Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Lúcio Cardoso - A voz de Lázaro

Cardoso recorre ao mito bíblico para nos falar da crise no íntimo do homem moderno que, “morto” em uma vida inautêntica, enfrenta o terror e a beleza de um necessário renascer, cujos imperativos, nada obstante, exigem o abandono de tudo quanto se conhece e a coragem para aceitar uma fé intensa e abrasadora, engolfando-o em uma liberdade inequívoca que lhe pode suscitar mil temores.

 

Diante da vastidão da existência, o poeta revela em Lázaro certa nostalgia da paz do sepulcro, da quietude do nada – essa metáfora de prisão existencial, de uma morte em vida –, quando este vem a perceber o resultado do milagre de que foi agraciado: a recuperação da espontaneidade original e da capacidade de sentir, com o consequente pulsar das feridas do passado, não exatamente como dor, senão como prova de que o sangue voltou a lhe correr nas veias.

 

J.A.R. – H.C.

 

Lúcio Cardoso

(1912-1968)

 

A voz de Lázaro

 

No abismo que se abre em mim uma só voz escuto:

– És tu, Senhor? És tu que sopras o meu nome de tão longe?

Ah! Bem entendo esse ruído que rola como a música no silêncio

de uma nave –

És tu? Responde, ao menos para cobrir de desespero a minha face!

 

Eis que aqui sozinho e cheio de brancas ataduras,

fechado num sepulcro que apesar do odor das mornas

terras banhadas pela chuva,

conserva ainda no âmago o traço do incenso funerário.

Eis-me Senhor, como no dia em que nasci,

longe do amigo e da mulher que traem o meu ciúme,

longe da casa onde na sala arde a lâmpada para a ceia familiar.

 

Não disseste ser preciso estar nu como a criança que vem de surgir

das veias maternas,

não disseste ser preciso abandonar as terras, os vizinhos e tudo

o que trouxesse um nome sem som correspondente?

Longe de mim, pois, estão todas as formas que não têm

o seu berço no espaço que dura,

longe os muros em que a alma é prisioneira.

 

Se é verdade que só aproveitamos na medida daquilo

que atiramos fora,

contempla a minha carne marcada pelos vergões de todas

as correntes com que me aprisionei em vida.

Sinto agora a tua presença porque no meu coração a energia

se renovou como no grão prestes a se transformar em folha,

sinto porque do fundo esquecimento renasceu em mim a aurora

da infância abandonada

e a pele desfeita se uniu e o sangue tornou a borbulhar

nas antigas cicatrizes...

 

Assim nada morre; tudo o que teve um nome, som ou

pensamento, volta do profundo abismo onde

a cegueira mora –

eu vejo, mas um estranho pressentimento perturba

a perfeição da minha alegria:

se és tu, bate com mais força à porta onde as sombras

do sono me envolvem,

bate, pois que estive tanto tempo sepultado no silêncio

que os meus ouvidos já confundem os sons e os perfumes

se turvam irrevelados.

 

É verdade, já não é possível duvidar, pois quem, senão tu,

poderia conceder-me a graça de reverdecer como a planta

seca pelos anos,

mas o meu coração é fraco e os meus olhos se obstinam

na quietude da morte.

Dá-me, Senhor, a fé selvagem que cobre de espinhos

o esqueleto das árvores vencidas,

clareia com fogo imperecível as minhas órbitas escuras

que a noite é imensa e eu sinto a vastidão que se dilata

e tenho medo de me perder, como o santo a quem

o desespero envolve nas trevas da danação.

 

A Ressurreição de Lázaro

(Simon de Vos: pintor flamengo)

 

Referência:

 

CARDOSO, Lúcio. A voz de Lázaro. In: __________. Poesia Completa. Edição crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo, SP: Edusp, 2011. p. 250-251.

domingo, 9 de agosto de 2026

Edgar Albert Guest - Apenas um Pai

Neste domingo dedicado aos pais, trago-lhes um poema sobre o tema, no qual o poeta captura a essência da abnegação silenciosa e do amor incondicional que um pai – a exemplo de cada um de nossos pais – sempre busca demonstrar por sua família: enfrentando os desafios diários com resiliência, “o melhor dos homens”, no dizer dos versos, assume zelosamente as suas responsabilidades, postura que se assemelha, sem maiores embargos, à de consecução da jornada arquetípica do herói.

