Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 28 de junho de 2026

Joan Reventós i Carner - Os vivos precisam dos mortos

Eis aqui mais um poema a girar em torno da finitude humana, com o poeta catalão fazendo-nos ver que a memória e o testemunho dos que já partiram outorgam peso e sentido às nossas existências, explico-me melhor, tornando-nos mais conscientes de que a morte espelha o paradoxo de pertencermos a um todo perdurável – a saber, a humanidade e sua memória coletiva.

 

Com efeito, o ponto final está inscrito em nosso ser, em nossa biografia. Por isso temos a tendência de, quando chegamos à velhice, passarmos a medir a vida não em quantidade de anos pelos quais passamos, senão em termos do que nos marcou profundamente – as “feridas” –, num ato de contemplação ativa que aspira, com algum lustro antecipatório, a um diálogo franco com o eterno.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joan Reventós i Carner

(1927-2004)

 

Els vius necessitem els morts

 

Sàpigues i recorda tots els dies de la vida

que els vells escolten d’una altra manera,

perquè compten i pesen dels dies la ferida.

La vida breu no permet esperança llarga,

la natura disposa com a condició i norma

portar desplegats dins els gens de finitud.

El dubte de morir en mi o en altres sorts,

és la lluita entre finitud i infinitud.

Els vius continuem necessitant els morts.

 

Morte e Vida

(Gustave Klimt: pintor austríaco)

 

Os vivos precisam dos mortos

 

Saiba e lembre todos os dias da vida

que os velhos escutam de outra maneira,

porquanto comparam e pesam dos dias as feridas.

A vida breve não permite uma esperança longa,

a natureza dispõe como condição e norma

trazer desdobrados nos genes de finidade.

A dúvida de morrer em mim ou em outras sortes,

é a luta entre finidade e o infinito.

Os vivos continuam a precisar dos mortos.

 

Referência:

 

CARNER, Joan Reventós i. Els vius necessitem els morts / Os vivos precisam dos mortos. Tradução de Leopold Rodés i Garriga. In: __________. Els àngels no saben vetllar els morts / Os anjos não sabem velar os mortos. Edição bilíngue: Catalão x Português. Tradução de Leopold Rodés i Garriga. Introdução de Alfredo Bosi. 1. ed. São Paulo, SP: Paralaxe, 2008. Em catalão: p. 82; em português: p. 83.

sábado, 27 de junho de 2026

José Paulo Paes - Poética

Nestes quatro dísticos, Paes nos apresenta um manifesto pessoal, lapidado em numa declaração de princípios éticos e estéticos, no qual torna explícita a sua postura perante o mundo e o seu ofício, sempre comprometida com o bem comum, misto de honestidade existencial e de esperançosa resistência.

 

A exemplo de um poema-programa, esta “Poética” escora-se na solidariedade humana e na busca incansável de uma “ilha prometida” mais justa, mediante o emprego da palavra escrita como ferramenta conciliatória e como farol a orientar a jornada rumo ao aludido ideal.

 

Ademais, propõe o poeta e tradutor paulista que a poesia se comprometa com a clareza dos seus propósitos, vale dizer: (i) a denúncia da arbitrariedade e a solidariedade com os mais vulneráveis; (ii) a rejeição da posse egoísta e a exaltação do valor de uma vida compartilhada; (iii) e o rechaço da adoção dos papéis extremos de autoridade ou de vítima, ou seja, nem a superioridade moral, nem a falsa humildade que busca escusas, para assim se desincumbir de sua missão fora dos jogos binários de poder e das vias labirínticas da autojustificação.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Paulo Paes

(1926-1998)

 

Poética

 

Não sei palavras dúbias. Meu sermão

Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

 

Com duas mãos fraternas, cumplicio

A ilha prometida à proa do navio.

 

A posse é-me aventura sem sentido.

Só compreendo o pão se dividido.

 

Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.

Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

 

Em: “Cúmplices” (1951)

 

O lobo e o cordeiro:

ilustração para a fábula de La Fontaine

(Gustave Doré: gravurista francês)

 

Referência:

 

PAES, José Paulo. Poética. In: __________. Melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção de Davi Arrigucci Jr. 3. ed. São Paulo, SP: Global, 2000. p. 103. (Série “Melhores Poemas”; v. 37)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Edna St. Vincent Millay - Se ficasse sabendo, de um modo bastante casual

Ler notícias triviais, como conselhos de moda e de cuidados pessoais, ao mesmo tempo que se esconde uma dor profunda – como a do trágico falecimento de um ente querido –, mostra como a sociedade, com alguma frequência, impõe-nos um código de aparências – v.g., como devemos nos comportar em público –, exigindo-nos normalidade de comportamento, ainda que estejamos destroçados por dentro.

 

Há certa ironia no contexto em que a falante toma conhecimento do acidente fatal com alguém que lhe é próximo, ou seja, ao ler sobre o fato em nota fúnebre na contracapa de um jornal alheio, dentro de um trem do metrô, o que enfatiza a banalidade de tal tragédia no contexto maior de notícias abarcado por um periódico, em linha com a natureza fragmentada e despersonalizada das informações que o compõem – como se a própria estrutura da notícia ditasse a consequente frieza de sua recepção.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edna St. Vincent Millay

(1892-1950)

 

If I should learn, in some quite casual way

 

If I should learn, in some quite casual way,

That you were gone, not to return again –

Read from the back-page of a paper, say,

Held by a neighbor in a subway train,

How at the corner of this avenue

And such a street (so are the papers filled)

A hurrying man – who happened to be you –

At noon to-day had happened to be killed,

I should not cry aloud – I could not cry

Aloud, or wring my hands in such a place –

I should but watch the station lights rush by

With a more careful interest on my face,

Or raise my eyes and read with greater care

Where to store furs and how to treat the hair.

 

Morte na Enfermaria

(Edvard Munch: pintor norueguês)

 

Se ficasse sabendo, de um modo bastante casual

 

Se ficasse sabendo, de um modo bastante casual,

Que te foste, para não mais voltar –

Ao ler, digamos, na contracapa de um jornal

Folheado por um vizinho num dos trens do metrô,

Como na esquina desta avenida

Numa rua que tal (assim se deitam recheios aos jornais)

Um homem apressado – que por acaso eras tu –

Ao meio-dia de hoje foi morto por acaso,

Eu não deveria chorar a gritos, não poderia chorar

A gritos, nem torcer as mãos em semelhante lugar.

Apenas observaria as luzes da estação a passar velozes

Com um interesse mais apurado em meu semblante,

Ou ergueria os olhos e leria com mais atenção

Onde se guardam as peles e como se trata o cabelo.

 

Referência:

 

MILLAY, Edna St. Vincent. If I should learn, in some quite casual way. In: __________. Selected poems of Edna St. Vincent Millay: an annotaded edition. Edited by Timothy F. Jackson, with an introduction by Holly Peppe. New Haven, CT: Yale University Press, 2016. p. 20.

quinta-feira, 25 de junho de 2026

Mina Loy - Cilindros Humanos

Desde o título, já se pode ter uma ideia do que a poetisa inglesa esgaravateia nestes versos, numa elocução fragmentada e desafiadora: a essência alienada e frustrada da condição humana na sociedade contemporânea, reverberada num grito contra a mecanização do espírito, a perda de conexões autênticas e os perigos de se reduzir a complexidade do ser e do universo a perspectivas simplistas.

 

São particularmente perceptíveis as incursões sobre os temas do revés da linguagem e da comunicação para nos aproximar de um modo saudável – tanto mais porque enredados nos ardis da autoconsciência –, bem assim o do vazio existencial, que nos atira num sem-sentido crepuscular, atônitos entre as molas do desejo de uma regressão ao plano animal e a aspiração a algo mais além do meramente mundano – transcendente, intuitivo, cósmico.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mina Loy

(1882-1966)

 

Human Cylinders

 

The human cylinders

Revolving in the enervating dusk

That wraps each closer in the mystery

Of singularity

Among the litter of a sunless afternoon

Having eaten without tasting

Talked without communion

And at least two of us

Loved a very little

Without seeking

To know if our two miseries

In the lucid rush-together of automatons

Could form one opulent wellbeing

 

