Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 1 de setembro de 2026

Rudolf Meyer - O Peregrino do Universo

Nestes versos de rimas emparelhadas, Meyer oferece-nos uma visão esperançosa e dinâmica da existência, na qual a morte consistiria, tão apenas, numa porta a mais, na longa sequência de perpétua evolução espiritual à qual estaríamos devotados: seríamos como que viajantes cósmicos, almas em constante crescimento, purificadas através das experiências e fortalecidas por meio de sucessivos embates espirituais, num ciclo sagrado de partidas e regressos, até alcançarmos a união final com o Eterno.

 

Assoma com ênfase a abordagem antroposófica do autor, presente em seus escritos, um dos quais o poema em questão, todo ele demarcado por simbolismos planetários à volta de ideias como as de inteligência e comunicação, de renovação e rejuvenescimento do espírito, de fortalecimento para a luta, de expansão a planos superiores de sabedoria, até que se venha a alcancar a compreensão acerca da unidade de todos os opostos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rudolf Meyer

(1896-1985)

 

Der Weltenpilger

 

Tragt ihr mich einst hinaus, sprecht nicht: “Zur ew’gen Ruh” –

Legt mir zum Pilgerkleid ins Grab zwei Wanderschuh!

Drei Tage halt ich Rast. Dann schreit ich meinen Weg.

Hie Gletscher und hie Glut: schmal ist der Geistersteg.

Die Höhenluft ist gut; ich werde bald gesunden.

Mein Schritt steigt erdbefreit durch sieben Sternenrunden.

Ich trug ein Erdgewand; es war nicht fleckenrein.

Im Tau der Mondenflut wird’s bald geläutert sein.

Geh ich den Büßerpfad, getreu der Silberspur –

Leiht meinem Wanderschritt die Flügelschuh Merkur.

Des Weges Müdigkeit weicht frohem Geisterschwung:

Der Venus Gnade strahlt und macht den Pilger jung.

Wie Rosen glutverklärt, wie Lilien kinderrein –

Kehrt durch das Sonnentor die Menschenseele ein.

Der Sonnen-Engel winkt: “Empfange Speer und Schild!

Dich ruft zum Weltenkampf das weite Marsgefild.

Willst Du, ein Menschengeist, zum Weltengeist erwachen –

Am Glanz des Jupiter mußt du dein Licht entfachen!”

Der Tod und Leben eint, Saturn wahrt ew’gen Hort,

Aus Schweigen reift Geburt: “lm Anfang war das Wort.”

Das Weltenwort erklingt aus allen Sternengründen,

Die ew’ge Geistgestalt dem Sterben zu entbinden.

So wächst des Menschen Geist, am Gotteslicht verklärt,

Bis er im Liebesdrang zur Erde wiederkehrt.

Er kennt nicht “ew’ge Ruh” – ihm ziemt das Pilgerkleid,

Dazu zwei Wanderschuh: zum Schicksalsgang bereit!

 

A transformação interior

(Ivan Car: artista croata)

 

O Peregrino do Universo

 

Ao me levarem de vez, não digam “à eterna morada!”:

coloquem, junto à mortalha, sapatos de caminhada!

Três dias descansarei. Depois, seguirei meu destino.

Aqui geleira, ali brasas: árduo é o caminho ao divino.

O ar das alturas faz bem; em breve estarei sem mazelas.

Meu passo liberto ascende por sete cirandas de estrelas.

Veste terrena eu usava, que não era imaculada;

o orvalho, ao plenilúnio, já a fará purificada.

Se eu trilhar a penitência, fiel ao argênteo rastro,

Mercúrio emprestará, a meus pés, áleos sapatos.

O cansaço do caminho recua ao rumor divino:

A graça de Vênus brilha e remoça o peregrino.

Fulgurante como a rosa, como os lírios inocente,

a alma humana transpõe o portal do Sol ardente.

O anjo solar acena: “Escudo e lança maneja!

O campo de Marte chama-te à universal peleja.

P’ra no Espírito do Cosmo, humano espírito, acordares,

teu lume no brilho de Júpiter é preciso inflamares!”

Na morte e na vida cuida Saturno do abrigo eterno;

silêncio matura o nascer: “No princípio era o Verbo”.

De estelares profundezas soa o Verbo Universal

p’ra desenlaçar da morte a eterna forma espiritual.

Assim o espírito humano à luz de Deus vem crescer,

até que o impulso do amor à Terra o reinduza a descer.

“Eterna morada” ignora quem na veste é peregrino,

com sapatos de jornada, apto à trilha do destino!

