Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Brasileirão 2026: 15ª Rodada - Projeções do Modelo Esotérico-Matemático (MEM)

Vão aqui as projeções do MEM para o Brasileirão 2026 – Série “A”, depois de realizada a 15ª rodada da competição. Claro está que tais projeções levam em consideração o fato de que, neste momento, 6 (seis) equipes têm um prélio por cumprir para atingir os 15 (quinze) jogos já disputados pela maioria. Para vê-las em maiores detalhes, clique em cima de cada imagem a seguir.

 

Quanto às projeções do MEM – como as de todos os modelos aplicáveis, quer econométricos quer probabilísticos –, não detêm, por ora, um poder de sentença apreciável, haja vista que um pouco mais de 60% da disputa ainda está por se realizar.

 

Seja como for, os números projetados pelo MEM dão conta de uma certa distância vaticinada entre os dois primeiros colocados – Flamengo e Palmeiras, nessa ordem – em relação ao terceiro – o Fluminense – e mais além, vale dizer, algo como 7,5 (sete e meio) pontos – o que não deixa de expressar certa relevância no contexto de uma projeção.

 

No âmbito do Z4, Remo e Chapecoense, duas equipes que subiram à primeira divisão ainda ao final do ano passado, já começam a dar mostras de que não resistirão à queda ao término do presente certame. A conferir.

 

Voltaremos ao final da 19ª rodada (fim do primeiro turno), para novas projeções.

 

Um abraço a todo(a)s.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fontes:

 

Chance de Gol

Infobola

UFMG Matemática


Laurie Sheck - O Inacabado

Diante de um universo que resiste a ser “lido” de uma forma clara e definitiva, tornamo-nos como que personagens de uma história inacabada, tratando de decifrar hieróglifos dubitáveis, enquanto o “escritor” permanece ausente: somos entidades desarrimadas, reféns de contextos reiterados de dor, debatendo-nos com uma linguagem e um mundo cujos símbolos são ambíguos e atemorizantes.

 

A ternura se converte em algo frágil e inexprimível; a percepção imparcial vai ao encontro apenas de questões sem resposta; a tecnologia, ameaçante, vibra à distância; e, fundamentalmente, agarramo-nos a um chão que não compreendemos: neste plano de existência, no qual certezas, emoções, intenções, e mesmo o destino, são verdadeiras incógnitas que resultam de equações irresolvíveis ou dificilmente solucionáveis, seríamos nós sujeitos ativos ou mero joguetes de forças maiores?

 

J.A.R. – H.C.

 

Laurie Sheck

(n. 1953)

 

The Unfinished

 

We were characters in a story

the writer couldn’t bring himself to finish.

When he left us it was late, a child

was crying, newsprint smudged on our fingertips

as if to make of us a mechanism

by which the world would repeat itself, its story:

this happened – did you hear? then that.

So many disparate versions. The terror

risen into words, shrouded there, hanging, so cold.

And the tenderness – how the words barely touched it,

as if to speak it were a further hurt.

It was night when he left us,

and the child who could not yet remember her dreams

woke saying, where are the toys of the moon,

are we the moons toys? Outside, lines

of stiff trees stood like hieroglyphs,

the configuration of the one for dagger

so close to the one that stands for shrub,

so hard to understand the difference;

or the one for fear that also could mean

reverence, the one for medicine so similar

to entreaty and to prayer.

And in the distance the red tremor

of the radio tower, and the planes that passed above us

as we held to the earth and didn’t understand the earth.

 

Árvores fantasiadas de castelo

(Marlene Llanes: artista mexicana)

 

O Inacabado

 

Éramos personagens de uma história

que o escritor não conseguia terminar.

Quando nos deixou, já era tarde, uma criança chorava,

a tinta do jornal a manchar a ponta de nossos dedos,

como se quisesse fazer de nós um mecanismo

para que o mundo redissesse a sua história, repetindo-a:

isto aconteceu – estás a par? – e, logo após, mais aquilo.

Tantas versões díspares. O terror

erigido em palavras, ali envolto, suspenso, tão frio.

E a ternura – como as palavras mal a tocavam,

como se nomeá-la fosse uma dor a mais.

Quando ele partiu, no meio da noite,

a criança, que mal recordava os seus sonhos,

despertou a indagar: “Onde estão os brinquedos da lua,

somos nós os brinquedos da lua?” Lá fora, renques

de árvores rígidas erguiam-se como hieróglifos,

a efígie representativa da adaga

tão aparentada à que representa o arbusto,

a ponto de dificilmente se perceber a diferença;

ou a do medo, que também pode significar

reverência; e mesmo a da medicina,

tão semelhante à da súplica e à da prece.

Ao longe, o tremor vermelho da torre de rádio

e os aviões que passavam por cima de nós,

enquanto nos aferrávamos à Terra e não a compreendíamos.

