O Nobel sueco aqui nos
fala, a princípio, de seus antepassados como figuras humildes, porém dignas e
plenas – agricultores e mineiros que usufruíram vidas frugais com simplicidade,
lealdade e fé –, amparados no valor do trabalho como fonte inesgotável de força
ética, pelo que lhes demonstra gratidão, reconhecimento e ânimo tangível de
vinculação às suas raízes – ainda que de outros modos.
Digo isto porque se
nota certo contraste geracional entre a vida modesta do passado e as
possibilidades ou tentações presentes no quotidiano do poeta, as quais, em
última instância, materializaram-se em sua vocação para a arte, qual seja, a da
Poesia – não exatamente um ato de traição ao espírito legado pela linhagem
campesina, senão a transmutação desse espírito a uma nova forma, haja vista que
a voz artística, longe de representar um gesto de recusa e de denegação,
funda-se, de fato, na mesma base principiológica de labor, silêncio e tenacidade
dos ancestrais.
J.A.R. – H.C.
Erik Axel Karlfeldt
(1864-1931)
Fäderna
Ej finns deras namn
på hävdens blad
– de levde i ringhet
och frid –
men jag skönjer ändå
deras långa rad
allt upp i den urgrå
tid.
Ja, här i det gamla
Järnbärarland
de bröto åker på
älvens strand
och malm ur gruvan
bredvid.
De kände ej
trältjänst, förstodo ej krus,
de sutto som drottar
i eget hus
och togo sitt
högtidsrus.
De kysste flickor i
livets vår,
en vart deras
trofasta brud.
De ärade kungen, de
fruktade Gud
och dogo i stillhet,
mätta av år.
Mina fäder! I
smärtans och frestelsens stund
fick jag styrka vid
tanken på er.
Som ni vårdat och
älskat ert ärvda pund,
vill jag småle nöjd
åt vad ödet ger.
Vid njutningens
vinkande överflöd
har jag tänkt på er
kamp, på ert torftiga bröd:
har jag rätt att
begära mer?
Det har svalkat som
bad i den strömmande älv,
när mot lustan jag
kämpat mig trött,
det har lärt mig att
rädas mitt eget kött
mer än världens
ondska och satan själv.
Mina fäder, jag ser
er i drömmarnas stund,
och min själ blir
beklämd och vek.
Jag är ryckt som en
ört ur sin groningsgrund,
halvt nödd, halvt
villig er sak jag svek.
Nu fångar jag toner
ur sommar och höst
och ger dem visans
lekande röst:
låt gå, det är också
ett värv.
Men klingar det fram
ur min dikt någon gång
en låt av stormsus
och vattusprång,
en tanke manlig och
djärv,
finns där lärkspel
och vårljus från fattig hed
och suckar ur
milsdjup skog –
ni ha sjungit det
tyst genom många led
vid yxans klang,
bakom fora och plog.
Família caminhando
pelo jardim
(Imre Gergely:
artista húngaro)
Nossos Pais
Seus nomes não
figuram nas crônicas antigas,
– eles viveram na
humildade e em paz –
no entanto, posso
acompanhar a sua história
desde os tempos mais
distanciados.
Sim, foi aqui, neste
velho país do ferro
que arrotearam o
campo junto à riba do rio
e foram arrancar os
minerais à mina.
Ignoravam a servidão
e as boas maneiras,
viviam como reis em
suas próprias casas,
e se embebedavam por ocasião
das festas.
Na primavera da vida,
abraçavam donzelas,
e tomavam de uma para
esposa fiel.
Temiam a Deus,
honravam o soberano,
e morriam em
silêncio, saciados de vida.
Nos momentos de dor,
de tentação,
eu penso em vós, meus
pais, pedindo forças.
Bem soubestes guardar
a vossa pobre herança,
por isso é que sorrio
às dádivas do destino;
e quando a ronda dos
prazeres me convoca
meu pensamento se
volta para o vosso pão frugal:
terei direito de
reclamar algo melhor?
Como por um manancial
me sinto refrescado
quando venço o desejo
e me encontro aturdido,
com isso aprendo a
recear mais os anseios da carne
que os encantos do
mundo e mesmo que Satã.
Meus pais, eu vos
revejo nos meus sonhos
e tenho o coração e a
alma entristecidos.
Como uma planta,
sinto-me arrancado
da terra que me viu
germinar e crescer:
seja como for eu vos
abandonei.
Recolho os sons do
outono e do verão
e lhes dou uma voz
suave de canção.
Mas se em meu poema
ressoa por acaso
um som de tempestade,
a voz de uma cascata,
um pensamento viril e
destemido,
se nele ouvimos
cantar a cotovia
e vemos o luar sobre
a landa deserta
ou se a floresta
imensa em meu canto suspira,
é que, a gerações e
gerações, em silêncio,
vós já o cantastes ao
som das vossas achas,
junto à vossa carreta
ou ao pé de uma charrua.
Referências:
Em Sueco
KARLFELDT, Erik Axel.
Fäderna. In: __________. Vildmarks- och kärleksvisor. Stockholm, SE: Åhlen
& Söners Förlag, 1932. s. 25-27. Disponível neste endereço. Acesso em: 1º jun.
2026.
Em Português
KARLFELDT, Erik Axel.
Adeus. Tradução de Ivo Barroso. In: __________. Poesias. Tradução de Ivo
Barroso. Estudo introdutivo de Gunnar Brandell. Rio de Janeiro, GB: Editora
Opera Mundi, 1973. p. 49-50. (“Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura”)
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