Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

William Shakespeare - Do Jeito que Você Gosta (Ato 2, Cena 7)

Tenha-se em mente, de início, que o excerto da intitulada peça do bardo – a que diz respeito a postagem de hoje –, é uma das falas mais antologiadas da história do Teatro, pertencendo à figura de Jaques, um Lord sorumbático que acompanha o Duque Sênior em exílio na Floresta de Arden.

 

Trata-se de um espectador, mais do que um participante do mundo, figura arquetípica daqueles que se deleitam em encontrar exemplos de estupidezes e vaidades humanas para descerrar suas críticas – isso em meio a uma comédia pastoral repleta de amor, reconciliação e, claro, final feliz.

 

No infratranscrito monólogo, o “Monsieur Melancólico” – como o chama Rosalinda – discursa sobre os sete atos da vida humana, desde o bebê que chora, no colo da ama, até a segunda infância, “sem dentes, sem visão, sem paladar, sem tudo”: tem-se, assim, uma visão desencantada da existência como uma comédia trágica e previsível, ao longo da qual o ser humano avança inexoravelmente de uma dependência indigna a outra, havendo interpretado no caminho uma séria de papéis vazios.

 

Com efeito, a vida seria “um palco” onde representamos papéis – muitas das vezes pré-determinados pela sociedade, pela natureza ou pelo destino –, o que nos leva a exibirmos diferentes facetas em função das circunstâncias, dando ensejo a que muitos passem a questionar se, por trás de todas essas “personas”, haveria de fato um sujeito autêntico.

 

J.A.R. – H.C.

 

William Shakespeare

Retrato atribuído a John Taylor

(1564-1616)

 

Jaques (Act 2, Scene 7)

 

All the world’s a stage,

And all the men and women merely players.

They have their exits and their entrances,

And one man in his time plays many parts,

His acts being seven ages. At first the infant,

Mewling and puking in the nurse’s arms.

Then the whining schoolboy with his satchel

And shining morning face, creeping like snail

Unwillingly to school. And then the lover,

Sighing like furnace, with a woeful ballad

Made to his mistress’ eyebrow. Then a soldier,

Full of strange oaths and bearded like the pard,

Jealous in honor, sudden and quick in quarrel,

Seeking the bubble reputation

Even in the cannon’s mouth. And then the justice,

In fair round belly with good capon lined,

With eyes severe and beard of formal cut,

Full of wise saws and modern instances;

And so he plays his part. The sixth age shifts

Into the lean and slippered pantaloon

With spectacles on nose and pouch on side,

His youthful hose, well saved, a world too wide

For his shrunk shank, and his big manly voice,

Turning again toward childish treble, pipes

And whistles in his sound. Last scene of all,

That ends this strange eventful history,

Is second childishness and mere oblivion,

Sans teeth, sans eyes, sans taste, sans everything.

 

A vida é um palco

(Ralitsa Raykova: artista búlgara)

 

Jaques (Ato 2, Cena 7)

 

O mundo é um palco(1) e todos os homens e mulheres são na verdade atores: têm suas saídas e suas entradas e no decorrer da vida atuam em vários papéis, cada ato correspondendo a sete idades.(2) Primeiro a criança, choramingando e regurgitando no colo da babá; depois o aluno contrariado, com sua pasta e seu rosto travesso matinal, arrastando-se como lesma para a escola; então o amante, suspirando como uma fornalha, entoando uma canção dolente em louvor dos cílios da amada; aí o soldado, cheio de juras estranhas e barba de leopardo, zeloso da sua honra, impetuoso e pronto para a briga, buscando a fama fugaz, nem que seja na boca do canhão; e depois o juiz, com a barriga bem forrada de frango, olhos severos e barba bem cuidada, cheio de ditos sábios e banalidades – e assim ele cumpre o seu papel; na sexta idade o cenário muda: magros pijamas, chinelos, óculos no nariz e bolsa a tiracolo, o vigor da mocidade já guardado – um mundo tão vasto para pernas tão fracas – sua voz máscula, retomando o balbuciar infantil, apita e chia ao falar; a última cena, que encerra esta história estranha e agitada, é a segunda infância e o mero esquecimento, sem dentes, sem olhos, sem sabor, sem nada.

 

Notas do Tradutor Rafael Raffaelli:

 

(1). A comparação entre a vida humana em sociedade e o teatro é um lugar-comum na literatura europeia do século XVII, como na obra do poeta conceptista espanhol Francisco de Quevedo, entre outros. Supõe-se que o emblema do teatro Globe fosse Hércules suportando o mundo com a inscrição: “Totus mundus agit histrionem”, i.e., “o mundo todo age como ator”. Talvez a mais conhecida das passagens sobre o tema em Shakespeare encontre-se em Macbeth. (n.r. 120, p. 54)

 

(2). Hipócrates foi o primeiro a dividir a vida humana em sete estágios ou idades e Jaques os associa aos atos de uma peça teatral. As sete idades também estão tradicionalmente vinculadas ao sistema solar, mas Jaques não cita os planetas correspondentes a cada uma, nem faz referência à idade da razão, governada pelo Sol (Apolo); também não faz apologia da vida campestre. (n.r. 121, p. 54)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

SHAKESPEARE, William. [All the world’s a stage], from As you like it - act 2, scene 7. Edited by Barbara A. Mowat and Paul Werstine. New York, NY: Washington Square Press, jul. 2004. p. 83. (‘Folger Shakespeare Library’).

