Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Ion Minulescu - Em Vez de Prefácio (Excerto)

Nesta declaração metapoética, o poeta romeno desarma o leitor desde o primeiro verso, num prólogo que se abre como um leque de significados, delegando-lhe a responsabilidade última de decifrar e, por meio desse processo, criar o próprio poeta, na firme convicção de que um dado poema só se torna palavra viva quando acolhido por outra consciência.

 

O poeta, sob tal perspectiva, desmaterializa-se para logo situar-se num limbo de possibilidades, convertendo-se em pura potencialidade linguística: sua existência, sua “vingança” contra o nada e sua revelação ao mundo, como se disse, dependem por completo da cumplicidade ativa de um leitor, pela via de quem espera superar o esquecimento, a incompreensão ou a falsa identidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ion Minulescu

(1881-1944)

 

În Loc de Prefaţă

 

(Extras)

 

N-am fost aşa precum se spune

Şi nu sunt nici aşa cum sunt

Nu sunt nici foc,

Nici ploaie

Şi nici vânt!...

Nu sunt nimic din ce-aş putea fi pe pământ...

Nu sunt decât un strop de vorbe bune,

Ce-aştept un cititor cinstit să mă răzbune

Şi să m-arate lumii cine sunt!…

 

Fogo, vento e água

(Marion Borgelt: artista australiana)

 

Em Vez de Prefácio

 

(Excerto)

 

Não fui assim, como se diz

e não sou nem assim como sou –

não sou nem fogo,

nem chuva

e nem vento!...

Nada sou do que poderia ter sido sobre a terra...

Não sou mais que um feixe de belas palavras,

que espera um leitor honesto para me vingar

e mostrar ao mundo quem sou eu!...

 

Referências:

 

Em Romeno

 

MINULESCU, Ion. În loc de prefaţă (Extras). Disponível neste endereço. Acesso em: 19 ago. 2016.

 

Em Português

 

MINULESCU, Ion. Em vez de prefácio (Excerto). Tradução de Julia Cârap. Poesia sempre, MinC – FBN, Rio de Janeiro (RJ), ano 13, n. 22, p. 40, jan-mar. 2006. (Volume “Romênia”). Disponível neste endereço. Acesso em: 22 ago. 2026.

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Cleonice Rainho - Mandarinato

A poetisa mineira, num exercício de identificação lírica com uma figura histórica e cultural distante – o mandarim chinês –, lança mão do imaginário imperial sínico para refletir sobre a função desse representante estatal em preservar e transmitir a cultura de seu país, sobretudo o idioma – enquanto pilar de uma civilização já milenar –, ao mesmo tempo que exteriorizar os atributos de sabedoria, da tradição e do poder.

 

Poder-se-iam correlacionar os referentes compendiados por Rainho em sua descrição da identidade desse agente público oriental – a de erudito, mestre, conselheiro político, mas, sobretudo, de sábio e artista –, com os de todos aqueles que se dedicam ao ofício da escrita – o poeta aí incluso –, os quais, “sabendo escolher conceitos”, buscam dar ordem ao mundo através da palavra, com sensibilidade e beleza.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cleonice Rainho

(1919-2012)

 

Mandarinato

 

Sou um mandarim:

fui astrólogo da corte,

aprendi a ver estrelas

(fascinavam-me os quartos de lua)

e fui um dos grandes letrados,

sabendo escolher conceitos.

Perlustrei livros sagrados,

dei-me ao culto de Confúcio,

escrevi ternos poemas.

Enfrentei a fragmentação feudal,

circulei entre vários reinos,

disputando a hegemonia.

Fui honroso conselheiro,

redigi apreciados sutras,

percorri, como professor,

distantes vilas e aldeias,

treinando letras ideográficas.

Ensinei a olhar a Natureza,

a distinguir a ordem cósmica

e, doce privilégio!

– amei bela mandarina.

 

Rolam no tempo reinos guerreiros,

política e religião se aninham

no valor e força da linguagem escrita.

E me ergo, camada dirigente,

na administração do Estado,

funcionários burocráticos,

tradicionalistas religiosos,

audaciosos inovadores políticos

identificados com

 a Unidade Chinesa.

 

Um Mandarim Chinês

(George Chinnery: pintor inglês)

 

Referência:

 

RAINHO, Cleonice. Mandarinato. In: __________. Poemas chineses. Brasília, DF: Editora Códice, 1997. p. 22-23.

terça-feira, 25 de agosto de 2026

Moniza Alvi - Como a Pedra Encontrou a Sua Voz

Desenvolvidos como uma pequena fábula ou parábola, estes versos de Alvi – poetisa anglo-paquistanesa – ocupa-se das representações que costumamos ter de uma pedra – de algo imutável, eterno, afônico –, mas que, em determinado momento da história, resolver fazer-se ouvir, mesmo que de fora titubeante, para vencer de vez o seu milenar silêncio.

