Este poema é um mapa
da alma atormentada da artista norte-americana, a admitir que o mesmo elemento
motor de sua criatividade – “o pássaro da ambição – é o desencadeador de sua
tortura e que, talvez, precisa-se dele se desfazer para poder salvar-se, mesmo
que isso venha a implicar a renúncia à sua vocação e ao seu empenho em
tornar-se imortal.
Sob tal contexto, a
poetisa divide-se em duas – a mulher que deseja paz e a artista possuída pelas exigências
do pássaro em apreço (mais do que aspirações, verdadeiras obsessões que
demandam a aniquilação do “eu”): se esta última prevalece, terá ela que pagar o
elevado preço da genialidade, tantas vezes contíguo às raias da loucura; se prepondera
aquela, há de, porventura, submeter-se aos imperativos de um silêncio criativo.
J.A.R. – H.C.
Anne Sexton
(1928-1974)
The Ambition Bird
So it has come to
this –
insomnia at 3:15 a.m.,
the clock tolling its
engine
like a frog following
a sundial yet having
an electric
seizure at the
quarter hour.
The business of words
keeps me awake.
I am drinking cocoa,
that warm brown mama.
I would like a simple
life
yet all night I am
laying
poems away in a long
box.
It is my immortality
box,
my lay-away plan,
my coffin.
All night dark wings
flopping in my heart.
Each an ambition
bird.
The bird wants to be
dropped
from a high place
like Tallahatchie Bridge.
He wants to light a
kitchen match
and immolate himself.
He wants to fly into
the hand of Michelangelo
and come out painted
on a ceiling.
He wants to pierce
the hornet’s nest
and come out with a
long godhead.
He wants to take
bread and wine
and bring forth a man
happily floating in the Caribbean.
He wants to be
pressed out like a key
so he can unlock the
Magi.
He wants to take
leave among strangers
passing out bits of
his heart like hors d’oeuvres.
He wants to die
changing his clothes
and bolt for the sun
like a diamond.
He wants, I want.
Dear God, wouldn’t it
be
good enough to just
drink cocoa?
I must get a new bird
and a new immortality
box.
There is folly enough
inside this one.
In: “The Book of
Folly” (1972)
Outra noite de
insônia
(Janet Lavida: artista
norte-americana)
O Pássaro da Ambição
Então chegou-se a
este ponto –
insônia às 3h 15 da
madrugada,
o relógio a repenicar
sua engrenagem
como uma rã a seguir
um relógio de sol, em
convulsão
elétrica a cada
quarto de hora.
O negócio das
palavras mantém-me acordada.
Estou bebendo
chocolate,
essa mamã morna e
morena.
Gostaria de ter uma
vida simples,
mas a noite toda
dedico-me a arrumar
poemas numa caixa
alongada.
É a minha caixa da
imortalidade,
meu plano de reserva,
meu ataúde.
A noite toda, asas
escuras
esvoaçam em meu
coração.
Cada qual, um pássaro
da ambição.
O pássaro quer que o
lancem
de um lugar elevado, como
a Ponte de Tallahatchie.
Quer acender um
fósforo de cozinha
e imolar-se.
Quer voar para a mão
de Michelangelo
e aparecer pintado
num teto.
Quer perfurar o
vespeiro
e de lá sair com uma longa
deidade.
Quer tomar pão e
vinho
e fazer surgir um
homem a flutuar feliz no Caribe.
Quer ser cunhado como
uma chave
para assim poder revelar
os Magos.
Quer despedir-se
entre estranhos, distribuindo
pedaços de seu
coração como hors d’oeuvres. (*)
Quer morrer trocando
de roupa
e disparar em direção
ao sol como um diamante.
Ele quer, eu quero.
Meu Deus, não seria
bom o suficiente
apenas beber
chocolate quente?
Preciso de um novo pássaro
e de uma nova caixa
da imortalidade.
Já há loucura
suficiente dentro desta.
Em: “O Livro da
Loucura” (1972)
Nota:
(*). Termo em
francês: canapés, aperitivos.
Referência:
SEXTON, Anne. The ambition Bird. In: __________. The complete poems: Anne Sexton. With a foreword by Maxine Kumin. 1st ed. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 1981. p. 299-300.
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