Nestes quatro
dísticos, Paes nos apresenta um manifesto pessoal, lapidado em numa declaração
de princípios éticos e estéticos, no qual torna explícita a sua postura perante
o mundo e o seu ofício, sempre comprometida com o bem comum, misto de honestidade
existencial e de esperançosa resistência.
A exemplo de um
poema-programa, esta “Poética” escora-se na solidariedade humana e na busca incansável
de uma “ilha prometida” mais justa, mediante o emprego da palavra escrita como
ferramenta conciliatória e como farol a orientar a jornada rumo ao aludido ideal.
Ademais, propõe o
poeta e tradutor paulista que a poesia se comprometa com a clareza dos seus
propósitos, vale dizer: (i) a denúncia da arbitrariedade e a solidariedade com
os mais vulneráveis; (ii) a rejeição da posse egoísta e a exaltação do valor de
uma vida compartilhada; (iii) e o rechaço da adoção dos papéis extremos de
autoridade ou de vítima, ou seja, nem a superioridade moral, nem a falsa humildade
que busca escusas, para assim se desincumbir de sua missão fora dos jogos
binários de poder e das vias labirínticas da autojustificação.
J.A.R. – H.C.
José Paulo Paes
(1926-1998)
Poética
Não sei palavras
dúbias. Meu sermão
Chama ao lobo verdugo
e ao cordeiro irmão.
Com duas mãos
fraternas, cumplicio
A ilha prometida à
proa do navio.
A posse é-me aventura
sem sentido.
Só compreendo o pão
se dividido.
Não brinco de juiz,
não me disfarço em réu.
Aceito meu inferno,
mas falo do meu céu.
Em: “Cúmplices” (1951)
O lobo e o cordeiro:
ilustração para a
fábula de La Fontaine
(Gustave Doré: gravurista
francês)
Referência:
PAES, José Paulo.
Poética. In: __________. Melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção de
Davi Arrigucci Jr. 3. ed. São Paulo, SP: Global, 2000. p. 103. (Série “Melhores
Poemas”; v. 37)
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