Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Kamala Das - A Casa da Minha Avó

Neste poema de Kamala, a falante reflete sobre o significado do passado na casa de sua avó – um lugar de calor humano, no qual usufruiu o seu tempo de infância –, confrontando-o com o momento presente, em que não experimenta plenitude afetiva, eis que vulnerável e dependente de “pequenos trocados” de amor, deixando-a a um passo de certa espécie de alienação emocional.

 

Marcante é a forma como a poetisa indiana tece encadeamentos entre a situação a que ora está exposta – relações de bem-querer fragmentadas ou superficiais, tão comuns em nossas sociedades de interesses utilitários –, e o estado atual da casa de sua avó, assolada por elementos de degradação e de ruptura com tudo aquilo que, outrora, representou acolhimento incondicional e sabedoria.

 

J.A.R. – H.C.

 

Kamala Das

(1934-2009)

 

My Grandmother’s House

 

There is a house now far away where once

I received love... That woman died,

The house withdrew into silence, snakes moved

Among books I was then too young

To read, and my blood turned cold like the moon.

How often I think of going

There, to peer through blind eyes of windows or

Just listen to the frozen air,

Or in wild despair, pick an armful of

Darkness to bring it here to lie

Behind my bedroom door like a brooding

Dog... you cannot believe, darling,

Can you, that I lived in such a house and

Was proud, and loved... I who have lost

My way and beg now at strangers’ doors to

Receive love, at least in small change?

 

A avó no quintal

(Oksana Ivanyuk: artista ucraniana)

 

A Casa da Minha Avó

 

Há uma casa agora distante, onde outrora

Recebi amor... Aquela mulher faleceu,

A casa se recolheu ao silêncio, as serpentes se moviam

Entre livros que, então, eu era jovem demais

Para ler, e o meu sangue se tornou frio como a lua.

Quantas vezes cogito em ir até lá,

Para espreitar através dos olhos cegos das janelas ou

Simplesmente ouvir o ar gelado,

Ou, num desespero selvagem, recolher um punhado de

Escuridão para o trazer até aqui e o deixar

Atrás da porta do meu quarto como se fosse um cão

A ruminar... não podes acreditar, querido,

– Podes? –, que vivi em uma casa assim e

Tinha orgulho e era amada... Eu que perdi

Meu caminho e agora imploro à porta de estranhos

Para receber amor, pelo menos em pequenos trocados?

 

Referência:

 

DAS, Kamala. My grandmother’s house. In: PARTHASARATHY, R. (Ch. & Ed.). Ten twentieth century indian poets. 6th impr. New Delhi, IN: Oxford University Press, 2002. p. 23-24.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Sierguéi Iessiênin - Um ladrido de sinos sobre a Rússia

Neste poema que, de fato, diz respeito a um trecho da segunda seção de uma composição maior intitulada “Инония (“Inonia”), em quatro seções, o poeta russo empreende, em matizes de inquietude e de presságio, um arrojado enfrentamento entre a tradição religiosa e a história russa: com tributos ao profeta Jeremias – uma figura bíblica associada a lamentos e a predições de destruição –, Iessiênin converte o “ladrido de sinos, tradicional símbolo de fé e de coletividade, num sinal de alarme em relação a presumíveis rebeliões e transformações próximas.

 

Iessiênin expressa o seu rechaço à influência da Igreja na vida russa e sua cumplicidade com o poder político, haja vista que, a seu ver, as tradições religiosas transmutaram-se em instrumento de controle, sob cujo domínio a espiritualidade do povo restou descaracterizada por densos vestígios de dogmas e por rituais vazios.

 

Frise-se, por oportuno, que Inonia, lugar citado no terceiro verso da quarta estância, diz respeito a um sítio utópico criado pelo poeta, representando uma paragem onde a “divindade dos vivos” habita, em contraste com as divindades mortas ou distantes do passado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sierguéi Iessiênin

(1895-1925)

 

Лай колоколов над Русью грозный

 

Пророку Иеремии

 

Лай колоколов над Русью грозный

Это плачут стены Кремля.

Ныне на пики звездные

Вздыбливаю тебя, земля!

 

Протянусь до незримого города,

Млечный прокушу покров.

Даже богу я выщиплю бороду

Оскалом моих зубов.

 

Ухвачу его за гриву белую

И скажу ему голосом вьюг:

Я иным тебя, господи, сделаю,

Чтобы зрел мой словесный луг!

 

Языком вылижу на иконах я

Лики мучеников и святых.

Обещаю вам град Инонию,

Где живет божество живых.

 

Проклинаю я дыхание Китежа

И все лощины его дорог.

Я хочу, чтоб на бездонном вытяже

Мы воздвигли себе чертог.

 

Плачь и рыдай, Московия!

Новый пришел Индикоплов.

Все молитвы в твоем часослове я

Проклюю моим клювом слов.

 

1918

 

Sol e Carrilhão

(Wayne Roberts: artista australiano)

 

Um ladrido de sinos sobre a Rússia

 

ao profeta Jeremias

 

Um ladrido de sinos sobre a Rússia:

Choram os muros do Kremlin.

Hoje, com as lanças das estrelas,

Te arrancarei do chão, terra trêmula!

 

Distendido até a cidade invisível

Perfurarei o lácteo véu.

Até a Deus vou beliscar a barba,

Mostrando os dentes para o céu.

 

E lhe direi com voz de vento,

Grudando-o pela grenha alva:

Senhor, vou te fazer diferente

Para florir meu campo de palavras.

 

Lamberei com a língua dos ícones

As máscaras dos mártires lívidos.

Eu lhes prometo a terra de Inonia

Onde vive a divindade dos vivos!

