Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Gottfried Benn - Sala de Parturientes ‎

O poeta, enquanto médico, deve ter presenciado inúmeras vezes, em Berlim (AL), a cena ora descrita: mulheres pobres – prostitutas, prisioneiras, párias –, em trabalho de parto, são orientadas pelo obstetra para levar as circunstâncias a contento, trazendo à luz os filhos “ungidos” por urina e excrementos.

Um rápido escólio: ao verter o poema ao português, julguei, ao final, que houvesse me equivocado com as cifras que nele constam – treze, doze e onze –, mas ao me certificar da não existência de falha, ficou-me a impressão de que o autor estivesse aludindo ao número de apóstolos de Cristo, o ungido, computando-se ele próprio entre os treze, não se inserindo entre os doze e menos ainda, sem Judas, entre os onze. Ou tudo terá sido mera coincidência?...

J.A.R. – H.C.

Gottfried Benn
(1886-1956)

Saal der Kreissenden Frauen

Die ärmsten Frauen von Berlin
– dreizehn Kinder in anderthalb Zimmern,
Huren, Gefangene, Ausgestossene –
krümmen hier ihren Leib und wimmern.
Es wird nirgends so viel geschrien.
Es wird nirgends Schmerzen und Leid
so ganz und gar nicht wie hier beachtet,
weil hier eben immer was schreit.

“Pressen Sie, Frau! Verstehn Sie, ja?
Sie sind nicht zum Vergnügen da.
Ziehn Sie die Sache nicht in die Länge.
Kommt auch Kot bei dem Gedränge!
Sie sind nicht da, um auszuruhn.
Es kommt nicht selbst. Sie müssen was tun!”
Schliesslich kommt es: bläulich und klein.
Urin und Stuhlgang salben es ein.

Aus elf Betten mit Tränen und Blut
grüsst es ein Wimmern als Salut.
Nur aus zwei Augen bricht ein Chor
Von Jubilaten zum Himmel empor.

Durch dieses kleine fleischerne Stück
wird alles gehen: Jammer und Glück.
Und stirbt es dereinst in Röcheln und Qual,
Liegen zwölf andere in disem saal.

Cena de Parto
(Pintura francesa anônima)

Sala de Parturientes

As mulheres mais pobres de Berlim
– treze meninas em uma sala e meia,
prostitutas, prisioneiras, párias –
aqui se contorcem e gemem.
Em nenhum outro lugar há tanto grito.
Em nenhum outro lugar a dor e o sofrimento
são tão completamente ignorados,
Pois aqui há sempre algo que grita sem cessar.

“Pressione, mulher! Porventura não entende?
Você não está aqui para se divertir.
Não torne as coisas tão demoradas.
Que venham também as fezes com a pressão!
Você não está aqui para matar o tempo.
Não sairá sozinho. Você tem que fazer algo!”
Finalmente aparece: azulado e pequeno.
A urina e as fezes o ungem.

Em onze leitos de lágrimas e sangue
há uma gemido como saudação.
Um coro irrompe não mais que de dois olhos
para dar júbilos aos céus.

Por esta pequena porção de carne
tudo há de passar: miséria e felicidade.
E acaso morra em estertores e agonias,
Outros doze preencherão esta sala.

Referência:

BENN, Gottfried. Saal der kreissenden frauen. In: KAUFMANN, Walter (Editor, translator and introducer). Twenty german poets. A bilingual collection: german x english. 1st. printing. New York, NY: Random House, 1962. p. 272.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Walt Whitman - Quando ouvi o astrônomo erudito ‎

Num tom quase anedótico, Whitman nos coloca frente às distinções entre a aprendizagem acadêmica e aquela que decorre da experiência, pelo emprego de nossas faculdades sensitivas: o ouvinte – o próprio sujeito lírico – entende como tediosas as preleções de um astrônomo sobre as estrelas, eis que carregadas de fórmulas matemáticas.

Não há nada melhor do que ir até o ar livre e olhar para o céu noturno para se ter conexão mais plena com o assunto, circunstância que não se pode experimentar dentro da sala de aula, pouco importando o quanto entendido na matéria seja o mestre: experimentar as maravilhas que a vida nos oferece seria, para Whitman, a forma mais propícia para se aprender.

