Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 20 de setembro de 2026

Miguel de Unamuno - Credo Poético

“Pensa o sentimento, sente o pensamento”: neste verso preambular, Unamuno sintetiza a sua filosofia poética como um conúbio entre intelecto e emoção, dando a entender que a poesia deve estar arraigada no tangível, de onde há de apreender a beleza para dar forma ao informe, isto é, para esculpir a própria névoa de que se compõe a alma humana.

 

Ao aspirar a tudo quanto é mais elevado, num afã de transcendência e eternidade, o poeta se propõe o maior dos desafios: lançar mão das substâncias mais etéreas de nossas experiências sobre a terra – a dúvida, a fé, a angústia, a esperança – para convolá-las, por meio da linguagem, a uma forma concreta, despojada de adornos desnecessários e propensa à imperecibilidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Miguel de Unamuno

(1864-1936)

 

Credo Poético

 

Piensa el sentimiento, siente el pensamiento;

que tus cantos tengan nidos en la tierra,

y que cuando en vuelo a los cielos suban

tras las nubes no se pierdan.

 

Peso necesitan, en las alas peso,

la columna de humo se disipa entera,

algo que no es música es la poesía,

la pensada sólo queda.

 

Lo pensado es, no lo dudes, lo sentido.

¿Sentimiento puro? Quien ello crea,

de la fuente del sentir nunca ha llegado

a la viva y honda vena.

 

No te cuides en exceso del ropaje,

de escultor y no de sastre es tu tarea,

no te olvides de que nunca más hermosa

que desnuda está la idea.

 

No el que un alma encarna en carne, ten presente,

no el que forma da a la idea es el poeta,

sino que es el que alma encuentra tras la carne,

tras la forma encuentra idea.

 

De las fórmulas la broza es lo que hace

que nos vele la verdad, torpe, la ciencia;

la desnudas con tus manos y tus ojos

gozarán de su belleza.

 

Busca líneas de desnudo, que aunque trates

de envolvernos en lo vago de la niebla,

aun la niebla tiene líneas y se esculpe;

ten, pues, ojo, no las pierdas.

 

Que tus cantos sean cantos esculpidos,

ancla en tierra mientras tanto que se elevan,

el lenguaje es ante todo pensamiento,

y es pensada su belleza.

 

Sujetemos en verdades del espíritu

las entrañas de las formas pasajeras,

que la Idea reine en todo soberana;

esculpamos, pues, la niebla.

 

En: “Poesías” (1907)

 

Manhã nebulosa

(Mary T. Hoffman: pintora norte-americana)

 

Credo Poético

 

Pensa o sentimento, sente o pensamento;

que teus cantos façam ninho sobre a terra,

e quando, em voo, um dia ao céu se ergam

nas nuvens não se percam.

 

Precisam de sentir peso nas asas,

pois a coluna de fumo se dispersa;

algo que não é música é a poesia;

só fica a que se pensa.

 

O pensado, não o duvides, é o sentido.

Sentimento puro? Quem nele creia

da fonte do sentir nunca atingiu

a veia mais secreta.

 

Não cuides em excesso da roupagem,

não de alfaiate, é de escultor tua tarefa,

não te esqueças que nunca mais formosa

que nua está a ideia.

 

Não o que a alma encarna em carne, lembra-te,

não o que forma dá à ideia, é o poeta,

mas o que encontra a alma sob a carne,

sob a forma encontra a ideia.

 

É o detrito das fórmulas que faz

que nos vele a verdade, rude, a ciência;

despe-a com tuas mãos e os teus olhos

terão sua beleza.

 

Busca as linhas de um nu, que embora trates

de envolver-nos no vago de uma névoa,

mesmo a névoa tem linhas e esculpe-se;

abre os olhos, não as percas.

 

Que teus cantos sejam cantos esculpidos,

âncoras na terra enquanto eles se elevam,

a linguagem é sobretudo pensamento,

pensada é sua beleza.

