Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 29 de setembro de 2026

Manoel de Barros - Carrego meus primórdios num andor

Barros sugere que a missão de um poeta seja a de ser um xamã da linguagem, alguém que, venerando as suas próprias origens, mostre-se capaz de despir as palavras de seu verniz civilizador para restaurar-lhes o poder mágico, corpóreo e revelador, abrindo assim uma janela para o eternamente misterioso.

 

Sob tal descortínio, viabilizado pelo regresso às origens, à infância das palavras e à voz animal, o que se nos revela é o “arcano”, o secreto, o misterioso, o não-racional, o sagrado, tudo aquilo que a nossa linguagem adulta e pensante terminou por ocultar, toda a matéria de que é feita a poesia – longe do que pode ser dito com clareza, bem mais perto do balbucio primordial confinante ao que não existe, ao inefável, ao que ainda não tem nome.

 

J.A.R. – H.C.

 

Manoel de Barros

(1916-2014)

 

Carrego meus primórdios num andor

 

Carrego meus primórdios num andor.

Minha voz tem um vício de fontes.

Eu queria avançar para o começo.

Chegar ao criançamento das palavras.

Lá onde elas ainda urinam na perna.

Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Quando a criança garatuja o verbo para falar

o que não tem.

Pegar no estame do som.

Ser a voz de um lagarto escurecido.

Abrir um descortínio para o arcano.

 

Natureza Arcana

(Autor não identificado)

 

Referência:

 

BARROS, Manoel de. Carrego meus primórdios num andor. In: __________. Livro sobre nada. Ilustrações de Wega Nery. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1997. p. 47.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Lawrence Ferlinghetti - Nova York – Albany

Como o próprio Ferlinghetti o esclarece na obra em referência (ENGLE & LANGLAND, 1982, p. 172), este poema transmuta uma simples viagem de ônibus, através da paisagem outonal do vale do Hudson, em uma jornada existencial, a espelhar certa angústia metafísica do sujeito lírico diante da consciência de mortalidade que lhe assoma ao espírito, como parte do ciclo natural e implacável que este observa ao longo do trajeto, precipuamente, folhas caídas a arderem sob o fogo com uma terrível beleza.

 

Perceba-se que tal mote – a do amarelecimento das folhas das árvores e a sequente queda que as deixa em estado de latência durante as estações mais frias do ano – também deu matéria para outro importante construto poético, nomeadamente a “Ode to the West Wind” (“Ode ao Vento Oeste”), do poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822), de onde, aliás, Ferlinghetti replica um de seus versos – ‘pestilence-stricken multitudes’ (“multidões atingidas pela pestilência”) –, para elevar, a toda evidência, o drama das sobreditas folhas em chamas a uma categoria trágica e coletiva: cada folha, cada momento, cada instante da juventude, é único e irrepetível, e, uma vez exauridas as suas promessas, desvanece-se para sempre.

 

J.A.R. – H.C.

 

Lawrence Ferlinghetti

(1919-2021)

 

New York – Albany (*)

 

God i had forgotten how

the Hudson burns

in indian autumn

Saugerties

Coxsackie

fall away through

all those trees

The leaves die turning

falling fallen

falling into loam of dark

yellow into death

Disappearing

falling fallen falling

god god those

‘pestilence-stricken multitudes’

rushed into the streets

blown all blasted

They are hurting them

with wood rakes

They are raking them

in great hills

They are burning them

lord lord

the leaves curl burning

the curled smoke gives up

to eternity

Never

never the same leaf turn again

the same leaves burn

lord lord

in a red field

a white stallion stands

and pees his oblivion

upon those leaves

washing my bus window

only now blacked out

by a covered bridge

we flash through

only once

No roundtrip ticket

Lord lord never returning

the youth years fallen

away back then

Under the Linden trees in Boston Common

Lord Lord

Trees think

through these woods of years

They flame forever

with those thoughts

Lord Lord

i did not see eternity

the other night

but now in burning

turning day

Lord Lord Lord

every bush burns

Love licks

all down

All gone

in the red end

Lord Lord Lord Lord

Small nuts fall

Mine too

 

In: “Starting from San Francisco” (1961)

 

Linha do Horizonte de Albany em Nova York

(Bri Buckley: artista irlandês)

 

Nova York – Albany

 

Deus tinha-me esquecido de como

o Hudson arde

no outono indígena

Saugerties

Coxsackie

desaparecem por entre

todas aquelas árvores

As folhas fenecem revirando-se

caindo emurchecidas

tombando no húmus escuro

e amarelo cingidas à morte

Desaparecendo

caindo emurchecidas tombando

deus deus aquelas

“multidões atingidas pela pestilência”

precipitaram-se às ruas

todas insufladas num arraso

Estão a magoá-las

com ancinhos de madeira

Estão a ajuntá-las

em grandes montes

Estão a queimá-las

senhor senhor

ao arderem as folhas encrespam-se

a fumaça em espirais rende-se

à eternidade

Nunca

nunca a mesma folha volta a revirar-se

as mesmas folhas queimam

senhor senhor

num campo vermelho

um garanhão branco se ergue

e urina a sua desmemória

sobre aquelas folhas

lavando a vidraça do meu ônibus

agora subitamente obscurecida

por uma ponte coberta

que fulgurantes atravessamos

uma única vez

Sem passagem de ida e volta

Senhor senhor sem nunca regressarmos

aos anos da juventude então perdidos

num passado deveras distante

Sob as Tílias do Boston Common

Senhor Senhor

As árvores pensam

através desses bosques de sucessivos anos

Ardem elas para sempre

com tais pensamentos

Senhor Senhor

não vi a eternidade

na noite passada

mas agora em chamas

no dia a transformar-se

Senhor Senhor Senhor

todos os arbustos ardem

As lambidelas do amor

a tudo consomem

Tudo se precipita

no vermelho final

Senhor Senhor Senhor Senhor

Pequenas nozes caem

As minhas também

 

