Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 16 de agosto de 2026

José Saramago - Ouvindo Beethoven

Neste poema com matizes proponentes de resistência ao autoritarismo, à censura e à desumanização, Saramago, por meio da simples escuta de uma sinfonia de Beethoven, anuncia a certeza da queda dos regimes opressores – a exemplo daquele que vigeu em seu Portugal natal por mais de meio século –, com supedâneo na resiliência do espírito humano.

 

É que a arte tem o poder de nos transformar e libertar de amarras, reforçando-nos o ânimo e oferecendo-nos refúgio, e usufruí-la pode se tornar um ato revolucionário e uma afirmação de que a beleza, o gênio individual e a liberdade de espírito são forças que não se deixam enclausurar por quaisquer formas de repressão ou de controle totalitário do Estado.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Saramago

(1922-2010)

 

Ouvindo Beethoven

 

Venham leis e homens de balanças,

Mandamentos daquém e dalém mundo,

Venham ordens, decretos e vinganças,

Desça o juiz em nós até ao fundo.

 

Nos cruzamentos todos da cidade,

Brilhe, vermelha, a luz inquisidora,

Risquem no chão os dentes da vaidade

E mandem que os lavemos a vassoura.

 

A quantas mãos existam, peçam dedos,

Para sujar nas fichas dos arquivos,

Não respeitem mistérios nem segredos,

Que é natural nos homens serem esquivos.

 

Ponham livros de ponto em toda a parte,

Relógios a marcar a hora exacta,

Não aceitem nem votem outra arte

Que a prosa de registo, o verso data.

 

Mas quando nos julgarem bem seguros,

Cercados de bastões e fortalezas,

Hão-de cair em estrondo os altos muros

E chegará o dia das surpresas.

 

A Liberdade Guiando o Povo

(Eugène Delacroix: pintor francês)

 

Referência:

 

SARAMAGO, José. Ouvindo Beethoven. In: __________. Os poemas possíveis: poesia. 5. ed. Lisboa, PT: Editorial Caminho, abr. 1999. p. 75. (Coleção “O Campo da Palavra”)

sábado, 15 de agosto de 2026

Nicanor Parra - XLI: Tudo se pode provar com a Bíblia

Parra, naquele seu estilo antagônico ao da poesia tradicional – afinal, é um dos mentores da “antipoesia” – descerra uma crítica, ao mesmo tempo mordaz e irônica, ao uso dogmático dos textos sagrados, a Bíblia em particular.

 

Os versos, como pode ratificar o leitor, são dessacralizadores, diretos e carregados de um humor negro, com o claro propósito de desmontar verdades absolutas: nele, o ceticismo vai a par com a censura ao fanatismo e a má-fé interpretativa, neste caso, quando se altera o significado, corrompendo o texto original para que se encaixe em uma agenda preconcebida.

 

A imagística empregada pelo poeta chileno – uma galinha submetida a esquartejamento – tudo diz: a interpretação fora dos eixos – “viciada” talvez fosse um adjetivo melhor – assemelha-se a uma carnificina, pois em seu curso, despedaça-se o conteúdo bíblico para dele se extrair apenas as partes que interessam ao expositor, ignorando-lhe o contexto, a totalidade e o espírito.

 

O giro final do poema parece dizer que tais impropriedades convertem o debate teológico numa discussão bizantina, trivializando-o, como se fosse apenas uma escusa dos conferentes para se entregarem aos prazeres da bebida.

 

Em suma, Parra nos adverte: desconfiem de quem afirma possuir a verdade única fundamentada em um texto, porque muito provavelmente a está manipulando, haja vista que ela não se encontra pela via do esquartejamento da mensagem, mas buscando compreendê-la em sua complexidade e contradições.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nicanor Parra

(1914-2018)

 

XLI

 

Todo puede probarse con la Biblia

por ejemplo que Dios no existe

por ejemplo que el Diablo manda más

por ejemplo que Dios

es masculino y femenino a la vez

o que la Virgen era liviana de cascos

basta con conocer un poco el hebreo

para poder leerla en el original

e interpretarla como debe ser

es cuestión de análisis lógico

 

Tienen razón los amigos escépticos

todo puede probarse con la Biblia

es cuestión de saberla barajar

es cuestión de saberla adulterar

es cuestión de saberla descuartizar

como quien descuartiza una gallina:

¡pongan otra docena de cervezas!

