Coralina vê no poeta
um artesão da palavra, alguém que busca a perfeição impossível no jogo das
rimas e dos versos, consciente dos seus limites, mesmo que movido por uma clara
ambição estética no trato com a língua, de modo a capturar o elemento poético
em qualquer circunstância ou meio, fruto do intercepto entre sensibilidade,
vida interior e destino.
A poetisa orienta-se
pela senda da contraintuição, mostrando que é a poesia que condiciona e guia o
poeta, e não o contrário. E para melhor entrar em concerto com a Lírica,
Coralina sugere ao aspirante a poeta que não se aventure em publicar algo sem
ter vivido o suficiente, sem ter lido o suficiente, sem ter alcançado um certo
estágio de maturação – padrões consectários de uma impaciência juvenil –, para
que tão cedo não vá ao encontro da ruína.
J.A.R. – H.C.
Cora Coralina
(1889-1985)
O poeta e a poesia
Não é o poeta que
cria a poesia.
E sim, a poesia que
condiciona o poeta.
Poeta é a
sensibilidade acima do vulgar.
Poeta é o operário, o
artífice da palavra.
E com ela compõe a
ourivesaria de um verso.
Poeta, não somente o
que escreve.
É aquele que sente a
poesia,
se extasia sensível
ao achado
de uma rima, à
autenticidade de um verso.
Poeta é ser
ambicioso, insatisfeito,
procurando no jogo
das palavras,
no imprevisto texto,
atingir a perfeição inalcançável.
O autêntico sabe que
jamais
chegará ao prêmio
Nobel.
O medíocre se
acredita sempre perto dele.
Alguns vêm a mim.
Querem a palavra, o
incentivo, à apreciação.
Que dizer a um jovem
ansioso na sede precoce
de lançar um livro…
Tão pobre ainda a sua
bagagem cultural,
tão restrito seu
vocabulário,
enxugando lágrimas
que não chorou,
dores que não sentiu,
sofrimentos
imaginários que não experimentou.
Falam exaltados de
fome e saudades, tão desgastadas
de tantos já
passados.
Primário nos
rudimentos de sua escrita
e aquela pressa moça
de subir.
Alcançar estatura de
poeta, publicar um livro,
Oriento para a
leitura, reescrever,
processar seus dados
concretos.
Não fechar o caminho,
não negar possibilidades.
É a linguagem deles,
seus sonhos.
A escola não os
ajudou, inculpados, eles.
Todos nós temos a
dupla personalidade.
O id e o ego.
Um representa a sua
vida física, material completa
Pode ser brilhante,
enriquecida de valores
que ajudam a ser
feliz,
pode ser angustiada e
vacilante, incerta, insatisfeita.
Mesmo possuindo o que
deseja, nada satisfazendo.
O id representa sua
vida interior paralela, ambivalente,
exercendo seu comando
em descargas nervosas,
no eterno conflito
entre a razão e o impulso incontrolado.
Dupla vida inter e
extra, personalidade se contrapondo.
Pode ser trivial e
dependente, podemos fazê-la rica
e cheia de nobreza,
nos valendo da força
incomensurável do pensamento positivo
emanado da vida
interior que é o nosso mundo,
invisível a todos,
sensível ao nosso ego.
Há sempre uma hora
maldita na vida de um homem.
Pode levá-lo ao crime
e às paredes sombrias de uma cela escura.
Um curto circuito nas
suas baterias carregadas,
uma descarga nas
linhas de transmissão potencial.
Daí, fatos aberrantes
que surpreendem.
Conclusões
demolidoras de um passado brilhante.
O jardim do poeta
(Vincent van Gogh:
pintor holandês)
Referência:
CORALINA, Cora. O
poeta e a poesia. In: __________. Vintém de cobre: meias confissões de
Aninha. 6. ed. São Paulo, SP: Global Editora, 1997. p. 191-192.
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