Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Dudley Randall - Uma Imagem Diferente

Em poucas palavras, Randall, poeta afro-americano, consegue transmitir o seu prospecto para uma luta histórica, a saber, a de afirmação da identidade e de libertação cultural da comunidade negra, pois que lhe parece que a liberdade política e social há de ser acompanhada, também, por uma reconstrução interna.

 

A luta vai bem além das pautas de rua ou de salvaguardas jurídicas, devendo alcançar a psique coletiva, mediante o desmantelamento das cadeias mentais da opressão, para, desse modo, poder se forjar, com orgulho e consciência histórica, uma nova identidade baseada na autêntica, serena e clássica beleza de ser negro.

 

Não mais a máscara do estereótipo racista – a do menestrel (vide nota ao final desta postagem) –, mas uma que revele a verdadeira essência, dignidade e poder da herança do povo negro, teluricamente conectada às forças vitais e aos seus ancestrais; não mais a expressão caricatural torpe, consectária às formas coercivas de escravidão na América, mas uma autoimagem restaurada, com lastro na autonomia e na grandeza da vida pré-colonial em África.

 

J.A.R. – H.C.

 

Dudley Randall

(1914-2000)

 

A Different Image

 

The age

requires this task:

create

a different image;

re-animate

the mask.

 

Shatter the icons of slavery and fear.

Replace

the leer

of the minstrel’s burnt-cork face (*)

with a proud, serene

and classic bronze of Benin.

 

Esqueleto a deter as máscaras

(James Ensor: pintor belga)

 

Uma Imagem Diferente

 

A época

exige esta tarefa:

criar

uma imagem diferente;

reanimar

a máscara.

 

Despedaçar os ícones da escravidão e do medo.

Substituir

o riso torpe

do rosto de cortiça queimada do menestrel

por um orgulhoso, sereno

e clássico bronze de Benim.

 

Nota:

 

(*). Trata-se de uma referência direta aos espetáculos de blackface (rostos pintados de negro), uma forma de entretenimento extremamente popular nos séculos XIX e início do XX nos EUA e na Europa.

 

Nesses espetáculos, artistas brancos pintavam seus rostos de negro com cortiça queimada e exageravam os lábios, criando uma caricatura grotesca e desumanizante das pessoas negras, tudo como forma de representar os estereótipos racistas: o negro ignorante, preguiçoso, supersticioso, covarde e musical, sempre pronto para servir e fazer palhaçadas.

 

A palavra “leer” pode ser entendida, por conseguinte, como a expressão facial que acompanhava essa caricatura – o sorriso exagerado e vazio, o olhar arregalado e supostamente “ingênuo” ou “astuto”, em reforço a tais estereótipos; em suma, a personificação visual do racismo internalizado e disseminado pela cultura popular.

 

Referência:

 

RANDALL, Dudley. A different image. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 175.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Hermann Hesse - Pensamentos Vadios

Hesse logra condensar, neste poema em quatro estâncias, a angústia de uma época que se contextualiza em duas grandes guerras, evidenciando-lhes o horror e a sanha desumanizadora, sem perder a fé, contudo, no ato mesmo da criação, pois que se, por um lado, entoa um canto fúnebre pela humanidade que se foi, por outro, lança uma semente de esperança para a que, talvez, um dia poderia ser.

 

Permanecem a vida e a possibilidade de um recomeço na figura de um novo ser humano modelado a partir da argila primordial, mas dessa vez concebido para fazer rir e comprazer o Criador, para lhe dirigir orações, não para externar a sua febre violenta e arrogante, autêntico parêntesis destrutivo na tranquila eternidade do cosmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Hermann Hesse

(1877-1962)

 

Müssige Gedanken

 

Einmal wird dies alles nicht mehr sein,

Nicht mehr diese töricht genialen Kriege,

Diese teuflisch in den Feind gewehten

Gase, diese Betonwüstenein,

Diese Wälder, statt mit Dorn mit Drähten

Dicht bestachelt, diese Todeswiegen,

Drin so viele Tausend schaudernd liegen,

Die mit so viel Geist und Fleiß ersonnenen,

Die mit so viel feigem Witz gesponnenen

Todesnetze über Land, Luft, Meer.

