Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 23 de março de 2026

Pablo Neruda - Ao pé desde a sua tenra idade

O infratranscrito poema de Neruda trata, de fato, do ciclo de vida do ser humano, mediante o emprego da metáfora do pé de uma criança, refletindo a antinomia entre os sonhos puros da infância e as firmes imposições da realidade, quando não a coação sistemática empregada como forma de modelar o ser humano na sociedade.

 

De um desejo de liberdade e de plenitude natural, típico da fase de meninice, passa-se a um processo de repressão social, ao longo do qual a imposição de normas de conduta acaba por limitar a espontaneidade infantil, tal que, um pouco mais tarde, já na idade adulta, o terno e o lhano resultam substituídos por algo áspero e padecente.

 

Com a entrada no mundo do trabalho, o ciclo atinge o seu ápice, quando o pé obriga-se a assumir os papéis que lhe são impostos pelo sistema, muitas vezes de modo desumanizante, haja vista que reduzido a uma ferramenta de produção, mal tendo tempo para o descanso e uma vida privada sadia.

 

Como um ser fragmentado, submetido a rotinas sem sentido, desce o pé, por fim, à sepultura, regressando ao pó primordial, sem entender muito bem o seu destino, à maneira de muitos daqueles que partem sem saber quais os verdadeiros sentidos de suas existências: se única e tão somente plasmados no sofrimento e na dor ou se, porventura, integrados a algum transcendente propósito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Pablo Neruda

(1904-1973)

 

Al pie desde su niño

 

El pie del niño aún no sabe que es pie,

y quiere ser mariposa o manzana.

 

Pero luego los vidrios y las piedras,

las calles, las escaleras,

y los caminos de la tierra dura

van enseñando al pie que no puede volar,

que no puede ser fruto redondo en una rama.

El pie del niño entonces

fue derrotado, cayó

en la batalla,

fue prisionero,

condenado a vivir en un zapato.

 

Poco a poco sin luz

fue conociendo el mundo a su manera,

sin conocer el otro pie, encerrado,

explorando la vida como un ciego.

 

A quellas suaves uñas

de cuarzo, de racimo,

se endurecieron, se mudaron

en opaca substancia, en cuerno duro,

y los pequeños pétalos del niño

se aplastaron, se desequilibraron,

tomaron formas de reptil sin ojos,

cabezas triangulares de gusano.

Y luego encallecieron,

se cubrieron

con mínimos volcanes de la muerte,

inaceptables endurecimientos.

 

Pero este ciego anduvo

sin tregua, sin parar

hora tras hora,

el pie y el otro pie,

ahora de hombre

o de mujer,

arriba,

abajo,

por los campos, las minas,

los almacenes y los ministerios,

atrás,

afuera, adentro,

adelante,

este pie trabajó con su zapato,

apenas tuvo tiempo

de estar desnudo en el amor o el sueño,

caminó, caminaron

hasta que el hombre entero se detuvo.

 

Y entonces a la tierra

bajó y no supo nada,

porque allí todo y todo estaba oscuro,

no supo que había dejado de ser pie,

si lo enterraban para que volara

o para que pudiera

ser manzana.

 

En: “Estravagario” (1958)

 

Primeiros passos

(ao modo de Millet)

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Ao pé desde a sua tenra idade

 

O pé da criança ainda não sabe que é pé,

e quer ser borboleta ou maçã.

 

Mas logo as pedras e os cacos de vidro,

as ruas, as escadas,

e os caminhos da terra dura

ensinam ao pé que ele não pode voar,

que não pode ser fruto redondo num ramo.

O pé da criança viu-se

então derrotado, vencido

na batalha,

tornando-se prisioneiro,

condenado a viver num sapato.

 

Pouco a pouco, sem luz,

foi descobrindo o mundo à sua maneira,

sem conhecer o outro pé, enclausurado,

explorando a vida como um cego.

