Como o próprio Ferlinghetti
o esclarece na obra em referência (ENGLE & LANGLAND, 1982, p. 172), este poema
transmuta uma simples viagem de ônibus, através da paisagem outonal do vale do
Hudson, em uma jornada existencial, a espelhar certa angústia metafísica do
sujeito lírico diante da consciência de mortalidade que lhe assoma ao espírito,
como parte do ciclo natural e implacável que este observa ao longo do trajeto, precipuamente,
folhas caídas a arderem sob o fogo com uma terrível beleza.
Perceba-se que tal
mote – a do amarelecimento das folhas das árvores e a sequente queda que as
deixa em estado de latência durante as estações mais frias do ano – também deu matéria
para outro importante construto poético, nomeadamente a “Ode to the West Wind”
(“Ode ao Vento Oeste”), do poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822), de
onde, aliás, Ferlinghetti replica um de seus versos – ‘pestilence-stricken
multitudes’ (“multidões atingidas pela pestilência”) –, para elevar, a toda
evidência, o drama das sobreditas folhas em chamas a uma categoria trágica e
coletiva: cada folha, cada momento, cada instante da juventude, é único e
irrepetível, e, uma vez exauridas as suas promessas, desvanece-se para sempre.
J.A.R. – H.C.
Lawrence Ferlinghetti
(1919-2021)
New York – Albany (*)
God i had forgotten
how
the Hudson burns
in indian autumn
Saugerties
Coxsackie
fall away through
all those trees
The leaves die
turning
falling fallen
falling into loam of
dark
yellow into death
Disappearing
falling fallen
falling
god god those
‘pestilence-stricken
multitudes’
rushed into the
streets
blown all blasted
They are hurting them
with wood rakes
They are raking them
in great hills
They are burning them
lord lord
the leaves curl
burning
the curled smoke
gives up
to eternity
Never
never the same leaf
turn again
the same leaves burn
lord lord
in a red field
a white stallion
stands
and pees his oblivion
upon those leaves
washing my bus window
only now blacked out
by a covered bridge
we flash through
only once
No roundtrip ticket
Lord lord never
returning
the youth years
fallen
away back then
Under the Linden
trees in Boston Common
Lord Lord
Trees think
through these woods
of years
They flame forever
with those thoughts
Lord Lord
i did not see
eternity
the other night
but now in burning
turning day
Lord Lord Lord
every bush burns
Love licks
all down
All gone
in the red end
Lord Lord Lord Lord
Small nuts fall
Mine too
In: “Starting from
San Francisco” (1961)
Linha do Horizonte de
Albany em Nova York
(Bri Buckley: artista
irlandês)
Nova York – Albany
Deus tinha-me
esquecido de como
o Hudson arde
no outono indígena
Saugerties
Coxsackie
desaparecem por entre
todas aquelas árvores
As folhas fenecem revirando-se
caindo emurchecidas
tombando no húmus escuro
e amarelo cingidas à
morte
Desaparecendo
caindo emurchecidas tombando
deus deus aquelas
“multidões atingidas
pela pestilência”
precipitaram-se às
ruas
todas insufladas num
arraso
Estão a magoá-las
com ancinhos de
madeira
Estão a ajuntá-las
em grandes montes
Estão a queimá-las
senhor senhor
ao arderem as folhas
encrespam-se
a fumaça em espirais
rende-se
à eternidade
Nunca
nunca a mesma folha
volta a revirar-se
as mesmas folhas
queimam
senhor senhor
num campo vermelho
um garanhão branco se
ergue
e urina a sua
desmemória
sobre aquelas folhas
lavando a vidraça do
meu ônibus
agora subitamente
obscurecida
por uma ponte coberta
que fulgurantes
atravessamos
uma única vez
Sem passagem de ida e
volta
Senhor senhor sem
nunca regressarmos
aos anos da juventude
então perdidos
num passado deveras distante
Sob as Tílias do Boston
Common
Senhor Senhor
As árvores pensam
através desses
bosques de sucessivos anos
Ardem elas para
sempre
com tais pensamentos
Senhor Senhor
não vi a eternidade
na noite passada
mas agora em chamas
no dia a
transformar-se
Senhor Senhor Senhor
todos os arbustos
ardem
As lambidelas do amor
a tudo consomem
Tudo se precipita
no vermelho final
Senhor Senhor Senhor
Senhor
Pequenas nozes caem
As minhas também
Em: “Partindo de São
Francisco” (1961)
Nota:
(*). O título do
poema diz respeito à cidade de Albany, no Estado de Nova York (EUA); reporta-se
ele, ademais, a outras duas cidades no mesmo Estado, a saber, Saugerties e Coxsackie.
Referência:
FERLINGHETTI,
Lawrence. New York – Albany. In: ENGLE, Paul; LANGLAND, Joseph (Eds.). Poet’s
choice. With an introduction by Paul Engle. Reprinting. Alexandria, VA: Time-Life
Books, 1982. p. 170-172.
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