Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Dylan Thomas - Antes Que Eu Batesse

O poeta galês celebra a vida como um estado contingente, a um só tempo, violento e sagrado, no qual a consciência é lançada em um corpo que já carrega o mapa do seu próprio sofrimento e morte – forma de ver que se pode associar, de algum modo, a uma recapitulação do drama cristológico, pois que equipara o momento da encarnação ao desenlace da crucificação.

 

A descrição que o narrador faz de seu estado pré-natal como fluido e informe captura a incerteza e o potencial da vida antes do nascimento. A sequente intrusão na “armadura” da carne leva-o a esta inevitável travessia, ao longo da qual o corpo que o aprisiona torna-se como que veículo de uma herança espiritual e cósmica, um reavivar de memórias ancestrais ou de conexões primigênias com o universo, a lhe suscitar reminiscências anteriores à condição de completude dos sentidos – o inverno, a neve, o vento.

 

J.A.R. – H.C.

 

Dylan Thomas

(1914-1953)

 

Before I Knocked

 

Before I knocked and flesh let enter,

With liquid hands tapped on the womb,

I who was as shapeless as the water

That shaped the Jordan near my home

Was brother to Mnetha’s daughter

And sister to the fathering worm.

 

I who was deaf to spring and summer,

Who knew not sun nor moon by name,

Felt thud beneath my flesh’s armour,

As yet was in a molten form

The leaden stars, the rainy hammer

Swung by my father from his dome.

 

I knew the message of the winter,

The darted hail, the childish snow,

And the wind was my sister suitor;

Wind in me leaped, the hellborn dew;

My veins flowed with the Eastern weather;

Ungotten I knew night and day.

 

As yet ungotten, I did suffer;

The rack of dreams my lily bones

Did twist into a living cipher,

And flesh was snipped to cross the lines

Of gallow crosses on the liver

And brambles in the wringing brains.

 

My throat knew thirst before the structure

Of skin and vein around the well

Where words and water make a mixture

Unfailing till the blood runs foul;

My heart knew love, my belly hunger;

I smelt the maggot in my stool.

 

And time cast forth my mortal creature

To drift or drown upon the seas

Acquainted with the salt adventure

Of tides that never touch the shores.

I who was rich was made the richer

By sipping at the vine of days.

 

I, born of flesh and ghost, was neither

A ghost nor man, but mortal ghost.

And I was struck down by death’s feather.

I was a mortal to the last

Long breath that carried to my father

The message of his dying christ.

 

You who bow down at cross and altar,

Remember me and pity Him

Who took my flesh and bone for armour

And doublecrossed my mother’s womb.

 

Matéria Orgânica

(Jessalin Beutler: artista norte-americana)

 

Antes Que Eu Batesse

 

Antes que eu batesse e a carne me deixasse entrar,

Com as líquidas mãos submersas no ventre,

Eu, que era informe como a água

Que modelava o Jordão perto de minha casa,

Fui irmão da filha de Mnetha

E irmã do verme que procria.

 

Eu, que era surdo ao verão e à primavera,

Que não conhecia de nome nem a luz nem o sol,

Ouvia pulsar sob o arcabouço de minha carne,

Até então sob uma forma diluída,

As plúmbeas estrelas, o martelo da chuva

Brandido por meu pai em suas cúpulas.

 

Eu conhecia a mensagem do inverno,

Os dardos da chuva de granizo, a neve infantil,

E o vento era a minha irmã prometida;

Assaltavam-me o vento e o orvalho do inferno;

Minhas veias fluíam com a canícula do Oriente;

Conheci a noite e o dia antes que me concebessem.

 

Antes que me concebessem, eu já sofria;

O ecúleo dos sonhos retorcia

Meus ossos de lírio numa cifra viva,

E a carne era cortada para cruzar os bordos

De cruzes patibulares que se erguiam no fígado

E as sarças nos cérebros convulsos.