 

Aquelas unhas macias

de quartzo, agrupadas,

endureceram, transformaram-se

em substância opaca, em rija guampa,

e as pequenas pétalas da criança

achataram-se, desequilibraram-se,

tomando formas reptilianas sem olhos,

cabeças triangulares de vermes.

Sem tardar, tornaram-se calejadas,

cobriram-se

com diminutos vulcões da morte,

endurecimentos inaceitáveis.

 

Nada obstante, esse cego pôs-se a caminhar

sem trégua, sem parar,

hora após hora,

em marcha alternada com o outro pé,

ora como pé de homem,

ora como de mulher,

para cima,

para baixo,

pelos campos, pelas minas,

pelos armazéns e pelos ministérios,

para trás,

para fora, para dentro,

para frente;

esse pé trabalhou com seu sapato,

mal tendo tempo

para ficar nu no amor ou durante o sono;

caminhou, caminharam,

até que o homem inteiro estacou.

 

E então desceu

à terra e não soube de nada,

porque a escuridão cobria a tudo e a todos;

não soube que havia deixado de ser pé,

se o enterravam para que voasse

ou para que pudesse

ser maçã.

 

Em: “Extravagário” (1958)

 

Referência:

 

NERUDA, Pablo. Al pie desde su niño. In: __________. Antología poética. Edición de Rafael Alberti. 3. ed. Buenos Aires, AR: Planeta, may. 1998. p. 296-297. (“Planeta Bolsillo”)

domingo, 22 de março de 2026

José Miguel Silva - Ladrões de Bicicleta - Vittorio de Sica (1948)

Inspirado nas cenas marcantes do filme neorrealista italiano – como o título o sugere –, o poema de Miguel põe-nos à frente da dura realidade de um trabalhador ciclista, um operário que, pelo correr dos versos, sabemos trata-se do próprio genitor do falante, cuja vida transcorre entre rotinas esgotantes – perpetuadas por estruturas sociais assentes na exploração laboral –, e sonhos modestos.

 

Vê-se um pedalar incansável até um rumo incerto, sem que se abra mão da dignidade no trabalho: se o progresso material segue como pauta para tornar os dias futuros menos árduos, não chega ele a anular completamente a essência do labor humano, tampouco as circunstantes tensões existenciais, pois que esforços são necessários em qualquer que seja o mister a que nos dediquemos. Afinal, como diz aquela máxima das academias: “No pain, no gain”!

 

J.A.R. – H.C.

 

José Miguel Silva

(n. 1969)

 

Ladrões de Bicicleta - Vittorio de Sica (1948)

 

Mil quilómetros por dia pedalava meu pai, desde

a cama junto ao Douro até à próspera Cerâmica

de Valadares. Se qualquer homem recebe,

à nascença, uns sessenta inimigos por hora,

imaginem a jornada de um operário ciclista.

Tudo são despesas para ele: o rosário de geada

nas giestas, o jornal atropelado pelo vento, o verdor

da Primavera, a poalha do suor em cada mão.

 

Meu pai, é claro, não se queixa, ganha um conto

de réis, tem uma casa portuguesa e grandes sonhos

de amanhãs a gasolina. Pelo menos não trabalho

em nenhum matadouro, pensa ele, e com razão,

erguido nos pedais do seu veículo de sombra,

solitário trepador pela encosta de Avintes. Não

trabalha em nenhum matadouro. E nesse reconforto

passa à Quinta dos Frades, alcança o Freixieiro,

sente já o rumor de fumacentos camiões na nacional,

onde tudo, depois, será muito mais plano.