 

Maldigo o respiro de Kitej(1),

Todos os vales do seu mundo.

Quero erguer o nosso castelo

Sobre a escavação sem fundo.

 

Soluça e chora, Moscóvia!

Um novo Indikoplóv(2) se eleva!

Todas as rezas do teu breviário

Rasgarei com meu bico de palavras!

 

1918

 

Notas do Tradutor: (CAMPOS, 2006, p. 136, n.r.)

 

(1). Kitej: cidade legendária que, assediada pelas hordas tártaras, teria sido engolida pela terra.

 

(2). Kosma Indikoplóv: mercador do século VI, que se tornou monge em Alexandria e escreveu um tratado cosmogônico, baseado na Bíblia.

 

Referências:


Em Russo


ЕСЕНИН, Сергей. Лай колоколов над Русью грозный. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 fev. 2026.


Em Português

 

IESSIÊNIN, Sierguéi. / Um ladrido de sinos sobre a Rússia. Tradução de Augusto de Campos. In: CAMPOS, Augusto de (Seleção e tradução). Poesia da recusa. São Paulo, SP: Perspectiva, 2006. p. 135-136.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Emílio Moura - Aqui termina o caminho

Com um discurso entre evocador e melancólico, o poeta mineiro nos fala de uma busca infecunda de sentido num mundo permeado pelo vazio, haja vista que o sujeito poético expressa certo distanciamento não somente de um determinado lugar físico, mas de algo mais significativo – talvez de si mesmo ou de uma sensação de pertencimento.

 

Confrontado à perda de direção e de propósito, o falante incorre numa atroz desesperança, o que nos parece demarcar o cenário de um mundo pós-sagrado, no qual o Criador, tendo abandonado o ser humano à própria sorte, suprimiu-lhe o eco responsivo às dúvidas, lançando-o num desterro íntimo, existencial, restando-lhe, nesse caso, nada mais do que, resignadamente, aceitar a ausência, interpretada esta em sua máxima amplitude: ausência de sentido – repita-se –, ausência de integridade psíquica, ausência do outro e do coletivo, ausência de futuro e – a involucrar todo o rol – ausência divina ou do sagrado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Emílio Moura

(1902-1971)

 

Aqui termina o caminho

 

Os sinos cantando, as sombras todas se diluindo

dentro da tarde. Dentro da tarde, o teu grave

pensamento de exílio.

 

Porque ainda esperas? Aqui termina o caminho,

aqui morre a voz, e não há mais eco, nem nada.

 

Por que não esquecer, agora, as imagens que tanto

nos perturbaram

e que inutilmente nos conduziram

para nos deixar de súbito na primeira esquina?

 

Essa voz que vem não sei de onde,

esses olhos que olham não sei o quê,

esses braços que se estendem não sei para onde...

 

Debalde esperarás que o eco de teus passos acorde

os espaços que já não têm voz.

 

As almas já desertaram daqui.

E nenhum milagre te espera,

nenhum.

 

Em: “Canto da hora amarga” (1936)

 

O fim do caminho

(Pablo Picasso: pintor espanhol)

 

Referência:

 

MOURA, Emílio. Aqui termina o caminho. Revista Acadêmica: Antologia da moderna poesia brasileira, Rio de Janeiro, n. 44, p. 142, jun. 1939. Disponível neste endereço. Acesso em: 10 out. 2024.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

José Asunción Silva - Ars

O poeta colombiano, figura central do Modernismo hispano-americano, voga pelo prolífico mar das águas metapoéticas, para tecer encômios ao poder transformador da poesia, recurso idôneo a converter o quotidiano em algo sublime, por intermédio de um processo alquímico no qual a linguagem passa a albergar, transmutado em beleza, um breviário dos humanos pesares.

 

Não sendo meramente um exercício formal ou decorativo, a poesia, com efeito, decanta em palavras a essência de nossas experiências, recordações e emoções, legando aos pares um relato do que se passa de mais autêntico nos escaninhos da mente do poeta. Daí porque o emprego da imagem de um “vaso santo” com que se equipara o verso de um poema: trata-se de uma espécie de recipiente em que se recolhe apenas o sumo de “pensamentos puros”.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Asunción Silva

(1865-1896)

 

Ars

 

El verso es un vaso santo; poned en él tan sólo

un pensamiento puro,

en cuyo fondo bullan hirvientes las imágenes

como burbujas de oro de un viejo vino oscuro.

 

Allí verted las flores que en la continua lucha

ajó del mundo el frío,

recuerdos deliciosos de tiempos que no vuelven,

y nardos empapados de gotas de rocío.

 

Para que la existencia mísera se embalsame

cual de una esencia ignota,

quemándose en el fuego del alma enternecida,

de aquel supremo bálsamo, ¡basta una sola gota!

 

Rosa com gotas de orvalho

(Irina Sztukowski: artista russa)

 

Ars

 

O verso é vaso santo; ponde nele somente

um pensamento puro,

em cujo fundo tremam ferventes as imagens

como borbulhas de ouro em velho vinho escuro.

 

Ali vertei as flores que na contínua luta

magoou do mundo o frio,

deliciosas lembranças de tempos que não voltam,

e nardos embebidos de gotas de rocio.

 

Para que a mísera existência se embalsame

como de essência ignota,

queimando-se no fogo da alma compadecida,

desse supremo bálsamo basta só uma gota!

 

Referência:

 

ASUNCIÓN SILVA, José. Ars / Ars. Tradução de Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. In: FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda (Seleção e tradução). Grandes vozes líricas hispano-americanas. Edição bilíngue. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1990. Em espanhol: p. 164; em português: p. 165. (Coleção “Poesia de Todos os Tempos”)