Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 18 de junho de 2026

Hart Crane - Remanso dos Rios

Com imagens sensoriais e densa linguagem – às vezes tangenciando vogas surrealistas e até mesmo mitológicas –, Hart adentra o entrançado território da memória, onde passa a navegar pelas águas agitadas do passado, evocando traumas então vivenciados, mesclando-os a experiências mundanas com suas provas de vida, para, no fim das contas, alcançar o porto da calma interior, no qual ecos antigos transformam-se em música perene e pacífica.

 

Nesse itinerário lírico, o poeta revela-nos a tensão existente entre as recordações opressoras da infância e a plenitude da memória adulta, renovada constantemente pelo repouso ativo, invariavelmente povoado pela presença sonora de salgueiros, cuja reiteração tem o condão de reforçá-la de um “som lento”, de início, a um “som firme”, ao final.

 

J.A.R. – H.C.

 

Hart Crane

(1899-1932)

 

Repose of Rivers

 

The willows carried a slow sound,

A sarabande the wind mowed on the mead.

I could never remember

That seething, steady leveling of the marshes

Till age had brought me to the sea.

 

Flags, weeds. And remembrance of steep alcoves

Where cypresses shared the noon’s

Tyranny; they drew me into hades almost.

And mammoth turtles climbing sulphur dreams

Yielded, while sun-silt rippled them

Asunder...

 

How much I would have bartered! the black gorge

And all the singular nestings in the hills

Where beavers learn stitch and tooth.

The pond I entered once and quickly fled –

I remember now its singing willow rim.

 

And finally, in that memory all things nurse;

After the city that I finally passed

With scalding unguents spread and smoking darts

The monsoon cut across the delta

At gulf gates... There, beyond the dykes

 

I heard wind flaking sapphire, like this summer,

And willows could not hold more steady sound.

 

In: “White Buildings” (1926)

 

Os salgueiros sobre o rio

(Claude Monet: pintor francês)

 

Remanso dos Rios

 

Os salgueiros traziam um som lento,

Uma sarabanda segada pelo vento na pradaria.

Jamais pude recordar

Aquele bulir, o contínuo aplainar dos charcos,

Até que a idade me conduzisse ao mar.

 

Lírios, juncos. E lembranças de íngremes refúgios,

Onde ciprestes partilhavam a tirania do sol

A pino, quase a me arrastarem para o Hades.

Tartarugas-mamute, ao escalarem sonhos sulfúreos,

Rendiam-se, enquanto o sol-sedimento as ondeava

Em irisadas estilhas...

 

O quanto eu teria cedido em troca! O negro desfiladeiro

E todas as reentrâncias singulares nas encostas,

Onde os castores aprendem a trincar e a empilhar.

O lago onde uma vez entrei para logo fugir –

Relembro agora o coro de salgueiros em sua orla.

 

E por fim, nessa memória que todas as coisas nutrem;

Para além da cidade, por mim finalmente transposta

Com o dispersar de unguentos ferventes e dardos fumegantes,

A monção levou a cabo a travessia do delta

No estuário do golfo... Lá, depois dos diques,

 

Ouvi o vento a exfoliar safiras, como neste verão,

E não poderiam os salgueiros tecer um som mais firme.

 

Em: “Edifícios Brancos” (1926)

 

Referência:

 

CRANE, Hart. Repose of rivers. In: __________. The collected poems of Hart Crane. Edited with an introduction by Waldo Frank. New York, NY: Liveright Publ. Co., jul. 1946. p. 79-80. (“Black & Gold Edition”)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Gaetano Longo - Decisão suprema

Com economia de palavras, o poeta italiano mostra-nos como a admiração pode tornar-se possessão destrutiva quando as expectativas não se cumprem, colocando em polos antagônicos a beleza natural e a liberdade de uma borboleta e a crueldade latente de um observador que a esmigalha em uma das mãos, assim que o lepidóptero cai numa espécie de imobilidade forçada.

 

Vemos, assim, como o deslumbre pode se converter num ato exacerbado, até mesmo mefistofélico, contra um ser indefeso: da contemplação pura à perda de paciência e à frustração, resultando, por fim, na determinação disruptiva – como se o observador conjecturasse “se não é capaz de voar, um atributo próprio de sua essência, este ser não merece existir como borboleta”.

 

Mas não há grandeza alguma em tal “decisão suprema”, apenas disposição niilista e extermínio gratuito!

 

J.A.R. – H.C.

 

Gaetano Longo

(n. 1964)

 

Decisione suprema

 

Una farfalla

con ali dai mille colori

ferma su un foglio.

Lui la guarda,

l’ammira.

Il tempo si è fermato.

Una farfalla

con ali dai mille colori.

Lui la guarda,

immobile.

Attende il gran volo.

Il tempo

 

è svanito.

Una farfalla

con ali dai mille colori

e non può volare.

Lui la guarda

e con un pugno la schiaccia.

 

O velho e a borboleta

(Elizabeth Samuel: artista indiana)

 

Decisão suprema

 

Uma borboleta

com asas de mil cores

pousa sobre uma folha.

Ele a olha,

a admira.

O tempo está parado.

Uma borboleta

com asas de mil cores.

Ele a olha,

imóvel.

Aguarda o grande voo.

O tempo

 

esvaiu-se.

Uma borboleta

com asas de mil cores

e não pode voar.

Ele a olha

e com o punho a esmigalha.

