Explorando uma
constante tensão entre a aspiração espiritual e a mais crua realidade social, “o
visionário”, por meio de imagens etéreas, sugere uma presença divina e
consoladora – a evocar um ideal de beleza, pureza e esperança –, confrontada,
nada obstante, pela justaposição de fantasmas, sombras e presságios de
violência que emergem à meia-noite e em sítios oprimentes.
A alternância entre
luzes e sombras, dia e noite, reforça o tema de oposição entre o sagrado e o
profano num cenário que tem algo de apocalíptico, cujos traços vão em linha com
palpáveis denúncias de injustiças e desumanização presentes no quotidiano,
refletindo as contradições de uma sociedade na qual proliferam práticas de imparidades,
senão de indiferenças, propensas a levar a um mundo de disparidades e de misérias.
J.A.R. – H.C.
Murilo Mendes
(1901-1975)
O visionário
Eu vi os anjos nas
cidades claras,
Nas brancas praças do
país do sol.
Eu vi os anjos no
meio-dia intenso,
Na nuvem indecisa e
na onda sensual.
À meia-noite
convoquei fantasmas,
Corri igrejas de
cidades mortas,
Esperei a dama de
veludo negro,
Esperei a sonâmbula
da visão da ópera:
Na manhã aberta é que
vi os fantasmas
Arrastando espadas
nos lajedos frios:
Ao microfone eles soltavam
pragas.
Vi o carrasco do
faminto, do órfão,
Deslizando, soberbo,
na carruagem.
O que renegou a Deus
na maldição,
Vi o espírito mau
solto nas ruas,
Cortando os ares com
seus gládios em sangue.
Vi o recém-nascido
asfixiado
Por seus irmãos, à
luz crua do sol.
Vi atirarem ao mar
sacos de trigo
E no cais um homem a
morrer de inanição.
À luz do dia foi que
eu vi fantasmas,
Nas vastas praças do
país do amor,
E também anjos no
meio-dia intenso,
Que me consolam da
visão do mal.
Em: “As Metamorfoses”
(1944)
Anjos do Bem e do Mal
(William Blake: poeta
e pintor inglês)
Referência:
MENDES, Murilo. O
visionário. In: __________. Antologia poética. Organização de Júlio
Castañon Guimarães e Murilo Marcondes de Moura. São Paulo: Cosac Naify, 2014. p.
84.
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