Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Luiza Neto Jorge - O Poema

O poema é um ato de extrema resistência contra a imobilidade e o “deserto”, um “traço de alarme” lançado a partir de um misto de vulnerabilidade e de risco de quem se “cose” com agulhas de sangue para o enunciar: compelido por esse urgente compromisso, diante das ameaças do vazio e da esterilidade, o poeta empreende um combate vital, um autossacrifício encarniçado que se realiza num terreno sobremodo instável.

 

Correndo perigos por todos os lados, o poema, dessarte, lança mão de saídas radicais: decompor-se na insignificância, consumir-se no fogo de sua própria intensidade, fragmentar-se ou empreender uma viagem quase impraticável em direção ao sublime – o que denota, em suma, o potencial que tem para orientar-se a duas sendas antitéticas, vale dizer, ou bem autodestruir-se ou bem aprimorar-se.

 

J.A.R. – H.C.

 

Luiza Neto Jorge

(1939-1989)

 

O Poema

 

I

 

Esclarecendo que o poema

é um duelo agudíssimo

quero eu dizer um dedo

agudíssimo claro

apontado ao coração do homem

 

falo

com uma agulha de sangue

a coser-me todo o corpo

à garganta

 

e a esta terra imóvel

onde já a minha sombra

é um traço de alarme

 

II

 

Piso do poema

chão de areia

 

Digo na maneira

mais crua e mais

intensa

 

de medir o poema

pela medida inteira

 

o poema em milímetro

de madeira

 

ou apodrece o poema

ou se ateia

 

ou se despedaça

a mão ateia

 

ou cinco seis astros

se percorre

 

antes que o deserto

mate a fome

 

Em: “Terra Imóvel” (!964)

 

(Imagem sem créditos)

 

Referência:

 

JORGE, Luiza Neto. O poema. In: __________. Poemas de Luiza Neto Jorge. Antologia por Fernando Cabral Martins. 1. ed. Lisboa, PT: Editorial Presença, dez. 1997. p. 9-10.

terça-feira, 14 de julho de 2026

Amy Lowell - O Jardim ao Luar

Tudo são imagens neste poema de Lowell, imerso numa atmosfera sensorial entre onírica e mágica, cujo cenário se passa num jardim pincelado com cores, aromas e luzes que refletem a quietude do lugar, somente quebrada por movimentos mínimos provocados pelas andanças de um gato: o agito de um galho e o revolver da água em razão da queda de uma folha.

 

Na parte final do poema, contudo, há uma inflexão que aponta para o reiterado tema da fugacidade da vida, em contraste com a permanência do amor e da memória: a pergunta assente nos derradeiros versos esclarece o desejo silencioso da falante, qual seja, o de que possam eles perdurar tanto quanto os lírios alaranjados que impassíveis observam a sucessão das gerações.

 

J.A.R. – H.C.

 

Amy Lowell

(1874-1925)

 

The Garden by Moonlight

 

A black cat among roses,

Phlox, lilac-misted under a first-quarter moon,

The sweet smells of heliotrope and night-scented stock.

The garden is very still,

It is dazed with moonlight,

Contented with perfume,

Dreaming the opium dreams of its folded poppies.

Firefly lights open and vanish

High as the tip buds of the golden glow

Low as the sweet alyssum flowers at my feet.

Moon-shimmer on leaves and trellises,

Moon-spikes shafting through the snow ball bush.

Only the little faces of the ladies’ delight are alert and staring,

Only the cat, padding between the roses,

Shakes a branch and breaks the chequered pattern

As water is broken by the falling of a leaf.

Then you come,

And you are quiet like the garden,

And white like the alyssum flowers,

And beautiful as the silent sparks of the fireflies.

Ah, Beloved, do you see those orange lilies?

They knew my mother,

But who belonging to me will they know

When I am gone.

 

Gato ao luar junto ao portão do jardim

(Cathy Peterson: artista norte-americana)

 

O Jardim ao Luar

 

Um gato negro entre as rosas,

Phlox, envolto numa bruma lilás sob a lua crescente,

Os doces aromas do heliotrópio e do goivo noturno.

O jardim jaz em plena quietude,

Embriagado pela luz da lua,

Radiante com os perfumes,

A sonhar os sonhos do ópio de suas oclusas papoulas.

