Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Heinrich Heine - O conteúdo que um poema encarna

Heine, nesta abordagem concreta e artesanal da criação literária, rejeita a ideia de que o poema surja do nada, afirmando que, à semelhança da criação divina, o poeta necessita de matéria prévia para dar forma à sua visão, transformando-a num artefato autoconsciente, bem mais além de sua origem bruta.

 

Trata-se, como se vê, de uma paródia dessacralizadora do relato bíblico, a equiparar o poeta com qualquer outro criador, com Deus inclusive – em sua versão judaico-cristã –, a quem nega a capacidade de criar “ex nihilo”: a seu ver, o que dá origem à espécie humana – e, por analogia, ao poema – não seria o pó sagrado a partir do qual o Criador moldou Adão, mas a matéria-prima mais mundana, até ignóbil – dir-se-ia vulgar, anti-idealista e corpórea –, logo convertida, pelo ofício e pela técnica, em uma obra de arte grávida de valor, sentido e beleza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Heinrich Heine

(1797-1856)

Retratado por Moritz Daniel Oppenheim

 

Der Stoff, das Material des Gedichts

 

Der Stoff, das Material des Gedichts,

Das saugt sich nicht aus dem Finger;

Kein Gott erschafft die Welt aus nichts,

Sowenig wie irdische Singer.

 

Aus vorgefundenem Urweltsdreck

Erschuf ich die Männerleiber,

Und aus dem Männerrippenspeck

Erschuf ich die schönen Weiber.

 

Den Himmel erschuf ich aus der Erd’

Und Engel aus Weiberentfaltung;

Der Stoff gewinnt erst seinen Wert

Durch künstlerische Gestaltung.

 

(1844)

 

Ilusão espacial da matéria

(Sergio Arcos: artista colombiano)

 

O conteúdo que um poema encarna

 

O conteúdo que um poema encarna

Jamais surgiu num estalar de dedos;

Se demiurgos não criam do nada,

Ah, muito menos os mortais aedos.

 

Do preexistente lixo primordial

Foi que eu formei o corpo masculino;

Dele eu tirei o osso com o qual

Moldei o da mulher ainda mais lindo.

 

O céu saiu do entulho aqui da Terra,

Os anjos desdobrei da mulherada;

Somente pelo esforço do “poeta” –

É que a matéria é valorizada.

 

(1844)

 

Referência:

 

HEINE, Heinrich. Der stoff, das material des gedichts / O conteúdo que um poema encarna. Tradução de André Vallias. In: __________. Heine, hein? – poeta dos contrários. Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo, SP: Perspectiva; Goethe Institut, 2011. Em alemão: p. 260, em português: p. 261. (Coleção “Signos”; v. 53)

❁

domingo, 25 de outubro de 2026

Robert Graves - A Linguagem das Estações

De um lado, a verdade elementar da vida natural; do outro, a artificialidade da urbe: eis aí o tema de que trata este poema de Graves. Para ele, o homem somente no campo recupera a sua linguagem primária, na qual conceitos abstratos, como o amor e o tempo, traduzem-se em realidades tangíveis e, com alguma frequência, desconfortáveis.

 

Já agora, estamos nós marcados pela linguagem do intelectualismo, pela psicologia, pela abstração; uma linguagem que media e dilui a experiência direta nos domínios do entorno citadino, onde se percebe o clima somente como frio ou calor, pelo uso de casacos ou roupas térmicas, pelas flores artificiais e exóticas sem quaisquer conexões com a ordem natural.

 

Parece-lhe, sob tal perspectiva, que a natureza, com os seus ciclos ineludíveis e suas leis implacáveis, seria o único dicionário legítimo para compreender a própria vida, mensurá-la, avaliar-lhe as consequências físicas reais, seus extremos de abundância e de escassez, em conexão tanto com a beleza quanto com a destruição – diga-se por oportuno, à maneira dos antigos, cuja sabedoria muito se fundamentava no ritmo das estações.

 

Daí porque aos olhos de Graves a nossa desaprovação a tal infringência aos repertórios do meio ambiente há de ser “legitimista”, um termo político a vincular a ordem natural com um direito monárquico divino que não deve ser violado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Graves

(1895-1985)

 

Language of the Seasons

 

Living among orchards, we are ruled

By the four seasons necessarily:

This from unseasonable frosts we learn

Or from usurping suns and haggard flowers –

Legitimist our disapproval.

 

Weather we knew, not seasons, in the city

While, seasonless, orange and orchid shone,

Knew it by heavy overcoat or light,

Framed love in later terminologies

Than here, where we report how weight of snow,

Or weight of fruit, tears branches from the tree.

 

Parada das Estações

(Anne Gifford: artista norte-americana)

 

A Linguagem das Estações

 

Vivendo entre pomares, somos regidos

Necessariamente pelas quatro estações:

Aprendemo-las com as geadas fora de época

Ou com sóis usurpadores e flores murchas –

Legitimista é a nossa desaprovação.

 

Na cidade, conhecíamos o clima, não as estações,

Já que lá, orquídeas e laranjas reluzem intempestivas;

Sabíamo-lo pelos casacos pesados ou leves,

o amor delimitado em terminologias mais tardias

Que as daqui, onde percebemos como o peso da neve

Ou dos frutos arrancam os ramos das árvores.

 

Referência:

 

GRAVES, Robert. Language of the seasons. In: __________. Poems: 1938-1945. 1st ed. New York, NY: Farrar, Straus and Giroux, 1967. p. 23.

❁

sábado, 24 de outubro de 2026

Raymond Chandler - Poema para Cissy

Preliminarmente, cumpre reportar o fato de que Raymond Chandler, escritor anglo-americano, redigiu o infratranscrito poema, ainda a experimentar a dor fresca da perda, em homenagem à sua falecida esposa, Cissy Pascal Chandler, com que conviveu por quase três décadas.

