Galeano, escritor e
jornalista uruguaio, mostra-nos como pessoas e eventos desafiam, com alguma
frequência, as expectativas e as definições convencionais que se lhes atribuem,
configurando paradoxos que não são apenas curiosidades históricas, mas que dizem
muito em relação às contradições inerentes à política, à religião, ao comportamento
humano e, até mesmo, à arte e cultura popular.
Num tom irônico e crítico,
o autor parece zombar dos que acreditam poder compreender ou controlar o fluxo das
circunstâncias, tanto mais que questões como identidade, ideologia e a crônica
dos fatos estão longe de ser lineares ou lógicas, pois que continuamente sob a percussão
do tilintar complexo da realidade, sempre a nos exigir olhos lúcidos para
discernir, com clareza, os meios-tons existentes entre os polos de todos os enfoques
que se pretendem binários.
J.A.R. – H.C.
Eduardo Galeano
(1940-2015)
Paradoxos
Se a contradição for
o pulmão da história, o paradoxo deverá ser, penso eu, o espelho que a história
usa para debochar de nós.
Nem o próprio filho
de Deus salvou-se do paradoxo. Ele escolheu, para nascer, um deserto
subtropical onde jamais nevou, mas a neve se converteu num símbolo universal do
Natal desde que a Europa decidiu europeizar Jesus. E para mais inri, o nascimento de Jesus é, hoje em
dia, o negócio que mais dinheiro dá aos mercadores que Jesus tinha expulsado do
templo.
Napoleão Bonaparte, o
mais francês dos franceses, não era francês. Não era russo Josef Stálin, o mais
russo dos russos; e o mais alemão dos alemães, Adolf Hitler, tinha nascido na
Áustria. Margherita Sarfatti, a mulher mais amada pelo antissemita Mussolini,
era judia. José Carlos Mariátegui, o mais marxista dos marxistas
latino-americanos, acreditava fervorosamente em Deus. O Che Guevara tinha sido
declarado completamente incapaz para a vida militar pelo exército argentino.
Das mãos de um
escultor chamado Aleijadinho, que era o mais feio dos brasileiros, nasceram as
mais altas formosuras do Brasil. Os negros norte-americanos, os mais oprimidos,
criaram o jazz, que é a mais livre das músicas. No fundo de um cárcere
foi concebido o Dom Quixote, o mais andante dos cavaleiros. E cúmulo dos
paradoxos, Dom Quixote nunca disse sua frase mais célebre. Nunca disse: Ladram,
Sancho, sinal que cavalgamos.
“Acho que você está
meio nervosa”, diz o histérico. “Te odeio”, diz a apaixonada. “Não haverá
desvalorização”, diz, na véspera da desvalorização, o ministro da Economia. “Os
militares respeitam a Constituição”, diz, na véspera do golpe de Estado, o
ministro da Defesa.
Em sua guerra contra a revolução sandinista, o governo dos Estados Unidos
coincidia, paradoxalmente, com o Partido Comunista da Nicarágua. E paradoxais
foram, enfim, as barricadas sandinistas durante a ditadura de Somoza: as
barricadas, que fechavam as ruas, abriam o caminho.
Sr. Paradoxo
(Loui Jover: artista
servo-australiano)
Referência:
GALEANO, Eduardo.
Paradoxos. Tradução de Eric Nepomuceno. In: __________. O livro dos abraços.
Tradução de Eric Nepomuceno. 1. ed. L&PM Pocket, 1. reimp. Porto Alegre,
RS: L&PM, jan. 2023. p. 126-127. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 465)
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