Em: “Partindo de São Francisco” (1961)

 

Nota:

 

(*). O título do poema diz respeito à cidade de Albany, no Estado de Nova York (EUA); reporta-se ele, ademais, a outras duas cidades no mesmo Estado, a saber, Saugerties e Coxsackie.

 

Referência:

 

FERLINGHETTI, Lawrence. New York – Albany. In: ENGLE, Paul; LANGLAND, Joseph (Eds.). Poet’s choice. With an introduction by Paul Engle. Reprinting. Alexandria, VA: Time-Life Books, 1982. p. 170-172.

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domingo, 27 de setembro de 2026

António Reis - 62: Quantos navios

A influência do cinema nestes versos do poeta português é palpável: o poema funciona como um plano-sequência. De início, a câmera dirige o seu foco ao poeta num banco de jardim, depois move-se em direção às crianças a brincar, capta os reflexos do sol e, finalmente, mergulha na subjetividade do adormecido, onde a imagem dos navios se sobrepõe ao seu corpo.

 

O quotidiano aqui se transfigura num símbolo de paz e de pertencimento ao mundo, num plácido e intenso deixar-se levar pelas contingências do momento, oportunamente capturadas pelos filtros da percepção sensorial, a servirem como portas de entrada para um estado de unidade com o entorno – quer consciente quer onírico.

 

J.A.R. – H.C.

 

António Reis

(1927-1991)

 

62: Quantos navios

 

Quantos navios

vejo eu passar

estendido nos bancos dos jardins

 

É feriado

 

Jogam as crianças correndo

atrás das

sombras

de pássaros

 

O sol

bate na água

nas folhas

e nos meus olhos

 

seduzidos

 

E eu adormeço

deixando

que os navios

passem

lentos

 

sobre mim

 

Observando as embarcações, Gloucester

(Winslow Homer: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

REIS, António. 62: Quantos navios. In: __________. Poemas quotidianos. Prefácio de Fernando J. B. Martinho. Posfácio Joaquim Sapinho. Lisboa, PT: Tinta-da-china, 2017. p. 80.

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sábado, 26 de setembro de 2026

Adrienne Rich - Para um Álbum

A poetisa norte-americana nos diz que a verdadeira crônica de um amor ou de uma vida compartilhada não se encontra nos sorrisos congelados dos álbuns de fotografias, mas nos instantes críticos, amiúde dolorosos, de confrontação e de verdade que ocorrem na mais absoluta intimidade: na emergência da potência destrutiva ou fundacional da linguagem; no combate silencioso das almas; na cumplicidade em cuja torrente se negociam as aflições e as possíveis curas, no instante mesmo em que uma notícia, entre presságios e suspenses, pode irromper e tudo mudar.

 

É uma defesa da profundidade em detrimento da superficialidade e um testemunho de que as histórias mais significativas são precisamente aquelas que não podem ser capturadas pela objetiva de uma câmera (uma vez que não exatamente vocacionadas a momentos performáticos), resultantes de uma vida interior que pulsa freneticamente sob a aparente imobilidade, em vertiginosa velocidade emocional.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adrienne Rich

(1929-2012)

 

For an Album

 

Our story isn’t a file of photographs

faces laughing under green leaves

or snowlit doorways, on the verge of driving

away, our story is not about women

victoriously perched on the one

sunny day of the conference,

nor lovers displaying love:

 

Our story is of moments

when even slow motion moved too fast

for the shutter of the camera:

words that blew our lives apart, like so,

eyes that cut and caught each other,

mime of the operating room

where gas and knives quote each other

moments before the telephone

starts ringing: our story is

how still we stood,

how fast.

 

1987

 

In: “Time’s Power” (1985-1988)

 

Duas mulheres sob uma árvore no jardim

(Edvard Munch: pintor norueguês)

 

Para um Álbum

 

Nossa história não é um arquivo de fotografias

com rostos sorridentes sob a verde ramagem

ou umbrais iluminados pela neve, à iminência da partida;

nossa história não é sobre mulheres

triunfantes posando no único

dia ensolarado da conferência,

nem sobre amantes a demonstrarem amor:

 

Nossa história é sobre momentos

em que até o mais lento curso se movia rápido demais

para o obturador da câmera:

palavras que nos destroçavam a vida, assim,

olhares que se cruzavam e se atraíam,

mímica do centro cirúrgico

onde o gás e os bisturis entabulam diálogo

instantes antes de o telefone

começar a tocar: nossa história é

sobre o quão imóveis nos quedamos,

o quão rapidamente.

 

1987

 

Em: “O Poder do Tempo” (1985-1988)

 

Referência:

 

RICH, Adrienne. For an álbum. In: __________. Collected poems: 1950-2012. Introduction by Claudia Rankine. 8th ed. New York, NY: W. W. Norton, 2016. p. 684-685.

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