Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Anne Sexton - O Pássaro da Ambição

Este poema é um mapa da alma atormentada da artista norte-americana, a admitir que o mesmo elemento motor de sua criatividade – “o pássaro da ambição – é o desencadeador de sua tortura e que, talvez, precisa-se dele se desfazer para poder salvar-se, mesmo que isso venha a implicar a renúncia à sua vocação e ao seu empenho em tornar-se imortal.

 

Sob tal contexto, a poetisa divide-se em duas – a mulher que deseja paz e a artista possuída pelas exigências do pássaro em apreço (mais do que aspirações, verdadeiras obsessões que demandam a aniquilação do “eu”): se esta última prevalece, terá ela que pagar o elevado preço da genialidade, tantas vezes contíguo às raias da loucura; se prepondera aquela, há de, porventura, submeter-se aos imperativos de um silêncio criativo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Sexton

(1928-1974)

 

The Ambition Bird

 

So it has come to this –

insomnia at 3:15 a.m.,

the clock tolling its engine

 

like a frog following

a sundial yet having an electric

seizure at the quarter hour.

 

The business of words keeps me awake.

I am drinking cocoa,

that warm brown mama.

 

I would like a simple life

yet all night I am laying

poems away in a long box.

 

It is my immortality box,

my lay-away plan,

my coffin.

 

All night dark wings

flopping in my heart.

Each an ambition bird.

 

The bird wants to be dropped

from a high place like Tallahatchie Bridge.

 

He wants to light a kitchen match

and immolate himself.

 

He wants to fly into the hand of Michelangelo

and come out painted on a ceiling.

 

He wants to pierce the hornet’s nest

and come out with a long godhead.

 

He wants to take bread and wine

and bring forth a man happily floating in the Caribbean.

 

He wants to be pressed out like a key

so he can unlock the Magi.

 

He wants to take leave among strangers

passing out bits of his heart like hors d’oeuvres.

 

He wants to die changing his clothes

and bolt for the sun like a diamond.

 

He wants, I want.

Dear God, wouldn’t it be

good enough to just drink cocoa?

 

I must get a new bird

and a new immortality box.

There is folly enough inside this one.

 

In: “The Book of Folly” (1972)

 

Outra noite de insônia

(Janet Lavida: artista norte-americana)

 

O Pássaro da Ambição

 

Então chegou-se a este ponto –

insônia às 3h 15 da madrugada,

o relógio a repenicar sua engrenagem

 

como uma rã a seguir

um relógio de sol, em convulsão

elétrica a cada quarto de hora.

 

O negócio das palavras mantém-me acordada.

Estou bebendo chocolate,

essa mamã morna e morena.

 

Gostaria de ter uma vida simples,

mas a noite toda dedico-me a arrumar

poemas numa caixa alongada.

 

É a minha caixa da imortalidade,

meu plano de reserva,

meu ataúde.

 

A noite toda, asas escuras

esvoaçam em meu coração.

Cada qual, um pássaro da ambição.

 

O pássaro quer que o lancem

de um lugar elevado, como a Ponte de Tallahatchie.

 

Quer acender um fósforo de cozinha

e imolar-se.

 

Quer voar para a mão de Michelangelo

e aparecer pintado num teto.

 

Quer perfurar o vespeiro

e de lá sair com uma longa deidade.

 

Quer tomar pão e vinho

e fazer surgir um homem a flutuar feliz no Caribe.

 

Quer ser cunhado como uma chave

para assim poder revelar os Magos.

 

Quer despedir-se entre estranhos, distribuindo

pedaços de seu coração como hors d’oeuvres. (*)

 

Quer morrer trocando de roupa

e disparar em direção ao sol como um diamante.

 

Ele quer, eu quero.

Meu Deus, não seria bom o suficiente

apenas beber chocolate quente?

 

Preciso de um novo pássaro

e de uma nova caixa da imortalidade.

Já há loucura suficiente dentro desta.

 

Em: “O Livro da Loucura” (1972)

 

Nota:

 

(*). Termo em francês: canapés, aperitivos.

 

Referência:

 

SEXTON, Anne. The ambition Bird. In: __________. The complete poems: Anne Sexton. With a foreword by Maxine Kumin. 1st ed. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 1981. p. 299-300.

quarta-feira, 19 de agosto de 2026

Sylvia Plath - Decisão

Como se fosse uma tênue luminosidade na neblina, uma força resistiva que, de súbito, assoma da aparente passividade, a “Decisão” do título firma-se na escolha da falante em sobreviver mais um dia, simplesmente recusando-se a ser arrastada pela corrente do desespero e de expectativas alheias.

