Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Mário Beirão - Da Ausência Miraculosa

Este poema de Beirão fez-me lembrar, pelo título e pela temática, de um outro poema já aqui postado, nomeadamente, “País da Ausência”, da chilena Gabriela Mistral (1889-1957): ambos se fixam na ausência para enfatizar o quanto a verdadeira essência da existência se revela, por mais paradoxal que seja, na fugacidade do momento.

 

Na abordagem de Beirão, contudo, a efemeridade da vida vincula-se a um momento de epifania experimentado diante do que é inerentemente transitório – impossível de se fixar ou de se possuir, quer seja tangível – como uma rosa – quer intangível – a exemplo de um pensamento ou da própria identidade –, sem que se deixe, nada obstante, de contemplar a beleza que lhe corresponde num vislumbre indicativo do eterno.

 

A presença neste mundo, sob tal contexto, passa a ser percebida como uma ilusão, uma “cega miragem, no deserto triste”, haja vista que tudo o que apreendemos como real e palpável nada mais se equipara do que a um espelhismo no ermo da existência. Contudo, daquilo que se perde a cada instante, do vazio que sobrevém à ausência das coisas, assoma a graça de uma força espiritual reveladora, uma “Manhã de Anunciação” grávida de promessas, de esperanças numa dádiva divina.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mário P. G. Beirão

(1890-1965)

 

Da Ausência Miraculosa

 

Incerta é a Vida; incerto, o instante...

 

Essa rosa de seda e mármore, de lindo

Esplandecer, toda em louçãos

Brincos de Abril, aroma penetrante,

Morreu, desfeita, em minhas mãos,

Quando a colhi, morreu,

No mesmo instante em que, sorrindo,

Me entremostrara o Céu!

 

Esta imagem do inquieto pensamento,

Que, de surpresa, acode e me fascina,

Vou a fixá-la e já se vai no vento,

E, no vento, saudosa, peregrina...

Quando falamos,

É para além de nós

Que, súbito, escutamos,

Nos ecos, longe, o mar da nossa voz...

 

Tudo nos foge e deixa,

No pó da estrada, míseros, a olhar:

Seja estrela a nascer... sonho a florir...

Música em fumos de perdida endecha...

Nuvem que doira o ar...

Partir! Partir! Não há senão partir!

 

Quero ter o sentido,

Quero apreender o fim

Do que me cerca... (e o imaginar cansa, vencido!).

Sei lá quem sou, quando reparo em mim!

 

Este instante que passa, este instante que passa,

Fulge e apaga-se... existe e não existe...

 

– Presença, és outra forma da Ilusão,

Cega miragem, no deserto triste!

 

É só na Ausência

Que a vida se revela, em sua essência...

 

A Ausência é luz, espírito da Graça,

Manhã de Anunciação!

 

Em: “O Pão da Ceia” (1964)

 

A virada do tempo

(Natali Antonovich: artista bielorrussa)

 

Referência:

 

BEIRÃO, Mário. Da ausência miraculosa. In: __________. Poesias completas. Edição organizada por António Cândido Franco e Luís Amaro. Prefácio de José Carlos Seabra Pereira. Lisboa, PT: Imprensa Nacional - Casa da Moeda, jun. 1996. p. 587. (“Biblioteca de Autores Portugueses”)

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Juan Manuel Bonet - Escrever

Bonet atém-se à função metalinguística da palavra para nos fazer ver que a poesia nem sempre necessita de grandes temas: às vezes, basta o som do tilintar de xícaras no terraço de um café para que nasçam versos cheios de clareza – sem aquela impostação artificiosa pretensamente inspirada por forças superiores –, como se fossem o corolário de um gesto natural, algo improvisado ou despretensioso.

 

A escrita, assim, passa a ser concebida como um fluxo espontâneo e descontraído, ao largo do bulício urbano, que surge da observação serena do entorno, ou melhor, da contemplação de tudo o que há à volta de uma vida tranquila e anônima, à margem dos grandes acontecimentos, seguindo o seu curso sem esforço.

