Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 23 de agosto de 2026

Amy Clampitt - O Sol sob os Pés entre as Dróseras

À maneira de uma lição de como devemos enxergar o mundo, a poetisa norte-americana propõe-nos que devamos partir em busca do divino em situações nas quais se vislumbrem o “sol sob os pés” nos mais ínfimos, mais frágeis e até mais mortíferos detalhes da natureza.

 

O olhar minucioso com atenção reverencial, quando confrontado com a complexidade e a beleza do mundo, convola o perigo em êxtase e transforma uma simples armadilha biológica em umbral para o alcance do mais puro deslumbramento: a luz no fundo daquilo que se mira torna-se tão intensa que inverte as leis da física perceptiva – “só de contemplá-la, começas a cair para cima”.

 

Diante do assombro, a mente procura uma explicação: Clampitt declina as duas grandes narrativas sobre a origem da vida com delicada ironia – ou bem a ideia de um criador divino, simples e direta, ou bem a hipótese da Seleção Natural, um processo cego e aleatório, o exato oposto de um ato consciente de criação.

 

Seja como for, perante a beleza avassaladora do mundo, a distinção supra quase perde o seu significado: o próprio fato da existência é o verdadeiro milagre!

 

J.A.R. – H.C.

 

Amy Clampitt

(1920-1994)

 

The Sun Underfoot among the Sundews

 

An ingenuity too astonishing

to be quite fortuitous is

this bog full of sundews, sphagnum-

lined and shaped like a teacup.

   A step

down and you’re into it; a

wilderness swallows you up:

ankle-, then knee-, then midriff-

to-shoulder-deep in wetfooted

understory, an overhead

spruce-tamarack horizon hinting

you’ll never get out of here.

But the sun

among the sundews, down there,

is so bright, an underfoot

webwork of carnivorous rubies,

a star-warm thick as the gnats

they’re set to catch, delectable

double-faced cockleburs, each

hair-tip a sticky mirror

afire with sunlight, a million

of them and again a million,

each mirror a trap set to

unhand unbelieving,

 that either

a First Cause said once, ‘Let there

be sundews,’ and there were, or they’ve

made their way here unaided

other than by that backhand, roundabout

refusal to assume responsibility

known as Natural Selection.

 But the sun

underfoot is so dazzling

down there among the sundews,

there is so much light

in the cup that, looking,

you start to fall upward.

 

Drósera

(Gabriele Esau: pintora alemã)

 

O Sol sob os Pés entre as Dróseras

 

Uma engenhosidade por demais espantosa

para ser mero acaso: é

este pântano repleto de dróseras, recoberto

de esfagnos e com formato de chávena de chá.

    Um passo

para baixo e nele penetras; um

brejo logo te traga:

pelos tornozelos, depois pelos joelhos e, sem delonga,

pelo tronco até os ombros, nas entranhas

da vegetação rasteira e úmida que medra num horizonte

de elegantes lariços acima da tua cabeça,

a insinuarem que daqui jamais escaparás.

     Mas o sol

entre as dróseras, lá embaixo,

é tão brilhante, uma rede

de rubis carnívoros sob os pés,

um calor estelar tão denso quanto os mosquitos

que tencionam capturar, adoráveis

carrapichos de dupla face, cada

ponta de pelo um espelho pegajoso

em chamas com a luz do sol, um milhão

deles e outro milhão, e cada espelho

uma armadilha preparada

para deixar sem amarras os incrédulos:

     ou bem

uma Causa Primeira outrora ordenou “Que haja

dróseras” – e aqui estão elas –, ou bem elas cá

chegaram por si mesmas, sem mais ajuda

do que aquele jeito oblíquo e tortuoso

de se esquivar à responsabilidade,

a que se denomina Seleção Natural.

    Mas o sol

sob os pés é tão deslumbrante

lá embaixo entre as dróseras,

há tanta luz na chávena que, só de admirá-la,

começas a cair para cima.

 

Referência:

 

CLAMPITT, Amy. The sun underfoot among the sundews. In: ASTLEY, Neil (Selection, introduction and notes). Staying alive: real poems for unreal times. 1st publ., 6th impr. Tarset (Northumberland, EN): Bloodaxe Books, 2004. p. 420.

sábado, 22 de agosto de 2026

Erik Axel Karlfeldt - O sonho e a vida

Karlfeldt formula um contraste entre as aspirações heroicas e grandiosas do ser humano, numa vida com propósito – íntegra e denodada –, e a realidade mais modesta que lhe toca viver, estruturando o poema em três estrofes bem demarcadas, numa viagem que vai desde a ambição desmedida e o desejo de glória até a resignação, e, daí, à aceitação de seu verdadeiro destino – o de ser poeta.

 

O autor sueco admite que a sua glória não seja a do guerreiro, mas a do cantor que há de dar voz ao vale, à sombra de seu povoado natal, acompanhado por lembranças que gorjeiam como rouxinóis. Desse modo, Karlfeldt expressa a ideia de que um sonho, ainda que não se experimente como de início se planejou, pode encontrar a sua própria forma de se manifestar – como no presente caso, através da poesia.

