Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Eduardo Anguita - Transição para o fim

Vivemos uma experiência de trânsito contínuo até o fim a que todo ser humano está exposto – a morte –, e é desse caminhar até os seus umbrais que nos fala o poeta chileno, quando se vão, paulatinamente, instalando rigidezes e desgastes físicos em nosso corpo, fazendo-nos entrar em decadência, notoriamente seguido pelos efeitos de um quadro de menor mobilidade, típico da velhice.

 

E nem só do físico consiste o nosso declínio: experiências intensas ou traumáticas, ainda que invisíveis, pesam como cinzas em nossas vidas. Afinal, podemos estar fisicamente presentes no mundo, mas agarrados aos nossos próprios temores e recordações, ao mesmo tempo que expostos à herança coletiva de dor e de provações – quer dos que nos compõem o entorno, quer, mais amplamente, da própria humanidade –, e todas essas linhas de força induzem cansaço e letargia progressivos sobre o espírito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Anguita

(1914-1992)

 

Tránsito al fin

 

La puerta puede abrirse,

puede entrar el ladrido del perro,

sin que necesitemos saber nada.

 

Mientras no entre el viento en nosotros,

cuando tenemos los ojos viajando entre los muebles

de la diversidad de los miedos de cada muerto,

podemos reír en la espuma de lo obscuro.

 

La seguridad del que abre su vestido privado,

dejando mostrar las huellas blancas de los delirios,

con un poco de fuerza se logra concentrar la ceniza invisible,

la sombra, mi muerte particular.

 

Piedras en los cabellos, ya sólido su silencio,

pasos de las manos solas en el cuerpo.

Es así como amamos el aire de la estatua,

el aire que nos empuja a la vejez.

 

El hombre camina a uma habitación semejante,

y se coloca el traje que le conduce para siempre.

 

O portal da confiança

(Boris Kos: artista esloveno)

 

Transição para o fim

 

A porta pode se abrir,

pode entrar o uivo do cão,

sem que precisemos saber de nada.

 

Enquanto o vento não nos penetrar,

impondo aos olhos uma viagem entre os móveis

da diversidade dos medos de cada morto,

podemos fruir o riso em meio à espuma da escuridão.

 

A segurança daquele que expõe as suas vestes íntimas,

deixando à mostra as brancas marcas dos delírios;

com pouco esforço, logra-se concentrar a cinza invisível,

a sombra, a minha morte particular.

 

Pedras nos cabelos, seu silêncio já sólido,

passos das mãos solitárias no corpo.

É assim que amamos o ar da estátua,

o ar que nos empurra para a velhice.

 

O homem se encaminha a um aposento semelhante

e se veste com o traje que o conduz para sempre.

 

Referência:

 

ANGUITA, Eduardo. Tránsito al fin. In: FITTS, Dudley (Ed.). Antología de la poesía americana contemporánea / Anthology of contemporary latin-american poetry. A trilingual compilation: Spanish & Portuguese x English. New York, NY: A New Directions Book; London, EN: The Falcon Press, 1947. p. 554.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Innokenti Annenski - Poesia

O poeta russo aborda a essência mesma da poesia como uma força misteriosa, ambígua e possante, com capacidade para fundir o divino com o humano, o tangível com o intangível, o belo com o inquietante, o harmonioso com o dissonante, convertendo-se num meio para se alcançar beleza e verdade neste mundo em constantes transformações.

 

A poesia não oferece fácil apreensão, tampouco respostas definitivas, sobretudo porque, ao perseguir algo que não é estático ou previsível – como a beleza –, parece sempre estar em movimento, incorporada a um ato criativo em cujo espaço se desenvolvem conflitos ou lutas internas entre os contingentes laivos de inspiração e as circunstâncias caóticas da existência humana.

 

Os poemas vindos à lume, por conseguinte, proporcionam sínteses válidas para cada situação, contexto ou momento, sínteses essas passíveis de superação por outras tantas que, em sequência, se desatam como ondas pelo vasto e incessante mar da poesia.

 

J.A.R. – H.C.

 

Innokenti Annenski

(1855-1909)

 

Поэзия

 

Сонет

 

Творящий дух и жизни случай

В тебе мучительно слиты,

И меж намеков красоты

Нет утонченней и летучей...

 

В пустыне мира зыбко-жгучей,

Где мир мираж, влюбилась ты

В неразрешенность разнозвучий

И в беспокойные цветы.

 

Неощутима и незрима,

Ты нас томишь, боготворима,

В просветы бледные сквозя,

 

Так неотвязно, неотдумно,

Что, полюбив тебя, нельзя

Не полюбить тебя безумно.

 

Alegoria da Poesia

(Michele Desubleo: pintor flamengo)

 

Poesia

 

Soneto

 

O espírito criador e o acaso da vida

Em ti dolorosamente amalgamados,

E em meio a indícios de beleza

Nada mais refinado e inconstante…

 

No vazio do mundo incerto e ardente,

O mundo é – uma miragem, te apaixonaste

Por sons dissonantes

E flores inquietas.

 

Intangível e recôndita,

Tu nos atormentas, nos reverencias,

Através de pálidas frestas,

 

Tão impulsiva e absurda,

Que, ao te amarmos, é impossível

Não te amar loucamente.

