Tendo por lastro o
dilema central de Hamlet na homônima peça de Shakespeare – a indecisão versus a
ação –, Schwartz tece nestas linhas uma condensada exploração psicológica que
vai além dos senões do aludido protagonista, jogando com os sentimentos de culpa,
a paralisia da vontade e impossível fuga de si mesmo.
Em meio a uma
atmosfera brumosa e evasivamente nostálgica, vislumbra-se um desejo de regressão,
digo melhor, de escape a um estado de inconsciência ou de inocência prévia,
longe das exigências do presente, nas quais advém um momento crucial de
decisão, de assunção de responsabilidade e de ação definitiva – como o da vingança
de Hamlet –, a qual passa a ser vista como algo traumático, ruidoso, violento e
profundamente indesejável.
Como se vê, não se
trata apenas de vacilação filosófica ou dúvida moral, mas de uma “culpa”
(pecado) que corrói o sujeito interiormente, agora convertido em seu próprio
fantasma, um ser enfermo abismado em suas vergonhas e medos, frente a frente
com a pior versão de si mesmo.
J.A.R. – H.C.
Delmore Schwartz
(1913-1966)
The Sin of Hamlet
The horns in the
harbor booming, vaguely,
Fog, forgotten,
yesterday, conclusion,
Nostalgic, noising
dim sorrow, calling
To sleep is it? I
think so, and childhood,
Not the door opened
and the stair descended,
The voice answered,
the choice announced, the
Trigger touched in
sharp declaration!
And when it comes,
escape is small; the door
Creaks; the worms of
fear spread veins; the furtive
Fugitive, looking
backward, sees his
Ghost in the mirror,
his shameful eyes, his mouth diseased.
Hamlet e os coveiros
(Pascal
Dagnan-Bouveret: pintor francês)
O Pecado de Hamlet
As trompas no porto a
retumbarem, vagamente,
A bruma, o olvidado, o
que se passou, o desenlace,
Ecos nostálgicos a
ressoarem dores sombrias, porventura
Um convite ao sono?
Penso que sim, e a infância,
Não a porta que se
abriu e a escada que se desceu,
A voz que respondeu,
a escolha que se anunciou, o
Gatilho acionado em estridente
declaração!
E quando ele chega,
quão estreita é a saída; a porta
Range; os vermes do
medo espargem-se em veias;
O furtivo fugitivo,
ao olhar para trás, vê no espelho
O seu fantasma, seus
olhos infames, sua boca mórbida.
Referência:
SCHWARTZ, Delmore. The sin of Hamlet. In: __________. Selected poems (1938-1958) Summer Knowledge. 1st ed., 3rd print. New York, NY: New Directions, 1967. p. 35.
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