Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Jorge Luis Borges - Poema conjectural

Este poema de Borges se apresenta como um monólogo interno de Francisco Narciso de Laprida (1786-1829), uma figura histórica real no cenário político da Argentina, tendo sido presidente do Congresso de Tucumán que declarou, em 1916, a independência do país em relação à Espanha.

 

Laprida – um homem devotado às leis e aos livros –, como se depreende da epígrafe em itálico, morreu assassinado pelos “montoneros” – tropas federais irregulares – de Aldao, durante as brutais guerras civis que se sucederam àquele marco político, momento em que teria experimentado um “conjectural” êxtase cognitivo, explico-me melhor, compreendido que, mesmo sob a identificação com os marcos civilizacionais da cultura europeia, sua essência achava-se irrevogavelmente conectada à estirpe argentina ou hispanoamericana, descrita incidentalmente por elementos tão próximos ao “bárbaro” – gaúchos, lanças, lodaçais.

 

Poder-se-ia dizer que Borges – um intelectual bibliófilo – se projeta na figura de um outro homem de semelhante condição, para refletir sobre o seu país natal, o destino sul-americano, a condição humana e os sentidos que se lhe possam atribuir, tomando um fato histórico menor para o transfigurar numa espécie de evento mítico universal, tencionando conectá-lo à grande tradição literária ocidental.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Luis Borges

(1899-1986)

 

Poema conjetural

 

El doctor Francisco Laprida, asesinado el

día 22 de septiembre de 1829 por los montoneros

de Aldao, piensa antes de morir:

 

Zumban las balas en la tarde última.

Hay viento y hay cenizas en el viento,

se dispersan el día y la batalla

deforme, y la victoria es de los otros.

Vencen los bárbaros, los gauchos vencen.

Yo, que estudié las leyes y los cánones,

yo, Francisco Narciso de Laprida,

cuya voz declaró la independencia

de estas crueles provincias, derrotado,

de sangre y de sudor manchado el rostro,

sin esperanza ni temor, perdido,

huyo hacia el Sur por arrabales últimos.

Como aquel capitán del Purgatorio

que, huyendo a pie y ensangrentando el llano,

fue cegado y tumbado por la muerte

donde un oscuro río pierde el nombre,

así habré de caer. Hoy es el término.

La noche lateral de los pantanos

me acecha y me demora. Oigo los cascos

de mi caliente muerte que me busca

con jinetes, con belfos y con lanzas.

Yo que anhelé ser otro, ser un hombre

de sentencias, de libros, de dictámenes

a cielo abierto yaceré entre ciénagas;

pero me endiosa el pecho inexplicable

un júbilo secreto. Al fin me encuentro

con mi destino sudamericano.

A esta ruinosa tarde me llevaba

el laberinto múltiple de pasos

que mis días tejieron desde un día

de la niñez. Al fin he descubierto

la recóndita clave de mis años,

la suerte de Francisco de Laprida,

la letra que faltaba, la perfecta

forma que supo Dios desde el principio.

En el espejo de esta noche alcanzo

mi insospechado rostro eterno. El círculo

se va a cerrar. Yo aguardo que así sea.

 

Pisan mis pies la sombra de las lanzas

que me buscan. Las befas de mi muerte,

los jinetes, las crines, los caballos,

se ciernen sobre mí... Ya el primer golpe,

ya el duro hierro que me raja el pecho,

el íntimo cuchillo en la garganta.

 

1943

 

Monumento a Francisco Narciso de Laprida

em San José de Jáchal (AR)

(por Lola Mora)

 

Poema conjectural

 

O doutor Francisco Laprida, assassinado

no dia 22 de setembro de 1829 pelos montoneros

de Aldao, pensa antes de morrer:

 

Zunem as balas na última tarde.

Sopra o vento e há cinzas nesse vento,

se dispersam o dia e a batalha

disforme, e a vitória cabe aos outros.

Vencem os bárbaros, vencem os gaúchos.

Eu, que estudei os cânones e as leis,

eu, Francisco Narciso de Laprida,

cuja voz declarou a independência

destas cruéis províncias, derrotado,

de sangue e de suor manchado o rosto,

sem esperança nem temor, perdido,

para o Sul fujo, por subúrbios últimos.

