Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 22 de maio de 2026

Konstantinos Kaváfis - Ítaca

Recorrendo ao mito homérico do regresso de Ulisses ao lar, após a Guerra de Troia, Kaváfis apresenta-nos uma meditação serena sobre o sentido da existência, propondo-nos uma filosofia de vida serena, profundamente humana e com algum matiz estoico, na qual o que de mais importante há é o modo como empreendemos a jornada, não o destino ou o momento em que a ele chegamos.

 

Ítaca aparece nos versos do poeta grego como o objetivo que dá direção e propósito à viagem, a bússola, a estrela-guia que nos orienta pelo “longo caminho” da vida, apontando-nos a meta a atingir: uma conquista, o conhecimento, a realização pessoal, a sabedoria ou talvez, até mesmo, a própria morte.

 

Aos olhos de Kaváfis, nessa “jornada do herói” – para empregar um termo caro ao grande mitólogo norte-americano Joseph Campbell (1904-1987) –, há que se dar prevalência à nossa atitude interior, enfrentando os “monstros” projetados por nossa psique – medos, preconceitos, paixões vis e falta de estatura moral – com magnanimidade e sensibilidade refinada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Konstantinos Kaváfis

(1863-1933)

 

Ιθακη

 

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,

να εύχεσαι να ’ναι μακρύς ο δρόμος,

γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.

Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,

τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,

τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,

αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή

συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.

Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,

τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,

αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,

αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

 

Να εύχεσαι να ’ναι μακρύς ο δρόμος.

Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι

που με τί ευχαρίστηση, με τί χαρά

θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοϊδωμένους·

να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,

και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,

σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κι έβενους,

και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,

όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·

σε πόλεις αιγυπτιακές πολλές να πας,

να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

 

Πάντα στον νου σου να ’χεις την Ιθάκη.

Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.

Αλλά μη βιάζεις το ταξίδι διόλου.

Καλύτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·

και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,

πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,

μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

 

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξίδι.

Χωρίς αυτήν δεν θα ’βγαινες στον δρόμο.

Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

 

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.

Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,

ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τί σημαίνουν.

 

(1911)

 

Desembarque de Ulisses em Ítaca

(John Linnell: pintor inglês)

 

Ítaca

 

Se partires um dia rumo a Ítaca,

faz votos de que o caminho seja longo,

repleto de aventuras, repleto de saber.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o colérico Posídon te intimidem;

eles no teu caminho jamais encontrarás

se altivo for teu pensamento, se sutil

emoção teu corpo e teu espírito tocar.

Nem Lestrigões nem os Ciclopes

nem o bravio Posídon hás de ver,

se tu mesmo não os levares dentro da alma,

se tua alma não os puser diante de ti.

 

Faz votos de que o caminho seja longo.

Numerosas serão as manhãs de verão

nas quais, com que prazer, com que alegria,

tu hás de entrar pela primeira vez um porto

para correr as lojas dos fenícios

e belas mercancias adquirir:

madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,

e perfumes sensuais de toda espécie,

quanto houver de aromas deleitosos.

A muitas cidades do Egito peregrina

para aprender, para aprender dos doutos.

 

Tem todo o tempo Ítaca na mente.

Estás predestinado a ali chegar.

Mas não apresses a viagem nunca.

Melhor muitos anos levares de jornada

e fundeares na ilha velho enfim,

rico de quanto ganhaste no caminho,

sem esperar riquezas que Ítaca te desse.

 

Uma bela viagem deu-te Ítaca.

Sem ela não te ponhas a caminho.

Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

 

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.

Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,

e agora sabes o que significam Ítacas.

 

(1911)

 

Referência:

 

Em Grego

 

ΚΑΒΆΦΗΣ, Κωνσταντίνος. Ιθακη. In: __________. Απαντα: ποιηματα και πεζα. Αθήνα, ΕΛ: Εκδοτικοσ Οργανισμοσ Παπυροσ, 1995. σ. 38. (“Τα Αριστουργηματα Τησ Νεοελληνικησ Λογοτεχνιασ”; Τ. I)

 

 

Em Português

 

KAVÁFIS, Konstantinos. Ítaca. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção, estudo crítico, notas e tradução direta do grego por José Paulo Paes. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1982. p. 118-119. (Coleção “Poiesis”)

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Daniel Jonas - O cansaço do canto

Jonas questiona com ironia e argumentos lógicos a ideia de que o poeta seria como que um produtor de beleza decorativa ou de fácil consolo, como se a poesia fosse uma qualidade inerente a um indivíduo, em vez de ser algo que se desenvolve e se expressa através do trabalho e da experiência. Nada, portanto, de expectativas românticas ou utilitaristas sobre o poeta e seu ofício!