 

Para mais, há nos versos elementos associados à ideia de continuidade e de legado, numa cadeia de amor e de sacrifício que se transmite de geração em geração, outorgando ao seu rol uma dignidade ancestral, ou ainda, uma nobre tradição de paternidade consequente, pelo bem daqueles que ficam à espera da volta dos pais, do trabalho para casa.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edgar Albert Guest

(1881-1959)

 

Only a Dad

 

Only a dad, with a tired face,

Coming home from the daily race,

Bringing little of gold or fame,

To show how well he has played the game,

But glad in his heart that his own rejoice

To see him come, and to hear his voice.

 

Only a dad, with a brood of four,

One of ten million men or more.

Plodding along in the daily strife,

Bearing the whips and the scorns of life,

With never a whimper of pain or hate,

For the sake of those who at home await.

 

Only a dad, neither rich nor proud,

Merely one of the surging crowd

Toiling, striving from day to day,

Facing whatever may come his way,

Silent, whenever the harsh condemn,

And bearing it all for the love of them.

 

Only a dad, but he gives his all

To smooth the way for his children small,

Doing, with courage stern and grim,

The deeds that his father did for him.

This is the line that for him I pen,

Only a dad, but the best of men.

 

Família brincando com cata-ventos

(Edward Turner: artista britânico)

 

Apenas um Pai

 

Apenas um pai, com um rosto cansado,

Regressando da faina diária para casa,

Com módica paga de ouro ou fama,

A pouco retribuir o quão bem devotou-se à lida,

Mas feliz em seu coração pelos seus se alegrarem

Ao vê-lo chegar e escutar a sua voz.

 

Apenas um pai, com uma prole de quatro filhos,

Um entre dez milhões de homens ou mais.

Arrastando-se penosamente na labuta quotidiana,

Sujeitando-se aos açoites e aos desprezos da vida,

Jamais com um vociferar de dor ou de ódio,

Pelo bem daqueles que no lar o esperam.

 

Apenas um pai, nem rico nem vaidoso,

Somente um em meio à crescente multidão, 

Laborando, esforçando-se dia após dia,

Enfrentando o que quer que se lhe apresente,

Em silêncio sempre que os ríspidos improbam,

E tudo a suportar por amor aos de casa.

 

Apenas um pai, mas que se dedica a dar tudo de si

Para aplainar o caminho de seus filhos pequenos,

Cumprindo, com austera e obstinada coragem,

As ações de mesma ordem que seu pai fez por ele.

Esta é a linha que lhe escrevo em tributo:

Apenas um pai, mas o melhor dos homens.

 

Referência:

 

GUEST, Edgar Albert. Only a dad. In: ___________. Collected Verse of Edgar A. Guest. Reilly & Lee Company, 1943. p. 26.

sábado, 8 de agosto de 2026

Herberto Helder - Uma noite acordarei junto ao corpo infindável

Helder aborda a morte como uma travessia consciente e transformadora, um ato de derradeira beleza por meio do qual o seu corpo e os seus sentidos se dissolvem, enquanto ele, ávido de um êxtase dionisíaco que já não se mostra factível, vai ao encontro de sua amada para com ela se fundir numa eternidade umbrosa e silente.

 

As imagens evocadas pelo poeta – em meio ao irreversível definhar do desejo, conducente a um desfecho de esterilidade –, descrevem um ritual terminal de purificação e de despedida, enquanto o falante encarrega-se de queimar o corpo da amada com os mesmos beijos do passado, entregando-lhe os sobrantes lenitivos do amor – uma ternura incinerante, corrosiva e primária, como o “azebre”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herberto Helder

(1930-2015)

 

Uma noite acordarei junto ao corpo infindável

 

Uma noite acordarei junto ao corpo infindável

da amada e meu sangue não se encantará.

Então rosa a rosa murcharão meus ombros

Quer dizer que a sombra carregará meus sentidos

de distância, como se tudo fosse o cheiro

que as ervas pungentemente perdem

através do silêncio.

Plácido chegarei à mesa, e de súbito

meu coração se atravessará de gelo puro.

O vinho? perguntarei. Flores de sal cobrirão

a luz poderosa do meu olhar.

Tempo! tempo! Eu próprio perguntarei no recente

pasmo da minha carne: o vinho?

