Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 17 de julho de 2026

Álvaro Mutis - Da cidade

O poeta colombiano fala-nos sobre a perda de sentido em relação ao sagrado e ao épico no mundo contemporâneo, sublinhando a amnésia histórica da vida urbana – algo voluntária –, sob a qual o passado jaz oculto nas circunjacências, na natureza, bem assim nos olores e ruídos cotidianos, porém como uma riqueza inútil.

 

Se a cidade esqueceu o seu passado violento e sangrento, o cimento mítico fundacional, nada obstante, ainda persiste de forma sutil no dia a dia, em detalhes aparentemente insignificantes que o poeta logra resgatar para criar uma atmosfera de memória desvanecida: a coluna de fumaça, os mendigos, os altares cobertos de poeira etc.

 

Sob tal perspectiva, sobrevive ele – o mito, bem se entenda – de forma latente, quase clandestina, nos interstícios da urbe – “perdido, irresgatável estéril” –, haja vista que os seus habitantes perderam a capacidade de conectar-se com ele, de extrair-lhe significado ou fecundidade, longe já, por conseguinte, de ser uma fonte de identidade ou de força, senão um eco distante, um resíduo sem potencial para descortinar novas e auspiciosas sendas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Álvaro Mutis

(1923-2013)

 

De la ciudad

 

¿Quién ve a la entrada de la ciudad

la sangre vertida por antiguos guerreros?

¿Quién oye el golpe de las armas

y el chapoteo nocturno de las bestias?

¿Quién guía la columna de humo y dolor

que dejan las batallas al caer la tarde?

Ni el más miserable, ni el más vicioso

ni el más débil y olvidado de los habitantes

recuerda algo de esta historia.

Hoy, cuando al amanecer crece en los parques

el olor de los pinos recién cortados,

ese aroma resinoso y brillante

como el recuerdo vago de una hembra magnífica

o como el dolor de una bestia indefensa,

hoy, la ciudad se entrega de lleno

a su niebla sucia y a sus ruidos cotidianos.

Y sin embargo el mito está presente,

subsiste en los rincones donde los mendigos

inventan una temblorosa cadena de placer,

en los altares que muerde la polilla

y cubre el polvo con manso y terso olvido,

en las puertas que se abren de repente

para mostrar al sol un opulento torso

de mujer que despierta entre naranjos

– blanda fruta muerta, aire vano de alcoba –.

En la paz del mediodía, en las horas del alba,

en los trenes soñolientos cargados de animales

que lloran la ausencia de sus crías,

allí está el mito perdido, irrescatable, estéril.

 

Ponte de Charing Cross

(André Derain: pintor francês)

 

Da cidade

 

Quem vê, à entrada da cidade,

o sangue vertido por antigos guerreiros?

Quem ouve o canglor das armas

e o chapinhar noturno das bestas?

Quem guia a coluna de fumaça e dor

que as batalhas deixam ao cair da tarde?

Nem o mais miserável, nem o mais vicioso,

nem o mais fraco e esquecido dos habitantes

recorda algo desta história.

Hoje, quando ao amanhecer cresce nos parques

o odor dos pinheiros recém-cortados,

aquele aroma resinoso e brilhante

como a lembrança vaga de uma magnífica fêmea

ou como a dor de uma besta indefesa,

hoje, a cidade se entrega por completo

à sua suja neblina e aos seus ruídos cotidianos.

E, no entanto, o mito está presente,

subsiste nos recantos onde os mendigos

inventam uma trêmula cadeia de prazer,

nos altares que a traça corrói

e o pó cobre com manso e terso olvido,

nas portas que se abrem de repente

para mostrar ao sol um opulento torso

de mulher que desperta entre laranjeiras

– fruta macia e morta, ar vão de alcova –.

Na paz do meio-dia, nas horas da aurora,

nos trens sonolentos carregados de animais

que choram a ausência de suas crias,

ali está o mito perdido, irresgatável, estéril.

