Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 13 de abril de 2026

George Thaniel - Não Progrido

O poeta greco-canadense contrapõe à ideia de um progresso sem desvios, sempre a avançar em linha reta, um percurso interior que se retorce e se reverte sobre si mesmo, em “inescapáveis círculos”, evocando, dessa maneira, a natureza cíclica e reiterativa da vida, nem sempre a fluir do modo que se julga convencional – para a frente –, embora, seja como for, não deixe de ser bela em suas repetições e peculiar autenticidade.

 

Ao reconhecer o inalterável em si mesmo – resguardado imperturbavelmente em sua “concha” interior, à espera de ser descoberto –, a voz poética, longe de atribuir uma conotação fatalista puramente negativa em relação ao seu destino, interpreta-o como um ato libertador, mediante o qual se reconhece como um acumulado de intensas e distintivas experiências, no curso das quais parece estar num contínuo reencontro consigo mesmo, mantida a própria essência do ser, a despeito dos vaivéns emocionais e temporais.

 

J.A.R. – H.C.

 

George Thaniel

(1938-1991)

 

I Do Not Progress

 

I do not walk the line

to some visible end,

I snake my way inside

inescapable circles.

 

This revelation did not come to me

with maturity.

It had always been there,

in the muted sobs

of my childhood,

the inflammations

of adolescence,

the oyster-shells of my later years.

 

Yes, I was born

as I still am today.

You would call this fate.

 

Homem numa concha

(Imagem sem créditos)

 

Não Progrido

 

Não sigo em linha reta

rumo a algum fim visível,

serpenteio minha trilha no interior

de inescapáveis círculos.

 

Tal revelação não me chegou

com a maturidade.

Sempre esteve ali,

nos soluços abafados

da minha infância,

nas exaltações

da adolescência,

nas conchas de ostra dos meus últimos anos.

 

Sim, nasci

como ainda sou hoje.

Dir-se-ia que isso é destino.

 

Referência:

 

THANIEL, George. I do not progress. Translated from Greek to English by Edward Phinney. In: __________. Seawave & Snowfall: selected poems (1960-1982). Toronto, CA: Amaranth Editions, 1984. p. 31.

domingo, 12 de abril de 2026

Gilberto Mendonça Teles - Língua

Um dos muitos poemas da série “Descobrimento”, insertos na coletânea “Plural de Nuvens”, de 1984, este soneto de Teles, com inusual topografia, alberga a ideia de que o idioma é algo maleável, adaptável aos numerosos contextos e culturas em que se inserto, interagindo com diferentes realidades sem se deformar por completo, o que, em última instância, atesta as suas propriedades “elásticas”, como flexibilidade e resistência.

 

Sob tal mirada, exposta ao que há de mais contingente na história, a língua se enriquece e se molda aos novos falares de cada época, sem perder a sua autenticidade, sua resiliente identidade, haja vista que dificilmente reciclável ou substituível, apesar dos efeitos de desgaste provocados pelo tempo sobre determinados vocábulos ou formas estruturantes do discurso.

 

Sem nunca retornar ao seu estado original depois de retesado, segue então o idioma como a vida, a incorporar de modo irreversível as transformações pelas quais passa – os efeitos de eventuais coloquialismos, de reiteradas inflexões lúdicas ou mesmo os revérberos dos humores daqueles que a empregam no quotidiano –, passando a espelhar a beleza intrínseca de seu distintivo processo evolutivo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gilberto Mendonça Teles

(1931-2024)

 

Língua

 

Esta língua é como um elástico

que espicharam pelo mundo.

 

No início era tensa,

de tão clássica.

 

Com o tempo, se foi amaciando,

foi-se tornando romântica,

incorporando os termos nativos

e amolecendo nas folhas de bananeira

as expressões mais sisudas.

 

Um elástico que já não se pode

mais trocar, de tão gasto;

nem se arrebenta mais, de tão forte.

 

Um elástico assim como é a vida

que nunca volta ao ponto de partida.

 

Em: “Plural de Nuvens” (1984)

 

Conexão lúdica com o abstrato

(Juan Carlos Navarro: artista mexicano)

 

Referência:

 

TELES, Gilberto Mendonça. Língua. In: __________. Melhores poemas de Gilberto Mendonça Teles. Seleção de Luiz Busatto. 4. ed. revista, ampliada e atualizada. São Paulo, SP: Global, 2007. p. 203. (Coleção “Melhores Poemas”)

sábado, 11 de abril de 2026

Octavio Paz - Como quem ouve chover

O poeta traça uma ponte bem-composta entre o mundo exterior – representado pela chuva, a neblina e as paisagens noturnas – e o mundo interior, povoado por sentimentos e memórias: na repetição do verso “ouve-me como quem ouve chover” tem-se um mantra a postular certa entrega perceptual ao sutil e ao efêmero que há no som da chuva, que se capta quase sem querer, mas que nos envolve de imediato.

