Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 7 de junho de 2026

Pablo Neruda - Odes de Todo o Mundo

Neste que é o poema introdutório do “Tercer Libro de las Odas” (“Terceiro Libro das Odes”), publicado originalmente em 1957, Neruda nos oferece uma declaração dos princípios de sua Lírica em plena fase de maturidade, sob cujos influxos aborda a poesia como um elemento vital, tão necessário e diverso como o próprio mundo, democratizando-a e tornando-a um instrumento síncrono de força e de beleza.

 

O poeta se vê como um generoso artesão que, a partir de uma perspectiva sóbria e conscienciosa em relação à premência do tempo, recolhe os materiais mais díspares – do sombrio ao jubiloso, do selvagem ao doméstico, sem fugir do concreto nem do obscuro, com fé inquebrantável no poder último da poesia –, para assim forjar um canto a todos oferecido, sobejamente dotado de predicados para atrair harmonia à realidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pablo Neruda

(1904-1973)

 

Odas de Todo el Mundo

 

Odas para el que pase

galopando

bajo ramas mojadas

en invierno.

 

Odas

de todos

los colores y tamaños,

seráficas, azules

o violentas,

para comer,

para bailar,

para seguir las huellas en Ia arena,

 

para ser y no ser.

 

Yo vendo odas

delgadas

en ovillo,

como alambre,

otras como cucharas,

vendo

algunas selváticas,

corren con pies de puma:

se deben manejar

con precaución, con rejas:

salieron

de los antiguos bosques,

tienen hambre.

 

También escribo

para costureras

odas

de inclinación doliente,

cubiertas por

el

aroma

enterrado

de las Iilas.

 

Otras

tienen

silvestres minerales,

dureza de los montes

de mi patria,

o simplemente

amor ultramarino.

 

En fin,

decidirán ustedes

lo que llevan:

tomates

o venados

o cemento,

oscuras alegrías infundadas,

trenes

que

silban

solos

transmigrando

por regiones

con frío y aguacero.

 

De todo

un poco

tengo para todos.

 

Yo sé

que hay otras

y otras

cosas

rondando alrededor

de Ia noche o debajo

de los muebles o adentro

del corazón

perdido.

Sí,

pero

tengo tiempo,

tengo aún mucho tiempo,

– tengo una caracola

que recoge

Ia tenaz melodía

del secreto

y Ia guarda

en su caja

convertida en martillo o mariposa –

tiempo

 

para

mirar

piedras sombrías

 

o recoger

aún

agua olvidada

 

y para darte

a ti

o a quien lo quiera

Ia primavera larga de mi lira.

 

Así, pues,

en tus manos

deposito

este atado

de flores y herraduras

 

y adiós,

 

hasta más tarde:

 

hasta más pronto:

 

hasta que todo

sea

y sea canto.

 

En: “Tercer Libro de las Odas” (1957)

 

Natureza-morta com caracóis marinhos e conchas

(Jan Davidsz de Heem: pintor holandês)

 

Odes de Todo o Mundo

 

Odes para o que passe

galopando

sob ramos molhados

no inverno.

 

Odes

de todas

as cores e tamanhos,

seráficas, azuis

ou violetas,

para comer,

para bailar,

para seguir os rastros pela areia,

 

para ser e não ser.

 

Eu vendo odes

finas

em novelo,

como, arame,

outras como colheres,

vendo

algumas selvagens,

correm com pés de puma:

devem-se manejar

com precaução, protegidas:

saíram

dos antigos bosques,

têm fome.

 

Também escrevo

para costureiras

odes

de inclinação dolente,

cobertas

pelo

aroma

enterrado

dos lilases.

 

Outras

têm

silvestres minerais,

dureza dos montes

de minha pátria,

ou simplesmente

amor ultramarino.

 

Enfim,

vocês decidirão

o que levar:

tomates

ou veados

ou cimento,

obscuras alegrias infundadas,

trens

que

apitam

solitários

transmigrando

por regiões

de frio e aguaceiro.

 

De tudo

um pouco

tenho para todos.

 

Bem sei

que há outras

coisas

rodando ao redor

da noite ou debaixo

dos móveis ou dentro

do coração

perdido.

Sim,

mas

tenho tempo,

tenho ainda muito tempo

– tenho um caracol

que recolhe

a tenaz melodia

do segredo

e guarda-a

em sua caixa

convertida em martelo ou mariposa –,

tempo

 

para

olhar

pedras sombrias

 

ou recolher

ainda

água esquecida

 

e para te dar

a ti

ou a quem quiser

a longa primavera de minha lira.

 

E assim

em tuas mãos

deposito

este feixe

de flores e ferraduras

 

e adeus,

 

até mais tarde:

 

até logo:

 

até que tudo

seja

e seja canto.

 

Em: “Terceiro Livro das Odes” (1957)

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

NERUDA, Pablo. Odas de todo el mundo. In: __________. Selected odes of Pablo Neruda. A bilingual edition: spanish x english. Translated, with an introduction by Margaret Sayers Peden. Berkeley, CA: University of California Press, 1990. p. 240, 242, 244 and 246.

