Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 3 de novembro de 2026

Walter de la Mare - Outono

Em meio a uma atmosfera de perda e melancolia, o poeta converte o outono numa metáfora da ausência da pessoa amada e de uma memória que teima em permanecer vívida e dolorosa, tudo para evidenciar como a recordação do amor perdido paira feito um fantasma a acompanhar o sujeito lírico em sua solidão.

 

Imagens do vento frio, chuva e céus cinzentos substituem a vitalidade das rosas e o canto da cotovia, simbolizando o desaparecimento da beleza e da esperança: o emprego reiterado do paralelismo sintático “onde… esteve” enfatiza a ideia de um passado cheio de vida, agora convolado em vazio e silêncio, a permitir que se apreenda o poema como elegia pura, em cujos versos a natureza e a alma vertem as suas pétalas juntas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Walter de la Mare

(1873-1956)

 

Autumn

 

There is a wind where the rose was;

Cold rain where sweet grass was;

And clouds like sheep

Stream o’er the steep

Grey skies where the lark was.

 

Nought gold where your hair was;

Nought warm where your hand was;

But phantom, forlorn,

Beneath the thorn,

Your ghost where your face was.

 

Sad winds where your voice was;

Tears, tears where my heart was;

And ever with me,

Child, ever with me,

Silence where hope was.

 

In: “Poems” (1906)

 

O jardim do Hospital São Paulo:

queda de folhas

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Outono

 

Existe o vento onde uma rosa esteve,

fria chuva onde a relva tenra esteve;

nuvens como carneiros

correm pelo escarpado

cinzento céu onde a calhandra esteve.

 

Nada de ouro onde o teu cabelo esteve,

nem de quente onde a tua mão esteve;

mas, espectral, perdido,

debaixo dos espinhos,

o teu fantasma onde o teu rosto esteve.

 

Triste vento onde tua voz esteve;

lágrimas onde um coração esteve;

e sempre aqui comigo,

amor, sempre comigo,

este silêncio onde a esperança esteve.

 

Em: “Poemas” (1906)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

MARE, Walter de la. Autumn. In: __________. The complete poems of Walter de la Mare. 1st ed. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1970. p. 97.

 

Em Português

 

MARE, Walter de la. Outono. Tradução de Abgar Renault. In: RENAULT, Abgar. Poesia: tradução e versão. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1994. p. 99.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cassiano Ricardo - Sala de espera

O poeta paulista contrasta dois espaços simbólicos, a saber, a sala de espera – lugar de passividade, burocracia e promessas adiadas –, frente à rua – um espaço vibrante de ação, encontro e transformação –; aquela a representar a esperança domesticada e sempre postergada; esta a encarnar a coletividade, o protesto e a verdadeira experiência republicana.

 

Nesse contexto, Ricardo, ao mesmo tempo que denuncia a mecanização da espera nos espaços de poder ou, em outros termos, a inércia institucional, faz um chamamento à ação cidadã, à expressão viva de uma esperança ativa, aberta e compartilhada, em quaisquer espaços públicos – a rua, em especial –, onde o indivíduo possa cerrar fileiras com os outros para participar de eventos que concorram a um propósito comum do corpo social.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cassiano Ricardo

(1895-1974)

 

Sala de espera

 

(Ah, os rostos sentados

numa sala de espera.

Um Diário Oficial sobre a mesa.

Uma jarra com flores.

A xicara de café, que o contínuo

vem, amável, servir aos que esperam

a audiência marcada.

 

Os retratos em cor, na parede,

dos homens ilustres

que exerceram, já em remotas épocas,

o manso ofício

de fazer esperar com esperança.

E uma resposta, que será sempre a mesma:

só amanhã.

E os quase eternos amanhãs daqueles rostos

sempre adiados

e sentados

numa sala de espera.)

 

Mas eu prefiro é a rua.

A rua em seu sentido usual de “lá fora”.

Em seu oceano que é ter bocas e pés

para exigir e para caminhar.

A rua onde todos se reúnem

num só ninguém coletivo.

Rua do homem como deve ser:

transeunte, republicano, universal.

 

Onde cada um de nós é um pouco

mais dos outros

do que de si mesmo.

Rua da procissão, do comício,

do desastre, do enterro.

Rua da reivindicação social, onde mora

o Acontecimento.

 

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.

 

Em: “Um dia depois do outro” (1947)

 

Manifestação de bairro

(Renato Guttuso: pintor italiano)

 

Referência:

 

RICARDO, Cassiano. Sala de espera. In: __________. Antologia poética. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Editora do Autor, 1964. p. 52-53.

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domingo, 1 de novembro de 2026

Giuseppe Belli - A embocadura

Belli nos oferece, em dialeto popular romano, um retrato surreal, algo animalesco, de um encontro amoroso marcado por intensa e caótica refrega física, digo melhor, pela energia bruta, meio violenta, da paixão, sob cujos efeitos os amantes buscam ampliar os limites do prazer alcançado, ansiando por uma fusão total.

