Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Armindo Trevisan - O Mais Comovido Poema

O sujeito lírico reconhece-se como fruto de um chamado divino, dotado de uma vida que surgiu do mais absoluto mistério, vida essa que lhe foi outorgada pelo Criador para além do mero desejo humano de seus pais, numa expressão de todo o amor originário, diga-se com ênfase, convolado pela palavra em um ser que, em sua peregrinação, tende a regressar à fonte, para assim completar o ciclo que vai do oceano abissal ao mar da eternidade.

 

Os pais humanos são apresentados nestes versos como “imagens” do verdadeiro Pai, mas imagens “onde o pó se aninha / como num velho espelho”, de onde se deduz certa dialética entre o humano – imperfeito, poeirento, reflexo desgastado – e o divino – primigênio, puro –, sem que se negue, é claro, o valor desse reflexo, mas apontando para além dele, digo melhor, para o verdadeiro sentido da vida, concebida como um dom pelo qual se deve ser infinitamente grato.

 

J.A.R. – H.C.

 

Armindo Trevisan

(n. 1933)

 

O Mais Comovido Poema

 

O mais comovido poema

é a Ti,

que me tiraste do nada,

como se tira uma pérola

do oceano sem fundo.

 

Que quiseram da vida meus pais?

Um filho.

 

Só Tu me quiseste, a mim,

e proferiste meu nome

entre as estrelas,

no segredo

da terra,

onde nenhum ouvido o podia apanhar,

onde Tua presença

era do tamanho de uma alvorada

– de uma noite

que se estende de um polo a outro polo.

 

Foi lá que o escutei pela primeira vez.

Semelhante a uma cotovia,

que o vento com suas carícias

faz estremecer.

 

Minha alma, criada por Ti,

uma palavra de Tua boca,

correu a abraçar-se

a um corpo cego,

seta

que um índio lança

ao espaço e torna a cair

a seus pés.

 

O mais comovido poema

é a Ti, Pai,

do Qual meus pais

são imagens

onde o pó se aninha

como num velho espelho.

 

Ao expirar, meu sopro

irá para Ti.

Novamente,

escutarei meu nome,

não entre lágrimas e flores murchas,

mas ao som de trombetas.

 

Lerei, na pedrinha que me for entregue,

O novo nome que possuirei.

 

Com meus irmãos

cantarei para sempre

Tua bondade,

imerso no oceano sem fundo

donde tiraste minha pequenina pérola.

 

Em: “O Moinho de Deus” (1985)

 

Ostra e Pérola

(Kim Hovell: pintora norte-americana)

 

Referência:


TREVISAN, Armindo. O mais comovido poema. In: __________. Antologia poética. Porto Alegre, RS: Mercado Aberto, 1986. p. 170-171.

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terça-feira, 27 de outubro de 2026

Emilio Prados - Adormecido sobre a relva

A modo de um manifesto para fazer frente ao mundo do fazer e do falar superficial, opondo-lhe a via do estar, do sentir e do silenciar, Prados apresenta-nos nestes versos a tese de que a percepção aguda também é uma forma de conhecimento, permitindo-nos apreender a vida em profundidade, bem assim a morte, eis que integrada à paisagem como se um sonho fosse, no qual a natureza acolhe o ser humano e o devolve à sua origem.

 

Para o poeta espanhol, com alguma frequência, a sabedoria maior consiste em estender-se sobre a relva e escutar o estalido da rosa já morta, porque nesse som está contida a verdade do eterno ciclo: cumpre-nos perceber os seus sinais – a lua que acaricia, o vento que arruína, o sol que já não nos fervilha o sangue –, todos eles indicativos de um corpo que se apaga lentamente.

 

J.A.R. – H.C.

 

Emilio Prados

(1899-1962)

 

Dormido en la yerba

 

Todos vienen a darme consejo.

Yo estoy dormido junto a un pozo.(1)

 

Todos se acercan y me dicen:

– La vida se te va,

y tú te tiendes en la yerba,

bajo la luz más tenue del crepúsculo,

atento solamente

a mirar cómo nace

el temblor del lucero

o el pequeño rumor

del agua, entre los árboles.

 

Y tú te tiendes sobre la yerba:

cuando ya tus cabellos

comienzan a sentir

más cerca y fríos que nunca,

la caricia y el beso

de la mano constante

y sueño de la luna.

