Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 23 de maio de 2026

Gregory Corso - Deus é um masturbador

Neste poema transgressor e vitalista, Corso emprega a blasfêmia – incorporada ao título –, em meio a uma linguagem direta e provocativa, para desmistificar o sexo, vislumbrando-o livre de moralismos, de amarras repressivas e de culpas ou dúvidas impostas socialmente, com efeitos negativos sobre a mente e o corpo.

 

Deus, aqui, não é um juiz ou a máxima potestade, em conformidade à perspectiva judaico-cristã, senão um participante a mais nesse impulso cardinal de interação de corpos para o prazer mútuo e para a continuidade da vida.

 

Mais do que reivindicar o sexo em sua função natural e biológica, o poeta beatnik postula-o em todas as suas formas – incluindo a homossexualidade e o autoerotismo –, pois que o seu propósito é afirmar o autodomínio erótico, o direito fundamental ao prazer – quer solitário quer em comunhão com os outros seres humanos –, desvestindo-o de todas as camadas de significado que lhe foram atribuídos ao longo da história – tabus, regras, simbolismos, funções sociais e pesos psicológicos –, para o ver despojado, no fim das contas, da sua pretensa aura transcendental.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gregory Corso

(1930-2001)

 

God is a masturbator

 

Folks, sex has never been

more than a blend

of bodies doing for one

another

that which pleases

them and evolution

to do

either in desire

or in desperation

or in necessity

It serves no purpose

other than love

and life’s purpose

Sexualists

are a product of sex

We are made by sex

Sex made the Salvation Army

We are sex

There is nothing dark

about this magic

And those pangs of lust

which make you sick

Those unthinkable dreams

which fill you with doubt

– as long as wild joys emit

from an enthusiastic spirit

eat the dust! shout!

Thank God one’s thoughts

excite as much as flesh

Thank God there’s a place

in all this he and she

and he and he

and she and she

for a me and me –

 

O Grande Masturbador

(Salvador Dalí: pintor espanhol)

 

Deus é um masturbador

 

Gente, o sexo nunca foi

mais do que uma fusão

de corpos que fazem um pelo

outro

aquilo que lhes agrada

e que a evolução lhes permite

fazer

quer por desejo

quer por desespero

quer ainda por necessidade

Ele não serve a outros propósitos

que não sejam o amor

e a perpetuação da vida

Sexualistas

são um produto do sexo

Somos gerados através do sexo

O sexo criou o Exército da Salvação

Nós somos sexo

Não há nada de obscuro

nessa magia

Nessas pontadas de lascívia

que te fazem adoecer

Nesses sonhos inconfessáveis

que te enchem de dúvida

– contanto que alegrias selvagens emanem

de um espírito entusiasta

come o pó! grita!

Graças a Deus os pensamentos de alguém

excitam tanto quanto a carne

Graças a Deus que há um lugar

em todo esse ele e ela

e ele e ele

e ela e ela

para um eu e eu –

 

Referência:

 

CORSO, Gregory. God is a masturbator. In: __________. Elegiac feelings american. 6th print. New York, NY: New Directions, 1970. p. 112.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Konstantinos Kaváfis - Ítaca

Recorrendo ao mito homérico do regresso de Ulisses ao lar, após a Guerra de Troia, Kaváfis apresenta-nos uma meditação serena sobre o sentido da existência, propondo-nos uma filosofia de vida serena, profundamente humana e com algum matiz estoico, na qual o que de mais importante há é o modo como empreendemos a jornada, não o destino ou o momento em que a ele chegamos.

 

Ítaca aparece nos versos do poeta grego como o objetivo que dá direção e propósito à viagem, a bússola, a estrela-guia que nos orienta pelo “longo caminho” da vida, apontando-nos a meta a atingir: uma conquista, o conhecimento, a realização pessoal, a sabedoria ou talvez, até mesmo, a própria morte.

 

Aos olhos de Kaváfis, nessa “jornada do herói” – para empregar um termo caro ao grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) –, há que se dar prevalência à nossa atitude interior, enfrentando os “monstros” projetados por nossa psique – medos, preconceitos, paixões vis e falta de estatura moral – com magnanimidade e sensibilidade refinada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Konstantinos Kaváfis

(1863-1933)

 

Ιθακη

 

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,

να εύχεσαι να ’ναι μακρύς ο δρόμος,

γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.

Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,

τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,

τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,

αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή

συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.

Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,

τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,

αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,

αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

 

Να εύχεσαι να ’ναι μακρύς ο δρόμος.

Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι

που με τί ευχαρίστηση, με τί χαρά

θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοϊδωμένους·

να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,

και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,

σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κι έβενους,

και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,

όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·

σε πόλεις αιγυπτιακές πολλές να πας,

να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

 

Πάντα στον νου σου να ’χεις την Ιθάκη.

Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.

