Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Raul de Leoni - Felicidade

Leoni lança um repto à ideia de que a felicidade se pareça a um estado estático ou a uma meta alcançável, ao contemplá-la como uma ilusão efêmera, um jogo de luzes e sombras no qual a própria busca se torna inimiga de sua consecução, fazendo-nos esquecidos de gozar a vida de um modo simples, sem incidir no paradoxo de querermos controlar o incontrolável, pois que, com alguma frequência, ela decorre de um golpe de sorte, subordinando-se mais à fortuna do que à laboriosidade humana.

 

A felicidade é mesmo assim: quanto mais tentamos capturá-la ou defini-la, mas se nos escapa, mais se expande na dança de sua projeção, distanciando-se e distorcendo-se, para permanecer sempre fora de nosso alcance. Daí porque o poeta nos propõe, como alternativa, uma existência tão próxima quanto possível do natural e do espontâneo, para que, desse modo, possamos experimentar um estado de bem-estar pleno, na ausência de uma intencionalidade opressiva por perseguir a felicidade – quando então poderemos envenenar nossos sentimentos, vulnerabilizando-os sob o peso de excessivas ruminações.

 

J.A.R. – H.C.

 

Raul de Leoni

(1895-1926)

 

Felicidade

 

I

 

Sombra do nosso Sonho ousado e vão!

De infinitas imagens irradias

E, na dança da tua projeção,

Quanto mais cresces, mais te distancias...

 

A Alma te vê à luz da posição

Em que fica entre as cousas e entre os dias:

És sombra e, refletindo-te, varias,

Como todas as sombras, pelo chão...

 

O Homem não te atingiu na vida instável

Porque te embaraçou na filigrana

De um ideal metafísico e divino;

 

E te busca na selva impraticável,

Ó Bela Adormecida da alma humana!

Trevo de quatro folhas do Destino!...

 

II

 

Basta saberes que és feliz, e então

Já o serás na verdade muito menos:

Na árvore amarga da Meditação,

A sombra é triste e os frutos têm venenos.

 

Se és feliz e o não sabes, tens na mão

O maior bem entre os mais bens terrenos

E chegaste à suprema aspiração,

Que deslumbra os filósofos serenos.

 

Felicidade... Sombra que só vejo,

Longe do Pensamento e do Desejo,

Surdinando harmonias e sorrindo,

 

Nessa tranquilidade distraída,

Que as almas simples sentem pela Vida,

Sem mesmo perceber que estão sentindo...

 

A Árvore da Felicidade

(Leon Devenice: artista norte-americano)

 

Referência:

 

LEONI, Raul. Felicidade I e II. In: __________. Luz mediterrânea e outros poemas. Introdução, organização e fixação de texto por Sérgio Alcides. 1. ed. São Paulo, SP: Martins Fontes, 2001. p. 24-25. (Coleção “Poetas do Brasil”)

quarta-feira, 8 de abril de 2026

Frank Bidart - Injunção

O poeta se serve dos edifícios como metáforas das estruturas culturais e sociais que sustentam o nosso mundo, e aponta como – ao nomear, categorizar e definir – a linguagem acaba por se tornar uma espécie de arma a que comumente se recorre nessa constante batalha, haja vista que, mesmo sendo um instrumento de inclusão, pode ela muito bem ser empregada para dividir, hierarquizar e excluir.

 

Bidart faz eco à antiga noção de que a linguagem não é neutra, pois, se por um lado, nos serve para impor ordem sobre o caos do mundo, por outro, também possibilita colonizar a subjetividade alheia: nomear algo é tentar dominá-lo, controlá-lo. Assim, cada instituição — templo, escola, mercado, banco — tenta abolir ou suprimir as outras, porque todas elas carregam visões de mundo diferentes entre si, cada qual com suas cargas ideológicas, funções, valores e objetivos bem demarcados, amiúde incompatíveis.