 

Em Português

 

SHAKESPEARE, William. [O mundo é um palco], de Do jeito que você gosta - ato 2, cena 7. Tradução de Rafael Raffaelli. Florianópolis, SC: Editora da UFSC, 2011. p. 54-55.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Adélia Prado - Fluência

O olhar poético de Adélia permite-lhe celebrar a persistência da beleza no fluxo ininterrupto da vida, indo ao encontro do sagrado nas coisas mais ordinárias, mercê de uma aptidão para apreender de um modo amalgamado o espiritual e o corporal – inclusive quando está a preparar um simples café ou se põe a contemplar a neblina matutina.

 

O poema, em si, transmite ao leitor uma sensação de paz e de gratidão, mormente pelo divino se manifestar na preservação do quotidiano, meio primevo onde paira a essência mesma da poesia, não limitada, por conseguinte, à simples culminação de um objeto tangível – como um livro –, pois que se trata da contrapartida de um estado d’alma, de um dom que não se esgota, de uma forma de perceber o mundo com assombro, de um fluxo contínuo a transformar e transfigurar o espaço físico, dotando-o de mistério e profundidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adélia Prado

(n. 1935)

 

Fluência

 

Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,

não perdi a poesia.

Hoje depois da festa,

quando me levantei para fazer café,

uma densa neblina acinzentava os pastos,

as casas, as pessoas com embrulho de pão.

O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.

Persistindo, a necessidade dos relógios,

dos descongestionantes nasais.

Meu livro sobre a mesa contraponteava exato

com os pardais, os urinóis pela metade,

o antigo e intenso desejar de um verso.

O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.

Como antes, graças a Deus.

 

Em: “O coração disparado” (1978)

 

Fluência

(Alexandra Miller: artista norte-americana)

 

Referência:

 

PRADO, Adélia. Fluência. In: __________. Reunião de poesias: 150 poemas selecionados. Prefácio de Adilson Citelli. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2014. p. 124.

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

Thomas Merton - Sinceridade

Merton empurra-nos a um abismo de honestidade radical, convidando-nos a desconfiar de nossa própria sinceridade, a abraçar a humildade de saber-nos mentirosos e preparar-nos, a partir dessa posição de vulnerabilidade e autenticidade, para ir ao encontro de Deus – cuja realidade não se ajusta aos nossos termos, mas que os transcende por completo.

 

Com efeito, sendo a hipocrisia um vício ou falha inerente ao ego humano, cumpre-nos não projetar em Deus as nossas noções de justiça ou de inocência, ou de outro modo, abrir mão de nossas mentiras em prol do silêncio estrondoso da Verdade divina: é somente quando renunciamos à necessidade de autojustificar-nos e de julgarmos os Seus desígnios que podemos começar a vislumbrar, ainda que apenas de relance, a pureza incomodatícia e libertadora de Sua sinceridade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Thomas Merton

(1915-1968)

 

Sincerity

 

Omnis homo mendax (*)

 

As for the liar, fear him less

Than one who thinks himself sincere,

Who, having deceived himself,

Can deceive you with a good conscience.

 

One who doubts his own truth

May mistrust another less:

 

Knowing in his own heart,

That all men are liars

He will be less outraged

When he is deceived by another.

 

So, too, will he sooner believe

In the sincerity of God.

 

The sincerity of God! Who never justifies

His actions to men! Who makes no bargains

With any other sincerity, because He knows

There is no other! Who does what He pleases

And never protests His innocence!

 

Which of us can stand the sincerity of God?

 

Which of us can bear a Lord

Who is neither guilty nor innocent

(Who cannot be innocent because He cannot be guilty)?

 

What has our sincerity to do with His

Whose truth is no approval of our truth

And is not judged by anyone,

Even by Himself?

 

(Yet if I think myself sincere

I will approve the purity of God

Convinced that my own purity

Is approved by Him.)

 

So, when the Lord speaks, we go to sleep

Or turn quickly to some more congenial business

Since, as every liar knows,

No man can bear such sincerity.

 

In: “The Strange Islands” (1957)

 

Os Mentirosos

(Salvador Dalí: artista espanhol)

 

Sinceridade

 

Omnis homo mendax

 

Quanto ao mentiroso, teme-o menos

Do que aquele que se considera sincero,

Que, tendo enganado a si mesmo,

Pode enganar-te com a consciência tranquila.

