Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 6 de outubro de 2026

Thomas Merton - Sinceridade

Merton empurra-nos a um abismo de honestidade radical, convidando-nos a desconfiar de nossa própria sinceridade, a abraçar a humildade de saber-nos mentirosos e preparar-nos, a partir dessa posição de vulnerabilidade e autenticidade, para ir ao encontro de Deus – cuja realidade não se ajusta aos nossos termos, mas que os transcende por completo.

 

Com efeito, sendo a hipocrisia um vício ou falha inerente ao ego humano, cumpre-nos não projetar em Deus as nossas noções de justiça ou de inocência, ou de outro modo, abrir mão de nossas mentiras em prol do silêncio estrondoso da Verdade divina: é somente quando renunciamos à necessidade de autojustificar-nos e de julgarmos os Seus desígnios que podemos começar a vislumbrar, ainda que apenas de relance, a pureza incomodatícia e libertadora de Sua sinceridade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Thomas Merton

(1915-1968)

 

Sincerity

 

Omnis homo mendax (*)

 

As for the liar, fear him less

Than one who thinks himself sincere,

Who, having deceived himself,

Can deceive you with a good conscience.

 

One who doubts his own truth

May mistrust another less:

 

Knowing in his own heart,

That all men are liars

He will be less outraged

When he is deceived by another.

 

So, too, will he sooner believe

In the sincerity of God.

 

The sincerity of God! Who never justifies

His actions to men! Who makes no bargains

With any other sincerity, because He knows

There is no other! Who does what He pleases

And never protests His innocence!

 

Which of us can stand the sincerity of God?

 

Which of us can bear a Lord

Who is neither guilty nor innocent

(Who cannot be innocent because He cannot be guilty)?

 

What has our sincerity to do with His

Whose truth is no approval of our truth

And is not judged by anyone,

Even by Himself?

 

(Yet if I think myself sincere

I will approve the purity of God

Convinced that my own purity

Is approved by Him.)

 

So, when the Lord speaks, we go to sleep

Or turn quickly to some more congenial business

Since, as every liar knows,

No man can bear such sincerity.

 

In: “The Strange Islands” (1957)

 

Os Mentirosos

(Salvador Dalí: artista espanhol)

 

Sinceridade

 

Omnis homo mendax

 

Quanto ao mentiroso, teme-o menos

Do que aquele que se considera sincero,

Que, tendo enganado a si mesmo,

Pode enganar-te com a consciência tranquila.

 

Aquele que duvida da sua própria verdade

Pode desconfiar menos dos outros:

 

Sabendo no seu coração

Que todos os homens são mentirosos,

Ficará menos indignado

Quando for enganado por outro.

 

Assim, também, mais depressa crerá

Na sinceridade de Deus.

 

A sinceridade de Deus! Que jamais justifica

As suas ações aos homens! Que não faz barganhas

Com nenhuma outra sinceridade, porque sabe

Que outra não há! Que faz o que Lhe apraz

E jamais protesta a Sua inocência!

 

Quem de nós pode suportar a sinceridade de Deus?

 

Quem de nós pode suportar um Senhor

Que não é culpado nem inocente

(Que não pode ser inocente porque não pode ser culpado)?

 

O que a nossa sinceridade tem a ver com a Dele,

Cuja verdade não é a aprovação da nossa verdade

E não é julgada por ninguém,

Nem por Ele mesmo?

 

(Contudo, se eu me julgar sincero,

Aprovarei a pureza de Deus,

Convencido de que minha própria pureza

É por Ele aprovada.)

 

Então, quando o Senhor fala, adormecemos

Ou logo nos dedicamos a algum assunto mais agradável,

Pois, como bem sabe todo mentiroso,

Ninguém pode suportar tamanha sinceridade.

 

Em: “As Ilhas Estranhas” (1957)

 

Nota:

 

(*). Citação em latim do versículo 11, in fine, do Salmo 116: “Todos os homens são mentirosos”.