 

O que Paz nos propõe é que aumentemos o nível de nossa receptividade, ao que nos alcança por meio dos sentidos, para além da compreensão consciente. Para tanto, submete os versos a um fluxo corrente no poema, carregando-os de imagens sinestésicas, mescladas entre o tangível e o imaterial, entre o estático e o dinâmico, com o claro objetivo de arrastar o leitor para o cerne mesmo desta evanescente paragem – “um vago jardim à deriva”, que é tudo o que temos enquanto por aqui estivermos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Octavio Paz

(1914-1998)

 

Como quien oye llover

 

Óyeme como quien oye llover,

ni atenta ni distraída,

pasos leves, llovizna,

agua que es aire, aire que es tiempo,

el día no acaba de irse,

la noche no llega todavía,

figuraciones de la niebla

al doblar la esquina,

figuraciones del tiempo

en el recodo de esta pausa,

óyeme como quien oye llover,

sin oírme, oyendo lo que digo

con los ojos abiertos hacia adentro,

dormida con los cinco sentidos despiertos,

llueve, pasos leves, rumor de sílabas,

aire y agua, palabras que no pesan:

lo que fuimos y somos,

los días y los años, este instante,

tiempo sin peso, pesadumbre enorme,

óyeme como quien oye llover,

relumbra el asfalto húmedo,

el vaho se levanta y camina,

la noche se abre y me mira,

eres tú y tu talle de vaho,

tú y tu cara de noche,

tú y tu pelo, lento relámpago,

cruzas la calle y entras en mi frente,

pasos de agua sobre mis párpados,

óyeme como quien oye llover,

el asfalto relumbra, tú cruzas la calle,

es la niebla errante en la noche,

es la noche dormida en tu cama,

es el oleaje de tu respiración,

tus dedos de agua mojan mi frente,

tus dedos de llama queman mis ojos,

tus dedos de aire abren los párpados del tiempo,

manar de apariciones y resurrecciones,

óyeme como quien oye llover,

pasan los años, regresan los instantes,

¿oyes tus pasos en el cuarto vecino?

no aquí ni allá: los oyes

en otro tiempo que es ahora mismo,

oye los pasos del tiempo

inventor de lugares sin peso ni sitio,

oye la lluvia correr por la terraza,

la noche ya es más noche en la arboleda,

en los follajes ha anidado el rayo,

vago jardín a la deriva

– entra, tu sombra cubre esta página.

 

En: “Árbol adentro” (1987)

 

Casal caminhando na chuva

(Dioteema Ganguly: artista indiana)

 

Como quem ouve chover

 

Ouve-me como quem ouve chover,

nem atenta sem distraída,

passos leves, chuvisco,

água que é ar, ar que é tempo,

o dia teima em não passar,

a noite ainda não chegou,

figurações da neblina

ao contornar a esquina,

figurações do tempo

na curva desta pausa,

ouve-me como quem ouve chover,

sem me ouvir, ouvindo o que digo

com os olhos abertos para dentro,

adormecida com os cinco sentidos despertos,

chove, passos leves, rumor de sílabas,

ar e água, palavras que não pesam:

o que fomos e o que somos,

os dias e os anos, este momento,

tempo sem peso, pesar enorme,

ouve-me como quem ouve chover,

o asfalto molhado brilha,

o vapor sobe e se difunde,

a noite se abre e me olha,

és tu e a tua vaporosa silhueta,

és tu e o teu rosto de noite,

tu e os teus cabelos, moroso relâmpago,

atravessas a rua e entras em minha fronte,

passos d’água sobre minhas pálpebras,

ouve-me como quem ouve chover,

o asfalto brilha, tu atravessas a rua,

é a névoa errante na noite,

é a noite adormecida em tua cama,

é o ondular de tua respiração,

teus dedos d’água molham minha fronte,

teus dedos de chama queimam meus olhos,

teus dedos de ar abrem as pálpebras do tempo,

manar de aparições e de ressurreições,

ouve-me como quem ouve chover,

passam os anos, regressam os momentos,

ouves os teus passos no quarto ao lado?

nem aqui nem ali: ouves-nos

num outro tempo que é exatamente agora,

ouve os passos do tempo,

inventor de lugares sem peso nem local,

ouve a chuva correr pelo terraço,

a noite já é mais noite no bosque,

o relâmpago aninhou-se na folhagem,

vago jardim à deriva

– entra, tua sombra cobre esta página.