A atualizar o conteúdo do poema, diria que a desconexão de determinados assuntos que são ministrados em classe, relativamente à realidade empírica, torna-os menos apreensíveis pelos discentes, dificultando a aprendizagem: algo assim como as inferências trazidas a debate pelo educador pernambucano Paulo Freire.

J.A.R. – H.C.

Walt Whitman
(1819-1892)

When I heard the learn’d astronomer

When I heard the learn’d astronomer,
When the proofs, the figures, were ranged in columns before me.
When I was shown the charts and diagrams, to add, divide, and
measure them.
When I sitting heard the astronomer where he lectured with much
applause in the lecture-room,
How soon unaccountable I became tired and sick,
Till rising and gliding out I wander'd off by myself.
In the mystical moist night-air, and from time to time,
Look’d up in perfect silence at the stars.

In: “By the roadside”

O Astrônomo
(Johannes Vermeer: pintor holandês)

Quando ouvi o astrônomo erudito

Quando ouvi o astrônomo erudito,
Quando as provas, os números, foram listados em colunas diante
de mim,
Quando me foram apresentados os mapas e diagramas, para
somar, dividir e medi-los,
Quando eu, sentado, ouvi o astrônomo no auditório em que
apresentava sua palestra com grande aplauso,
Bem cedo e sem conta me senti cansado e enojado,
Até que, levantando-me e saindo silenciosamente, fui perambular
na solidão,
No místico ar úmido da noite e, de tempo em tempo,
Mirava no céu a perfeição silenciosa das estrelas.

Em: “À margem da estrada”

Referências:

Em Inglês

WHITMAN, Walt. When I heard the learn’d astronomer. In: __________. Leaves of grass. London, EN: G. P. Putnam’s Sons; Boston, MA: Small, Maynard & Company, 1903. p. 214

Em Português

WHITMAN, Walt. Quando ouvi o astrônomo erudito. Tradução de Luciano Alves Meira. In: __________. Folhas de relva. Texto integral. Tradução e introdução de Luciano Alves Meira. 2. ed. São Paulo (SP): Martin Claret, 2012. p. 275. (Série Ouro: Coleção A Obra-Prima de Cada Autor; n. 42)

segunda-feira, 18 de junho de 2018

Teófilo Dias de Mesquita - O Rio e o Vento ‎

Trago aqui, em ortografia atualizada, um poema do poeta maranhense a descrever cena que muito se parece às vivenciadas num cenário amazônico: chuvas torrenciais, trovões e raios infernais – e o grande rio a uma velocidade que a tudo arrasa em suas margens, revolvendo ininterruptamente o seu leito.

Tem-se, paralelamente, a indefectível comparação que se faz do rio àqueles que marcham, em resoluta convicção, no rumo adotado, “fecundando o dever em cada consciência”, “nutrindo de amor os corações incultos”, pouco dando azo aos insultos e à insolência dos que desdenham, presumivelmente, o poder da razão e da ciência.

J.A.R. – H.C.

Teófilo Dias de Mesquita
(1854-1889)

O Rio e o Vento

(A Pereira da Costa)

Muitas vezes se vê, sobre os rios do Norte,
Na quadra em que o calor abafa mais ardente,
Horríssono tufão rugir, sanhudo e forte,
Em direção contrária à indômita corrente.

Frenéticos pegões, com impávidos roncos,
Arrancados com fúria às validas entranhas,
No impetuoso correr lascam os velhos troncos,
E fazem desabar as pedras das montanhas.

De encontro às águas rui a túrbida descarga,
E em brusco assalto ferve, e remoinha e brama;
 Sem cólera, encrespando a superfície larga,
Através da floresta o rio se derrama.

Como um atleta, o vento, em porfiado esforço,
Cava a úmida arena; – o rio, que se empola,
Sob a afronta eriçando o majestoso dorso,
Com lento passo igual à rude massa rola.