Como aquele capitão do Purgatório:

fugindo a pé e ensanguentando o solo,

foi cegado e tombado pela morte

ali onde um rio escuro perde o nome,

assim hei de cair. Hoje é o final.

A noite lateral dos lodaçais

me espia e me retém. Escuto os cascos

de minha quente morte que me busca

com cavalos, com beiços e com lanças.

Eu que sonhei ser outro, ser um homem

de sentenças, de livros, de juízos,

a céu aberto jazerei na lama;

porém me endeusa o peito inexplicável

um júbilo secreto. Enfim encontro

o meu destino sul-americano.

Para esta tarde trágica me trouxe

o labirinto múltiplo de passos

que os dias meus tramaram desde um dia

da infância. Agora enfim é que descubro

a recôndita chave de meus anos,

a sorte de Francisco de Laprida,

a letra que faltava, essa perfeita

forma que Deus conhece desde o início.

No espelho desta noite eu reconheço

meu rosto eterno insuspeitado. O círculo

vai se fechar. Espero que assim seja.

 

Pisam meus pés a sombra dessas lanças

que me buscam. O insulto dessa morte,

os ginetes, as crinas, os cavalos,

me afogam… Vem o primeiro golpe,

o duro ferro que me fende o peito,

a íntima navalha na garganta.

 

1943

 

Referência:

 

BORGES, Jorge Luis. Poema conjetural / Poema conjectural. Tradução de Heloisa Jahn. In: __________. O outro, o mesmo. Tradução de Heloisa Jahn. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2009. Em espanhol: p. 32 e 34; em português: p. 33 e 35.

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Mario Quintana - Carta

Quintana oferece-nos o testemunho de uma poética da autenticidade, num texto em forma de carta indispensável para qualquer aspirante a artista: em suas linhas, o autor gaúcho rechaça a imposição incondicional de normas externas, as injunções do mercado editorial, as modas literárias e as pretensões cerebrinas, para centrar-se no mais importante, a saber, a luta honesta e humilde do indivíduo por expressar a sua verdade mais profunda através da palavra, polida com o rigor de um artesão.

 

É de se enfatizar dois dos conselhos que Quintana oferece ao poeta em formação, em linha de coerência com todas os argumentos insertos na prosa em questão: (i) para ler somente os poetas com quem sinta afinidade, aqueles que o ajudem a compreender a si mesmo, não exatamente para imitar-lhes o que quer que haja neles; e (ii) para se dedicar, nada obstante, à técnica, à disciplina e ao aprendizado da “bela ginástica” da métrica clássica, podendo, a partir daí, desenvolver um estilo próprio e livre.

 

Há muito mais, ainda, nessa guia mentora: “um poema não é um teorema” ou uma peça nascida de um cálculo intelectual, senão que deve assomar no fértil terreno da espontaneidade, após o que se há de promover uma “poda” implacável, eliminando-lhe o supérfluo, o falso, o puramente decorativo ou lógico, para então se oferecer ao leitor, em sua beleza essencial e orgânica, como algo individual que se conecta ao universalmente humano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mario Quintana

(1906-1994)

 

Carta

 

Meu caro poeta,

 

Por um lado foi bom que me tivesses pedido resposta urgente, senão eu jamais escreveria sobre o assunto desta, pois não possuo o dom discursivo e expositivo, vindo daí a dificuldade que sempre tive de escrever em prosa. A prosa não tem margens, nunca se sabe quando, como e onde parar. O poema, não; descreve uma parábola traçada pelo próprio impulso (ritmo); é que nem um grito. Todo poema é, para mim, uma interjeição ampliada; algo de instintivo, carregado de emoção. Com isso não quero dizer que o poema seja uma descarga emotiva, como o faziam os românticos. Deve, sim, trazer uma carga emocional, uma espécie de radioatividade, cuja duração só o tempo o dirá. Por isso há versos de Camões que nos abalam tanto até hoje e há versos de hoje que os pósteros lerão com aquela cara com que lemos os de Filinto Elísio. Aliás, a posteridade é muito comprida: me dá sono. Escrever com o olho na posteridade é tão absurdo como escreveres para os súditos de Ramsés II, ou para o próprio Ramsés, se fores palaciano. Quanto a escrever para os contemporâneos, está muito bem, mas como é que vais saber quem são os teus contemporâneos? A única contemporaneidade que existe é a da contingência política e social, porque estamos mergulhados nela, mas isto compete melhor aos discursivos e expositivos, aos oradores e catedráticos. Que sobra então para a poesia? perguntarás. E eu te respondo que sobras tu. Achas pouco? Não me refiro à tua pessoa, refiro-me ao teu eu, que transcende os teus limites pessoais, mergulhando no humano. O Profeta diz a todos: “eu vos trago a Verdade”, enquanto o poeta, mais humildemente, limita-se a dizer a cada um: “eu te trago a minha verdade”. E o poeta, quanto mais individual, mais universal, pois cada homem, qualquer que seja o condicionamento do meio e da época, só vem a compreender e amar o que é essencialmente humano. Embora, eu que o diga, seja tão difícil ser assim autêntico. Às vezes assalta-me o terror de que todos os meus poemas sejam apócrifos!

