Alpes Literários

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Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Carlos Ávila - Poetry: The word I am thinking of

Ávila levanta questões acerca dos mitos que rodeiam a poesia, tencionando desarticulá-los, para então vindicar a sua essência não na beleza sublime ou em seus sentidos mais profundos, mas sim em seu poder transgressor, limítrofe e crítico, na qualidade de um ato incômodo de resistência, de uma voz “infame” e perturbadora a insinuar-se desde as cercanias da rebeldia.

 

Há certo tom de mordaz ironia nos contrastes empregados pelo poeta entre os termos franceses – a evocarem certa sofisticação ou estereótipos – e as imagens degradantes carreadas aos versos – migalhas, indigestão, inferno –, o que denota a sua intenção sutil de troçar das pretensões da linguagem poética, de suas aspirações a alcançar um significado autêntico ou perdurável no tempo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Ávila

(n. 1955)

 

Poetry: The word I am thinking of

 

& não será

a poesia

(femme fatale)

apenas uma palavra

dentro de outra palavra

que não quer dizer nada

& não será

a poesia

(femme publique)

apenas a migalha

dentro de outra migalha:

fogo de palha

& não será

a poesia

(femme de chambre)

apenas o ar assoprado

por um aloprado

no ouvido do olvido

& não será

a poesia

(femme grosse)

apenas o resto

de um almoço indigesto

entre convivas no inferno

?

 

o que será

(une femme: infâme)

será

 

Retrato de jovem com adorno nos cabelos

(Konstantin Razumov: pintor russo)

 

Referência:

 

ÁVILA, Carlos. The word I am thinking of. In: DANIEL, Claudio; BARBOSA, Frederico (Organização, seleção e notas). Na virada do século: poesia de invenção no Brasil. São Paulo, SP: Landy Editora, 2007. p. 90.

domingo, 17 de maio de 2026

Jorge Luis Borges - João I, 14

Com o seu núcleo temático assente no versículo bíblico “E o Verbo se fez carne”, Borges redige o infratranscrito poema em primeira pessoa, como se fosse um testemunho de Deus sobre a sua experiência aqui na Terra, descobrindo a matéria através dos sentidos, acolhendo os limites da linguagem como revérberos de nossas imperfeições, para imergir, com assombro e ternura, nas alegrias e nas dores da condição humana.

 

Perceba-se que o autor argentino, ao adentrar o cerne mesmo do mistério cristão, também transita pelo caminho inverso da divinização do humano, ou seja, da sacralização radical da experiência sensorial, pois que a consciência divina, ao tomar ciência de tudo o que se passa em nossas frágeis psiques – a memória, a esperança, a vigília, o sono, os sonhos, as lacunas –, teria internalizado nostalgias, saudades, evocações – vivenciando-as e valorizando-as como efeito das vicissitudes terrenas pelas quais passou o Filho do Carpinteiro.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge Luis Borges

(1899-1986)

 

Juan I, 14 (*)

 

No será menos un enigma esta hoja

que las de Mis libros sagrados

ni aquellas otras que repiten

las bocas ignorantes,

creyéndolas de un hombre, no espejos

oscuros del Espíritu.

Yo que soy el Es, el Fue y el Será,

vuelvo a condescender al lenguaje,

que es tiempo sucesivo y emblema.

Quien juega con un niño juega con algo

cercano y misterioso;

yo quise jugar con Mis hijos.

Estuve entre ellos con asombro y ternura.

Por obra de una magia

nací curiosamente de un vientre.

Viví hechizado, encarcelado en un cuerpo

y en la humildad de un alma.

Conocí la memoria,

esa moneda que no es nunca la misma.

Conocí la esperanza y el temor,

esos dos rostros del incierto futuro.

Conocí la vigilia, el sueño, los sueños,

la ignorancia, la carne,

los torpes laberintos de la razón,

la amistad de los hombres,

la misteriosa devoción de los perros.

Fui amado, comprendido, alabado y pendí

de una cruz.

Bebí la copa hasta las heces.

Vi por Mis ojos lo que nunca había visto:

la noche y sus estrellas.

Conocí lo pulido, lo arenoso, lo desparejo,

lo áspero,

el sabor de la miel y de la manzana,

el agua en la garganta de la sed,

el peso de un metal en la palma,

la voz humana, el rumor de unos pasos

sobre la hierba,

el olor de la lluvia en Galilea,

el alto grito de los pájaros.

Conocí también la amargura.

He encomendado esta escritura

a un hombre cualquiera;

no será nunca lo que quiero decir,

no dejará de ser su reflejo.

Desde Mi eternidad caen estos signos.

Que otro, no el que es ahora su amanuense,

escriba el poema.

Mañana seré un tigre entre los tigres

y predicaré Mi ley a su selva,

o un gran árbol en Asia.

A veces pienso con nostalgia

en el olor de esa carpintería.

 

O mistério da encarnação de Crito

(Imagem sem créditos)

 

João I, 14

 

Não será menos enigmática esta página

que as de Meus livros sagrados

nem aquelas outras que repetem

as bocas ignorantes,

por julgá-las de um homem, não espelhos

obscuros do Espírito.

Eu que sou o É, o Foi e o Será

torno a condescender com a linguagem,

que é tempo sucessivo e emblema.

Quem brinca com um menino brinca com algo

próximo e misterioso;

eu quis brincar com Meus filhos.

Estive entre eles com assombro e ternura.

Por obra de magia

nasci curiosamente de um ventre.