 

J.A.R. – H.C.

 

Erik Axel Karlfeldt

(1864-1931)

 

Drömmen och livet

 

Jag ville vara en mäktig man

och bygga mig borg och rödja mig rike

och gräva omkring dem ett väldigt dike,

så långbent ondska för brett det fann.

Där ville jag duka borden till fest

och bjuda var hungrig från vägen till gäst

och alla raska och präktiga karlar.

Där skulle det sägas högt och fritt,

att svart är svart och att vitt är vitt,

och livet berömmas, så länge det varar.

 

Jag ville vara en orädd man.

Giv mig, o öde, en kamp och en sadel,

ett drabbande svärd och en sak utan tadel

att falla för, om ej segra jag kan!

Och får jag ej nämnas på ärans dag,

då skarorna komma från lyktat slag,

bland dem som stormat och stupat i täten –

likgott, om i virvlande hopen jag stred!

Fram kan man väl gå fast i sista led,

och man sover väl gott, fast man sover förgäten.

 

Så vart jag en drömmare, icke en man!

Jag fäktar och rasslar med ordens lansar,

och bär jag i diktens tornering ett pansar,

går jag eljes i vardagskavaj som en ann.

Jag ville sjunga i bergens ljus

men dröjer i skuggan kring hembyns hus,

där minnena spela som näktergalen.

Men nejden skall höra ännu min röst!

Finns luft i lunga och klang i bröst,

kan sången nå upp, fast den ljuder i dalen.

 

Från: “Fridolins Visor och Andra Dikter” (1898)

 

A vida é um sonho

(Jorge Calero: pintor colombiano-português)

 

O sonho e a vida

 

Quisera ser um homem poderoso,

construir um castelo, desbravar um reino,

e cavar em torno um fosso imenso

para que a maldade, com sua agilidade,

não o pudesse atravessar.

Então poria a mesa de um banquete,

convidaria os famintos dos caminhos

e todos os homens alegres e corajosos.

Diríamos em vozes altas livremente

que pão é pão e queijo é queijo

e louvaríamos a vida apesar de sua ingratidão.

 

Quisera ser um homem corajoso.

Dai-me, ó Fado, um combate, um cavalo,

uma espada que golpeia e uma causa sem mácula

por que eu possa morrer se não tiver vitória.

Se não me for dado assistir ao meu dia de glória

quando, após a batalha, as tropas regressarem,

entre os atacantes tombados na linha de frente,

isso pouco importa, pois combati entre a massa,

pois estar na retaguarda não impede de avançar,

e dorme-se menos quando se dorme esquecido.

 

Assim me transformei num sonhador – não em homem!

Com estrépito combato com a lança das palavras.

Se nos torneios poéticos me visto de couraça,

na aldeia tenho as vestes de qualquer joão-ninguém.

Quisera cantar à luz das montanhas,

mas permaneço à sombra de minha aldeia natal

onde as recordações cantam como rouxinóis.

Mas o país inteiro há de ouvir a minha voz,

pois mesmo vindo do vale, meu canto poderá

erguer-se de tanto hausto que trago no meu peito.

 

Em: “Canções de Fridolin e Outros Poemas” (1898)

 

Referências:

 

Em Sueco

 

KARLFELDT, Erik Axel. Drömmen och livet. In: __________. Erik Axel Karlfeldts Dikter. Stockholm, SE: Wahlstrom och Widstrand (I distribution hos Albert Bonniers Förlag), 1953. s. 119-120. (“Den Svenska Lyriken”)

 

Em Português

 

KARLFELDT, Erik Axel. O sonho e a vida. Tradução de Ivo Barroso. In: __________. Poesias. Tradução de Ivo Barroso. Estudo introdutivo de Gunnar Brandell. Rio de Janeiro, GB: Editora Opera Mundi, 1973. p. 97-98. (“Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura”)

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Walmir Ayala - Poema a um Gato

Ayala nos mostra o quanto o gato tem um lugar único no imaginário poético, com uma presença algo etérea – naturalmente elegante e fluida – a encarnar a verdadeira natureza do noturno – o mistério, o intangível, o que está para além do visível –, como se detentor fosse de um conhecimento, último e silencioso, que as palavras humanas não conseguem expressar.

 

O gato teria, com efeito, uma natureza sigilosa e não intrusiva, à maneira de um sentimento de remorso, eis que nos costuma assaltar de modo espontâneo e silencioso, porém intenso – e amiúde na solidão da noite: vê-se, no caso, uma associação do felino com a dinâmica da introspecção humana, sitiada por pensamentos que a visitam na escuridão e pousam sobre a consciência.

 

J.A.R. – H.C.

