A voz, para além de
ser um mero som que se emite ao interagirmos com o mundo, é o reflexo da
existência mesma, o resultado de um processo contínuo de criação, de
confrontação com a escuridão interna e de conversão da dor – quase um alimento
para neutralizar o vazio que nos vai na alma – em sustento vital, tornando-nos
verdadeiramente humanos e dotados de uma nova e autêntica identidade.
Ao acolher tanto as
luzes quanto as sombras que coexistem dentro de nós, expomos, por igual, a dualidade
do eu que cria e do duplo que emerge desse ato, imbricados num fluxo imparável –
entre sereno e turbulento –, no qual tristeza e dor, palavras e silêncio, fundem-se
para renovar a essência do ser, aproximando-nos quotidianamente dos arcanos inefáveis
da poesia.
J.A.R. – H.C.
Vitorino Nemésio
(1901-1978)
A minha voz
Vamos a ver se te
levanto
Com estas palavras
escuras
Que são a luz do meu
canto.
Vamos a ver se pode
ser.
Na minha lama azeda e
quente
Crias a tua forma
E compões o teu vulto
no meu amor,
Por isso creio que és
gente.
Toma lá pão, sinal
humano,
Conhecimento e dor.
Bem, já existes,
Embora sem a graça de
um nome;
Eu, que te sinto em
mim, já não hei-de chamar-te.
Quando acabares o
pão, pede mais,
Pois te darei a tua
parte:
Já resolvi ficarmos
tristes
Para matar a fome,
Que os tristes a tudo
são fatais.
Aí está: triste. Se era a palavra, aí está.
Tens frio, e um nome
é manta pela cabeça:
Talvez abrigue a
cabeça de quem vá
Sozinho, à noite,
pelos caminhos ladrados
De uma aldeia
estelar, sem fim, que em mim começa.
Seu nome, como um
Outro, serve de companhia:
Só os viandantes são
enganados
Sobre a verdade de
quem lá ia.
Vamos a ver se eu te
crio,
A ti que me encheste
de ser
E enches o escuro de
confiança
Adiante dos meus
passos,
Como os choupos levam
o rio.
Sai um pouco de mim
para eu te ver,
Cuida a tua aparência.
Abre na escuridão um
rodado qualquer
E veste-te de lume ou
de essência
Ou do teu cabelo, se és
mulher.
Quando te cito,
canta,
Longe, uma voz
diversa.
Uma voz aguda como um
grito e o espinho que o fez dar.
Ninguém lhe conhece
garganta:
É uma simples coisa
imersa
Em mim, na noite e no
mar.
Outras vezes não te
cito: tu me citas,
A tua angústia trava
o meu mínimo gesto,
Tremo diante do teu
látego,
Cheio de palavras
aflitas
E do suor do meu
protesto.
Então do meu transe
se adianta
O teu vulto coberto
do meu vulto,
E é sempre assim que
o meu duplo canta.
O farrapo de mim, a
que se agarraram uns limos,
Lá no seu tanque
pútrido mexe,
Lá vive e cria suas
bichezas.
Assim nos vimos,
Minha voz:
Assim o cabo do
látego remexe
Bichos, limos, vozes,
tristezas.
E tudo isto dentro de
nós.
Em: “O Bicho Harmonioso”
(1930)
Formas de plantas
(Margaret Watts
Hughes: artista galesa)
Referência:
NEMÉSIO, Vitorino. A
minha voz. In: HELDER, Herberto. Edoi Lelia Doura: antologia das vozes
comunicantes da poesia moderna portuguesa. Lisboa, PT: Assírio & Alvim,
1985. p. 157-158.
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