Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

Cora Coralina - O poeta e a poesia

Coralina vê no poeta um artesão da palavra, alguém que busca a perfeição impossível no jogo das rimas e dos versos, consciente dos seus limites, mesmo que movido por uma clara ambição estética no trato com a língua, de modo a capturar o elemento poético em qualquer circunstância ou meio, fruto do intercepto entre sensibilidade, vida interior e destino.

 

A poetisa orienta-se pela senda da contraintuição, mostrando que é a poesia que condiciona e guia o poeta, e não o contrário. E para melhor entrar em concerto com a Lírica, Coralina sugere ao aspirante a poeta que não se aventure em publicar algo sem ter vivido o suficiente, sem ter lido o suficiente, sem ter alcançado um certo estágio de maturação – padrões consectários de uma impaciência juvenil –, para que tão cedo não vá ao encontro da ruína.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cora Coralina

(1889-1985)

 

O poeta e a poesia

 

Não é o poeta que cria a poesia.

E sim, a poesia que condiciona o poeta.

 

Poeta é a sensibilidade acima do vulgar.

Poeta é o operário, o artífice da palavra.

E com ela compõe a ourivesaria de um verso.

 

Poeta, não somente o que escreve.

É aquele que sente a poesia,

se extasia sensível ao achado

de uma rima, à autenticidade de um verso.

 

Poeta é ser ambicioso, insatisfeito,

procurando no jogo das palavras,

no imprevisto texto, atingir a perfeição inalcançável.

 

O autêntico sabe que jamais

chegará ao prêmio Nobel.

O medíocre se acredita sempre perto dele.

 

Alguns vêm a mim.

Querem a palavra, o incentivo, à apreciação.

Que dizer a um jovem ansioso na sede precoce

de lançar um livro…

Tão pobre ainda a sua bagagem cultural,

tão restrito seu vocabulário,

enxugando lágrimas que não chorou,

dores que não sentiu,

sofrimentos imaginários que não experimentou.

 

Falam exaltados de fome e saudades, tão desgastadas

de tantos já passados.

Primário nos rudimentos de sua escrita

e aquela pressa moça de subir.

Alcançar estatura de poeta, publicar um livro,

 

Oriento para a leitura, reescrever,

processar seus dados concretos.

Não fechar o caminho, não negar possibilidades.

É a linguagem deles, seus sonhos.

A escola não os ajudou, inculpados, eles.

 

Todos nós temos a dupla personalidade.

O id e o ego.

Um representa a sua vida física, material completa

Pode ser brilhante, enriquecida de valores

que ajudam a ser feliz,

pode ser angustiada e vacilante, incerta, insatisfeita.

Mesmo possuindo o que deseja, nada satisfazendo.

O id representa sua vida interior paralela, ambivalente,

exercendo seu comando em descargas nervosas,

no eterno conflito entre a razão e o impulso incontrolado.

Dupla vida inter e extra, personalidade se contrapondo.

Pode ser trivial e dependente, podemos fazê-la rica

e cheia de nobreza,

nos valendo da força incomensurável do pensamento positivo

emanado da vida interior que é o nosso mundo,

invisível a todos, sensível ao nosso ego.

 

Há sempre uma hora maldita na vida de um homem.

Pode levá-lo ao crime e às paredes sombrias de uma cela escura.

Um curto circuito nas suas baterias carregadas,

uma descarga nas linhas de transmissão potencial.

Daí, fatos aberrantes que surpreendem.

 

Conclusões demolidoras de um passado brilhante.

 

O jardim do poeta

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Referência:

 

CORALINA, Cora. O poeta e a poesia. In: __________. Vintém de cobre: meias confissões de Aninha. 6. ed. São Paulo, SP: Global Editora, 1997. p. 191-192.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

Philip Levine - Os Animais Estão Saindo de Nossas Vidas

Este poema dialoga, em boa medida, com a ideia da dignidade dos animais, objeto de análise e propostas nos campos do Direito e da Ética, a defender o reconhecimento do valor intrínseco que eles têm, não como mero recurso à disposição da humanidade, mas como seres sencientes, buscando protegê-los do sofrimento e do tratamento desnecessário.

