Unamuno apela à
retórica para que custodie a criação poética, libertando-a dos grilhões
impostos pela teoria e pela crítica, numa súplica que, longe de ser uma petição
literal de resgate, configura-se numa burla às convenções estabelecidas: o poema
do autor basco é tanto uma crítica às imposições estéticas externas quanto um
preito à ambiguidade e à vitalidade inerentes à arte – que se nega a ser
aprisionada por fórmulas complacentes e sobrecarregadas.
A retórica, assim, não
seria um mero recurso decorativo, mas a força capaz de restituir à palavra o
seu caráter dinâmico, espontâneo e subversivamente criativo, resgatando a
espontaneidade da linguagem; não apenas uma técnica de persuasão, mas um
instrumental para desamarrar o discurso, por demais frustrado num campo
saturado de normatividades: a “poética”, a encerrar a poesia em fórmulas
preestabelecidas; a “estética”, a deliberar sobre o belo segundo cânones
insuficientes; e, ainda, a “algaravia hipócrita” e a “crítica”, a sufocarem a
experimentação genuína.
Perceba-se, a
propósito, o jogo de palavras empreendido por Unamuno com os termos “píos” e “jipíos”
(v. n.r.) na segunda estrofe, mediante o qual enlaça num paralelo fônico a dupla
rejeição que preconiza contra, de um lado, o dogmatismo e os freios que tencionam
moralizar a arte, e do outro, as afetações exageradas, que a teatralizam: nada,
portanto, de disciplinar ou dramatizar a poesia, mas de a libertar,
devolvendo-lhe o “gozo impuro de afán inseguro”, isto é, o prazer imperfeito da
busca incerta!
J.A.R. – H.C.
Miguel de Unamuno
(1864-1936)
Sálvanos tú, retórica
Sálvanos tú,
retórica,
libra a la poesía
de la poética,
líbranos de la
estética
y de la algarabía
hipócrita
y de la crítica.
Líbranos de los píos
y de los jipíos, (*)
danos goce impuro
de afán inseguro;
sálvanos, retórica.
4 de febrero, 1929.
En: “Cancionero”
(1953)
Alegoria da Retórica
(Artemisia Gentileschi:
pintora italiana)
Salva-nos tu,
retórica
Salva-nos tu,
retórica,
livra a poesia
da poética,
livra-nos da estética,
da algaravia
hipócrita
e da crítica.
Livra-nos dos piedosos
e dos aulidos
queixosos,
dá-nos gozo impuro
de afã inseguro;
salva-nos, retórica.
4 de fevereiro de
1929.
Em: “Cancioneiro”
(1953)
Nota:
(*). No espanhol andaluz e popular, “jipíos” (ou “jipío” no singular) é
uma onomatopeia típica do canto flamenco, referindo-se ao gemido, lamento ou
grito emocional e gutural dos cantores – um som carregado de emoção, dor e
intensidade.
Referência:
UNAMUNO, Miguel de. Sálvanos tú, retórica. In: __________. Obras completas. Tomo V: Cancionero / Poesías Sueltas / Traducciones. Edición y prólogo de Ricardo Senabre. Madrid, ES: Fundación José Antonio de Castro, jun. 2002. p. 674.
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