Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 31 de outubro de 2026

Augusto Frederico Schmidt - Pássaro cego

Estes versos de Schmidt transmitem ao leitor um marcante senso de herança emocional e coletiva, mediante o qual o sujeito lírico se reconhece como portador de dores e de angústias não vivenciadas diretamente, mas legados por seus ancestrais, circunstância que o faz oscilar entre o pesar e o desejo de paz, revelando-lhe a tensão entre a memória de pregressas injustiças e a busca por horizontes mais serenos.

 

Sob tal perspectiva, pode-se supor que a imagem de um “pássaro cego” venha a simbolizar a sua incapacidade de ver a luz exterior devido a essas “sombras interiores”, como resultante do sobredito conflito entre, de um lado, as expectativas por uma condição de transparência ou de clareza, e de outro, o aprisionamento no domínio da própria subjetividade.

 

É essa consciência de uma fatalidade plasmada nos bastiões da história e nos escaninhos dos dramas familiares que permite a esse pássaro, ainda que sob a ausência de luz, perceber a sua existência e almejá-la, tornando o seu voo um belo e inquietante percurso lírico, a dar voz aos “mil tormentos sem voz”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Frederico Schmidt

(1906-1965)

 

Pássaro cego

 

Sinto clamar em mim vozes tristes, chorando.

Sinto gritar em mim longos martírios

Que não sofri.

 

Sinto que sou a forma, o lamento, a expressão

De mil tormentos mudos abafados.

De mil tormentos sem voz.

Mil tormentos sem voz!

 

Minha poesia é um pouco da queixa de homens errantes,

De homens sem lar e sem repouso.

De homens que foram meus avós.

Deles herdei a angústia infinita,

Deles herdei o tédio de todas as paisagens,

A inquietação de todos os momentos.

 

Sou a última folha de uma árvore infeliz

Que o vento rude desprendeu.

 

Trago comigo a desolação da pátria abandonada

E a revolta de mil incompreensões e injustiças sofridas,

Mas há em mim um infinito desejo de pacificação;

O ódio de meus avós não está comigo,

Ficou apenas a indecisão,

Ficou apenas a instabilidade.

 

Sou como um pássaro cego voando na eterna escuridão.

No entanto a escuridão está em mim somente.

Sei que fora de mim há um clima diferente,

Sei que há céu azul, supremas claridades,

E que as trevas estão nos meus olhos apenas.

 

Em: “Pássaro cego” (1930)

 

Pássaro cego

(Morris Graves: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

SCHMIDT, Augusto Frederico. Pássaro cego. In: __________. Poesia completa: 1928-1965. Introdução de Gilberto Mendonça Teles. Rio de Janeiro, RJ: TopBooks; Faculdade da Cidade, 1995. p. 93.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Charles Bukowski - a farsa

Bukowski define a guerra como uma transação de classe: os pobres e os marginais pagam com seus corpos um conflito desenhado e narrado pelos ricos e poderosos, os quais, claro está, permanecem a salvo, física e economicamente, no coração do império, com toda a comodidade e indiferença.

 

Antes de ser um evento geopolítico, a guerra é, para o autor, um negócio cruel que se alimenta da desigualdade para explorar, ao máximo, exatamente aqueles a quem o sistema deixou de contemplar, numa fraude em escala nacional, somente possível pela cumplicidade de uma máquina midiática de massa, a promover uma autêntica “lavagem cerebral” com o objetivo de ocultar a realidade dos fatos.

 

Afinal, a verdadeira batalha que os negros, os mexicanos e os brancos pobres perderam – e continuam a perder quotidianamente – é a da justiça social em seu próprio país, da qual resulta a situação de vulnerabilidade que os expõe a se tornarem “buchas de canhão” ou “moedas de troca” nos conflitos perpetrados pelas estruturas centralizadoras de poder, desvestidas de quaisquer valores éticos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Bukowski

(1920-1994)

 

the con job

 

the ground war began today

at dawn

in a desert land

far from here.

the U.S. ground troops were

largely

made up of

Blacks, Mexicans and poor

whites

most of whom had joined

the military

because it was the only job

they could find.

 

the ground war began today

at dawn

in a desert land

far from here

and the Blacks, Mexicans

and poor whites

were sent there

to fight and win

as on tv

and on the radio

the fat white rich newscasters

first told us all about

it

and then the fat rich white

analysts

told us

why

again

and again

and again

on almost every

tv and radio station

almost every minute

day and night

because

the Blacks, Mexicans

and poor whites

were sent there

to fight and win

at dawn

in a desert land

far enough away from

here.

 

A trincheira

(Otto Dix: artista alemão)

 

a fraude

 

a guerra terrestre iniciou-se hoje

ao amanhecer

numa região desértica

longe daqui.

as tropas de solo estadunidenses

eram em grande parte

compostas por

negros, mexicanos e brancos

pobres

a maioria dos quais alistara-se

nas forças armadas

por ser a única ocupação

que lograram encontrar.

