Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 11 de maio de 2026

Allen Ginsberg - Ladainha dos Lucros da Guerra

Mediante estas linhas, Ginsberg converte a poesia num instrumento de verdade e de justiça, uma espécie de litania profana contra os sacerdotes do deus da guerra e do dinheiro, cujos denunciantes efeitos radicam na crueza, especificidade e implacável acumulação de fatos e nomes que conformam o mapa da cumplicidade com os desdobramentos da infame guerra então levada a efeito pelos EUA no Vietnã – a julgar pela data em que redigido o poema (1º/12/1967).

 

O poeta busca arrancar as mantilhas de anonimato e de legitimidade burocrática a acobertarem as ações ignominiosas do complexo militar-industrial norte-americano, hoje em dia já muito mais torpes e expandidas pelos quatro cantos do globo, alicerçadas numa poderosa e lucrativa maquinaria de guerra, na qual se conjugam o fabrico de armamentos de efeitos atrozes, o lobby corrupto e o hegemônico controle midiático, evidenciando, sem meios tons, a completa colusão entre a indústria que as sustenta e o governo central.

 

J.A.R. – H.C.

 

Allen Ginsberg

(1926-1997)

 

War Profit Litany

 

To Ezra Pound

 

These are the names of the companies that have made

money from this war

nineteenhundredsixtyeight Annodomini fourthousand

eighty Hebraic

These are the Corporations who have profited by

merchandising skinburning phosphorous or shells

fragmented to thousands of fleshpiercing needles

and here listed money millions gained by each combine

for manufacture and here are gains numbered,

index’d swelling a decade, set in order,

here named the Fathers in office in these industries,

telephones directing finance,

names of directors, makers of fates, and the names of the

stockholders of these destined Aggregates,

and here are the names of their ambassadors to the Capital,

representatives to legislature, those who sit drinking

in hotel lobbies to persuade,

and separate listed, those who drop Amphetamine with

military, gossip, argue, and persuade

suggesting policy naming language proposing strategy,

this done for fee as ambassadors to Pentagon,

consultants to military, paid by their industry:

and these are the names of the generals & captains military,

who know thus work for war goods manufacturers;

and above these, listed, the names of the banks, combines,

investment trusts that control these industries:

and these are the names of the newspapers owned

by these banks

and these are the names of the airstations owned by these

combines;

and these are the numbers of thousands of citizens

employed by these businesses named;

and the beginning of this accounting is 1958 and the end

1968, that static be contained in orderly mind,

coherent & definite,

and the first form of this litany begun first day December

1967 furthers this poem of these States.

 

December 1, 1967

 

Guerra

(John Pitre: artista norte-americano)

 

Ladainha dos Lucros da Guerra

 

Para Ezra Pound

 

His os nomes das companhias que ganharam dinheiro

com esta guerra

milnovecentosesessentaeoito Annodomini quatromileoitenta

Hebraico

Eis as Grandes Companhias que lucraram traficando

fósforo que queima a pele ou bombas fragmentárias

que explodem em mil agulhas que perfuram a carne

e eis a lista dos milhões ganhos por cada truste pela fabricação

e eis aqui as cifras dos lucros, indexadas inchando numa

década, ordenadas,

eis os nomes dos Pais em exercício dessas indústrias, telefones

dirigindo as finanças,

nomes de diretores, fabricantes de destinos, e os nomes dos

acionistas destes Aglomerados destinados,

e eis os nomes de seus embaixadores na Capital, representantes

no Congresso, os que ficam bebendo nas

antessalas dos hotéis pra persuadir,

e em lista anexa, os que tomam Anfetamina com milhares,

fofocam, discutem e persuadem

sugerindo políticas dando nomes propondo estratégias,

em troca de seus honorários como embaixadores

junto ao Pentágono, consultores de militares, pagos

por suas indústrias:

e eis os nomes dos generais & capitães militares, que agora

trabalham pros fabricantes de produtos bélicos;

e acima destes, a lista dos nomes dos bancos, trustes,

companhias de investimentos que controlam estas

indústrias:

e eis os nomes dos jornais de propriedade destes bancos

e eis os nomes das estações de rádio e TV de propriedade

destes trustes;

e eis os números dos milhares de cidadãos que trabalham

pra essas empresas arroladas;

e esta relação começa em 1958 e termina em 1968, que a

estatística seja contida em mente ordenada, coerente

& definida,

e a primeira forma desta ladainha iniciada no dia primeiro

de dezembro de 1967 dá prosseguimento a esse poema

destes Estados.

