O poeta alagoano, ao intitular
o poema com um termo que se refere a uma espécie de fundo de poupança, sugere,
desde logo e de algum modo, o desenvolvimento temático associado ao “pecúlio”
legado do pai ao filho – a saber, as ferramentas para compreender e se
relacionar com a realidade, encerradas nas palavras e no conhecimento transmitido
–, essencialmente um “nada”, diz a voz lírica, embora pleno de significados.
Como se vê, longe de
dar prevalência a bens materiais ou riquezas convencionais, Ivo põe ênfase na
dotação cultural nessa cadeia sucessiva, mais do que na material, erigindo
assim um inventário poético do intangível, do vivido e do essencialmente humano:
as experiências, as lutas, as formas de ver o mundo, as conexões com a
natureza, as canseiras, a capacidade de resistir e, fundamentalmente, repita-se,
a linguagem e o conhecimento.
J.A.R. – H.C.
Lêdo Ivo
(1924-2012)
Montepio
Que herança transmite
o pai a seu filho?
Não lhe deixa casa
ou sombra de apólice
nem tampouco o sujo
de seu colarinho.
Não lhe lega a velha
mala das viagens
nem os seus amores
e as suas bagagens.
E as roupas do pai
que a chuva encolheu
no filho não cabem.
Com pau seco e fogo
o pai de resina
arma o seu legado.
Deixa uma fogueira
que ele fez sozinho
no escuro da mata.
(Borboletas em
seus ombros pousavam.)
E também menino
na pele do vento
solta para o céu
o seu papagaio.
E antes de mudar-se
de suor em musgo
o pai dá ao filho
como pé-de-meia
algo da paisagem
– sobra de pupila,
moeda de lágrimas.
Deixa-lhe o balaio
cheio de apetrechos
e o jeito de andar
com as mãos às
costas.
Para o filho passa
todo o seu cansaço
suas promissórias
e seu olhar baço.
Da árvore do povo
deixa-lhe no sangue
um ramo orvalhado.
Transmite-lhe o grito
de espantado amor
que gritou na praia.
De agrestes gravetos
faz o fogo e esquenta
na palhoça ao vento
a comida fria
de sua marmita.
O pai dá ao filho
o ninho vazio
achado no bosque
e a raposa morta
por sua espingarda.
Dá-lhe a sua anônima
grandeza do nada.
Sua herança é o frio
que sentiu rapaz
quando impaludado.
Dá-lhe a lua imensa
na noite azulada.
Estende-lhe as mãos
sujas de carvão
molhadas de orvalho.
Fala-lhe da dor
que sente nos calos.
Dá-lhe a verde e
rubra
pimenteira em flor.
Mostra-lhe o tambor
de salitre e brisa
que rufa sozinho
entre os arquipélagos
de sua pobreza.
Mostra-lhe o cadarço
de espuma no mar
cheio de mariscos.
Ser pai é ensinar
ao filho curioso
o nome de tudo:
bicho e pé de pau.
Que o pai, quando
morre,
deixa para o filho
o seu montepio
– tudo o que juntou
de manhã à noite
no batente, dando
duro no trabalho.
Deixa-lhe palavras.
Pai e filho no
cultivo do campo
(Gurin Vasyl: artista
ucraniano)
Referência:
IVO, Lêdo. Montepio.
In: __________. O sinal semafórico. Rio de Janeiro, GB: José Olympio;
Brasília, DF: INL, 1974. p. 379-381.
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