 

Em verdades do espírito prendamos

as entranhas das formas passageiras,

que a Ideia reine em tudo, soberana;

esculpamos, pois, a névoa.

 

Em: “Poesias” (1907)

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

UNAMUNO, Miguel de. Credo poético. In: __________. Obras completas. Vol. VI - Poesía. Introducción, bibliografía y notas de Manuel García Blanco. Madrid, ES: Escelicer, may. 1969. p. 168-169.

 

Em Português

 

UNAMUNO, Miguel de. Credo poético. Tradução de José Bento. In: BENTO, José (Selecção, tradução, prólogo e notas). Antologia da poesia espanhola contemporânea. Lisboa, PT: Assírio e Alvim, dez. 1985. p. 40-41. (Colecção “Documenta Poética”; v. 6)

sábado, 19 de setembro de 2026

Vinicius de Moraes - Soneto de Intimidade

Fezes, urina, diarreia ou outras palavras similares não são tão comuns como matéria de poesia, muito embora apareçam aqui e ali em determinados poemas, a exemplo de algumas composições elaboradas por grandes poetas brasileiros, como Ferreira Gullar e Adélia Prado.

 

Digo isso apenas como introdução a este soneto de Vinicius, o qual, mais do que descrever a vida rústica e bucólica que se leva em uma fazenda, discorre sobre ações mundanas do falante em seu acercamento ao mundo natural, como mastigar grama, beber água de um riacho, interagir com o gado e, impudentemente, urinar numa gozosa comunhão com os animais, colocando em primeiro plano o status da dimensão biológica e instintiva do ser humano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vinicius de Moraes

(1913-1980)

 

Soneto de Intimidade

 

Nas tardes da fazenda há muito azul demais.

Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora

Mastigando um capim, o peito nu de fora

No pijama irreal de há três anos atrás.

 

Desço o rio no vau dos pequenos canais

Para ir beber na fonte a água fria e sonora

E se encontro no mato o rubro de uma amora

Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

 

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume

Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme

E quando por acaso uma mijada ferve

 

Seguida de um olhar não sem malícia e verve

Nós todos, animais, sem comoção nenhuma

Mijamos em comum numa festa de espuma.

 

Regando o Jardim

(Shannon O’Donnell: pintora norte-americana)

 

Referência:

 

MORAES, Vinicius de. Soneto de intimidade. In: __________. Soneto de fidelidade e outros poemas. Seleção de textos por Maura Sardinha. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1996. p. 63. (Coleção “Clássicos de Ouro”)

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Dudley Randall - Uma Imagem Diferente

Em poucas palavras, Randall, poeta afro-americano, consegue transmitir o seu prospecto para uma luta histórica, a saber, a de afirmação da identidade e de libertação cultural da comunidade negra, pois que lhe parece que a liberdade política e social há de ser acompanhada, também, por uma reconstrução interna.

 

A luta vai bem além das pautas de rua ou de salvaguardas jurídicas, devendo alcançar a psique coletiva, mediante o desmantelamento das cadeias mentais da opressão, para, desse modo, poder se forjar, com orgulho e consciência histórica, uma nova identidade baseada na autêntica, serena e clássica beleza de ser negro.

 

Não mais a máscara do estereótipo racista – a do menestrel (vide nota ao final desta postagem) –, mas uma que revele a verdadeira essência, dignidade e poder da herança do povo negro, teluricamente conectada às forças vitais e aos seus ancestrais; não mais a expressão caricatural torpe, consectária às formas coercivas de escravidão na América, mas uma autoimagem restaurada, com lastro na autonomia e na grandeza da vida pré-colonial em África.

 

J.A.R. – H.C.

 

Dudley Randall

(1914-2000)

 

A Different Image

 

The age

requires this task:

create

a different image;

re-animate

the mask.

 

Shatter the icons of slavery and fear.

