Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 19 de abril de 2026

Richard Howard - Como a Maioria das Revelações

As ideias deste poema associam-se diretamente às obras do norte-americano Morris Louis Bernstein (1912-1962), um dos primeiros expoentes do movimento “Color Field Painting”, reputado pelas técnicas ousadas de veladuras fluidas de tinta, aplicadas de tal modo que os derramamentos dos pigmentos se convertiam no elemento definidor da forma de suas telas.

 

Sob tal perspectiva, os versos dialogam com a tendência em apreço, na medida em que outorgam destaque à ação por meio da repetição da expressão “é o movimento que” (promove a gênese da forma, incitando-a, moldando-a, delongando-a, estando sempre ao seu alcance), como que para enfatizar que nada é estático na criação, uma vez que esta pressupõe, fundamentalmente, mutação constante a se processar mediante antagonismos de forças invisíveis e quase caóticas – ora de composição, ora de decomposição –, dando ensejo a outras tantas formas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Richard Howard

(1929-2022)

 

Like Most Revelations

 

(after Morris Louis)

 

It is the movement that incites the form,

discovered as a downward rapture – yes,

it is the movement that delights the form,

sustained by its own velocity. And yet

 

it is the movement that delays the form

while darkness slows and encumbers; in fact

it is the movement that betrays the form,

baffled in such toils of ease, until

 

it is the movement that deceives the form,

beguiling our attention – we supposed

it is the movement that achieves the form.

Were we mistaken? What does it matter if

 

it is the movement that negates the form?

Even though we give (give up) ourselves

to this mortal process of continuing,

it is the movement that creates the form.

 

Sarabanda

(Morris Louis: pintor norte-americano)

 

Como a Maioria das Revelações

 

(inspirado em Morris Louis)

 

É o movimento que incita a forma,

a revelar-se num arroubo descendente – sim,

é o movimento que leva a forma à fruição,

sustentada em sua própria velocidade. E, contudo,

 

é o movimento que retarda a forma,

enquanto a escuridão o abranda e estorva;

de fato, é o movimento que atraiçoa a forma,

enredando-a em tais tramas de facilidade,

 

a ponto de convertê-la em algo enganoso,

capaz de nos ludibriar o olhar – quando julgávamos

que fosse apenas o movimento a alcançá-la.

Incorríamos em erro? Qual a relevância em ser

 

o movimento um constituinte negador da forma?

Ainda que nos entreguemos (ou nos rendamos)

a esse processo mortal de continuidade,

seja como for, do movimento é que nasce a forma.

 

Referência:

 

HOWARD, Richard. Like most revelations. In: PINSKI, Robert; LEHMAN, David (Eds.). The best of the best american poetry. 25th anniversary edition. 1st Scribner edition. New York, NY: Scribner Poetry, apr. 2013. p. 119.

sábado, 18 de abril de 2026

Paul Celan - Ouvi dizer

Forjada nestes breves versos, Celan apresenta-nos uma enigmática tapeçaria na qual a linguagem, como se fosse uma ponte sobre o abismo, torna-se veículo de memórias, de perdas e de transformações, por intermédio das quais intenta-se reintegrar as ruínas de um mundo fragmentário, assim dizendo, os sentidos que permitam vislumbrar, deveras, alguma sorte de redenção simbólica.

 

Pedra, círculo e palavra, enquanto insígnias, respectivamente, do resistente à mudança, da totalidade e de sua recorrência e do princípio mediador da existência, conformam um ritual no qual matéria, forma e significado entrelaçam-se numa tentativa de capturar a essência mesma da realidade, empreendimento esse que, com alguma frequência, resulta incompleto, haja vista que, nos recessos da linguagem, sempre nos escapa algo que se desmembrou nas circunvoluções da história e da dor, deixando para trás um rastro de conotações não apreendidas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Celan
(1920-1970)

 

Ich hörte sagen

 

Ich hörte sagen, es sei

im Wasser ein Stein und ein Kreis

und über dem Wasser ein Wort,

das den Kreis um den Stein legt.

