Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 5 de maio de 2026

Leonardo Fróes - O poema

Fróes apresenta-nos nestas linhas uma cartografia do ato criativo, especificamente o do ofício de se redigir poemas, ele mesmo mirando-se com um olhar crítico e esperançado, num testemunho de que a poesia, nascida do mais íntimo e da forma mais “agreste”, pode oportunizar uma via de acesso a contextos plenos de liberdade e de solidariedade.

 

Porque essa é a sua razão de ser: transformar-se num termo de resistência linguística, num contentor itinerante de todas as complexidades e contradições humanas – as do poeta, inclusive –, numa ponte para o comunitário, enfim, num instrumento viável por meio do qual havemos de nos aproximar do que projetamos como “ser pleno”.

 

Se a escrita poética, em aparência, assoma como um empreendimento fútil (“jogo desnecessário”), é somente porque, no combate urgente contra os jugos das “trevas”, não tem força incendiária o bastante para lhes opor insuperável rechaço – ainda que, em sua ambição visionária, seja capaz de insuflar vida nova por todos os “meandros planetários”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Leonardo Fróes

(n. 1941)

 

O poema

 

Com esse modo agreste

de usar o vocabulário,

tentando tirar o mofo

do seu emprego diário,

tentando dar às palavras

um valor não-Iiterário,

tentando extrair vida

de um velho dicionário,

aí vai o poema,

e vai sem destinatário,

assim como surgiu,

rangente, seco, dentário,

capaz de ferir a pele

por baixo do vestuário,

capaz de fundir num todo

os sentimentos contrários.

 

Excesso de amor perdido

no território solitário

de um aprendiz comovido,

resto de gritos e urros

num cárcere voluntário

onde me sinto mais livre,

o poema, sendo vário,

é sempre uma coisa minha

de fundo comunitário,

é sempre o desenho breve

de um gesto visionário,

uma esperança constante

de, sempre, ser solidário.

 

Símbolo tenso e aéreo

de um ébrio noticiário,

rumo incerto construído

com materiais precários,

o poema é sobra e soma

de impasses humanitários,

é dúvida e febre, cerco,

memória de um ser primário,

é o lance mais gratuito

de um jogo desnecessário

que eu disputo com as trevas

por ímpeto hereditário.

 

Meu tédio, meu desalento,

meu triste dever diário,

as forças de além-do-tempo

sujeitas ao calendário,

minha sede, meu orgulho,

meu desgosto sedentário,

minha mão sempre apontando

para um mundo igualitário,

meus monstros gesticulando

no fundo de um relicário,

meus porres e meus pavores,

meus nervos incendiários,

vai tudo contido nele

em busca de itinerário.

 

E se acaso esse poema

no seu ritmo arbitrário

toma fôlego e se entranha

nos meandros planetários,

se chega, tal como a brisa

ou o som de um campanário,

a pungir dentro do peito

de onde é originário,

se reproduz, como pode,

a forma de um estuário

por onde meus sonhos fluem,

eu, seu modesto operário

– que nunca de um talento

fui o feliz proprietário,

cuja ambição foi só

ser um fiel escriturário

de tudo o que vai passando

no mundo do imaginário –

eu me dou por satisfeito

e, fato extraordinário,

me suplanto, me extasio,

me dissolvo libertário

e sou cada vez mais eu

sendo vosso – e ainda vário.

 

Em: “Língua franca” (1968)

 

Vista de Collioure

(Paul Signac: pintor francês)

 

Referência:

 

FRÓES, Leonardo. O poema. In: __________. Vertigens: obra reunida (1968-1998). Edição fixada e revista pelo autor, com textos introdutórios de José Thomaz Brum, Ciro Barroso e Ivan Junqueira. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998. p. 18-20.

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Mario Benedetti - Certificado de existência

Este poema de Benedetti expõe o absurdo de se depender de um papel para se provar o óbvio – a existência humana –, reduzindo-a a um trâmite mediado por registros estatais: se equivalente o nomeado “certificado de existência” ao nosso RG, à Prova de Vida do INSS ou a outro documento assemelhado, pouco importa, o que o poeta busca satirizar, a sério, é a necessidade recorrente de uma validação burocrática para se convalidar o que, de si, é algo autoevidente.

 

Parece-lhe paradoxal a ideia de que a ausência de tal reconhecimento oficial possa equivaler, no plano social, à não-existência, implicando a desumanização de todos aqueles que o sistema não certifica e que, por conseguinte, ignora, lançando-os num processo de exclusão e de invisibilização social, numa censurável inversão de valores em favor de uma realidade “certificada”, em detrimento do sentido intrínseco de uma realidade de fato “vivida”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mario Benedetti

(1920-2009)

 

Cerificado de existencia

 

Ah ¿quién me salvará de existir?

