Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 20 de julho de 2026

Eugénio de Andrade - Os Amantes sem Dinheiro

Ao casal empobrecido, de quem se espera a associação a poucas posses ou recursos financeiros, o poeta colaciona contrastes anafóricos centrados na repetição da forma verbal “tinham”, à jusante dos quais se declinam todas as “posses” dos amantes – lua em jardins, anjos de pedra... –, sinais ostensivos da beleza que se vincula a um mundo de riquezas espirituais.

 

A imagem do milagre cotidiano “escorrendo pelos telhados” busca conectar o sagrado àquilo que é humilde, talvez para dar conta da liberdade, da magia, da imaginação criadora e dos propósitos dos que vivem na carência, milagres diários que teimam em assomar desde a franja intangível da realidade, tornando-os os pródigos semeadores da mais autêntica poesia.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eugênio de Andrade

(1923-2005)

 

Os Amantes sem Dinheiro

 

Tinham o rosto aberto a quem passava.

Tinham lendas e mitos

e frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava

de mãos dadas com a água

e um anjo de pedra por irmão.

 

Tinham como toda a gente

o milagre de cada dia

escorrendo pelos telhados;

e olhos de oiro

onde ardiam

os sonhos mais tresmalhados.

 

Tinham fome e sede como os bichos,

e silêncio

à roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam

um pássaro nascia dos seus dedos

e deslumbrado penetrava nos espaços.

 

Em: “Os Amantes sem Dinheiro” (1950)

 

Casal pobre num café

(Pablo Picasso: pintor espanhol)

 

Referência:

 

ANDRADE, Eugênio de. Os amantes sem dinheiro. In: __________. Forbidden words: selected poetry of Eugénio de Andrade, translated by Alexis Levitin. A bilingual edition: portuguese x english. New York, NY: New Directions, 2003. p. 12.

domingo, 19 de julho de 2026

Audre Lorde - Poder

Lorde nos apresenta um retrato implacável da violência racial nos EUA, muitas vezes levada à frente por um poder institucional corrupto, a expor a classe menos privilegiada de cidadãos – os oprimidos de toda classe – a ameaças psicológicas e, sobretudo, físicas, justificadas pela via de uma retórica mendaz.

 

A poetisa, sendo negra, reconhece a raiva e a dor acumuladas, mas procura não se entregar à tentação do ódio e da violência como resposta, uma vez que perpetuaria o ciclo. Em vez disso, busca canalizá-las em direção a um poder autêntico, ético e transformador, usando a própria voz – a poesia, em especial – para encontrar ou criar um oásis de equidade e de humanidade compartilhada.

 

Há que ser um exercício de poder coletivo, solidário e responsável perante os próprios oprimidos, íntegro o bastante para recusar quaisquer formas de colaboração com o sistema, tentando não apenas inverter os papéis de poder dentro desse jogo abastardado, senão denunciar e desmontar as infames estruturas de jugo – racismo, sexismo, injustiças.

 

J.A.R. – H.C.

 

Audre Lorde

(1934-1992)

 

Power

 

The difference between poetry and rhetoric

is being

ready to kill

yourself

instead of your children.

 

I am trapped on a desert of raw gunshot wounds

and a dead child dragging his shattered black

face off the edge of my sleep

blood from his punctured cheeks and shoulders

is the only liquid for miles and my stomach

churns at the imagined taste while

my mouth splits into dry lips

without loyalty or reason

thirsting for the wetness of his blood

as it sinks into the whiteness

of the desert where I am lost

without imagery or magic

trying to make power out of hatred and destruction

trying to heal my dying son with kisses

only the sun will bleach his bones quicker.

 

The policeman who shot down a 10-year-old in Queens

stood over the boy with his cop shoes in childish blood

and a voice said “Die you little motherfucker” and

there are tapes to prove it. At his trial

this policeman said in his own defense

“I didn’t notice the size nor nothing else

only the color”. And

there are tapes to prove that, too.

 

Today that 37-year-old white man with 13 years

of police forcing

has been set free

by 11 white men who said they were satisfied

justice had been done

and one Black Woman who said

“They convinced me” meaning

they had dragged her 4’10” black Woman’s frame

over the hot coals of four centuries

of white male approval

until she let go the first real power she ever had

and lined her own womb with cement

to make a graveyard for our children.

 

I have not been able to touch the destruction

within me.