 

Y tú te tiendes sobre la yerba:

cuando apenas si puedes

sentir en tu costado

el húmedo calor

del grano que germina

y el amargo crujir

de la rosa ya muerta.

 

Y tú te tiendes sobre la yerba:

cuando apenas si el viento

contiene su rigor,

al mirar en ruina

los muros de tu espalda,

y, el sol, ni se detiene

a levantar tu sangre del silencio.

 

Todos se acercan y me dicen:

– La vida se te va.

Tú, vienes de la orilla

donde crece el romero y la alhucema(2)

entre la nieve y el jazmín, eternos,

y, es un mar todo espumas

lo que aquí te ha traído

porque nos hables...

Y tú te duermes sobre la yerba.

 

Todos se acercan para decirme:

– Tú duermes en la tierra

y tu corazón sangra

y sangra, gota a gota,

ya sin dolor, encima de tu sueño,

como en lo más oscuro

del jardín, en la noche,

ya sin olor, se muere la violeta.

 

Todos vienen a darme consejo.

Yo estoy dormido junto a un pozo.

 

Sólo, si algún amigo

se acerca, y, sin pregunta

me da su abrazo entre las sombras:

lo llevo hasta asomarnos

al borde, juntos, del abismo,

y en sus profundas aguas

ver llorar a la luna y su reflejo,

que más tarde ha de hundirse

como piedra de oro,

bajo el otoño frío de la muerte.

 

Rapaz descansando

(Paul Cézanne: pintor francês)

 

Adormecido sobre a relva

 

Todos vêm dar-me conselhos.

Estou adormecido junto a um poço.

 

Todos se aproximam e dizem-me:

– A vida está a escapar-te,

e deitas-te sobre a relva,

sob a luz mais tênue do crepúsculo,

atento apenas

a contemplar como nasce

o frêmito da estrela d’alva

ou o pequeno murmúrio

da água, entre as árvores.

 

E deitas-te sobre a relva:

quando os teus cabelos já

começam a sentir,

mais perto e frios do que nunca,

a carícia e o beijo

da mão constante

e o sonho da lua.

 

E deitas-te sobre a relva:

quando mal consegues

sentir no teu lado

o úmido calor

do grão que germina

e o amargo estalido

da rosa já morta.

 

E deitas-te sobre a relva:

quando mal o vento

contém o seu rigor,

ao ver em ruínas

os muros de tuas costas,

e o sol nem sequer se detém

para levantar o teu sangue do silêncio.

 

Todos se aproximam e dizem-me:

– A vida está a escapar-te.

Tu, vens da margem onde, eternos,

crescem o alecrim e a alfazema

entre a neve e o jasmim,

e foi um mar todo espumas

que te trouxe até aqui

para que nos fales...

E adormeces sobre a relva.

 

Todos se aproximam para me dizer:

– Tu dormes sobre a terra

e teu coração sangra

e sangra, gota a gota,

já sem dor, sobre o teu sonho,

como no mais escuro

do jardim, na noite,

já sem perfume, morre a violeta.

 

Todos vêm dar-me conselhos.

Estou adormecido junto a um poço.

 

Apenas se algum amigo

se aproxima e, sem perguntar,

me dá um abraço entre as sombras:

eu o levo até nos debruçarmos

juntos à beira do abismo

para, em suas profundas águas,

vermos chorar a lua e o seu reflexo,

que mais tarde há de afundar-se

como uma pedra de ouro,

sob o frio outono da morte.

 

Notas:

 

(1). A comunicação com os outros é impossível: o poço simboliza o efeito opaco da solidão. (ORTEGA, 1987, n.r., p. 99)

 

(2). Alhucema: Alfazema, planta com caules lenhosos, folhas ligeiramente pubescentes e flores azuis perfumadas em espigas, utilizada em perfumaria; lavanda.

 

Referências:

 

PRADOS, Emilio. Dormido en la yerba. In: __________. Jardín cerrado. Edición de Juan Manuel Díaz de Guereñu. Madrid, ES: Ediciones Cátedra, 2000. p. 235-237. (Letras Hispánicas)

 

ORTEGA, Esperanza (Edición, introducción, notas, comentarios y apéndice). Antología de la generación del 27: varios autores. Madrid, ES: Anaya, 1987. p. 98-99. (Biblioteca Didáctica Anaya; v. 23)

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