Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Louise Glück - Lago na Cratera

Com um título a evocar um lago formado na cratera de um vulcão – uma beleza nascida de uma explosão cataclísmica, imersa na calma consecutiva à destruição –, este poema de Glück propõe-nos questionar os fundamentos de nossa cosmovisão espiritual, apontando o elemento maior da fragilidade humana – a nossa forma de amar, condicionada pelo medo que nos é incutido pelo mesmo corpo que nos permite experimentá-lo.

 

De fato, Glück está nos revelando como as categorias e os construtos morais que impomos às coisas modelam a nossa percepção tanto da vida, quanto da morte e do amor: a poetisa nos deixa à borda da sobredita cratera, para contemplarmos as águas tranquilas de uma consciência a colocar em xeque os dogmas mais arraigados, tornando-nos propensos a reconhecer que temos estado a combater o espectro errado durante todo o tempo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Louise Glück

(1943-2023)

 

Crater Lake

 

There was a war between good and evil.

We decided to call the body good.

 

That made death evil.

It turned the soul

against death completely.

 

Like a foot soldier wanting

to serve a great warrior, the soul

wanted to side with the body.

 

It turned against the dark,

against the forms of death

it recognized.

 

Where does the voice come from

that says suppose the war

is evil, that says

 

suppose the body did this to us,

made us afraid of love –

 

In: “Averno” (2006)

 

Lago na Cratera

(Thomas Kinkade: pintor norte-americano)

 

Lago na Cratera

 

Houve uma guerra entre o bem e o mal.

Decidimos chamar o corpo de bem.

 

E assim à morte coube o mal.

Isso fez a alma

virar-se de vez contra a morte.

 

Como um soldado raso querendo

servir a um grande guerreiro, a alma

dispôs-se a cerrar fileiras com o corpo.

 

Virou-se contra a escuridão,

contra as formas de morte

que lhe eram reconhecíveis.

 

De onde vem a voz

que nos diz: e se a guerra

fosse o mal? Que nos diz:

 

e se fosse o corpo que nos fez isso,

tornou-nos receosos do amor?

 

Em: “Averno” (2006)

 

Referência:


GLÜCK, Louise. Crater lake. In: __________. Poems: 1962-2012. 1st ed. New York, NY: Farrar, Strauss and Giroux, 2012. p. 513.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

Tymoteusz Karpowicz - Uma lição de silêncio

O poeta e dramaturgo polonês oferece-nos uma crítica mordaz aos regimes opressivos – a exemplo do nazismo e do estalinismo, que bem os conheceu –, nos quais a ordem é, na realidade, um silenciamento forçado de qualquer laivo de vitalidade, dando ensejo a uma quietude antinatural, por ele metaforizada na figura de um elefante que é coagido a caminhar sem ruído.

 

Trata-se de uma calma artificial, que faz com que “as árvores se ergam silenciosas, como os cabelos se eriçam diante do espanto”, a desvelar os caracteres de um terror paralisante engendrado por um poder político arbitrário e controlador, cujos propósitos destinam-se a eliminar eventuais traços insopitáveis de individualidade, espontaneidade ou expressões naturais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Tymoteusz Karpowicz

(1921-2005)

 

Lekcja ciszy

 

Gdy motyl

Zbyt gwałtownie

Czasem złożył skrzydła –

Wołano: proszę o spokój!

 

Zaledwie piórko

Spłoszonego ptaka

Trąciło o promień –

Wołano: proszę o ciszę!

 

Tak nauczono

Bezszelestnie chodzić

Słonia po bębnie,

Człowieka po ziemi.

 

Wstawały drzewa

Bez szumu nad polem

Tak jak powstają

Włosy z przerażenia.

 

Borboletas

(Odilon Redon: pintor francês)

 

Uma lição de silêncio

 

Quando uma borboleta

batia suas asas

forte demais, gritavam-lhe:

Silêncio, por favor!

 

Se um pássaro assustado

roçava a pluma num

raio de sol, gritavam-lhe:

Silêncio, por favor!

 

Assim os elefantes

aprenderam a andar

sem som sobre o tambor –

os homens, sobre a terra.