 

Em Português

 

NERUDA, Pablo. Odes de todo o mundo. Tradução de Thiago de Mello. In: __________. Antologia poética de Pablo Neruda. Tradução de Thiago de Mello. Rio de Janeiro, GB: Letras e Artes, 1964. p. 139-142.

sábado, 6 de junho de 2026

Rui Knopfli - Autorretrato

Knopfli nos apresenta uma dissecação lúcida, irônica e ambivalente de sua própria identidade, centrada na herança portuguesa, com um contraponto suíço mínimo, porém significativo, ao término da qual resulta um retrato não exatamente complacente de si mesmo, mas certa sintomia de contradições e traços culturais profundamente enraizados, alguns dos quais lhe parecem incômodos.

 

Nesse bosquejo sem autoindulgência, o falante se expõe entre luzes (a capacidade lírica, a paixão) e sombras (a amargura, a má-língua, o fatalismo), ou ainda, entre a robusta ancoragem no sensorial (vinho, comida, olhar lascivo, prazer da fala) –vestígios legados dos ancestrais lusitanos –, e a herança suíça, abstrata (presente em um de seus sobrenomes) e funcional (um relógio de bolso antigo).

 

J.A.R. – H.C.

 

Rui Manuel Correia Knopfli

(1932-1997)

 

Autorretrato

 

De português tenho a nostalgia lírica

de coisas passadistas, de um a infância

amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;

a ardência árabe dos olhos, o pendor

para os extremos: da lágrima pronta

à incandescência súbita das palavras contundentes,

do riso claro à angústia mais amarga.

 

De português, a costela macabra, a alma

enquistada de fado, resistente a todas

as ablações de ordem cultural e o saber

que o tinto, melhor que o branco,

há-de atestar a taça na ortodoxia

de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

 

De português, o olhinho malandro, concupiscente

e plurirracial, lesto na mirada ao seio

entrevisto, à nesga de perna, à fímbria de nádega;

a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,

o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

 

De suíço tenho, herdados de meu bisavô,

um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.

 

Em: “Memória consentida” (1982)

 

O passado no presente

(Natasha Kramskaya: artista ucraniana)

 

Referência:

 

KNOPFLI, Rui. Autorretrato. In: FERREIRA, Manuel (Ed.). 50 Poetas Africanos. Lisboa, PT: Plátano, 1989. p. 384.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Herman Melville - Fragmentos de um Poema Gnóstico Perdido do Século XII

Melville concede a este seu poema uma aura de sabedoria arcana e de mistério, sugerindo verdades ocultas propaladas pelo gnosticismo, uma corrente filosófico-religiosa que via o mundo material como uma criação defeituosa ou inclusive maligna, aprisionando chispas de luz divina – no caso, o espírito humano.

 

Apresentadas como “perdidas” e “fragmentárias”, suas estrofes albergam as ideias: (i) de futilidade dos construtos humanos – nomeadamente as estruturas sociais e políticas – frente à matéria, a qual, com suas leis de decadência, morte e sofrimento, sempre reclamará seu tributo e os reduzirá a pó; e (ii) concernentes a uma inversão dos valores, típica do gnosticismo radical, a contemplar a ação como um meio de perpetuar e expandir tal sistema material espúrio, motivo pelo qual a inação acaba por converter-se, paradoxalmente, na postura mais virtuosa, por não sujeitar a alma às cadeias desta prisão mundana, com o que se espera evitar que a alma se contamine e possa se aproximar de sua libertação espiritual.

 

Veja-se a entonação presente nos dois derradeiros versos, devastadora e central para o poema: ainda que com pureza de intenções, a bondade, a caridade, ou mais extensivamente, as virtudes convencionais, sedimentadas no esforço para melhorar este mundo corrupto e imperfeito, somente o mantêm em funcionamento, sustentando as sobreditas estruturas que fomentam o sofrimento, convertendo-se, desse modo, em cúmplices involuntárias do mesmo sistema que pretendem sanar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herman Melville

(1819-1891)

 

Fragments of a Lost Gnostic Poem

of the 12th Century

 

* * * *

 

Found a family, build a state,

The pledged event is still the same:

Matter in end will never abate

His ancient brutal claim.

 

* * * *

 

Indolence is heaven’s ally here,

And energy the child of hell:

The Good Man pouring from his pitcher clear

But brims the poisoned well.

 

Corrupção

(Corrie Anderson: artista norte-americana)

 

Fragmentos de um Poema Gnóstico Perdido

do Século XII

 

* * * *

 

Constituir uma família, erigir um Estado,

O propósito declarado ainda é o mesmo:

A matéria, ao final, jamais renunciará

À sua antiga e brutal reivindicação.

 

* * * *

 

A indolência é aqui a aliada do céu,

E a energia, a herdeira do inferno:

O Bom Homem verte água de seu cântaro impoluto,

Mas acaba por transbordar o poço envenenado.

 

Referência:

 

MELVILLE, Herman. Fragments of a lost gnostic poem of the 12th century. In: __________. Selected poems. Edited by F. O. Matthiessen. Norfolk, CT: New Directions, 1944. p. 19. (The Poets of the Year)