 

 A voz poética é a de um porco a caminho do mercado, onde será sacrificado, esquartejado e colocado à venda para consumo dos usuários, incapazes de enfrentar o olhar do animal durante o seu abate, algo que, sob a perspectiva consciente do suíno, apenas reflete o propósito dos intervenientes humanos de a tudo tornar invisível, rotineiro e carente de subjetividade.

 

O verso final é um grito silencioso por autonomia, um recordatório de que, mesmo diante da inevitável aniquilação, a dignidade de dizer “não” e de ser “este” indivíduo, e não um clichê, funciona como uma negativa simbólica a questionar a lógica da exploração, um gesto supremo de resistência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Philip Levine

(1928-2015)

 

Animals Are Passing from Our Lives

 

It’s wonderful how I jog

on four honed-down ivory toes

my massive buttocks slipping

like oiled parts with each light step.

 

I’m to market. I can smell

the sour, grooved block, I can smell

the blade that opens the hole

and the pudgy white fingers

 

that shake out the intestines

like a hankie. In my dreams

the snouts drool on the marble,

suffering children, suffering flies,

 

suffering the consumers

who won’t meet their steady eyes

for fear they could see. The boy

who drives me along believes

 

that any moment I’ll fall

on my side and drum my toes

like a typewriter or squeal

and shit like a new housewife

 

discovering television,

or that I’ll turn like a beast

cleverly to hook his teeth

with my teeth. No. Not this pig.

 

In: “Not This Pig” (1968)

 

O criador de porcos

(Margaret Loxton: artista inglesa)

 

Os Animais Estão Saindo de Nossas Vidas

 

É maravilhoso o modo como troto

sobre quatro cascos polidos de marfim,

minhas robustas nádegas a roçarem

como peças lubrificadas a cada leve passo.

 

Estou a caminho do mercado. Sinto o cheiro

da mesa de abate, áspera e sulcada; o ranço

da lâmina que rasga o ventre;

os dedos brancos e roliços

 

que espanejam as entranhas

como um lenço. Em meus sonhos,

os focinhos babam sobre o mármore;

condoem-se as crianças, condoem-se as moscas,

 

condoem-se os consumidores,

que não se atrevem a encará-los

por medo do que possam ver. O rapaz

que me conduz acredita que,

 

a qualquer momento, posso tombar

de lado e tamborilar os cascos

como um datilógrafo, ou guinchar

e defecar como uma nova doméstica

 

que se depara com o televisor,

ou, ainda, que vou virar-me como uma fera

astuta, para cravar meus dentes

nos dele. Não. Não este porco.

 

Em: “Não Este Porco” (1968)

 

Referência:

 

LEVINE, Philip. Animals are passing from our lives. In: __________. New selected poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1991. p. 36.

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terça-feira, 3 de novembro de 2026

Walter de la Mare - Outono

Em meio a uma atmosfera de perda e melancolia, o poeta converte o outono numa metáfora da ausência da pessoa amada e de uma memória que teima em permanecer vívida e dolorosa, tudo para evidenciar como a recordação do amor perdido paira feito um fantasma a acompanhar o sujeito lírico em sua solidão.

 

Imagens do vento frio, chuva e céus cinzentos substituem a vitalidade das rosas e o canto da cotovia, simbolizando o desaparecimento da beleza e da esperança: o emprego reiterado do paralelismo sintático “onde… esteve” enfatiza a ideia de um passado cheio de vida, agora convolado em vazio e silêncio, a permitir que se apreenda o poema como elegia pura, em cujos versos a natureza e a alma vertem as suas pétalas juntas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Walter de la Mare

(1873-1956)

 

Autumn

 

There is a wind where the rose was;

Cold rain where sweet grass was;

And clouds like sheep

Stream o’er the steep

Grey skies where the lark was.