 

As árvores nos campos

se erguiam silenciosas

como os cabelos quando

se eriçam de terror.

 

Referências:

 

Em Polonês

 

KARPOWICZ, Tymoteusz. Lekcja ciszy. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 out. 2026.

 

Em Português

 

KARPOWICZ, Tymoteusz. Uma lição de silêncio. Tradução de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Org. & Trad.). Poesia alheira: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ: Imago, 1998. p. 348.

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

Falcatruas & Falcatruas e o Laranjal à volta de Flábio B. (IV)

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Elisa Andrade Buzzo - Escrever é combinar palavras

A poetisa paulistana vislumbra a escrita como um processo de resistência, um parto doloroso, embora necessário, no qual a voz se afirma “impassível” diante do caos quotidiano, dispondo-se a recolher fragmentos dispersos da vida para os transformar em caminhos de sentido, tal que se tem em reforço, ao fim e ao cabo, a ideia de que a poesia não nasce por obra e graça do sopro inspirador das musas, mas do suor e da disposição do poeta (ou poetisa, como no caso) em se entregar amorosamente ao poema, “num contato esguio”.

 

Buzzo descreve o processo criativo bem mais como um esforço corporal do que cerebral, para o qual arregimenta os “cacos” e os “ladrilhos pisados” de sua arqueologia pessoal, incorporando-os à faina física demandada pela luta com as palavras, de que resultam transpirações e suores, incorporados como tempero à obra, até que, um tanto a fórceps, venha a despontar o poema com a sua “lança ferina” – vivo, perigoso e belo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Elisa Andrade Buzzo

(n. 1981)

 

Escrever é combinar palavras

 

E quando acaba a vontade

De dizer

Sobram sons guturais

 

E quando esqueço

A razão

Me calo

 

Na linha

Murmúrios

Tecem telegrafia

 

Uma voz

Longínqua

Lança um laço

Pescoço arredio

Eu corro

Deserta

 

O não-dizer

Dita

Sentença de morte

 

Haja vontade

Esboço de gesto

Nesta combinação

Surda

 

Lentamente recupero

A vontade de exprimir

Um parecer

 

Solto fagulhas

Recomeço

A luta pela fala diária

 

Rio

No escritório

Vermelho

 

Preto

E branco

Nas caIçadas

 

Saltito

Os acenos

Até logo

 

Leio o futuro

Na manteiga

Do pão

 

Tagarelo

Mil palavras estilhaçadas

Cortantes

 

Nos papéis escrevo meu nome

Deixo minha vida paleográfica

 

Minhas combinações

Documentais

Têm escrita livrária

 

Minhas articulações

Suam roucas

De gralha

Raízes revelam

Memórias guardadas

Vidas antigas

 

A construção

Começa

Na vida jogada

 

Recolho

Os cacos

Dispersos nas ruas

 

Seleciono

Ladrilhos

Pisados

 

Grafite em punho

Bruto, rasgo seivas

Elaboro finos caminhos

 

Ouso amar o poema

Num contato esguio

 

Sugo água açucarada

Sobre amargurada casca

 

Atenção está na hora do ato

O parto

Do código de conduta

 

Embalado pelos líquidos

Dos humores

 

O poema desponta

Sua lança ferina

 

Cada palavra

Leva

Uma medida

 

Sopa na surdina

Sim, senhor

 

Temperada

Com suor

 

Flor do povo

Brota no poeta

 

Perdiz rodeia

Velhos motes

Exercitando

As penas

As pernas

Já sentem

A altura do céu

 

Versos de vidro

Versos de tinta

 

Ladeado por risos

Embebido em prantos

 

Eu canto

 

Impassível

 

Puzzle

(Adam Frezza & Terri Chiao: artistas norte-americanos)

 

Referência:

 

BUZZO, Elisa Andrade. Escrever é combinar palavras. In: CERÓN, Rocío (Ed.). Caos portátil: poesía contemporánea del Brasil. Edición bilingüe: portugués x español. Selección de Camila do Valle y Cecilia Pavón. Traducción de Cecilia Pavón. 1. ed. México, MX: Ediciones El billar de Lucrecia, 2007. p. 18, 20, 22, 24, 26 e 28.

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