Heine, nesta
abordagem concreta e artesanal da criação literária, rejeita a ideia de que o
poema surja do nada, afirmando que, à semelhança da criação divina, o poeta
necessita de matéria prévia para dar forma à sua visão, transformando-a num
artefato autoconsciente, bem mais além de sua origem bruta.
Trata-se, como se vê,
de uma paródia dessacralizadora do relato bíblico, a equiparar o poeta com
qualquer outro criador, com Deus inclusive – em sua versão judaico-cristã –, a
quem nega a capacidade de criar “ex nihilo”: a seu ver, o que dá origem à
espécie humana – e, por analogia, ao poema – não seria o pó sagrado a partir do
qual o Criador moldou Adão, mas a matéria-prima mais mundana, até ignóbil – dir-se-ia
vulgar, anti-idealista e corpórea –, logo convertida, pelo ofício e pela
técnica, em uma obra de arte grávida de valor, sentido e beleza.
J.A.R. – H.C.
Heinrich Heine
(1797-1856)
Retratado por Moritz
Daniel Oppenheim
Der Stoff, das
Material des Gedichts
Der Stoff, das
Material des Gedichts,
Das saugt sich nicht
aus dem Finger;
Kein Gott erschafft
die Welt aus nichts,
Sowenig wie irdische
Singer.
Aus vorgefundenem
Urweltsdreck
Erschuf ich die
Männerleiber,
Und aus dem
Männerrippenspeck
Erschuf ich die
schönen Weiber.
Den Himmel erschuf
ich aus der Erd’
Und Engel aus
Weiberentfaltung;
Der Stoff gewinnt
erst seinen Wert
Durch künstlerische
Gestaltung.
(1844)
Ilusão espacial da
matéria
(Sergio Arcos:
artista colombiano)
O conteúdo que um
poema encarna
O conteúdo que um
poema encarna
Jamais surgiu num
estalar de dedos;
Se demiurgos não
criam do nada,
Ah, muito menos os
mortais aedos.
Do preexistente lixo
primordial
Foi que eu formei o
corpo masculino;
Dele eu tirei o osso
com o qual
Moldei o da mulher
ainda mais lindo.
O céu saiu do entulho
aqui da Terra,
Os anjos desdobrei da
mulherada;
Somente pelo esforço
do “poeta” –
É que a matéria é
valorizada.
(1844)
Referência:
HEINE, Heinrich. Der
stoff, das material des gedichts / O conteúdo que um poema encarna. Tradução de
André Vallias. In: __________. Heine, hein? – poeta dos contrários.
Introdução e traduções de André Vallias. São Paulo, SP: Perspectiva; Goethe
Institut, 2011. Em alemão: p. 260, em português: p. 261. (Coleção “Signos”; v.
53)
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