 

Minha garganta teve sede antes que se formasse

A estrutura da pele e das veias ao redor do poço

Onde as palavras e a água produziam uma mistura

Que persistia até que o sangue arruinasse;

Meu coração sabia amar, meu estômago tinha fome;

Eu farejava o verme em minhas próprias fezes.

 

E o tempo exalava o meu ser mortal

Para arrastá-lo ou afogá-lo na crista das ondas

Acostumadas à odisseia salgada

Das marés que jamais alcançam as praias.

Eu, que era rico, tornei-me ainda mais rico

Por embriagar-me com o vinho dos dias.

 

Eu, nascido da carne e do espírito, não era

Nem espírito nem homem, mas um espectro mortal.

E derrubaram-me as plumas da morte.

Fui mortal até o derradeiro

E longo sopro que transmitiu a meu pai

A mensagem de seu cristo agonizante.

 

Tu, que te ajoelhas ante a cruz e o altar,

Recorda-me e tem piedade Daquele

Que tomou minha carne e meus ossos por couraça

E atraiçoou o ventre de minha mãe.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

THOMAS, Dylan. Before I knocked. In: __________. Collected poems: 1934-1953. 1st publ., 12th reprint. London, EN: J. M. Dent & Sons Ltd., may. 1959. p. 7-8.

 

Em Português

 

THOMAS, Dylan. Antes que eu batesse. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. Poemas reunidos: 1934-1953. Editados pelos professores Walford Davies e Ralph Maud. Tradução e introdução de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio, 1991. p. 12-13.

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

Manoel de Barros - Carrego meus primórdios num andor

Barros sugere que a missão de um poeta seja a de ser um xamã da linguagem, alguém que, venerando as suas próprias origens, mostre-se capaz de despir as palavras de seu verniz civilizador para restaurar-lhes o poder mágico, corpóreo e revelador, abrindo assim uma janela para o eternamente misterioso.

 

Sob tal descortínio, viabilizado pelo regresso às origens, à infância das palavras e à voz animal, o que se nos revela é o “arcano”, o secreto, o misterioso, o não-racional, o sagrado, tudo aquilo que a nossa linguagem adulta e pensante terminou por ocultar, toda a matéria de que é feita a poesia – longe do que pode ser dito com clareza, bem mais perto do balbucio primordial confinante ao que não existe, ao inefável, ao que ainda não tem nome.

 

J.A.R. – H.C.

 

Manoel de Barros

(1916-2014)

 

Carrego meus primórdios num andor

 

Carrego meus primórdios num andor.

Minha voz tem um vício de fontes.

Eu queria avançar para o começo.

Chegar ao criançamento das palavras.

Lá onde elas ainda urinam na perna.

Antes mesmo que sejam modeladas pelas mãos.

Quando a criança garatuja o verbo para falar

o que não tem.

Pegar no estame do som.

Ser a voz de um lagarto escurecido.

Abrir um descortínio para o arcano.

 

Natureza Arcana

(Autor não identificado)

 

Referência:

 

BARROS, Manoel de. Carrego meus primórdios num andor. In: __________. Livro sobre nada. Ilustrações de Wega Nery. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1997. p. 47.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Lawrence Ferlinghetti - Nova York – Albany

Como o próprio Ferlinghetti o esclarece na obra em referência (ENGLE & LANGLAND, 1982, p. 172), este poema transmuta uma simples viagem de ônibus, através da paisagem outonal do vale do Hudson, em uma jornada existencial, a espelhar certa angústia metafísica do sujeito lírico diante da consciência de mortalidade que lhe assoma ao espírito, como parte do ciclo natural e implacável que este observa ao longo do trajeto, precipuamente, folhas caídas a arderem sob o fogo com uma terrível beleza.

 

Perceba-se que tal mote – a do amarelecimento das folhas das árvores e a sequente queda que as deixa em estado de latência durante as estações mais frias do ano – também deu matéria para outro importante construto poético, nomeadamente a “Ode to the West Wind” (“Ode ao Vento Oeste”), do poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822), de onde, aliás, Ferlinghetti replica um de seus versos – ‘pestilence-stricken multitudes’ (“multidões atingidas pela pestilência”) –, para elevar, a toda evidência, o drama das sobreditas folhas em chamas a uma categoria trágica e coletiva: cada folha, cada momento, cada instante da juventude, é único e irrepetível, e, uma vez exauridas as suas promessas, desvanece-se para sempre.