Apenas, nesse dorso hercúleo, que fumega,
Brincam da espuma errante os fervidos matizes,
E ele vai fecundando as regiões, que rega,
Nutrindo e avigorando as sôfregas raízes.

Ideal! ideal! tu és como esse rio!
– Sem ouvir o clamor dos cetros, das tiaras,
Com grave placidez, imperturbável, frio,
Vais rolando em triunfo as tuas ondas claras.

Embalde sobre ti a bava dos insultos
O preconceito cospe, e golfeja a insolência:
– Vais nutrindo de amor os corações incultos, 
Fecundando o dever em cada consciência.

Fatigando ao passado a resistência, a fúria,
Marchas para o futuro inalteravelmente;
Não te pôde sustar a força, nem a injúria:
– O tufão não suspende aos rios a corrente!

Rio sob Ventania em Wyoming
(Albert Bierstadt: pintor germano-americano)

Elucidário:

Horríssono – que faz um som pavoroso, aterrador;
Sanhudo – temível, terrível;
Pegões – fortes ventanias;
Validas – protegidas, preservadas;
Túrbida – transtornante, inquietante;
Bava – saliva, baba;
Golfeja – expele, escarra.

Referência:

MESQUITA, Teófilo Dias de. O rio e o vento. In: OLIVEIRA, Alberto de (Edição e seleção). Páginas de ouro da poesia brasileira. Rio de Janeiro: H. Harnier, 1911. p. 376-377.

domingo, 17 de junho de 2018

Amiri Baraka - O Novo Mundo ‎

Baraka foi um dos poetas da geração “beat” nos anos cinquenta, embora, algumas décadas depois, dela tenha se distanciado, quando se dedicou às questões de ordem social e racial – sendo ele um negro –, motivo por que algumas linhas deste seu poema tecem críticas ao falso comportamento da sociedade norte-americana.

Observa-se certo paralelismo na mensagem de Baraka com a de alguns versos de outro grande poeta da mesma geração – nominalmente Allen Ginsberg –, a exemplo das linhas preambulares de Howl” (“Uivo”), a denotar a crise de uma geração inteira afogada em “sexo, drogas e rock & roll”.

J.A.R. – H.C.

Amiri Baraka
(1934-2014)

The New World

The sun is folding, cars stall and rise
beyond the window. The workmen leave
the street to the bums and painters’ wives
pushing their babies home. Those who realize
how fitful and indecent consciousness is
stare solemnly out on the emptying street.
The mourners and soft singers. The liars,
and seekers after ridiculous righteousness. All
my doubles, and friends, whose mistakes cannot
be duplicated by machines, and this is all of our
arrogance. Being broke or broken, dribbling
at the eyes. Wasted lyricists, and men
who have seen their dreams come true, only seconds
after they knew those dreams to be horrible conceits
and plastic fantasies of gesture and extension,
shoulders, hair and tongues distributing misinformation
about the nature of understanding. No one is that simple
or priggish, to be alone out of spite and grown strong
in its practice, mystics in two-pants suits. Our style,
and discipline, controlling the method of knowledge.
Beatniks, like Bohemians, go calmly out of style. And boys
are dying in Mexico, who did not get the word.
The lateness of their fabrication: mark their holes
with filthy needles. The lust of the world. This will not
be news. The simple damning lust,
float flat magic in low changing
evenings. Shiver your hands
in dance. Empty all of me for
knowing, and will the danger
of identification,

Let me sit and go blind in my dreaming
and be that dream in purpose and device.

A fantasy of defeat, a strong strong man
older, but no wiser than the defect of love.

