Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 16 de maio de 2026

Carlos Drummond de Andrade - O lutador

Drummond oferece-nos o seu testemunho pessoal sobre a relação do ser humano com a linguagem e o processo criativo, o empenho para vencer as dificuldades intrínsecas à tarefa de dar forma ao pensamento através de sua arte – a poesia –, essa variedade esquiva de beleza, tão infensa a entregar-se sem resistência à pena do poeta.

 

Mesmo sob dedicação absoluta, embebido num frenesi que o consome dia e noite, o poeta, amiúde, incorre em frustrações por não conseguir expressar plenamente em palavras a sua visão interior, tudo o que lhe povoa a mente. Nada obstante, lida com os embaraços empregando todas as suas forças, com astúcia, humildade, aspirações, até mesmo com raiva, porque se trata de uma paixão irrenunciável, para além do consciente e do voluntário.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

 

O lutador

 

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

apareço e tento

apanhar algumas

para meu sustento

num dia de vida.

Deixam-se enlaçar,

tontas à carícia

e súbito fogem

e não há ameaça

e nem há sevícia

que as traga de novo

ao centro da praça.

 

Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhes-ei escravo

de rara humildade.

Guardarei sigilo

de nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

perpassam levíssimas

e viram-me o rosto.

Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue…

Entretanto, luto.

 

Palavra, palavra

(digo exasperado),

se me desafias,

aceito o combate.

Quisera possuir-te

neste descampado,

sem roteiro de unha

ou marca de dente

nessa pele clara.

Preferes o amor

de uma posse impura

e que venha o gozo

da maior tortura.

 

Luto corpo a corpo,

luto todo o tempo,

sem maior proveito

que o da caça ao vento.

Não encontro vestes,

não seguro formas,

é fluido inimigo

que me dobra os músculos

e ri-se das normas

da boa peleja.

 

Iludo-me às vezes,

pressinto que a entrega

se consumará.

Já vejo palavras

em coro submisso,

esta me ofertando

seu velho calor,

aquela sua glória

feita de mistério,

outra seu desdém,

outra seu ciúme,

e um sapiente amor

me ensina a fruir

de cada palavra

a essência captada,

o sutil queixume.

Mas ai! é o instante

de entreabrir os olhos:

entre beijo e boca,

tudo se evapora.

 

O ciclo do dia

ora se consuma

e o inútil duelo

jamais se resolve.

O teu rosto belo,

ó palavra, esplende

na curva da noite

que toda me envolve.

Tamanha paixão

e nenhum pecúlio.

Cerradas as portas,

a luta prossegue

nas ruas do sono.

 

Em: “José” (1942)

 

Um jovem escritor em sua mesa de trabalho

(Edward Henry Corbould: artista inglês)

 

Referência:

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. O lutador. In: __________. Antologia poética. Organizada pelo autor. Prefácio de Marco Lucchesi. 48. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2001. p. 243-246.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Brasileirão 2026: 15ª Rodada - Projeções do Modelo Esotérico-Matemático (MEM)

Vão aqui as projeções do MEM para o Brasileirão 2026 – Série “A”, depois de realizada a 15ª rodada da competição. Claro está que tais projeções levam em consideração o fato de que, neste momento, 6 (seis) equipes têm um prélio por cumprir para atingir os 15 (quinze) jogos já disputados pela maioria. Para vê-las em maiores detalhes, clique em cima de cada imagem a seguir.

 

Quanto às projeções do MEM – como as de todos os modelos aplicáveis, quer econométricos quer probabilísticos –, não detêm, por ora, um poder de sentença apreciável, haja vista que um pouco mais de 60% da disputa ainda está por se realizar.

 

Seja como for, os números projetados pelo MEM dão conta de uma certa distância vaticinada entre os dois primeiros colocados – Flamengo e Palmeiras, nessa ordem – em relação ao terceiro – o Fluminense – e mais além, vale dizer, algo como 7,5 (sete e meio) pontos – o que não deixa de expressar certa relevância no contexto de uma projeção.

 

No âmbito do Z4, Remo e Chapecoense, duas equipes que subiram à primeira divisão ainda ao final do ano passado, já começam a dar mostras de que não resistirão à queda ao término do presente certame. A conferir.

 

Voltaremos ao final da 19ª rodada (fim do primeiro turno), para novas projeções.