 

Referência:

 

ANNENSKI, Innokenti. Поэзия / Poesia. Tradução de Verônica Filíppovna. (n.t.) Revista Literária em Tradução. Florianópolis, SC. Edição bilíngue semestral, ano 14, n. 28, vol. ilustrado, jun. 2024. Em russo: p. 79; em português: p. 90. Disponível neste endereço. Acesso em: 10 fev. 2026.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

José Lezama Lima - A mulher e a casa

Este poema de Lezama possui um título homônimo a este outro, de João Cabral de Melo Neto, contudo, com mirada diferente sobre a conexão em apreço: enquanto o autor pernambucano propõe uma visão mais arquitetônica e funcional da sedução feminina, comparando-a ao interior de uma casa que atrai não pela aparência externa, mas pela organização interna e pelos espaços vazios que convidam à exploração, o poeta cubano apresenta a mulher como uma força ordenadora que transforma o cotidiano doméstico em ritual sagrado, elevando as tarefas simples da casa a um plano quase mítico de transcendência.

 

Lezama celebra a mulher como centro vital e estabilizador do lar, cujo riso ressoa como resistência ao caos e cuja presença outorga sentido e leveza a tudo ao seu redor, mesmo nos momentos mais difíceis ou sombrios: pela mediação dos veneráveis atos dessa mulher-sacerdotisa, o quotidiano se converte, no universo doméstico, num ritual sagrado orientado a cuidados e propósitos bem definidos.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Lezama Lima

(1910-1976)

 

La mujer y la casa

 

Hervías la leche

y seguías las aromosas costumbres del café.

Recorrías la casa

con una medida sin desperdicios.

Cada minucia un sacramento,

como una ofrenda al peso de la noche.

Todas tus horas están justificadas

al pasar del comedor a la sala,

donde están los retratos

que gustan de tus comentarios.

Fijas la ley de todos los días

y el ave dominical se entreabre

con los colores del fuego

y las espumas del puchero.

Cuando se rompe un vaso,

es tu risa la que tintinea.

El centro de la casa

vuela como el punto en la línea.

En tus pesadillas,

llueve interminablemente

sobre la colección de matas

enanas y el flamboyán subterráneo.

Si te atolondraras

el firmamento roto

en lanzas de mármol,

se echaría sobre nosotros.

 

Febrero y 1976

 

A leiteira

(Johannes Vermeer: pintor holandês)

 

A mulher e a casa

 

Fervias o leite

e seguias os distintivos aromas do café.

Percorrias a casa

com uma medida sem desperdícios.

Cada minúcia um sacramento,

como uma oferenda ao peso da noite.

Todas as tuas horas se justificam

Quando passas da copa à sala de estar,

onde estão os retratos

que apreciam os teus comentários.

Fixas a lei de todos os dias

e a ave dominical se entreabre

com as cores do fogo

e as espumas do guisado.

Quando um copo se parte,

o que tilinta é o teu riso.

O centro da casa

voa como um ponto na linha.

Em teus pesadelos,

chove interminavelmente

sobre a coleção de arbustos

anões e o flamboyant subterrâneo.

Se ficasses atordoada,

o firmamento, partido

em lanças de mármore,

se lançaria sobre nós.

 

Fevereiro de 1976

 

Referência:

 

LIMA, José Lezama. La mujer y la casa. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. Selección y prólogo de Francisco Serrano. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 89. (Coedición “Latinoamericana”)

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Emily Dickinson - Moro na possibilidade

Nesta homenagem pessoal à arte da poesia, Dickinson, empregando metáforas arquitetônicas e naturais, fala-nos desse espaço infinito de “possibilidades”, de fluidas fronteiras, onde cada palavra pode ser uma janela voltada para novos mundos, e cada verso, um teto sob o qual alentamos os nossos mais profundos sonhos.

 

Veja-se que a poetisa estabelece um contraste entre o tangível – a prosa – e o ilimitado – a poesia, elevando o ato de redigir poemas a um nível de quase sacralidade: nessa morada de múltiplas oportunidades imaginativas, pode-se abraçar o ambíguo, o sensorial e, até mesmo o metafísico, ou mais extensivamente, toda uma panóplia de ideias capazes de nos levar – o poeta e a sua audiência – a haurir o que há de mais sublime no “Paraíso”.

 

A.R. – H.C.

 

Emily Dickinson

(1830-1886)

 

I dwell in Possibility

 

I dwell in Possibility –

A fairer House than Prose –

More numerous of Windows –

Superior – for Doors –

 

Of Chambers as the Cedars –

Impregnable of eye –

And for an everlasting Roof

The Gambrels of the Sky –

 

Of Visitors – the fairest –

For Occupation – This –

The spreading wide my narrow Hands

To gather Paradise –

 

Casa com janelas vermelhas

(Shelly Du: pintora australiana)

 

Moro na possibilidade

 

Moro na possibilidade,

Casa mais bela que a prosa,

Com muito mais janelas

E bem melhor, pelas portas

 

De aposentos inacessíveis,

Como são, para o olhar, os cedros,

E tendo por forro perene

Os telhados do céu.

 

Visitantes, só os melhores;

Por ocupação, só isto:

Abrir amplamente minhas mãos estreitas

Para agarrar o paraíso.

 

Referência:

 

DICKINSON, Emily. I dwell in possibility / Moro na possibilidade. Tradução de Ivo Bender. In: __________. Poemas escolhidos. Seleção, tradução e introdução de Ivo Bender. Porto Alegre, RS: L&PM, 2011. Em inglês: p. 44 e 46; em português: 45 e 47. (Coleção “L&PM Pocket”; v. 436)