Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 6 de junho de 2026

Rui Knopfli - Autorretrato

Knopfli nos apresenta uma dissecação lúcida, irônica e ambivalente de sua própria identidade, centrada na herança portuguesa, com um contraponto suíço mínimo, porém significativo, ao término da qual resulta um retrato não exatamente complacente de si mesmo, mas certa sintomia de contradições e traços culturais profundamente enraizados, alguns dos quais lhe parecem incômodos.

 

Nesse bosquejo sem autoindulgência, o falante se expõe entre luzes (a capacidade lírica, a paixão) e sombras (a amargura, a má-língua, o fatalismo), ou ainda, entre a robusta ancoragem no sensorial (vinho, comida, olhar lascivo, prazer da fala) –vestígios legados dos ancestrais lusitanos –, e a herança suíça, abstrata (presente em um de seus sobrenomes) e funcional (um relógio de bolso antigo).

 

J.A.R. – H.C.

 

Rui Manuel Correia Knopfli

(1932-1997)

 

Autorretrato

 

De português tenho a nostalgia lírica

de coisas passadistas, de um a infância

amortalhada entre loucos girassóis e folguedos;

a ardência árabe dos olhos, o pendor

para os extremos: da lágrima pronta

à incandescência súbita das palavras contundentes,

do riso claro à angústia mais amarga.

 

De português, a costela macabra, a alma

enquistada de fado, resistente a todas

as ablações de ordem cultural e o saber

que o tinto, melhor que o branco,

há-de atestar a taça na ortodoxia

de certas vitualhas de consistência e paladar telúrico.

 

De português, o olhinho malandro, concupiscente

e plurirracial, lesto na mirada ao seio

entrevisto, à nesga de perna, à fímbria de nádega;

a resposta certeira e lépida a dardejar nos lábios,

o prazer saboroso e enternecido da má-língua.

 

De suíço tenho, herdados de meu bisavô,

um relógio de bolso antigo e um vago, estranho nome.

 

Em: “Memória consentida” (1982)

 

O passado no presente

(Natasha Kramskaya: artista ucraniana)

 

Referência:

 

KNOPFLI, Rui. Autorretrato. In: FERREIRA, Manuel (Ed.). 50 Poetas Africanos. Lisboa, PT: Plátano, 1989. p. 384.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Herman Melville - Fragmentos de um Poema Gnóstico Perdido do Século XII

Melville concede a este seu poema uma aura de sabedoria arcana e de mistério, sugerindo verdades ocultas propaladas pelo gnosticismo, uma corrente filosófico-religiosa que via o mundo material como uma criação defeituosa ou inclusive maligna, aprisionando chispas de luz divina – no caso, o espírito humano.

 

Apresentadas como “perdidas” e “fragmentárias”, suas estrofes albergam as ideias: (i) de futilidade dos construtos humanos – nomeadamente as estruturas sociais e políticas – frente à matéria, a qual, com suas leis de decadência, morte e sofrimento, sempre reclamará seu tributo e os reduzirá a pó; e (ii) concernentes a uma inversão dos valores, típica do gnosticismo radical, a contemplar a ação como um meio de perpetuar e expandir tal sistema material espúrio, motivo pelo qual a inação acaba por converter-se, paradoxalmente, na postura mais virtuosa, por não sujeitar a alma às cadeias desta prisão mundana, com o que se espera evitar que a alma se contamine e possa se aproximar de sua libertação espiritual.

 

Veja-se a entonação presente nos dois derradeiros versos, devastadora e central para o poema: ainda que com pureza de intenções, a bondade, a caridade, ou mais extensivamente, as virtudes convencionais, sedimentadas no esforço para melhorar este mundo corrupto e imperfeito, somente o mantêm em funcionamento, sustentando as sobreditas estruturas que fomentam o sofrimento, convertendo-se, desse modo, em cúmplices involuntárias do mesmo sistema que pretendem sanar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herman Melville

(1819-1891)

 

Fragments of a Lost Gnostic Poem

of the 12th Century

 

* * * *

 

Found a family, build a state,

The pledged event is still the same:

Matter in end will never abate

His ancient brutal claim.

 

* * * *

 

Indolence is heaven’s ally here,

And energy the child of hell:

The Good Man pouring from his pitcher clear

But brims the poisoned well.

