O poeta paulista contrasta
dois espaços simbólicos, a saber, a sala de espera – lugar de passividade,
burocracia e promessas adiadas –, frente à rua – um espaço vibrante de ação,
encontro e transformação –; aquela a representar a esperança domesticada e
sempre postergada; esta a encarnar a coletividade, o protesto e a verdadeira
experiência republicana.
Nesse contexto,
Ricardo, ao mesmo tempo que denuncia a mecanização da espera nos espaços de
poder ou, em outros termos, a inércia institucional, faz um chamamento à ação
cidadã, à expressão viva de uma esperança ativa, aberta e compartilhada, em
quaisquer espaços públicos – a rua, em especial –, onde o indivíduo possa cerrar
fileiras com os outros para participar de eventos que concorram a um propósito
comum do corpo social.
J.A.R. – H.C.
Cassiano Ricardo
(1895-1974)
Sala de espera
(Ah, os rostos
sentados
numa sala de espera.
Um Diário Oficial
sobre a mesa.
Uma jarra com flores.
A xicara de café, que
o contínuo
vem, amável, servir
aos que esperam
a audiência marcada.
Os retratos em cor,
na parede,
dos homens ilustres
que exerceram, já em
remotas épocas,
o manso ofício
de fazer esperar com
esperança.
E uma resposta, que
será sempre a mesma:
só amanhã.
E os quase eternos
amanhãs daqueles rostos
sempre adiados
e sentados
numa sala de espera.)
Mas eu prefiro é a
rua.
A rua em seu sentido
usual de “lá fora”.
Em seu oceano que é
ter bocas e pés
para exigir e para
caminhar.
A rua onde todos se
reúnem
num só ninguém
coletivo.
Rua do homem como
deve ser:
transeunte,
republicano, universal.
Onde cada um de nós é
um pouco
mais dos outros
do que de si mesmo.
Rua da procissão, do
comício,
do desastre, do enterro.
Rua da reivindicação
social, onde mora
o Acontecimento.
A rua! uma aula de
esperança ao ar livre.
Em: “Um dia depois do
outro” (1947)
Manifestação de
bairro
(Renato Guttuso:
pintor italiano)
Referência:
RICARDO, Cassiano.
Sala de espera. In: __________. Antologia poética. 1. ed. Rio de
Janeiro, GB: Editora do Autor, 1964. p. 52-53.
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