Preliminarmente, uma
observação: na tradução que empreendeu ao português deste poema de Guillén,
Drummond, não se lhe conhecem exatamente as razões, intitulou-o assim como aqui
está – a saber, “Sons” –, em vez de “Minha pátria é doce por fora”, vale dizer,
o primeiro verso da composição, à maneira como se apresenta no Tomo I de sua Obra
Poética completa, publicada pelo Editorial de Arte y Literatura, de Havana (CU),
cujo inteiro teor, ademais, exibe também ligeiras diferenças, especificamente na
escrita da última estrofe, em relação ao texto traduzido pelo poeta itabirano.
Muito mais que um painel
sobre, v.g., a geografia descritiva de Cuba, o poema formula um diagnóstico
atroz de uma nação ferida pela desigualdade, pela exploração interna e externa,
bem assim pelo legado do colonialismo: trata-se de uma denúncia sócio-política,
com o propósito de desmistificar a imagem turística e edulcorada da ilha, para
desvelar-lhe as dores e o muito sangue já vertido em suas terras.
Em meio a essa
voragem adversativa – melhor seria dizer protestativa –, os versos pulsam num
ritmo de canto coletivo ou de lamento ritual, em cujos recessos se veicula uma
mensagem de resistência e, sobretudo, de esperança com espeque na unidade solidária
e na consciência de todo o povo cubano, transcendendo as suas consabidas
barreiras raciais – “china, preta, branca ou rubra”.
J.A.R. – H.C.
Nicolás Guillén
(1902-1989)
Mi patria es dulce
por fuera
Mi patria es dulce
por fuera,
y muy amarga por
dentro;
mi patria es dulce
por fuera,
con su verde
primavera,
con su verde
primavera,
y un sol de hiel en
el centro.
¡Qué cielo de azul
callado
mira impasible tu
duelo!
¡Qué cielo de azul
callado,
ay, Cuba, el que Dios
te ha dado,
ay, Cuba, el que Dios
te ha dado,
con ser tan azul tu
cielo!
Un pájaro de madera
me trajo en su pico
el canto;
un pájaro de madera.
¡Ay, Cuba, si te
dijera,
yo que te conozco
tanto,
ay, Cuba, si te
dijera,
que es de sangre tu
palmera,
que es de sangre tu
palmera,
y que tu mar es de
llanto!
Bajo tu risa ligera,
yo, que te conozco
tanto,
miro la sangre y el
llanto,
bajo tu risa ligera.
Sangre y llanto
bajo tu risa ligera;
sangre y llanto
bajo tu risa ligera.
Sangre y llanto.
El hombre de tierra
adentro
está en un hoyo
metido,
muerto sin haber
nacido,
el hombre de tierra
adentro.
Y el hombre de la
ciudad,
ay, Cuba, es un
pordiosero:
Anda hambriento y sin
dinero,
pidiendo por caridad,
aunque se ponga
sombrero
y baile en la
sociedad.
(Lo digo en mi son
entero,
porque es la pura verdad.)
Hoy yanqui, ayer
española,
sí, señor,
la tierra que nos
tocó
siempre el pobre la
encontró
si hoy yanqui, ayer
española,
¡cómo no!
¡Qué sola la tierra
sola,
la tierra que nos
tocó!
La mano que no se
afloja
hay que estrecharla
en seguida;
la mano que no se
afloja,
china, negra, blanca
o roja,
china, negra, blanca
o roja,
con nuestra mano
tendida.
Un marino americano,
bien,
en el restaurant del
puerto,
bien,
un marino americano
me quiso dar con la
mano,
me quiso dar con la
mano,
pero allí se quedó
muerto,
bien,
pero allí se quedó
muerto,
bien,
pero allí se quedó
muerto.
Manhã no Malecón
(Havana, Cuba)
(Anthony Holdsworth: artista
inglês)
Sons
A pátria é doce por
fora
e muito amarga por
dentro;
a pátria é doce por
fora
com a verde
primavera,
com a verde primavera,
e o sol de fel que há
no centro.
Que céu de azul tão
calado
mira impassível teu
luto!
Que céu de azul tão
calado,
ai Cuba, que Deus te
deu,
ai Cuba, que Deus te
deu,
com ser tão azul teu
céu!
Um pássaro de madeira
me traz no bico seu
canto:
um pássaro de
madeira...
Ai Cuba, se eu te
dissesse
eu que te conheço
tanto,
ai Cuba, se eu te
dissesse
que é de sangue tua
palmeira,
que é de sangue tua
palmeira,
e que teu mar é de
pranto!
Sob teu riso ligeiro,
eu que te conheço
tanto,
vejo-te o sangue e o
pranto.
Sob teu riso ligeiro.
Sangue e pranto,
sob teu sangue
ligeiro;
sangue e pranto
sob teu riso ligeiro.
Sangue e pranto...
O homem do interior
está num fosso
metido,
morto sem haver
nascido,
o homem do interior.
Já o homem da cidade,
ai Cuba, está
mendigando:
vive com fome e sem
prata,
rogando por caridade,
embora ponha chapéu
e dance na sociedade.
(Digo-o com todas as
letras
porque é pura
verdade.)
Ora ianque, ora
espanhola,
sim senhor,
a terra que nos tocou
o pobre sempre a encontrou
ora ianque, ora
espanhola,
como não...
Que só, a terra tão
só,
a terra que nos
tocou!
A mão que não
amolece,
há que apertá-la
depressa,
a mão que não
amolece,
china, preta, branca
ou rubra,
china, preta, branca
ou rubra,
com esta mão estendida.
Marinheiro americano,
bom,
no restaurante do
porto,
bom,
marinheiro americano
queria meter-me o
braço,
queria meter-me o
braço,
mas lá ficou
esticado,
bom,
mas lá ficou esticado,
bom,
mas lá ficou
esticado.
Referência:
GUILLÉN, Nicolás. Mi pátria es dulce por fuera / Sons. Tradução de Carlos Drummond de Andrade. In: ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia traduzida. Organização e notas de Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães. Introdução de Júlio Castañon Guimarães. São Paulo, SP: Cosac Naify, 2011. Em espanhol: p. 172, 174 e 176; em português: p. 173, 175 e 177. (Coleção “Ás de colete”; v. 20)
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