Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Omar Khayyám - 16. Se o coração devassasse os mistérios

O que sabemos sobre a nossa própria condição de mortais e, por extensão, sobre os enigmas não decifrados do universo, mantidos incógnitos a sete chaves pelas potestades criadoras? Para além da aniquilação absoluta e irreversível do ser consciente, o que há de existir como verdades últimas, às quais não temos ciência prévia neste plano de efemeridades?

 

É com esse tom cético – e até mesmo niilista – que o poeta persa se debruça sobre o futuro, sem vislumbrar a possibilidade de que venhamos a transcender a morte, pois que, desde logo, incorrem em frustração as nossas reiteradas tentativas de apreender os mistérios essenciais – permanentemente velados –, quanto mais depois que desta vida partirmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Omar Khayyám

(1048-1131)

 

16. Se o coração devassasse os mistérios

 

Se o coração devassasse os mistérios

e conhecesse a origem da vida,

tal qual é, na realidade,

 

ele decifraria também,

após a morte,

o enigma dos deuses.

 

Homem,

das existências do Universo

tu nada sabes,

embora ainda estejas animado

pela força da tua alma.

 

Que poderás tu saber

amanhã,

quando morreres,

e a tua alma morrer contigo?

 

Amanhã,

quando acabares,

e tudo acabar,

para sempre,

para sempre?

 

Marchadores no Tempo

(John Pitre: artista norte-americano)

 

Referência:

 

KHAYYÁM, Omar. 16. Se o coração devassasse os mistérios. Tradução de Christovam de Camargo. In: __________. Rubáiyát. Versão ao português de Christovam de Camargo baseada na interpretação literal do texto persa feita por Ragy Basile. São Paulo, SP: Martin Claret, 2003. p. 38. (Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”; v. 156)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Armindo Trevisan - A Fonte

Trevisan nos oferece um canto à persistência do espírito humano em sua busca por sentido, inclusive quando esse sentido se revela elusivo e a jornada termina no completo olvido de si mesmo: a imagem da fonte que esquece os seus caminhos parece-nos sugerir o retorno a um estado primordial, de aceitação serena da finitude, uma forma derradeira de se “amar a vida” – ao mesmo tempo fugaz e pungente em seu secreto esplendor.

 

O autor nos fala de um amor que exige coragem para persistirmos na procura pela beleza no insignificante e no oculto, para aceitarmos o mistério – e até mesmo o absurdo – com gratidão, ainda que sejamos mil vezes assaltados por angústias excruciantes, de nos sabermos próximos aos umbrais da morte, tendo passado eventualmente pela vida dominados por frívolos interesses.

 

J.A.R. – H.C.

 

Armindo Trevisan

(n. 1933)

 

A Fonte

 

É preciso amar a vida, amar

no lodo o seu fulgor secreto,

 

o fulgor que tem a sua imensa sala

quando o ruído do longínquo sobe

 

até ao coração que se debruça para

o fio de erva que balança a água,

 

ou o bico do flamingo avermelhado

apunhalando um dia de sol a pino.

 

É preciso que a própria mão recuse

a insolência dos prazeres turbulentos,

 

e aceite a misteriosa apalpação

da pedra sobre a qual a lua reclina

 

a cabeça nos bosques excluídos.

Ah! O próprio amor, se quiser restar,

 

é constrangido à viagem para o absurdo,

para o barril das pólvoras suaves

 

onde os corpos são tangidos por dentro

naquelas fibras em que o êxtase carnal

 

não reluz, a não ser ligado à asa

do que não está na mão do homem, hoje.

 

É preciso amar a vida, amá-la,

desejá-la sem tréguas diferente,

 

buscá-la onde ela não existe, ou

apenas começou a dar um salto

 

para a pequena plenitude que, em vão,

tentará enriquecer com os detritos

 

de seu vácuo de origem. Oh, a vida

é uma coisa imensamente restituída,

 

e todo o seu calor, e toda a sua vertigem

de encanto reside no seu mover-se

 

contínuo entre o que ela oferece aos seus

e o que, sabiamente, lhes esconde,

 

justamente por não possuir em si a flecha

que anda na direção do seu alvo,

 

ignorando que este nasceu para não ser

atingido. É preciso amar a vida, até

 

quando nela o coração se sente opresso

e tudo nele são fumos de morte,

 

porque um simples favo de mel, uma posta

de peixe, uma côdea azul de pão,

 

um reflexo miraculoso de vinho novo,

abalam o agonizante que entrevê

 

pela janela a soberba frivolidade

de haver vivido, de haver vivido à toa,

 

o suficiente para uma alma desaparecer

com um misto de vexame e gratidão,

 

e levar a sua inquietude, talvez mansa,

até ao umbral de extinção, quando a face

 

do homem se dobra sobre si mesma, à guisa

de uma fonte que esqueceu todos os caminhos.