 

a guerra terrestre iniciou-se hoje

ao amanhecer

numa região desértica

longe daqui

e os negros, mexicanos

e brancos pobres

para lá foram despachados

para combater e triunfar

enquanto na tv

e no rádio

os ricos e obesos âncoras brancos

primeiro nos noticiavam

o ocorrido

e depois os ricos e obesos

analistas brancos

nos elucidavam

as razões

reiteradamente

reiteradas

e reiteradas vezes

em quase todas as

emissoras de tv e de rádio

quase a cada minuto

dia e noite

porque

os negros, mexicanos

e brancos pobres

para lá foram despachados

para combater e triunfar

ao amanhecer

numa região desértica

suficientemente longe

daqui.

 

Referência:

 

BUKOWSKI, Charles. the con job. In: __________. sifting through the madness for the word, the line, the way: new poems. Edited by John Martin. New York, NY: Ecco / HarperCollins, 2003. p. 167-168.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Anna Akhmátova - Sonho mais raramente com ele

Este poema de Akhmátova revela-se como uma ponte entre o íntimo e o histórico, pois a poetisa, para além de meramente escrever sobre um divórcio emocional, documenta, de fato, o momento em que o cataclismo pessoal – o fim de um caso de amor tempestuoso com o seu ex-cônjuge, Nikolái Gumilióv (1886-1921) – se entrelaça com um cataclismo histórico – a Revolução Russa de 1917.

 

O alívio de não mais sonhar com Gumilióv mistura-se, numa leitura superveniente, com a premonição do seu destino trágico (Gumilióv foi preso e executado pela Cheka, a polícia secreta soviética, em 1921) e a necessidade de forjar um “repouso congelado” que lhe permitisse, nos anos seguintes, tornar-se a cronista silenciosa e resiliente das agruras por que passou o povo russo.

 

A natureza e os símbolos religiosos – a névoa, os sinos, os monges – funcionam no poema como um mapa da alma nesse ponto de viragem, como se mediadores dessa transição fossem, oferecendo consolo e transcendência frente à ferida da memória conjugal, no exato instante em que a dor do amor se transforma em insensibilidade profética necessária para manter-se viva aos desenlaces da História.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anna Akhmátova

(1889-1966)

 

Стал мне реже сниться

 

Стал мне реже сниться, слава богу,

Больше не мерещится везде.

Лег туман на белую дорогу,

Тени побежали по воде.

 

И весь день не замолкали звоны

Над простором вспаханной земли,

Здесь всего сильнее от Ионы

Колокольни Лаврские вдали.

 

Подстригаю на кустах сирени

Ветки те, что нынче отцвели;

По валам старинных укреплений

Два монаха медленно прошли.

 

Мир родной, понятный и телесный,

Для меня, незрячей, оживи.

Исцелил мне душу царь небесный

Ледяным покоем нелюбви.

 

Киев, 1912

В: “Бълая Стая” (1917)

 

Colhendo violetas

(János Thorma: pintor húngaro)

 

Sonho mais raramente com ele (*)

 

Sonho mais raramente com ele, graças a Deus,

já não imagino que o vejo em toda parte.

A névoa encobre a estrada embranquecida,

as sombras leves já fogem sobre a água.

 

O dia inteiro os sinos não pararam

de tocar sobre os campos bem arados.

Ainda mais altos são os do mosteiro

de São João que eu vejo lá longe.

 

No campo, vou colhendo as violetas

que ainda outro dia floresceram

e fico olhando aqueles dois monges

que passeiam pela antiga muralha.

 

Diante de meus olhos, que eram cegos,

ressurge concreto um mundo inteligível e familiar.

O Deus dos Céus cicatrizou minha alma

com a gélida calma da ausência do amor.

 

Kiev, 1912

Em: “Revoada Branca” (1917)

 

Nota do Tradutor:

 

(*). Neste poema, pertencente à fase da separação de Anna e Nikolái Gumilióv [seu ex-esposo], o mosteiro a que ela se refere é o de São João da Trindade, em Kiev. (AKHMÁTOVA, 2009, p. 165)

 

Referências:

 

Em Russo

 

АХМАТОВА, АННА. Стал мне реже сниться. In: __________. Стихотворения и поэмы. Вступительная статья А. А. Суркова. Составление, подготовка текста и примечания I В. М. Жирмунского. Ленинград, РУ: Издательство “Советский писатель”, 1976. с. 129-130.

 

Em Português

 

AKHMÁTOVA, Anna. Sonho mais raramente com ele. Tradução de Lauro Machado Coelho. In: __________. Antologia poética. Seleção, tradução do russo, apresentação e notas de Lauro Machado Coelho. 1. ed. na Coleção L&PM Pocket.  Porto Alegre, RS: L&PM, fev. 2009. p. 64. (L&PM Pocket; v. 751)

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