But unless I learn to use

the difference between poetry and rhetoric

my power too will run corrupt as poisonous mold

or lie limp and useless as an unconnected wire

and one day I will take my teenaged plug

and connect it to the nearest socket

raping an 85 year old white woman

who is somebody’s mother

and as I beat her senseless and set a torch to her bed

a greek chorus will be singing in 3/4 time

“Poor thing. She never hurt a soul. What beasts

they are.”

 

Mulher com criança morta

(Käthe Kollwitz: artista alemã)

 

Poder

 

A diferença entre poesia e retórica

é estar pronta para matar

a si mesma

em vez de seus filhos.

 

Estou perdida num deserto de feridas frescas à bala

e uma criança morta arrasta seu negro e estilhaçado

rosto até os limites do meu sonho

o sangue de suas bochechas e ombros perfurados

é o único líquido em quilômetros e meu estômago

se revira ao imaginar o gosto enquanto

minha boca de lábios secos rachados

sem lealdade ou razão

sedenta pela umidade do sangue dele

enquanto se afunda na brancura

do deserto onde estou perdida

sem imagens ou magia

tentando criar poder a partir do ódio e da destruição

tentando curar meu filho moribundo com beijos

só o sol vai clarear seus ossos mais rápido.

 

O policial que atirou numa criança de 10 ano

 no Queens

ficou de pé diante do menino com seus coturnos

no sangue infantil

e uma voz disse “morre seu pequeno filho da puta” e

há gravações que provam isso. No julgamento dele

esse policial disse que foi legítima defesa

“Eu não percebi o tamanho nem nada mais

só a cor.” E

há gravações que provam isso também.

 

Hoje aquele homem branco de 37 anos

há 13 na força policial

foi posto em liberdade

por 11 homens brancos que disseram estar satisfeitos

a justiça foi feita

e uma mulher negra que disse

"Eles me convenceram” querendo dizer

que eles arrastaram sua figura 1,50m de mulher negra

sobre os carvões em brasa de 400 anos de aprovação

do homem branco

até ela abrir mão do primeiro poder de verdade

que já teve

e revestir seu útero com concreto

para fazer um cemitério para os nossos filhos.

 

Eu não tenho sido capaz de tocar a destruição

dentro de mim.

Mas a menos que eu aprenda a usar

a diferença entre poesia e retórica

meu poder também será corrompido como

um fungo venenoso

ou irá prostrar-se debilitado e inútil como

um fio desconectado

e um dia pegarei meu aparelho antigo

e o ligarei na tomada mais próxima

estuprando uma mulher branca de 85 anos

que é a mãe de alguém

enquanto a espanco até que desfaleça e ponha fogo

na cama dela

um coro grego estará cantando no compasso 3/4

“Coitadinha. Ela nunca machucou ninguém.

Eles são uns animais.”

 

Referência:

 

LORDE, Audre. Power / Poder. Tradução de Stephanie Borges. In: __________. A unicórnia preta: poemas. Tradução de Stephanie Borges. Prefácio de Jess Oliveira. 1. ed. Belo Horizonte, MG: Relicário Edições, 2020. Em inglês: p. 256, 258 e 260; em português: p. 257, 259 e 261.

sábado, 18 de julho de 2026

Hilda Hilst - Estou sozinha se penso que tu existes

A voz lírica emite, num grito desesperado, os seus mais ardentes intentos de se conectar com Deus – talvez, com o Amor Absoluto ou mesmo a Verdade –, mediante esta que é, nada obstante, uma confrontação honesta e crua com as dificuldades da fé, em um mundo onde a presença divina parece-lhe nada tangível, longe de ser colmatada pelo conhecimento racional ou pela arte.

 

No coração do poema jaz a ideia de que a verdadeira conexão não se encontra na abstração ou na evidência, mas no “ato de sangrar”, de entregar-se por completo à busca, pouco importando o resultado: a solidão resulta ser o preço da consciência, quer esta aponte para a existência de um ser superior, quer para a sua ausência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Hilda Hilst

(1930-2004)

 

Estou sozinha se penso que tu existes

 

Estou sozinha se penso que tu existes.

Não tenho dados de ti, nem tenho tua vizinhança.

E igualmente sozinha se tu não existes.

De que me adiantam

Poemas ou narrativas buscando

 

Aquilo, que se não é, não existe

Ou se existe, então se esconde

Em sumidouros e cimos, nomenclaturas

 

Naquelas não evidências

Da matemática pura? É preciso conhecer

Com precisão para amar? Não te conheço.

 

Só sei que desmereço se não sangro.