 

J.A.R. – H.C.

 

Juan Manuel Bonet

(n. 1953)

 

Escribir

 

Escribir – como si nada fuera importante –

el sencillo irse de las horas

sentado en la terraza de un café

de una provincia española.

Escribir, como si estuviera escrito

que el ruido de esas tazas sobre el mármol

tuviera que pasar el arroyo claro

de unos versos.

Escribir, como si nada fuera.

 

En: “La patria oscura” (1983)

 

O Terraço do Hotel Mistral

(Georges Braque: pintor francês)

 

Escrever

 

Escrever – como se nada fosse importante –

o simples passar das horas

sentado no terraço de um café

de uma província espanhola.

Escrever, como se estivesse escrito

que o tilintar dessas xícaras sobre o mármore

tivesse que passar pelo ribeiro límpido

de uns versos.

Escrever, como se nada fosse.

 

Em: “A pátria escura” (1983)

 

Referência:

 

BONET, Juan Manuel. Escribir. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología cátedra de poesía de las letras hispánicas. 8. ed. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2011. p. 1151.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Gerard Manley Hopkins - Ser estrangeiro é minha sina e vida

Há neste soneto de Hopkins a confissão íntima de um homem que se sente preso entre lealdades antagônicas; estranho nos diversos âmbitos de sua existência – familiar, nacional ou hierático –; enleado, destarte, numa pesarosa autopercepção de exílio, de alienação, de crise espiritual.

 

Primeiramente, tal estranhamento se intensifica dentro de sua própria família de fé anglicana, ao converter-se ao catolicismo, logo se tornando um sacerdote jesuíta; depois, em relação à sua pátria – a Inglaterra –, ao encontrar-se em ministério na Irlanda, então atormentada por tensões políticas e religiosas; e, por fim, em seu próprio canal de comunicação com o divino, cuja voz poética se mostra velada, circunscrita a um ser incompleto e apartado, privado, por conseguinte, de seu pleno potencial de realização.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gerard Manley Hopkins

(1844-1889)

 

To seem the stranger lies my Lot, my life

 

To seem the stranger lies my lot, my life

Among strangers. Father and mother dear,

Brothers and sisters are in Christ not near

And he my peace / my parting, sword and strife.

 

England, whose honour O all my heart woos, wife

To my creating thought, would neither hear

Me, were I pleading, plead nor do I: I wear-

Y of idle a being but by where wars are rife.

 

I am in Ireland now; now I am at a thírd

Remove. Not but in all removes I can

Kind love both give and get. Only what word

 

Wisest my heart breeds dark heaven’s baffling ban

Bars or hell’s spell thwarts. This to hoard unheard,

Heard unheeded, leaves me a lonely began.

 

Dublin, 1885

(Posthumous publ.)

 

A leitura do sacerdote

(Ferdinand Hodler: pintor suíço)

 

Ser estrangeiro é minha sina e vida

 

Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio

A estrangeiros. Meu pai e minha mãe amados,

Irmãos e irmãs em Cristo de mim apartados,

Só Ele meu partir / meu porto, espada e esteio.

 

A Inglaterra que eu honro como esposa, cheio

De sonhos de criar, não movem nem cuidados

Nem rogos, nem rogar eu ouso, desolado s-

ócio de um lar que gera guerras em seu seio.

 

Agora estou na Irlanda e é já a terceira ida

Ao longo exílio. Não que o exílio iniba o gesto

De amor, amar. Mas a palavra mais querida

 

Que eu crie o céu cinzento ceifa presto

E o inferno enfeia em fel, do povo não ouvida

Ou, se ouvida, olvidada. E eu solitário resto.

 

O estranho

(Leilani Bustamante: artista norte-americana)

 

Parecer um estranho é minha sina, minha vida

 

Parecer um estranho é minha sina, minha vida

Entre gente estranha. Pai e mãe benquistos,

Meus irmãos e irmãs estão longe em Cristo,

E ele – minha paz, exílio, espada e lida.