 

Referência:

 

SHECK, Laurie. The unfinished. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 505.

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Omar Khayyám - 16. Se o coração devassasse os mistérios

O que sabemos sobre a nossa própria condição de mortais e, por extensão, sobre os enigmas não decifrados do universo, mantidos incógnitos a sete chaves pelas potestades criadoras? Para além da aniquilação absoluta e irreversível do ser consciente, o que há de existir como verdades últimas, às quais não temos ciência prévia neste plano de efemeridades?

 

É com esse tom cético – e até mesmo niilista – que o poeta persa se debruça sobre o futuro, sem vislumbrar a possibilidade de que venhamos a transcender a morte, pois que, desde logo, incorrem em frustração as nossas reiteradas tentativas de apreender os mistérios essenciais – permanentemente velados –, quanto mais depois que desta vida partirmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Omar Khayyám

(1048-1131)

 

16. Se o coração devassasse os mistérios

 

Se o coração devassasse os mistérios

e conhecesse a origem da vida,

tal qual é, na realidade,

 

ele decifraria também,

após a morte,

o enigma dos deuses.

 

Homem,

das existências do Universo

tu nada sabes,

embora ainda estejas animado

pela força da tua alma.

 

Que poderás tu saber

amanhã,

quando morreres,

e a tua alma morrer contigo?

 

Amanhã,

quando acabares,

e tudo acabar,

para sempre,

para sempre?

 

Marchadores no Tempo

(John Pitre: artista norte-americano)

 

Referência:

 

KHAYYÁM, Omar. 16. Se o coração devassasse os mistérios. Tradução de Christovam de Camargo. In: __________. Rubáiyát. Versão ao português de Christovam de Camargo baseada na interpretação literal do texto persa feita por Ragy Basile. São Paulo, SP: Martin Claret, 2003. p. 38. (Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”; v. 156)

quarta-feira, 13 de maio de 2026

Armindo Trevisan - A Fonte

Trevisan nos oferece um canto à persistência do espírito humano em sua busca por sentido, inclusive quando esse sentido se revela elusivo e a jornada termina no completo olvido de si mesmo: a imagem da fonte que esquece os seus caminhos parece-nos sugerir o retorno a um estado primordial, de aceitação serena da finitude, uma forma derradeira de se “amar a vida” – ao mesmo tempo fugaz e pungente em seu secreto esplendor.

 

O autor nos fala de um amor que exige coragem para persistirmos na procura pela beleza no insignificante e no oculto, para aceitarmos o mistério – e até mesmo o absurdo – com gratidão, ainda que sejamos mil vezes assaltados por angústias excruciantes, de nos sabermos próximos aos umbrais da morte, tendo passado eventualmente pela vida dominados por frívolos interesses.

 

J.A.R. – H.C.

 

Armindo Trevisan

(n. 1933)

 

A Fonte

 

É preciso amar a vida, amar

no lodo o seu fulgor secreto,

 

o fulgor que tem a sua imensa sala

quando o ruído do longínquo sobe

 

até ao coração que se debruça para

o fio de erva que balança a água,

 

ou o bico do flamingo avermelhado

apunhalando um dia de sol a pino.

 

É preciso que a própria mão recuse

a insolência dos prazeres turbulentos,

 

e aceite a misteriosa apalpação

da pedra sobre a qual a lua reclina

 

a cabeça nos bosques excluídos.

Ah! O próprio amor, se quiser restar,

 

é constrangido à viagem para o absurdo,

para o barril das pólvoras suaves

 

onde os corpos são tangidos por dentro

naquelas fibras em que o êxtase carnal

 

não reluz, a não ser ligado à asa

do que não está na mão do homem, hoje.

 

É preciso amar a vida, amá-la,

desejá-la sem tréguas diferente,

 

buscá-la onde ela não existe, ou

apenas começou a dar um salto

 

para a pequena plenitude que, em vão,

tentará enriquecer com os detritos

 

de seu vácuo de origem. Oh, a vida

é uma coisa imensamente restituída,

 

e todo o seu calor, e toda a sua vertigem

de encanto reside no seu mover-se

 

contínuo entre o que ela oferece aos seus

e o que, sabiamente, lhes esconde,

 

justamente por não possuir em si a flecha

que anda na direção do seu alvo,

 

ignorando que este nasceu para não ser

atingido. É preciso amar a vida, até

 

quando nela o coração se sente opresso

e tudo nele são fumos de morte,

 

porque um simples favo de mel, uma posta

de peixe, uma côdea azul de pão,

 

um reflexo miraculoso de vinho novo,

abalam o agonizante que entrevê

 

pela janela a soberba frivolidade

de haver vivido, de haver vivido à toa,

 

o suficiente para uma alma desaparecer

com um misto de vexame e gratidão,

 

e levar a sua inquietude, talvez mansa,

até ao umbral de extinção, quando a face

 

do homem se dobra sobre si mesma, à guisa

de uma fonte que esqueceu todos os caminhos.