 

Meu poeta, se estas linhas estão te aborrecendo é porque és poeta mesmo. Modéstia à parte, as digressões sobre poesia sempre me causaram tédio e perplexidade. A culpa é tua, que me pediste conselho e me colocas na insustentável situação em que me vejo quando essas meninas dos colégios vêm (por inocência ou maldade dos professores) fazer pesquisas com perguntas assim: “O que é poesia? Por que se tornou poeta? Como escreve os seus poemas?”. A poesia é dessas coisas que a gente faz mas não diz.

 

A poesia é um fato consumado, não se discute; perguntas-me, no entanto, que orientação de trabalho seguir e que poetas deves ler. Eu tinha vontade de ser um grande poeta para te dizer como é que eles fazem. Só te posso dizer o que eu faço. Não sei como vem um poema. Às vezes uma palavra, uma frase ouvida, uma repentina imagem que me ocorre em qualquer parte, nas ocasiões mais insólitas. A esta imagem respondem outras. Por vezes uma rima até ajuda, com o inesperado da sua associação. (Em vez de associações de ideias, associações de imagens; creio ter sido esta a verdadeira conquista da poesia moderna.) Não lhes oponho trancas nem barreiras. Vai tudo para o papel. Guardo o papel, até que um dia o releio, já esquecido de tudo (a falta de memória é uma bênção nestes casos). Vem logo o trabalho de corte, pois noto logo o que estava demais ou o que era falso. Coisas que pareciam tão bonitinhas, mas que eram puro enfeite, coisas que eram puro desenvolvimento lógico (um poema não é um teorema), tudo isso eu deito abaixo, até ficar o essencial, isto é, o poema. Um poema tanto mais belo é quanto mais parecido for com um cavalo. Por não ter nada de mais nem nada de menos é que o cavalo é o mais belo ser da Criação.

 

Como vês, para isso é preciso uma luta constante. A minha está durando a vida inteira. O desfecho é sempre incerto. Sinto-me capaz de fazer um poema tão bom ou tão ruinzinho como aos 17 anos. Há na Bíblia uma passagem que não sei que sentido lhe darão os teólogos; é quando Jacó entra em luta com um anjo e lhe diz: “Eu não te largarei até que me abençoes!” Pois bem, haverá coisa melhor para indicar a luta do poeta com o poema? Não me perguntes, porém, a técnica dessa luta sagrada ou sacrílega. Cada poeta tem de descobrir, lutando, os seus próprios recursos. Só te digo que deves desconfiar dos truques da moda, que, quando muito, podem enganar o público e trazer-te uma efêmera popularidade.