Só sei que fico afastada

De uns fios de conhecimento, se não tento.

 

Estou sozinha, meu Deus, se te penso.

 

Em: “Poemas malditos, gozosos e devotos, XII (1984)

 

Pense em Deus

(Hugues Merle: pintor francês)

 

Referência:

 

HILST, Hilda. XII: Estou sozinha se penso que tu existes. In: __________. Da poesia. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2017. p. 417.

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Álvaro Mutis - Da cidade

O poeta colombiano fala-nos sobre a perda de sentido em relação ao sagrado e ao épico no mundo contemporâneo, sublinhando a amnésia histórica da vida urbana – algo voluntária –, sob a qual o passado jaz oculto nas circunjacências, na natureza, bem assim nos olores e ruídos cotidianos, porém como uma riqueza inútil.

 

Se a cidade esqueceu o seu passado violento e sangrento, o cimento mítico fundacional, nada obstante, ainda persiste de forma sutil no dia a dia, em detalhes aparentemente insignificantes que o poeta logra resgatar para criar uma atmosfera de memória desvanecida: a coluna de fumaça, os mendigos, os altares cobertos de poeira etc.

 

Sob tal perspectiva, sobrevive ele – o mito, bem se entenda – de forma latente, quase clandestina, nos interstícios da urbe – “perdido, irresgatável estéril” –, haja vista que os seus habitantes perderam a capacidade de conectar-se com ele, de extrair-lhe significado ou fecundidade, longe já, por conseguinte, de ser uma fonte de identidade ou de força, senão um eco distante, um resíduo sem potencial para descortinar novas e auspiciosas sendas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Álvaro Mutis

(1923-2013)

 

De la ciudad

 

¿Quién ve a la entrada de la ciudad

la sangre vertida por antiguos guerreros?

¿Quién oye el golpe de las armas

y el chapoteo nocturno de las bestias?

¿Quién guía la columna de humo y dolor

que dejan las batallas al caer la tarde?

Ni el más miserable, ni el más vicioso

ni el más débil y olvidado de los habitantes

recuerda algo de esta historia.

Hoy, cuando al amanecer crece en los parques

el olor de los pinos recién cortados,

ese aroma resinoso y brillante

como el recuerdo vago de una hembra magnífica

o como el dolor de una bestia indefensa,

hoy, la ciudad se entrega de lleno

a su niebla sucia y a sus ruidos cotidianos.

Y sin embargo el mito está presente,

subsiste en los rincones donde los mendigos

inventan una temblorosa cadena de placer,

en los altares que muerde la polilla

y cubre el polvo con manso y terso olvido,

en las puertas que se abren de repente

para mostrar al sol un opulento torso

de mujer que despierta entre naranjos

– blanda fruta muerta, aire vano de alcoba –.

En la paz del mediodía, en las horas del alba,

en los trenes soñolientos cargados de animales

que lloran la ausencia de sus crías,

allí está el mito perdido, irrescatable, estéril.

 

Ponte de Charing Cross

(André Derain: pintor francês)

 

Da cidade

 

Quem vê, à entrada da cidade,

o sangue vertido por antigos guerreiros?

Quem ouve o canglor das armas

e o chapinhar noturno das bestas?

Quem guia a coluna de fumaça e dor

que as batalhas deixam ao cair da tarde?

Nem o mais miserável, nem o mais vicioso,

nem o mais fraco e esquecido dos habitantes

recorda algo desta história.

Hoje, quando ao amanhecer cresce nos parques

o odor dos pinheiros recém-cortados,

aquele aroma resinoso e brilhante

como a lembrança vaga de uma magnífica fêmea

ou como a dor de uma besta indefesa,

hoje, a cidade se entrega por completo

à sua suja neblina e aos seus ruídos cotidianos.

E, no entanto, o mito está presente,

subsiste nos recantos onde os mendigos

inventam uma trêmula cadeia de prazer,

nos altares que a traça corrói

e o pó cobre com manso e terso olvido,

nas portas que se abrem de repente

para mostrar ao sol um opulento torso

de mulher que desperta entre laranjeiras

– fruta macia e morta, ar vão de alcova –.

Na paz do meio-dia, nas horas da aurora,

nos trens sonolentos carregados de animais

que choram a ausência de suas crias,

ali está o mito perdido, irresgatável, estéril.

 

Referência:

 

MUTIS, Álvaro. De la ciudad. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 64. (Coedición “Latinoamericana”)