 

Em: “Árvore por dentro” (1987)

 

Referência:

 

PAZ, Octavio. Como quien oye llover. In: MIRANDA, Rocío (Ed.). 24 poetas latinoamericanos. 1. ed. México, D.F.: CIDCLI, 1997. p. 164-165. (Coedición “Latinoamericana”)

sexta-feira, 10 de abril de 2026

Brasileirão 2026 – Série “A”: Fim da 10ª Rodada - Projeções do Modelo Esotérico-Matemático (MEM)

Prezado(a)s amantes do ludopédio: vão aqui as primeiras projeções do MEM para o Brasileirão 2026 – Série “A”, já aperfeiçoadas as métricas do modelo para o histórico dos últimos 5 (cinco) certames em pontos corridos (2021 a 2025), considerando, ademais, que, neste momento, Bahia, Botafogo, Chapecoense, Flamengo, Mirassol e Vitória têm um jogo a menos do que as demais equipes.

 

Para vê-las em maiores detalhes, clique em cima de cada imagem abaixo.

 

Observe-se que todos os dados empregados nas projeções das três últimas tabelas, postadas a seguir, foram extraídos aos ‘sites’ abaixo indicados, pela manhã do presente dia (10.4.2026).

 

Voltaremos ao final da 15ª rodada, para novas projeções.

 

Um abraço a todo(a)s.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fontes:

 

Chance de Gol

Infobola

UFMG Matemática

 

 

Herman Melville - O Banco dos Camponeses

Este poema de Melville, inspirado em obra do artista flamengo David Teniers, o Jovem (1610-1690) – uma écfrase, portanto, a transpor algo do universo pictórico para o âmbito literário –, pode ser lido como uma sátira à mediania e à letargia humana, notoriamente engendradas por um pensamento que, mesmo quando permeado de maiores ambições, não tem força para superar o peso da inapetência por transcender os limites de um modo de vida opressivamente rotineiro.

 

Os três sextetos, à maneira da própria pintura na qual se estriba, têm muito de caricaturais, mas longe de se restringirem aos formalismos da estilização, são também, a meu ver, propositivos, visto que expressam reflexões do autor nas searas do social e do filosófico, incitando-nos a que saiamos do conformismo – tão característico das massas –, para elevarmos o espírito num esforço resoluto da vontade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Herman Melville

(1819-1891)


The Bench of Boors (*)

 

In bed I muse on Tenier’s boors,

Embrowned and beery losels all:

A wakeful brain

Elaborates pain:

Within low doors the slugs of boors

Laze and yawn and doze again.

 

In dreams they doze, the drowsy boors.

Their hazy hovel warm and small:

Thought’s ampler bound

But chill is found:

Within low doors the basking boors

Snugly hug the ember-mound.

 

Sleepless, I see the slumberous boors

Their blurred eyes blink, their eyelids fall:

Thought’s eager sight

Aches – overbright!

Within low doors the boozy boors

Cat-naps take in pipe-bowl light.

 

Campônios bebendo

(David Teniers, o Jovem: pintor flamengo)

 

O Banco dos Camponeses

 

Na cama medito nos camponeses de Tenier,

A penumbra e a embriaguez tudo dilui:

Uma mente desperta

Concebe a dor:

Em casas humildes os indolentes camponeses

Preguiçam e bocejam e de novo dormitam.

 

Em sonhos dormitam, os sonolentos camponeses.

Seus ébrios casebres, quentes e pequenos:

O pensamento deve voar

Mas o frio tolhe-o.

Em casas humildes os imóveis camponeses

Aconchegam-se em torno das braseiras.

 

Sem sono, vejo os sonolentos camponeses,

Seus olhos enevoados pestanejam, suas pestanas fecham-se:

A nítida visão do pensamento

Dói – tão intensa é a sua luz!

Em casas humildes os ébrios camponeses

Dormitam envoltos na névoa dos cachimbos.


Nota do Tradutor:

 

(*). Ekphrasis de um quadro do pintor flamengo muito admirado por Melville, David Teniers. (MELVILLE, 2009, p. 98)

 

Referência:

 

MELVILLE, Herman. The bench of boors / O banco dos camponeses. Tradução de Mário Avelar. In: __________. Poemas. Selecção, tradução e introdução de Mário Avelar. Edição bilíngue. Lisboa, PT: Assírio & Alvim, 2009. Em inglês: p. 76; em português: p. 77. (“Documenta Poética”; v. 128)