 

Referência:

 

LONGO, Gaetano. Decisione suprema / Decisão suprema. Tradução de José Eduardo Degrazia. In: DEGRAZIA, José Eduardo (Organização e Tradução). Poeti italiani contemporanei: poesie scelte / Poetas italianos contemporâneos: poesias escolhidas. Porto Alegre, RS: Sagra-Luzzatto, 1995. Em italiano: p. 88; em português: p. 89.

terça-feira, 16 de junho de 2026

Marly de Oliveira - A função do poema: conhecer?

A poetisa capixaba emprega contrastes e uma enumeração heteróclita do muito que povoa o nosso mundo – atos e fatos, criações e limitações, silogismos e conjecturas –, para então propor uma pergunta fundamental sobre a poesia e, indiretamente, respondê-la.

 

Com esse escopo, sugere que a função última do poema não seja simplesmente “conhecer” em uma perspectiva limitada, mas integrar a experiência humana em toda a sua diversidade e contradição – do sublime ao terrível –, e, por meio da ativa esperança que o próprio poema encarna, convencer-nos de que tudo isso, por mais paradoxal que se nos pareça, tem algum sentido.

 

Cuida-se de um manifesto antiniilista, do qual se depreende a fé no poder da arte – em especial, no da palavra poética –, para encontrar significado na trama do caos existencial, iluminando sombras, conectando o desconectado, encontrando um padrão condutor na teia mais errática e inextricável, como um fio de Ariadne para nos fazer sair do labirinto, encorajando-nos enfim para que lutemos contra a desmemória e a morte.

 

J.A.R. – H.C.

 

Marly de Oliveira

(1935-2007)

 

A função do poema: conhecer?

 

A função do poema: conhecer?

A função do teorema: desafio

que leva à abstração, à conjetura.

A função da esperança: convencer

que o poema, o teorema, a ciência, a invenção,

o semáforo, a história, a explosão

de Hiroshima; Picasso e sua glória;

o decalque, a estrutura, a rachadura,

a ruptura, a eternidade, a desmemória;

a ignorância, a pobreza, a riqueza,

a insuficiência, a morte têm sentido.

 

Em: “A força da paixão” (1982-1984)

 

Imagem do Museu Memorial da Paz em Hiroshima

(Kichisuke Yoshimura: artista japonês)

 

Referência:

 

OLIVEIRA, Marly de. A função do poema: conhecer? In: __________. Antologia poética. Organização e prefácio de João Cabral de Melo Neto. 1. ed., 2. impr. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1997. p. 158.

segunda-feira, 15 de junho de 2026

Léonie Adams - Mortalidade de Abril

O título atribuído por Adams a este poema – “April Mortality” – mostra-se de algum modo antitético, pois congrega duas ideias que notoriamente se opõem, a saber: de um lado, a menção a abril, mês em que se inicia a primavera no hemisfério norte, símbolo de renovação; e de outro, a perspectiva de mortalidade, apontando, por conseguinte, para os territórios antípodas do deperecimento e da decadência.

 

Estruturado como um diálogo entre a voz da experiência – os ossos ancestrais – e um coração vulnerável, o poema desmonta a ilusão de permanência e abraça uma amarga resignação: o potencial eterno da beleza nunca se materializa de modo pleno, exaurindo-se sem apelo no limbo da fugacidade, motivo pelo qual se deve ter consciência de que a morte é implacável, de que ela nos é um atávico e infausto desenlace.

 

J.A.R. – H.C.

 

Léonie Adams

(1899-1988)

 

April Mortality

 

Rebellion shook an ancient dust,

And bones, bleached dry of rottenness,

Said: Heart, be bitter still, nor trust

The earth, the sky, in their bright dress.

 

Heart, heart, dost thou not break to know

This anguish thou wilt bear alone?

We sang of it an age ago,

And traced it dimly upon stone.

 

With all the drifting race of men

Thou also art begot to mourn

That she is crucified again,

The lonely Beauty yet unborn.

 

And if thou dreamest to have won

Some touch of her in permanence,

’Tis the old cheating of the sun,

The intricate lovely play of sense.

 

Be bitter still, remember how

Four petals, when a little breath

Of wind made stir the pear-tree bough,

Blew delicately down to death.

 

Natureza-morta com buquê e crânio

(Adriaen van Utrecht: pintor flamengo)

 

Mortalidade de Abril

 

A rebelião sacudiu uma poeira antiga, e os ossos,

Alvos e dessecados da podridão, sentenciaram:

Coração, conserva-te amargo e não confies

Na terra e no céu, em seus refulgentes atavios.

 

Coração, coração, não te despedaças por saber

Que esta angústia haverás de suportar a sós?

Nós a cantamos em eras remotas,

E tenuemente a inscrevemos em pedra.

 

Com toda a estirpe errante dos homens,

Tu também estás fadado a lamentar

Que ela seja novamente crucificada,

A solitária Beleza ainda por nascer.

 

E se dela sonhas haver apreendido

Algum vestígio perdurável,

Trata-se apenas do velho ludíbrio do sol,

A intrincada e bela farsa dos sentidos.

 

Persiste em teu amargor: recorda como

Quatro pétalas, ao leve sopro

Do vento sobre o ramo da pereira,

voaram delicadamente para a morte.

 

Referência:

 

ADAMS, Léonie. April mortality. In: __________. Poems: a selection. New York, NY: Funk & Wagnalls Co., 1954. p. 100.