Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Émile Verhaeren - A Procura

Neste poema, o poeta belga oferece-nos um canto à tenacidade humana e à sublime beleza de querer saber, do empreendimento científico, numa sucessão de estrofes a revelarem diferentes aspectos dessa “casa da ciência” – um espaço a um só tempo, físico, intelectual e simbólico –, destrinchando-lhe os custos, os dramas nos quais amiúde incorre e a sua dimensão quase espiritual.

 

Fascinado pela modernidade e pelo progresso, Verhaeren mostra-nos o quanto a ciência é dinâmica, qual flecha lançada através dos fatos até as ideias claras, a delimitar um ecossistema vibrante de atividades e conquistas, avançando sobre o cadafalso daqueles que ousaram desafiar os dogmas para afirmar cada “pequena certeza”, mal ocultando a série de erros, sofrimentos e sacrifícios humanos investidos na busca por se alcançar algo próximo à verdade.

 

Cada descoberta desvela uma lei fundamental do universo, uma palavra, uma chave – pura, essencial, inédita – a lançarem luzes sobre os enigmas do cosmos, trasladando-os do abismo penumbroso do desconhecido para os domínios do inteligível: eis o devotado ofício dos chamados gênios da ciência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Émile Verhaeren

(1855-1916)

 

La Recherche

 

Chambres et pavillons, tours et laboratoires,

Avec, sur leurs frises, les sphinx évocatoires

Et vers le ciel, braqués, les télescopes d’or.

 

C’est la maison de la science au loin dardée,

Par à travers les faits jusqu’aux claires idées.

 

Flacons jaunes, bleus, verts, pareils à des trésors;

Cristaux monumentaux et minéraux jaspés;

Prism es dans le soleil et ses rayons trempés;

Creusets ardents, godets rouges, flammes fertiles,

Où se transmuent les poussières subtiles;

Instruments nets et délicats,

Ainsi que des insectes,

Ressorts tendus et balances correctes,

Cônes, segments, angles, carrés, compas,

Sont là, vivant et respirant dans l’atmosphère

De lutte et de conquête autour de la matière.

 

Dites! quels temps versés au gouffre des années,

Et quelle angoisse ou quel espoir des destinées,

Et quels cerveaux chargés de noble lassitude

A-t-il fallu pour faire un peu de certitude?

 

Dites! l’erreur plombant les fronts; les bagnes

De la croyance où le savoir marchait au pas;

Dites ! les premiers cris, là-haut, sur la montagne,

Tués par les bruits sourds de la foule d’en bas.

 

Dites! les feux et les bûchers; dites! les claies;

Les regards fous en des visages d’effroi blanc;

Dites! les corps martyrisés, dites! les plaies

Criant la vérité, avec leur bouche en sang.

 

C’est la maison de la science au loin dardée,

Par à travers les faits jusqu’aux vastes idées.

 

Avec des yeux

Méticuleux ou monstrueux,

On y surprend les croissances ou les désastres

S’échelonner, depuis l’atome jusqu’à l’astre.

La vie y est fouillée, immense et solidaire,

En sa surface ou ses replis miraculeux,

Comme la mer et ses gouffres houleux,

Par le soleil et ses mains d’or myriadaires.

 

Chacun travaille, avec avidité,

Méthodiquement lent, dans un effort d’ensemble;

Chacun dénoue un nœud, en la complexité

Des problèmes qu’on y rassemble;

Et tous scrutent et regardent et prouvent,

Tous ont raison – mais c’est un seul qui trouve!

 

Ah celui-là, dites! de quels lointains de fête,

Il vient, plein de clarté et plein de jour;

Dites! avec quelle flamme au cœur et quel amour

Et quel espoir illuminant sa tête;

Dites! comme à l’avance et que de fois

Il a senti vibrer et fermenter son être

Du même rythme que la loi

Qu’il définit et fait connaître.

 

Comme il est simple et clair devant les choses

Et humble et attentif, lorsque la nuit

Glisse le mot énigmatique en lui

Et descelle ses lèvres closes;

Et comme en s’écoutant, brusquement, il atteint,

Dans la forêt toujours plus fourmillante et verte,

La blanche et nue et vierge découverte

Et la promulgue au monde ainsi que le destin.

 

Et quand d’autres, autant et plus que lui,

Auront a leur lumière incendié la terre

Et fa it crier l’airain des portes du mystère,

– Aprés combien dejours, combien de nuits,

Combien de cris poussés vers le néant de tout.

