Emerson nos apresenta
um manifesto poético, com todo aquele matiz transcendentalista, a proclamar a
superioridade absoluta da busca espiritual e estética sobre os valores
materiais e mundanos, chegando a postulá-la como um ideal pelo qual valeria a
pena morrer.
À procura da centelha
divina – “graça” – no fluxo constante do universo, é certo que nos depararemos
com a beleza – essa manifestação visível e audível do espírito criador na
natureza e no cosmos –, tão dinâmica e efêmera que requer um esforço ativo e
uma percepção agudizada para que possa ser oportunamente haurida.
Preso a ambições egoístas
e a cobiças materiais, o homem, segundo o autor norte-americano, teria na
beleza – essa linguagem universal subjacente ao ritmo e à harmonia de todas as
coisas – uma força ética e redentora, um clarão desassombrado que vai de
encontro à escuridão do sofrimento e da maldade, servindo-nos de guia para tornar
a vida uma experiência sublime.
J.A.R. – H.C.
Ralph Waldo Emerson
(1803-1882)
Beauty
Was never form and
never face
So sweet to Seyd as
only grace
Which did not slumber
like a stone,
But hovered gleaming
and was gone.
Beauty chased he everywhere,
In flame, in storm,
in clouds of air.
He smote the lake to
feed his eye
With the beryl beam
of the broken wave;
He flung in pebbles
well to hear
The moment's music
which they gave.
Oft pealed for him a
lofty tone
From nodding pole and
belting zone.
He heard a voice none
else could hear
From centred and from
errant sphere.
The quaking earth did
quake in rhyme,
Seas ebbed and flowed
in epic chime.
In dens of passion,
and pits of woe,
He saw strong Eros
struggling through,
To sun the dark and
solve the curse,
And beam to the
bounds of the universe.
While thus to love he
gave his days
In loyal worship,
scorning praise,
How spread their
lures for him in vain
Thieving Ambition and
paltering Gain!
He thought it happier
to be dead,
To die for Beauty,
than live for bread.
Hardkoolbome - Bosveld (1)
(Jacobus Hendrik
Pierneef: pintor sul-africano)
A Beleza
Nem a forma, nem o
olhar, nem o maior atrativo
Parecia suave a Seyd,
como o é sempre (2)
Aquela graça vivaz, e
não fria ou pétrea,
Que paira na cintila
e se esvaece na luz.
Sem cessar ele
perseguia o Belo, em todas as coisas,
Nas chamas, na
tormenta ou nas róseas nuvens.
Golpeava o lago para
sentir os olhos ofuscados
Pelos lampejos
esmeraldas que coroavam as ondas,
Atirava-lhe seixos
para acompanhar, um segundo,
Sua cadência límpida
ao mergulhar nas águas.
Do polo ou, muita vez
de longínquos horizontes,
De uma pura harmonia
ouvia ele os sons,
E da estrela fixa ou
das esferas errantes,
Lhe chegavam os
ruídos, vozes que só para si vibravam.
Tremia o mundo em
convulsões, e os mares.
Alteando-se e
borbulhando, formavam-lhe concertos.
Nos antros do mal, na
paixão, nas ruínas,
Descobria Eros, e
suas divinas lutas
Para ensolarar a
sombra e purificar o mundo,
E, vencedor,
resplandecer até os confins do mundo.
E, assim, entregando
ao amor a vida,
Era leal, e
desdenhava louvores e astúcias,
Enquanto o Lucro
furtivo, a Ambição que rouba,
Lhe repetiam debalde
suas promessas enganosas!
Melhor fora, pensava
com seu altivo espírito,
Que viver pelo pão, morrer
pela Beleza.
Notas:
(1). Hardkoolbome - Bosveld: árvores de madeira resistente em região de savanas no norte da África do Sul.
(2). Seyd: presente
em vários textos de Emerson, o figurante – talvez uma figura arquetípica
associada aos preceitos da mística persa – sempre surge como um símbolo para
aquele tipo-ideal de buscador da beleza, quer esteja ela presente na natureza,
quer no homem.
Referências:
Em Inglês
EMERSON, Ralph Waldo.
Beauty. In: __________. The complete works of Ralph Waldo Emerson. With
a biographical introduction and notes by Edward Waldo Emerson and a general
index illustrated with photogravures. Vol. IX: Poems. Boston, MA; New York, NY:
Houghton, Mifflin and Company (The Riverside Press, Cambridge), 1904. p.
275-276.
Em Português
EMERSON, Ralph Waldo.
A beleza. Tradução de C. M. Fonseca. In: __________. A conduta para a vida.
Tradução de C. M. Fonseca. São Paulo, SP: Martin Claret, 2003. p. 173. (Coleção
“A Obra-Prima de Cada Autor”; v. 120)
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