A poetisa
norte-americana – ativista política participante do “Renascimento do Harlem” e
da luta pelos direitos civis e contra o racismo – examina nestes versos questões
relacionadas à identidade e à função da mulher em sociedade: trata-se, com efeito,
de uma crítica social à imposição de papéis tão apenas domésticos às mulheres,
contrariando suas intenções de participar em assuntos com maiores implicações,
em especial – como se depreende dos versos – no contexto de um tipo de conflito
que a todos atinge, vale dizer, a guerra.
A costura,
reiteradamente qualificada como um “ritual inútil”, simboliza a restrição da
mulher ao âmbito privado, insuspeita metáfora para a paciência forçada e a
repressão dos seus desejos, configuração essa a contrastar com as expectativas
sociais mais amplas atribuídas ao mundo masculino, cujos papéis vocacionam-se a
firmar na História os nomes e os feitos mais marcantes daqueles que obtêm maior reconhecimento e notoriedade.
J.A.R. – H.C.
Alice Moore
Dunbar-Nelson
(1875-1915)
I Sit and Sew
I sit and sew – a
useless task it seems,
My hands grown tired,
my head weighed down with dreams –
The panoply of war,
the martial tred of men,
Grim-faced,
stern-eyed, gazing beyond the ken
Of lesser souls,
whose eyes have not seen Death,
Nor learned to hold
their lives but as a breath –
But – I must sit and
sew.
I sit and sew – my heart aches with desire –
That pageant terrible, that fiercely pouring fire
On wasted fields, and writhing grotesque things
Once men. My soul in pity flings
Appealing cries, yearning only to go
There in that holocaust of hell, those fields of
woe –
But – I must sit and sew.
The little useless
seam, the idle patch;
Why dream I here
beneath my homely thatch,
When there they lie
in sodden mud and rain,
Pitifully calling me,
the quick ones and the slain?
You need me, Christ!
It is no roseate dream
That beckons me – this
pretty futile seam,
It stifles me – God,
must I sit and sew?
Mulher costurando à
luz de lamparina
(Harriet Backer:
pintora norueguesa)
Sento-me e Costuro
Sento-me e costuro –
uma tarefa vã, ao que parece,
Minhas mãos cansadas,
minha cabeça repleta de sonhos –
A panóplia da guerra,
a marcha militar dos homens,
De rostos sombrios,
olhares severos, a fitarem além do alcance
De almas menores,
cujos olhos não divisaram a Morte,
Nem aprenderam a
manter suas vidas senão como um sopro –
Mas – devo sentar-me
e costurar.
Sento-me e costuro – dói-me
com desejos o coração –
Aquele terrível préstito,
aquele fogo impetuoso que se derrama
Sobre campos devastados,
e coisas grotescas e retorcidas
Que uma vez foram
homens. Minha alma compadecida lança
Gritos suplicantes, almejando
simplesmente unir-se
Àquele holocausto
infernal, àqueles campos de aflição –
Mas – devo sentar-me
e costurar.
A modesta e vã
costura, o ocioso remendo;
Por que eu a sonhar
aqui sob o meu humilde teto de palha,
Quando jazem ali, na
lama encharcada e na chuva,
Chamando-me
lastimosamente, os vivos e os mortos?
Precisas de mim, ó
Cristo! Não é um sonho cor-de-rosa
Que me acena – esta
costura bela e fútil
É o que me tolhe –
Deus, devo sentar-me e costurar?
Referência:
DUNBAR-NELSON, Alice
Moore. I sit and sew. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of
twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p.
28.
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