Replace

the leer

of the minstrel’s burnt-cork face (*)

with a proud, serene

and classic bronze of Benin.

 

Esqueleto a deter as máscaras

(James Ensor: pintor belga)

 

Uma Imagem Diferente

 

A época

exige esta tarefa:

criar

uma imagem diferente;

reanimar

a máscara.

 

Despedaçar os ícones da escravidão e do medo.

Substituir

o riso torpe

do rosto de cortiça queimada do menestrel

por um orgulhoso, sereno

e clássico bronze de Benim.

 

Nota:

 

(*). Trata-se de uma referência direta aos espetáculos de blackface (rostos pintados de negro), uma forma de entretenimento extremamente popular nos séculos XIX e início do XX nos EUA e na Europa.

 

Nesses espetáculos, artistas brancos pintavam seus rostos de negro com cortiça queimada e exageravam os lábios, criando uma caricatura grotesca e desumanizante das pessoas negras, tudo como forma de representar os estereótipos racistas: o negro ignorante, preguiçoso, supersticioso, covarde e musical, sempre pronto para servir e fazer palhaçadas.

 

A palavra “leer” pode ser entendida, por conseguinte, como a expressão facial que acompanhava essa caricatura – o sorriso exagerado e vazio, o olhar arregalado e supostamente “ingênuo” ou “astuto”, em reforço a tais estereótipos; em suma, a personificação visual do racismo internalizado e disseminado pela cultura popular.

 

Referência:

 

RANDALL, Dudley. A different image. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 175.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Hermann Hesse - Pensamentos Vadios

Hesse logra condensar, neste poema em quatro estâncias, a angústia de uma época que se contextualiza em duas grandes guerras, evidenciando-lhes o horror e a sanha desumanizadora, sem perder a fé, contudo, no ato mesmo da criação, pois que se, por um lado, entoa um canto fúnebre pela humanidade que se foi, por outro, lança uma semente de esperança para a que, talvez, um dia poderia ser.

 

Permanecem a vida e a possibilidade de um recomeço na figura de um novo ser humano modelado a partir da argila primordial, mas dessa vez concebido para fazer rir e comprazer o Criador, para lhe dirigir orações, não para externar a sua febre violenta e arrogante, autêntico parêntesis destrutivo na tranquila eternidade do cosmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Hermann Hesse

(1877-1962)

 

Müssige Gedanken

 

Einmal wird dies alles nicht mehr sein,

Nicht mehr diese töricht genialen Kriege,

Diese teuflisch in den Feind gewehten

Gase, diese Betonwüstenein,

Diese Wälder, statt mit Dorn mit Drähten

Dicht bestachelt, diese Todeswiegen,

Drin so viele Tausend schaudernd liegen,

Die mit so viel Geist und Fleiß ersonnenen,

Die mit so viel feigem Witz gesponnenen

Todesnetze über Land, Luft, Meer.

 

Berge werden in die Bläue ragen,

Sterne werden durch die Nächte leuchten,

Zwillinge, Kassiopeia, Wagen,

Ewig, in gelassener Wiederkehr,

Laub und Gras mit seinem morgenfeuchten

Silber wird dem Tag entgegengrünen,

Und im ewigen Wind wird Meerflut schlagen

An den Fels und an die bleichen Dünen.

Doch die Weltgeschichte ist vorüber;

Mit dem Schwall von Blut, von Krampf, von Lüge

Ist die prahlerische als ein trüber

Kehrichtstrom zerronnen, ihre Züge

Sind erloschen, ihre unermessen

Schlingende Gier gestillt, der Mensch vergessen.

 

Und vergessen sind die Kinderspiele,

Deren wir so holde und berückende,

Deren wir so unersättlich viele

Uns erdacht, so fremde und entzückende.

