Sena ironiza amargamente
o modo como o futuro – as gerações vindouras – tende a mitificar o passado,
como se fosse uma “Era dourada”, eliminando seus aspectos traumáticos com o
objetivo de construir uma narrativa nostálgica e reconfortante, o que, em
última instância, resulta numa ilusão retrospectiva.
O poeta busca
denunciar a propensão que o futuro tem em optar pelo sonho, em vez de se pautar
pela crua verdade dos fatos, vale dizer, a dor concreta, a injustiça, a
violência política e a luta diária, sistematicamente apagadas ou reduzidas a
uma vaga “melancolia” estética.
Não a “Idade de Ouro”,
senão a da atrocidade, do desespero e do caos – bem mais a assemelhar-se ao inferno.
E não exatamente uma ode celebratória, mas uma acerba elegia e uma advertência
àqueles que preferem construir legendas romantizadas do passado a custo da
realidade histórica.
J.A.R. – H.C.
Jorge de Sena
(1919-1978)
Ode para o Futuro
Falareis de nós como
de um sonho.
Crepúsculo dourado.
Frases calmas.
Gestos vagarosos.
Música suave.
Pensamento arguto.
Subtis sorrisos.
Paisagens deslizando
na distância.
Éramos livres.
Falávamos, sabíamos,
e amávamos serena e
docemente.
Uma angústia delida,
melancólica,
sobre ela sonhareis.
E as tempestades, as
desordens, gritos,
violência, escárnio, confusão
odienta,
primaveras morrendo
ignoradas
nas encostas
vizinhas, as prisões,
as mortes, o amor
vendido,
as lágrimas e as
lutas,
o desespero da vida
que nos roubam
– apenas uma angústia
melancólica,
sobre a qual
sonhareis a idade de oiro.
E, em segredo,
saudosos, enlevados,
falareis de nós – de
nós! – como de um sonho.
Em: “Pedra Filosofal”
(1950)
Os três juízes
(Sergei Aramisovich
Essaian: pintor russo)
Referência:
SENA, Jorge de. Ode para o futuro. In: Mãe, Valter Hugo (Selecção e Organização). O futuro em anos-luz: antologia de poesia portuguesa. Porto, PT: Edições Quasi, 2001. p. 50.
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