Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 24 de maio de 2026

Lêdo Ivo - Montepio

O poeta alagoano, ao intitular o poema com um termo que se refere a uma espécie de fundo de poupança, sugere, desde logo e de algum modo, o desenvolvimento temático associado ao “pecúlio” legado do pai ao filho – a saber, as ferramentas para compreender e se relacionar com a realidade, encerradas nas palavras e no conhecimento transmitido –, essencialmente um “nada”, diz a voz lírica, embora pleno de significados.

 

Como se vê, longe de dar prevalência a bens materiais ou riquezas convencionais, Ivo põe ênfase na dotação cultural nessa cadeia sucessiva, mais do que na material, erigindo assim um inventário poético do intangível, do vivido e do essencialmente humano: as experiências, as lutas, as formas de ver o mundo, as conexões com a natureza, as canseiras, a capacidade de resistir e, fundamentalmente, repita-se, a linguagem e o conhecimento.

 

J.A.R. – H.C.

 

Lêdo Ivo

(1924-2012)

 

Montepio

 

Que herança transmite

o pai a seu filho?

Não lhe deixa casa

ou sombra de apólice

nem tampouco o sujo

de seu colarinho.

Não lhe lega a velha

mala das viagens

nem os seus amores

e as suas bagagens.

E as roupas do pai

que a chuva encolheu

no filho não cabem.

Com pau seco e fogo

o pai de resina

arma o seu legado.

Deixa uma fogueira

que ele fez sozinho

no escuro da mata.

(Borboletas em

seus ombros pousavam.)

E também menino

na pele do vento

solta para o céu

o seu papagaio.

E antes de mudar-se

de suor em musgo

o pai dá ao filho

como pé-de-meia

algo da paisagem

– sobra de pupila,

moeda de lágrimas.

Deixa-lhe o balaio

cheio de apetrechos

e o jeito de andar

com as mãos às costas.

Para o filho passa

todo o seu cansaço

suas promissórias

e seu olhar baço.

Da árvore do povo

deixa-lhe no sangue

um ramo orvalhado.

Transmite-lhe o grito

de espantado amor

que gritou na praia.

De agrestes gravetos

faz o fogo e esquenta

na palhoça ao vento

a comida fria

de sua marmita.

O pai dá ao filho

o ninho vazio

achado no bosque

e a raposa morta

por sua espingarda.

Dá-lhe a sua anônima

grandeza do nada.

Sua herança é o frio

que sentiu rapaz

quando impaludado.

Dá-lhe a lua imensa

na noite azulada.

Estende-lhe as mãos

sujas de carvão

molhadas de orvalho.

Fala-lhe da dor

que sente nos calos.

Dá-lhe a verde e rubra

pimenteira em flor.

Mostra-lhe o tambor

de salitre e brisa

que rufa sozinho

entre os arquipélagos

de sua pobreza.

Mostra-lhe o cadarço

de espuma no mar

cheio de mariscos.

Ser pai é ensinar

ao filho curioso

o nome de tudo:

bicho e pé de pau.

Que o pai, quando morre,

deixa para o filho

o seu montepio

– tudo o que juntou

de manhã à noite

no batente, dando

duro no trabalho.

Deixa-lhe palavras.

 

Pai e filho no cultivo do campo

(Gurin Vasyl: artista ucraniano)

 

Referência:

 

IVO, Lêdo. Montepio. In: __________. O sinal semafórico. Rio de Janeiro, GB: José Olympio; Brasília, DF: INL, 1974. p. 379-381.

sábado, 23 de maio de 2026

Gregory Corso - Deus é um masturbador

Neste poema transgressor e vitalista, Corso emprega a blasfêmia – incorporada ao título –, em meio a uma linguagem direta e provocativa, para desmistificar o sexo, vislumbrando-o livre de moralismos, de amarras repressivas e de culpas ou dúvidas impostas socialmente, com efeitos negativos sobre a mente e o corpo.

 

Deus, aqui, não é um juiz ou a máxima potestade, em conformidade à perspectiva judaico-cristã, senão um participante a mais nesse impulso cardinal de interação de corpos para o prazer mútuo e para a continuidade da vida.

 

Mais do que reivindicar o sexo em sua função natural e biológica, o poeta beatnik postula-o em todas as suas formas – incluindo a homossexualidade e o autoerotismo –, pois que o seu propósito é afirmar o autodomínio erótico, o direito fundamental ao prazer – quer solitário quer em comunhão com os outros seres humanos –, desvestindo-o de todas as camadas de significado que lhe foram atribuídos ao longo da história – tabus, regras, simbolismos, funções sociais e pesos psicológicos –, para o ver despojado, no fim das contas, da sua pretensa aura transcendental.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gregory Corso

(1930-2001)

 

God is a masturbator

 

Folks, sex has never been

more than a blend

of bodies doing for one

another

that which pleases

them and evolution

to do

either in desire

or in desperation

or in necessity

It serves no purpose

other than love

and life’s purpose

Sexualists

are a product of sex

We are made by sex

Sex made the Salvation Army

We are sex

There is nothing dark

about this magic

And those pangs of lust

which make you sick

Those unthinkable dreams

which fill you with doubt

– as long as wild joys emit

from an enthusiastic spirit

eat the dust! shout!