Die Gedichte, die wir uns ersonnen,

Die Gebilde all, die unser Lieben

Rings der willigen Erde eingeschrieben,

Unsre Götter, Heiligtümer, Weihen,

Alphabet und Einmaleins sind nicht mehr.

Unsrer Orgelfugen Himmelswonnen,

Unsre Dome mit den trotzig schlanken

Türmen, unsere Bücher, Malereien,

Sprachen, Märchen, Träume und Gedanken,

Sie sind ausgelöscht. Die Erde hat kein Licht mehr.

 

Und der Schöpfer, der dem Untergange

All des Scheußlichen und all des Schönen

Stille zugeschaut, betrachtet lange

Die befreite Erde. Heiter tönen

Um ihn der Gestirne Reigen, dunkel

Schwebt die kleine Kugel im Gefunkel.

Sinnend greift er etwas Lehm und knetet.

Wieder wird er einen Menschen machen,

Einen kleinen Sohn, der zu ihm betet,

Einen kleinen Sohn, von dessen Lachen,

Dessen Kinderei’n und Siebensachen

Er sich Lust verspricht. Sein Finger waltet

Froh im Lehm. Er freut sich. Er gestaltet.

 

Paisagem com um arco-íris

(Peter Paul Rubens: pintor flamengo)

 

Pensamentos Vadios

 

Um dia tudo isto deixará de existir:

nada mais destas guerras burramente geniais,

destes gases diabólicos lançados sobre

o inimigo, destes ermos de concreto,

destas florestas farpadas de arame

em vez de espinhos, destes berços mortuários

onde aterrados jazem tantos milhares,

destas redes mortíferas tramadas

com tanto engenho e arte, em meio a tão covardes

gracejos, na terra, no mar, no ar.

 

Montanhas hão de elevar-se no azul;

constelações refulgirão na noite

– Gêmeos, Cassiopeia, Ursa Maior –

eternas em sereno gravitar;

relvas e folhas orvalhadas pela noite

voltarão a pintar de verde o dia;

e ao sopro eterno do vento as marés virão

bater nas pedras e nos pálidos barrancos.

Assim tem-se passado a história deste mundo:

com dilúvios de sangue, convulsão e mentira,

tem a arrogância de um montão de lixo,

de traços apagados, saciada

a sua desmedida gulodice

– e o ser humano esquecido.

 

Esqueceram-se os jogos infantis

que com tanta doçura e encantamento

imaginávamos, curiosos e belos;

as poesias que então concebíamos,

e todas as figuras da nossa ternura

gravadas no mundo em torno de nós;

nossos deuses, mistérios e santuários,

tabuadas e alfabetos – não existem mais.

Nossas fugas de órgão, nosso afã de céu,

nossas igrejas de torres esguias

e altaneiras, nossos livros e pinturas,

linguagens, fábulas, sonhos e ideias,

apagaram-se. A terra está sem luz.

 

E o Criador, que ao ocaso

de tudo quanto é mau e quanto é bom

silencioso assiste, longamente

se põe a observar a terra libertada:

alegremente ecoa à sua volta o gravitar dos astros

– escuro paira o pequenino globo,

entre tanto esplendor. Sempre pensando,

Ele toma nas mãos um punhado de barro

e se põe a amassá-lo: vai fazer

mais uma vez um homem – um minúsculo filho

que lhe faça orações, um minúsculo filho

em cujos risos e artes e inocências

Ele espera ainda ter algum prazer.

Alegram-se os Seus dedos, o barro modelando,

e Ele se compraz nisso, enfim: está criando!

 

Referências:

 

Em Alemão

 

HESSE, Hermann. Müssige gedanken. In: __________. Die gedichte. Erste auflage. Frankfurt am Main, DE: Suhrkamp Verlag, 1977. s. 671-672. (“Suhrkamp Taschenbuch”, b. 381)

 

Em Português

 

HESSE, Hermann. Pensamentos vadios. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, jan. 1976. p. 193-194.