 

Referências:

 

Em Alemão

 

MEYER, Rudolf. Der weltenpilger. In: BURKHARD, Gudrun. Das leben in die hand nehmen: arbeit an der eigenen biographie. Vorwort von Dr. Michaela Glöckler. 9. aufl. Stuttgart, DE: Verlag Freies Geistesleben. 2002. s. 194. (“Praxis Anthroposophie”; b. 17)

 

Em Português

 

MEYER, Rudolf. O peregrino do universo. Tradução de Jacira Cardoso. In: BURKHARD, Gudrun. Tomar a vida nas próprias mãos: como trabalhar na própria biografia o conhecimento das leis gerais do desenvolvimento humano. 2. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Antroposófica, 2004. p. 168.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

Gilberto Amado - Declaração de princípio

Num mundo polarizado por ideologias que pregam a supremacia do Estado, da classe ou da raça, o diplomata sergipano ergue a bandeira do indivíduo como valor supremo, numa “declaração de princípio” humanista, infensa aos totalitarismos e defensora, em contraposição, da integridade da consciência individual perante as “grandes abusões” da história.

 

Sob tal contexto, rejeita enfaticamente, por meio de sátiras, as figuras políticas dominantes em nosso meio: o comunista coletivista, o fascista manipulador, o liberal reacionário, o “cacique autoritário”, acusando-os de intoxicar e embrutecer a opinião pública com as suas eternas ilusões. E por fim, sendo advogado o autor do poema, não haveria como deixar de evocar a tradição do direito romano, idem, da filosofia estoica e do valor da pessoa humana diante da sociedade, para enfatizar o lastro daquela herança civilizacional, pautada pelos princípios da razão e da lei.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gilberto Amado

(1887-1969)

 

Declaração de princípio

 

Que o homem de classe

Venha de face

Lutar na liça

Pela justiça

Aceito a premissa.

 

Que grite o operário

Seu ódio gregário

E clame vingança

Ou tenha esperança,

 

Que o técnico indique

A indústria fabrique

A máquina construa

A obra que é sua.

 

Mas que tal não implique

Que o operário abdique

No Estado-Patrão

E se estagne num dique

A multidão.

 

Que o político

Intoxique

Mistifique

Bestifique

A opinião

E prolifique

A eterna ilusão.

 

Que o jovem na lista

Do exército fascista

Não saia da pista

Da marcha prevista.

 

O comunista trabalhe

Conspire, atrapalhe

Os regimes vigentes

Nos dois continentes.

 

Que o liberal

Entisique

Retardatário

E de todo se aplique

A formar uma clique

Que o ossifique

Em reacionário.

 

Que o próprio cacique

Autoritário

Atrabiliário

Se ananique

E reivindique

Lugar seguro

Num quarto escuro

Do falanstério

Totalitário.

 

Que mesmo se oblique

E. se arrebique

Sob outra forma

A solução

E se propague

E. tudo alague

A grande abusão:

 

“Morra o individuo

Execrável resíduo!”’

 

Este credo vão

Não o aceito, não.

Inflexível, sereno

Não bebo o veneno.

 

Declaro com calma:

Guardo minha alma

Herdada de Roma

Morro com ela.

Esta parcela

Não entra na soma.

 

Retrato de um homem

(Erich Heckel: pintor alemão)

 

Referência:

 

AMADO, Gilberto. Declaração de princípio. In: __________. Poesias. Rio de Janeiro, RJ: Livraria José Olympio Editora, 1954. p. 223-227.

domingo, 30 de agosto de 2026

Georges Bataille - A experiência interior

Nesta incisiva elocução poética, Bataille esquematiza uma cartografia do terreno que leva até o sagrado, através da “noite escura da alma”, da negação do eu e da repulsão visceral, num processo de dilaceração que se traduz pela embriaguez dos limites, pelo desejo ardente de morte para tudo o que se foi obrigado a ser, visando ao objetivo maior de encontrar vida em sua forma mais vertiginosa e verdadeira.

 

Tem-se aí uma experiência que busca transcender as raias da razão, da linguagem, da lógica e do núcleo da própria identidade, num movimento de libertação que se pretende na mais absoluta imanência, regredindo-se a um estado indiferenciado, dissolvendo-se ao informe e ao que escapa a qualquer controle humano: eis o “espanto desejável” de que, desconcertantemente, nos fala o poema.

 

J.A.R. – H.C.

 

Georges Bataille

(1897-1962)

 

L’expérience intérieure (1) (2)

 

Je ne veux plus, je gémis,

je ne peux plus souf rir

ma prison.

Je dis ceci

amèrement:

mots qui m’étouf ent,

laissez-moi,

lâchez-moi,

j’ai soif

d’autre chose.

Je veux la mort

non admettre

ce règne des mots,

enchaînement

sans ef roi,

tel que l’ef roi

soit désirable;

ce n’est rien

ce moi que je suis,

sinon

lâche acceptation

de ce qui est.

Je hais

cette vie d’instrument,

je cherche une fêlure,

ma fêlure,

pour être brisé.

J’aime la pluie,

la foudre,

la boue,

une vaste étendue d’eau,

le fond de la terre,

mais pas moi.