 

Referência:

 

MERTON, Thomas. Sincerity. In: __________. The collected poems of Thomas Merton. 1st ed., 6th print. New Directions, 1977. p. 285-286.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Wisława Szymborska - Roupas

Neste poema, que é um minucioso estudo de um momento de intensa vulnerabilidade humana – a espera de um diagnóstico médico –, Szymborska fala-nos do frágil ritual que rodeia a eventual presença de alguma enfermidade, empregando as ações de vestir-se e desvestir-se como metáfora central para o ensejo de expor-se ao juízo da ciência, bem assim para o receio ou o temor de algo nada favorável e o subsequente alívio, no caso de males facilmente superáveis ou não factuais.

 

Tornar a colocar-se a roupa é um trâmite de reintegração, uma espécie de ritual sagrado de recomposição, como se estivéssemos retornando à vida, já agora com novas luzes sobre os objetos quotidianos, transformados radicalmente em símbolos de um futuro recuperado, de dias que nos são prometidos para que celebremos o milagre da continuidade, das coisas que, triviais que sejam, passam a ter um prazo de validade, de repente, prolongado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wisława Szymborska

(1923-2012)

 

Odzież

 

Zdejmujesz, zdejmujemy, zdejmujecie

płaszcze, żakiety, marynarki, bluzki

z wełny, bawełny, elanobawełny,

spódnice, spodnie, skarpetki, bieliznę,

kładąc, wieszając, przerzucając przez

oparcia krzeseł, skrzydła parawanów;

na razie, mówi lekarz, to nic poważnego,

proszę się ubrać, odpocząć, wyjechać,

zażywać w razie gdyby, przed snem, po jedzeniu,

pokazać się za kwartał, za rok, za półtora;

widzisz, a ty myślałeś, a myśmy się bali,

a wyście przypuszczali, a on podejrzewał;

czas już wiązać, zapinać drżącymi jeszcze rękami

sznurowadła, zatrzaski, suwaki, klamerki,

paski, guziki, krawaty, kołnierze

i wyciągać z rękawów, z torebek, z kieszeni

wymięty, w kropki, w paski, w kwiatki, w kratkę szalik

o przedłużonej nagle przydatności.

 

Z: “Ludzie na Moście” (1986)

 

Antes da injeção

(Norman Rockwell: ilustrador norte-americano)

 

Roupas

 

Você tira, nós tiramos, eles tiram

casacos, jaquetas, paletós, blusas

de lã, de algodão, de cotton lycra,

saias, calças, meias, lingerie,

juntando, pendurando, jogando

nos encostos das cadeiras, nos painéis dos biombos;

por ora, diz o médico, não é nada grave,

pode se vestir, descansar, fazer uma viagem,

tome no caso de, antes de dormir, depois de comer,

volte daqui a três meses, um ano, um ano e meio;

veja só, e você pensou, e nós temíamos,

e vocês supuseram, e ele suspeitou;

é hora de atar, fechar com mãos ainda trêmulas

cadarços, velcros, zíperes, fivelas,

cintos, botões, gravatas, colarinhos

e tirar das mangas, bolsas, bolsos

um xale amarrotado de bolinhas, listras, flores, xadrez

de validade de repente prolongada.

 

Em: “Gente na Ponte” (1986)

 

Referência:

 

SZYMBORSKA, Wisława. Odzież / Roupas. Tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. In: __________. Para o meu coração num domingo. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2020. Em polonês: p. 174; em português: p. 175.

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domingo, 4 de outubro de 2026

François Mauriac - Os Livros

Nestes versos que retratam, em boa medida, a jornada espiritual de Mauriac, tem-se uma autobiografia construída através dos livros que lhe marcaram a vida – obras de Tomás de Kempis, Paul Verlaine, Blaise Pascal, um simples missal e os Evangelhos –, verdadeiros relicários de seu passado, mapas de sua fé e veículos de uma busca religiosa tendente a oscilar entre a dúvida e a graça, entre a miséria e a grandeza.

