Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 29 de abril de 2026

Shauna Darling Robertson - Dançando com a Vida

A poetisa inglesa oferece-nos uma expressiva e poética receita para a autoaceitação radical, permitindo-nos aumentar a capacidade de encontrar alegria e agito na vida, inclusive em nossos momentos menos “arcos do triunfo”: diante dos golpes do destino, não fiques paralisado; convida-os a dançar. E quando dançares até com os teus piores demônios, faze-o com a elegância dos passos de uma valsa!

 

Afinal, é inevitável que nos deparemos com reveses, fracassos e imperfeições ao longo dos anos, a par com o que há de mais negativo, frustrante e doloroso na experiência humana, levando-nos, por decorrência, a mal-estares e a temores que se enraízam no mais profundo d’alma.

 

Por isso a sugestão da autora para que enfrentemos galhardamente os contratempos suscitados pela consectária insegurança, convertendo esse limão numa limonada, com o que se há de irrigar a fonte de nossa dignidade, bem assim o horto de nossas belezas interiores.

 

J.A.R. – H.C.

 

Shauna Darling Robertson

(n. 1968)

 

Dancing with Life

 

I beckoned to the floor

missed buses and lost races.

We body-popped till sore.

 

I held out my hand

to every failed exam.

We lindy-hopped. We can-canned.

 

I slipped my arm around the waist

of chicken, loser, nerd.

We skip-jived at a pace.

 

I chose the longest, dullest week

and pressed it to my chest

as we cha-cha’d cheek to cheek.

 

I tipped and doffed my hat

to a hundred horrid haircuts.

We mambo’d, tango’d, tapped.

 

Feeling bold, I turned to face

my darkest, rawest faults.

I took them in my arms, we bowed

and broke into a waltz.

 

A Dança

(Henri Matisse: pintor francês)

 

Dançando com a Vida

 

Atraí para a pista

ônibus perdidos e corridas malogradas.

Dançamos body-pop até a exaustão. (1)

 

Estendi minha mão

a todas as provas falidas.

Rodopiamos no lindy-hop, esbanjamo-nos no cancã. (2)

 

Passei o braço pela cintura

da medrosa, da fracassada, da desajustada.

Saracoteamos num jive enérgico e acelerado. (3)

 

Escolhi a semana mais longa e tediosa

e, apertando-a ao peito,

executamos um chá-chá-chá de faces coladas.

 

Curvei-me e tirei o chapéu

a cem medonhos cortes de cabelo.

Giramos ao som de mambo, tango e sapateado.

 

Num ímpeto de audácia, virei-me para encarar

minhas falhas mais sombrias e cruéis.

Tomei-as nos braços, demo-nos vênias

e folgamos ao ritmo de uma valsa.

 

Notas:

 

(1). Body-pop: trata-se de um estilo de dança (“popping”) caracterizado por movimentos rápidos e bruscos criados pela contração e liberação repentinas dos músculos, seguidos de “batidas” ou “estalos” em diferentes partes do corpo ao ritmo da música.

 

(2). Lindy-hop: dança de casal, de natureza improvisada, dançada ao som de swing, jazz ou blues.

 

(3). Jive: dança cuja marcha – saltitante, alegre e vibrante –, com foco na elevação de joelhos, flexão e balanço de quadris, evolui em passos triplos e agitos básicos de vai e vem, ao som de músicas animadas, como swing ou jazz.

 

Referência:

 

ROBERTSON, Shauna Darling. Dancing with life. In: ESIRI, Allie (Ed.). A poem for every day of the year. Illustrated by Zanna Goldhawk. 1st publ. London, EN: Macmillan Children’s Books, 2017. p. 177.

terça-feira, 28 de abril de 2026

Aurobindo Akroyd Ghosh - O Chamamento de Prata

Bastante característico da visão evolutiva e suprarracional do iogue e poeta indiano, o poema abaixo explora a tensão fundamental entre a realidade material percebida pelos sentidos – assente na insuficiência da “escória acumulada” pela humanidade em séculos de existência –, e uma outra realidade divina, transcendente e ainda no porvir.

 

O poeta preconiza a renúncia aos apegos e aos valores puramente terrenais, para que se possa galgar o nível de mente vocacionada ao conhecimento “daquelas harmonias ainda não imaginadas”, e daí seguir em progressão espiritual conjunta com os pares. Nesse plano, não se trata, por óbvio, de predicar-se uma forma de escapar ao mundo, mas sim de transformá-lo radicalmente – e à própria consciência humana.