Dans le fond de la terre,

ô ma tombe,

délivre-moi de moi,

je ne veux plus l’être.

 

Velho adormecido

(Abraham van Dijck: pintor holandês)

 

A experiência interior

 

Eu não quero mais, eu gemo,

eu não posso mais sofrer

minha prisão.

Digo isso

amargamente:

palavras que me sufocam,

deixem-me,

soltem-me,

tenho sede

de outra coisa.

Quero a morte

não admitir

este reino das palavras,

encadeamento

sem medo,

tal como o medo

seja desejado;

isto não é nada

sou o que sou,

caso contrário

aceitação covarde

do que é.

Odeio

esta vida de instrumento,

busco uma fissura,

a minha fissura,

para ser quebrado.

Amo a chuva,

o relâmpago,

a lama,

uma vasta extensão de água,

as profundezas da terra,

mas não a mim.

Nas profundezas da terra,

ó minha sepultura,

liberte-me de mim mesmo,

não quero mais ser.

 

Notas:

 

(1). Georges Bataille deu o subtítulo de “Somme athéologique” (“Suma ateológica” aos três volumes que constituem o centro de sua obra e que aparecem sucessivamente na seguinte ordem: “L’expérience intérieure” (“A experiência interior”), em 1943; “Le coupable” (“O culpado”), em 1944; e “Sur Nietzsche” (“Sobre Nietzsche”), em 1945. (BATTAILE, 2015, p. 13)(N.T.)

 

(2). Este é apenas o primeiro poema que aparece na obra “L’expérience intérieure”, do autor francês.

 

Referência:

 

BATTAILE, Georges. L’expérience intérieure / A experiência interior. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: __________. Poemas. Edição bilíngue: francês x português. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2015. Em francês: p. 96 e 98; em português: p. 97 e 99. (“Fora de Série”)

sábado, 29 de agosto de 2026

Olegário Mariano - O Enamorado da Vida

Neste canto vitalista, pejado de um panteísmo sensorial, o poeta, servindo-se do mote anafórico insculpido no título do próprio poema, dá-nos algumas sugestões de como temos de viver, posicionando-nos “entre o mar e a montanha” de nossa própria existência, para possibilitar a expressão de um desejo irrefreável, a toda hora a nos incitar à ação, à liberdade e aos desafios.

Esse amor à vida leva-nos a abrir os pulmões para sorver o êxtase do mundo, a enfrentar as tormentas com a alegria de um potro selvagem, a guardar no olhar toda a beleza com que tivermos a sorte de nos deparar: são os sentidos do coração completamente abertos a uma comunhão total com o universo natural, os terrenos prazeres aí compreendidos.

J.A.R. – H.C.

 

Olegário Mariano

(1889-1958)

 

O Enamorado da Vida

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Para sentir melhor o céu na minha casa,

Plantei a minha casa entre o mar e a montanha.

Se as ondas vêm rugir a meus pés, a horas mortas,

A lua desce em mim numa carícia estranha.

 

Bebo as estrelas de mais perto... Abraço

Todo o corpo do céu num simples movimento

E, quando chove, sinto a torrente das chuvas

Trazendo da montanha, em seu penacho de águas,

Frondes, ninhos, calhaus e pássaros ao vento.

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Amo-a por tudo quanto ela me pôde dar;

A água fresca da fonte, a carícia da sombra,

E até a calma silenciosa e mansa

Desse crepúsculo que baixa devagar...

 

Em cada mão de folha a minha boca bebe

O orvalho da manhã como um suave licor.

E abro os pulmões, sorvendo em tudo o que me envolve

Essa onda de volúpia e de êxtase e perfume

Que vem do amor e que me leva para o amor.

 

Eu sou um enamorado da Vida!

Tenho ímpetos de voar, de galgar, de vencer

Colinas, penetrar o coração dos vales,

Relinchando feliz como um potro selvagem

Que solta as crinas no ar para melhor correr.

 

Ou retesar as asas brancas de gaivota

E atirar-me na fúria incrível das procelas.

Beber em haustos toda a glória do mar alto,

Rolar no bojo dos batéis desarvorados

Ou as asas enxugar no alvo lenço das velas.

 

Vida! Quero viver todas as tuas horas,

As que prendi na mão e as que nunca alcancei.

Ser um pouco de ti no espelho das paisagens

Para, quando morrer, levar, dentro dos olhos,

A beleza imortal de tudo quanto amei.

 

Em: “O Enamorado da Vida” (1937)

 

Proudhon e suas filhas

(Gustave Courbet: pintor francês)

 

Referência:

 

MARIANO, Olegário. O enamorado da vida. In: __________. Poesia. Organização e prólogo de Herman Lima. Rio de Janeiro, GB: Livraria Agir Editora, 1968. p. 75-76. (Coleção “Nossos Clássicos”; v. 97)