Combien de voeux dêfunts, de volontés à bout

Et d’oceans mauvais qui rejettent les sondes –

Viendra l’instant, ou tant d’efforts savants et ingénus,

Tant de cerveaux tendus vers l’inconnu,

Quand même, auront bâti sur des bases profondes

Et s’élançant au ciel, la synthèse des mondes!

 

C’est la maison de la science au loin dardée,

Par à travers les faits, jusqu’aux fixes idées.

 

O astrônomo

(Johannes Vermeer: pintor holandês)

 

A Procura

 

Câmaras, pavilhões, torres, laboratórios,

E, em suas frisas, esfinges evocatórias,

E, apontados ao céu, os telescópios de ouro.

 

E a casa da ciência ao distante voltada.

Dos fatos evoluindo às ideias eternas.

 

Frascos verdes, azuis, doirados quais tesouros;

Cristais monumentais e minerais jaspeados;

Prismas ao sol com raios irisados;

Cadinhos, recipientes rubros, chamas febris,

Onde são transmudadas as poeiras sutis;

Instrumentos simples e delicados

Qual se fossem insetos,

Molas tendidas, balanças corretas.

Quadrados, cones, ângulos, compassos

Lá estão, vivendo e respirando na atmosfera

De luta e de conquista em torno da matéria.

 

Ah! que tempo roubado à voragem dos anos,

E quanta angústia, quanta esperança nos fados,

E quantos cérebros pesados de cansaço

São precisos pra ter-se um pouco de certeza?

 

Ah! quanto erro a pesar nas frontes; e as prisões

Da crença onde o saber andava a passo;

Ah! os primeiros gritos, no alto da montanha.

Mortos pelo clamor da multidão embaixo.

 

Ah! fogueiras, suplícios, a escala toda do horror;

O louco olhar em faces brancas de pavor;

Ah! os corpos martirizados! e as chagas

A gritar a verdade, a boca ensanguentada.

 

E a casa da ciência ao distante voltada,

Dos fatos evoluindo às ideias eternas.

 

E com o olhar

Meticuloso ou monstruoso

Se podem ver os crescimentos e os desastres

A suceder-se, desde o átomo até o astro.

A vida é assim sondada, imensa e solidária,

Na superfície ou seus desvãos miraculosos.

Como o oceano e os seus vales agitados

Pelo sol, com suas mãos de ouro, inumeráveis.

 

E cada qual trabalha, com avidez,

Lento e metódico, num esforço de conjunto;

Cada um desata um nó, nessa complexidade

Dos problemas que se acumulam;

Todos escrutam e contemplam, todos provam;

Razão têm todos – mas é um só que encontra!

 

Ah, aquele que vem de distâncias festivas

Coberto de claridade e de luz;

Com que flama no peito, com que amor

E que esperança a arder-lhe na cabeça;

Ah! quanto à frente e quantas vezes

Sentiu vibrar e fermentar seu ser,

No mesmo ritmo da lei

Que define e faz conhecer.

 

Como ele é doce e claro frente aos fatos,

E humilde e atento, quando a noite

Lhe passa a palavra enigmática,

Desvela seus lábios fechados;

E como a se escutar, bruscamente, ele toca,

Na floresta sempre mais formigante e verde,

A branca e nua e virgem descoberta

E a promulga para o mundo como o destino.

 

E quando outros, com o ele e ainda mais do que ele,

Fizerem com sua luz incendiar-se a terra

E o bronze ressoar das portas do mistério,

– Depois de quantos dias, e de quantas noites,

Quanto grito lançado à pequenez de tudo,

Quanto voto defunto e vontades extremas,

Quanto oceano perverso rejeitando as sondas –

Virá a hora em que o esforço sábio e ingênuo

Dos cérebros voltados para o ignoto

Terão fundado, ao menos, em bases profundas,

E se lançando aos céus, a síntese dos mundos!

 

É a casa da ciência ao distante voltada,

Dos fatos evoluindo às ideias eternas.

 

Referência:

 

VERHAEREN, Émile. La recherche / A procura. Tradução de José Jeronymo Rivera. In: __________. Cidades tentaculares. Edição bilíngue: francês x português. Tradução e apresentação de José Jeronymo Rivera. Brasília, DF: Thesaurus, 1999. Em francês: p. 124, 126 e 128; em português: p. 125, 127 e 129.