(1969)

A casa dissoluta ou os
efeitos da intemperança
(Jan Havickszoon Steen: pintor holandês)

O Novo Mundo

O sol vai se pondo, os carros congestionam e se insurgem
do outro lado da janela. Os operários deixam
a rua aos mandriões e as esposas dos pintores
empurram os seus bebês para casa. Aqueles que se dão conta
de quão volúvel e indecente é a consciência,
ficam a contemplar solenemente a rua vazia.
Os dolentes e afáveis cantores. Os embusteiros
e os que correm atrás de uma justiça ridícula. Todos
os meus sósias e amigos, cujos erros não podem
ser duplicados por máquinas, e isso é toda a nossa
arrogância. Existências falidas ou quebradas, ressumando
aos olhos. Letristas desperdiçados e homens
que, vendo seus sonhos tornar-se realidade, apenas alguns
segundos depois souberam que tais sonhos eram conceitos
horríveis e fantasias plásticas de gesto e extensão,
ombros, cabelos e língua a distribuir desinformação
sobre a natureza do entendimento. Ninguém é tão simples
ou pretensioso para estar sozinho por despeito e tornar-se forte
em sua prática, feito místicos em ternos completos. Eis nosso estilo
e disciplina a manter sob controle o método do conhecimento.
Beatniks, como Boêmios, saem da moda tranquilamente. E garotos
estão morrendo no México, sem que tenham apreendido a palavra.
A demora na produção: fique atento às suas picuras
com agulhas sujas. A luxúria do mundo. Isso não
será notícia. A simples e maldita luxúria,
flutue na monótona magia em noites que pouco
se alteram. Desembarace suas mãos
ao dançar. Esvazie tudo de mim diante do
conhecimento, e deseje o perigo da identificação.

Deixe-me sentar e quedar-me cego em meu sonhar
e ser esse sonho em intenção e programa.

Uma fantasia de derrota, um homem bem mais forte,
mais velho, porém não mais sábio que o defeito do amor.

(1969)

Referência:

BARAKA, Amiri. The new world. In: HOOVER, Paul (Ed.). A postmodern american poetry: a norton anthology. New York, NY: W. W. Norton & Company Inc., 1994. p. 261-262.

sábado, 16 de junho de 2018

William Wordsworth - O Mundo ‎

O poeta deplora o fato de o homem ter-se afastado da natureza e entrado de cabeça na sociedade industrial, onde o que impera é a premência do tempo e a força do dinheiro. Lua sobre o mar, brisas, flores, campinas e entidades mitológicas? Isso seriam coisas de quem está em afinidade com outro comprimento de onda, mas não em ressonância com a anunciada modernidade!

O mundo é demais para nós! Perdemos tempo com nossos afãs materiais e deixamos de usufruir o que sai de graça para qualquer um: ser feliz em se viver na contemplação do conhecimento e do cuidado de si, com fundamentos éticos e no exercício da virtude. Sócrates desejaria algo mais?!...

J.A.R. – H.C.

William Wordsworth
(1770-1850)
Retrato de Henry William Pickersgill

The world is too much with us; late and soon

The world is too much with us; late and soon,
Qetting and spending, we lay waste our powers:
Little we see in Nature that is ours;
We have given our hearts away, a sordid boon!
The Sea that bares her bosom to the moon;
The winds that will be howling at all hours,
And are up-gathered now like sleeping flowers,
For this, for everything, we are out of time;
It moves us not. – Great God! I’d rather be
A pagan suckled in a creed outwom;
So might I, standing on this pleasant lea,
Have glimpses that would make me less forlon;
Have sight of Proteus rising from the sea;
Or hear old Triton blow his wreathèd horn.

Vista de Constantinopla ao Luar
(Ivan Aivazovsky: pintor russo)

O mundo

Insuportável mundo! A obter e jogar fora,
nós arrasamos, tarde ou não, nosso vigor:
pouco de nosso vemos, natureza afora;
demos o coração, em sórdido favor!

O mar que à Lua mostra o peito, em seu fragor;
os ventos que estarão uivando a toda hora,
mas, como flores a dormir, calam-se agora:
nada nos move: eu preferia, Deus senhor,

pois que nosso ânimo com coisa alguma afina,
ser um pagão nutrido em gasta, anciã doutrina,
para que me sentisse menos desvalido

ao vislumbrar rápidos vultos na campina:
queria ver Proteu, do azul do mar surgido,
e ouvir Tritão soprar o búzio retorcido.

