A associar-se, pelo
título, a um dos afrescos de Ambrogio Lorenzetti (1290-1348) no “Palazzo
Comunale” de Siena, na Itália, a intitulada obra de Nejar oferece ao leitor uma
acerba crítica política, concatenada a refinadas reflexões sobre a morte, o fluxo
do tempo e a condição humana, mediada, em seu conjunto, por uma alegoria de “governança
dos mortos” – bem mais lúcida e justa aos olhos do poeta, sobretudo quando em comparação
ao império dos vivos, onde o caos e a corrupção parecem ser a regra.
Compõe-se a recolha
de tercetos plasmados numa linguagem densa, simbólica, por vezes erudita,
repleta de referências históricas, literárias e filosóficas – de Sêneca a
Dante, de Shakespeare a Neruda –, a desvelar as muitas feridas do Brasil e da
humanidade, em cujo bojo assoma, axiomática e categórica, a poesia como um
espaço de resistência talhado para desenterrar verdades, tecer redes de
solidariedade e semear esperanças. Ou por outra: a palavra poética como arma
numa trincheira contra a opressão, o olvido e a degradação ética.
O excerto, que ora se
obsequia ao leitor, canta loas aos poetas universais, num intertexto com a tradição
que não se limita a apenas citar grandes nomes da cosmologia poética, mas
também a associá-los a detalhes, ações ou imagens que lhes digam respeito, com
o nítido objetivo de ressaltar que a arte – e muito particularmente a que
milita no chamado “reino das palavras” – não consiste em algo alheio às
realidades de poder e de hierarquia que permeiam a sociedade.
J.A.R. – H.C.
Carlos Nejar
(n. 1939)
Tratado de bom governo
(Excerto)
E vi formarem um
corso
Inefável de poetas.
Tal como no pampa o
osso
Que aos jogadores
entesta.
Dante, Camões
Ariosto,
Ovídio – longe do
exílio.
Virgílio, campônio
ajeita
A sua roça de
esquilos
E trigos para uma
festa.
Ponge, infante funâmbulo.
Tendo à boca
trompete,
Ezra Pound. Sobre a
mão,
Incandescido falcão.
François Villon no
cilício,
Abstinências se
repete.
Do assassinato e do
vicio,
Livre. Sem nenhum
jumento,
Francis Jammes se
molha
De manhãs entre
chicórias.
Parras com tesoura poda.
E Hugo, de vista
equórea,
Com Castro Alves na
bruma
Discute versos e toda
História que se
despluma.
Poe, Baudelaire,
Valéry –
Que cofia seu bigode –
Pondo seixos no
bodoque
Miram árvores, guris.
E é neles que pousam
aves.
E Saint-Perse com
luneta
Contempla Alexis
Léger,
Como um mandarim que
crê
listar num outro
planeta.
Com pés da noite
acode
C) bom Vallejo, pão
Enorme, dorme, dorme.
E Walt Whitman sorve
Américas, Arão
De amêndoas barbas
jovens.
Lautréamont leva um
carão
De Michaux por se
entreter
Como um algoz da
criação.
Auden com Shakespeare
Inseparáveis no ir
E vir. E Yeats a
gastar
Nos tapetes de ar
Seus sapatos de frio
Zombando deste estio
Nevado. Kierkegaard
Com temor e tremor
Se esquece deste
rombo
Que às vezes faz o
amor
Entre vilões e bobos.
Marianne Moore em xis
Escreve: “Não poesia,
Este objeto verbal
De vitrine e vasilha.”
Prefiro a que perfaz
Das coisas a sextina
E da sextina o caos.
E do caos armadilha
Para prender o mar
E ele, de amor,
servi-la.
Neruda entra no trem
De seu pai
ferroviário,
Vê que há vagões, mas
sem
Locomotiva e horário.
Pessoa com pés
videiras,
Correspondente de
vinho
Prepara barris na
feira.
Rilke, hierático, com
mechas
De lírios, fundas
olheiras,
Urde elegias de limo.
Uma rosa com
Drummond,
Outra com Celan,
cabeça
Tão grande, corpo
pequeno,
Bebe água lá do cimo
E cata em chapéu
sereno.
E os olhos ágeis de
Shelley
E o coxo Byron,
moreno.
E Cabral, vagando em
eles
Com a cabra sobre o
cerro.
Goethe, um lorde,
sábio dândi,
Por mais que de um
lado ande,
Noutro, atrás, terá
seu fausto.
Verlaine: solado
gasto.
Traz violão na
algibeira.
Jorge de Lima e
Petrarca
Fabulam na mesma
barca
De intempéries. Cruz e
Souza
Leva de arrasto a
lousa
Da penúria. Rimbaud,
Lorca:
Guaiaca de margaridas
Na cintura. Estremecida
É a força que, sem a
vida,
É outra, outro
raizame,
Que mais alonga na
fome.
Quanto mais na morte
some,
Para se alçar em
seguida.
E a alguns – vi –
debulhados
Num vergel de
palavras:
Espúrias,
desprezadas,
Senhoriais, de pia,
Umas e outras
plantadas
Num solo refratário.
Diferenciavam males
E prebendas alçadas.
E era como um
estuário
De apenas uma via.
As palavras vexadas
Se afiavam nas
patrícias.
E escravas, na
sevícia.
Eu lastimei tal
empório
De classes e de
cartório.
Dante e Virgílio no
Nono Círculo do Inferno
(Gustave Doré:
ilustrador e pintor francês)
Referência:
NEJAR, Carlos.
Tratado de bom governo (excerto). In: __________. Tratado de bom governo.
São Paulo, SP: Escrituras Editora, 2004. p. 43-48.
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