 

E a mensagem que emite – breve, com um quê de paradoxal e enigmático – tem na linha “Tornemo-nos indiferentes à indiferença” o máximo de ênfase, caso a interpretemos como um chamado à negação ativa da apatia, de um rechaço à passividade, num mundo onde a indiferença humana possibilita o alastramento generalizado do mal, de guerras, de abusos, de extermínios – como aquele a que está exposto o povo palestino.

 

Alvi, mesmo sem descrever a guerra, emprega-a como um dos catalisadores necessários para tal despertar, porquanto o que dela resulta – um nível de destruição tão absoluto a alterar a ordem natural das coisas – somente tem o dom de arrastar a humanidade ao caos das sociedades fraturadas, muito mais facilmente insensibilizadas e manipuladas aos interesses de uma minoria.

 

J.A.R. – H.C.

 

Moniza Alvi

(n. 1954)

 

How the Stone Found Its Voice

 

We had waited through so many lifetimes

for the stone to speak, wondered if

 

it would make compelling pronouncements,

anything worth writing down.

 

Then after the war of wars

had ground to a shattering halt, the stone

 

emitted a small grinding sound rather like

the clearing of a throat.

 

‘Let us be indifferent to indifference’,

the stone said.

 

And then the world spoke.

 

In: “How the Stone Found Its Voice” (2005)

 

Paisagem no Maine

(Adam Leveille: pintor norte-americano)

 

Como a Pedra Encontrou a Sua Voz

 

Havíamos esperado ao longo de tantas vidas

para que a pedra falasse, perguntando-nos

 

se faria pronunciamentos convincentes,

algo que valesse a pena registrar.

 

Então, depois que a guerra das guerras

chegou a um fim estarrecedor, a pedra

 

emitiu um pequeno som rangente,

semelhante a um pigarro.

 

“Tornemo-nos indiferentes à indiferença”,

disse a pedra.

 

E então o mundo tomou a palavra.

 

Em: “Como a Pedra Encontrou a Sua Voz” (2005)

 

Referência:

 

MONZI, Moniza. How the stone found its voice. In: __________. Split word: poems (1990-2005). Tarset, Northumberland (EN): Bloodaxe Books, 2008. p. 260.

 

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

Robert Morgan - Antitempo

O poeta tece especulações audazes acerca da hipótese cosmológica no âmbito científico denominada “Big Crunch” “Grande Compactação”, sob cuja tese o universo, após uma fase de expansão iniciada pelo “Big Bang” (“Grande Explosão”), eventualmente pararia de se expandir e começaria a se contrair, colapsando de volta a um ponto superaquecido e denso, ou até mesmo a uma nova singularidade

 

Assim, o poeta norte-americano, para além de tais ideias – hoje menos veiculadas –, adentra as raias de algo metafísico, quase inimaginável, quando conjectura sobre uma reversão total da existência – o tempo a correr para trás e a história sob os efeitos da “descriação”, um processo de aniquilamento no qual tudo o que alguma vez existiu – as nossas vidas, os acontecimentos factuais de que temos conhecimento, a evolução – poderia não só desaparecer, senão se desenrolar ao contrário, até ser reabsorvido em sua fonte.

 

Interessante é a formulação de um universo personificado numa matéria que “recorda e esquece ao mesmo tempo”, num ato simultâneo de memória e de amnésia cósmica, como se tudo não passasse de mero experimento linguístico e presuntivo, mas de uma contramarcha em escala mitológica: para retroceder, a matéria tem de “recordar” o seu estado anterior, mas ao fazê-lo, deve “esquecer” o seu estado atual e toda a história intermediária.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Morgan

(n. 1944)

 

Antitime

 

If the universe could reach that

final stage of its expansion,

all matter stop for an instant

in frozen poise, in total balance

of gravity and momentum

after the billions of lightyears

of outward flight, and there, there at

the outer limits of radiant

dusts, the twisting galaxies down

to the least glitter and flavored

particle would slip in reverse.

And time’s vector shot from the first

would invert, the seconds eating

seconds, hours hours, and years rescroll

as history annihilates

itself, rearing sharp then sinking

in rerisen seas as matter

remembers and forgets at once,

transforms into pattern as bodies

undecay and unfission back

to embryo and whitehot cell

in the billion year contraction

and erasure of event down

the parsecs toward the thought of

creation’s single total light.

 

A nona onda

(Ivan K. Aivazovsky: pintor ucraniano)

 

Antitempo

 

Se o universo pudesse chegar àquele

estágio final de expansão,

toda matéria parar por um instante

em pose congelada, em total equilíbrio

de gravidade e momento,

após bilhões de anos-luz

de voos pelo mundo externo, e lá, lá

nos extremos limites dos pós

luminosos, as galáxias girantes reduzidas

ao mais ínfimo brilho e sápida

partícula deslizariam em sentido oposto.