 

Ter-se-ia, então, um futuro onde a Terra passaria deste lugar de dificuldades, sofrimentos e aparente fealdade, a um outro de sublime beleza, estremado por fenômenos muito mais portentosos do que o do lodo que dá vida à rosa, a revelarem os milagres da divindade plenamente realizada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Aurobindo Akroyd Ghosh

(1872-1950)

 

The Silver Call

 

There is a godhead of unrealised things

To which Time’s splendid gains are hoarded dross;

A cry seems near, a rustle of silver wings

Calling to heavenly joy by earthly loss.

 

All eye has seen and all the ear has heard

Is a pale illusion by some greater voice

And mightier vision; no sweet sound or word,

No passion of hues that make the heart rejoice

 

Can equal those diviner ecstasies.

A Mind beyond our mind has sole the ken

Of those yet unimagined harmonies,

The fate and privilege of unborn men.

 

As rain-thrashed mire the marvel of the rose,

Earth waits that distant marvel to disclose.

 

From: “Sonnets” (1930-1950)

 

O alvorecer da iluminação

(John Pitre: pintor norte-americano)

 

O Chamamento de Prata

 

Divinas coisas há não realizadas

Em sublimes ganhos de tempo acumulado;

Um grito parece próximo, um bater de asas prateado

Chamando alegrias celestes pela terra arruinadas.

 

Todos os olhos viram e todo o ouvido escutou

É uma pálida ilusão por alguma voz elevada

Nenhum som ou doce palavra e visão tão empossada,

Nem paixão de cores no coração se alegrou.

 

Podem estes divinos êxtases igualar.

Uma Mente além da nossa com o único saber

Dessas harmonias ainda por ver,

O destino e privilégio dos que estão por se formar.

 

Enquanto a chuva se esbate na esplêndida rosa,

A terra espera aquela longínqua maravilha para revelar.

 

Em: “Sonetos” (1930-1950)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

AUROBINDO, Sri. The silver call. In: __________. Collected poems. 1. ed., 1st impr. Pondicherry, IN: Sri Aurobindo Ashram Press, 1994. p. 135.

 

Em Português

 

GHOSH, Aurobindo Akroyd. O chamamento de prata. Tradução de José Carlos Calazans. In: BUESCU, Helena Carvalhão; VALENTE, Simão (Coords.). Literatura-mundo comparada: perspectivas em português. Parte III - Pelo Tejo vai-se pelo mundo (vol. 6). 1. ed. Lisboa, PT: Edições tinta-da-china, mai. 2020. p. 78.

segunda-feira, 27 de abril de 2026

Clara Baccarin - Missão

Sem depreciar o ato de redigir poemas, a voz lírica nos dá conta de que o verdadeiro desafio a ser assumido no quotidiano, como autêntica obra de arte, é a própria vida, usufruindo-a com assombro, consciência corpóreo-espiritual e radical autenticidade, numa espécie de deserção às inúmeras máscaras sociais que costumamos assumir, mediante o enfrentamento honesto de nossas próprias feridas e vulnerabilidades.

 

Baccarin nos exorta a resistirmos ativamente à tentação de passarmos pela vida de um modo automático, superficial ou inautêntico, propondo-nos, em vez disso, a adoção de uma “revolução permanente”, explico-me melhor, a reinvenção diária, com o objetivo de sacudirmos o marasmo das rotinas e dos caminhos trilhados mecanicamente e, dessa maneira, fixarmos nossa existência no cânone das supremas obras poéticas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Clara Baccarin

(n. 1982)

 

Missão

 

É fácil escrever um poema

difícil é

– pelas décadas que se agregam

pelos vícios que me pegam

pelos sonhos que se quebram

– não deixar morrer

o olhar de encantamento

 

É fácil escrever um poema

difícil é fazer do corpo templo

capturar na veia e no verso

os ritmos do silêncio

 

É fácil escrever um poema

talvez leve alguns minutos apenas

talvez surja num sonho

numa alvorada do peito

numa madrugada embriagada

 

Difícil é deixar a fenda aberta

despir as máscaras

desconstruir os passos

reinventar a existência

cotidianamente

 

É fácil sentar e escrever um poema

difícil é resistir

e fazer da vida

poesia

 

A poesia da vida

(Anastasia Mily: artista australiana)

 

Referência:

 

BACCARIN, Clara. Missão. In: JARDIM, Rubens (Pesquisa, seleção e organização). As mulheres poetas na literatura brasileira: antologia poética. v. 3. São Paulo, SP: Edição do autor, 2018. p. 102.

domingo, 26 de abril de 2026

Khalil Gibran - Sobre o Casamento

O ensaísta libanês aborda a questão do matrimônio a partir do respeito à individualidade de cada um dos cônjuges, ao nos apresentar um ponto de vista que não se alinha à ideia tradicional de fusão absoluta no amor, propondo, em vez disso, um equilíbrio entre a conexão e a liberdade, uma união que se cogita estável e duradoura, porém não asfixiante.

