Esclareça-se, de
início, que a designada “linda menina do Brasil”, a que se dirige o poeta
nicaraguense, era ninguém menos do que a filha do diplomata gaúcho – e também
poeta – Fontoura Xavier (1856-1922): ela surge no poema como uma figura
feminina idealizada, símbolo de pureza e de perfeição, de um país não menos
idealizado – o Brasil –, uma terra de tesouros, onde reina o amor em meio à
natureza exuberante.
Darío exalta, com a
sua lírica de certo modo já inclinada aos padrões modernistas, a beleza, a
juventude e o exotismo da “terra brasilis”, um “mágico Eldorado”, onde o tempo
transcorre suavemente, “sobre diamantes e sob estrelas”, e se pode usufruir de
uma intérmina felicidade. Um idílio, obviamente, que só se mantém nos escaninhos
da Literatura! (rs)
J.A.R. – H.C.
Rubén Darío
(1867-1916)
Balada de la bella
niña del Brasil
Existe un país
encantado
donde las horas son
tan bellas
que el tiempo va a
paso callado
sobre diamantes, bajo
estrellas.
Odas, cantares o
querellas
se lanzan al aire
sutil
en gloria de perpetuo
Abril,
pues allí, la flor preferida
para mí es Anna
Margarída,
la bella niña del
Brasil.
Existe un mágico
Eldorado
en donde Amor de rey
está,
donde hay Tijuca y
Corcovado
y donde canta el
sabia.
El tesoro divino da
allí mil hechizos y
mil
sueños; mas nada tan
gentil
como la flor de alba
encendida
que he visto en Anna
Margarída,
la única bella del
Brasil.
Dulce, dorada y
primorosa,
infanta de lírico
rey,
es una princesita
rosa
que amara Kate-Greenaway. (*)
Buscará por la eterna
ley
el pájaro azul de
Tyltil,
sisero, oboe, arpa y añafil,
cuando Aurora a vivir
convida,
adorable a Anna
Margarida,
la niña bella del
Brasil.
Envío
¡Princesa en flor,
nada en la vida
hecho de oro, rosa y
marfil,
iguala a esta joya
querida:
la pequeña Anna
Margarida,
la niña bella del
Brasil!
París, 1911
En: “Canto a la Argentina
y otros poemas” (1914)
Moça com livro
(Almeida Júnior:
pintor brasileiro)
Balada da linda
menina do Brasil
Existe um país encantado
no qual as horas são
tão belas
que o tempo desliza
calado
sobre diamantes, sob
estrelas.
Odes, cantares ou
querelas
derramam-se pelo ar
sutil
em glória de perpétuo
abril.
Pois ali a flor
preferida
do canto é Ana
Margarida,
linda menina do
Brasil.
Existe um mágico
Eldorado
(e Amor como seu rei lá
está)
onde há a Tijuca e o
Corcovado
e onde gorjeia o
sabiá.
O tesouro divino dá
ali mil feitiços e
mil
sonhos; mas nada tão
gentil
como o broto de alva
incendida
que se chama Ana Margarida,
linda menina do
Brasil.
Doce, dourada e
primorosa
infanta de lírico
rei,
E uma princesa cor-de-rosa
que amara Kate
Greenaway.
Buscará pela eterna
lei
o pássaro azul de
Tiltyl?
Eia, oboé, sistro,
harpa, anafil:
que hoje aurora a
viver convida
a essa rosa Ana
Margarida,
linda menina do
Brasil.
Oferta
Princesa em flor,
nada na vida,
por mais gracioso ou
senhoril,
iguala a esta joia
querida:
a pequena Ana
Margarida,
linda menina do
Brasil.
Paris, 1911
Em: “Canto à
Argentina e outros poemas” (1914)
Nota:
(*). Kate-Greenaway
(1846-1901): ilustradora inglesa, bastante conhecida por seus trabalhos com
figuras de crianças, direcionados ao público infantil.
Referências:
Em Espanhol
DARÍO, Rúben. Balada
de la bella niña del Brasil. In: __________. Poesía. Editado por Ernesto
Mejía Sánchez, con prólogo de Ángel Rama. Caracas, VE: Fundación Biblioteca
Ayacucho, 1977. p. 428-429. (Colección “Clásica”; n. 9)
Em Português
DARÍO, Rúben. Balada da linda menina do Brasil. Tradução de Manuel Bandeira. In: BANDEIRA, Manuel. Poemas traduzidos. 3. ed. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1956. p. 73-74. (Coleção “Rubáiyát”)
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