 

Nota-se nos versos um quadro de languidez, de alienação, de exclusão, de impotência, tão comum em certos casos de depressão, com potencial para levar à paralisia física e criativa, a uma incapacidade para agir que não seja tão apenas por meio de gestos automáticos, sem maiores propósitos no irreversível transcurso dos dias.

 

Nenhuma epifania sobrevém, nenhuma graça – o mundo não oferece consolo nem beleza transcendente, senão uma sequência interminável de desgastes –, suscitando na narradora a decisão de não agir, de não gastar energia em uma batalha em que se sente incapaz de vencer, de não participar desse jogo de aparências e lutas inglórias.

 

Ou de outro modo: quem quer que sejam os seus “doze examinadores vestidos de preto”, formação clássica de um júri – v.g., a sociedade, a crítica literária ou as vozes internalizadas de expectativa e de julgamento –, decide a voz lírica “desencantá-los”, desapontá-los, não cumprir-lhes as exigências, preferindo preservar as suas forças.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sylvia Plath

(1932-1963)

 

Resolve

 

Day of mist: day of tarnish

 

with hands

unseviceable, I wait

for the milk van

 

the one-eared cat

laps its gray paw

 

and the coal fire burns

 

outside, the little hedge leaves are

become quite yellow

a milk-film blurs

the empty bottles on the windowsill

 

no glory descends

 

two water drops poise

on the arched green

stem of my neighbor’s rose bush

 

o bent bow of thorns

 

the cat unsheathes its claws

the world turns

 

today

today I will not

disenchant my twelve black-gowned examiners

or bunch my fist

in the wind’s sneer.

 

In: “Poems” (1956-1963)

 

Mulher no Jardim

(Claude Monet: pintor francês)

 

Decisão

 

Dia nublado: dia cinzento

 

fico

de mãos bobas

esperando o leiteiro

 

o gato de uma orelha

lambe a pata cinza

 

e ardem brasas em chamas

 

lá fora, vão ficando amarelinhas

as folhas da trepadeira

uma fina fita de leite

embaça garrafas vazias na janela

 

nenhuma glória provém

 

duas gotas se equilibram

numa verde envergada

haste da roseira na casa ao lado

 

ó se arca de espinhos

 

o gato afia as garras

o mundo gira

 

hoje

hoje não irei

desiludir meus doze engalanados examinadores

nem cerrarei meu punho

na ironia do vento.

 

Em: “Poemas” (1956-1963)

 

Referência:

 

PLATH, Sylvia. Resolve / Decisão. Tradução de Elson Fróes. In: FRÓES, Elson (Seleção e tradução). Poemas traduzidos. Edição eletrônica, copyright © Elson Fróes, 2003. Em inglês: p. 28; em português: p. 29.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

Augusto Meyer - O poema

Eis mais uma reflexão metalinguística sobre o poder da palavra poética sedimentada no poema, a se erigir como um elemento capaz de vencer a corrosão inevitável do tempo sobre o labirinto de ecos e de reflexos da memória, com o firme propósito de resgatar a essência mais pura de um dado momento, para eternizá-lo num “fruto de aroma misterioso”.

 

É a arte dando sentido à nossa fugaz existência, redimindo-a do olvido pela preservação de nossas lembranças, quer imagéticas quer sensoriais, consolidando-as numa moldura expressiva a albergar o âmago daquilo que se evoca, vale dizer, a verdade cristalizada de um instante que, porventura, vale a pena reter enquanto por aqui estivermos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Augusto Meyer

(1902-1970)

 

O poema

 

Corredor do tempo esquecido

Onde o eco responde ao eco,

Em vez de janelas, reflexo

De espelho a espelho, refletido.

 

Que passos repisando passos

Parados vão? A horas mortas,

Fria, uma presença esvoaça

De leves dedos, que abrem portas.

 

Longo é o caminho. Em qualquer parte

Rei dos Ratos rói os brinquedos.

Dos quatro cantos, lá no quarto

Sombras cochicham os teus segredos.

 

Onde a janela que se abria

Ao pôr do sol? Andando em frente,

Andando, andando, eu tocaria

No fim da terra, o ouro do poente.

 

Iriavam-se os cristais do lustre,

Na sala escura o espelho que arde!

Pulava a cortina, de susto,

Ao primeiro sopro da tarde.

 

Mas tudo agora é tão distante!

O rato rói o fio da história.