 

Em todo caso, bem sabes que existe a métrica. Eu tive a vantagem de nascer numa época em que só se podia poetar dentro dos moldes clássicos. Era preciso buscar as palavras naqueles moldes, obedecer àquelas rimas. Uma bela ginástica, meu poeta, que muitos de hoje acham ingenuamente desnecessária. Mas, da mesma forma que a gente primeiro aprendia nos cadernos de caligrafia para depois, com o tempo, adquirir uma letra própria, espelho grafológico da sua individualidade, eu na verdade te digo que só tem capacidade e moral para criar um ritmo livre quem for capaz de escrever um soneto clássico. Verás com o tempo que cada poema, aliás, impõe a sua forma; uns, as canções, já vêm dançando, com as rimas de mãos dadas, outros, os dionisíacos (ou histriônicos, como queiras) até parecem aqualoucos. E um conselho, afinal: não cortes demais (um poema não é um esquema); eu próprio, que tanto te recomendei a contenção, às vezes me distendo, me largo num poema que lá vai seguindo com os seus detritos, como um rio de enchente, e que me faz bem, porque o espreguiçamento é também uma ginástica. Desculpa se tudo isso é uma coisa óbvia; mas para muitos, que tu conheces, ainda não é; mostra-lhes, pois, estas linhas.

 

Agora, que poetas deves ler? Simplesmente os poetas de que gostares e eles assim te ajudarão a compreender-te, em vez de tua eles. São os únicos que te convêm, pois cada um só gosta de quem se parece consigo. Já escrevi, e repito: o que chamam de influência poética é apenas confluência. Já li poetas de renome universal e, mais grave ainda, de renome nacional, e que no entanto me deixaram indiferente. De quem a culpa? De ninguém. É que não eram da minha família.

 

Enfim, meu poeta, trabalhe, trabalhe em seus versos e em você mesmo e apareça-me daqui a vinte anos. Combinado?

 

Em: “Caderno H” (1973)

 

Eugène Boch / O Poeta

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Referência:

 

QUINTANA, Mario. Carta. In: __________. Poesia completa: em um volume. Organização, preparação do texto, prefácio e notas por Tania Franco Carvalhal. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 2006. p. 342-344. (Biblioteca Luso-Brasileira; Série Brasileira)

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Pablo Neruda - A poesia

Neruda nos conta como a poesia o alcançou, sob a forma de um rompante vital e primordial que se deflagrou em determinado momento de sua vida, transformando e redefinindo a percepção que, até então, tinha da realidade, elevando-lhe a perspectiva do meramente individual ao mistério maior da própria existência, permitindo-lhe, assim, conectar-se a uma visão mais ampla do universo.

 

A inspiração poética, sob tal mirada, seria um chamado irresistível, ou melhor, um evento avassalador que, nascendo do não-saber, revelar-se-ia robusto o suficiente para conduzir o poeta à sabedoria última de sentir-se parte do todo, num ato epifânico de comunhão total com o cosmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pablo Neruda

(1904-1973)

 

La poesía

 

Y fue a esa edad... Llegó la poesía

a buscarme. No sé, no sé de dónde

salió, de invierno o río.

No sé cómo ni cuándo,

no, no eran voces, no eran

palabras, ni silencio,

pero desde una calle me llamaba,

desde las ramas de la noche,

de pronto entre los otros,

entre fuegos violentos

o regresando solo,

allí estaba sin rostro

y me tocaba.

 

Yo no sabía qué decir, mi boca

no sabía

nombrar,

mis ojos eran ciegos,

y algo golpeaba en mi alma,

fiebre o alas perdidas,

y me fui haciendo solo,

descifrando

aquella quemadura,

y escribí la primera línea vaga,

vaga, sin cuerpo, pura

tontería,

pura sabiduría

del que no sabe nada,

y vi de pronto

el cielo

desgranado

y abierto,

planetas,

plantaciones palpitantes,

la sombra perforada,

acribillada

por flechas, fuego y flores,

la noche arrolladora, el universo.

 

Y yo, mínimo ser,

ebrio del gran vacío

constelado,

a semejanza, a imagen

del misterio,

me sentí parte pura

del abismo,

rodé con las estrellas,

mi corazón se desató en el viento.

 

En: “Memorial de Isla Negra” (1962-1964)

 

O sonho do poeta

(John Faed: pintor escocês)

 

A poesia

 

E foi nessa idade... A poesia chegou

para me buscar. Não sei, não sei de onde

saiu, se do inverno ou de um rio.

Não sei como nem quando,

não, não eram vozes, não eram

palavras, nem silêncio,

mas de uma rua ela me chamava,

dos ramos da noite,

de súbito entre os outros,

entre fogos violentos

ou, em regresso a sós,

eis que ali se me afigurava sem rosto

e me tocava.