 

Berge werden in die Bläue ragen,

Sterne werden durch die Nächte leuchten,

Zwillinge, Kassiopeia, Wagen,

Ewig, in gelassener Wiederkehr,

Laub und Gras mit seinem morgenfeuchten

Silber wird dem Tag entgegengrünen,

Und im ewigen Wind wird Meerflut schlagen

An den Fels und an die bleichen Dünen.

Doch die Weltgeschichte ist vorüber;

Mit dem Schwall von Blut, von Krampf, von Lüge

Ist die prahlerische als ein trüber

Kehrichtstrom zerronnen, ihre Züge

Sind erloschen, ihre unermessen

Schlingende Gier gestillt, der Mensch vergessen.

 

Und vergessen sind die Kinderspiele,

Deren wir so holde und berückende,

Deren wir so unersättlich viele

Uns erdacht, so fremde und entzückende.

Die Gedichte, die wir uns ersonnen,

Die Gebilde all, die unser Lieben

Rings der willigen Erde eingeschrieben,

Unsre Götter, Heiligtümer, Weihen,

Alphabet und Einmaleins sind nicht mehr.

Unsrer Orgelfugen Himmelswonnen,

Unsre Dome mit den trotzig schlanken

Türmen, unsere Bücher, Malereien,

Sprachen, Märchen, Träume und Gedanken,

Sie sind ausgelöscht. Die Erde hat kein Licht mehr.

 

Und der Schöpfer, der dem Untergange

All des Scheußlichen und all des Schönen

Stille zugeschaut, betrachtet lange

Die befreite Erde. Heiter tönen

Um ihn der Gestirne Reigen, dunkel

Schwebt die kleine Kugel im Gefunkel.

Sinnend greift er etwas Lehm und knetet.

Wieder wird er einen Menschen machen,

Einen kleinen Sohn, der zu ihm betet,

Einen kleinen Sohn, von dessen Lachen,

Dessen Kinderei’n und Siebensachen

Er sich Lust verspricht. Sein Finger waltet

Froh im Lehm. Er freut sich. Er gestaltet.

 

Paisagem com um arco-íris

(Peter Paul Rubens: pintor flamengo)

 

Pensamentos Vadios

 

Um dia tudo isto deixará de existir:

nada mais destas guerras burramente geniais,

destes gases diabólicos lançados sobre

o inimigo, destes ermos de concreto,

destas florestas farpadas de arame

em vez de espinhos, destes berços mortuários

onde aterrados jazem tantos milhares,

destas redes mortíferas tramadas

com tanto engenho e arte, em meio a tão covardes

gracejos, na terra, no mar, no ar.

 

Montanhas hão de elevar-se no azul;

constelações refulgirão na noite

– Gêmeos, Cassiopeia, Ursa Maior –

eternas em sereno gravitar;

relvas e folhas orvalhadas pela noite

voltarão a pintar de verde o dia;

e ao sopro eterno do vento as marés virão

bater nas pedras e nos pálidos barrancos.

Assim tem-se passado a história deste mundo:

com dilúvios de sangue, convulsão e mentira,

tem a arrogância de um montão de lixo,

de traços apagados, saciada

a sua desmedida gulodice

– e o ser humano esquecido.

 

Esqueceram-se os jogos infantis

que com tanta doçura e encantamento

imaginávamos, curiosos e belos;

as poesias que então concebíamos,

e todas as figuras da nossa ternura

gravadas no mundo em torno de nós;

nossos deuses, mistérios e santuários,

tabuadas e alfabetos – não existem mais.

