Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Margaret Atwood - Ele é visto pela última vez

Atwood constrói uma imagem do parceiro masculino em íntima conexão com a morte, pormenorizando-o não como uma presença aterradora ou caricata, mas como um fenômeno íntimo, personalizado, singular, intransferível e quase cerimonial: sem ser abstrato nem genérico, comporta-se como se fosse um objeto que se aproxima – como um presente ou uma oferenda –, algo que, sempre com feições renovadas, move-se resolutamente na direção da falante.

 

Diante de tais constatações, a voz poética resigna-se ao fato de que nada pode fazer para atrasar ou apressar a sua chegada, pois que, sendo ele perseverante quanto ao destino a alcançar, mantém-se inquebrantável na consecução de seu intento de alcançar segurança, até convertê-lo em fato consumado, em hora e local indefinidos!

 

J.A.R. – H.C.

 

Margaret Atwood

(n. 1939)

 

He is last seen

 

1

 

You walk towards me

carrying a new death

which is mine and no-one else’s;

 

Your face is silver

and flat, scaled like a fish

 

The death you bring me

is curved, it is the shape

of doorknobs, moons

glass paperweights

 

Inside it, snow and lethal

flakes of gold fall endlessly

over an ornamental scene,

a man and woman, hands joined and running

 

2

 

Nothing I can do will slow you

down, nothing

will make you arrive any sooner

 

You are serious, a gift-bearer,

you set one foot

in front of the other

 

through the weeks and months, across

the rocks, up from

the pits and starless deep

nights of the sea

 

towards firm ground and safety.

 

Entrada para o Parque Público em Arles

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Ele é visto pela última vez

 

1

 

Você caminha em minha direção

carregando uma nova morte

que é minha e de mais ninguém;

 

Seu rosto é prata

e plano, escamoso como um peixe

 

A morte que você me traz

é curvada, é do formato

de maçanetas, pesos de papel

luas de vidro

 

Dentro dela, neve e flocos

letais de ouro caem eternamente

sobre uma cena decorativa,

um homem e uma mulher, de mãos dadas e correndo

 

2

 

Nada do que eu possa fazer vai

desacelerar você, nada

fará você chegar mais cedo

 

Você é sério, um portador de dons,

você põe um pé

na frente do outro

 

ao longo de semanas e meses, entre

as rochas, subindo

fossos e noites profundas

sem estrelas no mar

 

em direção à terra firme e à segurança.

 

Referência:

 

ATWOOD, Margaret. He is last seen / Ele é visto pela última vez. Tradução de Stephanie Borges. In: __________. Políticas do poder: poemas. Edição bilíngue. Tradução de Stephanie Borges. Introdução de Jan Zwicky. Em inglês: p. 138 e 140; em português: p. 139 e 141.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Augusto Meyer - A elegia dos salgueiros

Mediante uma imagística que, buscando captar a atmosfera emocional do sujeito lírico – suas dores e tristezas –, recorre a elementos do mundo natural, o poeta gaúcho imerge no universo lírico e melancólico de um amor não correspondido, uma experiência afetiva marcada pela desilusão que bem reflete a memória de um sentimento perdido.

 

Os salgueiros inclinados sobre as águas de um açude são o mais evidente marco do cenário então idealizado, recordando-nos do fluir incessante da vida e da passagem inexorável do tempo: entre nébulas de uma aura nostálgica e etérea, revolvem-se as recordações de feridas não curadas pelo transcurso das horas, transigindo-se sobre a incerteza e o enigma dos frágeis sentimentos humanos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Meyer

(1902-1970)

 

A elegia dos salgueiros

 

Há nuvens róseas sobre a colina.

A tarde é loura.

Folhas caíam dos plátanos, girando

em remoinhos na poeira.

 

Os chorões são como prantos de folhagem,

como um gesto verde sobre as águas lisas,

uma bênção de folhas...

 

Na mesma tarde loura, há muitos anos,

eu amei os teus olhos de águas lisas,

eu fiquei debruçado, pensativamente,

como um salgueiro sobre as águas de um açude,

como um salgueiro – sobre a tua vida.

 

E eras indiferente

como as águas.

Mas eu vira o meu reflexo, trêmulo, trêmulo,

a ilusão da minha dor na tua alma.

 

E passavas, e fugias

como as águas.

 

Mas eu ouvira, entre os ramos verdes,

as canções de esperança;

era o meu sonho deixar nas águas mansas

cair a oferta silenciosa das folhas.

 

E sorrias, e passavas

como as águas.

 

Vai longe, no além, a tarde loura;

folhas caíam dos plátanos, girando

em remoinhos, na poeira.

 

Olhos os salgueiros, numa cisma que flutua

sobre as águas do mistério...

 

Alguma cousa misteriosa

vai levando a nossa vida como as folhas

sobre as águas...

 

Salgueiro-chorão e nenúfares

(Lynne Albright: artista norte-americana)

 

Referência:

 

MEYER, Augusto. A elegia dos salgueiros. In: AYALA, Walmir (Seleção e organização). Poemas de amor: Shakespeare, Camões, Machado, Florbela, Lorca e outros 115 poetas de ontem e de hoje. Edição revista e atualizada por André Seffrin. 4. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2022. p. 41-42. (“Histórias de Amor”)

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Eduardo Anguita - Transição para o fim

Vivemos uma experiência de trânsito contínuo até o fim a que todo ser humano está exposto – a morte –, e é desse caminhar até os seus umbrais que nos fala o poeta chileno, quando se vão, paulatinamente, instalando rigidezes e desgastes físicos em nosso corpo, fazendo-nos entrar em decadência, notoriamente seguido pelos efeitos de um quadro de menor mobilidade, típico da velhice.

