Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Edward Thomas - O Vale

Este poema transcende a mera descrição física de um refúgio de difícil acesso da zona rural inglesa – a comba, um espaço ancestral, intocado pelo sol e pelo canto dos pássaros –, para transformá-lo num cenário de embate entre o antigo e o moderno, entre o eterno e o efêmero, entre a pureza da natureza e a sua profanação por parte do homem.

 

Nas palavras do poeta, a caça ao texugo – “A bretã mais antiga dentre as bestas inglesas” –, símbolo de uma Inglaterra primitiva e resistente, teria o condão de tornar o vale em algo ainda mais “venerável e sombrio”, como se a eliminação do animal rompesse a sua aura de eternidade, de refúgio sagrado, manchando-lhe permanentemente o espírito.

 

Assim, poder-se-ia dizer que a opacidade natural do lugar, elemento constituinte de sua essência primigênia e autóctone, converte-se numa escuridão moral e histórica, e o poema num lamento por uma Inglaterra que se desvanece, recordando-nos de que algumas de nossas ações deixam feridas inapagáveis na “alma” dos torrões pelos quais passamos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edward Thomas

(1878-1917)

 

The Combe (*)

 

The Combe was ever dark, ancient and dark.

Its mouth is stopped with bramble, thorn, and briar;

And no one scrambles over the sliding chalk

By beech and yew and perishing juniper

Down the half precipices of its sides, with roots

And rabbit holes for steps. The sun of Winter,

The moon of Summer, and all the singing birds

Except the missel-thrush that loves juniper,

Are quite shut out. But far more ancient and dark

The Combe looks since they killed the badger there,

Dug him out and gave him to the hounds,

That most ancient Briton of English beasts.

 

Uma tempestade nas Montanhas Rochosas,

Monte Rosalie

(Albert Bierstadt: pintor germano-americano)

 

O Vale

 

O Vale sempre foi sombrio – venerável e sombrio.

Obstruem a sua entrada sarças, espinheiros e urzes;

E ninguém se atreve a escalar o calcário resvaladiço

Junto às faias, teixos e zimbros mortiços que cobrem

Os semiprecipícios de suas ladeiras, usando raízes

E tocas de coelhos como degraus. O sol de inverno,

A lua de verão e todos os pássaros canoros,

Exceto o tordo-visgueiro, que adora os zimbros,

Não se fazem presentes. Mas o Vale parece bem mais

Venerável e sombrio desde que lá mataram o texugo

– A bretã mais antiga dentre as bestas inglesas –,

Desenterraram-no e o entregaram aos cães.

 

Nota:

 

(*). Literalmente “A Comba”, em português, vale ou depressão entre encostas de montanhas; no caso específico do poema, faz-se alusão a uma das feições mais antigas da paisagem rural inglesa.

 

Referência:

 

THOMAS, Edward. The combe. In: HEANEY, Seamus; HUGHES, Ted (Eds.). The rattle bag. 1st publ. London, EN: Faber and Faber, 1982. p. 111.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Giuseppe Goffredo - O que pode mudar

O poeta captura em palavras o mal-estar de toda uma geração, em decorrência quer da conjuntura de crise econômica, quer de uma carência que se passa na alma, o que outorga ao poema certo tom elegíaco por tudo o que se perdeu e, o que é pior, pela certeza de que nada parece poder mudar essa paralisante realidade.

 

Fala-nos Goffredo de uma vida que se deteve, na qual os jovens deambulam como fantasmas em um estado perpétuo de tristeza ativa e corrosiva, privados não só de recursos, como também da chispa essencial que faz com que a vida valha a pena ser vivida.

 

Estagnada pela falta de perspectivas, confrangida pelos reflexos de sua precariedade material, fica a juventude – logo ela, sempre rebelde e cheia de energia! – atrelada a um ciclo para o qual não se veem saídas, entregue a gestos de autodefesa e de autogratificação, como último recurso, talvez, para fazer frente a esse asfixiante e lúgubre cenário.

 

J.A.R. – H.C.

 

Giuseppe Goffredo

(n. 1956)

 

Cosa può cambiare

 

Cosa può cambiare?

sui muri felpati

siede falba la malinconia,

la piazza vuota, il monumento,

il caffè, i giovani allocchiti.

 

Cosa può cambiare?

l’umido spigola al suolo,

si fanno cupi all’imbrunire

i cristalli di tristezza,

da soli ci si aggira,

senza voglia battuti dalla

disallegria, le femmine

storcono il muso e si accarezzano

il sesso, noi si è fuori

agli angoli a fumare.

Non abbiamo lavoro,

non abbiamo denaro,

non abbiamo fortuna,

ma quello que ci manca è la vita.

 

Na praça

(Giorgos Nicolaou: artista grego)

 

O que pode mudar

 

O que pode mudar?

sobre muros sedosos

senta cinzenta a melancolia,

a praça vazia, o monumento,

o café, os jovens amalucados.