 

Em lugar de satisfazer demandas externas, o poeta escolhe declamar a sua própria verdade, por mais distante do belo ou do positivo que seja, por mais incômoda que se mostre. Afinal, a arte – como a flor – não tem um significado ou função intrínseca, ambos a dependerem do uso e do contexto a que diga respeito o objeto por ela trazido à luz.

 

Contemplado sob tal perspectiva, o poema, em suma, ao expressar a fadiga profunda gerada pelo próprio exercício poético, num mundo que o mal-interpreta e o mercantiliza, acaba por converter tal cansaço, paradoxalmente, na fonte de seu mais genuíno canto.

 

J.A.R. – H.C.

 

Daniel Jonas

(n. 1973)

 

O cansaço do canto

 

As gentes no mercado os locais na praça

os irmãos de guerra pedem-me poesia dizem

se és poeta deves ter em li poesia.

Mas isso é tão ilógico quanto dizer de alguém

que se é médico deve ter em si humanidade

ou se bate-chapas amor pela folha de Flandres.

Perdoai, amigos, não sou nenhum animador de rua

nenhum entretém de ocasião nenhum rigoletto –

ponderai se o vosso negócio não será antes rosas

e eu providenciarei os espinhos.

 

Conjurais-me por beleza. Pois passai ao largo.

Que ideia tão disparatada

que um poeta cante a paixão e para aí pintassilgue

levando ao chilique peitos arfantes

por cadarços torturados. Estais enganados.

A lua ela mesma pode inspirar

tanto o romântico como o assassino (esse romântico)

e uma florista merca tanto o decesso como o enlace.

 

Oh pelos cardos me comovo evitai-me! – e pintassilgo sim

eu canto o cansaço do canto.

 

Em: “Bisonte” (2016)

 

Pintassilgo europeu

(Karolina Kijak-Dzikońska: artista polonesa)

 

Referência:

 

JONAS, Daniel. O cansaço do canto. In: __________. Os fantasmas inquilinos: poemas escolhidos. Seleção e posfácio de Mariano Marovatto. 1. ed. São Paulo, SP: Todavia, 2019. p. 105.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Octavio Paz - A palavra escrita

O ensaísta mexicano explora os abismos da linguagem e da consciência, apresentando-nos um poema sobre a experiência do nascimento, da queda e do caráter paradoxal da palavra escrita, sempre a nascer de uma traição necessária à mais pura intenção, com o consequente congelamento do fluxo de tal ato criador, derivativo manifesto da exaustão de sua própria magia.

 

A escrita tenciona medir, capturar, dar sentido cronológico ao efêmero, à queda inevitável: nesse salto para o poço da linguagem, o poeta busca capturar um reflexo da realidade que, ao ser fixado, se desintegra e, ainda assim, persiste numa palavra que nem é a última, nem é a verdadeira, mas é a que se tem para podermos nos sustentar sobre o abismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Octavio Paz

(1914-1998)

 

La palabra escrita

 

Ya escrita la primera

Palabra (nunca la pensada

Sino la otra – ésta

Que no la dice, que la contradice,

Que sin decirla está diciéndola)

Ya escrita la primera

Palabra (uno, dos, três –

Arriba el sol, tu cara

En el centro del pozo,

Fija como un sol atónito)

Ya escrita la primera

Palabra (cuatro, cinco –

No acaba de caer la piedrecilla,

Mira tu cara mientras cae, cuenta

La cuenta vertical de la caída)

Ya escrita la primera

Palabra (hay otra, abajo,

No la que está cayendo,

La que sostiene al rostro, al sol, al tiempo

Sobre el abismo: la palabra

Antes de la caída y de la cuenta)

Ya escrita la primera

Palabra (dos, tres, cuatro –

Verás tu rostro roto,

Verás un sol que se dispersa,

Verás la piedra entre las aguas rotas,

Verás el mismo rostro, el mismo sol,

Fijo sobre las mismas aguas)

Ya escrita la primera

Palabra (sigue,

No hay más palabras que las de la cuenta)

 

En: “Salamandra” (1958-1961)

 

Sol ardente

(Jaison Cianelli: artista norte-americano)

 

A palavra escrita

 

Já escrita a primeira

Palavra (nunca a pensada

mas a outra – esta

Que não a diz, que a contradiz,

Que sem dizê-la a está dizendo)

Já escrita a primeira

Palavra (um, dois, três –

Lá em cima o sol, teu rosto

No centro do poço,

Fixo como um sol atônito)

Já escrita a primeira

Palavra (quatro, cinco –

Segue em queda a pedrinha,

Olha o teu rosto enquanto cai, conta

a medida vertical da sua queda)

Já escrita a primeira

Palavra (há outra, lá embaixo,

Não a que está caindo,

A que sustenta o rosto, o sol, o tempo

Sobre o abismo: a palavra

Antes da queda e da conta)