 

E nem só do físico consiste o nosso declínio: experiências intensas ou traumáticas, ainda que invisíveis, pesam como cinzas em nossas vidas. Afinal, podemos estar fisicamente presentes no mundo, mas agarrados aos nossos próprios temores e recordações, ao mesmo tempo que expostos à herança coletiva de dor e de provações – quer dos que nos compõem o entorno, quer, mais amplamente, da própria humanidade –, e todas essas linhas de força induzem cansaço e letargia progressivos sobre o espírito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Anguita

(1914-1992)

 

Tránsito al fin

 

La puerta puede abrirse,

puede entrar el ladrido del perro,

sin que necesitemos saber nada.

 

Mientras no entre el viento en nosotros,

cuando tenemos los ojos viajando entre los muebles

de la diversidad de los miedos de cada muerto,

podemos reír en la espuma de lo obscuro.

 

La seguridad del que abre su vestido privado,

dejando mostrar las huellas blancas de los delirios,

con un poco de fuerza se logra concentrar la ceniza invisible,

la sombra, mi muerte particular.

 

Piedras en los cabellos, ya sólido su silencio,

pasos de las manos solas en el cuerpo.

Es así como amamos el aire de la estatua,

el aire que nos empuja a la vejez.

 

El hombre camina a uma habitación semejante,

y se coloca el traje que le conduce para siempre.

 

O portal da confiança

(Boris Kos: artista esloveno)

 

Transição para o fim

 

A porta pode se abrir,

pode entrar o uivo do cão,

sem que precisemos saber de nada.

 

Enquanto o vento não nos penetrar,

impondo aos olhos uma viagem entre os móveis

da diversidade dos medos de cada morto,

podemos fruir o riso em meio à espuma da escuridão.

 

A segurança daquele que expõe as suas vestes íntimas,

deixando à mostra as brancas marcas dos delírios;

com pouco esforço, logra-se concentrar a cinza invisível,

a sombra, a minha morte particular.

 

Pedras nos cabelos, seu silêncio já sólido,

passos das mãos solitárias no corpo.

É assim que amamos o ar da estátua,

o ar que nos empurra para a velhice.

 

O homem se encaminha a um aposento semelhante

e se veste com o traje que o conduz para sempre.

 

Referência:

 

ANGUITA, Eduardo. Tránsito al fin. In: FITTS, Dudley (Ed.). Antología de la poesía americana contemporánea / Anthology of contemporary latin-american poetry. A trilingual compilation: Spanish & Portuguese x English. New York, NY: A New Directions Book; London, EN: The Falcon Press, 1947. p. 554.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Innokenti Annenski - Poesia

O poeta russo aborda a essência mesma da poesia como uma força misteriosa, ambígua e possante, com capacidade para fundir o divino com o humano, o tangível com o intangível, o belo com o inquietante, o harmonioso com o dissonante, convertendo-se num meio para se alcançar beleza e verdade neste mundo em constantes transformações.

 

A poesia não oferece fácil apreensão, tampouco respostas definitivas, sobretudo porque, ao perseguir algo que não é estático ou previsível – como a beleza –, parece sempre estar em movimento, incorporada a um ato criativo em cujo espaço se desenvolvem conflitos ou lutas internas entre os contingentes laivos de inspiração e as circunstâncias caóticas da existência humana.

 

Os poemas vindos à lume, por conseguinte, proporcionam sínteses válidas para cada situação, contexto ou momento, sínteses essas passíveis de superação por outras tantas que, em sequência, se desatam como ondas pelo vasto e incessante mar da poesia.

 

J.A.R. – H.C.

 

Innokenti Annenski

(1855-1909)

 

Поэзия

 

Сонет

 

Творящий дух и жизни случай

В тебе мучительно слиты,

И меж намеков красоты

Нет утонченней и летучей...

 

В пустыне мира зыбко-жгучей,

Где мир мираж, влюбилась ты

В неразрешенность разнозвучий

И в беспокойные цветы.

 

Неощутима и незрима,

Ты нас томишь, боготворима,

В просветы бледные сквозя,

 

Так неотвязно, неотдумно,

Что, полюбив тебя, нельзя

Не полюбить тебя безумно.

 

Alegoria da Poesia

(Michele Desubleo: pintor flamengo)

 

Poesia

 

Soneto

 

O espírito criador e o acaso da vida

Em ti dolorosamente amalgamados,

E em meio a indícios de beleza

Nada mais refinado e inconstante…

 

No vazio do mundo incerto e ardente,

O mundo é – uma miragem, te apaixonaste

Por sons dissonantes

E flores inquietas.

 

Intangível e recôndita,

Tu nos atormentas, nos reverencias,

Através de pálidas frestas,

 

Tão impulsiva e absurda,

Que, ao te amarmos, é impossível

Não te amar loucamente.

 

Referência:

 

ANNENSKI, Innokenti. Поэзия / Poesia. Tradução de Verônica Filíppovna. (n.t.) Revista Literária em Tradução. Florianópolis, SC. Edição bilíngue semestral, ano 14, n. 28, vol. ilustrado, jun. 2024. Em russo: p. 79; em português: p. 90. Disponível neste endereço. Acesso em: 10 fev. 2026.