Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Juan Manuel Bonet - Escrever

Bonet atém-se à função metalinguística da palavra para nos fazer ver que a poesia nem sempre necessita de grandes temas: às vezes, basta o som do tilintar de xícaras no terraço de um café para que nasçam versos cheios de clareza – sem aquela impostação artificiosa pretensamente inspirada por forças superiores –, como se fossem o corolário de um gesto natural, algo improvisado ou despretensioso.

 

A escrita, assim, passa a ser concebida como um fluxo espontâneo e descontraído, ao largo do bulício urbano, que surge da observação serena do entorno, ou melhor, da contemplação de tudo o que há à volta de uma vida tranquila e anônima, à margem dos grandes acontecimentos, seguindo o seu curso sem esforço.

 

J.A.R. – H.C.

 

Juan Manuel Bonet

(n. 1953)

 

Escribir

 

Escribir – como si nada fuera importante –

el sencillo irse de las horas

sentado en la terraza de un café

de una provincia española.

Escribir, como si estuviera escrito

que el ruido de esas tazas sobre el mármol

tuviera que pasar el arroyo claro

de unos versos.

Escribir, como si nada fuera.

 

En: “La patria oscura” (1983)

 

O Terraço do Hotel Mistral

(Georges Braque: pintor francês)

 

Escrever

 

Escrever – como se nada fosse importante –

o simples passar das horas

sentado no terraço de um café

de uma província espanhola.

Escrever, como se estivesse escrito

que o tilintar dessas xícaras sobre o mármore

tivesse que passar pelo ribeiro límpido

de uns versos.

Escrever, como se nada fosse.

 

Em: “A pátria escura” (1983)

 

Referência:

 

BONET, Juan Manuel. Escribir. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología cátedra de poesía de las letras hispánicas. 8. ed. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2011. p. 1151.

quarta-feira, 29 de julho de 2026

Gerard Manley Hopkins - Ser estrangeiro é minha sina e vida

Há neste soneto de Hopkins a confissão íntima de um homem que se sente preso entre lealdades antagônicas; estranho nos diversos âmbitos de sua existência – familiar, nacional ou hierático –; enleado, destarte, numa pesarosa autopercepção de exílio, de alienação, de crise espiritual.

 

Primeiramente, tal estranhamento se intensifica dentro de sua própria família de fé anglicana, ao converter-se ao catolicismo, logo se tornando um sacerdote jesuíta; depois, em relação à sua pátria – a Inglaterra –, ao encontrar-se em ministério na Irlanda, então atormentada por tensões políticas e religiosas; e, por fim, em seu próprio canal de comunicação com o divino, cuja voz poética se mostra velada, circunscrita a um ser incompleto e apartado, privado, por conseguinte, de seu pleno potencial de realização.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gerard Manley Hopkins

(1844-1889)

 

To seem the stranger lies my Lot, my life

 

To seem the stranger lies my lot, my life

Among strangers. Father and mother dear,

Brothers and sisters are in Christ not near

And he my peace / my parting, sword and strife.

 

England, whose honour O all my heart woos, wife

To my creating thought, would neither hear

Me, were I pleading, plead nor do I: I wear-

Y of idle a being but by where wars are rife.

 

I am in Ireland now; now I am at a thírd

Remove. Not but in all removes I can

Kind love both give and get. Only what word

 

Wisest my heart breeds dark heaven’s baffling ban

Bars or hell’s spell thwarts. This to hoard unheard,

Heard unheeded, leaves me a lonely began.

 

Dublin, 1885

(Posthumous publ.)

 

A leitura do sacerdote

(Ferdinand Hodler: pintor suíço)

 

Ser estrangeiro é minha sina e vida

 

Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio

A estrangeiros. Meu pai e minha mãe amados,

Irmãos e irmãs em Cristo de mim apartados,

Só Ele meu partir / meu porto, espada e esteio.

 

A Inglaterra que eu honro como esposa, cheio

De sonhos de criar, não movem nem cuidados

Nem rogos, nem rogar eu ouso, desolado s-

ócio de um lar que gera guerras em seu seio.

 

Agora estou na Irlanda e é já a terceira ida

Ao longo exílio. Não que o exílio iniba o gesto

De amor, amar. Mas a palavra mais querida

 

Que eu crie o céu cinzento ceifa presto

E o inferno enfeia em fel, do povo não ouvida

Ou, se ouvida, olvidada. E eu solitário resto.

 

O estranho

(Leilani Bustamante: artista norte-americana)

 

Parecer um estranho é minha sina, minha vida

 

Parecer um estranho é minha sina, minha vida

Entre gente estranha. Pai e mãe benquistos,

Meus irmãos e irmãs estão longe em Cristo,

E ele – minha paz, exílio, espada e lida.

 

Esposa de meu pensamento, amada Inglaterra,

Cuja honra meu coração venera, meus lamentos

Não ouviria, nem nada pleiteio: só já não aguento

Estar assim ocioso, onde é sem trégua a guerra.

 

Na Irlanda estou agora, em terceira remoção.

Em nenhuma, porém, pude doar o doce amor

Ou colhê-lo. Até mesmo a mera palavra melhor

 

Que brote em meu coração, frustra-a a proibição

Do céu; ou o inferno a distorce. Minha palavra não ecoou,

E entesourá-la, não ouvida, faz de mim um pobre “principiou”.