Nossas fugas de órgão, nosso afã de céu,

nossas igrejas de torres esguias

e altaneiras, nossos livros e pinturas,

linguagens, fábulas, sonhos e ideias,

apagaram-se. A terra está sem luz.

 

E o Criador, que ao ocaso

de tudo quanto é mau e quanto é bom

silencioso assiste, longamente

se põe a observar a terra libertada:

alegremente ecoa à sua volta o gravitar dos astros

– escuro paira o pequenino globo,

entre tanto esplendor. Sempre pensando,

Ele toma nas mãos um punhado de barro

e se põe a amassá-lo: vai fazer

mais uma vez um homem – um minúsculo filho

que lhe faça orações, um minúsculo filho

em cujos risos e artes e inocências

Ele espera ainda ter algum prazer.

Alegram-se os Seus dedos, o barro modelando,

e Ele se compraz nisso, enfim: está criando!

 

Referências:

 

Em Alemão

 

HESSE, Hermann. Müssige gedanken. In: __________. Die gedichte. Erste auflage. Frankfurt am Main, DE: Suhrkamp Verlag, 1977. s. 671-672. (“Suhrkamp Taschenbuch”, b. 381)

 

Em Português

 

HESSE, Hermann. Pensamentos vadios. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, jan. 1976. p. 193-194.

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Jorge de Lima - Democracia

O poeta, na linhagem do modernismo brasileiro, apresenta traços antropofágicos nestes versos, propondo “devorar” todas as influências – europeias, africanas, indígenas – para criar algo novo, singularmente pátrio: a democracia local, para o autor alagoano, torna-se, sob tal mirada, um ato de canibalismo cultural, de abraço total à contradição e à heterogeneidade.

 

Trata-se, de fato, de uma declaração de identidade mestiça, delineada pelo sincretismo cultural, racial e espiritual que conforma a essência do Brasil, profundamente arraigado no corpo, nos hábitos, na ancestralidade, até mesmo nas enfermidades que são características deste torrão natal, idem nas superstições nas quais, como que em transe, a mente se liberta do racional para entrar em contato com forças primitivas e sagradas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Lima

(1893-1953)

 

Democracia

 

Punhos de redes embalaram o meu canto

para adoçar o meu país, ó Whitman.

Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,

catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,

carumã me alimentou quando eu era criança,

Mãe-negra me contou histórias de bicho,

moleque me ensinou safadezas,

massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,

bebi cachaça com caju para limpar-me,

tive maleita, catapora e ínguas,

bicho-de-pé, saudade, poesia;

fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,

dizendo coisas, brincando com as crioulas,

vendo espíritos, abusões, mães-d’água,

conversando com os malucos, conversando sozinho,

emprenhando tudo que encontrava,

abraçando as cobras pelos matos,

me misturando, me sumindo, me acabando,

para salvar a minha alma benzida

e meu corpo pintado de urucu,

tatuado de cruzes de corações, de mãos-ligadas,

de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro

ou de pagão.

 

Em: “Poemas Negros” (1947)

 

Miscigenação

(Dauri Nei Diogo: artista paulista)

 

Referência:

 

LIMA, Jorge de. Democracia. In: __________. Obra completa em dois volumes. V. I: Poesia e ensaios. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1958. p. 355. (Biblioteca “Luso-Brasileira”; Série “Brasileira”; n. 12)

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Carlos Bousoño - Enquanto em teu escritório respiras

A morte é uma sombra que nos acompanha em cada instante, latente sob o frágil verniz da realidade, experimentada de forma simultânea à nossa vida consciente – como quando polemizamos com elegância em um café –, dando ensejo a uma sensação de vertigem existencial, ao longo da qual nosso corpo expõe-se a um virtual processo de destruição.