 

A intitulada “injunção” se torna mais explícita nos versos finais do poema, ao longo dos quais as palavras tecem um chamamento à desconstrução radical, uma invocação para que se transcendam as categorias impostas pela linguagem e pela história. Com efeito, a imagem de se “fixar” algo “fora do tempo” poderia simbolizar o afã por libertar-se dessas lutas semânticas, pondo fim a um ciclo interminável de conflitos resultantes dos aparatos de dominação, simbólicos ou reais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Frank Bidart

(n. 1939)

 

Injunction

 

As if the names we use to name the uses of buildings

x-ray our souls, war without end:

 

Palace. Prison. Temple. School.

Market. Theatre. Brothel. Bank.

 

War without end. Because to name is to possess

the dreams of strangers, the temple

 

is offended by, demands the abolition of brothel, now theatre, now

school, the school despises temple, palace, market, bank; the bank by

 

refusing to name depositors welcomes all, though in rage prisoners each

night gnaw to dust another stone piling under the palace.

 

War without end. Therefore time past time:

 

Rip through the fabric. Nail it. Not

to the wall. Rip through

 

the wall. Outside

 

time. Nail it.

 

In: “Star Dust” (2005)

 

O Homem Quadrado

(Karel Appel: artista holandês)

 

Injunção

 

Como se os nomes que atribuímos às funções dos diversos prédios

nos radiografassem a alma, dando ensejo a uma guerra sem fim:

 

Palácio. Prisão. Templo. Escola.

Mercado. Teatro. Bordel. Banco.

 

Uma guerra sem fim. Porque nomear é passar a dispor

dos sonhos de estranhos, o templo

 

se ofende e exige a extinção do bordel – em seguida, do teatro, e por fim,

da escola; a escola, por sua vez, despreza o templo, o palácio, o mercado

e o banco; enquanto o banco,

 

recusando-se a identificar seus depositantes, acolhe a todos, embora

prisioneiros em fúria,

a cada noite, reduzam a pó mais uma pedra dos alicerces do palácio.

 

Uma guerra sem fim. Com isso, o tempo transcende o próprio tempo:

 

Rasgue a trama. Fixe-a. Não

 

sobre o muro. Derrube

 

o muro. Fixe-a

 

para além do tempo.

 

Em: “Poeira Estelar” (2005)

 

Referência:

 

BIDART, Frank. Injunction. In: PINSK, Robert (Guest Editor); LEHMAN, David (Series Editor). The best of the best american poetry: 25th anniversary edition. 1st Scribner Poetry edition. New York, NY: Scribner Poetry, apr. 2013. p. 29.

terça-feira, 7 de abril de 2026

William Blake - Milton (Excerto)

Neste excerto da longa narrativa redigida por Blake com o título “John Milton, um Poema”, tem-se a defesa da imaginação – em especial, a visionária – como uma forma do próprio poder da criação divina ou mesmo como chave para se perceber a verdade eterna, libertando o espírito das amarras da razão, do materialismo e da moralidade convencional.

 

O poeta advoga, a sério, a regeneração espiritual mediante o abandono de tudo o que é mecânico, racional e limitante, digo melhor, de todo o legado do empirismo e da ciência racional – apregoado por eminentes referências do pensamento moderno, como Bacon, Locke e Newton –, o qual, segundo ele, teria imposto “trajos andrajosos” a Albion (a personificação da Inglaterra ou, por extensão, a totalidade da humanidade caída e fragmentada), despojando a verdadeira poesia de suas revelações inspiradoras, de sua beleza e das emoções que costuma suscitar.

 

É a exaltação radical de todo o potencial criativo do homem, deixando-o de sujeitar à acumulação de memórias, a formalismos e a sistemas de pensamento rígido que muitas vezes resultam na adoção de padrões pré-estabelecidos na criação artística e na mera imitação da natureza, tudo como forma de dar espaço ao livre influxo da essência do que de mais profético há nas faculdades da mente humana.

 

J.A.R. – H.C.

