Aqui, um militar da reserva com a cabeça no lugar.
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Mais que um poema
sobre a natureza misteriosa e inquietante dos gatos, estes versos são uma bem-humorada
reflexão sobre a introspecção e a autoconsciência, a partir de um olhar externo,
persistente e inescrutável, que obriga o ser humano a voltar-se para dentro de
si mesmo, sobretudo em seus momentos mais vulneráveis ou íntimos.
Perceba-se que o autor
norte-americano, ao categorizar os olhares dos bichanos, está, na realidade
categorizando os incômodos que provocam nos humanos: os astutos, ícones da
duplicidade e da falta de confiança, com os seus olhares furtivos, mas
constantes; os inseguros, que nos levam a sentir pena ou desconforto; e os
diretos, frontais e intensos, cujos olhares não podem ser ignorados, uma vez
que paralisantes, forçando-nos à autorreflexão.
A pergunta final, arrogando
a natureza catalisadora (talvez involuntária) do olhar felino – ainda que o
falante negue explicitamente que o gato seja uma consciência moral – coloca-nos
frente ao espelho de nossas próprias inseguranças, impondo-nos o encargo de questionar
nossas ações e pensamentos, ou ainda melhor, obrigando-nos a manter em estado
de alerta as nossas antenas, quer para o que contemplamos no mundo externo, quer
para o que nos habita os escaninhos mais abstrusos do ser.
J.A.R. – H.C.
John L’Heureux
(1934-2019)
The Thing about Cats
Cats hang out with
witches quite a lot;
that’s not it.
The thing about cats
is
they’re always looking
at you.
Especially when you’re
asleep.
Some cats pretend
they’re not looking
until you’re not
looking.
They are not to be
trusted.
Some cats scowl
because they’re wearing
imitation fur. They
feel inferior.
Some other cats look
at you straight on
so that you can’t
drink your drink
or make love
but keep thinking
that cat’s looking at
me straight on.
But all cats do the
same:
they look at you
and you look out
and in.
A cat is not a
conscience; I’m not
saying that.
What I’m saying is
why are they looking?
Um gato malhado
(Abraham Cooper:
pintor inglês)
O Que Se Passa com os
Gatos
Os gatos convivem
bastante com bruxas;
mas não é esse o
ponto.
O problema com os
gatos é
que sempre estão a te
olhar.
Especialmente
enquanto dormes.
Alguns gatos fingem
que não te olham
até que deixes de os
olhar.
Eles não são
confiáveis.
Alguns gatos franzem
o cenho porque usam
peles artificiais. Sentem-se
inferiores.
Outros te olham
fixamente,
de sorte que não consigas
sorver a tua bebida
ou fazer amor,
mas que fiques a
pensar
que mantêm-se a te
olhar de frente.
Contudo, todos os
gatos fazem o mesmo:
olham para ti
e tu olhas para fora
e para dentro.
Um gato não é uma
consciência; não estou
dizendo isso.
O que estou dizendo é:
por que te olham?
Referência:
L’HEUREUX, John. The thing
about cats. In: FRAGOS, Emily (Sel. & Ed.). The great cat: poems
about cats. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2005. p. 57-58. (Everyman’s Library
Pockets Poets)
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Neste poema com perceptíveis
matizes surrealistas, o autor francês sugere que somente através da confrontação
total com a escuridão – tocando literalmente a “tristeza do mundo” – podemos
aceder a uma compreensão superior, por intermedido da qual, numa experiência
limite, a dor se transfigura no dom da caridade e a morte celebra a infinitude
do ser.
É a poética do sagrado
violento, de transgressões e de excessos, da libertação e do êxtase que nascem
do reconhecimento do horror – tantas vezes explorado por Bataille em seu mundo
do informe e do abjeto –, aqui plasmado na imagística sombria de pântanos e
animais imundos, num estado de degradação que mal espera por revelar um inaudito
flanco luminoso.
J.A.R. – H.C.
Georges Bataille
(1897-1962)
Je rêvais de toucher
la tristesse du monde
Je rêvais de toucher
la tristesse du monde
au bord désenchanté
d’un étrange marais
je rêvais d’une eau
lourde où je retrouverais
les chemins égares de
ta bouche profonde
j’ai senti dans mes
mains un animal immonde
échappé à la nuit
d’une affreuse forêt
et je vis que c’était
le mal dont tu mourais
que j’appelle en
riant la tristesse du monde
une lumière folle un
éclat de tonnerre
un rire libérant ta
longue nudité
une immense splendeur
enfin m’illuminèrent
et je vis ta douleur
comme une charité
rayonnant dans la
nuit la longue forme claire
et le cri de tombeau
de ton infinité.
