A poetisa
norte-americana nos diz que a verdadeira crônica de um amor ou de uma vida compartilhada
não se encontra nos sorrisos congelados dos álbuns de fotografias, mas nos
instantes críticos, amiúde dolorosos, de confrontação e de verdade que ocorrem
na mais absoluta intimidade: na emergência da potência destrutiva ou
fundacional da linguagem; no combate silencioso das almas; na cumplicidade em cuja
torrente se negociam as aflições e as possíveis curas, no instante mesmo em que
uma notícia, entre presságios e suspenses, pode irromper e tudo mudar.
É uma defesa da
profundidade em detrimento da superficialidade e um testemunho de que as
histórias mais significativas são precisamente aquelas que não podem ser capturadas
pela objetiva de uma câmera (uma vez que não exatamente vocacionadas a momentos
performáticos), resultantes de uma vida interior que pulsa freneticamente sob a
aparente imobilidade, em vertiginosa velocidade emocional.
J.A.R. – H.C.
Adrienne Rich
(1929-2012)
For an Album
Our story isn’t a
file of photographs
faces laughing under
green leaves
or snowlit doorways,
on the verge of driving
away, our story is
not about women
victoriously perched
on the one
sunny day of the
conference,
nor lovers displaying
love:
Our story is of
moments
when even slow motion
moved too fast
for the shutter of
the camera:
words that blew our
lives apart, like so,
eyes that cut and
caught each other,
mime of the operating
room
where gas and knives
quote each other
moments before the
telephone
starts ringing: our
story is
how still we stood,
how fast.
1987
In: “Time’s Power”
(1985-1988)
Duas mulheres sob uma
árvore no jardim
(Edvard Munch: pintor
norueguês)
Para um Álbum
Nossa história não é
um arquivo de fotografias
com rostos
sorridentes sob a verde ramagem
ou umbrais iluminados
pela neve, à iminência da partida;
nossa história não é sobre
mulheres
triunfantes posando
no único
dia ensolarado da
conferência,
nem sobre amantes a demonstrarem
amor:
Nossa história é
sobre momentos
em que até o mais
lento curso se movia rápido demais
para o obturador da
câmera:
palavras que nos
destroçavam a vida, assim,
olhares que se
cruzavam e se atraíam,
mímica do centro
cirúrgico
onde o gás e os
bisturis entabulam diálogo
instantes antes de o
telefone
começar a tocar:
nossa história é
sobre o quão imóveis
nos quedamos,
o quão rapidamente.
1987
Em: “O Poder do
Tempo” (1985-1988)
Referência:
RICH, Adrienne. For an álbum. In: __________. Collected poems: 1950-2012. Introduction by Claudia Rankine. 8th ed. New York, NY: W. W. Norton, 2016. p. 684-685.
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