 

Referências:

 

HOPKINS, Gerard Manley. To seem the stranger lies my Lot, my life / Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio. Tradução de Augusto de Campos. In: __________. A beleza difícil. Introdução e traduções de Augusto de Campos. São Paulo, SP: Perspectiva, 1997. Em inglês: p. 46; em português: p. 47. (Coleção “Signos”; v. 20)

 

HOPKINS, Gerard Manley. To seem the stranger lies my Lot, my life / Parecer um estranho é minha sina, minha vida. Tradução de Aíla de Oliveira Gomes. In: __________. Poemas. Seleção, tradução, introdução e notas de de Aíla de Oliveira Gomes. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1989. Em inglês: p. 130; em português: p. 131.

terça-feira, 28 de julho de 2026

Péricles Eugênio da Silva Ramos - Ars Poetica

Eis aqui mais um poema sobre o processo criativo, digo melhor, uma angustiosa e visceral investigação sobre a luta titânica do poeta com a palavra, numa tentativa de domesticar o inefável, o quase inatingível – matéria-prima prevalecente da poesia.

 

Tem-se nos versos de Ramos os informes da relação muito próxima entre a arte e a vida, haja vista que esta última obsequia alguns dos principais elementos que dão suporte àquela – as experiências, os desejos, os pecados –, a partir dos quais o comezinho – inscrito nas sombras, em seus aspectos ocultos, nas pequenezas mundanas – convola-se em algo sublime.

 

Como diz o poeta, o poema não tem a necessidade de “ser” o firmamento – o ideal inalcançável –, pois que lhe basta ser “um reflexo índigo do céu”: a arte que o perpassa, ainda que imperfeita, deve ser fiel à verdadeira natureza da vida, um “espelho a recordar” a sua beleza caótica, cruel, até mesmo violenta.

 

J.A.R. – H.C.

 

Péricles E. da S. Ramos

(1919-1992)

 

Ars Poetica

 

I

 

Em silêncio travas o combate

contra o algodão e a lua,

contra as nuvens, contra o sol,

contra o linho,

a tela em branco do cinema.

 

Lá fora, a vida é um filme ao sol.

Aqui, espera a página que nela se projetem

as sombras pecadoras do salão, da alcova, do quintal,

como se fossem o rumor das asas de algum anjo.

Enquanto isso,

habitam o teu corpo, instalam-se em teu sexo.

 

II

 

Mas a inefável luta contra a areia,

na qual pingas teu sangue,

o sangue de teus olhos,

como tinta azul:

 

também azul é o céu,

e não o atinges.

 

III

 

Como chegar ao alvo,

como construir a casa inabalável

com uma colmeia zumbidora

de palavras,

com estas conchas quebradas?

Conchas, conchas do mar,

do mar que tão embaixo

atinge todavia o céu,

ao refleti-lo em suas águas.

 

Seja a palavra, seja o verso,

por mais baixo que estejam,

um reflexo índigo do céu,

do céu e sua angústia,

 

um espelho a recordar,

 

vermelha,

 

a vida, esta demente, esta devassa,

esta possessa a devorar seus próprios filhos.

 

Rotina diária

(Koppány Árnyas: artista húngaro)

 

Referência:

 

RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Ars poetica. In: __________. A noite da memória. São Paulo, SP: Art Editora, 1988. p. 8-9. (Coleção “Toda Poesia”; v. 6)

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ángel Crespo - A realidade inteira

Eis um convite a uma forma de conhecimento superior através da contemplação desinteressada, ativa e receptiva a um só tempo, sem intenção de julgamento ou de posse: o poeta nos dá conta de que o mistério está aqui mesmo, mostrando-se em seu esplendor a quem está disposto a tudo perscrutar, sem aquele desejo malsão de agarrar o que quer que seja somente para si, sabendo que não há dualidade entre o interior e o exterior, superfície e abismo.

 

A missão do homem é perceber a unidade de todas as coisas, a conformar um todo contínuo e coerente, para que então possa entrar em comunhão com o essencial, dissolvendo o “eu” individual no próprio ato de contemplar, à maneira das uniões místicas levadas a efeito por ascetas de todos os quadrantes – a exemplo das que experimentou o conterrâneo de Crespo, o sacerdote e também poeta São João da Cruz –, ou mesmo das iluminações súbitas e intuitivas da verdadeira natureza das coisas, consectárias aos despertares de satori, no âmbito do zen-budismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ángel Crespo

(1926-1995)

 

La realidad entera

 

El misterio no dice:

se muestra, y contemplarlo

es prodigioso oficio, pues se hace

la mirada interior una con él

aunque a sí misma no pueda mirarse.

 

No es renuncia ni entrega contemplar

– mas sin intentar poseerla –

la realidad entera silenciosa

cuya superficie nos muestra

una paisaje parejo al interior

mostrarse de su abismo

 

– en el que las palabras se transmutan

en miradas: para aceptar

lo que, al estar oculto, más se muestra.

 

En: “La realidade entera” (1989-1995)

 

São Jerônimo no Deserto

(Leonardo da Vinci: artista italiano)

 

A realidade inteira

 

O mistério nada diz:

ele se mostra, e contemplá-lo

é uma prodigiosa tarefa, pois o olhar

interior se torna um com ele,

embora a si mesmo não consiga se olhar.

 

Não é renúncia nem entrega contemplar

– mas sem tentar possuí-la –

toda a silenciosa realidade,

cuja superfície nos mostra

uma paisagem similar à que se revela

do interior de seu abismo

 

– no qual as palavras se transmutam

em olhares: para aceitar

o que, por estar oculto, mais se mostra.

 

Em: “A realidade inteira” (1989-1995)

 

Referência:

 

CRESPO, Ángel. La realidad entera. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología cátedra de poesía de las letras hispánicas. 8. ed. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2011. p. 1030.