Já escrita a primeira

Palavra (dois, três, quatro –

Verás teu rosto disforme,

Verás um sol que se dispersa,

Verás a pedra entre as águas serpeantes,

Verás o mesmo rosto, o mesmo sol,

Fixo sobre as mesmas águas)

Já escrita a primeira

Palavra (continua,

Não há mais palavras que as da conta)

 

Em: “Salamandra” (1958-1961)

 

Referência:

 

PAZ, Octavio. La palabra escrita. In: __________. La centena: poemas (1935-1968). Barcelona, ES: Barral Editores, sept. 1969. p. 128-129.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Victor Hugo - A Arte e o Povo

Com o seu mais do que conhecido linguajar grandiloquente, lírico, encomiástico, perpassado por imagens cristalinas, imperativos, apóstrofes e reiteradas evocações, o escritor e poeta francês revela-se um combatente otimista, ao proclamar a união indissolúvel entre a criação artística e a luta por liberdade e pela dignidade humana, ou mais amplamente, pelos ideais democráticos e republicanos.

 

Firmado nos pilares da Arte e do Povo, este manifesto poético enaltece aquela como sendo a máxima expressão do espírito humano, fonte de luz, beleza e harmonia, constituindo-se em poderoso instrumento para a libertação intelectual, zetética e política; e este – especialmente o povo francês –, como agente de progresso e de esperança para o mundo, cujo canto lança reptos aos tiranos e conclama a todos a um agir consciente contra as injustiças sociais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Victor Hugo

(1802-1885)

 

L’Art et le Peuple

 

I

 

L’art, c’est la gloire et la joie.

Dans la tempête il flamboie;

Il éclaire le ciel bleu.

L’art, splendeur universelle,

Au front du peuple étincelle,

Comme l’astre au front de Dieu.

 

L’art est un champ magnifique

Qui plaît au coeur pacifique,

Que la cité dit aux bois,

Que l’homme dit à la femme,

Que toutes les voix de l’âme

Chantent en choeur à la fois!

 

L’art, c’est la pensée humaine

Qui va brisant toute chaîne!

L’art, c’est le doux conquérant!

A lui le Rhin et le Tibre!

Peuple esclave, il te fait libre;

Peuple libre, il te fait grand!

 

II

 

Ô bonne France invincible,

Chante ta chanson paisible!

Chante, et regarde le ciel!

Ta voix joyeuse et profonde

Est l’espérance du monde,

Ô grand peuple fraternel!

 

Bon peuple, chante à l’aurore,

Quand le soir vient, chante encore!

Le travail fait la gaîté.

Ris du vieux siècle qui passe!

Chante l’amour à voix basse,

Et tout haut la liberté!

 

Chante la sainte Italie,

La Pologne ensevelie,

Naples qu’un sang pur rougit,

La Hongrie agonisante...

Ô tyrans! le peuple chante

Comme le lion rugit!

 

(7 novembre 1851)

 

Dans: “Les Châtiments” (1853)

 

Um grupo de pessoas

(Anselmo Guinea y Ugalde: pintor espanhol)

 

A Arte e o Povo

 

I

 

Arte! és a gloria, a alegria!

Na tempestade sombria

Dos tempos, – brilhas melhor;

Vibras centelhas divinas,

E a fronte ao povo iluminas

Como um astro sedutor.

 

És um hino majestoso

Que as almas enche de um gozo

Forte, intenso, sem igual;

Cantam-te em êxtase fundo

Todas as vezes do mundo,

Como um coro universal.

 

Por armas tendo as ideias,

Quebras todas as cadeias,

– Tranquilo conquistador;

Não te resiste o mais bravo,

Tornas livre um povo escravo,

E um povo livre – maior.

 

II

 

Oh França invencível, canta!

Teu hino de paz levanta,

De olhos fitos na amplidão;

Ergue a tua voz, oh França,

Tu que és do mundo a esperança,

Povo – os povos irmão!

 

Canta aos albores da aurora,

Une a tua voz sonora

Ao teu perpetuo labor!

Ri do século à vaidade,

Alto canta a liberdade,

E à meia voz teu amor.

 

Canta a Polônia algemada,

Canta Nápoles banhada

No sangue que inunda o chão;

Um hino à Hungria levanta...

– Tiranos! – o povo canta

Rugindo como um leão!

 

(7 de novembro de 1851)

 

Em: “Os Castigos” (1853)

 

Referências:

 

Em Francês

 

HUGO, Victor. L’art et le peuple. In: __________. Oeuvres poétiques complètes. Réunies et présentées par Francis Bouvet. Paris, FR: Jean-Jacques Pauvert Éditeur, 1961. p. 283-284

 

Em Português

 

HUGO, Victor. A arte e o povo. Tradução de Martim Francisco. In: TEIXEIRA, Múcio. Hugonianas: poesias de Victor Hugo traduzidas por poetas brasileiros. 2. ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1885. p. 157-158.