Este tríptico de
Savary é uma ode ao erotismo feminino como força vital, criativa e
transformadora, extensível ao cósmico, que se convola em sua máxima expressão a
um êxtase que é, ao mesmo tempo, entrega, fusão, uma breve morte ritual e um jogo
sagrado.
A poetisa eleva o ato
físico a uma experiência mística e metafísica, celebrando o seu poder, os seus
mistérios e sua inerente beleza, sempre a partir de uma voz que se mostra digna
dos prazeres que experimenta e de seu próprio destino.
O clímax sexual passa
a ser visto, sob tal perspectiva, como uma forma de morte simbólica – não exatamente
trágica, senão lúcida, rítmica e primordial toda prova –, uma espécie de
trânsito liminar compartilhado, intensamente desejado e fruído, intraduzível em
seus veneráveis enigmas a uma integral expressão poética, ou bem por
insuficiência da linguagem ou bem por não tencionar se revelar completamente.
J.A.R. – H.C.
Olga Savary
(1933-2020)
Acomodação do desejo
I
Quando abro o corpo à
loucura, à correnteza,
reconheço o mar em
teu alto búzio
vindo a galope
enquanto cavalgas lento
meu corredor de
águas.
A boca perdendo a
vida sem tua seiva,
os dedos perdendo
tempo enquanto
para o amado a amada
se abre em flor e fruto
(não vês que esta
mulher te faz mais belo?).
A vida no corpo
alegre de existir,
fiquei à espreita dos
grandes cataclismos:
daí beber na festa do
teu corpo
que me galga esse
castelo de águas.
II
Dos que se amam na
cama rente às nuvens,
nestes jardins
ferozes, vê-se que amanhecem.
Nela, anca e espáduas
eram como água.
Nele, tudo semelhante
à terra. Seus corpos:
êxtase e terror dos
deuses.
Que o comova o
silêncio de seu corpo morno,
o fragor mudo do seu
corpo desabado.
E que ela se abra
como se abre uma urna
que se abre não
revelando o conteúdo.
III
Deito-me com quem é
livre à beira dos abismos
e estou perto do meu
desejo.
Depois do silêncio
úmido dos lugares de pedra,
dos lugares de água,
dos regatos perdidos,
lá onde morremos de
um vago êxtase,
de uma requintada
barbárie estávamos morrendo,
lá onde meus pés
estavam na água
e meu coração sob
meus pés,
se seguisses minhas
pegadas
e ao êxtase me
seguisses
até morrermos, uma
tal morte
seria digna de ser
morrida.
Então morramos dessa
breve morte lenta,
cadenciada, rude,
dessa morte lúdica.
Em: “Magma” (1982)
As acomodações do
desejo
(Salvador Dalí:
pintor espanhol)
Referência:
SAVARY, Olga.
Acomodação do Desejo I, II e III. In: __________. Coração subterrâneo:
poemas escolhidos. Posfácio de Laura Erber. 1. ed. São Paulo, SP: Todavia,
2021. p. 73-75.
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