 

Ich sah meine Pappel hinabgehn zum Wasser,

ich sah, wie ihr Arm hinuntergriff in die Tiefe,

ich sah ihre Wurzeln gen Himmel um Nacht flehn.

 

Ich eilt ihr nicht nach,

ich las nur vom Boden auf jene Krume,

die deines Auges Gestalt hat und Adel,

ich nahm dir die Kette der Sprüche vom Hals

und säumte mit ihr den Tisch, wo die Krume nun lag.

 

Und sah meine Pappel nicht mehr.

 

Aus: “Von schwelle zu schwelle” (1955)

 

Lago e árvores mortas

(Thomas Cole: pintor anglo-americano)

 

Ouvi dizer

 

Ouvi dizer que há

na água uma pedra e um círculo

e sobre a água uma palavra

que estende o círculo em torno da pedra.

 

Vi meu choupo descer para a água,

vi como o seu braço agarrou as profundezas,

vi suas raízes implorarem a noite aos céus.

 

Não o segui,

somente colhi do chão aquela migalha

que tem a forma de teu olho e a nobreza,

tirei de teu pescoço o colar de sentenças

e com ele adornei a mesa, onde já estava a migalha.

 

Não voltei a ver meu choupo.

 

Em: “De limiar a limiar” (1955)

 

Referência:

 

CELAN, Paul. Ich hörte sagen / Ouvi dizer. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal. Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue: alemão x português. 1. ed., 2. reimp. São Paulo, SP: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 46; em português: p. 47.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Miguel Torga - O Lázaro

O falante aqui se expressa de um modo confessional por meio de uma torrente de afirmações que oscilam entre o sublime e o vulgar, entre o “alfa e o ômega”, tornando explícita ao leitor a sua identidade fragmentada, na qual a essência se desborda pelas margens do sentido convencional dos rótulos ou das etiquetas definidos em sociedade, bem assim dos dogmas da fé estabelecida e dos preceitos para se alcançar a redenção.

 

Perceba-se, sob tal perspectiva, que a voz do poeta, ao mesmo tempo irônica e comovente, desafia os parâmetros normativos, apresentando-nos um testemunho vital do seu fervilhante cadinho interior, numa mistura sem concessões de fé, dúvida, anseios e resignação.

 

Ao se apropriar da figura bíblica de Lázaro, o sujeito lírico se apresenta como alguém que renasce constantemente, refletindo a sua humana condição, ambígua e contraditória diante das imposições externas, a par com uma demanda por reconhecer a sua incapacidade para amar, a desilusão com a potestade divina ou o sentimento perene de haver se desencaminhado na vida.

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel Torga

(1907-1995)

 

O Lázaro

 

O Lázaro sou eu, não foi o Outro,

O das migalhas e das chagas podres.

O Lázaro sou eu, aqui sentado

À mesa do Vice-Rei

A mastigar com nojo estes faisões...

Sou eu, vestido de holanda,

A pregar a nudez que sempre usei

Nas grandes ocasiões.

 

Sou eu, nado e criado para amar,

E que não sei amar.

Sou eu, que disse não e me perdi.

Que vi Deus e nunca acreditei.

Que vi a estrada impedida

E passei...

 

Sou eu, que não sou feliz no Céu nem no Inferno,

Porque no Céu há paz e no Inferno há guerra,

E a minha Paz é outra e a minha Guerra é outra...

Sou eu, tão Grande e Pequeno

Que nem sirvo para grão

Da parábola da mostarda!

Sou eu, que há vinte e sete anos

Vivo sem Anjo da Guarda!

 

Sou eu, que ou tudo ou nada, ou Vida ou Morte,

E acerto sempre na Morte!

Que espeto sempre o punhal

Onde não quero ferir...

Que sou assim, às cegas e às golfadas,

Como as dores abençoadas

De parir!

 

Sou eu, que me disse adeus

E fiquei à minha espera...

E que naquela manhã de ano bissexto

– Que podia ter sol e teve chuva –

Recebi nestes meus braços

O esqueleto verdadeiro

Da saudade amargurada

De quem não tem ausentes nem distâncias!

 

Sou eu, o louco sem asas,

Que se lança aos abismos a cantar

A Canção do Inocente...

