O ensaísta mexicano
explora os abismos da linguagem e da consciência, apresentando-nos um poema sobre
a experiência do nascimento, da queda e do caráter paradoxal da palavra escrita,
sempre a nascer de uma traição necessária à mais pura intenção, com o
consequente congelamento do fluxo de tal ato criador, derivativo manifesto da
exaustão de sua própria magia.
A escrita tenciona medir,
capturar, dar sentido cronológico ao efêmero, à queda inevitável: nesse salto
para o poço da linguagem, o poeta busca capturar um reflexo da realidade que,
ao ser fixado, se desintegra e, ainda assim, persiste numa palavra que nem é a
última, nem é a verdadeira, mas é a que se tem para podermos nos sustentar sobre
o abismo.
J.A.R. – H.C.
Octavio Paz
(1914-1998)
La palabra escrita
Ya escrita la primera
Palabra (nunca la
pensada
Sino la otra – ésta
Que no la dice, que
la contradice,
Que sin decirla está
diciéndola)
Ya escrita la primera
Palabra (uno, dos,
três –
Arriba el sol, tu
cara
En el centro del
pozo,
Fija como un sol atónito)
Ya escrita la primera
Palabra (cuatro,
cinco –
No acaba de caer la
piedrecilla,
Mira tu cara mientras
cae, cuenta
La cuenta vertical de
la caída)
Ya escrita la primera
Palabra (hay otra,
abajo,
No la que está
cayendo,
La que sostiene al
rostro, al sol, al tiempo
Sobre el abismo: la
palabra
Antes de la caída y
de la cuenta)
Ya escrita la primera
Palabra (dos, tres,
cuatro –
Verás tu rostro roto,
Verás un sol que se
dispersa,
Verás la piedra entre
las aguas rotas,
Verás el mismo
rostro, el mismo sol,
Fijo sobre las mismas
aguas)
Ya escrita la primera
Palabra (sigue,
No hay más palabras
que las de la cuenta)
En: “Salamandra”
(1958-1961)
Sol ardente
(Jaison Cianelli:
artista norte-americano)
A palavra escrita
Já escrita a primeira
Palavra (nunca a
pensada
mas a outra – esta
Que não a diz, que a
contradiz,
Que sem dizê-la a
está dizendo)
Já escrita a primeira
Palavra (um, dois,
três –
Lá em cima o sol, teu
rosto
No centro do poço,
Fixo como um sol
atônito)
Já escrita a primeira
Palavra (quatro,
cinco –
Segue em queda a pedrinha,
Olha o teu rosto
enquanto cai, conta
a medida vertical da
sua queda)
Já escrita a primeira
Palavra (há outra, lá
embaixo,
Não a que está
caindo,
A que sustenta o
rosto, o sol, o tempo
Sobre o abismo: a
palavra
Antes da queda e da conta)
Já escrita a primeira
Palavra (dois, três,
quatro –
Verás teu rosto
disforme,
Verás um sol que se
dispersa,
Verás a pedra entre
as águas serpeantes,
Verás o mesmo rosto,
o mesmo sol,
Fixo sobre as mesmas
águas)
Já escrita a primeira
Palavra (continua,
Não há mais palavras
que as da conta)
Em: “Salamandra”
(1958-1961)
Referência:
PAZ, Octavio. La palabra escrita. In: __________. La centena: poemas (1935-1968). Barcelona, ES: Barral Editores, sept. 1969. p. 128-129.
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