Simplifications of men

In the enervating dusk

Your indistinctness

Serves me the core of the kernel of you

When in the frenzied reaching out of intellect to intellect

Leaning brow to brow     communicative

Over the abyss of the potential

Concordance of respiration

Shames

Absence of corresponding between the verbal sensory

And reciprocity

Of conception

And expression

Where each extrudes beyond the tangible

One thin pale trail of speculation

From among us we have sent out

Into the enervating dusk

One little whining beast

Whose longing

Is to slink back to antediluvian burrow

And one elastic tentacle of intuition

To quiver among the stars

 

The impartiality of the absolute

Routs     the polemic

Or which of us

Would not

Receiving the holy-ghost

Catch it     and caging

Lose it

Or in the problematic

Destroy the Universe

With a solution

 

(Imagem sem créditos)

 

Cilindros Humanos

 

Os cilindros humanos

Revolvendo-se no ocaso enervante

Que os aconchega no mistério

Da singularidade

Em meio ao lixo de uma tarde sem sol

Tendo comido sem saborear

Falado sem comungar

E ao menos dois de nós

Amamos minimamente

Sem procurar

Saber se nossas duas misérias

No afã-encontro lúcido de autômatos

Poderiam formar um bem-estar opulento

 

Simplificações de homens

No ocaso enervante

Sua indistinção

Me serve o colo do caroço de você

Quando no frenético lançar-se de intelecto a intelecto

Juntando fronte a fronte     comunicativos

Sobre o abismo do potencial

Concordância de respiração

Vergonhas

Ausência de correlação entre o sensorial verbal

E reciprocidade

De concepção

E expressão

Onde cada um excreta além do tangível

Um rastro fino e frágil de especulação

Dentre nós enviamos

Ao ocaso enervante

Uma pequena besta queixosa

Que anseia

Por volver à toca antediluviana

E um tentáculo elástico de intuição

Para fremir entre as estrelas

 

A imparcialidade do absoluto

Rechaça     a polêmica

Ou qual de nós

Não iria

Ao receber o espírito santo

Apanhá-lo     e engaiolando

Perdê-lo

Ou na problemática

Destruir o Universo

Com uma solução

 

Referência:

 

LOY, Mina. Human cylinders / Cilindros humanos. Tradução de Maíra Mendes Galvão. In: MENDONÇA, Vanderley (Ed.). Lira argenta: poesia em tradução. Edição bilíngue. São Paulo, SP: Selo Demônio Negro, 2017. Em inglês: p. 206 e 208; em português: p. 207 e 209.

quarta-feira, 24 de junho de 2026

Affonso Romano de Sant’Anna - Vida artística

Neste breve poema, o escritor mineiro, empregando a metáfora de uma escalada, oferece-nos uma crítica mordaz e desencantada sobre a dinâmica perversa de inveja, sabotagem e vazio que, quase invariavelmente, domina o mundo da arte (além de outros âmbitos competitivos, é claro!).

 

Sant’Anna censura a falta de solidariedade no domínio em questão, bem assim a transformação do ascenso profissional em uma degradação ética, ou melhor, uma pugna individualista de baixas paixões, em cujos dédalos a maior conquista não é a excelência da criação, senão haver escapado – ainda que temporariamente – da destruição propinada pelos próprios pares.

 

Tal é o preço do êxito na seara artística: um triunfo oco e amargo, conquistado à custa da integridade e sob a constante ameaça de vir a ser derrubado. Em suma: por trás da ideia romântica ou idealizada da vida de um artista, o que há, de fato, é uma luta darwiniana por sobrevivência, na qual prevalece a lei do mais forte ou do mais desapiedado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Affonso Romano de Sant’Anna

(1937-2025)

 

Vida artística

 

Queriam escalar a montanha

como quem fugisse de um afogamento.

Mas ao invés de oferecerem os ombros

para que os pés dos outros se elevassem

puxavam para baixo tentando impedir

que os demais galgassem.

 

Assim a escalada para cima

era para baixo uma escalada

e os que chegavam ao topo

ao invés de se extasiarem com as alturas

e a beleza dos lugares

rejubilavam-se, por algum tempo

de não terem sido ainda destruídos por seus pares.

 

(Imagem sem créditos)

 

Referência:

 

SANT’ANNA, Affonso Romano de. Vida artística. Fórnix: revista de creación y crítica. Edición bilingüe: Portugués x Español. Lima (PE): Editorial Nido de Cuervos, n. 13, oct. 2013. p. 10. (“Brasil en el II Fiplima”)