 

Referência:

 

MUTIS, Álvaro. De la ciudad. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 64. (Coedición “Latinoamericana”)

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Robert Frost - O João-de-Barro

Mais que um poema sobre o joão-de-barro – aliás, um pássaro muito comum aqui pelo centro-oeste brasileiro –, este soneto de Frost é uma discreta elegia por tudo quanto se perde ao longo de uma existência que, inevitavelmente, submete-se a imparáveis mudanças: a força vital com o avanço da idade, as oportunidades baldadas, a fugacidade da beleza etc.

 

Refletir a sério, indagar sempre e existir conscientemente são formas válidas de se manter resiliente o espírito, nesse trânsito pelas sendas minguantes: somos o pássaro que, nalgum dia, haverá de se deparar com o declive no verão avançado, no outono ulterior – com a consequente perda de frescura e de flama –, quando então, contritos, entoaremos redobres ao domínio soberano da natureza, à realidade sem ilusórios arrimos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Frost

(1874-1963)

 

The Oven Bird

 

There is a singer everyone has heard,

Loud, a midsummer and a mid-wood bird,

Who makes the solid tree trunks sound again.

He says that leaves are old and that for flowers

Mid-summer is to spring as one to ten.

He says the early petal-fall is past

When pear and cherry bloom went down in showers

On sunny days a moment overcast;

And comes that other fall we name the fall.

He says the highway dust is over all.

The bird would cease and be as other birds

But that he knows in singing not to sing.

The question that he frames in all but words

Is what to make of a diminished thing.

 

In: “Mountain Interval” (1916)

 

Pintura da série “O joão-de-barro”

(Rubens Matuck: artista paulistano)

 

O João-de-Barro

 

Há um cantor que todos já ouviram

Cantar alto, ave de bosque e de verão

Que faz os sólidos troncos soarem novamente.

Ele diz que as folhas estão velhas e que para as flores

O meio do verão está para a primavera, como um para dez.

Ele diz que a queda da primeira pétala já passou

Quando as flores das peras e cerejas caíram como chuva

Em dias de sol por um momento escurecido;

E vem a queda de folhas que chamamos outono.

Ele dizendo que a poeira da estrada envolve a todos.

O pássaro acabaria e seria como os outros;

Se não soubesse cantando, não cantar.

A pergunta que ele articula sem palavras

É o que fazer do que lá vai sumindo.

 

Em: “Pausa na Montanha” (1916)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

FROST, Robert. The oven bird. In: __________. Collected poems of Robert Frost. Garden City, NY: Halcyon House, 1942. p. 150.

 

Em Português

 

FROST, Robert. O joão-de-barro. Tradução de Marisa Murray. In: __________. Poemas escolhidos de Robert Frost. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Lidador, 1969. p. 40.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Luiza Neto Jorge - O Poema

O poema é um ato de extrema resistência contra a imobilidade e o “deserto”, um “traço de alarme” lançado a partir de um misto de vulnerabilidade e de risco de quem se “cose” com agulhas de sangue para o enunciar: compelido por esse urgente compromisso, diante das ameaças do vazio e da esterilidade, o poeta empreende um combate vital, um autossacrifício encarniçado que se realiza num terreno sobremodo instável.

 

Correndo perigos por todos os lados, o poema, dessarte, lança mão de saídas radicais: decompor-se na insignificância, consumir-se no fogo de sua própria intensidade, fragmentar-se ou empreender uma viagem quase impraticável em direção ao sublime – o que denota, em suma, o potencial que tem para orientar-se a duas sendas antitéticas, vale dizer, ou bem autodestruir-se ou bem aprimorar-se.

 

J.A.R. – H.C.

