A morte é uma sombra
que nos acompanha em cada instante, latente sob o frágil verniz da realidade,
experimentada de forma simultânea à nossa vida consciente – como quando polemizamos
com elegância em um café –, dando ensejo a uma sensação de vertigem existencial,
ao longo da qual nosso corpo expõe-se a um virtual processo de destruição.
O poeta, em sua
queda, observa a realidade tal qual é: um mundo ao revés, onde a suposta
cordura, de fato, não passa de uma insânia coletiva, e a sociedade, ainda que
funcione com aparência de normalidade – preleções, ofícios, discursos –,
encontra-se fundamentalmente desorientada, “de cabeça para baixo”, à borda de
um abismo.
Mesmo a tribuna de
uma aula expositiva – metáfora inescapável para o plano da racionalidade e do
conhecimento – se converte num espaço onde reina a lei da gravidade e do
absurdo: coexistem, assim, um plano de rotina – representado pelas ações de uma
vida civilizada, intelectual e ordenada –, com outro que remete às instâncias
do catastrófico, do acidental, do trágico, consorciado à supracitada vulnerabilidade
palpável do corpo.
J.A.R. – H.C.
Carlos Bousoño
(1923-2015)
Mientras en tu oficina respiras
Mientras en tu oficina respiras, bostezas, te
abandonas, o
dictas en tu clase una lección
ante extraños alumnos que fijamente te contemplan,
con
sueño aún en la temprana hora;
mientras hablas, mientras gesticulas en el café,
o inmóvil te concentras en la meditación
de tu escritorio, o echado en el hondo diván
repasas lentamente recuerdos de tu vida; mientras quieto te
abismas en la visión
de la llanura interminable, o
mientras escribes una
lenta palabra y te recreas en su
dulce sonido, en su
amorosa realidad,
caes, estás cayendo
hacia atrás por una quebrada del monte,
estás rodando entre
piedras y cardos por la abrupta pendiente
hacia un barranco en
el que corre un río,
rápido como el viento
un río corre,
estás herido en la
boca, en las manos, el pecho,
sangras por un oído,
te despeñas por el farallón
cabeza abajo,
con las piernas en
abierto compás,
hacia el fondo, ya
con los huesos rotos,
crispadas mano y
boca, hacia el abismo, abajo,
súbitamente próximo,
una palabra escribes
lentamente, te concentras, murmuras, en
el café discutes, muy
despacio sonríes, adelantas una
noble razón,
aduces un adorno, un
tejido, un recamado oro,
hablando en la tarima
de tu clase diserta,
donde todos están
cabeza abajo.
En: “Las monedas
contra la losa” (1973)
(Imagem sem créditos)
Enquanto em teu escritório
respiras
Enquanto em teu
escritório respiras, bocejas, te descontrais, ou,
em sala de aula, dás
uma palestra
a alunos estranhos
que, sonolentos ainda às primeiras horas da manhã,
observam-te fixamente;
enquanto conversas,
enquanto gesticulas no café,
ou imóvel te
concentras em meditar
sentado à
escrivaninha, ou reclinado num sofá macio
repassas lentamente
memórias da tua vida; enquanto, quieto,
te perdes na visão da
planície sem fim, ou
enquanto escreves uma
palavra lenta e te delicias com o seu
doce som, em sua
amorosa realidade,
tu cais, estás
caindo, tombando ladeira abaixo por uma ravina,
estás rolando entre
pedras e cardos pela encosta íngreme
até um barranco onde corre
um rio,
um rio que corre
rápido como o vento,
estás ferido na boca,
nas mãos, no peito,
sangras pelo ouvido,
despencas pelo penhasco
de ponta cabeça,
com as pernas em
compasso aberto, em direção ao fundo,
já com os ossos
partidos,
mãos e boca
crispadas, até o abismo, lá embaixo,
quando subitamente
próximo,
escreves uma palavra
lentamente, te concentras, murmuras, discutes
no café, muito
devagar sorris, declinas uma
nobre razão,
trazes à apreciação
um ornato, um tecido, um bordado de ouro,
falando na tribuna de
tua aula expositiva,
onde todos estão de
cabeça para baixo.
Em: “As moedas contra
a lápide” (1973)
Referência:
BOUSOÑO, Carlos. Mientras en tu oficina respiras. In: __________. Primavera de la muerte: poesías completas (1945-1998). 1. ed. Barcelona, ES: Tusquets Editores, oct. 1998. p. 499-500.
❁