 

O poeta, em sua queda, observa a realidade tal qual é: um mundo ao revés, onde a suposta cordura, de fato, não passa de uma insânia coletiva, e a sociedade, ainda que funcione com aparência de normalidade – preleções, ofícios, discursos –, encontra-se fundamentalmente desorientada, “de cabeça para baixo”, à borda de um abismo.

 

Mesmo a tribuna de uma aula expositiva – metáfora inescapável para o plano da racionalidade e do conhecimento – se converte num espaço onde reina a lei da gravidade e do absurdo: coexistem, assim, um plano de rotina – representado pelas ações de uma vida civilizada, intelectual e ordenada –, com outro que remete às instâncias do catastrófico, do acidental, do trágico, consorciado à supracitada vulnerabilidade palpável do corpo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Bousoño

(1923-2015)

 

Mientras en tu oficina respiras

 

Mientras en tu oficina respiras, bostezas, te abandonas, o

dictas en tu clase una lección

ante extraños alumnos que fijamente te contemplan, con

sueño aún en la temprana hora;

mientras hablas, mientras gesticulas en el café,

o inmóvil te concentras en la meditación

de tu escritorio, o echado en el hondo diván

repasas lentamente recuerdos de tu vida; mientras quieto te

abismas en la visión de la llanura interminable, o

mientras escribes una lenta palabra y te recreas en su

dulce sonido, en su amorosa realidad,

 

caes, estás cayendo hacia atrás por una quebrada del monte,

estás rodando entre piedras y cardos por la abrupta pendiente

hacia un barranco en el que corre un río,

rápido como el viento un río corre,

estás herido en la boca, en las manos, el pecho,

sangras por un oído, te despeñas por el farallón

cabeza abajo,

con las piernas en abierto compás,

hacia el fondo, ya con los huesos rotos,

crispadas mano y boca, hacia el abismo, abajo,

súbitamente próximo,

una palabra escribes lentamente, te concentras, murmuras, en

el café discutes, muy despacio sonríes, adelantas una

noble razón,

aduces un adorno, un tejido, un recamado oro,

hablando en la tarima de tu clase diserta,

 

donde todos están cabeza abajo.

 

En: “Las monedas contra la losa” (1973)

 

(Imagem sem créditos)

 

Enquanto em teu escritório respiras

 

Enquanto em teu escritório respiras, bocejas, te descontrais, ou,

em sala de aula, dás uma palestra

a alunos estranhos que, sonolentos ainda às primeiras horas da manhã,

observam-te fixamente;

enquanto conversas, enquanto gesticulas no café,

ou imóvel te concentras em meditar

sentado à escrivaninha, ou reclinado num sofá macio

repassas lentamente memórias da tua vida; enquanto, quieto,

te perdes na visão da planície sem fim, ou

enquanto escreves uma palavra lenta e te delicias com o seu

doce som, em sua amorosa realidade,

 

tu cais, estás caindo, tombando ladeira abaixo por uma ravina,

estás rolando entre pedras e cardos pela encosta íngreme

até um barranco onde corre um rio,

um rio que corre rápido como o vento,

estás ferido na boca, nas mãos, no peito,

sangras pelo ouvido, despencas pelo penhasco

de ponta cabeça,

com as pernas em compasso aberto, em direção ao fundo,

já com os ossos partidos,

mãos e boca crispadas, até o abismo, lá embaixo,

quando subitamente próximo,

escreves uma palavra lentamente, te concentras, murmuras, discutes

no café, muito devagar sorris, declinas uma

nobre razão,

trazes à apreciação um ornato, um tecido, um bordado de ouro,

falando na tribuna de tua aula expositiva,

 

onde todos estão de cabeça para baixo.

 

Em: “As moedas contra a lápide” (1973)

 

Referência:

 

BOUSOÑO, Carlos. Mientras en tu oficina respiras. In: __________. Primavera de la muerte: poesías completas (1945-1998). 1. ed. Barcelona, ES: Tusquets Editores, oct. 1998. p. 499-500.