 

Corrupção

(Corrie Anderson: artista norte-americana)

 

Fragmentos de um Poema Gnóstico Perdido

do Século XII

 

* * * *

 

Constituir uma família, erigir um Estado,

O propósito declarado ainda é o mesmo:

A matéria, ao final, jamais renunciará

À sua antiga e brutal reivindicação.

 

* * * *

 

A indolência é aqui a aliada do céu,

E a energia, a herdeira do inferno:

O Bom Homem verte água de seu cântaro impoluto,

Mas acaba por transbordar o poço envenenado.

 

Referência:

 

MELVILLE, Herman. Fragments of a lost gnostic poem of the 12th century. In: __________. Selected poems. Edited by F. O. Matthiessen. Norfolk, CT: New Directions, 1944. p. 19. (The Poets of the Year)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Nicolás Guillén - Sons

Preliminarmente, uma observação: na tradução que empreendeu ao português deste poema de Guillén, Drummond, não se lhe conhecem exatamente as razões, intitulou-o assim como aqui está – a saber, “Sons” –, em vez de “Minha pátria é doce por fora”, vale dizer, o primeiro verso da composição, à maneira como se apresenta no Tomo I de sua Obra Poética completa, publicada pelo Editorial de Arte y Literatura, de Havana (CU), cujo inteiro teor, ademais, exibe também ligeiras diferenças, especificamente na escrita da última estrofe, em relação ao texto traduzido pelo poeta itabirano.

 

Muito mais que um painel sobre, v.g., a geografia descritiva de Cuba, o poema formula um diagnóstico atroz de uma nação ferida pela desigualdade, pela exploração interna e externa, bem assim pelo legado do colonialismo: trata-se de uma denúncia sócio-política, com o propósito de desmistificar a imagem turística e edulcorada da ilha, para desvelar-lhe as dores e o muito sangue já vertido em suas terras.

 

Em meio a essa voragem adversativa – melhor seria dizer protestativa –, os versos pulsam num ritmo de canto coletivo ou de lamento ritual, em cujos recessos se veicula uma mensagem de resistência e, sobretudo, de esperança com espeque na unidade solidária e na consciência de todo o povo cubano, transcendendo as suas consabidas barreiras raciais – “china, preta, branca ou rubra”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Nicolás Guillén

(1902-1989)

 

Mi patria es dulce por fuera

 

Mi patria es dulce por fuera,

y muy amarga por dentro;

mi patria es dulce por fuera,

con su verde primavera,

con su verde primavera,

y un sol de hiel en el centro.

 

¡Qué cielo de azul callado

mira impasible tu duelo!

¡Qué cielo de azul callado,

ay, Cuba, el que Dios te ha dado,

ay, Cuba, el que Dios te ha dado,

con ser tan azul tu cielo!

 

Un pájaro de madera

me trajo en su pico el canto;

un pájaro de madera.

¡Ay, Cuba, si te dijera,

yo que te conozco tanto,

ay, Cuba, si te dijera,

que es de sangre tu palmera,

que es de sangre tu palmera,

y que tu mar es de llanto!

Bajo tu risa ligera,

yo, que te conozco tanto,

miro la sangre y el llanto,

bajo tu risa ligera.

 

Sangre y llanto

bajo tu risa ligera;

sangre y llanto

bajo tu risa ligera.

Sangre y llanto.

 

El hombre de tierra adentro

está en un hoyo metido,

muerto sin haber nacido,

el hombre de tierra adentro.

Y el hombre de la ciudad,

ay, Cuba, es un pordiosero:

Anda hambriento y sin dinero,

pidiendo por caridad,

aunque se ponga sombrero

y baile en la sociedad.

(Lo digo en mi son entero,

 porque es la pura verdad.)

 

Hoy yanqui, ayer española,

sí, señor,

la tierra que nos tocó

siempre el pobre la encontró

si hoy yanqui, ayer española,

¡cómo no!

¡Qué sola la tierra sola,

la tierra que nos tocó!

 

La mano que no se afloja

hay que estrecharla en seguida;

la mano que no se afloja,

china, negra, blanca o roja,

china, negra, blanca o roja,

con nuestra mano tendida.

 

Un marino americano,

bien,

en el restaurant del puerto,

bien,

un marino americano

me quiso dar con la mano,

me quiso dar con la mano,

pero allí se quedó muerto,

bien,

pero allí se quedó muerto,

bien,

pero allí se quedó muerto.

 

Manhã no Malecón (Havana, Cuba)

(Anthony Holdsworth: artista inglês)

 

Sons

 

A pátria é doce por fora

e muito amarga por dentro;

a pátria é doce por fora

com a verde primavera,

com a verde primavera,

e o sol de fel que há no centro.

