Sendo
norte-americano, penso que Jeffers, ao fazer alusão a uma “República Moribunda”,
esteja se referindo, salvo engano, aos EUA, país que, nos dias que correm, já
mostram claros sinais de decadência – sobretudo em razão das ações de seu governo,
engolfado no exercício de um poder plutocrático e cleptocrático.
Se tal percepção já a
tinha o poeta em meados da primeira metade do século passado, tanto mais a
teria no presente momento: contra essa degeneração do poder, atolado no pântano
obsceno da corrupção e da vulgaridade, Jeffers propõe a todos um distanciamento físico
e moral do núcleo de arbítrio que se lhe associa, e mais extensivamente, a adoção de uma perspectiva
cósmica sob cuja conjunção se relativiza a importância do homem e de seus
efêmeros impérios, para, desse modo, manterem-se indenes aos jugos do “monstro da civilização” em derrocada.
De resto, o poeta se
mostra cético em relação às linhas de conduta de certas ideologias humanistas
ou religiosas, pois lhe parece que o excesso de amor à humanidade acaba por se abastardar
num desvio idolátrico, tornando-se uma armadilha que cega e destrói até mesmo
os mais nobres, razão pela qual sustenta a tese de que a verdadeira sabedoria e
liberdade consistem em transcender tal antropocentrismo.
J.A.R. – H.C.
Robinson Jeffers
(1887-1962)
Shine, Perishing
Republic
While this America
settles in the mould of its vulgarity, heavily
thickening to empire,
And protest, only a
bubble in the molten mass, pops and sighs
out, and the mass
hardens,
I sadly smiling
remember that the flower fades to make fruit,
the fruit rots to
make earth.
Out of the mother;
and through the spring exultances, ripeness
and decadence; and
home to the mother.
You making haste
haste on decay: not blameworthy; life is good,
be it stubbornly long
or suddenly
A mortal splendor:
meteors are not needed less than mountains:
shine, perishing
republic.
But for my children,
I would have them keep their distance
from the thickening
center; corruption
Never has been
compulsory, when the cities lie at the monster’s
feet there are left
the mountains.
And boys, be in
nothing so moderate as in love of man, a clever
servant, insufferable
master.
There is the trap
that catches noblest spirits, that caught – they say –
God, when he walked
on earth.
In: “Tamar”
(1917-1923)
Henrik Hudson chegando
à
baía de Nova York: setembro de 1609
(Edward Moran: pintor
anglo-americano)
Brilha, República
Moribunda
Enquanto esta América
se assenta no molde de sua vulgaridade,
espessando-se pesadamente
em império,
E o protesto – apenas
uma borbulha na massa em fusão – estoura
e se evola num
suspiro, à medida que a massa se enrijece,
Eu sorrio tristemente
ao recordar que a flor murcha para gerar
o fruto, e o fruto
decompõe-se para fecundar a terra.
Da mãe se parte para
palmilhar as exultações da primavera, a
maturação e a
decadência, mas ao fim se regressa ao lar materno.
Tu, apressando-te na
própria decadência: não és censurável;
a vida é boa, quer seja
ela uma longeva obstinação, quer
Um esplendor súbito e
mortal; meteoros não são menos necessários
que montanhas:
brilha, república moribunda.
Mas aos meus filhos,
recomendaria que guardem distância
desse centro que se
espessa; a corrupção jamais
Foi compulsória: quando
as cidades jazem aos pés do monstro,
restam-nos as
montanhas.
E vós, jovens, não
sejais em nada tão moderados quanto no amor
pelo homem, esse
servo astuto e abominável senhor.
Eis a armadilha na
qual caem os mais nobres espíritos, a mesma em que
– dizem-nos – Deus
deixou-se capturar em sua passagem pela Terra.
Em: “Tamar”
(1917-1923)
Referência:
JEFFERS, Robinson. Shine, perishing republic. In: __________. The selected poetry of Robinson Jeffers. Edited by Tim Hunt. Stanford, CA: Stanford University Press, 2001. p. 23.
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