 

Aquele que duvida da sua própria verdade

Pode desconfiar menos dos outros:

 

Sabendo no seu coração

Que todos os homens são mentirosos,

Ficará menos indignado

Quando for enganado por outro.

 

Assim, também, mais depressa crerá

Na sinceridade de Deus.

 

A sinceridade de Deus! Que jamais justifica

As suas ações aos homens! Que não faz barganhas

Com nenhuma outra sinceridade, porque sabe

Que outra não há! Que faz o que Lhe apraz

E jamais protesta a Sua inocência!

 

Quem de nós pode suportar a sinceridade de Deus?

 

Quem de nós pode suportar um Senhor

Que não é culpado nem inocente

(Que não pode ser inocente porque não pode ser culpado)?

 

O que a nossa sinceridade tem a ver com a Dele,

Cuja verdade não é a aprovação da nossa verdade

E não é julgada por ninguém,

Nem por Ele mesmo?

 

(Contudo, se eu me julgar sincero,

Aprovarei a pureza de Deus,

Convencido de que minha própria pureza

É por Ele aprovada.)

 

Então, quando o Senhor fala, adormecemos

Ou logo nos dedicamos a algum assunto mais agradável,

Pois, como bem sabe todo mentiroso,

Ninguém pode suportar tamanha sinceridade.

 

Em: “As Ilhas Estranhas” (1957)

 

Nota:

 

(*). Citação em latim do versículo 11, in fine, do Salmo 116: “Todos os homens são mentirosos”.

 

Referência:

 

MERTON, Thomas. Sincerity. In: __________. The collected poems of Thomas Merton. 1st ed., 6th print. New Directions, 1977. p. 285-286.

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Wisława Szymborska - Roupas

Neste poema, que é um minucioso estudo de um momento de intensa vulnerabilidade humana – a espera de um diagnóstico médico –, Szymborska fala-nos do frágil ritual que rodeia a eventual presença de alguma enfermidade, empregando as ações de vestir-se e desvestir-se como metáfora central para o ensejo de expor-se ao juízo da ciência, bem assim para o receio ou o temor de algo nada favorável e o subsequente alívio, no caso de males facilmente superáveis ou não factuais.

 

Tornar a colocar-se a roupa é um trâmite de reintegração, uma espécie de ritual sagrado de recomposição, como se estivéssemos retornando à vida, já agora com novas luzes sobre os objetos quotidianos, transformados radicalmente em símbolos de um futuro recuperado, de dias que nos são prometidos para que celebremos o milagre da continuidade, das coisas que, triviais que sejam, passam a ter um prazo de validade, de repente, prolongado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wisława Szymborska

(1923-2012)

 

Odzież

 

Zdejmujesz, zdejmujemy, zdejmujecie

płaszcze, żakiety, marynarki, bluzki

z wełny, bawełny, elanobawełny,

spódnice, spodnie, skarpetki, bieliznę,

kładąc, wieszając, przerzucając przez

oparcia krzeseł, skrzydła parawanów;

na razie, mówi lekarz, to nic poważnego,

proszę się ubrać, odpocząć, wyjechać,

zażywać w razie gdyby, przed snem, po jedzeniu,

pokazać się za kwartał, za rok, za półtora;

widzisz, a ty myślałeś, a myśmy się bali,

a wyście przypuszczali, a on podejrzewał;

czas już wiązać, zapinać drżącymi jeszcze rękami

sznurowadła, zatrzaski, suwaki, klamerki,

paski, guziki, krawaty, kołnierze

i wyciągać z rękawów, z torebek, z kieszeni

wymięty, w kropki, w paski, w kwiatki, w kratkę szalik

o przedłużonej nagle przydatności.

 

Z: “Ludzie na Moście” (1986)

 

Antes da injeção

(Norman Rockwell: ilustrador norte-americano)

 

Roupas

 

Você tira, nós tiramos, eles tiram

casacos, jaquetas, paletós, blusas

de lã, de algodão, de cotton lycra,

saias, calças, meias, lingerie,

juntando, pendurando, jogando

nos encostos das cadeiras, nos painéis dos biombos;

por ora, diz o médico, não é nada grave,

pode se vestir, descansar, fazer uma viagem,

tome no caso de, antes de dormir, depois de comer,

volte daqui a três meses, um ano, um ano e meio;

veja só, e você pensou, e nós temíamos,

e vocês supuseram, e ele suspeitou;

é hora de atar, fechar com mãos ainda trêmulas

cadarços, velcros, zíperes, fivelas,

cintos, botões, gravatas, colarinhos

e tirar das mangas, bolsas, bolsos

um xale amarrotado de bolinhas, listras, flores, xadrez

de validade de repente prolongada.

 

Em: “Gente na Ponte” (1986)

 

Referência:

 

SZYMBORSKA, Wisława. Odzież / Roupas. Tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. In: __________. Para o meu coração num domingo. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2020. Em polonês: p. 174; em português: p. 175.

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