Pacheco vai fundo no
desnudamento da violência inerente à condição humana, particularmente no
contexto de um século marcado por guerras, genocídios, torturas e demais formas
de opressão, externalizando o paradoxo moral que qualquer ser humano enfrenta diante
de práticas injustas, senão abusivas: como condenar atos atrozes sem perpetuar
o ciclo de hostilidades? – pergunta-se o poeta.
As interrogantes de
Pacheco, para além de refletirem a perplexidade do falante, configuram uma
crítica implícita aos sistemas políticos, sociais e econômicos que normalizam a
agressividade e a desumanização. Veja-se, por exemplo, a inquirição central – “Em
nome de quê posso condenar os outros / à morte pelo que são ou pensam?” –, e
perceba-se o quanto evidencia uma firme postura ética contestadora de qualquer justificação
ideológica para o ódio, a discriminação e o extermínio!
Ainda que o poeta se
refira a eventos do século XX, não se pode dizer que não digam respeito às
primeiras décadas do presente século, pois persistem as práticas em questão
mesmo agora, tornando tal sofrimento uma miséria quotidiana e tangível, diante
da qual o escapismo, o silêncio ou a indiferença significam, sem apelo a evasivas,
um estado de conivência, de cumplicidade.
J.A.R. – H.C.
José Emilio Pacheco
(1939-2014)
Fin de siglo
La sangre derramada
clama venganza.
Y la venganza no
puede engendrar
sino más sangre
derramada.
¿Quién soy:
el guarda de mi
hermano o aquel
a quien adiestraron
para aceptar la
muerte de los demás,
no la propia muerte?
¿A nombre de qué
puedo condenar a muerte
a otros por lo que
son o piensan?
Pero ¿cómo dejar
impunes
la tortura y el
genocidio y el matar de hambre?
No quiero nada para
mí.
Sólo anhelo
lo posible imposible:
un mundo sin
víctimas.
Cómo lograrlo no está
en mi poder.
Escapa a mi pequeñez,
a mi pobre intento
de vaciar el mar de
sangre que es nuestro siglo
con el cuenco trémulo
de la mano.
Mientras escribo llega
el crepúsculo.
Cerca de mí los
gritos que no han cesado
no me dejan cerrar
los ojos.
Caim matando Abel
(Pietro Novelli:
pintor italiano)
Fim de século
O sangue derramado
clama por vingança.
E a vingança não pode
engendrar
senão mais sangue
derramado.
Quem sou:
o guardião do meu
irmão ou aquele
a quem habituaram
a aceitar a morte dos
outros,
não a própria morte?
Em nome de quê posso
condenar os outros
à morte pelo que são
ou pensam?
Mas como deixar
impunes
a tortura, o
genocídio e o matar de fome?
Não quero nada para
mim.
Apenas anseio
pelo possível
impossível:
um mundo sem vítimas.
A forma de o
conseguir não está ao meu alcance.
Escapa à minha
pequenez, ao meu pobre intento
de esvaziar o mar de
sangue, que é o nosso século,
com a trêmula concha
da mão.
Enquanto escrevo,
chega o crepúsculo.
Perto de mim os
gritos que não param
não me deixam fechar
os olhos.
Referência:
PACHECO, José Emilio. Fin de siglo. In: __________. Tarde o temprano. México, D.F.: Fondo de Cultura Económica, 1980. p. 213. (“Letras Mexicanas”)
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