Vivi enfeitiçado, encarcerado num corpo

e na humildade de uma alma.

Conheci a memória,

essa moeda que não é nunca a mesma.

Conheci a esperança e o temor,

esses dois rostos do incerto futuro.

Conheci a vigília, o sono, os sonhos,

a ignorância, a carne,

os torpes labirintos da razão,

a amizade dos homens,

a misteriosa devoção dos cães.

Fui amado, compreendido, louvado e pendi

de uma cruz.

Bebi o cálice até as fezes.

Vi por Meus olhos o que nunca havia visto:

a noite e suas estrelas.

Conheci o polido, o arenoso, o díspar, o áspero,

o sabor do mel e da maçã,

a água na garganta da sede,

o peso de um metal na palma,

a voz humana, o rumor de uns passos

sobre a relva,

o odor da chuva na Galileia,

o alto grito dos pássaros.

Conheci também a amargura.

Encomendei esta escrita a um homem qualquer;

nunca será o que desejo dizer,

não deixará de ser seu reflexo.

De Minha eternidade caem estes signos.

Que outro, não o que é agora seu amanuense,

escreva o poema.

Amanhã serei um tigre entre os tigres

e predicarei Minha lei a sua selva,

ou uma grande árvore na Ásia.

Às vezes penso com nostalgia

no odor dessa carpintaria.

 

Nota:

 

(*). João I, 14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória, a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.”

 

Referências:

 

Em Espanhol

 

BORGES, Jorge Luis. Juan I, 14. In: __________. Obras completas. Vol. I: 1923-1972. Buenos Aires, AR: Emecé Editores, sep. 1984. p. 977-978.

 

Em Português

 

BORGES, Jorge Luis. João 1, 14. Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. In: __________. Elogio da sombra. Tradução de Carlos Nejar e Alfredo Jacques. Prefácio de Jorge Schwartz. 2. ed. revista. São Paulo, SP: Globo, 2001. p. 21-22.

sábado, 16 de maio de 2026

Carlos Drummond de Andrade - O lutador

Drummond oferece-nos o seu testemunho pessoal sobre a relação do ser humano com a linguagem e o processo criativo, o empenho para vencer as dificuldades intrínsecas à tarefa de dar forma ao pensamento através de sua arte – a poesia –, essa variedade esquiva de beleza, tão infensa a entregar-se sem resistência à pena do poeta.

 

Mesmo sob dedicação absoluta, embebido num frenesi que o consome dia e noite, o poeta, amiúde, incorre em frustrações por não conseguir expressar plenamente em palavras a sua visão interior, tudo o que lhe povoa a mente. Nada obstante, lida com os embaraços empregando todas as suas forças, com astúcia, humildade, aspirações, até mesmo com raiva, porque se trata de uma paixão irrenunciável, para além do consciente e do voluntário.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Drummond de Andrade

(1902-1987)

 

O lutador

 

Lutar com palavras

é a luta mais vã.

Entanto lutamos

mal rompe a manhã.

São muitas, eu pouco.

Algumas, tão fortes

como o javali.

Não me julgo louco.

Se o fosse, teria

poder de encantá-las.

Mas lúcido e frio,

apareço e tento

apanhar algumas

para meu sustento

num dia de vida.

Deixam-se enlaçar,

tontas à carícia

e súbito fogem

e não há ameaça

e nem há sevícia

que as traga de novo

ao centro da praça.

 

Insisto, solerte.

Busco persuadi-las.

Ser-lhes-ei escravo

de rara humildade.

Guardarei sigilo

de nosso comércio.

Na voz, nenhum travo

de zanga ou desgosto.

Sem me ouvir deslizam,

perpassam levíssimas

e viram-me o rosto.

Lutar com palavras

parece sem fruto.

Não têm carne e sangue…

Entretanto, luto.

 

Palavra, palavra

(digo exasperado),

se me desafias,

aceito o combate.

Quisera possuir-te

neste descampado,

sem roteiro de unha

ou marca de dente

nessa pele clara.

Preferes o amor

de uma posse impura

e que venha o gozo

da maior tortura.

 

Luto corpo a corpo,

luto todo o tempo,

sem maior proveito

que o da caça ao vento.

Não encontro vestes,

não seguro formas,

é fluido inimigo

que me dobra os músculos

e ri-se das normas

da boa peleja.

 

Iludo-me às vezes,

pressinto que a entrega

se consumará.

Já vejo palavras

em coro submisso,

esta me ofertando

seu velho calor,

aquela sua glória

feita de mistério,

outra seu desdém,

outra seu ciúme,

e um sapiente amor

me ensina a fruir

de cada palavra

a essência captada,

o sutil queixume.

Mas ai! é o instante

de entreabrir os olhos:

entre beijo e boca,

tudo se evapora.

 

O ciclo do dia

ora se consuma

e o inútil duelo

jamais se resolve.

O teu rosto belo,

ó palavra, esplende

na curva da noite

que toda me envolve.

Tamanha paixão

e nenhum pecúlio.

Cerradas as portas,

a luta prossegue

nas ruas do sono.

 

Em: “José” (1942)

 

Um jovem escritor em sua mesa de trabalho

(Edward Henry Corbould: artista inglês)

 

Referência:

 

ANDRADE, Carlos Drummond de. O lutador. In: __________. Antologia poética. Organizada pelo autor. Prefácio de Marco Lucchesi. 48. ed. Rio de Janeiro, RJ: Record, 2001. p. 243-246.