A modo de um
manifesto para fazer frente ao mundo do fazer e do falar superficial, opondo-lhe
a via do estar, do sentir e do silenciar, Prados apresenta-nos nestes versos a tese
de que a percepção aguda também é uma forma de conhecimento, permitindo-nos apreender
a vida em profundidade, bem assim a morte, eis que integrada à paisagem como se
um sonho fosse, no qual a natureza acolhe o ser humano e o devolve à sua
origem.
Para o poeta
espanhol, com alguma frequência, a sabedoria maior consiste em estender-se
sobre a relva e escutar o estalido da rosa já morta, porque nesse som está
contida a verdade do eterno ciclo: cumpre-nos perceber os seus sinais – a lua
que acaricia, o vento que arruína, o sol que já não nos fervilha o sangue –,
todos eles indicativos de um corpo que se apaga lentamente.
J.A.R. – H.C.
Emilio Prados
(1899-1962)
Dormido en la yerba
Todos vienen a darme consejo.
Yo estoy dormido
junto a un pozo.(1)
Todos se acercan y me
dicen:
– La vida se te va,
y tú te tiendes en la
yerba,
bajo la luz más tenue
del crepúsculo,
atento solamente
a mirar cómo nace
el temblor del lucero
o el pequeño rumor
del agua, entre los
árboles.
Y tú te tiendes sobre
la yerba:
cuando ya tus
cabellos
comienzan a sentir
más cerca y fríos que
nunca,
la caricia y el beso
de la mano constante
y sueño de la luna.
Y tú te tiendes sobre
la yerba:
cuando apenas si
puedes
sentir en tu costado
el húmedo calor
del grano que germina
y el amargo crujir
de la rosa ya muerta.
Y tú te tiendes sobre
la yerba:
cuando apenas si el
viento
contiene su rigor,
al mirar en ruina
los muros de tu
espalda,
y, el sol, ni se
detiene
a levantar tu sangre
del silencio.
Todos se acercan y me
dicen:
– La vida se te va.
Tú, vienes de la
orilla
donde crece el romero
y la alhucema(2)
entre la nieve y el
jazmín, eternos,
y, es un mar todo
espumas
lo que aquí te ha traído
porque nos hables...
Y tú te duermes sobre
la yerba.
Todos se acercan para
decirme:
– Tú duermes en la
tierra
y tu corazón sangra
y sangra, gota a gota,
ya sin dolor, encima
de tu sueño,
como en lo más oscuro
del jardín, en la
noche,
ya sin olor, se muere
la violeta.
Todos vienen a darme
consejo.
Yo estoy dormido
junto a un pozo.
Sólo, si algún amigo
se acerca, y, sin
pregunta
me da su abrazo entre
las sombras:
lo llevo hasta
asomarnos
al borde, juntos, del
abismo,
y en sus profundas
aguas
ver llorar a la luna
y su reflejo,
que más tarde ha de
hundirse
como piedra de oro,
bajo el otoño frío de
la muerte.
Rapaz descansando
(Paul Cézanne: pintor
francês)
Adormecido sobre a relva
Todos vêm dar-me
conselhos.
Estou adormecido
junto a um poço.
Todos se aproximam e
dizem-me:
– A vida está a
escapar-te,
e deitas-te sobre a
relva,
sob a luz mais tênue
do crepúsculo,
atento apenas
a contemplar como
nasce
o frêmito da estrela
d’alva
ou o pequeno murmúrio
da água, entre as
árvores.
E deitas-te sobre a relva:
quando os teus
cabelos já
começam a sentir,
mais perto e frios do
que nunca,
a carícia e o beijo
da mão constante
e o sonho da lua.
E deitas-te sobre a
relva:
quando mal consegues
sentir no teu lado
o úmido calor
do grão que germina
e o amargo estalido
da rosa já morta.
E deitas-te sobre a relva:
quando mal o vento
contém o seu rigor,
ao ver em ruínas
os muros de tuas
costas,
e o sol nem sequer se
detém
para levantar o teu
sangue do silêncio.
Todos se aproximam e
dizem-me:
– A vida está a
escapar-te.
Tu, vens da margem
onde, eternos,
crescem o alecrim e a
alfazema
entre a neve e o
jasmim,
e foi um mar todo
espumas
que te trouxe até
aqui
para que nos fales...
E adormeces sobre a
relva.
Todos se aproximam para
me dizer:
– Tu dormes sobre a
terra
e teu coração
sangra
e sangra, gota a gota,
já sem dor, sobre o
teu sonho,
como no mais escuro
do jardim, na noite,
já sem perfume, morre
a violeta.
Todos vêm dar-me
conselhos.
Estou adormecido
junto a um poço.
Apenas se algum amigo
se aproxima e, sem
perguntar,
me dá um abraço entre
as sombras:
eu o levo até nos
debruçarmos
juntos à beira do
abismo
para, em suas profundas
águas,
vermos chorar a lua e
o seu reflexo,
que mais tarde há de
afundar-se
como uma pedra de ouro,
sob o frio outono da
morte.
Notas:
(1). A comunicação
com os outros é impossível: o poço simboliza o efeito opaco da solidão.
(ORTEGA, 1987, n.r., p. 99)
(2). Alhucema: Alfazema,
planta com caules lenhosos, folhas ligeiramente pubescentes e flores azuis
perfumadas em espigas, utilizada em perfumaria; lavanda.
Referências:
PRADOS, Emilio. Dormido
en la yerba. In: __________. Jardín cerrado. Edición de Juan Manuel Díaz
de Guereñu. Madrid, ES: Ediciones Cátedra, 2000. p. 235-237. (Letras
Hispánicas)
ORTEGA, Esperanza
(Edición, introducción, notas, comentarios y apéndice). Antología de la
generación del 27: varios autores. Madrid, ES: Anaya, 1987. p. 98-99.
(Biblioteca Didáctica Anaya; v. 23)
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