

Jorge de Lima e Petrarca

Fabulam na mesma barca

De intempéries. Cruz e Souza

 

Leva de arrasto a lousa

Da penúria. Rimbaud, Lorca:

Guaiaca de margaridas

 

Na cintura. Estremecida

É a força que, sem a vida,

É outra, outro raizame,

 

Que mais alonga na fome.

Quanto mais na morte some,

Para se alçar em seguida.

 

E a alguns – vi – debulhados

Num vergel de palavras:

Espúrias, desprezadas,

 

Senhoriais, de pia,

Umas e outras plantadas

Num solo refratário.

 

Diferenciavam males

E prebendas alçadas.

E era como um estuário

 

De apenas uma via.

As palavras vexadas

Se afiavam nas patrícias.

 

E escravas, na sevícia.

Eu lastimei tal empório

De classes e de cartório.

 

Dante e Virgílio no Nono Círculo do Inferno

(Gustave Doré: ilustrador e pintor francês)

 

Referência:

 

NEJAR, Carlos. Tratado de bom governo (excerto). In: __________. Tratado de bom governo. São Paulo, SP: Escrituras Editora, 2004. p. 43-48.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Conrad Aiken - Exílio

Aiken formula nestas linhas uma metáfora sombria sobre a devastação espiritual que se produz a partir da perda do “lar essencial”, seja ele de ordem geográfica ou – o que é mais provável! – emocional/existencial: transformado numa espécie de aranha, o falante nos fala de um processo de desumanização última que um “exílio” prolongado pode acarretar, ao longo do qual a única adaptação possível, lôbrega e inapelável, passa pela conversão do sujeito na própria aridez que o consome.

 

A voz lírica aspira por beleza e vitalidade, privativas de um paraíso exuberante no qual o ar se enche de ditosas expectativas, tudo como antítese direta ao entorno ermo e hostil em que se encontra. Contudo, finda o poema num tom de resignação do falante com o seu estado vulnerável e desesperançado, de morte em vida, ao fio de uma espectral sobrevivência sustentada pela umidade do orvalho – insuficiente, mas indispensável.

 

J.A.R. – H.C.

 

Conrad Aiken

(1889-1973)

 

Exile

 

These hills are sandy. Trees are dwarfed here. Crows

Caw dismally in skies of an arid brilliance,

Complain in dusty pine-trees. Yellow daybreak

Lights on the long brown slopes a frost-like dew,

Dew as heavy as rain; the rabbit tracks

Show sharply in it, as they might in snow.

But it’s soon gone in the sun – what good does it do?

The houses, on the slope, or among brown trees,

Are grey and shrivelled. And the men who live here

Are small and withered, spider-like, with large eyes.

 

Bring water with you if you come to live here –

Cold tinkling cisterns, or else wells so deep

That one looks down to Ganges or Himalayas.

Yes, and bring mountains with you, white, moon-bearing,

Mountains of ice. You will have need of these

Profundities and peaks of wet and cold.

 

Bring also, in a cage of wire or osier,

Birds of a golden colour, who will sing

Of leaves that do not wither, watery fruits

That heavily hang on long melodious boughs

In the blue-silver forests of deep valleys.

 

I have now been here – how many years? Years unnumbered.

My hands grow clawlike. My eyes are large and starved.

I brought no bird with me, I have no cistern

Where I might find the moon, or river, or snow.

Some day, for lack of these, I’ll spin a web

Between two dusty pine-tree tops, and hang there

Face downward, like a spider, blown as lightly

As ghost of leaf. Crows will caw about me.

Morning and evening I shall drink the dew.

 

Estado de Exílio

(Scott McLachlan: artista escocês)

 

Exílio

 

Estas colinas são arenosas. As árvores aqui se ananzam. Corvos

Crocitam lugubremente seus gemidos em pinheiros poeirentos,

Sob céus de um árido resplendor. A amarelada aurora

Banha as longas encostas pardas com um orvalho escarchado,

Um orvalho tão denso quanto a chuva; nele, as pegadas

De coelho destacam-se com nitidez, como se sobre a neve.

Mas logo o sol o dissipa – qual o proveito que dele resulta?

As casas, sobre a encosta ou entre as árvores pardas,

São cinzentas e engelhadas. E os homens que cá vivem,

Pequenos e mirrados, araneiformes, têm grandes olhos.