 

Que céu de azul tão calado

mira impassível teu luto!

Que céu de azul tão calado,

ai Cuba, que Deus te deu,

ai Cuba, que Deus te deu,

com ser tão azul teu céu!

 

Um pássaro de madeira

me traz no bico seu canto:

um pássaro de madeira...

Ai Cuba, se eu te dissesse

eu que te conheço tanto,

ai Cuba, se eu te dissesse

que é de sangue tua palmeira,

que é de sangue tua palmeira,

e que teu mar é de pranto!

Sob teu riso ligeiro,

eu que te conheço tanto,

vejo-te o sangue e o pranto.

Sob teu riso ligeiro.

Sangue e pranto,

sob teu sangue ligeiro;

sangue e pranto

sob teu riso ligeiro.

Sangue e pranto...

 

O homem do interior

está num fosso metido,

morto sem haver nascido,

o homem do interior.

Já o homem da cidade,

ai Cuba, está mendigando:

vive com fome e sem prata,

rogando por caridade,

embora ponha chapéu

e dance na sociedade.

(Digo-o com todas as letras

porque é pura verdade.)

 

Ora ianque, ora espanhola,

sim senhor,

a terra que nos tocou

o pobre sempre a encontrou

ora ianque, ora espanhola,

como não...

Que só, a terra tão só,

a terra que nos tocou!

 

A mão que não amolece,

há que apertá-la depressa,

a mão que não amolece,

china, preta, branca ou rubra,

china, preta, branca ou rubra,

com esta mão estendida.

 

Marinheiro americano,

bom,

no restaurante do porto,

bom,

marinheiro americano

queria meter-me o braço,

queria meter-me o braço,

mas lá ficou esticado,

bom,

mas lá ficou esticado,

bom,

mas lá ficou esticado.

 

Referência:

 

GUILLÉN, Nicolás. Mi pátria es dulce por fuera / Sons. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia traduzida. Organização e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. Introdução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2011. Em espanhol: p. 172, 174 e 176; em português: p. 173, 175 e 177. (Coleção “Ás de colete”; v. 20)

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Jorge de Sena - Ode para o Futuro

Sena ironiza amargamente o modo como o futuro – as gerações vindouras – tende a mitificar o passado, como se fosse uma “Era dourada”, eliminando seus aspectos traumáticos com o objetivo de construir uma narrativa nostálgica e reconfortante, o que, em última instância, resulta numa ilusão retrospectiva.

 

O poeta busca denunciar a propensão que o futuro tem em optar pelo sonho, em vez de se pautar pela crua verdade dos fatos, vale dizer, a dor concreta, a injustiça, a violência política e a luta diária, sistematicamente apagadas ou reduzidas a uma vaga “melancolia” estética.

 

Não a “Idade de Ouro”, senão a da atrocidade, do desespero e do caos – bem mais a assemelhar-se ao inferno. E não exatamente uma ode celebratória, mas uma acerba elegia e uma advertência àqueles que preferem construir legendas romantizadas do passado a custo da realidade histórica.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Sena

(1919-1978)

 

Ode para o Futuro

 

Falareis de nós como de um sonho.

Crepúsculo dourado. Frases calmas.

Gestos vagarosos. Música suave.

Pensamento arguto. Subtis sorrisos.

Paisagens deslizando na distância.

Éramos livres. Falávamos, sabíamos,

e amávamos serena e docemente.

 

Uma angústia delida, melancólica,

sobre ela sonhareis.

 

E as tempestades, as desordens, gritos,

violência, escárnio, confusão odienta,

primaveras morrendo ignoradas

nas encostas vizinhas, as prisões,

as mortes, o amor vendido,

as lágrimas e as lutas,

o desespero da vida que nos roubam

– apenas uma angústia melancólica,

sobre a qual sonhareis a idade de oiro.

 

E, em segredo, saudosos, enlevados,

falareis de nós – de nós! – como de um sonho.

 

Em: “Pedra Filosofal” (1950)

 

Os três juízes

(Sergei Aramisovich Essaian: pintor russo)

 

Referência:

 

SENA, Jorge de. Ode para o futuro. In: Mãe, Valter Hugo (Selecção e Organização). O futuro em anos-luz: antologia de poesia portuguesa. Porto, PT: Edições Quasi, 2001. p. 50.