Lorde nos apresenta um
retrato implacável da violência racial nos EUA, muitas vezes levada à frente
por um poder institucional corrupto, a expor a classe menos privilegiada de
cidadãos – os oprimidos de toda classe – a ameaças psicológicas e, sobretudo,
físicas, justificadas pela via de uma retórica mendaz.
A poetisa, sendo negra,
reconhece a raiva e a dor acumuladas, mas procura não se entregar à tentação do
ódio e da violência como resposta, uma vez que perpetuaria o ciclo. Em vez
disso, busca canalizá-las em direção a um poder autêntico, ético e transformador,
usando a própria voz – a poesia, em especial – para encontrar ou criar um oásis
de equidade e de humanidade compartilhada.
Há que ser um
exercício de poder coletivo, solidário e responsável perante os próprios
oprimidos, íntegro o bastante para recusar quaisquer formas de colaboração com
o sistema, tentando não apenas inverter os papéis de poder dentro desse jogo
abastardado, senão denunciar e desmontar as infames estruturas de jugo –
racismo, sexismo, injustiças.
J.A.R. – H.C.
Audre Lorde
(1934-1992)
Power
The difference
between poetry and rhetoric
is being
ready to kill
yourself
instead of your
children.
I am trapped on a
desert of raw gunshot wounds
and a dead child
dragging his shattered black
face off the edge of
my sleep
blood from his
punctured cheeks and shoulders
is the only liquid
for miles and my stomach
churns at the
imagined taste while
my mouth splits into
dry lips
without loyalty or
reason
thirsting for the
wetness of his blood
as it sinks into the
whiteness
of the desert where I
am lost
without imagery or
magic
trying to make power
out of hatred and destruction
trying to heal my
dying son with kisses
only the sun will
bleach his bones quicker.
The policeman who
shot down a 10-year-old in Queens
stood over the boy
with his cop shoes in childish blood
and a voice said “Die
you little motherfucker” and
there are tapes to
prove it. At his trial
this policeman said
in his own defense
“I didn’t notice the
size nor nothing else
only the color”. And
there are tapes to
prove that, too.
Today that 37-year-old
white man with 13 years
of police forcing
has been set free
by 11 white men who
said they were satisfied
justice had been done
and one Black Woman
who said
“They convinced me”
meaning
they had dragged her
4’10” black Woman’s frame
over the hot coals of
four centuries
of white male
approval
until she let go the
first real power she ever had
and lined her own
womb with cement
to make a graveyard
for our children.
I have not been able
to touch the destruction
within me.
But unless I learn to
use
the difference
between poetry and rhetoric
my power too will run
corrupt as poisonous mold
or lie limp and
useless as an unconnected wire
and one day I will
take my teenaged plug
and connect it to the
nearest socket
raping an 85 year old
white woman
who is somebody’s
mother
and as I beat her
senseless and set a torch to her bed
a greek chorus will
be singing in 3/4 time
“Poor thing. She
never hurt a soul. What beasts
they are.”
Mulher com criança
morta
(Käthe Kollwitz:
artista alemã)
Poder
A diferença entre
poesia e retórica
é estar pronta para
matar
a si mesma
em vez de seus
filhos.
Estou perdida num
deserto de feridas frescas à bala
e uma criança morta
arrasta seu negro e estilhaçado
rosto até os limites
do meu sonho
o sangue de suas
bochechas e ombros perfurados
é o único líquido em
quilômetros e meu estômago
se revira ao imaginar
o gosto enquanto
minha boca de lábios
secos rachados
sem lealdade ou razão
sedenta pela umidade
do sangue dele
enquanto se afunda na
brancura
do deserto onde estou
perdida
sem imagens ou magia
tentando criar poder
a partir do ódio e da destruição
tentando curar meu
filho moribundo com beijos
só o sol vai clarear
seus ossos mais rápido.
O policial que atirou
numa criança de 10 ano
no Queens
ficou de pé diante do
menino com seus coturnos
no sangue infantil
e uma voz disse
“morre seu pequeno filho da puta” e
há gravações que
provam isso. No julgamento dele
esse policial disse
que foi legítima defesa
“Eu não percebi o
tamanho nem nada mais
só a cor.” E
há gravações que
provam isso também.
Hoje aquele homem
branco de 37 anos
há 13 na força
policial
foi posto em
liberdade
por 11 homens brancos
que disseram estar satisfeitos
a justiça foi feita
e uma mulher negra
que disse
"Eles me
convenceram” querendo dizer
que eles arrastaram
sua figura 1,50m de mulher negra
sobre os carvões em
brasa de 400 anos de aprovação
do homem branco
até ela abrir mão do
primeiro poder de verdade
que já teve
e revestir seu útero
com concreto
para fazer um
cemitério para os nossos filhos.
Eu não tenho sido
capaz de tocar a destruição
dentro de mim.
Mas a menos que eu
aprenda a usar
a diferença entre
poesia e retórica
meu poder também será
corrompido como
um fungo venenoso
ou irá prostrar-se
debilitado e inútil como
um fio desconectado
e um dia pegarei meu
aparelho antigo
e o ligarei na tomada
mais próxima
estuprando uma mulher
branca de 85 anos
que é a mãe de alguém
enquanto a espanco
até que desfaleça e ponha fogo
na cama dela
um coro grego estará
cantando no compasso 3/4
“Coitadinha. Ela
nunca machucou ninguém.
Eles são uns animais.”
Referência:
LORDE, Audre. Power /
Poder. Tradução de Stephanie Borges. In: __________. A unicórnia preta:
poemas. Tradução de Stephanie Borges. Prefácio de Jess Oliveira. 1. ed. Belo
Horizonte, MG: Relicário Edições, 2020. Em inglês: p. 256, 258 e 260; em
português: p. 257, 259 e 261.
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