 

O que pode mudar?

a umidade graneja o solo,

se fazem escuros ao anoitecer

os cristais da tristeza,

sempre aqui se agita,

sem vontade de caçar

a tristeza, as mulheres

voltam a cabeça e se acariciam

o sexo, nós estamos fora

na esquina a fumar.

Não temos trabalho,

não temos dinheiro,

não temos fortuna,

mas o que nos falta é a vida.

 

Referência:

 

GOFFREDO, Giuseppe. Cosa può cambiare / O que pode mudar. Tradução de José Eduardo Degrazia. In: DEGRAZIA, José Eduardo (Organização e Tradução). Poeti italiani contemporanei: poesie scelte / Poetas italianos contemporâneos: poesias escolhidas. Porto Alegre, RS: Sagra - D. C. Luzzatto, 1995. Em italiano: p. 84; em português: p. 85.

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

João Guimarães Rosa - Saudade

Tanto quanto a dor por tudo o que se encontra em outro tempo e lugar, a saudade – esse sentimento tão característico da cultura lusófona – expressa um inalcançável desejo de totalidade, pelo efeito da consciência de que somos seres fragmentados aspirando a sermos completos.

 

Detém a saudade uma capacidade para romper as barreiras do tempo linear, espargindo-se em direção ao passado, a tudo o que não se concretizou, ao desconhecido, e mesmo ao futuro, de que resulta a imersão do sujeito numa espécie de exílio de si mesmo e do “agora”.

 

Trata-se de um lanho nostálgico, por vezes melancólico, mas, ao mesmo tempo, de um motor existencial, um estado de ser, uma condição ontológica que se define como “essencial e orgânica”, uma vez que inerente à existência humana – como a respiração ou o pulsar do coração.

 

De resto, esse afã de concentrar o oceano da existência na gota do “eu” individual pode levar o aspirante a afogar-se “no fundo de si mesmo”. E aqui há suficiente ambiguidade na elocução do escritor mineiro, para que se possa afirmar que tal empreitada levaria ao perecimento desse “eu”, esmagado pela vastidão do próprio ser, ou, sob uma perspectiva mística, ao encontro com o divino, perante o qual a individualidade se dissolveria na unidade cósmica – como que a ratificar a ideia de que a morte do ego teria o condão de trazer à luz uma verdade maior.

 

J.A.R. – H.C.

 

João Guimarães Rosa

(1908-1967)

 

Saudade

 

Saudade de tudo!...

 

Saudade, essencial e orgânica,

de horas passadas,

que eu podia viver e não vivi!...

Saudade de gente que não conheço,

de amigos nascidos noutras terras,

de almas órfãs e irmãs,

de minha gente dispersa,

que talvez até hoje ainda espere por mim...

 

Saudade triste do passado,

saudade gloriosa do futuro,

saudade de todos os presentes

vividos fora de mim!...

 

Pressa!...

Ânsia voraz de me fazer em muitos,

fome angustiosa da fusão de tudo,

sede da volta final

da grande experiência:

uma só alma em um só corpo,

uma só alma-corpo,

um só,

um!...

Como quem fecha numa gota

o Oceano,

afogado no fundo de si mesmo...

 

Saudade

(Eridanus Sellen: artista norte-americano)

 

Referência:

 

ROSA, João Guimarães. Saudade. In: __________. Magma. Desenhos de Poty. 1. ed., 2. impr. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, abr. 2006. p. 132-133.

domingo, 20 de setembro de 2026

Miguel de Unamuno - Credo Poético

“Pensa o sentimento, sente o pensamento”: neste verso preambular, Unamuno sintetiza a sua filosofia poética como um conúbio entre intelecto e emoção, dando a entender que a poesia deve estar arraigada no tangível, de onde há de apreender a beleza para dar forma ao informe, isto é, para esculpir a própria névoa de que se compõe a alma humana.

 

Ao aspirar a tudo quanto é mais elevado, num afã de transcendência e eternidade, o poeta se propõe o maior dos desafios: lançar mão das substâncias mais etéreas de nossas experiências sobre a terra – a dúvida, a fé, a angústia, a esperança – para convolá-las, por meio da linguagem, a uma forma concreta, despojada de adornos desnecessários e propensa à imperecibilidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel de Unamuno

(1864-1936)

 

Credo Poético

 

Piensa el sentimiento, siente el pensamiento;

que tus cantos tengan nidos en la tierra,

y que cuando en vuelo a los cielos suban

tras las nubes no se pierdan.

 

Peso necesitan, en las alas peso,

la columna de humo se disipa entera,

algo que no es música es la poesía,

la pensada sólo queda.

 

Lo pensado es, no lo dudes, lo sentido.

¿Sentimiento puro? Quien ello crea,

de la fuente del sentir nunca ha llegado

a la viva y honda vena.

 

No te cuides en exceso del ropaje,

de escultor y no de sastre es tu tarea,

no te olvides de que nunca más hermosa

que desnuda está la idea.