 

Um abraço a todo(a)s.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fontes:

 

Chance de Gol

Infobola

UFMG Matemática


Laurie Sheck - O Inacabado

Diante de um universo que resiste a ser “lido” de uma forma clara e definitiva, tornamo-nos como que personagens de uma história inacabada, tratando de decifrar hieróglifos dubitáveis, enquanto o “escritor” permanece ausente: somos entidades desarrimadas, reféns de contextos reiterados de dor, debatendo-nos com uma linguagem e um mundo cujos símbolos são ambíguos e atemorizantes.

 

A ternura se converte em algo frágil e inexprimível; a percepção imparcial vai ao encontro apenas de questões sem resposta; a tecnologia, ameaçante, vibra à distância; e, fundamentalmente, agarramo-nos a um chão que não compreendemos: neste plano de existência, no qual certezas, emoções, intenções, e mesmo o destino, são verdadeiras incógnitas que resultam de equações irresolvíveis ou dificilmente solucionáveis, seríamos nós sujeitos ativos ou mero joguetes de forças maiores?

 

J.A.R. – H.C.

 

Laurie Sheck

(n. 1953)

 

The Unfinished

 

We were characters in a story

the writer couldn’t bring himself to finish.

When he left us it was late, a child

was crying, newsprint smudged on our fingertips

as if to make of us a mechanism

by which the world would repeat itself, its story:

this happened – did you hear? then that.

So many disparate versions. The terror

risen into words, shrouded there, hanging, so cold.

And the tenderness – how the words barely touched it,

as if to speak it were a further hurt.

It was night when he left us,

and the child who could not yet remember her dreams

woke saying, where are the toys of the moon,

are we the moons toys? Outside, lines

of stiff trees stood like hieroglyphs,

the configuration of the one for dagger

so close to the one that stands for shrub,

so hard to understand the difference;

or the one for fear that also could mean

reverence, the one for medicine so similar

to entreaty and to prayer.

And in the distance the red tremor

of the radio tower, and the planes that passed above us

as we held to the earth and didn’t understand the earth.

 

Árvores fantasiadas de castelo

(Marlene Llanes: artista mexicana)

 

O Inacabado

 

Éramos personagens de uma história

que o escritor não conseguia terminar.

Quando nos deixou, já era tarde, uma criança chorava,

a tinta do jornal a manchar a ponta de nossos dedos,

como se quisesse fazer de nós um mecanismo

para que o mundo redissesse a sua história, repetindo-a:

isto aconteceu – estás a par? – e, logo após, mais aquilo.

Tantas versões díspares. O terror

erigido em palavras, ali envolto, suspenso, tão frio.

E a ternura – como as palavras mal a tocavam,

como se nomeá-la fosse uma dor a mais.

Quando ele partiu, no meio da noite,

a criança, que mal recordava os seus sonhos,

despertou a indagar: “Onde estão os brinquedos da lua,

somos nós os brinquedos da lua?” Lá fora, renques

de árvores rígidas erguiam-se como hieróglifos,

a efígie representativa da adaga

tão aparentada à que representa o arbusto,

a ponto de dificilmente se perceber a diferença;

ou a do medo, que também pode significar

reverência; e mesmo a da medicina,

tão semelhante à da súplica e à da prece.

Ao longe, o tremor vermelho da torre de rádio

e os aviões que passavam por cima de nós,

enquanto nos aferrávamos à Terra e não a compreendíamos.

 

Referência:

 

SHECK, Laurie. The unfinished. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 505.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Omar Khayyám - 16. Se o coração devassasse os mistérios

O que sabemos sobre a nossa própria condição de mortais e, por extensão, sobre os enigmas não decifrados do universo, mantidos incógnitos a sete chaves pelas potestades criadoras? Para além da aniquilação absoluta e irreversível do ser consciente, o que há de existir como verdades últimas, às quais não temos ciência prévia neste plano de efemeridades?

 

É com esse tom cético – e até mesmo niilista – que o poeta persa se debruça sobre o futuro, sem vislumbrar a possibilidade de que venhamos a transcender a morte, pois que, desde logo, incorrem em frustração as nossas reiteradas tentativas de apreender os mistérios essenciais – permanentemente velados –, quanto mais depois que desta vida partirmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Omar Khayyám

(1048-1131)

 

16. Se o coração devassasse os mistérios

 

Se o coração devassasse os mistérios

e conhecesse a origem da vida,

tal qual é, na realidade,

 

ele decifraria também,

após a morte,

o enigma dos deuses.