 

William Blake

(1757-1827)

(Retratado por Thomas Phillips)

 

Milton

(Excerpt)

 

The Negation is the Spectre, the Reasoning Power in Man.

This is a false Body, an Incrustation over my Immortal

Spirit, a Selfhood which must be put off & annihilated alway.

To cleanse the Face of my Spirit by self-examination,

To bathe in the waters of Life; to wash off the Not Human

I come in Self-annihilation & the grandeur of Inspiration,

To cast off Rational Demonstration by Faith in the Saviour;

To cast off the rotten rags of Memory by Inspiration;

To cast off Bacon, Locke & Newton from Albion’s covering;

To take off his filthy garments & clothe him with Imagination;

To cast aside from Poetry all that is not Inspiration,

That it no longer shall dare to mock with the aspersion of Madness

Cast on the Inspired, by the tame high finisher of paltry Blots

Indefinite, or paltry Rhymes, or paltry Harmonies;

Who creeps into State Government like a caterpillar to destroy;

To cast off the idiot Questioner, who is always questioning

But never capable of answering, who sits with a sly grin

Silent plotting when to question, like a thief in a cave;

Who publishes Doubt & calls it Knowledge; whose Science is Despair,

Whose pretence to knowledge is Envy, whose whole Science is

To destroy the wisdom of ages to gratify ravenous Envy,

That rages round him like a Wolf day & night without rest.

He smiles with condescension; he talks of Benevolence & Virtue;

And those who act with Benevolence & Virtue, they murder time on time.

These are the destroyers of Jerusalem, these are the murderers

Of Jesus, who deny the Faith & mock at Eternal Life;

Who pretend to Poetry, that they may destroy Imagination

By imitation of Nature’s Images drawn from Remembrance.

These are the Sexual Garments, the Abomination of Desolation

Hiding the Human Lineaments, as with an Ark & Curtains

Which Jesus rent & now shall wholly purge away with Fire,

Till Generation is swallow’d up in Regeneration.

 

Renascimento de um Homem

(Pavel Filonov: pintor russo)

 

Milton

(Excerto)

 

A Negação é o Espectro, o Poder Raciocinador no Homem.

Este é um Corpo falso, uma Incrustação sobre o meu Espírito

Imortal, um Ego que deve ser despido & aniquilado para sempre.

Limpar o Rosto do meu Espírito em Exame de Consciência,

Para me banhar nas Águas da Vida e lavar o Não Humano

Venho em Autoaniquilação & em grandeza de Inspiração,

Livrar-me da Demonstração Racional pela Fé no Salvador;

Livrar-me dos trapos corrompidos da Memória pela Inspiração;

Expulsar Bacon, Locke & Newton do manto de Albion;

Despir-lhe os trajos andrajosos & vesti-lo de Imaginação;

Expulsar da Poesia tudo o que não for Inspiração;

Para que não mais se atreva a zombar com o epíteto de Loucura

Lançado sobre os Inspirados pelo insípido acabador de Borrões desprezíveis,

Indefinidas ou desprezíveis Rimas, ou desprezíveis Harmonias;

Quem rasteja para o Governo do Estado como a lagarta para destruir;

Para livrar-me do Perguntador idiota que está sempre a perguntar,

Mas nunca é capaz de dar uma resposta, que se senta com sorriso fingido

Congeminando a pergunta em silêncio, como um ladrão na gruta;

Que publica Dúvidas & chama-lhes Conhecimento; cuja Ciência é o Desespero,

Cuja pretensão ao conhecimento é a Inveja, cuja inteira Ciência é

Destruir o saber de muitas eras para gratificar a Inveja voraz,

Que grassa à sua volta como um Lobo, dia & noite, sem descanso.

Ele sorri com condescendência; fala de Benevolência & Virtude;

E os que agem com Benevolência & Virtude são assassinados vezes sem conta.

