Nestas linhas, de tom
merencório, o poeta cria um diálogo intertextual profundamente lírico com os
versos introdutórios do poema “Mar Absoluto”, de Cecília Meireles, tencionando
uma perceptível conexão homográfica (e quase homofônica) a partir do título que
lhe atribui – Mar Obsoleto –, como se o projetasse com imagens invertidas num espelho.
Enquanto em Meireles
o mar é uma força ativa que impele o sujeito – como multidões passadas a empurrar
um “barco esquecido” –, em Mendes ele converge a um cenário passivo – “revolto”
apenas na superfície, mas indiferente, cujas “respostas” são “mudas”. Tem-se aí
o trespasse de um “absoluto” metafísico e esperançoso a um “obsoleto”
existencial, um tíbio relicário no imo do ser.
Veja-se que a ênfase
em “Agora, sou apenas memória” entra em ressonância direta com o aludido título:
se o mar torna-se “obsoleto” – sem função simbólica ativa –, o sujeito lírico reverbera
“apenas memória” – um inerte repositório do passado, sem dinâmica sobre os dias
que correm –, ambos a coexistirem doravante num estado de sobrevivência, para
além de quaisquer significados.
J.A.R. – H.C.
Mauro Mendes
(n. 1972)
Mar Obsoleto
“Foi desde sempre o
mar.
E multidões passadas
me empurravam
como a barco
esquecido”.
(Cecília Meireles -
Mar Absoluto)
Diante deste mar
revolto,
que, outrora,
simbolizou
a esperança de um
tempo,
estou sozinho e
calmo.
Agora, já não penso,
sou apenas memória,
lembrança de outros
caminhos,
que se perderam
no próprio caminho do
vento.
Tento, em vão,
recompô-los
e presto atenção às ondas,
se quebrando nos
rochedos,
trazendo conchas e
búzios,
respostas mudas do
mar.
O pensamento é como a
água-viva,
atirada na areia,
misteriosa e
sedutora.
Quem ousaria romper
o seu invólucro
transparente
e suportar a ardente
ferida,
por puro descaso?
Não! Deixa-o dormir,
longe da praia,
numa profundidade de
algas,
num emaranhado de
algas,
numa discreta
espessura e consistência de algas...
Deixa-o dormir!
Agora, sou apenas
memória.
Jornada musical de
violinos e águas-vivas
(Alex Levin: artista
ucraniano)
Referência:
MENDES, José Mauro Oliveira. Mar obsoleto. In: __________. Garatujas - Um contorno de sombra. São Paulo, SP: Scortecci, 2015. p. 77.
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