Referência:

WORDSWORTH, William. The world is too much with us; late and soon / O Mundo. Tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos. In: CHAUCER, Geoffrey et al. Poetas da Inglaterra. Edição bilíngue. Tradução e notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos em colaboração com Paulo Vizioli. São Bernardo do Campo, SP: Secretaria da Cultura, Esporte e Turismo do Estado de São Paulo; Bandeirante S. A. Indústria Gráfica, dez. 1970. Em inglês: p. 150; em português: p. 151.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Léo Lynce - Babel ‎

O poeta, cujo nome real era Cyllenéo Araújo, emprega a metáfora bíblica da torre de Babel – esse zigurate que não logrou chegar ao objetivo intentado pelos filhos de Noé –, para dizer-se incompreendido em sua própria terra, pois lhe parece que são distintos os idiomas que emprega e aquele em que se comunicam os seus pares.

Ora ora, se o poeta é Cileneu, deveria fazer jus aos atributos de Mercúrio, tornando-se um mensageiro mais acurado dos deuses do Parnaso, ou por outra, igualar-se a Hermes, pela interpretação das mensagens das musas, trazendo-as ao entendimento circunscrito dos comuns mortais (rs).

J.A.R. – H.C.

Léo Lynce
(1884-1954)
Bico de pena de Amaury Menezes

Babel

Louco intento dos filhos de Noé:
por arcadas de sólida estrutura
suspensa, enorme, colossal, de pé,
a torre avulta, ao céus em direitura.

E avulta e cresce e sobe mais, até
que do possível Deus limita a altura.
Entre as raças de Sem, Cã e Jafé
a língua primitiva se mistura.

Muito alto pus o ideal – outra Babel –
e desde então vagueio, incompreendido
da turba aos encontrões, no seu tropel,

de pouso em pouso, por vaiado ou serra,
sem que ninguém me entenda um só gemido,
– estrangeiro na minha própria terra!

A Torre de Babel
(Pieter Bruegel, o Velho: pintor flamengo)

Referência:

LYNCE, Léo. Babel. In: __________. Poesia quase completa. Goiânia, GO: Editora da UFG, 1997. p. 187.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

Mark Strand - A Predição ‎

O tema deste poema é um presságio interessante: uma mulher, num tempo que, no futuro, já terá se tornado passado, a pensar na morte, contemporaneamente a um homem que escreve um poema sobre, exatamente, uma mulher que pensava na morte. Nessa oportunidade, as crianças já tomaram rumo, o marido também já terá partido...

O clarão da lua acentua o efeito premonitório e sombrio da mensagem, capaz de nos fazer refletir sobre o que acontecerá com nossos familiares e pertences quando estivermos em outros planos de existência – se é que os há –, circunstância sob a qual não há que se falar em palavras sobre o papel, pois a escuridão a tudo terá sobrepujado.

J.A.R. – H.C.

Mark Strand
(1934-2014)

The Prediction

That night the moon drifted over the pond,
turning the water to milk, and under
the boughs of the trees, the blue trees,
a young woman walked, and for an instant

the future came to her:
rain falling on her husband’s grave, rain falling
on the lawns of her children, her own mouth
filling with cold air, strangers moving into her house,

a man in her room writing a poem, the moon drifting into it,
a woman strolling under its trees, thinking of death,
thinking of him thinking of her, and the wind rising
and taking the moon and leaving the paper dark.

Árvores Azuis
(Evi Schartner: artista austríaca)

A Predição

Naquela noite a lua flutuou sobre a lagoa,
transformando a água em leite, e debaixo
dos galhos das árvores, das árvores azuis,
uma jovem caminhava e, por um instante,

o futuro a alcançou:
a chuva caindo sobre a tumba do marido, a chuva
caindo sobre o relvado dos filhos, sua própria boca
fartando-se de ar frio, a casa tomada por estranhos,

um homem escrevendo um poema em seu quarto,
a lua a flutuar dentro dele,
uma mulher perambulando por baixo das árvores,
matutando sobre a morte,
pensando nele pensando nela, e a aragem em alta
levando consigo a lua, deixando turvado o papel.

Referência:

STRAND, Mark. The prediction. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 326.