 

1º de dezembro de 1967

 

Referências:

 

Em Inglês

 

GINSBERG, Allen. War profit litany. In: __________. Collected poems: 1947-1985. New York, NY: Penguin Books, 1995. p. 486.

 

Em Português

 

GINSBERG, Allen. Ladainha dos lucros da guerra. Tradução de Paulo Henriques Britto. In: __________. A queda da América: poemas. Tradução de Paulo Henriques Britto. Porto Alegre, RS: L&PM, fev. 2014. p. 89-90. (Coleção L&PM Pocket; v. 1150)

domingo, 10 de maio de 2026

Julia Kasdorf - O que aprendi com minha mãe

Neste dia dedicado às mães, trago aos leitores deste blog a versão ao português deste belo poema da poetisa norte-americana, a rememorar os momentos por ela vivenciados com a própria mãe, dispensados a confortar os outros frente à dor e ao sofrimento, o que torna mais ostensiva a mensagem que pretende transmitir, vale dizer, a da importância do cultivo da empatia, da generosidade e da compaixão.

 

Os versos transmitem a ideia de que muito do amor se manifesta por intermédio de uma prática concreta e transformadora, arraigada nos gestos quotidianos – muitas vezes transmitidos de geração a geração – e nos rituais comunitários atrelados à ética da responsabilidade e do convívio solidário – forma de linguagem que se evidencia quer pela força silenciosa da presença, quer ainda pelos pequenos gestos de bem-querer, refertos de eficácia simbólica.

 

J.A.R. – H.C.

 

Julia Kasdorf

(n. 1962)

 

What I learned from my mother

 

I learned from my mother how to love

the living, to have plenty of vases on hand

in case you have to rush to the hospital

with peonies cut from the lawn, black ants

still stuck to the buds. I learned to save jars

large enough to hold fruit salad for a whole

grieving household, to cube home-canned pears

and peaches, to slice through maroon grape skins

and flick out the sexual seeds with a knife point.

I learned to attend viewings even if I didn’t know

the deceased, to press the moist hands

of the living, to look in their eyes and offer

sympathy, as though I understood loss even then.

I learned that whatever we say means nothing,

what anyone will remember is that we came.

I learned to believe I had the power to ease

awful pains materially like an angel.

Like a doctor, I learned to create

from another’s suffering my own usefulness, and once

you know how to do this, you can never refuse.

To every house you enter, you must offer

healing: a chocolate cake you baked yourself,

the blessing of your voice, your chaste touch.

 

Colhendo flores

(Helen Galloway McNicoll: pintora canadense)

 

O que aprendi com minha mãe

 

Aprendi com minha mãe a como amar

os vivos, a ter muitos vasos à mão

para o caso de ter que correr ao hospital

com peônias cortadas à céspede, formigas negras

ainda agarradas aos botões. Aprendi a guardar frascos

grandes o suficiente para guardar salada de frutas

para toda uma família enlutada, a cortar peras e pêssegos

enlatados em cubos, a remover a pele granadina das uvas

para extrair as sementes sexuadas com a ponta de uma faca.

Aprendi a comparecer aos funerais mesmo sem conhecer

os falecidos, a apertar as mãos úmidas

dos vivos, a olhar em seus olhos e a lhes oferecer

compaixão, como se já nessa altura compreendesse a perda.

Aprendi que, digamos o que digamos, isso nada significa,

pois o que todos hão de recordar é que ali estivemos.

Aprendi a acreditar que, como um anjo, tinha o poder

de aliviar dores terríveis de modo palpável.

Como um médico, a partir do sofrimento alheio, aprendi

a consolidar o meu próprio préstimo, e uma vez que

se saiba como o fazer, já não se pode recusá-lo.

Em cada lar que entrares, deves oferecer

a cura: um bolo de chocolate que tu mesmo fizeste,

a bênção da tua voz, o teu toque casto.

 

Referência:

 

KASDORF, Julia. What I learned from my mother. In: KEILLOR, Garrison (Sel. & Intr.). Good poems. New York, NY: Penguin, 2003. p. 156.

sábado, 9 de maio de 2026

Robert Lowell - À venda

O poeta transforma um evento mundano – como uma casa colocada à venda – em eloquente metáfora do trauma que atinge toda a família, depois da morte de um de seus membros – o pai –, abalando os pilares que a sustentavam e deixando o cônjuge supérstite e o filho paralisados, numa estação emocional na qual a dor se alberga nos escaninhos de recordações ainda frescas, muitas delas porventura associadas a tensas relações familiares.