 

No el que un alma encarna en carne, ten presente,

no el que forma da a la idea es el poeta,

sino que es el que alma encuentra tras la carne,

tras la forma encuentra idea.

 

De las fórmulas la broza es lo que hace

que nos vele la verdad, torpe, la ciencia;

la desnudas con tus manos y tus ojos

gozarán de su belleza.

 

Busca líneas de desnudo, que aunque trates

de envolvernos en lo vago de la niebla,

aun la niebla tiene líneas y se esculpe;

ten, pues, ojo, no las pierdas.

 

Que tus cantos sean cantos esculpidos,

ancla en tierra mientras tanto que se elevan,

el lenguaje es ante todo pensamiento,

y es pensada su belleza.

 

Sujetemos en verdades del espíritu

las entrañas de las formas pasajeras,

que la Idea reine en todo soberana;

esculpamos, pues, la niebla.

 

En: “Poesías” (1907)

 

Manhã nebulosa

(Mary T. Hoffman: pintora norte-americana)

 

Credo Poético

 

Pensa o sentimento, sente o pensamento;

que teus cantos façam ninho sobre a terra,

e quando, em voo, um dia ao céu se ergam

nas nuvens não se percam.

 

Precisam de sentir peso nas asas,

pois a coluna de fumo se dispersa;

algo que não é música é a poesia;

só fica a que se pensa.

 

O pensado, não o duvides, é o sentido.

Sentimento puro? Quem nele creia

da fonte do sentir nunca atingiu

a veia mais secreta.

 

Não cuides em excesso da roupagem,

não de alfaiate, é de escultor tua tarefa,

não te esqueças que nunca mais formosa

que nua está a ideia.

 

Não o que a alma encarna em carne, lembra-te,

não o que forma dá à ideia, é o poeta,

mas o que encontra a alma sob a carne,

sob a forma encontra a ideia.

 

É o detrito das fórmulas que faz

que nos vele a verdade, rude, a ciência;

despe-a com tuas mãos e os teus olhos

terão sua beleza.

 

Busca as linhas de um nu, que embora trates

de envolver-nos no vago de uma névoa,

mesmo a névoa tem linhas e esculpe-se;

abre os olhos, não as percas.

 

Que teus cantos sejam cantos esculpidos,

âncoras na terra enquanto eles se elevam,

a linguagem é sobretudo pensamento,

pensada é sua beleza.

 

Em verdades do espírito prendamos

as entranhas das formas passageiras,

que a Ideia reine em tudo, soberana;

esculpamos, pois, a névoa.

 

Em: “Poesias” (1907)

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

UNAMUNO, Miguel de. Credo poético. In: __________. Obras completas. Vol. VI - Poesía. Introducción, bibliografía y notas de Manuel García Blanco. Madrid, ES: Escelicer, may. 1969. p. 168-169.

 

Em Português

 

UNAMUNO, Miguel de. Credo poético. Tradução de José Bento. In: BENTO, José (Selecção, tradução, prólogo e notas). Antologia da poesia espanhola contemporânea. Lisboa, PT: Assírio e Alvim, dez. 1985. p. 40-41. (Colecção “Documenta Poética”; v. 6)

sábado, 19 de setembro de 2026

Vinicius de Moraes - Soneto de Intimidade

Fezes, urina, diarreia ou outras palavras similares não são tão comuns como matéria de poesia, muito embora apareçam aqui e ali em determinados poemas, a exemplo de algumas composições elaboradas por grandes poetas brasileiros, como Ferreira Gullar e Adélia Prado.

 

Digo isso apenas como introdução a este soneto de Vinicius, o qual, mais do que descrever a vida rústica e bucólica que se leva em uma fazenda, discorre sobre ações mundanas do falante em seu acercamento ao mundo natural, como mastigar grama, beber água de um riacho, interagir com o gado e, impudentemente, urinar numa gozosa comunhão com os animais, colocando em primeiro plano o status da dimensão biológica e instintiva do ser humano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vinicius de Moraes

(1913-1980)

 

Soneto de Intimidade

 

Nas tardes da fazenda há muito azul demais.

Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora

Mastigando um capim, o peito nu de fora

No pijama irreal de há três anos atrás.

 

Desço o rio no vau dos pequenos canais

Para ir beber na fonte a água fria e sonora

E se encontro no mato o rubro de uma amora

Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

 

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume

Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme

E quando por acaso uma mijada ferve

 

Seguida de um olhar não sem malícia e verve

Nós todos, animais, sem comoção nenhuma

Mijamos em comum numa festa de espuma.

 

Regando o Jardim

(Shannon O’Donnell: pintora norte-americana)

 

Referência:

 

MORAES, Vinicius de. Soneto de intimidade. In: __________. Soneto de fidelidade e outros poemas. Seleção de textos por Maura Sardinha. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1996. p. 63. (Coleção “Clássicos de Ouro”)