Thank God one’s thoughts

excite as much as flesh

Thank God there’s a place

in all this he and she

and he and he

and she and she

for a me and me –

 

O Grande Masturbador

(Salvador Dalí: pintor espanhol)

 

Deus é um masturbador

 

Gente, o sexo nunca foi

mais do que uma fusão

de corpos que fazem um pelo

outro

aquilo que lhes agrada

e que a evolução lhes permite

fazer

quer por desejo

quer por desespero

quer ainda por necessidade

Ele não serve a outros propósitos

que não sejam o amor

e a perpetuação da vida

Sexualistas

são um produto do sexo

Somos gerados através do sexo

O sexo criou o Exército da Salvação

Nós somos sexo

Não há nada de obscuro

nessa magia

Nessas pontadas de lascívia

que te fazem adoecer

Nesses sonhos inconfessáveis

que te enchem de dúvida

– contanto que alegrias selvagens emanem

de um espírito entusiasta

come o pó! grita!

Graças a Deus os pensamentos de alguém

excitam tanto quanto a carne

Graças a Deus que há um lugar

em todo esse ele e ela

e ele e ele

e ela e ela

para um eu e eu –

 

Referência:

 

CORSO, Gregory. God is a masturbator. In: __________. Elegiac feelings american. 6th print. New York, NY: New Directions, 1970. p. 112.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Konstantinos Kaváfis - Ítaca

Recorrendo ao mito homérico do regresso de Ulisses ao lar, após a Guerra de Troia, Kaváfis apresenta-nos uma meditação serena sobre o sentido da existência, propondo-nos uma filosofia de vida serena, profundamente humana e com algum matiz estoico, na qual o que de mais importante há é o modo como empreendemos a jornada, não o destino ou o momento em que a ele chegamos.

 

Ítaca aparece nos versos do poeta grego como o objetivo que dá direção e propósito à viagem, a bússola, a estrela-guia que nos orienta pelo “longo caminho” da vida, apontando-nos a meta a atingir: uma conquista, o conhecimento, a realização pessoal, a sabedoria ou talvez, até mesmo, a própria morte.

 

Aos olhos de Kaváfis, nessa “jornada do herói” – para empregar um termo caro ao grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) –, há que se dar prevalência à nossa atitude interior, enfrentando os “monstros” projetados por nossa psique – medos, preconceitos, paixões vis e falta de estatura moral – com magnanimidade e sensibilidade refinada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Konstantinos Kaváfis

(1863-1933)

 

Ιθακη

 

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,

να εύχεσαι να ’ναι μακρύς ο δρόμος,

γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.

Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,

τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,

τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,

αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή

συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.

Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,

τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,

αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,

αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

 

Να εύχεσαι να ’ναι μακρύς ο δρόμος.

Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι

που με τί ευχαρίστηση, με τί χαρά

θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοϊδωμένους·

να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,

και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,

σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κι έβενους,

και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,

όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·

σε πόλεις αιγυπτιακές πολλές να πας,

να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

 

Πάντα στον νου σου να ’χεις την Ιθάκη.

Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.

Αλλά μη βιάζεις το ταξίδι διόλου.

Καλύτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·

και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,

πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,

μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

 

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξίδι.

Χωρίς αυτήν δεν θα ’βγαινες στον δρόμο.

Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

 

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.

Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,

ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τί σημαίνουν.

 

(1911)

 

Desembarque de Ulisses em Ítaca

(John Linnell: pintor inglês)

 

Ítaca

 

Se partires um dia rumo a Ítaca,

faz votos de que o caminho seja longo,

repleto de aventuras, repleto de saber.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o colérico Posídon te intimidem;

eles no teu caminho jamais encontrarás

se altivo for teu pensamento, se sutil

emoção teu corpo e teu espírito tocar.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o bravio Posídon hás de ver,

se tu mesmo não os levares dentro da alma,

se tua alma não os puser diante de ti.

 

Faz votos de que o caminho seja longo.

Numerosas serão as manhãs de verão

nas quais, com que prazer, com que alegria,

tu hás de entrar pela primeira vez um porto

para correr as lojas dos fenícios

e belas mercancias adquirir:

madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,

e perfumes sensuais de toda espécie,

quanto houver de aromas deleitosos.

A muitas cidades do Egito peregrina

para aprender, para aprender dos doutos.

 

Tem todo o tempo Ítaca na mente.

Estás predestinado a ali chegar.

Mas não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares de jornada

e fundeares na ilha velho enfim,

rico de quanto ganhaste no caminho,

sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

 

Uma bela viagem deu-te Ítaca.

Sem ela não te ponhas a caminho.

Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

 

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,

e agora sabes o que significam Ítacas.

 

(1911)

 

Referência:

 

Em Grego

 

ΚΑΒΆΦΗΣ, Κωνσταντίνος. Ιθακη. In: __________. Απαντα: ποιηματα και πεζα. Αθήνα, ΕΛ: Εκδοτικοσ Οργανισμοσ Παπυροσ, 1995. σ. 38. (“Τα Αριστουργηματα Τησ Νεοελληνικησ Λογοτεχνιασ”; Τ. I)

 

 

Em Português

 

KAVÁFIS, Konstantinos. Ítaca. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, estudo crítico, notas e tradução direta do grego por José Paulo Paes. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1982. p. 118-119. (Coleção “Poiesis”)