Neste dia dedicado às
mães, trago aos leitores deste blog a versão ao português deste belo poema da
poetisa norte-americana, a rememorar os momentos por ela vivenciados com a
própria mãe, dispensados a confortar os outros frente à dor e ao sofrimento, o
que torna mais ostensiva a mensagem que pretende transmitir, vale dizer, a da
importância do cultivo da empatia, da generosidade e da compaixão.
Os versos transmitem
a ideia de que muito do amor se manifesta por intermédio de uma prática
concreta e transformadora, arraigada nos gestos quotidianos – muitas vezes transmitidos
de geração a geração – e nos rituais comunitários atrelados à ética da
responsabilidade e do convívio solidário – forma de linguagem que se evidencia
quer pela força silenciosa da presença, quer ainda pelos pequenos gestos de bem-querer,
refertos de eficácia simbólica.
J.A.R. – H.C.
Julia Kasdorf
(n. 1962)
What I learned from
my mother
I learned from my
mother how to love
the living, to have
plenty of vases on hand
in case you have to
rush to the hospital
with peonies cut from
the lawn, black ants
still stuck to the
buds. I learned to save jars
large enough to hold
fruit salad for a whole
grieving household,
to cube home-canned pears
and peaches, to slice
through maroon grape skins
and flick out the
sexual seeds with a knife point.
I learned to attend
viewings even if I didn’t know
the deceased, to
press the moist hands
of the living, to
look in their eyes and offer
sympathy, as though I
understood loss even then.
I learned that whatever
we say means nothing,
what anyone will
remember is that we came.
I learned to believe
I had the power to ease
awful pains
materially like an angel.
Like a doctor, I
learned to create
from another’s
suffering my own usefulness, and once
you know how to do
this, you can never refuse.
To every house you
enter, you must offer
healing: a chocolate
cake you baked yourself,
the blessing of your
voice, your chaste touch.
Colhendo flores
(Helen Galloway
McNicoll: pintora canadense)
O que aprendi com minha
mãe
Aprendi com minha mãe
a como amar
os vivos, a ter
muitos vasos à mão
para o caso de ter
que correr ao hospital
com peônias cortadas
à céspede, formigas negras
ainda agarradas aos
botões. Aprendi a guardar frascos
grandes o suficiente
para guardar salada de frutas
para toda uma família
enlutada, a cortar peras e pêssegos
enlatados em cubos, a
remover a pele granadina das uvas
para extrair as
sementes sexuadas com a ponta de uma faca.
Aprendi a comparecer
aos funerais mesmo sem conhecer
os falecidos, a
apertar as mãos úmidas
dos vivos, a olhar em
seus olhos e a lhes oferecer
compaixão, como se já
nessa altura compreendesse a perda.
Aprendi que, digamos
o que digamos, isso nada significa,
pois o que todos hão
de recordar é que ali estivemos.
Aprendi a acreditar
que, como um anjo, tinha o poder
de aliviar dores
terríveis de modo palpável.
Como um médico, a
partir do sofrimento alheio, aprendi
a consolidar o meu
próprio préstimo, e uma vez que
se saiba como o
fazer, já não se pode recusá-lo.
Em cada lar que
entrares, deves oferecer
a cura: um bolo de
chocolate que tu mesmo fizeste,
a bênção da tua voz,
o teu toque casto.
Referência:
KASDORF, Julia. What I learned from my mother. In: KEILLOR, Garrison (Sel. & Intr.). Good poems. New York, NY: Penguin, 2003. p. 156.
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