Αλλά μη βιάζεις το ταξίδι διόλου.

Καλύτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·

και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,

πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,

μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

 

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξίδι.

Χωρίς αυτήν δεν θα ’βγαινες στον δρόμο.

Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

 

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.

Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,

ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τί σημαίνουν.

 

(1911)

 

Desembarque de Ulisses em Ítaca

(John Linnell: pintor inglês)

 

Ítaca

 

Se partires um dia rumo a Ítaca,

faz votos de que o caminho seja longo,

repleto de aventuras, repleto de saber.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o colérico Posídon te intimidem;

eles no teu caminho jamais encontrarás

se altivo for teu pensamento, se sutil

emoção teu corpo e teu espírito tocar.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o bravio Posídon hás de ver,

se tu mesmo não os levares dentro da alma,

se tua alma não os puser diante de ti.

 

Faz votos de que o caminho seja longo.

Numerosas serão as manhãs de verão

nas quais, com que prazer, com que alegria,

tu hás de entrar pela primeira vez um porto

para correr as lojas dos fenícios

e belas mercancias adquirir:

madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,

e perfumes sensuais de toda espécie,

quanto houver de aromas deleitosos.

A muitas cidades do Egito peregrina

para aprender, para aprender dos doutos.

 

Tem todo o tempo Ítaca na mente.

Estás predestinado a ali chegar.

Mas não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares de jornada

e fundeares na ilha velho enfim,

rico de quanto ganhaste no caminho,

sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

 

Uma bela viagem deu-te Ítaca.

Sem ela não te ponhas a caminho.

Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

 

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,

e agora sabes o que significam Ítacas.

 

(1911)

 

Referência:

 

Em Grego

 

ΚΑΒΆΦΗΣ, Κωνσταντίνος. Ιθακη. In: __________. Απαντα: ποιηματα και πεζα. Αθήνα, ΕΛ: Εκδοτικοσ Οργανισμοσ Παπυροσ, 1995. σ. 38. (“Τα Αριστουργηματα Τησ Νεοελληνικησ Λογοτεχνιασ”; Τ. I)

 

 

Em Português

 

KAVÁFIS, Konstantinos. Ítaca. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, estudo crítico, notas e tradução direta do grego por José Paulo Paes. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1982. p. 118-119. (Coleção “Poiesis”)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Daniel Jonas - O cansaço do canto

Jonas questiona com ironia e argumentos lógicos a ideia de que o poeta seria como que um produtor de beleza decorativa ou de fácil consolo, como se a poesia fosse uma qualidade inerente a um indivíduo, em vez de ser algo que se desenvolve e se expressa através do trabalho e da experiência. Nada, portanto, de expectativas românticas ou utilitaristas sobre o poeta e seu ofício!

 

Em lugar de satisfazer demandas externas, o poeta escolhe declamar a sua própria verdade, por mais distante do belo ou do positivo que seja, por mais incômoda que se mostre. Afinal, a arte – como a flor – não tem um significado ou função intrínseca, ambos a dependerem do uso e do contexto a que diga respeito o objeto por ela trazido à luz.

 

Contemplado sob tal perspectiva, o poema, em suma, ao expressar a fadiga profunda gerada pelo próprio exercício poético, num mundo que o mal-interpreta e o mercantiliza, acaba por converter tal cansaço, paradoxalmente, na fonte de seu mais genuíno canto.

 

J.A.R. – H.C.

 

Daniel Jonas

(n. 1973)

 

O cansaço do canto

 

As gentes no mercado os locais na praça

os irmãos de guerra pedem-me poesia dizem

se és poeta deves ter em li poesia.

Mas isso é tão ilógico quanto dizer de alguém

que se é médico deve ter em si humanidade

ou se bate-chapas amor pela folha de Flandres.

Perdoai, amigos, não sou nenhum animador de rua

nenhum entretém de ocasião nenhum rigoletto –

ponderai se o vosso negócio não será antes rosas

e eu providenciarei os espinhos.

 

Conjurais-me por beleza. Pois passai ao largo.

Que ideia tão disparatada

que um poeta cante a paixão e para aí pintassilgue

levando ao chilique peitos arfantes

por cadarços torturados. Estais enganados.

A lua ela mesma pode inspirar

tanto o romântico como o assassino (esse romântico)

e uma florista merca tanto o decesso como o enlace.

 

Oh pelos cardos me comovo evitai-me! – e pintassilgo sim

eu canto o cansaço do canto.

 

Em: “Bisonte” (2016)

 

Pintassilgo europeu

(Karolina Kijak-Dzikońska: artista polonesa)

 

Referência:

 

JONAS, Daniel. O cansaço do canto. In: __________. Os fantasmas inquilinos: poemas escolhidos. Seleção e posfácio de Mariano Marovatto. 1. ed. São Paulo, SP: Todavia, 2019. p. 105.