 

Percebe-se no poema a sôfrega dialética da alma, entretecida por meio de múltiplas tensões – razão/mística, miséria/grandeza, tédio/êxtase, noite/abraço –, típica da condição humana, de um coração em trevas que busca desesperadamente a luz, a plena redenção, num gesto urgente de abandono e de total entrega aos cuidados do Eterno.

 

J.A.R. – H.C.

 

François Mauriac

(1885-1970)

 

Les Livres

 

Voici l’Imitation de Jésus-Christ(1), où git

Tout mon passé d’enfant mystique et raisonnable.

Voici les vers du pauvre Verlaine assagi –

Ces vers lourds des sanglots d’un amour ineffable.

Pascal me va guider en la nuit de mon coeur

Vers des infinis de misère et de grandeur.

 

Et voici mon missel, dont j’ai lu chaque page

Aux vêpres(2) du Collège, en la lourde chaleur,

Avec des noms d’enfants sur de vieilles images

En ivoire, où l’on voit un calice et des fleurs.

 

On y lisait des approbations d’évêque(3)

Et les prières pour la pluie et le beau temps,

Aux vêpres du Collège où l’on s’endormait presque

Dans les dimanches clairs et lourds d’anciens printemps.

 

Et voici l’Évangile, enfin – inépuisable

Source où vient s’abreuver mon âme misérable,

Où je vous vois rêvant aux margelles des puits,

Prêchant sur la montagne et calmant la tempête,

Mon Seigneur et mon Dieu, qui venez vers ma nuit

Et qui m’ouvrez vos bras afin que je m’y jette!

 

Oração na Igreja

(Gerard Sekoto: artista sul-africano)

 

Os Livros

 

Eis aqui a “Imitação de Jesus Cristo”, onde repousa

Todo o meu passado de infante místico e sensato.

Eis aqui os versos do pobre e serenado Verlaine –

Versos refertos pelos soluços de um amor inefável.

Pela noite de meu coração tenho Pascal por guia,

Rumo às trilhas infinitas da miséria e da grandeza.

 

E cá está o meu missal, do qual li cada página

Nos Vesperais do Colégio, sob um calor sufocante,

Com os nomes dos meninos sobre velhas imagens

Em marfim, a saber, um cálice rodeado por flores.

 

Nos aludidos Vesperais, tomados por algum letargo,

Em domingos claros e graves de remotas primaveras,

Nele podíamos ler o “nada obsta” do censor episcopal

E as orações pelo bom tempo e pelas chuvas.

 

E eis, por fim, o Evangelho – fonte inesgotável

Onde vem saciar-se a minha miseranda alma –,

Onde vos vejo a sonhar nas bordas dos poços,

A pregar no monte e a aquietar a tempestade,

Meu Senhor e meu Deus, que adentrais minha noite

e me abris vossos braços para neles arrojar-me!

 

Notas:

 

(1). Referência à famosa obra “Imitação de Cristo”, do monge alemão Tomás de Kempis (1380-1471).

 

(2). Vêpres: Vesperais, termo litúrgico para uma parte do Ofício Divino (ou Liturgia das Horas), uma celebração que acontece geralmente entre 15h e 18h, ou próximo ao pôr do sol.

 

(3). Approbations d’évêque: Literalmente “Aprovações do bispo”, uma prática histórica específica da Igreja Católica, segundo a qual um tomo religioso – como um missal, um catecismo ou um livro de devoção –, antes de ser publicado e utilizado pelos fiéis, deve sempre passar por uma censura eclesiástica, para garantir que se encontre em conformidade com a doutrina.

 

Referência:

 

MAURIAC, François. Les livres. In: __________. Œuvres complètes: t. VI (Les mains jointes). Paris, FR: Librairie Arthème Fayard, 1950. p. 351-352.

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