Só o arrepio de um instante

Sobe a surdina da memória...

 

Súbito, a hora morta no tempo

Amadurece como um fruto!

No misterioso aroma, o poema

Recolhe a essência de um minuto.

 

Parlenga de taverna

(Claus Meyer: pintor alemão)

 

Referência:

 

MEYER, Augusto. O poema. In: __________. Poesias: 1922-1955. Rio de Janeiro, RJ: Livraria São José Editora, 1957. p. 260-261.

segunda-feira, 17 de agosto de 2026

Wallace Stevens - Esta Solidão das Cataratas

Como que a resgatar, em boa medida, a milenar oposição entre os pontos de vista de Heráclito e Parmênides, filósofos gregos, sobre a natureza da realidade, estes versos de Stevens exploram o humano esforço em aceitar o fluxo constante de todas as coisas e o nosso persistente desejo de permanência, dilema esse para o qual o poeta propõe uma solução estética pela via do congelamento do tempo através da arte, o próprio homem a converter-se numa peça “arcaica” e eterna.

 

A “solidão” final não é de abandono, mas de autossuficiência e paz, alcançada quando alguém se torna um monumento a si mesmo, respirando perpetuamente no tranquilo centro do turbilhão temporal, contudo imune às mudanças, eis que sob o efeito de uma “realização permanente”, um estado de consciência pura, livre das corriqueiras “oscilações” da existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wallace Stevens

(1879-1955)

 

This Solitude of Cataracts

 

He never felt twice the same about the flecked river,

Which kept flowing and never the same way twice, flowing

 

Through many places, as if it stood still in one,

Fixed like a lake on which the wild ducks fluttered,

 

Ruffling its common reflections, thought-like Monadnocks.

There seemed to be an apostrophe that was not spoken.

 

There was so much that was real that was not real at all.

He wanted to feel the same way over and over.

 

He wanted the river to go on flowing the same way,

To keep on flowing. He wanted to walk beside it,

 

Under the buttonwoods, beneath a moon nailed fast.

He wanted his heart to stop beating and his mind to rest

 

In a permanent realization, without any wild ducks

Or mountains that were not mountains, just to know how it would be,

 

Just to know how it would feel, released from destruction,

To be a bronze man breathing under archaic lapis,

 

Without the oscillations of planetary pass-pass,

Breathing his bronzen breath at the azury centre of time.

 

In: “The Auroras of Autumn” (1950)

 

Cataratas do Niágara pelo lado americano

(Louisa Davis Minot: pintora norte-americana)

 

Esta Solidão das Cataratas

 

Ele jamais voltou a sentir o mesmo pelo salpicado rio,

Que seguia fluindo e nunca da mesma maneira, atravessando

 

Muitos lugares, como se estivesse parado num só,

Fixo como um lago sobre o qual esvoaçassem patos selvagens,

 

A ruflarem seus habituais reflexos, como Monadnocks pensantes. (*)

Parecia haver uma apóstrofe que não se pronunciava.

 

Havia tantas coisas reais que não o eram em absoluto.

Queria senti-las da mesma forma repetidas vezes.

 

Queria que o rio seguisse a fluir do mesmo modo,

Que continuasse a correr. Queria caminhar junto a ele,

 

Sob os plátanos, debaixo de uma lua firmemente cravada no céu.

Queria que seu coração parasse de bater, que sua mente descansasse

 

Numa compreensão permanente, sem quaisquer patos selvagens

Ou montanhas que não fosse montanhas, apenas para saber como seria,

 

Apenas para saber como se sentiria, liberto da destruição,

Ser um homem de bronze respirando sob um arcaico lápis-lazúli,

 

Sem as oscilações do vai-vem planetário,

A respirar o seu brônzeo alento no centro azulado do tempo.

 

Em: “As Autoras do Outono” (1950)

 

Nota:

 

(*). Um “monadnoch” (também conhecido como “inselberg”) é uma formação geológica isolada, geralmente uma colina rochosa ou montanha, que se destaca de uma paisagem circundante mais baixa e plana, chamada peneplano; tais estruturas resistem à erosão porque são compostas de rochas mais duras e resistentes, como granito ou quartzito, enquanto as rochas mais brandas à sua volta desgastam-se mais rapidamente; o termo deriva do Monte Monadnock, em New Hampshire, EUA.

 

Referência:

 

STEVENS, Wallace. This solitude of cataracts. In: __________. The collected poems of Wallace Stevens. 11th print. New York, NY: Alfred A. Knopf, feb. 1971. p. 424-425.