 

Homem,

das existências do Universo

tu nada sabes,

embora ainda estejas animado

pela força da tua alma.

 

Que poderás tu saber

amanhã,

quando morreres,

e a tua alma morrer contigo?

 

Amanhã,

quando acabares,

e tudo acabar,

para sempre,

para sempre?

 

Marchadores no Tempo

(John Pitre: artista norte-americano)

 

Referência:

 

KHAYYÁM, Omar. 16. Se o coração devassasse os mistérios. Tradução de Christovam de Camargo. In: __________. Rubáiyát. Versão ao português de Christovam de Camargo baseada na interpretação literal do texto persa feita por Ragy Basile. São Paulo, SP: Martin Claret, 2003. p. 38. (Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”; v. 156)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Armindo Trevisan - A Fonte

Trevisan nos oferece um canto à persistência do espírito humano em sua busca por sentido, inclusive quando esse sentido se revela elusivo e a jornada termina no completo olvido de si mesmo: a imagem da fonte que esquece os seus caminhos parece-nos sugerir o retorno a um estado primordial, de aceitação serena da finitude, uma forma derradeira de se “amar a vida” – ao mesmo tempo fugaz e pungente em seu secreto esplendor.

 

O autor nos fala de um amor que exige coragem para persistirmos na procura pela beleza no insignificante e no oculto, para aceitarmos o mistério – e até mesmo o absurdo – com gratidão, ainda que sejamos mil vezes assaltados por angústias excruciantes, de nos sabermos próximos aos umbrais da morte, tendo passado eventualmente pela vida dominados por frívolos interesses.

 

J.A.R. – H.C.

 

Armindo Trevisan

(n. 1933)

 

A Fonte

 

É preciso amar a vida, amar

no lodo o seu fulgor secreto,

 

o fulgor que tem a sua imensa sala

quando o ruído do longínquo sobe

 

até ao coração que se debruça para

o fio de erva que balança a água,

 

ou o bico do flamingo avermelhado

apunhalando um dia de sol a pino.

 

É preciso que a própria mão recuse

a insolência dos prazeres turbulentos,

 

e aceite a misteriosa apalpação

da pedra sobre a qual a lua reclina

 

a cabeça nos bosques excluídos.

Ah! O próprio amor, se quiser restar,

 

é constrangido à viagem para o absurdo,

para o barril das pólvoras suaves

 

onde os corpos são tangidos por dentro

naquelas fibras em que o êxtase carnal

 

não reluz, a não ser ligado à asa

do que não está na mão do homem, hoje.

 

É preciso amar a vida, amá-la,

desejá-la sem tréguas diferente,

 

buscá-la onde ela não existe, ou

apenas começou a dar um salto

 

para a pequena plenitude que, em vão,

tentará enriquecer com os detritos

 

de seu vácuo de origem. Oh, a vida

é uma coisa imensamente restituída,

 

e todo o seu calor, e toda a sua vertigem

de encanto reside no seu mover-se

 

contínuo entre o que ela oferece aos seus

e o que, sabiamente, lhes esconde,

 

justamente por não possuir em si a flecha

que anda na direção do seu alvo,

 

ignorando que este nasceu para não ser

atingido. É preciso amar a vida, até

 

quando nela o coração se sente opresso

e tudo nele são fumos de morte,

 

porque um simples favo de mel, uma posta

de peixe, uma côdea azul de pão,

 

um reflexo miraculoso de vinho novo,

abalam o agonizante que entrevê

 

pela janela a soberba frivolidade

de haver vivido, de haver vivido à toa,

 

o suficiente para uma alma desaparecer

com um misto de vexame e gratidão,

 

e levar a sua inquietude, talvez mansa,

até ao umbral de extinção, quando a face

 

do homem se dobra sobre si mesma, à guisa

de uma fonte que esqueceu todos os caminhos.

 

Em: “A Imploração do Nada” (1971)

 

O Jardim do Éden

Painel à esquerda de “O Jardim das Delícias Terrenas”

(Hieronymus Bosch: pintor holandês)

 

Referência:

 

TREVISAN, Armindo. A fonte. In: __________. Nova antologia poética: 1967-2001. Porto Alegre, RS: Sulina, 2001. p. 26-27.