O pranto do mundo
(Amelia Oleś: artista polonesa)
Eu sonhava em tocar a
tristeza do mundo
Eu sonhava em tocar a
tristeza do mundo
à margem desencantada
de um estranho pântano
eu sonhava com uma
água pesada onde eu encontraria
os caminhos
extraviados de tua boca profunda
senti nas minhas mãos
um animal imundo
fugitivo à noite de
uma floresta terrível
e eu vi que era o mal
do qual morrias
que eu chamo rindo a
tristeza do mundo
uma luz louca um
estrondo de trovão
um riso liberando tua
longa nudez
um esplendor imenso
enfim me iluminaram
e eu vi tua dor como
uma caridade
brilhando na noite a
longa forma clara
e o grito de túmulo
de tua infinitude.
Referência:
BATAILLE, Georges. Je
rêvais de toucher la tristesse du monde / Eu sonhava em tocar a tristeza do
mundo. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: BATAILLE,
Georges. Poemas. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa
Nova. Edição bilíngue: francês x português. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG,
2015. Em francês: p. 274; em português: p. 275. (“Fora de Série”)
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Nesta única oitava de
versos decassílabos, Bueno retrata a angústia do homem contemporâneo, que se
percebe como um puzzle incompleto sem a imagem de referência, circunstância que
o faz lançar perguntas ao vazio sobre a nossa origem e propósito, bem assim
sobre a possibilidade de que um ser, uma “mão” externa ou um princípio unificador
com a visão do todo possa reintegrar nossos pedaços e revelar, por fim, a
imagem oculta e perfeita que estamos destinados a formar.
Como se vê, tais
perguntas podem ser interpretadas em um sentido religioso – Deus, um demiurgo –,
artístico – o poeta ou o artista que dá forma ao caos – ou simplesmente metafísico
– uma força do universo que impõe ordem –, muito embora, qualquer que seja a orientação,
carregam elas – as perguntas, claro está – a esperança de que exista uma
inteligência ou uma vontade capaz de devolver-nos à integridade, à plenitude de
corpo, alma e espírito.
J.A.R. – H.C.
Alexei Bueno
(n. 1963)
Cacos
Fragmentos, sim,
fragmentos, mas de quê?
Que formaremos
juntos, nós, pedaços?
Que imagem, qual
visão que não se vê
Nascerá da união dos
nossos traços?
Nós, cacos, nós,
partidos, nós, a falta
Do resto, da
espantosa explicação,
No que daremos, fim
que aos olhos salta,
E quem nos juntará?
Qual ser? Qual mão?
14-10-1998
Um homem estilhaçado
(Vanja Kovač: artista
croata)
Referência:
BUENO, Alexei. Cacos.
In: __________. Em sonho. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1999. p. 25.
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Neste irônico poema, Ewart,
poeta inglês, joga com a ideia do legado literário e a sua interpretação póstuma,
sugerindo que a verdade sobre a sua obra somente se revelará após sua morte,
uma vez que escondida e enterrada, em seu melhor, numa caixa preta – como no
caso das aeronaves, para saber-lhes o que sucedeu enquanto em pleno voo.
Por trás da opção de manter
oculto o que há de mais valioso em sua poesia, para então somente vir à luz
depois que houver partido, melhor seria dizer, depois de cinquenta anos após o
seu óbito, há a percepção do poeta de que a geração de críticos que lhe é
contemporânea já terá desaparecido, quando então o conjunto total de sua obra poderá
ser catalogada e julgada pelos novos críticos, a partir de outras abordagens ou
miradas.
Sobre a “valiosa
lição” que Ewart pretende ensinar, há muito de ambiguidade sobre o que
exatamente se trata, embora me pareça que o autor tenha por alvo a natureza
amiúde especulativa e limitada da crítica literária, cujos juízos são, por conseguinte,
provisionais, podendo ser facilmente contornados por uma jogada de mestre a
partir da tumba – quiçá mais consequente para oferecer contornos definitivos à
imagem do poeta. Afinal, penso eu, os críticos tendem a ser mais condescendentes
quando já falecido o artista.
J.A.R. – H.C.
Gavin Ewart
(1916-1995)
The Black Box
As well as these poor
poems
I am writing some
wonderful ones.
They are all being
filed separately,
nobody sees them.
When I die they will
be buried
in a big black tin
box.
In fifty years’ time
they must be dug up,
for so my will
provides.
This is to confound
the critics
and teach everybody
a valuable lesson.
Poema enterrado
(Ron Meeks: artista norte-americano)
A Caixa Preta
Além destes poemas
medíocres,
estou escrevendo
outros maravilhosos,
os quais estão sendo
arquivados em separado,
para que ninguém os veja.
Quando eu morrer,
serão enterrados
em uma grande caixa
latonada preta.
Depois de cinquenta
anos,
deverão ser
desenterrados,
tal e como o estipula
o meu testamento.
Isto é para confundir
os críticos
e ensinar a todos
uma valiosa lição.
Referência:
EWART, Gavin. The
black box. In: WASHINGTON, Peter (Sel. & Ed.). Comic poems. New
York, NY: Alfred A. Knopf, 2001. p. 180. (Everyman’s Library Pockets Poets)
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