O poeta captura em palavras
o mal-estar de toda uma geração, em decorrência quer da conjuntura de crise
econômica, quer de uma carência que se passa na alma, o que outorga ao poema certo
tom elegíaco por tudo o que se perdeu e, o que é pior, pela certeza de que nada
parece poder mudar essa paralisante realidade.
Fala-nos Goffredo de
uma vida que se deteve, na qual os jovens deambulam como fantasmas em um estado
perpétuo de tristeza ativa e corrosiva, privados não só de recursos, como
também da chispa essencial que faz com que a vida valha a pena ser vivida.
Estagnada pela falta
de perspectivas, confrangida pelos reflexos de sua precariedade material, fica a
juventude – logo ela, sempre rebelde e cheia de energia! – atrelada a um ciclo
para o qual não se veem saídas, entregue a gestos de autodefesa e de autogratificação,
como último recurso, talvez, para fazer frente a esse asfixiante e lúgubre cenário.
J.A.R. – H.C.
Giuseppe Goffredo
(n. 1956)
Cosa può cambiare
Cosa può cambiare?
sui muri felpati
siede falba la
malinconia,
la piazza vuota, il
monumento,
il caffè, i giovani
allocchiti.
Cosa può cambiare?
l’umido spigola al
suolo,
si fanno cupi
all’imbrunire
i cristalli di
tristezza,
da soli ci si aggira,
senza voglia battuti
dalla
disallegria, le
femmine
storcono il muso e si
accarezzano
il sesso, noi si è
fuori
agli angoli a fumare.
Non abbiamo lavoro,
non abbiamo denaro,
non abbiamo fortuna,
ma quello que ci
manca è la vita.
Na praça
(Giorgos Nicolaou:
artista grego)
O que pode mudar
O que pode mudar?
sobre muros sedosos
senta cinzenta a
melancolia,
a praça vazia, o
monumento,
o café, os jovens
amalucados.
O que pode mudar?
a umidade graneja o
solo,
se fazem escuros ao
anoitecer
os cristais da
tristeza,
sempre aqui se agita,
sem vontade de caçar
a tristeza, as
mulheres
voltam a cabeça e se
acariciam
o sexo, nós estamos
fora
na esquina a fumar.
Não temos trabalho,
não temos dinheiro,
não temos fortuna,
mas o que nos falta é
a vida.
Referência:
GOFFREDO, Giuseppe. Cosa può cambiare / O que pode mudar. Tradução de José Eduardo Degrazia. In: DEGRAZIA, José Eduardo (Organização e Tradução). Poeti italiani contemporanei: poesie scelte / Poetas italianos contemporâneos: poesias escolhidas. Porto Alegre, RS: Sagra - D. C. Luzzatto, 1995. Em italiano: p. 84; em português: p. 85.
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