 

Em: “A Imploração do Nada” (1971)

 

O Jardim do Éden

Painel à esquerda de “O Jardim das Delícias Terrenas”

(Hieronymus Bosch: pintor holandês)

 

Referência:

 

TREVISAN, Armindo. A fonte. In: __________. Nova antologia poética: 1967-2001. Porto Alegre, RS: Sulina, 2001. p. 26-27.

terça-feira, 12 de maio de 2026

Richard Wilbur - A Escritora

Eis aqui mais um poema tendo o processo criativo como tema, no caso, enquanto forma de vida e de entrega à arte de escrever, metaforizada em uma perigosa viagem marítima levada a efeito com uma carga pesada: nos contratempos da filha e nas lucubrações do pai, muito se resume nas tribulações por que passa um estorninho para sair do aposento em que, voluntária ou involuntariamente, se meteu.

 

Chocando-se contra janelas fechadas – símbolo das barreiras entre a ideia e sua expressão ou entre o artista e o mundo –, experimentando insucessos reiterados e estafantes, o escritor-pássaro vivencia um substancial desgaste físico e emocional, embora sempre deva manter a tenacidade e a coragem para reiniciar a jornada.

 

Ao final da viagem, decerto, alcançará o êxito, alçando voo pela justa janela que se abre a um mundo de epifanias, de triunfos e de alívios por haver conseguido vencer essa “questão de vida ou morte”, ou dito de outro modo, a necessidade premente de se expressar, mesmo que a custo de uma refrega, para manter viva a chama do espírito ou de uma visão de mundo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Richard Wilbur

(1921-2017)

 

The Writer

 

In her room at the prow oft he house

Where light breaks, and the windows are tossed with linden,

My daughter is writing a story.

 

I pause in the stairwell, hearing

From her shut door a commotion of typewriter-keys

Like a chain hauled over a gunwale.

 

Young as she is, the stuff

Of her life is a great cargo, and some of it heavy:

I wish her a lucky passage.

 

But now it is she who pauses,

As if to reject my thought and its easy figure.

A stillness greatens, in which

 

The whole house seems to be thinking,

And then she is at it again with a bunched clamor

Of strokes, and again is silent.

 

I remember the dazed starling

Which was trapped in that very room, two years ago;

How we stole in, lifted a sash

 

And retreated, not to affright it;

And how for a helpless hour, through the crack of the door,

We watched the sleek, wild, dark

 

And iridescent creature

Batter against the brilliance, drop like a glove

To the hard floor, or the desk-top.

 

And wait then, humped and bloody,

For the wits to try it again; and how our spirits

Rose when, suddenly sure,

 

It lifted off from a chair-back,

Beating a smooth course for the right window

And clearing the sill of the world.

 

It is always a matter, my darling,

Of life or death, as I had forgotten. I wish

What I wished you before, but harder.

 

Uma garota escrevendo

(Henriette Browne: pintora francesa)

 

A Escritora

 

Em seu quarto, na proa da casa,

Onde irrompe a luz e as tílias agitam-se às janelas,

Minha filha está escrevendo uma história.

 

Detenho-me no vão da escada a ouvir,

Por trás da porta fechada, uma comoção de teclas,

Como grilhões puxados sobre uma amurada.

 

Por mais jovem que seja, o estofo

De sua vida é um grande fardo, em parte, pesado:

Desejo-lhe uma afortunada travessia.

 

Mas agora é ela que se detém, como se para

Rejeitar-me a lucubração e sua alegoria simplória.

Instala-se um silêncio, durante o qual

 

Toda a casa parece mergulhar em pensamentos,

Até que ela deflagra novo clamor concentrado

de golpes, para logo sobrevir novamente o silêncio.

 

Lembro-me do estorninho atordoado

Que ficou preso naquele mesmo quarto, há dois anos;

Como entramos furtivamente, levantamos uma vidraça

 

E recuamos, para não o assustar; e como,

Durante uma desalentada hora, pela fresta da porta,

Observamos a esguia, selvagem, escura

 

E iridescente criatura ir de encontro

Aos feixes de luz, cair como uma luva

No piso duro ou sobre o tampo da escrivaninha,

 

E ali aguardar, arqueada e ensanguentada, pelo retorno

À lucidez para outra tentativa; e como retomamos

O ânimo quando, subitamente segura,

 

Alçou voo do espaldar de uma cadeira,

Numa rota suave em direção à janela correta,

Logrando transpor o parapeito do mundo.

 

Como me havia esquecido, minha querida,

É sempre uma questão de vida ou morte. Desejo-te

o que sempre antes te desejei, com mais força porém.

 

Referência:

 

WILBUR, Richard. The writer. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 209-210.