Nesta incisiva
elocução poética, Bataille esquematiza uma cartografia do terreno que leva até
o sagrado, através da “noite escura da alma”, da negação do eu e da repulsão
visceral, num processo de dilaceração que se traduz pela embriaguez dos limites,
pelo desejo ardente de morte para tudo o que se foi obrigado a ser, visando ao objetivo
maior de encontrar vida em sua forma mais vertiginosa e verdadeira.
Tem-se aí uma
experiência que busca transcender as raias da razão, da linguagem, da lógica e do
núcleo da própria identidade, num movimento de libertação que se pretende na
mais absoluta imanência, regredindo-se a um estado indiferenciado,
dissolvendo-se ao informe e ao que escapa a qualquer controle humano: eis o “espanto
desejável” de que, desconcertantemente, nos fala o poema.
J.A.R. – H.C.
Georges Bataille
(1897-1962)
L’expérience
intérieure (1) (2)
Je ne veux plus, je
gémis,
je ne peux plus souf
rir
ma prison.
Je dis ceci
amèrement:
mots qui m’étouf ent,
laissez-moi,
lâchez-moi,
j’ai soif
d’autre chose.
Je veux la mort
non admettre
ce règne des mots,
enchaînement
sans ef roi,
tel que l’ef roi
soit désirable;
ce n’est rien
ce moi que je suis,
sinon
lâche acceptation
de ce qui est.
Je hais
cette vie
d’instrument,
je cherche une
fêlure,
ma fêlure,
pour être brisé.
J’aime la pluie,
la foudre,
la boue,
une vaste étendue
d’eau,
le fond de la terre,
mais pas moi.
Dans le fond de la
terre,
ô ma tombe,
délivre-moi de moi,
je ne veux plus
l’être.
Velho adormecido
(Abraham van Dijck:
pintor holandês)
A experiência
interior
Eu não quero mais, eu
gemo,
eu não posso mais
sofrer
minha prisão.
Digo isso
amargamente:
palavras que me
sufocam,
deixem-me,
soltem-me,
tenho sede
de outra coisa.
Quero a morte
não admitir
este reino das
palavras,
encadeamento
sem medo,
tal como o medo
seja desejado;
isto não é nada
sou o que sou,
caso contrário
aceitação covarde
do que é.
Odeio
esta vida de
instrumento,
busco uma fissura,
a minha fissura,
para ser quebrado.
Amo a chuva,
o relâmpago,
a lama,
uma vasta extensão de
água,
as profundezas da
terra,
mas não a mim.
Nas profundezas da
terra,
ó minha sepultura,
liberte-me de mim
mesmo,
não quero mais ser.
Notas:
(1). Georges Bataille
deu o subtítulo de “Somme athéologique” (“Suma ateológica” aos três volumes que
constituem o centro de sua obra e que aparecem sucessivamente na seguinte
ordem: “L’expérience intérieure” (“A experiência interior”), em 1943; “Le coupable”
(“O culpado”), em 1944; e “Sur Nietzsche” (“Sobre Nietzsche”), em 1945. (BATTAILE,
2015, p. 13)(N.T.)
(2). Este é apenas o
primeiro poema que aparece na obra “L’expérience intérieure”, do autor francês.
Referência:
BATTAILE, Georges. L’expérience intérieure / A experiência interior. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: __________. Poemas. Edição bilíngue: francês x português. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2015. Em francês: p. 96 e 98; em português: p. 97 e 99. (“Fora de Série”)
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