 

Em: “A Imploração do Nada” (1971)

 

O Jardim do Éden

Painel à esquerda de “O Jardim das Delícias Terrenas”

(Hieronymus Bosch: pintor holandês)

 

Referência:

 

TREVISAN, Armindo. A fonte. In: __________. Nova antologia poética: 1967-2001. Porto Alegre, RS: Sulina, 2001. p. 26-27.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Richard Wilbur - A Escritora

Eis aqui mais um poema tendo o processo criativo como tema, no caso, enquanto forma de vida e de entrega à arte de escrever, metaforizada em uma perigosa viagem marítima levada a efeito com uma carga pesada: nos contratempos da filha e nas lucubrações do pai, muito se resume nas tribulações por que passa um estorninho para sair do aposento em que, voluntária ou involuntariamente, se meteu.

 

Chocando-se contra janelas fechadas – símbolo das barreiras entre a ideia e sua expressão ou entre o artista e o mundo –, experimentando insucessos reiterados e estafantes, o escritor-pássaro vivencia um substancial desgaste físico e emocional, embora sempre deva manter a tenacidade e a coragem para reiniciar a jornada.

 

Ao final da viagem, decerto, alcançará o êxito, alçando voo pela justa janela que se abre a um mundo de epifanias, de triunfos e de alívios por haver conseguido vencer essa “questão de vida ou morte”, ou dito de outro modo, a necessidade premente de se expressar, mesmo que a custo de uma refrega, para manter viva a chama do espírito ou de uma visão de mundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Richard Wilbur

(1921-2017)

 

The Writer

 

In her room at the prow oft he house

Where light breaks, and the windows are tossed with linden,

My daughter is writing a story.

 

I pause in the stairwell, hearing

From her shut door a commotion of typewriter-keys

Like a chain hauled over a gunwale.

 

Young as she is, the stuff

Of her life is a great cargo, and some of it heavy:

I wish her a lucky passage.

 

But now it is she who pauses,

As if to reject my thought and its easy figure.

A stillness greatens, in which

 

The whole house seems to be thinking,

And then she is at it again with a bunched clamor

Of strokes, and again is silent.

 

I remember the dazed starling

Which was trapped in that very room, two years ago;

How we stole in, lifted a sash

 

And retreated, not to affright it;

And how for a helpless hour, through the crack of the door,

We watched the sleek, wild, dark

 

And iridescent creature

Batter against the brilliance, drop like a glove

To the hard floor, or the desk-top.

 

And wait then, humped and bloody,

For the wits to try it again; and how our spirits

Rose when, suddenly sure,

 

It lifted off from a chair-back,

Beating a smooth course for the right window

And clearing the sill of the world.

 

It is always a matter, my darling,

Of life or death, as I had forgotten. I wish

What I wished you before, but harder.

 

Uma garota escrevendo

(Henriette Browne: pintora francesa)

 

A Escritora

 

Em seu quarto, na proa da casa,

Onde irrompe a luz e as tílias agitam-se às janelas,

Minha filha está escrevendo uma história.

 

Detenho-me no vão da escada a ouvir,

Por trás da porta fechada, uma comoção de teclas,

Como grilhões puxados sobre uma amurada.

 

Por mais jovem que seja, o estofo

De sua vida é um grande fardo, em parte, pesado:

Desejo-lhe uma afortunada travessia.

 

Mas agora é ela que se detém, como se para

Rejeitar-me a lucubração e sua alegoria simplória.

Instala-se um silêncio, durante o qual

 

Toda a casa parece mergulhar em pensamentos,

Até que ela deflagra novo clamor concentrado

de golpes, para logo sobrevir novamente o silêncio.

 

Lembro-me do estorninho atordoado

Que ficou preso naquele mesmo quarto, há dois anos;

Como entramos furtivamente, levantamos uma vidraça

 

E recuamos, para não o assustar; e como,

Durante uma desalentada hora, pela fresta da porta,

Observamos a esguia, selvagem, escura

 

E iridescente criatura ir de encontro

Aos feixes de luz, cair como uma luva

No piso duro ou sobre o tampo da escrivaninha,

 

E ali aguardar, arqueada e ensanguentada, pelo retorno

À lucidez para outra tentativa; e como retomamos

O ânimo quando, subitamente segura,

 

Alçou voo do espaldar de uma cadeira,

Numa rota suave em direção à janela correta,

Logrando transpor o parapeito do mundo.

 

Como me havia esquecido, minha querida,

É sempre uma questão de vida ou morte. Desejo-te

o que sempre antes te desejei, com mais força porém.

 

Referência:

 

WILBUR, Richard. The writer. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 209-210.

