Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 13 de setembro de 2026

Philip Larkin - Poesia das Partidas

Larkin disseca a impossibilidade de levar-se a cabo uma fuga a um modo de vida que não satisfaz, de uma forma genuína: para o autor inglês, o maior obstáculo para empreender tal escape, mais do que as circunstâncias externas, são o nosso próprio cinismo e a consciência de que, qualquer que seja a vida que escolhamos, não deixará de ser, em última instância, uma espécie de representação.

 

O falante contrasta a tensão entre o anseio romântico por uma vida simples e heroica e o monótono conforto da rotina. Contudo, ao mesmo tempo que expressa o seu desejo por uma vida mais desapegada e autêntica, opõe-lhe irônicas adversativas, por julgá-la “repreensivelmente perfeita” em sua afetação de liberdade.

 

De resto, mesmo àqueles que sonham em desaparecer, escafeder-se, não há como deixarem de ser acompanhados por seus êmulos mais acerbos e mais lúcidos críticos – eles mesmos!

 

J.A.R. – H.C.

 

Philip Larkin

(1922-185)

 

Poetry of Departures

 

Sometimes you hear, fifth-hand,

As epitaph:

He chucked up everything

And just cleared off,

And always the voice will sound

Certain you approve

This audacious, purifying,

Elemental move.

 

And they are right, I think.

We all hate home

And having to be there:

I detest my room,

Its specially-chosen junk,

The good books, the good bed,

And my life, in perfect order:

So to hear it said

 

He walked out on the whole crowd

Leaves me flushed and stirred,

Like Then she undid her dress

Or Take that you bastard;

Surely I can, if he did?

And that helps me stay

Sober and industrious.

But I’d go today,

 

Yes, swagger the nut-strewn roads,

Crouch in the fo’c’sle

Stubbly with goodness, if

It weren’ t so artificial,

Such a deliberate step backwards

To create an object:

Books; china; a life

Reprehensibly perfect.

 

23 January 1954

 

In: “The Less Deceived” (1955)

 

Natureza-morta: xícara, livros e flores

(Vita Schagen: artista holandesa)

 

Poesia das Partidas

 

Algumas vezes escuta-se, em quinta mão,

Como epitáfio:

Ele atirou tudo para o alto

E simplesmente foi-se embora,

E a voz sempre soará

Segura, como se todos aprovassem

Esse gesto audaz,

Purificador,

Elementar.

 

E creio que estejam certos.

Todos odiamos o nosso lar

E ter de lá estar:

Detesto o meu quarto,

A sua tralha cuidadosamente selecionada,

Os bons livros, a boa cama

E a minha vida, em perfeita ordem:

Daí, escutar dizer que

 

Ele deu as costas à sua gente

Deixa-me ruborizado e agitado,

Como em Então ela despiu-se do vestido

Ou em Toma essa, seu bastardo;

Se ele o pôde, é fora de dúvida que eu também posso?

E isso ajuda-me a manter-me

Sóbrio e produtivo.

 

Mas hoje mesmo estaria disposto,

Sim, a andar altivo por caminhos repletos de nozes,

A encaçapar-me num castelo de proa

Em trato ascético com a bondade, se

Isso não fosse tão artificial,

Um passo tão deliberado para trás

A fim de criar um objetivo:

Livros; louças; uma vida

Repreensivelmente perfeita.

 

23 de janeiro de 1954

 

Em: “Os Menos Enganados” (1954)

 

Referência:

 

LARKIN, Philip. Poetry of departures. In: __________. Collected poems. Edited with an introduction by Anthony Thwaite. 1st ed., 3rd print. New York, NY: Farrar, Strauss and Giroux & The Marvel Press, 1989. p. 85-86.

sábado, 12 de setembro de 2026

François Cheng - Depois da ferida

O poeta sino-francês detém-se a falar da alquimia do sofrimento, mostrando-nos que uma determinada “ferida”, quando experimentada em toda a sua silenciosa e obsessiva profundidade, orienta-se à formação de um cerne indestrutível de identidade, transformando-se, convertendo-se no crisol onde o “eu” superficial esbraseia-se para deixar a descoberto um “secreto tu”, um núcleo essencial que, embora destinado à terra, corresponde à prova última de que terá vivido e sofrido intensamente.

 

Depois da lesão, tem-se a sua lenta ressonância no tempo que a sucede, petrificando a alma, paralisando-a numa melancolia existencial, até que a dor do trauma tenha sido interiorizada e absorvida por completo numa ruminação tortuosa, esgotando toda a sua capacidade de sentir, jogando-a num vazio – não exatamente vazio – que, mediante um processo metamórfico, encapsula-se em rígido grumo no coração, selado a partir de então como relíquia incorporada ao ser.

 

J.A.R. – H.C.