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Fernando Pessoa - Há doenças piores que as doenças

Este poema se situa no núcleo mais íntimo e desnudado da poesia pessoana, a confrontar a voz do poeta com os abismos de sua própria consciência, confluindo a uma epígrafe congruente com toda uma existência dedicada a pensar o vazio: se a vida concreta é nada e a vida interior é o “adejar inútil” do irreal, não resta mais nenhum salvatério do que o esquecimento químico proporcionado pelo vinho.

 

Pessoa nos descreve a beleza fria e abstrata de um universo indiferente, o movimento puro e sem significado da consciência sobre o caos informe da vida, esse “rio turvo” que flui em sua mente, fértil em produzir heterônimos, ideias, projetos truncados, amores ideais. Ao fim e ao cabo, a identidade assimila-se às criações mesmas que lhe vêm à tona, num turbilhonar das infinitas possiblidades suscitadas por tamanha angústia existencial – a qual, como se pode aferir, ao transcender o meramente psicológico, passa a incorporar dimensões ontológicas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

 

Há doenças piores que as doenças

 

Há doenças piores que as doenças,

Há dores que não doem, nem na alma

Mas que são dolorosas mais que as outras.

Há angústias sonhadas mais reais

Que as que a vida nos traz, há sensações

Sentidas só com imaginá-las

Que são mais nossas do que a própria vida.

Há tanta cousa que, sem existir,

Existe, existe demoradamente,

E demoradamente é nossa e nós…

Por sobre o verde turvo do amplo rio

Os circunflexos brancos das gaivotas…

Por sobre a alma o adejar inútil

Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.

 

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

 

19-11-1935

 

Jovem bebendo uma taça de vinho

(Jan van Bijlert: pintor holandês)

 

Referência:

 

PESSOA, Fernando. Há doenças piores que as doenças. In: __________. Obra poética. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1981. p. 120. (Biblioteca “Luso-Brasileira”; Série “Portuguesa”; n. 5)

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Karl Shapiro - O Interlúdio III

O poeta interroga o universo com a força de uma exclamação, neste soneto que é, a um só tempo, uma meditação sobre a consciência e a responsabilidade, sobretudo em relação aos seres que costumamos classificar como pertencentes a um mundo “inferior”, mas que, assim como todas as demais criaturas neste plano de existência, têm beleza intrínseca e direito à vida (e quiçá sejam autoconscientes de seu próprio valor, como sugere o autor).

 

O verso derradeiro do poema carrega uma ironia imensa: a lágrima, símbolo de arrependimento e de dor moral, é tão avassaladora, quando em contraste com o tamanho da vítima – um ácaro –, que lhe poderia ter causado o mesmo efeito de extinção por esmagamento pela unha do falante. Em suma: mesmo a expressão do remorso tem potencial para ser mais um meio de aniquilação!

 

J.A.R. – H.C.

 

Karl Shapiro

(1913-2000)

 

The Interlude III

 

Writing, I crushed an insect with my nail

And thought nothing at all. A bit of wing

Caught my eye then, a gossamer so frail

 

And exquisite, I saw in it a thing

That scorned the grossness of the thing I wrote.

It hung upon my finger like a sting.

 

A leg I noticed next, fine as a mote,

“And on this frail eyelash he walked,” I said,

“And climbed and walked like any mountain-goat.”

 

And in this mood I sought the little head,

But it was lost; then in my heart a fear

Cried out, “A life – why beautiful, why dead!”

 

It was a mite that held itself most dear,

So small I could have drowned it with a tear.

 

In: “V-Letter and Other Poems” (1944)

 

Diálogo de insetos

(Joan Miró: pintor espanhol)

 

O Interlúdio III

 

Enquanto escrevia, esmaguei um inseto com a unha,

E não lhe dei maior importância. Então chamou-me

A atenção um pedaço de asa, uma gaze tão frágil

 

E delicada que levou-me a cismar ter nela visto algo

Que desdenhava a crueza daquilo que eu escrevera.

Pendia como um ferrão agarrado ao meu dedo.

 

Uma perna, notei em seguida, fina como um cisco,

“E sobre esse frágil cílio ele caminhava”, discorrera,

“A escalar e andejar como qualquer cabra-montesa”.

 

E, com tal ânimo, busquei-lhe a diminuta cabeça,

Mas a havia perdido; logo um assombro vociferou-me

Ao coração: “Uma vida – por que bela, por que morta!?”

 

Era um ácaro que se tinha em grande consideração,

Tão ínfimo que eu o poderia afogar com uma lágrima.

 

Em: “V-Letter e Outros Poemas” (1944)

 

Referência:

 

SHAPIRO, Karl. The interlude III. In: __________. Selected poems. New York, NY: Random House, 1968. p. 69.