 

En: “Nuevos sermones y prédicas

del Cristo de Elqui” (1979)

 

Um Velho Lendo

(Hendrick Bloemaert: pintor holandês)

 

XLI

 

Tudo se pode provar com a Bíblia

por exemplo que Deus não existe

por exemplo que o Diabo manda mais

por exemplo que Deus

é masculino e feminino ao mesmo tempo

ou que a Virgem era uma mulher licenciosa

basta conhecer um pouco de hebraico

para poder lê-la no original

e interpretá-la como deve ser

é questão de análise lógica

 

Têm razão os amigos céticos

tudo se pode provar com a Bíblia

é questão de sabê-la embaralhar

é questão de sabê-la adulterar

é questão de sabê-la esquartejar

como quem esquarteja uma galinha:

tragam mais uma dúzia de cervejas!

 

Em: “Novos sermões e prédicas

do Cristo de Elqui” (1979)

 

Referência:

 

PARRA, Nicanor. XLI: Todo puede probarse con la Biblia. In: __________. Parranda larga: antología poética. Selección de textos y prólogo de Elvio E. Gandolfo. 1. ed. Santiago, CL: Alfaguara, mar. 2010. p. 310.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

W. B. Yeats - A deserção dos animais do circo

Num tom sobranceiramente autorreflexivo, Yeats apresenta-nos nestes versos uma espécie de testamento poético, num olhar retrospectivo e desencantado sobre a sua própria carreira de escritor e o correspondente processo de criação, agora marcado por uma sensação de esgotamento e de regresso forçoso às cruas realidades da vida.

 

Redigido pouco antes do falecimento do poeta já em idade avançada – aos 73 anos –, o poema revela Yeats a desmontar o seu próprio circo, fazendo alusões à engenhosa maquinaria por trás dos “animais do circo” – símbolos, mitos, personagens arquetípicos e temas elaborados – que povoaram as suas criações ao longo de décadas.

 

Obviamente que não se trata de um rechaço da sua obra, senão uma aceitação melancólica de sua origem, vale dizer, induzida pelos detritos de rua e refugos da experiência bruta: a seu ver, com efeito, a matéria-prima da arte não seria exatamente nobre, mas toda a miséria emocional e confusão que se passa numa vida humana – memória, trauma, ciúme, desejo não realizado, raiva, até mesmo luxúria.

 

Destarte, a escada metafórica que lhe permitia subir acima dessa miséria e criar beleza – a imaginação e os amplos recursos da arte da palavra – são águas passadas: os “animais” o abandonaram por deserção, forçando o poeta a entrar em acordo com a único recurso que lhe resta – o coração –, essa “nauseante loja de ossos e trapos” da emoção.

 

J.A.R. – H.C.

 

W. B. Yeats

(1865-1939)

 

The circus animals’ desertion

 

1

 

I sought a theme and sought for it in vain,

I sought it daily for six weeks or so.

Maybe at last being but a broken man

I must be satisfied with my heart, although

Winter and summer till old age began

My circus animals were all on show,

Those stilted boys, that burnished chariot,

Lion and woman and the Lord knows what.

 

2

 

What can I but enumerate old themes,

First that sea-rider Oisin led by the nose

Through three enchanted islands, allegorical dreams,

Vain gaiety, vain battle, vain repose,

Themes of the embittered heart, or so it seems,

That might adorn old songs or courtly shows;

But what cared I that set him on to ride,

I, starved for the bosom of his fairy bride.

 

And then a counter-truth filled out its play,

The Countess Cathleen was the name I gave it,

She, pity-crazed, had given her soul away

But masterful Heaven had intervened to save it.

I thought my dear must her own soul destroy

So did fanaticism and hate enslave it,

And this brought forth a dream and soon enough

This dream itself had all my thought and love.

 

And when the Fool and Blind Man stole the bread

Cuchulain fought the ungovernable sea;

Heart mysteries there, and yet when all is said

It was the dream itself enchanted me:

Character isolated by a deed

To engross the present and dominate memory.

Players and painted stage took all my love

And not those things that they were emblems of.

 

3

 

Those masterful images because complete

Grew in pure mind but out of what began?

A mound of refuse or the sweepings of a street,

Old kettles, old bottles, and a broken can,

Old iron, old bones, old rags, that raving slut

Who keeps the till. Now that my ladder’s gone

I must lie down where all the ladders start

In the foul rag and bone shop of the heart.