 

Nought gold where your hair was;

Nought warm where your hand was;

But phantom, forlorn,

Beneath the thorn,

Your ghost where your face was.

 

Sad winds where your voice was;

Tears, tears where my heart was;

And ever with me,

Child, ever with me,

Silence where hope was.

 

In: “Poems” (1906)

 

O jardim do Hospital São Paulo:

queda de folhas

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Outono

 

Existe o vento onde uma rosa esteve,

fria chuva onde a relva tenra esteve;

nuvens como carneiros

correm pelo escarpado

cinzento céu onde a calhandra esteve.

 

Nada de ouro onde o teu cabelo esteve,

nem de quente onde a tua mão esteve;

mas, espectral, perdido,

debaixo dos espinhos,

o teu fantasma onde o teu rosto esteve.

 

Triste vento onde tua voz esteve;

lágrimas onde um coração esteve;

e sempre aqui comigo,

amor, sempre comigo,

este silêncio onde a esperança esteve.

 

Em: “Poemas” (1906)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

MARE, Walter de la. Autumn. In: __________. The complete poems of Walter de la Mare. 1st ed. New York, NY: Alfred A. Knopf, 1970. p. 97.

 

Em Português

 

MARE, Walter de la. Outono. Tradução de Abgar Renault. In: RENAULT, Abgar. Poesia: tradução e versão. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1994. p. 99.

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Cassiano Ricardo - Sala de espera

O poeta paulista contrasta dois espaços simbólicos, a saber, a sala de espera – lugar de passividade, burocracia e promessas adiadas –, frente à rua – um espaço vibrante de ação, encontro e transformação –; aquela a representar a esperança domesticada e sempre postergada; esta a encarnar a coletividade, o protesto e a verdadeira experiência republicana.

 

Nesse contexto, Ricardo, ao mesmo tempo que denuncia a mecanização da espera nos espaços de poder ou, em outros termos, a inércia institucional, faz um chamamento à ação cidadã, à expressão viva de uma esperança ativa, aberta e compartilhada, em quaisquer espaços públicos – a rua, em especial –, onde o indivíduo possa cerrar fileiras com os outros para participar de eventos que concorram a um propósito comum do corpo social.

 

J.A.R. – H.C.

 

Cassiano Ricardo

(1895-1974)

 

Sala de espera

 

(Ah, os rostos sentados

numa sala de espera.

Um Diário Oficial sobre a mesa.

Uma jarra com flores.

A xicara de café, que o contínuo

vem, amável, servir aos que esperam

a audiência marcada.

 

Os retratos em cor, na parede,

dos homens ilustres

que exerceram, já em remotas épocas,

o manso ofício

de fazer esperar com esperança.

E uma resposta, que será sempre a mesma:

só amanhã.

E os quase eternos amanhãs daqueles rostos

sempre adiados

e sentados

numa sala de espera.)

 

Mas eu prefiro é a rua.

A rua em seu sentido usual de “lá fora”.

Em seu oceano que é ter bocas e pés

para exigir e para caminhar.

A rua onde todos se reúnem

num só ninguém coletivo.

Rua do homem como deve ser:

transeunte, republicano, universal.

 

Onde cada um de nós é um pouco

mais dos outros

do que de si mesmo.

Rua da procissão, do comício,

do desastre, do enterro.

Rua da reivindicação social, onde mora

o Acontecimento.

 

A rua! uma aula de esperança ao ar livre.

 

Em: “Um dia depois do outro” (1947)

 

Manifestação de bairro

(Renato Guttuso: pintor italiano)

 

Referência:

 

RICARDO, Cassiano. Sala de espera. In: __________. Antologia poética. 1. ed. Rio de Janeiro, GB: Editora do Autor, 1964. p. 52-53.

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