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Allen Ginsberg - Ladainha dos Lucros da Guerra

Mediante estas linhas, Ginsberg converte a poesia num instrumento de verdade e de justiça, uma espécie de litania profana contra os sacerdotes do deus da guerra e do dinheiro, cujos denunciantes efeitos radicam na crueza, especificidade e implacável acumulação de fatos e nomes que conformam o mapa da cumplicidade com os desdobramentos da infame guerra então levada a efeito pelos EUA no Vietnã – a julgar pela data em que redigido o poema (1º/12/1967).

 

O poeta busca arrancar as mantilhas de anonimato e de legitimidade burocrática a acobertarem as ações ignominiosas do complexo militar-industrial norte-americano, hoje em dia já muito mais torpes e expandidas pelos quatro cantos do globo, alicerçadas numa poderosa e lucrativa maquinaria de guerra, na qual se conjugam o fabrico de armamentos de efeitos atrozes, o lobby corrupto e o hegemônico controle midiático, evidenciando, sem meios tons, a completa colusão entre a indústria que as sustenta e o governo central.

 

J.A.R. – H.C.

 

Allen Ginsberg

(1926-1997)

 

War Profit Litany

 

To Ezra Pound

 

These are the names of the companies that have made

money from this war

nineteenhundredsixtyeight Annodomini fourthousand

eighty Hebraic

These are the Corporations who have profited by

merchandising skinburning phosphorous or shells

fragmented to thousands of fleshpiercing needles

and here listed money millions gained by each combine

for manufacture and here are gains numbered,

index’d swelling a decade, set in order,

here named the Fathers in office in these industries,

telephones directing finance,

names of directors, makers of fates, and the names of the

stockholders of these destined Aggregates,

and here are the names of their ambassadors to the Capital,

representatives to legislature, those who sit drinking

in hotel lobbies to persuade,

and separate listed, those who drop Amphetamine with

military, gossip, argue, and persuade

suggesting policy naming language proposing strategy,

this done for fee as ambassadors to Pentagon,

consultants to military, paid by their industry:

and these are the names of the generals & captains military,

who know thus work for war goods manufacturers;

and above these, listed, the names of the banks, combines,

investment trusts that control these industries:

and these are the names of the newspapers owned

by these banks

and these are the names of the airstations owned by these

combines;

and these are the numbers of thousands of citizens

employed by these businesses named;

and the beginning of this accounting is 1958 and the end

1968, that static be contained in orderly mind,

coherent & definite,

and the first form of this litany begun first day December

1967 furthers this poem of these States.

 

December 1, 1967

 

Guerra

(John Pitre: artista norte-americano)

 

Ladainha dos Lucros da Guerra

 

Para Ezra Pound

 

His os nomes das companhias que ganharam dinheiro

com esta guerra

milnovecentosesessentaeoito Annodomini quatromileoitenta

Hebraico

Eis as Grandes Companhias que lucraram traficando

fósforo que queima a pele ou bombas fragmentárias

que explodem em mil agulhas que perfuram a carne

e eis a lista dos milhões ganhos por cada truste pela fabricação

e eis aqui as cifras dos lucros, indexadas inchando numa

década, ordenadas,

eis os nomes dos Pais em exercício dessas indústrias, telefones

dirigindo as finanças,

nomes de diretores, fabricantes de destinos, e os nomes dos

acionistas destes Aglomerados destinados,

e eis os nomes de seus embaixadores na Capital, representantes

no Congresso, os que ficam bebendo nas

antessalas dos hotéis pra persuadir,

e em lista anexa, os que tomam Anfetamina com milhares,

fofocam, discutem e persuadem

sugerindo políticas dando nomes propondo estratégias,

em troca de seus honorários como embaixadores

junto ao Pentágono, consultores de militares, pagos

por suas indústrias:

e eis os nomes dos generais & capitães militares, que agora

trabalham pros fabricantes de produtos bélicos;

e acima destes, a lista dos nomes dos bancos, trustes,

companhias de investimentos que controlam estas

indústrias:

e eis os nomes dos jornais de propriedade destes bancos

e eis os nomes das estações de rádio e TV de propriedade

destes trustes;

e eis os números dos milhares de cidadãos que trabalham

pra essas empresas arroladas;

e esta relação começa em 1958 e termina em 1968, que a

estatística seja contida em mente ordenada, coerente

& definida,

e a primeira forma desta ladainha iniciada no dia primeiro

de dezembro de 1967 dá prosseguimento a esse poema

destes Estados.

 

1º de dezembro de 1967

 

Referências:

 

Em Inglês

 

GINSBERG, Allen. War profit litany. In: __________. Collected poems: 1947-1985. New York, NY: Penguin Books, 1995. p. 486.

 

Em Português

 

GINSBERG, Allen. Ladainha dos lucros da guerra. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. A queda da América: poemas. Tradução de Paulo Henriques Britto. Porto Alegre, RS: L&PM, fev. 2014. p. 89-90. (Coleção L&PM Pocket; v. 1150)