                     (Fernando Pessoa)

 

Dijo el fulano presuntuoso /

hoy en el consulado

obtuve el habitual

certificado de existencia

consta aquí que estoy vivo

de manera que basta de calumnias

este papel soberbio / irrefutable

atestigua que existo

 

si me enfrento al espejo

y mi rostro no está

aguantaré sereno

despejado

 

¿no llevo acaso en la cartera

mi recién adquirido

mi flamante

certificado de existencia?

 

vivir / después de todo

no es tan fundamental

 

lo importante es que alguien

debidamente autorizado

certifique que uno

probadamente existe

 

cuando abro el diario y leo

mi propia necrológica

me apena que no sepan

qu estoy en condiciones

de mostrar dondequiera

y a quien sea

un vigente prolijo y minucioso

certificado de existencia

 

existo luego pienso

¿cuántos zutanos andan por la calle

creyendo que están vivos

cuando en rigor carecen del genuino

irremplazable

soberano

certificado de existencia?

 

En: “Las soledades de Babel” (1990-1991)

 

O cidadão

(Richard Hamilton: pintor inglês)

 

Certificado de existência

 

Ah, quem me salvará de existir?

                    (Fernando Pessoa)

 

Disse o fulano presunçoso

hoje no consulado:

obtive o costumeiro

certificado de existência.

Consta aqui que estou vivo,

de modo que basta de calúnias.

Este papel soberbo, irrefutável,

atesta que existo.

 

Se me encaro no espelho

e meu rosto não aparece,

aguentarei sereno,

imperturbado.

 

Não levo na carteira, porventura,

meu recém adquirido,

meu flamante,

certificado de existência?

 

Viver, afinal de contas,

não é tão fundamental.

 

O importante é que alguém,

devidamente autorizado,

certifique que um sujeito

comprovadamente existe.

 

Quando abro o jornal e leio

meu próprio obituário,

entristece-me que não saibam

que estou em condições

de mostrar em qualquer lugar,

a quem quer que seja,

um vigente, prolixo e minucioso

certificado de existência

 

Existo, logo penso.

Quantos beltranos andam pela rua

acreditando que estão vivos,

quando a rigor carecem do genuíno,

insubstituível,

soberano,

certificado de existência?

 

Em: “As solidões de Babel” (1990-1991)

 

Referência:

 

BENEDETTI, Mario. Certificado de existencia. In: __________. Antología poética. Introducción de Pedro Orgambide. Selección del autor. 4. ed., 8. reimp. Madrid, ES: Alianza Editorial, 2017. p. 291-292.

domingo, 3 de maio de 2026

Murilo Mendes - O visionário

Explorando uma constante tensão entre a aspiração espiritual e a mais crua realidade social, “o visionário”, por meio de imagens etéreas, sugere uma presença divina e consoladora – a evocar um ideal de beleza, pureza e esperança –, confrontada, nada obstante, pela justaposição de fantasmas, sombras e presságios de violência que emergem à meia-noite e em sítios oprimentes.

 

A alternância entre luzes e sombras, dia e noite, reforça o tema de oposição entre o sagrado e o profano num cenário que tem algo de apocalíptico, cujos traços vão em linha com palpáveis denúncias de injustiças e desumanização presentes no quotidiano, refletindo as contradições de uma sociedade na qual proliferam práticas de imparidades, senão de indiferenças, propensas a levar a um mundo de disparidades e de misérias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Murilo Mendes

(1901-1975)

 

O visionário

 

Eu vi os anjos nas cidades claras,

Nas brancas praças do país do sol.

Eu vi os anjos no meio-dia intenso,

Na nuvem indecisa e na onda sensual.

 

À meia-noite convoquei fantasmas,

Corri igrejas de cidades mortas,

Esperei a dama de veludo negro,

Esperei a sonâmbula da visão da ópera:

 

Na manhã aberta é que vi os fantasmas

Arrastando espadas nos lajedos frios:

Ao microfone eles soltavam pragas.

Vi o carrasco do faminto, do órfão,

 

Deslizando, soberbo, na carruagem.

O que renegou a Deus na maldição,

Vi o espírito mau solto nas ruas,

Cortando os ares com seus gládios em sangue.

 

Vi o recém-nascido asfixiado

Por seus irmãos, à luz crua do sol.

Vi atirarem ao mar sacos de trigo

E no cais um homem a morrer de inanição.

 

À luz do dia foi que eu vi fantasmas,

Nas vastas praças do país do amor,

E também anjos no meio-dia intenso,

Que me consolam da visão do mal.

 

Em: “As Metamorfoses” (1944)

 

Anjos do Bem e do Mal

(William Blake: poeta e pintor inglês)

 

Referência:

 

MENDES, Murilo. O visionário. In: __________. Antologia poética. Organização de Júlio Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2014. p. 84.