As luzes dos pirilampos acendem-se e esvaem-se,

Altas quanto o cimo dos botões da equinácea dourada,

Baixas ao nível das doces flores do alisso a meus pés.

O brilho da lua sobre folhagens e caramanchões,

Os raios da lua a atravessarem o viburno.

Só as corolinhas dos amores-perfeitos que espreitam alertas,

Só o gato, que se esgueira entre as rosas a agitar um galho,

Rompendo a trama regular e quadriculada das sombras,

Como o revolver da água pela queda de uma folha.

Então chegas tu,

Tão serena quanto o jardim,

Tão alva quanto as flores do alisso,

E bela como os lampejos silenciosos dos pirilampos.

Ah, Querida, vês aqueles lírios alaranjados?

Conheceram a minha mãe,

Mas a quem dos meus haverão de conhecer,

quando eu aqui já não estiver?

 

Referência:

 

LOWELL, Amy. The garden by moonlight. In: YAKICH, Mark (Ed.). The poetry reader: an anthology. 1st publ. New York, NY: Bloomsbury Publishing Inc., 2025. p. 70.

segunda-feira, 13 de julho de 2026

Ralph Waldo Emerson - A Beleza

Emerson nos apresenta um manifesto poético, com todo aquele matiz transcendentalista, a proclamar a superioridade absoluta da busca espiritual e estética sobre os valores materiais e mundanos, chegando a postulá-la como um ideal pelo qual valeria a pena morrer.

 

À procura da centelha divina – “graça” – no fluxo constante do universo, é certo que nos depararemos com a beleza – essa manifestação visível e audível do espírito criador na natureza e no cosmos –, tão dinâmica e efêmera que requer um esforço ativo e uma percepção agudizada para que possa ser oportunamente haurida.

 

Preso a ambições egoístas e a cobiças materiais, o homem, segundo o autor norte-americano, teria na beleza – essa linguagem universal subjacente ao ritmo e à harmonia de todas as coisas – uma força ética e redentora, um clarão desassombrado que vai de encontro à escuridão do sofrimento e da maldade, servindo-nos de guia para tornar a vida uma experiência sublime.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ralph Waldo Emerson

(1803-1882)

 

Beauty

 

Was never form and never face

So sweet to Seyd as only grace

Which did not slumber like a stone,

But hovered gleaming and was gone.

Beauty chased he everywhere,

In flame, in storm, in clouds of air.

He smote the lake to feed his eye

With the beryl beam of the broken wave;

He flung in pebbles well to hear

The moment's music which they gave.

Oft pealed for him a lofty tone

From nodding pole and belting zone.

He heard a voice none else could hear

From centred and from errant sphere.

The quaking earth did quake in rhyme,

Seas ebbed and flowed in epic chime.

In dens of passion, and pits of woe,

He saw strong Eros struggling through,

To sun the dark and solve the curse,

And beam to the bounds of the universe.

While thus to love he gave his days

In loyal worship, scorning praise,

How spread their lures for him in vain

Thieving Ambition and paltering Gain!

He thought it happier to be dead,

To die for Beauty, than live for bread.

 

Hardkoolbome - Bosveld (1)

(Jacobus Hendrik Pierneef: pintor sul-africano)

 

A Beleza

 

Nem a forma, nem o olhar, nem o maior atrativo

Parecia suave a Seyd, como o é sempre (2)

Aquela graça vivaz, e não fria ou pétrea,

Que paira na cintila e se esvaece na luz.

Sem cessar ele perseguia o Belo, em todas as coisas,

Nas chamas, na tormenta ou nas róseas nuvens.

Golpeava o lago para sentir os olhos ofuscados

Pelos lampejos esmeraldas que coroavam as ondas,

Atirava-lhe seixos para acompanhar, um segundo,

Sua cadência límpida ao mergulhar nas águas.

Do polo ou, muita vez de longínquos horizontes,

De uma pura harmonia ouvia ele os sons,

E da estrela fixa ou das esferas errantes,

Lhe chegavam os ruídos, vozes que só para si vibravam.

Tremia o mundo em convulsões, e os mares.

Alteando-se e borbulhando, formavam-lhe concertos.

