Desde o título, já se
pode ter uma ideia do que a poetisa inglesa esgaravateia nestes versos, numa
elocução fragmentada e desafiadora: a essência alienada e frustrada da condição
humana na sociedade contemporânea, reverberada num grito contra a mecanização
do espírito, a perda de conexões autênticas e os perigos de se reduzir a
complexidade do ser e do universo a perspectivas simplistas.
São particularmente perceptíveis
as incursões sobre os temas do revés da linguagem e da comunicação para nos aproximar
de um modo saudável – tanto mais porque enredados nos ardis da autoconsciência –,
bem assim o do vazio existencial, que nos atira num sem-sentido crepuscular, atônitos
entre as molas do desejo de uma regressão ao plano animal e a aspiração a algo
mais além do meramente mundano – transcendente, intuitivo, cósmico.
J.A.R. – H.C.
Mina Loy
(1882-1966)
Human Cylinders
The human cylinders
Revolving in the
enervating dusk
That wraps each
closer in the mystery
Of singularity
Among the litter of a
sunless afternoon
Having eaten without
tasting
Talked without
communion
And at least two of
us
Loved a very little
Without seeking
To know if our two
miseries
In the lucid
rush-together of automatons
Could form one
opulent wellbeing
Simplifications of
men
In the enervating
dusk
Your indistinctness
Serves me the core of
the kernel of you
When in the frenzied
reaching out of intellect to intellect
Leaning brow to
brow communicative
Over the abyss of the
potential
Concordance of
respiration
Shames
Absence of
corresponding between the verbal sensory
And reciprocity
Of conception
And expression
Where each extrudes
beyond the tangible
One thin pale trail
of speculation
From among us we have
sent out
Into the enervating
dusk
One little whining
beast
Whose longing
Is to slink back to
antediluvian burrow
And one elastic
tentacle of intuition
To quiver among the
stars
The impartiality of
the absolute
Routs the polemic
Or which of us
Would not
Receiving the
holy-ghost
Catch it and caging
Lose it
Or in the problematic
Destroy the Universe
With a solution
(Imagem sem créditos)
Cilindros Humanos
Os cilindros humanos
Revolvendo-se no
ocaso enervante
Que os aconchega no
mistério
Da singularidade
Em meio ao lixo de
uma tarde sem sol
Tendo comido sem saborear
Falado sem comungar
E ao menos dois de
nós
Amamos minimamente
Sem procurar
Saber se nossas duas
misérias
No afã-encontro
lúcido de autômatos
Poderiam formar um
bem-estar opulento
Simplificações de
homens
No ocaso enervante
Sua indistinção
Me serve o colo do
caroço de você
Quando no frenético
lançar-se de intelecto a intelecto
Juntando fronte a
fronte comunicativos
Sobre o abismo do
potencial
Concordância de
respiração
Vergonhas
Ausência de
correlação entre o sensorial verbal
E reciprocidade
De concepção
E expressão
Onde cada um excreta
além do tangível
Um rastro fino e
frágil de especulação
Dentre nós enviamos
Ao ocaso enervante
Uma pequena besta
queixosa
Que anseia
Por volver à toca
antediluviana
E um tentáculo elástico
de intuição
Para fremir entre as
estrelas
A imparcialidade do
absoluto
Rechaça a polêmica
Ou qual de nós
Não iria
Ao receber o espírito
santo
Apanhá-lo e engaiolando
Perdê-lo
Ou na problemática
Destruir o Universo
Com uma solução
Referência:
LOY, Mina. Human cylinders
/ Cilindros humanos. Tradução de Maíra Mendes Galvão. In: MENDONÇA, Vanderley
(Ed.). Lira argenta: poesia em tradução. Edição bilíngue. São Paulo, SP:
Selo Demônio Negro, 2017. Em inglês: p. 206 e 208; em português: p. 207 e 209.
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