 

J.A.R. – H.C.

 

Lawrence Ferlinghetti

(1919-2021)

 

New York – Albany (*)

 

God i had forgotten how

the Hudson burns

in indian autumn

Saugerties

Coxsackie

fall away through

all those trees

The leaves die turning

falling fallen

falling into loam of dark

yellow into death

Disappearing

falling fallen falling

god god those

‘pestilence-stricken multitudes’

rushed into the streets

blown all blasted

They are hurting them

with wood rakes

They are raking them

in great hills

They are burning them

lord lord

the leaves curl burning

the curled smoke gives up

to eternity

Never

never the same leaf turn again

the same leaves burn

lord lord

in a red field

a white stallion stands

and pees his oblivion

upon those leaves

washing my bus window

only now blacked out

by a covered bridge

we flash through

only once

No roundtrip ticket

Lord lord never returning

the youth years fallen

away back then

Under the Linden trees in Boston Common

Lord Lord

Trees think

through these woods of years

They flame forever

with those thoughts

Lord Lord

i did not see eternity

the other night

but now in burning

turning day

Lord Lord Lord

every bush burns

Love licks

all down

All gone

in the red end

Lord Lord Lord Lord

Small nuts fall

Mine too

 

In: “Starting from San Francisco” (1961)

 

Linha do Horizonte de Albany em Nova York

(Bri Buckley: artista irlandês)

 

Nova York – Albany

 

Deus tinha-me esquecido de como

o Hudson arde

no outono indígena

Saugerties

Coxsackie

desaparecem por entre

todas aquelas árvores

As folhas fenecem revirando-se

caindo emurchecidas

tombando no húmus escuro

e amarelo cingidas à morte

Desaparecendo

caindo emurchecidas tombando

deus deus aquelas

“multidões atingidas pela pestilência”

precipitaram-se às ruas

todas insufladas num arraso

Estão a magoá-las

com ancinhos de madeira

Estão a ajuntá-las

em grandes montes

Estão a queimá-las

senhor senhor

ao arderem as folhas encrespam-se

a fumaça em espirais rende-se

à eternidade

Nunca

nunca a mesma folha volta a revirar-se

as mesmas folhas queimam

senhor senhor

num campo vermelho

um garanhão branco se ergue

e urina a sua desmemória

sobre aquelas folhas

lavando a vidraça do meu ônibus

agora subitamente obscurecida

por uma ponte coberta

que fulgurantes atravessamos

uma única vez

Sem passagem de ida e volta

Senhor senhor sem nunca regressarmos

aos anos da juventude então perdidos

num passado deveras distante

Sob as Tílias do Boston Common

Senhor Senhor

As árvores pensam

através desses bosques de sucessivos anos

Ardem elas para sempre

com tais pensamentos

Senhor Senhor

não vi a eternidade

na noite passada

mas agora em chamas

no dia a transformar-se

Senhor Senhor Senhor

todos os arbustos ardem

As lambidelas do amor

a tudo consomem

Tudo se precipita

no vermelho final

Senhor Senhor Senhor Senhor

Pequenas nozes caem

As minhas também

 

Em: “Partindo de São Francisco” (1961)

 

Nota:

 

(*). O título do poema diz respeito à cidade de Albany, no Estado de Nova York (EUA); reporta-se ele, ademais, a outras duas cidades no mesmo Estado, a saber, Saugerties e Coxsackie.

 

Referência:

 

FERLINGHETTI, Lawrence. New York – Albany. In: ENGLE, Paul; LANGLAND, Joseph (Eds.). Poet’s choice. With an introduction by Paul Engle. Reprinting. Alexandria, VA: Time-Life Books, 1982. p. 170-172.

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