E que do fundo desse sonho novo

Atira a praga

Que o traga

Àquela redentora incompreensão

Do seu povo...

 

Sou eu, o Alfa e o Ômega

E os sentidos singulares

Que o Anjo-Satanás me prometeu...

Sou este Nobre-Vilão descalço e de gravata,

Sou este jornal sem data

Que traz a infausta notícia

Que ninguém leu...

 

Sou eu – e mostro-me todo

Quem puder, arranque os olhos

E venha cheio de Fé

Ver o Lázaro real

Que não vem nos Evangelhos,

Mas é!...

 

Em: “O outro livro de Job” (1936)

 

A ressurreição de Lázaro

(ao modo de Rembrandt)

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Referência:

 

TORGA, Miguel. O Lázaro. In: __________. Antologia poética. 2. ed. aumentada. Coimbra, PT: Editora Gráfica de Coimbra, 1985. p. 48-50.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Miguel de Unamuno - Salva-nos tu, retórica

Unamuno apela à retórica para que custodie a criação poética, libertando-a dos grilhões impostos pela teoria e pela crítica, numa súplica que, longe de ser uma petição literal de resgate, configura-se numa burla às convenções estabelecidas: o poema do autor basco é tanto uma crítica às imposições estéticas externas quanto um preito à ambiguidade e à vitalidade inerentes à arte – que se nega a ser aprisionada por fórmulas complacentes e sobrecarregadas.

 

A retórica, assim, não seria um mero recurso decorativo, mas a força capaz de restituir à palavra o seu caráter dinâmico, espontâneo e subversivamente criativo, resgatando a espontaneidade da linguagem; não apenas uma técnica de persuasão, mas um instrumental para desamarrar o discurso, por demais frustrado num campo saturado de normatividades: a “poética”, a encerrar a poesia em fórmulas preestabelecidas; a “estética”, a deliberar sobre o belo segundo cânones insuficientes; e, ainda, a “algaravia hipócrita” e a “crítica”, a sufocarem a experimentação genuína.

 

Perceba-se, a propósito, o jogo de palavras empreendido por Unamuno com os termos “píos” e “jipíos” (v. n.r.) na segunda estrofe, mediante o qual enlaça num paralelo fônico a dupla rejeição que preconiza contra, de um lado, o dogmatismo e os freios que tencionam moralizar a arte, e do outro, as afetações exageradas, que a teatralizam: nada, portanto, de disciplinar ou dramatizar a poesia, mas de a libertar, devolvendo-lhe o “gozo impuro de afán inseguro”, isto é, o prazer imperfeito da busca incerta!

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel de Unamuno

(1864-1936)

 

Sálvanos tú, retórica

 

Sálvanos tú, retórica,

libra a la poesía

de la poética,

líbranos de la estética

y de la algarabía

hipócrita

y de la crítica.

 

Líbranos de los píos

y de los jipíos, (*)

danos goce impuro

de afán inseguro;

sálvanos, retórica.

 

4 de febrero, 1929.

 

En: “Cancionero” (1953)

 

Alegoria da Retórica

(Artemisia Gentileschi: pintora italiana)

 

Salva-nos tu, retórica

 

Salva-nos tu, retórica,

livra a poesia

da poética,

livra-nos da estética,

da algaravia

hipócrita

e da crítica.

 

Livra-nos dos piedosos

e dos aulidos queixosos,

dá-nos gozo impuro

de afã inseguro;

salva-nos, retórica.

 

4 de fevereiro de 1929.

 

Em: “Cancioneiro” (1953)

 

Nota:

 

(*). No espanhol andaluz e popular, “jipíos” (ou “jipío” no singular) é uma onomatopeia típica do canto flamenco, referindo-se ao gemido, lamento ou grito emocional e gutural dos cantores – um som carregado de emoção, dor e intensidade.

 

Referência:

 

UNAMUNO, Miguel de. Sálvanos tú, retórica. In: __________. Obras completas. Tomo V: Cancionero / Poesías Sueltas / Traducciones. Edición y prólogo de Ricardo Senabre. Madrid, ES: Fundación José Antonio de Castro, jun. 2002. p. 674.