 

A repetição de sons ásperos e guturais ao longo dos versos tenciona refletir o choque dos corpos como uma luta brincalhona entre dois gatos, num jogo instintivo e desenfreado, descrito pelo poeta numa sintaxe burlesca na qual o gozo se mescla com o cansaço e os atrapalhos para trazer ao leitor a sensação de um realismo exasperado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Giuseppe Belli

(1791-1863)

 

L’incisciature

 

Che sscenufreggi, ssciupi, strusci e ssciatti!

Che ssonajjera d’inzeppate a ssecco!

Iggni bbotta, peccrisse, annava ar lecco:

Soffiamio tutt’e ddua come ddu’ gatti.

 

L’occhi invetriti peggio de li matti:

Sempre pelo co ppelo, e bbecc’a bbecco.

Viè e nun vienì, fà e ppijja, ecco e nnun ecco;

E ddajje, e spiggne, e incarca, e striggni e sbatti.

 

Un po’ ppiù cche ddurava stamio grassi!

Ché ddoppo avé ffinito er giucarello

Restassimo intontiti com’e ssassi.

 

È un gran gusto er fregà! ma ppe ggodello

Più a cciccio, ce voría che ddiventassi

Giartruda tutta sorca, io tutt’uscello.

 

Erótico

(Ivan Vavpotič: pintor esloveno)

 

A embocadura (*)

 

Que esfregações, gemidos, desbaratos!

Que arremessos a seco, numa enfiada!

Todos no alvo, por Cristo, desde a entrada:

Ficam bufando os dois como dois gatos.

 

Olhos vidrados, pior que de insensatos:

Pelo com pelo, boca a boca atada,

E enfia e empurra e bate sem parada;

Vai e vem, põe e tira num só ato.

 

Descalabro se um pouco mais durasse!

Chegada a brincadeira ao seu final,

Ficamos feito pedras, inconscientes.

 

É muito bom foder! Mas o ideal

Seria nos tornarmos realmente

Gertrudes toda cona e eu todo pau.

 

Nota:

 

(*). Como o afirma o ensaísta e tradutor José Paulo Paes: “Na tradução, não se fez, por sabê-la antecipadamente fadada ao malogro, qualquer tentativa de preservar o mínimo que fosse do sabor dialetal da dicção belliana”. (PAES, 2006, p. 191)

 

Referência:

 

BELLI, Giuseppe. L’incisciature / A embocadura. Tradução de José Paulo Paes. In: PAES, José Paulo (Seleção, tradução, introdução e notas). Poesia erótica em tradução. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006. Em dialeto romano: p. 142; em português: p. 143. (Série “Companhia de Bolso”)

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sábado, 31 de outubro de 2026

Augusto Frederico Schmidt - Pássaro cego

Estes versos de Schmidt transmitem ao leitor um marcante senso de herança emocional e coletiva, mediante o qual o sujeito lírico se reconhece como portador de dores e de angústias não vivenciadas diretamente, mas legados por seus ancestrais, circunstância que o faz oscilar entre o pesar e o desejo de paz, revelando-lhe a tensão entre a memória de pregressas injustiças e a busca por horizontes mais serenos.

 

Sob tal perspectiva, pode-se supor que a imagem de um “pássaro cego” venha a simbolizar a sua incapacidade de ver a luz exterior devido a essas “sombras interiores”, como resultante do sobredito conflito entre, de um lado, as expectativas por uma condição de transparência ou de clareza, e de outro, o aprisionamento no domínio da própria subjetividade.

 

É essa consciência de uma fatalidade plasmada nos bastiões da história e nos escaninhos dos dramas familiares que permite a esse pássaro, ainda que sob a ausência de luz, perceber a sua existência e almejá-la, tornando o seu voo um belo e inquietante percurso lírico, a dar voz aos “mil tormentos sem voz”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

 

Pássaro cego

 

Sinto clamar em mim vozes tristes, chorando.

Sinto gritar em mim longos martírios

Que não sofri.

 

Sinto que sou a forma, o lamento, a expressão

De mil tormentos mudos abafados.

De mil tormentos sem voz.

Mil tormentos sem voz!

 

Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,

De homens sem lar e sem repouso.

De homens que foram meus avós.

Deles herdei a angústia infinita,

Deles herdei o tédio de todas as paisagens,

A inquietação de todos os momentos.

 

Sou a última folha de uma árvore infeliz

Que o vento rude desprendeu.

 

Trago comigo a desolação da pátria abandonada

E a revolta de mil incompreensões e injustiças sofridas,

Mas há em mim um infinito desejo de pacificação;

O ódio de meus avós não está comigo,

Ficou apenas a indecisão,

Ficou apenas a instabilidade.

 

Sou como um pássaro cego voando na eterna escuridão.

No entanto a escuridão está em mim somente.

Sei que fora de mim há um clima diferente,

Sei que há céu azul, supremas claridades,

E que as trevas estão nos meus olhos apenas.

 

Em: “Pássaro cego” (1930)

 

Pássaro cego

(Morris Graves: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

SCHMIDT, Augusto Frederico. Pássaro cego. In: __________. Poesia completa: 1928-1965. Introdução de Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro, RJ: TopBooks; Faculdade da Cidade, 1995. p. 93.

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