Este poema transcende
a mera descrição física de um refúgio de difícil acesso da zona rural inglesa –
a comba, um espaço ancestral, intocado pelo sol e pelo canto dos pássaros –, para
transformá-lo num cenário de embate entre o antigo e o moderno, entre o eterno
e o efêmero, entre a pureza da natureza e a sua profanação por parte do homem.
Nas palavras do poeta,
a caça ao texugo – “A bretã mais antiga dentre as bestas inglesas” –, símbolo
de uma Inglaterra primitiva e resistente, teria o condão de tornar o vale em
algo ainda mais “venerável e sombrio”, como se a eliminação do animal rompesse
a sua aura de eternidade, de refúgio sagrado, manchando-lhe permanentemente o espírito.
Assim, poder-se-ia dizer
que a opacidade natural do lugar, elemento constituinte de sua essência
primigênia e autóctone, converte-se numa escuridão moral e histórica, e o poema
num lamento por uma Inglaterra que se desvanece, recordando-nos de que algumas
de nossas ações deixam feridas inapagáveis na “alma” dos torrões pelos quais
passamos.
J.A.R. – H.C.
Edward Thomas
(1878-1917)
The Combe (*)
The Combe was ever
dark, ancient and dark.
Its mouth is stopped
with bramble, thorn, and briar;
And no one scrambles
over the sliding chalk
By beech and yew and
perishing juniper
Down the half
precipices of its sides, with roots
And rabbit holes for
steps. The sun of Winter,
The moon of Summer,
and all the singing birds
Except the
missel-thrush that loves juniper,
Are quite shut out.
But far more ancient and dark
The Combe looks since
they killed the badger there,
Dug him out and gave
him to the hounds,
That most ancient
Briton of English beasts.
Uma tempestade nas
Montanhas Rochosas,
Monte Rosalie
(Albert Bierstadt:
pintor germano-americano)
O Vale
O Vale sempre foi sombrio
– venerável e sombrio.
Obstruem a sua
entrada sarças, espinheiros e urzes;
E ninguém se atreve a
escalar o calcário resvaladiço
Junto às faias,
teixos e zimbros mortiços que cobrem
Os semiprecipícios de
suas ladeiras, usando raízes
E tocas de coelhos
como degraus. O sol de inverno,
A lua de verão e
todos os pássaros canoros,
Exceto o tordo-visgueiro,
que adora os zimbros,
Não se fazem
presentes. Mas o Vale parece bem mais
Venerável e sombrio
desde que lá mataram o texugo
– A bretã mais antiga
dentre as bestas inglesas –,
Desenterraram-no e o entregaram
aos cães.
Nota:
(*). Literalmente “A
Comba”, em português, vale ou depressão entre encostas de montanhas; no caso
específico do poema, faz-se alusão a uma das feições mais antigas da paisagem
rural inglesa.
Referência:
THOMAS, Edward. The combe. In: HEANEY, Seamus; HUGHES, Ted (Eds.). The rattle bag. 1st publ. London, EN: Faber and Faber, 1982. p. 111.
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