Estes são os destruidores de Jerusalém, estes são os assassinos

De Jesus, que negam a Fé & zombam da Vida Eterna;

Que se valem da Poesia, para destruírem a Imaginação

Por imitação de Imagens da Natureza desenhadas a partir da Lembrança.

Estas são as Vestes Sexuais, a Abominação da Desolação

Que esconde as Feições Humanas, como com uma Arca & Cortinas

Que Jesus rasgou, & agora há-de purificar inteiramente com Fogo,

Até a Geração se ver engolida pela Regeneração.

 

Referência:

 

BLAKE, William. Milton (Excerpt) / Milton (Excerto). Tradução de Manuel Portela. In: __________. Milton. Tradução, introdução e notas de Manuel Portela. Edição bilíngue: inglês x português. 1. ed. São Paulo, SP: Nova Alexandria, 2014. Em inglês: p. 216 e 218; em português: p. 217 e 219.

segunda-feira, 6 de abril de 2026

Luís Augusto Cassas - Remember Anchieta

Há uma explícita intertextualidade neste poema de Cassas, uma vez que alude ao poema “De Beata Virgine Dei Matre Maria” (“Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus”), do Padre José Anchieta (1534-1597), cujos 4.172 versos foram inicialmente redigidos em latim nas areias da Praia de Iperoig, no litoral paulista, e, posteriormente, editados em papel.

 

A menção a Anchieta não consiste em mero e fátuo adorno, senão em âncora discursiva por meio da qual se tecem contrastes entre a solidez, a transcendência e os méritos beatos de tal figura histórica, e a fragilidade do presente ato devoto do poeta: enquanto Anchieta mostra-se digno de ser exaltado – e até mesmo canonizado (*) –, em especial por haver-se dedicado ao “milagre maior: o da Poesia”, o autor revela-se consciente de sua própria vulnerabilidade, admitindo que, diferentemente do padre jesuíta, encontra-se à mercê da natureza e do incessante fluir do tempo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Luís Augusto Cassas

(n. 1953)

 

Remember Anchieta


Passeando descalço – pulmões inflados –

por essas praias solitárias do litoral

em companhia de gente muito importante:

o sol, as ondas, dunas, brisa, coqueiros e gaivotas,

(a mais de 3.000 km da Praia de Iperoig;

a 418 anos da 1ª edição do poema

Da Virgem Santa Maria Mãe de Deus)

às vezes detenho-me na alva areia,

e com o indicador escrevo teu nome: Maria.

Como quem procura as tuas mãos.

O mar – exército de lavadeiras – vem e apaga.

Escrevo de novo: Maria.

As ondas vêm, carregam a palavra,

arremessam-na contra os arrecifes:

teu nome vira sal e espuma.

4.172 vezes escrevo: Maria

4,172 vezes o mar vem e leva a areia.

Ó Editores do tempo! Pelas barbas de Gutemberg!

Ó Anchieta! Apóstolo da Palavra!

Merecias ser canonizado – Santo, Santo, Santo –

por realizares o teu milagre maior: o da Poesia.

Enquanto eu – sem a proteção

de Deus e da História,

mercê do mar, da chuva e maus ventos,

não deixarei vestígio:

pedra arremessada

alimento de peixes

ou fósforo apagado

na memória.

 

Anchieta – Poema à Virgem Maria

(Benedito Calixto: pintor brasileiro)

 

Nota:

 

(*). O que, de fato, veio a acontecer em 3 de abril de 2014, com a assinatura do decreto de sua canonização pelo Papa Francisco (1936-2025) – ele também pertencente à Companhia de Jesus –, tornando-se então Anchieta o terceiro santo brasileiro, em companhia de Madre Paulina (1865-1942) e de Frei Galvão (1739-1822).

 

Referência:

 

CASSAS, Luís Augusto. Remember Anchieta. In: BRAGA, Rubem (Comp.). A poesia é necessária. Organização de André Seffrin. 1. ed. São Paulo, SP: Global, 2015. p. 171-172.