Simic, como poderia
se deduzir apressadamente por meio do título atribuído a este poema, não nos
pede para que corrijamos um texto através da leitura, senão que reinterpretemos
radicalmente a realidade, capturando a verdade por trás de crueldades, traumas
e exílios, eventos para os quais a linguagem convencional dificilmente oferece retratos
fidedignos.
Em consequência, remanesce
um peso enorme por aquilo que não foi dito, expressado terminantemente, ou o
que foi expresso de modo falho, distorcido, equivocado, insuficiente, enganoso:
a violência sofrida, o desenraizamento experimentado, as palavras omitidas que
se tornaram cicatrizes, o erro existencial de guardar silêncio quando o que
mais se exigia era um potente grito de repúdio.
J.A.R. – H.C.
Charles Simic
(1938-2023)
Where it says snow
read teeth marks of a virgin
Where it says knife read
you passed through my bones
like a police whistle
Where it says table read horse
Where it says horse read my migrant’s bundle
Apples are to remain apples
Each time a hat appears
think of Isaac Newton
reading the Old Testament
Remove all periods
They are scars made by words
I couldn’t bring myself to say
Put a finger over each sunrise
it will blind you otherwise
That damn ant is still stirring
Will there be time left to list
all errors to replace
all hands guns owls plates
all cigars ponds woods and reach
that beer bottle my greatest mistake
the word I allowed to be written
when I should have shouted
her name
Ritmo
(Sonia Delaunay:
pintor ucraniano-francesa)
Errata
Onde se lê neve
leia-se marca da
mordida de uma virgem
Onde se lê faca
leia-se
atravessaste-me os
ossos
como um silvo da
polícia
Onde se lê mesa
leia-se cavalo
Onde se lê cavalo
leia-se meu fardo de migrante
Que as maçãs continuem
a chamar-se maçãs
Toda vez que aparecer
um chapéu
pense em Isaac Newton
lendo o Antigo
Testamento
Remova todos os
pontos finais
São eles cicatrizes engendradas
por palavras
que não me atreveria
a dizer
Ponha um dedo sobre
cada amanhecer
pois do contrário ele
vai pô-lo às cegas
Aquela maldita
formiga ainda está se mexendo
Haverá tempo para
elencar
todos os erros a retificar
todas as mãos armas mochos
pratos
todos os cigarros
lagoas bosques e alcançar
aquela garrafa de
cerveja meu erro maior
a palavra que me
permiti escrever
quando deveria ter
gritado
o seu nome
Referência:
SIMIC, Charles. Errata. In: __________. New and selected poems: 1962-2012. Boston (MA): Houghton Mifflin Harcourt, 2013. p. 20.
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