Em meio a uma
atmosfera de perda e melancolia, o poeta converte o outono numa metáfora da
ausência da pessoa amada e de uma memória que teima em permanecer vívida e dolorosa,
tudo para evidenciar como a recordação do amor perdido paira feito um fantasma a
acompanhar o sujeito lírico em sua solidão.
Imagens do vento
frio, chuva e céus cinzentos substituem a vitalidade das rosas e o canto da
cotovia, simbolizando o desaparecimento da beleza e da esperança: o emprego
reiterado do paralelismo sintático “onde… esteve” enfatiza a ideia de um
passado cheio de vida, agora convolado em vazio e silêncio, a permitir que se apreenda
o poema como elegia pura, em cujos versos a natureza e a alma vertem as suas
pétalas juntas.
J.A.R. – H.C.
Walter de la Mare
(1873-1956)
Autumn
There is a wind where
the rose was;
Cold rain where sweet
grass was;
And clouds like sheep
Stream o’er the steep
Grey skies where the
lark was.
Nought gold where
your hair was;
Nought warm where
your hand was;
But phantom, forlorn,
Beneath the thorn,
Your ghost where your
face was.
Sad winds where your
voice was;
Tears, tears where my
heart was;
And ever with me,
Child, ever with me,
Silence where hope
was.
In: “Poems” (1906)
O jardim do Hospital
São Paulo:
queda de folhas
(Vincent van Gogh:
pintor holandês)
Outono
Existe o vento onde
uma rosa esteve,
fria chuva onde a
relva tenra esteve;
nuvens como carneiros
correm pelo escarpado
cinzento céu onde a
calhandra esteve.
Nada de ouro onde o
teu cabelo esteve,
nem de quente onde a
tua mão esteve;
mas, espectral,
perdido,
debaixo dos espinhos,
o teu fantasma onde o
teu rosto esteve.
Triste vento onde tua
voz esteve;
lágrimas onde um
coração esteve;
e sempre aqui comigo,
amor, sempre comigo,
este silêncio onde a
esperança esteve.
Em: “Poemas” (1906)
Referências:
Em Inglês
MARE, Walter de la.
Autumn. In: __________. The complete poems of Walter de la Mare. 1st ed.
New York, NY: Alfred A. Knopf, 1970. p. 97.
Em Português
MARE, Walter de la.
Outono. Tradução de Abgar Renault. In: RENAULT, Abgar. Poesia: tradução e
versão. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1994. p. 99.
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