 

Estratagemas do Espírito

Série “A deserção dos animais do circo”

(Dianne Blell: artista norte-americana)

 

A deserção dos animais do circo

 

1

 

Busquei um tema que não foi achado;

Por seis semanas procurei, ou mais.

Talvez eu pare enfim, velho e alquebrado,

Mesmo sabendo que meus animais,

Verão e inverno, até chegar a idade,

Tenham estado todos em cartaz:

Jovens pomposos, reluzente biga,

O leão e a mulher, e Deus que o diga. (1)

 

2

 

Que mais que velhos temas lembraria?

Primeiro Oisín, levado de roldão (2)

Por ilhas e visões de alegoria,

Prazer vão, luta vã, repouso vão,

Temas do amargo coração, diria,

Próprios de verso antigo e cortesão;

Mas que importava a mim que o pus na estrada

E só queria o peito de sua amada?

 

E A Condessa Cathleen desponta agora

Com a contraverdade a encher a peça; (3)

Louca de pena, joga sua alma fora,

Embora o Céu imperioso o impeça.

Com todo o fanatismo que a devora,

Julguei meu bem capaz de ação como essa,

E isso gerou um sonho e, de repente,

Ocupou-me tal sonho o amor e a mente.

 

E quando o pão roubaram Cego e Idiota, (4)

Cuchulain combateu o mar medonho;

Mistérios que há no coração; de fato

Encantou-me, porém, o próprio sonho:

Um caráter marcado por um ato

Que ergue o presente e que a memória ganha.

Palcos e atores foram meus problemas,

Não as coisas de que eram os emblemas.

 

3

 

Se a imagem imperiosa, em si completa,

Cresce na mente, de onde é originada?

De rua suja e monte de detrito,

Lata velha, chaleira arrebentada,

Ferro, ossos, trapos, a rampeira abjeta

A controlar a caixa. Sem a escada,

Fico onde toda escada sai do chão,

Na loja de osso e trapo da emoção.

 

Notas do Tradutor (Paulo Vizioli):

 

(1). Entre os antigos temas do poeta, “os animais do circo” fugitivos, recorda ele os heróis gaélicos que recriou nas primeiras obras (“jovens pomposos”), a biga reluzente de Cuchulain (pronuncia-se cuhúlin), e a esfinge (“o leão e a mulher”) que aparece em vários poemas, como “Against unworthy praise” e “The double vision of Michael Robartes”. (YEATS, 1992, p. 152)

 

(2). Primeiro Oisín: a história de Oísin (pronuncia-se uchín) foi resumida no início da Introdução. (YEATS, 1992, p. 153)

 

(3). A Condessa Cathleen: essa peça oferece a “contraverdade” porque, em lugar de narrar a busca da satisfação íntima como em Oisín, mostra o caminho da renúncia, com a história de uma condessa que oferece a alma ao diabo para salvar o seu povo da fome. O céu, no final, impede o sacrifício. (YEATS, 1992, p. 153)

 

(4). Cego e Idiota: duas personagens da peça On Baile’s Strand, a mesma em que Cuchulain morre lutando contra o mar. (YEATS, 1992, p. 153)

 

Referência:

 

YEATS, W. B. The circus animals’ desertion / A deserção dos animais do circo. Tradução de Paulo Viozioli. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de Paulo Vizioli. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1992. Em inglês: p. 140 e 142; em português: p. 141 e 143.

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

José Nunes de Sousa - Mário de Sá-Carneiro

Nesta sinfonia em prosa, Nunes presta homenagem póstuma ao seu compatriota, o também poeta Mário de Sá-Carneiro – morto muito jovem, por suicídio, na cidade de Paris (FR) –, transmutando o seu trágico passamento em um triunfo metafísico e consagrando a sua obra como a imorredoura manifestação de uma alma demasiado intensa para um mundo preso à materialidade das coisas.

 

O texto, como poderá ratificar o leitor por si próprio, é carregado de metáforas sensoriais – som, luz, cor – e contrastes entre as realidades tangível e intangível, num tom reverencial e encomiástico a ressaltar o fato de que a morte de Sá-Carneiro teria tido o condão de obsequiar o reconhecimento à obra que, até aquele desenlace, levara a efeito, fazendo-lhe justiça – ainda que tardia.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Nunes de Sousa

(1848-1924)

 

Mário de Sá-Carneiro

 

Sentir, ser a Alma a lira onde o sentimento dedilha em vagos Sons-harmonia as Tristezas-moles ou o Ideal-luz; fazer das diversas combinações dum alfabeto palavras-pensamentos, orações-melodias; ser-se escritor na forma, mas músico na alma; cantar em estrofes-oiro a Poesia-Ideal, eis o que é Mário de Sá-Carneiro.

