Nesta melancólica canção, a poetisa carioca dá-nos conta de sua experiência de desencanto relacionada, decerto, aos muitos sonhos a que teve que renunciar, mediante um processo consciente e doloroso de deixá-los naufragar em meio às águas do mar da vida, restando subentendido no discurso certo esgotamento emocional para nutrir e sustentar algum sentido diante de um presumível vazio existencial.
A bem dizer, o poema
permite múltiplos níveis de leitura: por um lado, pode-se interpretá-lo como
uma exploração pessoal de algum desengano afetivo ou profissional; por outro,
como uma reflexão mais ampla sobre a fragilidade dos desejos humanos, seus
ideais e aspirações, frente ao inevitável sobrevir de algum nível de frustração
por tudo quanto se deixou à margem ao longo do fluxo inexorável dos dias.
J.A.R. – H.C.
Cecília Meireles
(1901-1964)
Canção
Pus o meu sonho num
navio
e o navio em cima do
mar;
– depois, abri o mar
com as mãos,
para o meu sonho
naufragar.
Minhas mãos ainda estão
molhadas
do azul das ondas
entreabertas,
e a cor que escorre
dos meus dedos
colore as areias
desertas.
O vento vem vindo de
longe,
a noite se curva de
frio;
debaixo da água vai
morrendo
meu sonho, dentro de
um navio...
Chorarei quanto for
preciso,
para fazer com que o
mar cresça,
e o meu navio chegue
ao fundo
e o meu sonho
desapareça.
Depois, tudo estará
perfeito:
praia lisa, águas
ordenadas,
meus olhos secos como
pedras
e as minhas duas mãos
quebradas.
Em: “Viagem” (1939)
O barco de papel
(Kerry Darlington:
artista galesa)
Referência:
MEIRELES, Cecília.
Canção. In: __________. Antologia poética. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2001. p. 19.
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