Nos antros do mal, na paixão, nas ruínas,

Descobria Eros, e suas divinas lutas

Para ensolarar a sombra e purificar o mundo,

E, vencedor, resplandecer até os confins do mundo.

E, assim, entregando ao amor a vida,

Era leal, e desdenhava louvores e astúcias,

Enquanto o Lucro furtivo, a Ambição que rouba,

Lhe repetiam debalde suas promessas enganosas!

Melhor fora, pensava com seu altivo espírito,

Que viver pelo pão, morrer pela Beleza.

 

Notas:

 

(1). Hardkoolbome - Bosveld: árvores de madeira resistente em região de savanas no norte da África do Sul.

 

(2). Seyd: presente em vários textos de Emerson, o figurante – talvez uma figura arquetípica associada aos preceitos da mística persa – sempre surge como um símbolo para aquele tipo-ideal de buscador da beleza, quer esteja ela presente na natureza, quer no homem.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

EMERSON, Ralph Waldo. Beauty. In: __________. The complete works of Ralph Waldo Emerson. With a biographical introduction and notes by Edward Waldo Emerson and a general index illustrated with photogravures. Vol. IX: Poems. Boston, MA; New York, NY: Houghton, Mifflin and Company (The Riverside Press, Cambridge), 1904. p. 275-276.

 

Em Português

 

EMERSON, Ralph Waldo. A beleza. Tradução de C. M. Fonseca. In: __________. A conduta para a vida. Tradução de C. M. Fonseca. São Paulo, SP: Martin Claret, 2003. p. 173. (Coleção “A Obra-Prima de Cada Autor”; v. 120)

domingo, 12 de julho de 2026

Eugenio Montale - Ao amanhecer

Empregando certa ironia num tom coloquial, o Nobel italiano expressa a sua visão desencantada sobre a vaidade da pretensão de imortalidade por parte de poetas e escritores, contrastando-a com a certeza instintiva da vida presente e a indiferença absoluta do mundo, nestas linhas representadas pela simplicidade existencial de um papa-figos – espécie de ave migratória, a servir de metáfora para a transitoriedade de todas as coisas –, e pelo ceticismo e dúvidas sistemáticas do filósofo – cujas luzes intelectivas não lhe dão, de modo algum, a segurança acerca das aludidas aspirações de glória perdurável.

 

Sob tal linha de raciocínio antiantropocêntrica, o título atribuído pelo poeta ao poema (“All’alba” / “Ao amanhecer”) ganha contornos mais desembaraçados: ou bem se refere a uma revelação fria e desapiedada sobre a condição humana e a sua insignificância na escala cósmica, ou bem sugere que a consciência dessa indiferença universal equivale a um despertar sobre a verdadeira realidade em que todos estamos imersos, por mais molesta que seja.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eugenio Montale

(1896-1981)

 

All’alba

 

Lo scrittore suppone (e del poeta

non si parli nemmeno)

che morto lui le sue opere

lo rendano immortale.

L’ipotesi non è peregrina,

ve la do per quel che vale.

Nulla di simile penso nel beccafico

che consuma il suo breakfast giù nell’orto.

Egli è certo di vivere; il filosofo

che vive a pianterreno

ha invece più di un dubbio. Il mondo può

fare a meno di tutto, anche di sé.

 

In: “Altri versi” (1981)

 

Um papa-figos se alimentando

(Imagem sem créditos)

 

Ao amanhecer

 

O escritor supõe (e do poeta

nem sequer falemos)

que depois de morto suas obras

o tornem imortal.

A hipótese não é peregrina,

dou-a a vós pelo que vale.

Nada de similar penso acerca do papa-figos

a degustar o seu breakfast ali no pomar. (*)

Ele está certo de viver; o filósofo

que vive no rés do chão,

ao contrário, tem mais de uma dúvida. O mundo pode

prescindir de tudo, até de si mesmo.

 

Em: “Outros versos” (1981)

 

Nota:

 

(*). Breakfeast: palavra em inglês que significa “café da manhã”, “pequeno almoço” ou “desjejum”.

 

Referência:

 

MONTALE, Eugenio. All’alba. In: __________. Tutte le poesie. A cura di Giorgio Zampa. I ed. Milano, IT: Arnoldo Mondadori Editore, ott.1990. p. 688. (“Grandi Classici Oscar Mondadori”)