 

A casa torna-se, com efeito, símbolo do que se descarta em semelhantes contextos: na transição para o desalojamento, os objetos inanimados – a exemplo dos móveis – parecem estar mais “conscientes” da aspereza do processo, do que os entes que ali habitavam – v.g., a mãe do falante, tal qual uma passageira perdida no tempo, sem saber explicar como ali chegou, tampouco o que há de fazer agora, em meio aos temores do que lhe reserva a solidão da viuvez.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Lowell

(1917-1977)

 

For sale

 

Poor sheepish plaything

organized with prodigal animosity,

lived injust a year –

my Father’s cottage at Beverly Farms

was on the market the month he died.

Empty, open, intimate,

its town-house furniture

had an on tiptoe air

of waiting for the mover

on the heels of the undertaker.

Ready, afraid

of living alone till eighty,

Mother mooned in a window,

as ifshe had stayed on a train

one stop past her destination.

 

Mulher à janela

(Josef Israëls: pintor holandês)

 

À venda

 

Pobre brinquedo acanhado,

organizado com pródigos ressentimentos

– aqui vivi apenas um ano...

A casa de campo de meu pai em Beverly Farms

estava à venda um mês depois que ele morreu.

Vazia, aberta, íntima,

com sua mobília citadina,

tinha um ar de quem caminha na ponta dos pés

seguindo o corretor

à espera do inquilino.

Preparada, temerosa

de viver sozinha até os oitenta,

minha mãe numa janela

– como se tivesse permanecido no trem

uma parada além do seu destino...

 

Referência:

 

LOWELL, Robert. For sale / À venda. Tradução de Jorge Wanderley. In: WANDERLEY, Jorge (Seleção, tradução e notas). Antologia da nova poesia norte-americana. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1992. Em inglês: p. 234; em português: p. 235.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Paulo Henriques Britto - Elogio do Mal

Neste tríduo poético, Britto não faz exatamente a apologia da perversidade – como à primeira vista se poderia deduzir do título da composição –, mas sim da linguagem, enquanto força transgressora vocacionada à nomeação das coisas, a corromper ou violentar a realidade para nos salvar do vazio, num esforço de atribuição conceitual que, ferindo a pureza do mundo, nos é de algum modo “bendita” por nos obsequiar sentidos.

 

Trata-se, por conseguinte, de um panegírico à força criadora e invasiva da palavra, naquilo que se presta a impor significados a um mundo fragmentado, mudo e indiferente, ampliando-nos a consciência para além da percepção bruta: de nossas bocas, incisivas disposições; de nossas bocas, aquilo que nos define e que nos salva do nada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paulo Henriques Britto

(n. 1971)

 

Elogio do Mal

 

1

 

A uma certa distância

todas as formas são boas.

Em cada coisa, um desvão;

em cada desvão não há nada.

 

À mão direita, a explicação

perfeita das coisas. À esquerda,

a certeza do inútil de tudo.

Ter duas mãos é muito pouco.

 

Por isso, por isso os nomes,

os nomes que embebem o mundo,

e os verbos se fazem carne,

e os adjetivos bárbaros.

 

2

 

O mundo se gasta aos poucos.

A coisa se basta a si mesma,

mas não basta ao que pensa

um mundo atulhado de coisas

 

que se apagam sem pudor,

que se deixam dissipar

como quem não quer nada.

Existir é muito pouco.

 

Por isso, por isso os nomes,

os nomes se engastam nas coisas

e sugam o sangue de tudo

e sobrevivem ao bagaço

 

e negam a tudo o direito

de só durar o que é duro,

e roubam do mundo a paz

de não querer dizer nada.

 

3

 

Bendita a boca,

essa ferida funda e má.

 

O mal é banal

(Marlene Dumas: artista sul-africana)

 

Referência:

 

BRITTO, Paulo Henriques. Elogio do mal. In: __________. Liturgia da matéria: poesia. Rio de Janeiro, RJ: Civilização Brasileira, 1982. p. 49-50. (Coleção “Poesia Hoje”; v. 59)