 

Fala-nos Gibran de um amor que se propõe maduro, no qual a intimidade não anula a identidade, a alegria compartilhada não vai de encontro à independência – sem espaço, portanto, para a possessividade. Com efeito, o verdadeiro companheirismo somente floresce quando há liberdade para crescer, confiança no vínculo e aceitação de que o amor, como o mar, é uma força dinâmica precisamente porque não se deixa domesticar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Khalil Gibran

(1883-1931)

 

Sobre o Casamento

 

Então, Almitra [uma vidente] tornou a falar e perguntou: “E quanto ao Casamento, mestre?” E ele [Almustafa] assim respondeu:


Vocês nasceram juntos, e juntos haverão de ficar para sempre.

Estarão juntos quando as brancas asas da morte lhes dispersarem os dias.

Sim, juntos ficarão mesmo na silenciosa memória de Deus.

Mas deixem que existam espaços no fato de estarem juntos.

E permitam que os ventos dos céus dancem entre vocês.

Amem um ao outro, mas sem fazer do amor uma obrigação:

Deixem-no que seja, em vez disso, um mar em movimento entre as praias de suas almas.

Encham a taça um do outro, mas bebam apenas de uma.

Deem seu pão um ao outro, no entanto não comam da mesma forma.

Cantem, dancem juntos e se mantenham alegres, mas deixem que cada um de vocês seja independente.

Assim como são independentes as cordas de um alaúde, embora vibrem com a mesma música.

Deem o coração um ao outro, mas não a guarda um do outro.

Apenas a mão da Vida pode conter-lhes o coração.

Fiquem juntos, mas não próximos demais:

Pois os pilares do templo elevam-se distantes entre si,

E o carvalho e o cipreste não crescem à sombra um do outro.

 

O Caramanchão da Madressilva

(Peter Paul Rubens: pintor flamengo)

 

Referência:

 

GIBRAN, Khalil. Sobre o casamento. Tradução de Alda Porto. In: __________. O profeta. Tradução de Alda Porto. São Paulo, SP: Martin Claret, 2013. p. 23-24. (Coleção “A obra-prima de cada autor”; v. 165)

sábado, 25 de abril de 2026

Gonçalo M. Tavares - O Escritor

O poeta convida o leitor a questionar o que define a figura do escritor, se o seu ofício ou o resultado de um desencanto vital – a saber, a partida de sua mulher – que lhe tira a motivação de cuidar da aparência, até mesmo porque a atenção aos requisitos das expectativas sociais, digo melhor, às exigências de aprovação externa, torna-se agora de somenos importância ante a resignação e a transformação que se processa por meio da relação do escritor com a solidão.

 

Com efeito, a moda e as convenções pré-estabelecidas não mais se impõem como parâmetros a serem prestigiados por quem, destarte, se dedica a ser autêntico em seu modo de ser e, por extensão, na índole com que vazada a sua escrita – eficaz salvatério para levá-lo à redenção pelas vias da ousadia, da originalidade e da criatividade, predispondo-o a reinventar sua própria existência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gonçalo M. Tavares

(n. 1970)

 

O Escritor

 

É um escritor ou então a mulher partiu com outro,

e o corpo não recuperou a vontade

de se preocupar com a roupa.

Espontâneo, vê-se; tudo o que traz vestido

apareceu-lhe à frente como numa colisão.

No entanto é discreto.

Tem a idade em que já não se desejam os olhares

dos outros.

Branco, o cabelo transmite paz e

uma pequena desistência.

Tem cachimbo, óculos,

na mesa revistas francesas sobre a alma

e os laboratórios que a estudam;

pega numa folha e começa a escrever.

Tem ar sóbrio, o corpo não dança,

vê-se que há muito venceu o medo de não ser

igual aos outros.

Escreve; passa a mão sobre a orelha.

É um escritor, em definitivo.

A luta não é com a solidão, vê-se que sabe usá-la,

percebe a sua natureza.

 

O escritor

(Rex M. Oppenheimer: artista norte-americano)

 

Referência:

 

TAVARES, Gonçalo M. O escritor. In: __________. 1: poemas. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2005. p. 18.