 

Esposa de meu pensamento, amada Inglaterra,

Cuja honra meu coração venera, meus lamentos

Não ouviria, nem nada pleiteio: só já não aguento

Estar assim ocioso, onde é sem trégua a guerra.

 

Na Irlanda estou agora, em terceira remoção.

Em nenhuma, porém, pude doar o doce amor

Ou colhê-lo. Até mesmo a mera palavra melhor

 

Que brote em meu coração, frustra-a a proibição

Do céu; ou o inferno a distorce. Minha palavra não ecoou,

E entesourá-la, não ouvida, faz de mim um pobre “principiou”.

 

Referências:

 

HOPKINS, Gerard Manley. To seem the stranger lies my Lot, my life / Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio. Tradução de Augusto de Campos. In: __________. A beleza difícil. Introdução e traduções de Augusto de Campos. São Paulo, SP: Perspectiva, 1997. Em inglês: p. 46; em português: p. 47. (Coleção “Signos”; v. 20)

 

HOPKINS, Gerard Manley. To seem the stranger lies my Lot, my life / Parecer um estranho é minha sina, minha vida. Tradução de Aíla de Oliveira Gomes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de de Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1989. Em inglês: p. 130; em português: p. 131.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Péricles Eugênio da Silva Ramos - Ars Poetica

Eis aqui mais um poema sobre o processo criativo, digo melhor, uma angustiosa e visceral investigação sobre a luta titânica do poeta com a palavra, numa tentativa de domesticar o inefável, o quase inatingível – matéria-prima prevalecente da poesia.

 

Tem-se nos versos de Ramos os informes da relação muito próxima entre a arte e a vida, haja vista que esta última obsequia alguns dos principais elementos que dão suporte àquela – as experiências, os desejos, os pecados –, a partir dos quais o comezinho – inscrito nas sombras, em seus aspectos ocultos, nas pequenezas mundanas – convola-se em algo sublime.

 

Como diz o poeta, o poema não tem a necessidade de “ser” o firmamento – o ideal inalcançável –, pois que lhe basta ser “um reflexo índigo do céu”: a arte que o perpassa, ainda que imperfeita, deve ser fiel à verdadeira natureza da vida, um “espelho a recordar” a sua beleza caótica, cruel, até mesmo violenta.

 

J.A.R. – H.C.

 

Péricles E. da S. Ramos

(1919-1992)

 

Ars Poetica

 

I

 

Em silêncio travas o combate

contra o algodão e a lua,

contra as nuvens, contra o sol,

contra o linho,

a tela em branco do cinema.

 

Lá fora, a vida é um filme ao sol.

Aqui, espera a página que nela se projetem

as sombras pecadoras do salão, da alcova, do quintal,

como se fossem o rumor das asas de algum anjo.

Enquanto isso,

habitam o teu corpo, instalam-se em teu sexo.

 

II

 

Mas a inefável luta contra a areia,

na qual pingas teu sangue,

o sangue de teus olhos,

como tinta azul:

 

também azul é o céu,

e não o atinges.

 

III

 

Como chegar ao alvo,

como construir a casa inabalável

com uma colmeia zumbidora

de palavras,

com estas conchas quebradas?

Conchas, conchas do mar,

do mar que tão embaixo

atinge todavia o céu,

ao refleti-lo em suas águas.

 

Seja a palavra, seja o verso,

por mais baixo que estejam,

um reflexo índigo do céu,

do céu e sua angústia,

 

um espelho a recordar,

 

vermelha,

 

a vida, esta demente, esta devassa,

esta possessa a devorar seus próprios filhos.

 

Rotina diária

(Koppány Árnyas: artista húngaro)

 

Referência:

 

RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Ars poetica. In: __________. A noite da memória. São Paulo, SP: Art Editora, 1988. p. 8-9. (Coleção “Toda Poesia”; v. 6)