A sua forma tombou. Foi a enterrar-se por uma dessas manhãs loiras de Paris.

A Alma essa triunfou-se. Habita em tudo que tem som, em tudo quanto canta. Matou-se mas não foi um vencido, venceu-se. A música não é a partitura onde figuram as notas, é as mil e uma vibrações que, como chuva de oiro, nos embriagam os sentidos, nos fremem a alma.

Esse moderno Gigante talhado em colorações perturbadoras, quis ser coerente até na morte.

Quando o Artista, em arroubos de luz, proclamava do alto do seu Ideal que a morte era a libertação dessa coisa mesquinha, a matéria, algumas vezes, risos sem cor, respondiam às suas palavras. AH! como esses mesmos, como esses cérebros sem substância, devem hoje reconhecer o seu erro!

E quem sabe (?), nem talvez que o arrependimento tivesse vindo até eles.

Para muitos, o arrepender-se é já uma manifestação da alma, e duvido que eles a tenham.

A sua voluntária morte não foi só coerência. Mário estava demasiadamente acima dos que lhe chamavam doido, para que pretendesse responder-lhes com os factos.

Desgraçadamente foi preciso que Mário de Sá-Carneiro transpusesse o portal para além do qual tudo é Mistério, para que se lhe fizesse justiça, para que ao reduzido número dos seus admiradores de sempre, se viesse juntar o culto dos que só tiveram lábios para sorrir.

Mário foi logo de princípio um requintado Cantor das Melodias da Alma.

A sua obra aí está a atestar o seu Génio. Nada dele se compreenderá se o não soubermos sentir. Ele está tão estreitamente ligado às suas produções que, em cada verso, em cada bocado da sua prosa quente de Ideal, está preso um farrapo da sua Alma.

Se lerdes toda a sua Obra, se o souberdes interpretar, à medida que a fordes passando em revista, haveis de sentir, como eu sinto e como um sonho vago e doirado, os costumes do seu espírito de músico, dando vida, aos poucos, àqueles caracteres negros que a mão, hoje inerte, traçou.

É a Alma do Mário que, como sempre, se levanta em fé na sua Obra e nos vem murmurar, muito de manso, sinfonias da luz, cânticos de irreal.

A Alma de Sá-Carneiro, é o cadinho onde a vida prosaica e material se destila em centelhas de Poesia e de Sentimento.

Os seus livros foram aqui lidos.

Ao contacto dos nossos corações inda exuberantes desse fogo mourisco, que nos circula nas artérias, as nossas almas vibraram em uníssono com a do grande Artista, o perfume antigo das suas estrofes acordaram os ecos do nosso sentimento e então, um punhado de modestos artistas pela Alma, juntou-se à volta do Astro-Rei para melhor poder receber o calor que brota de lá a jorros.

Balbuciámos a princípio não porque tivéssemos receio das opiniões da outra gente, mas sim porque o nosso culto pela Obra de Sá-Carneiro, embora grande, não tinha ainda atingido a maturação necessária, porque a Lua que dela irradia, era demasiadamente intensa para nós, pobres espíritos, pouco afectos às colorações astrais.

Ao traçar estas desconchavadas linhas, as ensaiar estes hesitantes passos arreceio-me tanto de nada dizer do Mestre que me fenece a coragem para continuar. As nossas almas só sabem curvar-se humildes e respeitosas perante essa Outra que é tão Grande, tão Ideal e tão Nobre que só ao de leve a compreendemos.

O nosso respeito pelo querido Morto é tão concreto, que só nos é dado ajoelhar ante a sua sepultura e reter no coração o fogo irreal que ela nos emprestou.

 

Faro, 18-2-1917.

 

Mário de Sá-Carneiro

(1890-1916)

 

Referência:

 

NUNES DE SOUSA, José. Mário de Sá-Carneiro. In: JÚDICE, Nuno (Seleção e Prefácio). Poesia futurista portuguesa. 2. ed. Lisboa, PT: Vega Edições, 1993. p. 131-133. (Coleção “O chão da palavra / Poesia”)