 

François Cheng

(n. 1929)

 

Après la blessure

 

Après la blessure

Heure muette

La clepsydre de Vaprès-midi

Distille l’ennui humain

La lumière ne sera pas vue

La parole ne sera pas dite

Toutes rosées ravalées

Toutes incandescences bues

La saison rentre en sa chair

Fouillant la plaie

Fouillant le ver

Fouillant à s’en déchirer les fibres

Ce creux trop prononcé

À la pointe du coeur

Déjà noyau durci

Que renfermera bientôt l’argile

Renferm ant dès ici

Renferm ant jusqu’au bout

De l’insondée lave terrestre

Le secret tu

 

Dans: “Le Long d’un Amour” (2003)

 

Rega

(Rita Maikova Zaporozhets: artista ucraniana)

 

Depois da ferida

 

Depois da ferida

Hora muda

A clepsidra da tarde

Destila o tédio humano

A luz não será vista

A palavra não será dita

Todos os orvalhos tragados

E as incandescências bebidas

A sazão retorna à sua carne

Revolvendo a chaga

Revolvendo o verme

Revolvendo até se romperem as fibras

Este vazio acentuado demais

Na ponta do coração

Já núcleo endurecido

Que logo a argila encerrará

Encerrando desde aqui

Encerrando até o fim

Da insondada lava terrestre

O segredo silenciado

 

Em: “Ao Longo dum Amor” (2003)

 

Referência:

 

CHENG, François. Après la blessure / Depois da ferida. Tradução de Bruno Palma. In: __________. Duplo canto e outros poemas. Tradução, cronologia, introdução e notas de Bruno Palma. Edição bilíngue: francês x português. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2011. Em francês: p. 402; em português: p. 403.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Alexandre O’Neill - Quatro Lugares-Comuns sobre Várias Artes Poéticas

O poeta desmistifica certos pontos de vista em relação ao processo criativo, rechaçando tanto a ideia de que seria o resultado de um inspiração divina – de pendor romântico –, quanto o fruto de um trabalho mecânico, circunscrevendo-se, sob tal abordagem, à falsa oposição dilemática entre a espera passiva pelo sopro inspirador da musa e o árduo labor com a palavra, ou ainda, entre as tutelas legendárias da inspiração e da transpiração –, contrapondo-lhes o enfoque de uma dinâmica mais integral e pessoal.

 

“Escrever é tramar o textual”, afirma o autor português, quer no sentido de urdir ou tecer a composição, quer na acepção conotativa de lançar mão de astúcias e de estratégias para se alcançar um resultado final que capture as perplexidades humanas, o fluxo incomodatício da vida, os seus gestos mais triviais e absurdos, sem concessões a rígidos modelos preestabelecidos ou a uma audiência tantas vezes afeita a clichês.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alexandre O’Neill

(1924-1986)

 

Quatro Lugares-Comuns sobre Várias Artes Poéticas

 

1

 

Estou sozinho diante da página em branco.

 

Cedo à inspiração?

Dedico-me ao suor?

 

Vou investir com a caneta o branco da página em branco.

 

Minha tentação era subscrever o branco,

assinar o silêncio.

Mas o branco seria o silêncio,

uma vez assinado?

 

Cedo à inspiração?

Dedico-me ao suor?

 

Nada vem de bandeja.

Nada vem do suor.

 

2

 

Não há modelo exterior a que eu deva obediência,

sequer trabalho.

O modelo exterior seria uma plateia

com centenas de lugares-comuns

ainda mal arejados dos traseiros

que neles depusessem os gomos o tempo da sessão.

O modelo exterior é uma convenção

que te obriga, se o eleges, a trabalhar como arrumador,

lanterninha na mão.

E então, sim! Deves tudo ao suor

(o nobre suor de um senhor escritor).

O modelo exterior é como o jogo do avião:

ao pé-coxinho vais biqueirando a palavra-patela,

de quadradinho em quadradinho,

até fazeres todo o avião.

 

O modelo exterior deixa-te definitivamente fora,

mas fora de ti próprio.

É como se andasses à rabiça

a arar os campos de papel.

 

3

 

A folha de papel em branco

não é o ruedo de nenhuma festa.

A folha de papel em branco

(e tu debruçado sobre ela)

 

é um slogan turístico, um “Spain is different!”

da poesia-espectáculo.

(Nem a ti próprio te dês em espectáculo

sob pretexto de reflexão.)

 

Se tens o lampo da inspiração

a crescer, em formigueiro, na mão da faina,

não te deixes embevecer por imagens toureiras.

São bonitos.

São analogias que não colam

ao trabalho de escrever.

 

Se tens o lampo da inspiração,

despede-o para o papel como instantaneidade

de incertos resultados.

Depois se verá se deixou resíduos

ou se o lampo não deu mais que um trovão.

 

4

 

Nada vem de bandeja.

Nada vem do suor.

 

Não te deixes cindir por um falso dilema.

Escrever é tramar o textual.

Bandeja e suor são problemas teus,

maneiras de ser, de agir, processos de trabalho.

 

Onde começa um poema?

Quando começa um poema?

 

No espaço quadrado da folha de papel?

No momento em que pegas da caneta?

 

Ou no espaço redondo em que te moves?

Ou quando, alheio a tudo, te pões de cócoras,

a coçar, perplexo, a cabeça?

 

Em: “Feira Cabisbaixa” (1965)

 

Chama

(Anita Louise West: artista norte-americana)

 

Referência:

 

O’NEILL, Alexandre. Quatro lugares-comuns sobre várias artes poéticas. In: MEDINA, Cremilda de Araújo (Sel. & Org.). Viagem à literatura portuguesa contemporânea. Rio de Janeiro, RJ: Nórdica, 1983. p. 233-235.