E o vetor do tempo lançado do primeiro

se inverteria, segundos engolindo

segundos, horas horas, anos rebobinados

enquanto a história aniquila

a si mesma, emergindo e depois afundando

em mares renascidos, enquanto a matéria

lembra e em seguida esquece,

transforma-se em padrão enquanto corpos

se regeneram e se recompõem de volta

a embrião e célula incandescente

na contração de um bilhão de anos,

no apagar do fato reduzido

a parsecs a caminho do pensamento da

única e absoluta luz da criação.

 

Referência:

 

MORGAN, Robert. Antitime / Antitempo. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. In: O’SHEA, José Roberto (Org.). Antologia de poesia norte-americana contemporânea. Tradução de Maria Lúcia Milléo Martins. Florianópolis, SC: Ed. da UFSC, 1997. Em inglês: p. 136; em português: p. 137.

domingo, 23 de agosto de 2026

Amy Clampitt - O Sol sob os Pés entre as Dróseras

À maneira de uma lição de como devemos enxergar o mundo, a poetisa norte-americana propõe-nos que devamos partir em busca do divino em situações nas quais se vislumbrem o “sol sob os pés” nos mais ínfimos, mais frágeis e até mais mortíferos detalhes da natureza.

 

O olhar minucioso com atenção reverencial, quando confrontado com a complexidade e a beleza do mundo, convola o perigo em êxtase e transforma uma simples armadilha biológica em umbral para o alcance do mais puro deslumbramento: a luz no fundo daquilo que se mira torna-se tão intensa que inverte as leis da física perceptiva – “só de contemplá-la, começas a cair para cima”.

 

Diante do assombro, a mente procura uma explicação: Clampitt declina as duas grandes narrativas sobre a origem da vida com delicada ironia – ou bem a ideia de um criador divino, simples e direta, ou bem a hipótese da Seleção Natural, um processo cego e aleatório, o exato oposto de um ato consciente de criação.

 

Seja como for, perante a beleza avassaladora do mundo, a distinção supra quase perde o seu significado: o próprio fato da existência é o verdadeiro milagre!

 

J.A.R. – H.C.

 

Amy Clampitt

(1920-1994)

 

The Sun Underfoot among the Sundews

 

An ingenuity too astonishing

to be quite fortuitous is

this bog full of sundews, sphagnum-

lined and shaped like a teacup.

   A step

down and you’re into it; a

wilderness swallows you up:

ankle-, then knee-, then midriff-

to-shoulder-deep in wetfooted

understory, an overhead

spruce-tamarack horizon hinting

you’ll never get out of here.

But the sun

among the sundews, down there,

is so bright, an underfoot

webwork of carnivorous rubies,

a star-warm thick as the gnats

they’re set to catch, delectable

double-faced cockleburs, each

hair-tip a sticky mirror

afire with sunlight, a million

of them and again a million,

each mirror a trap set to

unhand unbelieving,

 that either

a First Cause said once, ‘Let there

be sundews,’ and there were, or they’ve

made their way here unaided

other than by that backhand, roundabout

refusal to assume responsibility

known as Natural Selection.

 But the sun

underfoot is so dazzling

down there among the sundews,

there is so much light

in the cup that, looking,

you start to fall upward.

 

Drósera

(Gabriele Esau: pintora alemã)

 

O Sol sob os Pés entre as Dróseras

 

Uma engenhosidade por demais espantosa

para ser mero acaso: é

este pântano repleto de dróseras, recoberto

de esfagnos e com formato de chávena de chá.

    Um passo

para baixo e nele penetras; um

brejo logo te traga:

pelos tornozelos, depois pelos joelhos e, sem delonga,

pelo tronco até os ombros, nas entranhas

da vegetação rasteira e úmida que medra num horizonte

de elegantes lariços acima da tua cabeça,

a insinuarem que daqui jamais escaparás.

     Mas o sol

entre as dróseras, lá embaixo,

é tão brilhante, uma rede

de rubis carnívoros sob os pés,

um calor estelar tão denso quanto os mosquitos

que tencionam capturar, adoráveis

carrapichos de dupla face, cada

ponta de pelo um espelho pegajoso

em chamas com a luz do sol, um milhão

deles e outro milhão, e cada espelho

uma armadilha preparada

para deixar sem amarras os incrédulos:

     ou bem

uma Causa Primeira outrora ordenou “Que haja

dróseras” – e aqui estão elas –, ou bem elas cá

chegaram por si mesmas, sem mais ajuda

do que aquele jeito oblíquo e tortuoso

de se esquivar à responsabilidade,

a que se denomina Seleção Natural.

    Mas o sol

sob os pés é tão deslumbrante

lá embaixo entre as dróseras,

há tanta luz na chávena que, só de admirá-la,

começas a cair para cima.

 

Referência:

 

CLAMPITT, Amy. The sun underfoot among the sundews. In: ASTLEY, Neil (Selection, introduction and notes). Staying alive: real poems for unreal times. 1st publ., 6th impr. Tarset (Northumberland, EN): Bloodaxe Books, 2004. p. 420.