Se somos essa inarredável
dualidade entre o animal e o humano, entre o cão cego – a encarnar o instintivo
e o primal – e a alma – tradução do nosso lado mais racional e consciente –,
cumpre-nos reconciliar essas duas facetas aparentemente opostas, sobretudo pela
busca constante de beleza e verdade em cada experiência, aprimorando o
autoconhecimento em meio ao caos.
Os versos de Lugones sucedem-se em imagens viscerais, grávidas de
sugestões alusivas a sacrifícios, sofrimentos, desconsolos e infortúnios,
orientados a um propósito final de redenção do sujeito poético, por meio dos
quais passa ele a ter uma compreensão mais aguçada das misérias humanas e a
reavaliar os próprios valores sociais a que dá acolhida em seu espírito.
J.A.R. – H.C.
Leopoldo Lugones
(1874-1938)
Metempsicosis (*)
Era un país de selva
i de amargura,
un país con altísimos
abetos,
con abetos altísimos,
en donde
ponía quejas el temblor
del viento.
Tal ver era la tierra
cimeriana
donde estaba la boca
del Infierno,
la isla que en el
grado ochenta i siete
de latitud austral,
marca el lindero
de la líquida mar;
sobre las aguas
se levantaba un
promontorio negro,
como el cuello de un
lúgubre caballo,
de un potro colosal,
que hubiera muerto
en su última postura
de combate,
con la hinchada nariz
humeando al viento.
El orto formidable de
una noche
con intenso borrón
manchaba el cielo,
i sobre el fondo de
carbón flotaba
la alta silueta del
peñasco negro.
Una luna ruinosa se
perdía
con su amarilla cara
de esqueleto
en distancias de
ensueño y de problema;
i había un mar, pero
era un mar eterno,
dormido en un
silencio sofocante
como un fantástico
animal enfermo.
Sobre el filo más
alto de la roca,
ladrando al hosco mar
estaba un perro:
Sus colmillos
brillaban en la noche
pero sus ojos no,
porque era ciego.
Su boca abierta
relumbraba, roja
como el vientre
caldeado de un brasero;
como la gran bandera
de venganza
que corona las iras
de mis sueños;
como el hierro de una
hacha de verdugo
abrevada en la sangre
de los cuellos.
I en aquella honda
boca aullaba el hambre,
como el sonido
fúnebre en el hueco
de las tristes
campanas de Noviembre.
Vi a mi alma con sus
brazos yertos
i en su frente una
luz, hipnotizada
subía hacia la boca
de aquel perro,
o que en sus manos i
sus pies sangraban,
como rosas de luz,
cuatro agujeros;
que en la hambrienta
boca se perdía,
i que el monstruo
sintió en sus ojos secos
encenderse dos llamas,
como lívidos
incendios de alcohol
sobre los miedos.
Entonces comprendí
(Santa Miseria!)
el misterioso amor de
los pequeños;
i odié la dicha de
las nobles sedas,
i las prosapias con
raíz de hierro;
i hallé en tu lodo
gérmenes de lirios,
i puse la amargura de
mis besos
sobre bocas
purpúreas, que eran llagas;
i en las
prostituciones de tu lecho
vi esparcidas
semillas de azucena,
i aprendí a aborrecer
como los siervos;
i mis ojos miraron en
la sombra
una cruz nueva, con
sus clavos nuevos,
que era una cruz sin
víctima, elevada
sobre el oriente
enorme de un incendio,
aquella cruz sin
víctima, ofrecida
como un lecho
nupcial. I yo era un perro!
Metempsicose
(Michael Clague:
artista canadense)
Metempsicose
Era um país de selva
e de amargura,
um país com
altíssimos abetos,
com abetos
altíssimos, nas ramas
lançava queixas o
tremor do vento.
Quem sabe fosse a
terra cimeriana
onde estacava a
bocarra do Inferno,
a Ilha que no grau
oitenta e sete
de latitude austral,
marca o limite
da liquidez marinha;
sobre as águas
se levantava um
promontório negro,
como o pescoço de um
cavalo lúgubre,
de um potro colossal,
que fora morto
em seu último porte
de combate,
narina inchada
fumegando ao vento.
O orto formidável de
uma noite
com intenso borrão
manchava o céu,
e sobre o fundo de
carvão boiava
o alto perfil do
penhascal escuro.
Uma lua ruinosa se
perdia
com sua cara amarela
de esqueleto
em distâncias de
sonho e de problema;
e havia um mar, mas
era um mar eterno,
dormido num silêncio
sufocante
como fantástico
animal enfermo.
Sobre o gume mais
alto do rochedo,
ladrando ao fosco
mar, estava um cão.
Caninos cintilantes
no negrume,
mas não seus olhos, o
cão era cego.
A boca aberta
relumbrava, rubra
qual ventre
flamejante de um braseiro;
como a grande
bandeira de vingança
aureolando as iras de
meus sonhos;
qual ferro de um
machado de verdugo
embebido no sangue
das gargantas.
E no fundo dá goela
uivava a fome,
como fúnebre som
ecoando em oco
melancólicos sinos de
Novembro.
Vi que minh’alma com seus
braços hirtos
e defronte uma luz
hipnotizada
se alçava rumo à boca
do cachorro,
e vi que em suas mãos
e pés sangravam,
como rosas de luz,
quatro agulheiros;
e na boca esfomeada
se perdia,
e que o monstro
sentiu nos olhos secos
duas chamas se acenderem,
como lívidos
incêndios de álcool
sobrevoando os medos.
Então eu compreendi
(Santa Miséria!)
o misterioso amor dos
pequeninos;
e odiei a seda dos
tecidos nobres,
e as descendências
com raiz de ferro;
e vi em teu lodo
germinarem lírios,
e colei a amargura de
meus beijos
em bocas purpurinas,
que eram chagas;
e nas prostituições
de tua cama
vi esparzidas
sementes de açucena,
e soube aborrecer
como os escravos;
e meus olhos miraram
na penumbra
uma cruz nova, com
seus cravos novos,
que era uma cruz sem
vítima, elevada
por sobre o oriente
enorme de um incêndio,
aquela cruz sem
vítima ofertada
como um leito
nupcial. E eu era um cão!
Folhetim, 26.02.84
Nota:
(*). A rigor, a
distribuição espacial do texto, na composição original de Lugones em espanhol, flui
como uma prosa em três parágrafos, não exatamente sob a forma de versos, como acima
se apresenta.
Referências:
Em Espanhol
LUGONES, Leopoldo.
Metempsicosis. In: __________. Las montañas del oro. Con un juicio de
Rúben Darío. Montevideo, UY: La Editorial Rioplatense, 1919. p. 47-48.
Em Português
LUGONES, Leopoldo.
Metempsicose. Tradução de Luiz Antônio de Figueiredo. In: SUZUKI JR., Matinas;
ASCHER, Nelson (Organizadores). Folhetim: poemas traduzidos. Vários
poetas e tradutores. São Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 35-36.
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