Rosa a rosa murcharão meus ombros.

 

Então lembrarei a vermelha resina, o espesso

murmúrio do sangue,

o acre e sobrenatural aroma das acácias.

Tentarei encontrar uma forma. Guitarras pensarão

a alegria noturna.

Com beijos antigos um momento ainda queimarei

o corpo solitário da amada, direi palavras

de uma ternura de azebre.

Uma lua partida penderá do meu sexo morto

e uma vez mais me perderei, dizendo: o vinho?

Rosa a rosa murcharão meus ombros.

 

(Em: “Graal”, nº 4)

 

Você e eu, entrelaçamo-nos como galhos

(Maevis Chamberlain: artista canadense)

 

Referência:

 

HELDER, Herberto. Uma noite acordarei junto ao corpo infindável. In: NEVES, João Alves das (Introdução, Seleção e Notas). Poetas portugueses modernos. Rio de Janeiro, GB: Civilização Brasileira, 1967. p. 381-382. (Coleção “Poesia Hoje” / Série “Antologias”; v. 12)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Francisco Brines - As últimas perguntas

Este poema ressoa com uma força inquietante em qualquer leitor que se haja perguntado pelo significado de sua própria jornada ao longo dos anos: eivados de certa angústia existencial, os versos apontam para um ceticismo lancinante, especialmente quando o poeta, em sua derradeira linha, emprega a condicional “como se”, dando a entender que toda uma vida de experiências, amores e dores se converte, com a morte, em uma ilusão sem quaisquer rastros.

 

Trata-se, pois, de um poema sobre a cegueira metafórica diante do desconhecido que sobrevém à morte, o que torna a sua proximidade uma derrota contundente para quem ali chegou sem haver compreendido o propósito da vida: sob a consciência da finitude, projeta-se um vazio que a tudo desvanece, sem que lhe sucedam os umbrais da eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Francisco Brines

(1932-2021)

 

Las últimas preguntas

 

En el acabamiento de la tarde,

cuando hacía el camino, he llegado de pronto

¿a dónde?

 

La noche que ha caído, tan repentina y negra, me impide ver,

y sólo sé que nadie me acompaña.

¿Qué ha sido este viaje?

   Muy largo debió ser, por la fatiga,

o acaso fue muy breve, si existió:

no puedo recobrar el olor de las rosas.

De entre mis posesiones

sólo guardo un pañuelo que oscurece en mis manos:

¿para secar las lágrimas que no puedo verter?

¿O para despedirme, desde la Prescripción, de las sombras que dejo?

 

Sin tiempo, me pregunto: ¿qué soy? ¿quién soy? ¿y para qué partí?

¿Y qué sentido tiene haber llegado?

Y qué poco me importa lo que, del lado del desuso, pueda passar ahora,

si nada entiendo.

Dejo de ser mortal. Mas no soy inmortal.

Como si nada hubiera sido.

 

Em: “El otoño de las rosas” (1986)

 

Homem e seu cão caminhando

por uma trilha no campo

(Gareth Naylor: artista inglês)

 

As últimas perguntas

 

No findar da tarde,

quando fazia o caminho, cheguei de repente

 aonde?

 

A noite que caiu, tão repentina e negra, impede-me de ver,

e só sei que ninguém me acompanha.

O que foi esta viagem?

Muito longa deve ter sido, pela fadiga,

ou talvez muito breve, se é que existiu:

não mais recobro a fragrância das rosas.

Entre os meus pertences,

guardo apenas um lenço que escurece em minhas mãos:

para enxugar as lágrimas que não consigo verter?

Ou para me despedir, desde a Prescrição, das sombras que deixo?

 

Sem tempo, pergunto-me: o que sou? quem sou? e para que parti?

E que sentido há em ter aqui chegado?

E pouco me importa o que, do lado do desuso, possa acontecer agora,

se nada compreendo.

Deixo de ser mortal. Mas não sou imortal.

Como se nada houvesse sido.

 

Em: “O outono das rosas” (1986)

 

Referência:

 

BRINES, Francisco. Las últimas preguntas. In: __________. El rumor del tiempo: antología. Introducción y selección de Dionisio Cañas. Madrid, ES: Mondadori España, 1989. p. 156. (“Mondadori Bolsillo”; v. 32)