Este poema de Akhmátova
revela-se como uma ponte entre o íntimo e o histórico, pois a poetisa, para além
de meramente escrever sobre um divórcio emocional, documenta, de fato, o
momento em que o cataclismo pessoal – o fim de um caso de amor tempestuoso com
o seu ex-cônjuge, Nikolái Gumilióv (1886-1921) – se entrelaça com um cataclismo
histórico – a Revolução Russa de 1917.
O alívio de não mais
sonhar com Gumilióv mistura-se, numa leitura superveniente, com a premonição do
seu destino trágico (Gumilióv foi preso e executado pela Cheka, a polícia
secreta soviética, em 1921) e a necessidade de forjar um “repouso congelado”
que lhe permitisse, nos anos seguintes, tornar-se a cronista silenciosa e
resiliente das agruras por que passou o povo russo.
A natureza e os
símbolos religiosos – a névoa, os sinos, os monges – funcionam no poema como um
mapa da alma nesse ponto de viragem, como se mediadores dessa transição fossem,
oferecendo consolo e transcendência frente à ferida da memória conjugal, no
exato instante em que a dor do amor se transforma em insensibilidade profética
necessária para manter-se viva aos desenlaces da História.
J.A.R. – H.C.
Anna Akhmátova
(1889-1966)
Стал мне реже сниться
Стал мне реже сниться, слава богу,
Больше не мерещится везде.
Лег туман на белую дорогу,
Тени побежали по воде.
И весь день не замолкали звоны
Над простором вспаханной земли,
Здесь всего сильнее от Ионы
Колокольни Лаврские вдали.
Подстригаю на кустах сирени
Ветки те, что нынче отцвели;
По валам старинных укреплений
Два монаха медленно прошли.
Мир родной, понятный
и телесный,
Для меня, незрячей,
оживи.
Исцелил мне душу царь
небесный
Ледяным покоем
нелюбви.
Киев, 1912
В: “Бълая Стая”
(1917)
Colhendo violetas
(János Thorma: pintor
húngaro)
Sonho mais raramente
com ele (*)
Sonho mais raramente
com ele, graças a Deus,
já não imagino que o
vejo em toda parte.
A névoa encobre a
estrada embranquecida,
as sombras leves já
fogem sobre a água.
O dia inteiro os
sinos não pararam
de tocar sobre os
campos bem arados.
Ainda mais altos são
os do mosteiro
de São João que eu
vejo lá longe.
No campo, vou
colhendo as violetas
que ainda outro dia
floresceram
e fico olhando
aqueles dois monges
que passeiam pela
antiga muralha.
Diante de meus olhos,
que eram cegos,
ressurge concreto um
mundo inteligível e familiar.
O Deus dos Céus
cicatrizou minha alma
com a gélida calma da
ausência do amor.
Kiev, 1912
Em: “Revoada Branca”
(1917)
Nota do Tradutor:
(*). Neste poema, pertencente à fase da separação de Anna e Nikolái
Gumilióv [seu ex-esposo], o mosteiro a que ela se refere é o de São João da
Trindade, em Kiev. (AKHMÁTOVA, 2009, p. 165)
Referências:
Em Russo
АХМАТОВА, АННА. Стал мне реже сниться. In: __________.
Стихотворения и поэмы. Вступительная статья А. А. Суркова. Составление, подготовка текста и
примечания I В. М. Жирмунского. Ленинград, РУ: Издательство “Советский писатель”, 1976. с. 129-130.
Em Português
AKHMÁTOVA, Anna.
Sonho mais raramente com ele. Tradução de Lauro Machado Coelho. In: __________.
Antologia poética. Seleção, tradução do russo, apresentação e notas de
Lauro Machado Coelho. 1. ed. na Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre, RS: L&PM, fev. 2009. p. 64.
(L&PM Pocket; v. 751)
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