Este poema vai bem
além do que falar de um gato no colo de sua dona, pois que tenciona levantar a
tese de que o felino, mais que um símbolo de independência ou mistério, simplesmente
é um gato – e esse ser se mostra suficiente em sua condição de ser o outro, em
sua inabarcável integridade e autonomia.
Explico-me melhor: o
tema à volta do qual são os versos suscitados diz respeito à essência do real e
aos limites da linguagem humana para capturá-la. Para tanto, a poetisa emprega
duas metáforas contrapostas para caracterizar o bichano, uma de natureza
estética – “crisântemo de pétalas peludas” –, outra mais especificamente instintiva
e mortal – “algoz de esquilos”.
Mas tenha-se em mente
que Levertov questiona esse recurso à metáfora – ferramenta fundamental do
poeta! –, pois que lhe parece ser uma espécie de filtro que nos separa da
realidade imediata: o olhar de um gato é um umbral fechado que não nos devolve
uma imagem de nós mesmos, como se parelha ao nosso cogitar romântico, a
vislumbrar a alma nos olhos de um animal.
Ao final, deliberadamente
ou não, a poetisa lança mão de um termo que se tornou título de uma das obras
mais referenciadas do pensador austro-israelense Martin Buber (1878-1965) – “Eu
e Tu”, de 1923 –, mediante o qual personaliza o felino como um “Tu” completo,
um ser com o qual se encontra num plano de igualdade ontológica, não como um “Isso”,
numa relação de uso, experiência ou objetificação – a exemplo de quando “forçamos”
o gato a ser uma metáfora, para nosso deleite poético ou intelectual.
J.A.R. – H.C.
Denise Levertov
(1923-1997)
The cat on my bosom
sleeping and purring
– fur-petalled chrysanthemum,
squirrel-killer –
is a metaphor only if I
force him to be one,
looking too long in his pale, fond,
dilating, contracting eyes
that reject, mirrors, refuse
to observe what bides
stockstill.
Likewise
flex and reflex of claws
gently pricking through sweater to skin
gently sustain their own tune,
not mine. I-Thou, cat, I-Thou.
O Gato Branco
(Franz Marc: pintor
alemão)
O Gato como Gato
O gato em meu colo,
adormecido e
ronronante
– crisântemo de
pétalas peludas,
algoz de esquilos –
só é uma metáfora se
eu
o forçar a sê-lo,
fitando por muito
tempo os seus olhos
pálidos, afetuosos, que
se dilatam e se contraem,
que rejeitam, espelham,
recusam-se
a observar o que permanece
imóvel.
Do mesmo modo,
o fletir e o retrair das
garras,
que delicadamente perfuram
o suéter até a pele,
sustentam o passo
leve de sua própria melodia,
não a minha. Eu-Tu,
gato, Eu-Tu.
Referência:
LEVERTOV, Denise. The
cat as cat. In: __________. The life around us: selected poems on
nature. 2nd print. New York, NY: New Directions, 1997. p. 4.
ö