 

Trata-se, por conseguinte, de uma elegia de Chandler à amada companheira que se foi, a que se conjugam reflexões sobre a própria capacidade de sentir, tendente inevitavelmente a erodir-se pela passagem do tempo, sob cujos efeitos o autor se projeta no futuro como um estranho para as suas próprias recordações.

 

Deveras, a memória, ainda que persista em forma de cartas, ter-se-á desvanecido para sempre em seu poder de suscitar as mesmas emoções que uma vez o narrador terá sentido no gozo de um devotado amor, como se uma borboleta efêmera fosse, destinada a perder-se na consciência de quem o busca reviver.

 

J.A.R. – H.C.

 

Raymond Chandler

(1888-1959)

 

Requiem

 

There is a moment after death when the face is beautiful

When the soft tired eyes are closed and the pain is over,

And the long, long innocence of love comes gently in

Tor a moment more in quiet to hover.

 

There is a moment after death, yet hardly a moment

When the bright clothes hang in the scented closet

And the lost dream fades and slowly fades,

When the silver bottles and the glass, and the empty mirror,

And the three long hairs in a brush and a folded kerchief,

And the fresh made bed and the fresh, plump pillows

On which no head will lie

Are all that is left of the long wild dream.

 

But there are always the letters.

 

I hold them in my hand, tied with green ribbon

Neatly and firmly by the soft, strong fingers of love.

The letters will not die.

They will wait and wait for the stranger to come and read them.

He will come slowly out of the mists of time and change,

He will come slowly, diffidently, down the years,

He will cut the ribbon and spread the letters apart,

And carefully, carefully read them page by page.

 

And the long, long innocence of love will come softly in

Like a butterfly through an open window in summer,

For a moment more in quiet to hover.

But the stranger will never know. The dream will be over.

The stranger will be I.

 

Imagem sem créditos

 

Poema para Cissy

 

Há um momento após a morte em que o rosto se torna belo

e os suaves olhos fatigados se fecham; em que a dor acabou

e a antiga, antiga inocência do amor gentilmente retorna

e fica por perto apenas por mais um instante.

 

Há um momento após a morte (que sequer é um momento)

em que as coloridas roupas penduradas no armário perfumado

e o sonho perdido fenecem lentamente;

em que os vidros e o copo de prata e o espelho vazio

e os três compridos fios de cabelo na escova e o lenço dobrado

e a cama refeita com seus gordos travesseiros

(onde nenhuma cabeça se pousará)

é tudo que restou de um grande sonho selvagem.

 

Mas existem sempre as cartas.

 

Eu as seguro nas mãos, amarradas numa fita verde,

com firme pureza entre os suaves e fortes dedos do amor.

As cartas não morrerão,

esperando pelo estranho que virá lê-las.

Virá lentamente, emergindo da névoa do tempo e da mudança,

virá lentamente, desafiador, pelo correr dos anos

cortará a fita e as espalhará a sua volta

e cuidadosamente as lerá página por página.

 

E a antiga inocência do amor voltará, virá lentamente,

suave como uma borboleta por uma janela aberta no verão,

só por mais um momento, em silêncio, para estar perto,

mas o estranho nunca saberá. O sonho acabou.

O estranho sou eu.

 

Folhetim, 02.02.86

 

Referências:

 

Em Inglês

 

CHANDLER, Raymond. Requiem. In: MacSHANE, Frank. The life of Raymond Chandler. 1st ed. New York, NY: E. P. Dutton, 1976. p. 229-230.

 

Em Português

 

CHANDLER, Raymond. Poema para Cissy. Tradução de Newton Goldman. In: SUZUKI JR., Matinas; ASCHER, Nelson (Orgs.). Folhetim: poemas traduzidos. Vários tradutores. São Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 49-50.

❁

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Fernando Paixão - Rio das faces

Paixão desenha uma paisagem interior onde o “eu” é um rio cujas águas são todos os rostos que tem sido – ou que poderia ter sido –, mas que, ao fluir, levam consigo a noção de um ser unificado, cabendo à poesia, como derradeiro recurso ou refúgio, a tarefa de capturar, ainda que de modo imperfeito como uma “pegada” ou um “respiro”, os rastros dessa efêmera multiplicidade.

 

Ao final, o poema deixa de resolver o enigma que suscita, fixando-o no leitor com a mesma perplexidade com que o falante observa o seu próprio rosto no espelho do tempo, uma máscara de momento à volta da qual irrompem as mesmas indagações: a quem pertence essa identidade que ora ostenta? É mesmo sua, ou é apenas mais uma “identidade alugada”?

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Paixão

(n. 1955)

 

Rio das faces

 

Tantos que fui

conto a soma de poucos.

 

Alguns nunca tiveram semblante.

Dissiparam-se nas horas

– nem cinzas fiquei.

Outros devastaram cidades

e (santa ironia!)

evaporaram em loucura quase mítica.

 

Muitos que sou

Ficaram à margem de ser.

Ao menos tivessem cicatrizado

seu corte.

Teriam sido passagem

corpo e nome

aluguel de meu alguém.

 

Perdi-me entre muitos.

Fico sem mim.

Alguns poemas apenas sujeitam

pegadas, e eram respirações...

Foram tantos tão pouco.

Mesmos em outros.

 

Que nem desdobrar sei

este agora eu

(de quem?)

fixado contra o rosto.

 

Dúvidas em sonhos míticos

(Katerina Sapozhkova: artista ucraniana)

 

Referência:

 

PAIXÃO, Fernando. Rio das faces. In: MASSI, Augusto (Org.). Artes e ofícios da poesia. Porto Alegre, RS: Artes e Ofícios, 1991. p. 152.

❁