 

Trazei água convosco, caso venhais aqui habitar:

Cisternas frias e tilintantes, ou então poços tão profundos

Nos quais se possam descortinar o Ganges ou os Himalaias.

Sim, e trazei montanhas convosco, brancas, lunares,

Montanhas de gelo. Vós tereis necessidade de tais

Profundezas, bem assim desses cumes úmidos e frios.

 

Trazei também, numa gaiola de vime ou de aço,

Pássaros dourados, que haverão de trinar seus cantos

Às folhagens que não murcham, frutos aquosos

Que pendem pesadamente de ramos longos e melódicos

Nas florestas azul-prateadas de vales profundos.

 

Já cá estou há quantos anos? Há incontáveis anos.

Minhas mãos tornam-se garras. Meus olhos, grandes e famintos.

Não trouxe pássaro algum comigo, não tenho cisterna

Onde eu possa encontrar a lua, o rio ou a neve.

Um dia, por falta disso, tecerei uma teia

Entre duas copas de pinheiros poeirentos, e ali penderei

De ponta-cabeça, como uma aranha, soprado tão levemente

Quanto um espectro de folha. Corvos crocitarão à minha volta.

Ao alvorecer e ao crepúsculo, sorverei o orvalho.

 

Referência:

 

AIKEN, Conrad. Exile. In: __________. Selected poems. With a new foreword by Harold Bloom. New York, NY: Oxford University Press, 2003. p. 44-45.

terça-feira, 30 de junho de 2026

Charles Baudelaire - Elevação

Nesta ode ao poder transcendente do espírito, Baudelaire nos guia em uma viagem desde o plano do tangível e do opressivo – tão característicos de nossa realidade terrena – até as paragens do etéreo, do puro e do sublime, sempre a empregar aquela sua forma de linguagem dominantemente sinestésica – digo melhor, sensorial –, para pormenorizar as graduações dessa progressão ascensional hiperbólica.

 

Para além do escape ao meramente físico, de seus “mórbidos miasmas”, o que o autor nos propõe é um voo interior, ascético e imaginativo – logo poético –, com o objetivo de nos guindar à iluminação, pela via de uma conexão mística com o cosmos e o universo: assim purificados, poderemos entrar num estado de êxtase, em conexão com o divino, quiçá atingindo até mesmo as lindes de onde sejamos capazes de vislumbrar os “scripts” da linguagem secreta da Criação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Baudelaire

(1821-1867)

 

Élévation

 

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,

Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,

Par delà le soleil, par delà les éthers,

Par delà les confins des sphères étoilées,

 

Mon esprit, tu te meus avec agilité,

Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l’onde,

Tu sillonnes gaiement l’immensité profonde

Avec une indicible et mâle volupté.

 

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;

Va te purifier dans l’air supérieur,

Et bois, comme une pure et divine liqueur,

Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

 

Derrière les ennuis et les vastes chagrins

Qui chargent de leur poids l’existence brumeuse,

Heureux celui qui peut d’une aile vigoureuse

S’élancer vers les champs lumineux et sereins;

 

Celui dont les pensers, comme des alouettes,

Vers les cieux le matin prennent un libre essor,

– Qui plane sur la vie, et comprend sans effort

Le langage des fleurs et des choses muettes!

 

Elevação da alma

(Irina Rasquinet: artista chechena)

 

Elevação

 

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,

As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,

Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,

Para além dos confins dos tetos estrelados,

 

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,

E, como um nadador que nas águas afunda,

Sulcas alegremente a imensidão profunda

Com um lascivo e fluido gozo masculino.

 

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,

Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,

E bebe, qual licor translúcido e divino,

O puro fogo que enche o espaço transparente.

 

Depois do tédio e dos desgostos e das penas

Que gravam com seu peso a vida dolorosa,

Feliz daquele a quem uma asa vigorosa

Pode lançar às várzeas claras e serenas;

 

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,

De manhã rumo aos céus liberto se distende,

Que paira sobre a vida e sem esforço entende

A linguagem da flor e das coisas sem voz!

 

Referência:

 

BAUDELAIRE, Charles. Élévation / Elevação. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. As flores do mal. Apresentação de Marcelo Jacques. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Edição especial. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2012. Em francês: p. 136 e 138; em português: p. 137 e 139. (Coleção “Saraiva de Bolso”)