 

Eu não sabia o que dizer, minha boca

não sabia

nomear,

meus olhos estavam cegos,

e algo percutia em minha alma,

febre ou asas perdidas,

e me fui fazendo sozinho,

a decifrar

aquela queimadura,

e escrevi a vaga primeira linha,

vaga, sem corpo, pura

tolice,

pura sabedoria

de quem nada sabe,

e de repente vi

o céu

debulhado

e aberto,

planetas,

plantações pulsantes,

a sombra trespassada,

crivada

de flechas, fogo e flores,

a noite avassaladora, o universo.

 

E eu, um mínimo ser,

inebriado pelo grande vazio

constelado,

à semelhança, à imagem

do mistério,

senti-me parte pura

do abismo,

girei com as estrelas,

meu coração desatou-se ao vento.

 

Em: “Memorial da Ilha Negra” (1962-1964)

 

Referência:

 

NERUDA, Pablo. La poesía. In: __________. Obras completas: volume II (De “Odas elementales” a “Memorial de Isla Negra” - 1954-1964). Edición y notas de Hernán Loyola, con el asesoramiento de Saúl Yurkievich; prólogo de Saúl Yurkievich. 1. ed. Barcelona, ES: Círculo de Lectores; Galaxia Gutenberg, 1999. p. 1155-1156.

segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Adrienne Rich - Agosto

Mais do que uma paisagem estival, este poema de Rich é uma viagem a partir de observações que lhe são externas até uma profunda revelação interna, a resultar numa cisão com o passado traumático, num grito de autonomia e de ruptura radical com as estruturas que compõem o núcleo do patriarcado: a propriedade paterna sobre os filhos – especialmente os varões e os herdeiros –, arrimada em controles, violências quotidianas e em encenações egoístas de pretensos sofrimentos que tentam disfarçar as ganas da opressão.

 

As linhas cruciais e mais radicais do poema – “se sou morte para o homem / preciso sabê-lo” – revelam, por parte da falante, esse imperativo categórico de autoconhecimento, disruptivo e estarrecedor, a demarcar o fim de um “conceito” de homem, de uma forma de poder masculino que a define e a limita, tanto física quanto psiquicamente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adrienne Rich

(1929-2012)

 

August

 

Two horses in yellow light

eating windfall apples under a tree

 

as summer tears apart milkweed stagger

and grasses grow more ragged

 

They say there are ions in the sun

neutralizing magnetic fields on earth

 

Some way to explain

what this week has been, and the one before it!

 

If I am flesh sunning on a rock

if I am brain burning in fluorescent light

 

if I am dream like a wire with fire

throbbing along it

 

if I am death to man

I have to know it

 

His mind is too simple, I cannot go on

sharing his nightmares

 

My own are becoming clearer, they open

into prehistory

 

which looks like a village lit with blood

where all the fathers are crying: My son is mine!

 

Solstício de verão:

em memória da castanheira americana

(Charles E. Burchfield: pintor norte-americano)

 

Agosto

 

Dois cavalos na luz amarela

comendo, debaixo duma árvore, maçãs derrubadas pelo vento

 

enquanto o verão se desfaz, as plantas cambaleiam

e a relva fica crestada

 

Dizem que há íons no sol

neutralizando campos magnéticos na terra

 

Que maneira de explicar

o que foi esta semana e a que a precedeu!

 

Se eu sou carne tostando sobre pedras

se eu sou cérebro queimando na luz fluorescente

 

se eu sou sonho como um fio flamante

pulsando com ele

 

se eu sou morte para o homem

preciso sabê-lo

 

Sua mente é simples demais. Não posso continuar

compartilhando seus pesadelos

 

Os meus próprios tornam-se mais claros, abrem-se

para a pré-história

 

que parece um vilarejo aceso com sangue

onde todos os pais estão gritando: Meu filho me pertence!

 

Referência:

 

RICH, Adrienne. August / Agosto. Tradução de Olga Savary. In: KEYS, Kerry Shawn (Org.). Quingumbo - Nova poesia norte-americana: antologia. Edição bilíngue: inglês x português. Vários tradutores. São Paulo, SP: Escrita, 1980. Em inglês: p. 174; em português: p. 175. (Coleção “Marginais, profetas e malditos”)