 

Walmir Ayala

(1933-1991)

 

Poema a um Gato

 

Te encontramos na noite,

e eras maior que a noite,

mais integral e sombrio.

 

Eras de seda derramada em movimento

e me buscavas sempre com olhar e silêncio

como se quisesses dizer a última palavra,

a única.

 

Tu vieste na noite

sem luz e sem rumor

como o pensamento de remorso.

 

E te estendeste esguiamente sobre a minha solidão.

 

Mulher dormindo com um gato

(Władysław Ślewiński: pintor polonês)

 

Referência:

 

AYALA, Walmir. Poema a um gato. In: ___________. Antologia poética. Rio de Janeiro, GB: Editora Leitura, ago. 1965. p. 16.

ö

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

Anne Sexton - O Pássaro da Ambição

Este poema é um mapa da alma atormentada da artista norte-americana, a admitir que o mesmo elemento motor de sua criatividade – “o pássaro da ambição – é o desencadeador de sua tortura e que, talvez, precisa-se dele se desfazer para poder salvar-se, mesmo que isso venha a implicar a renúncia à sua vocação e ao seu empenho em tornar-se imortal.

 

Sob tal contexto, a poetisa divide-se em duas – a mulher que deseja paz e a artista possuída pelas exigências do pássaro em apreço (mais do que aspirações, verdadeiras obsessões que demandam a aniquilação do “eu”): se esta última prevalece, terá ela que pagar o elevado preço da genialidade, tantas vezes contíguo às raias da loucura; se prepondera aquela, há de, porventura, submeter-se aos imperativos de um silêncio criativo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Anne Sexton

(1928-1974)

 

The Ambition Bird

 

So it has come to this –

insomnia at 3:15 a.m.,

the clock tolling its engine

 

like a frog following

a sundial yet having an electric

seizure at the quarter hour.

 

The business of words keeps me awake.

I am drinking cocoa,

that warm brown mama.

 

I would like a simple life

yet all night I am laying

poems away in a long box.

 

It is my immortality box,

my lay-away plan,

my coffin.

 

All night dark wings

flopping in my heart.

Each an ambition bird.

 

The bird wants to be dropped

from a high place like Tallahatchie Bridge.

 

He wants to light a kitchen match

and immolate himself.

 

He wants to fly into the hand of Michelangelo

and come out painted on a ceiling.

 

He wants to pierce the hornet’s nest

and come out with a long godhead.

 

He wants to take bread and wine

and bring forth a man happily floating in the Caribbean.

 

He wants to be pressed out like a key

so he can unlock the Magi.

 

He wants to take leave among strangers

passing out bits of his heart like hors d’oeuvres.

 

He wants to die changing his clothes

and bolt for the sun like a diamond.

 

He wants, I want.

Dear God, wouldn’t it be

good enough to just drink cocoa?

 

I must get a new bird

and a new immortality box.

There is folly enough inside this one.

 

In: “The Book of Folly” (1972)

 

Outra noite de insônia

(Janet Lavida: artista norte-americana)

 

O Pássaro da Ambição

 

Então chegou-se a este ponto –

insônia às 3h 15 da madrugada,

o relógio a repenicar sua engrenagem

 

como uma rã a seguir

um relógio de sol, em convulsão

elétrica a cada quarto de hora.

 

O negócio das palavras mantém-me acordada.

Estou bebendo chocolate,

essa mamã morna e morena.

 

Gostaria de ter uma vida simples,

mas a noite toda dedico-me a arrumar

poemas numa caixa alongada.

 

É a minha caixa da imortalidade,

meu plano de reserva,

meu ataúde.

 

A noite toda, asas escuras

esvoaçam em meu coração.

Cada qual, um pássaro da ambição.

 

O pássaro quer que o lancem

de um lugar elevado, como a Ponte de Tallahatchie.

 

Quer acender um fósforo de cozinha

e imolar-se.

 

Quer voar para a mão de Michelangelo

e aparecer pintado num teto.

 

Quer perfurar o vespeiro

e de lá sair com uma longa deidade.

 

Quer tomar pão e vinho

e fazer surgir um homem a flutuar feliz no Caribe.

 

Quer ser cunhado como uma chave

para assim poder revelar os Magos.

 

Quer despedir-se entre estranhos, distribuindo

pedaços de seu coração como hors d’oeuvres. (*)

 

Quer morrer trocando de roupa

e disparar em direção ao sol como um diamante.

 

Ele quer, eu quero.

Meu Deus, não seria bom o suficiente

apenas beber chocolate quente?

 

Preciso de um novo pássaro

e de uma nova caixa da imortalidade.

Já há loucura suficiente dentro desta.

 

Em: “O Livro da Loucura” (1972)

 

Nota:

 

(*). Termo em francês: canapés, aperitivos.

 

Referência:

 

SEXTON, Anne. The ambition Bird. In: __________. The complete poems: Anne Sexton. With a foreword by Maxine Kumin. 1st ed. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 1981. p. 299-300.