 

Luiza Neto Jorge

(1939-1989)

 

O Poema

 

I

 

Esclarecendo que o poema

é um duelo agudíssimo

quero eu dizer um dedo

agudíssimo claro

apontado ao coração do homem

 

falo

com uma agulha de sangue

a coser-me todo o corpo

à garganta

 

e a esta terra imóvel

onde já a minha sombra

é um traço de alarme

 

II

 

Piso do poema

chão de areia

 

Digo na maneira

mais crua e mais

intensa

 

de medir o poema

pela medida inteira

 

o poema em milímetro

de madeira

 

ou apodrece o poema

ou se ateia

 

ou se despedaça

a mão ateia

 

ou cinco seis astros

se percorre

 

antes que o deserto

mate a fome

 

Em: “Terra Imóvel” (!964)

 

(Imagem sem créditos)

 

Referência:

 

JORGE, Luiza Neto. O poema. In: __________. Poemas de Luiza Neto Jorge. Antologia por Fernando Cabral Martins. 1. ed. Lisboa, PT: Editorial Presença, dez. 1997. p. 9-10.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Amy Lowell - O Jardim ao Luar

Tudo são imagens neste poema de Lowell, imerso numa atmosfera sensorial entre onírica e mágica, cujo cenário se passa num jardim pincelado com cores, aromas e luzes que refletem a quietude do lugar, somente quebrada por movimentos mínimos provocados pelas andanças de um gato: o agito de um galho e o revolver da água em razão da queda de uma folha.

 

Na parte final do poema, contudo, há uma inflexão que aponta para o reiterado tema da fugacidade da vida, em contraste com a permanência do amor e da memória: a pergunta assente nos derradeiros versos esclarece o desejo silencioso da falante, qual seja, o de que possam eles perdurar tanto quanto os lírios alaranjados que impassíveis observam a sucessão das gerações.

 

J.A.R. – H.C.

 

Amy Lowell

(1874-1925)

 

The Garden by Moonlight

 

A black cat among roses,

Phlox, lilac-misted under a first-quarter moon,

The sweet smells of heliotrope and night-scented stock.

The garden is very still,

It is dazed with moonlight,

Contented with perfume,

Dreaming the opium dreams of its folded poppies.

Firefly lights open and vanish

High as the tip buds of the golden glow

Low as the sweet alyssum flowers at my feet.

Moon-shimmer on leaves and trellises,

Moon-spikes shafting through the snow ball bush.

Only the little faces of the ladies’ delight are alert and staring,

Only the cat, padding between the roses,

Shakes a branch and breaks the chequered pattern

As water is broken by the falling of a leaf.

Then you come,

And you are quiet like the garden,

And white like the alyssum flowers,

And beautiful as the silent sparks of the fireflies.

Ah, Beloved, do you see those orange lilies?

They knew my mother,

But who belonging to me will they know

When I am gone.

 

Gato ao luar junto ao portão do jardim

(Cathy Peterson: artista norte-americana)

 

O Jardim ao Luar

 

Um gato negro entre as rosas,

Phlox, envolto numa bruma lilás sob a lua crescente,

Os doces aromas do heliotrópio e do goivo noturno.

O jardim jaz em plena quietude,

Embriagado pela luz da lua,

Radiante com os perfumes,

A sonhar os sonhos do ópio de suas oclusas papoulas.

As luzes dos pirilampos acendem-se e esvaem-se,

Altas quanto o cimo dos botões da equinácea dourada,

Baixas ao nível das doces flores do alisso a meus pés.

O brilho da lua sobre folhagens e caramanchões,

Os raios da lua a atravessarem o viburno.

Só as corolinhas dos amores-perfeitos que espreitam alertas,

Só o gato, que se esgueira entre as rosas a agitar um galho,

Rompendo a trama regular e quadriculada das sombras,

Como o revolver da água pela queda de uma folha.

Então chegas tu,

Tão serena quanto o jardim,

Tão alva quanto as flores do alisso,

E bela como os lampejos silenciosos dos pirilampos.

Ah, Querida, vês aqueles lírios alaranjados?

Conheceram a minha mãe,

Mas a quem dos meus haverão de conhecer,

quando eu aqui já não estiver?

 

Referência:

 

LOWELL, Amy. The garden by moonlight. In: YAKICH, Mark (Ed.). The poetry reader: an anthology. 1st publ. New York, NY: Bloomsbury Publishing Inc., 2025. p. 70.