 

Em: “Movimentos no Escuro” (2005)

 

Cartaz do filme “Ladrões de Bicicleta”,

de Vittorio de Sica (1948)

 

Referência:

 

MIGUEL SILVA, José. Ladrões de bicicleta - Vittorio de Sica (1948). In: REIS-SÁ, Jorge; LAGE, Rui (Selecção, organização, introdução e notas). Poemas portugueses: antologia da poesia portuguesa do séc. XIII ao séc. XXI. Prefácio de Vasco Graça Moura. 1. ed. Porto, PT: Porto Editora, 2009. p. 2071.

sábado, 21 de março de 2026

Imtiaz Dharker - A Palavra Certa

A poetisa paquistano-escocesa explora a questão da subjetividade da linguagem e de como as palavras podem deformar, etiquetar ou humanizar uma determinada pessoa, a depender de quem as pronuncie: jogando com distintas perspectivas, a autora desmonta os discursos políticos e midiáticos que reduzem os indivíduos, em sua complexidade, a meras categorias carregadas de ideologia.

 

Essa mudança de perspectiva revela como os rótulos podem transformar nossa percepção e reação diante dos outros, tornando-os ora terroristas ora lutadores pela liberdade; ora militantes hostis ora animosos guerrilheiros; ora, em última instância, mártires.

 

Dharker, claro está, faz-nos um apelo à empatia e à compaixão, para que reconheçamos a nossa humanidade compartilhada, procurando transcender as divisões criadas pelas palavras, meros símbolos flexíveis que não dão conta integral do que se passa a cada instante, digo melhor, para que reflitamos sobre o impacto de nossas escolhas linguísticas e questionemos os estereótipos que, amiúde, perpetuamos sem dar-nos conta.

 

J.A.R. – H.C.

 

Imtiaz Dharker

(n. 1954)

 

The Right Word

 

Outside the door,

lurking in the shadows,

is a terrorist.

 

Is that the wrong description?

Outside that door,

taking shelter in the shadows,

is a freedom-fighter.

 

I haven’t got this right.

Outside, waiting in the shadows

is a hostile militant.

 

Are words no more

than waving, wavering flags?

Outside your door,

watchful in the shadows,

is a guerrilla warrior.

 

God help me.

Outside, defying every shadow,

stands a martyr.

I saw his face.

 

No words can help me now.

Just outside the door,

lost in shadows,

is a child who looks like mine.

 

One word for you.

Outside my door,

his hand too steady,

his eyes too hard,

is a boy who looks like your son, too.

 

I open the door.

Come in, I say.

Come in and eat with us.

 

The child steps in

and carefully, at my door,

takes off his shoes.

 

Criança com cão batendo à porta

(Andre-Henri Dargelas: pintor francês)

 

A Palavra Certa

 

Do lado de fora da porta,

à espreita nas sombras,

há um terrorista.

 

Estaria equivocada essa descrição?

Do lado de fora daquela porta,

abrigando-se nas sombras,

há um combatente da liberdade.

 

Julgo não haver entendido a contento.

Lá fora, à espera nas sombras,

há um militante hostil.

 

Seriam as palavras nada mais do que

pendões que tremulam hesitantes?

Do lado de fora da tua porta,

atento nas sombras,

há um animoso guerrilheiro.

 

Que Deus me ajude.

Lá fora, desafiando todas as sombras,

encontra-se um mártir.

Eu vi o seu rosto.

 

Nenhuma palavra pode ajudar-me agora.

Do lado de fora da porta,

perdida nas sombras,

há uma criança que se parece com a minha.

 

Tenho uma palavra a te dizer.

À minha porta,

com as mãos a denotar firmeza

e os olhos por demais austeros,

há um menino que também muito

se parece com o teu filho.

 

Abro-lhe a porta.

Entra, digo eu.

Entra e come conosco.

 

A criança entra e,

cuidadosamente, à minha porta,

tira os sapatos.

 

Referência:

 

DHARKER, Imtiaz. The right word. In: ESIRI, Allie (Ed.). A poem for every day of the year. Illustrated by Zanna Goldhawk. 1st publ. London, EN: Macmillan Children’s Books, 2017. p. 382-383.