Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Paul Celan - Assis

Celan visitou Assis, na região italiana da Úmbria, juntamente com sua esposa Gisèle Celan-Lestrange (1927-1991), em 1953 – poucas semanas após a trágica morte do filho François –, tendo redigido o presente poema dois anos depois, em 1955, bem ao seu característico estilo – criptográfico e carregado de simbolismos –, tendo por temática o lugar onde nasceu (e morreu) o frade fundador da ordem que mais tarde tomou o seu nome – Francisco de Assis (~1181-1226).

 

Os versos do poeta romeno evocam a mensagem de humildade, de vida simples e de compaixão para com todos os seres, especialmente os mais pobres, bem assim os animais, apregoada por Francisco. Porém mais do que isso: na comovente descrição da vida de um lugar, ressoa o desconforto com indagações sem respostas e que se fundem no insondável, porquanto nada mais somos do que “jarro barroso com o selo da sombra”, somente cientes da verdade por trás daquilo que nos desintegra – a saber, a morte.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paul Celan

(1920-1970)

 

Assisi

 

Umbrische Nacht.

Umbrische Nacht mit dem Silber von Glocke und Ölblatt.

Umbrische Nacht mit dem Stein, den du hertrugst.

Umbrische Nacht mit dem Stein.

 

Stumm, was ins Leben stieg, stumm.

Füll die Krüge um.

 

Irdener Krug.

Irdener Krug, dran die Töpferhand festwuchs.

Irdener Krug, den die Hand eines Schattens für immer

verschloβ.

Irdener Krug mit dem Siegel des Schattens.

 

Stein, wo du hinsiehst, Stein.

Laβ das Grautier ein.

 

Trottendes Tier.

Trottendes Tier im Schnee, den die nackteste Hand streut.

Trottendes Tier vor dem Wort, das ins Schloβ fiel.

Trottendes Tier, das den Schlaf aus der Hand friβt.

 

Glanz, der nicht trösten will, Glanz.

Die Toten – sie betteln noch, Franz.

 

Aus: “Von Schwelle zu Schwelle” (1955)

 

Paisagem com São Francisco de Assis

(Paul Bril: pintor flamengo)

 

Assis

 

Noite úmbria.

Noite úmbria com a prata do sino e folha de oliva.

Noite úmbria com a pedra que trouxeste até aqui.

Noite úmbria com a pedra.

 

Mudo, o que veio à vida, mudo.

Enche os jarros.

 

Jarro barroso.

Jarro barroso, onde a mão do oleiro cresceu firme.

Jarro barroso, que para sempre trancafiou a mão

de uma sombra.

Jarro barroso com o selo da sombra.

 

Pedra, para onde olhas, pedra.

Deixa entrar o asno.

 

Animal trotante.

Animal trotante na neve, que a mais nua mão espalha.

Animal trotante frente à palavra, que caiu presa.

Animal trotante, que come o sono com a mão.

 

Brilho que não quer consolar, brilho.

Os mortos – estes ainda mendigam, Francisco.

 

Em: “De Limiar a Limiar” (1955)

 

Referência:

 

CELAN, Paul. Assisi / Assis. Tradução de Claudia Cavalcanti. In: __________. Cristal. Seleção e tradução de Claudia Cavalcanti. Edição bilíngue. 2. Reimp. São Paulo: Iluminuras, 2011. Em alemão: p. 56; em português: p. 57.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

Yeda Prates Bernis - Arquitetura

A escritora e literata mineira celebra o poder transformador da arte e da palavra, enaltecendo a criação poética em suas múltiplas dimensões – arquitetônica, filosófica, geográfica, corporal e mecânica –, não somente um simples objeto literário, mas uma entidade viva, complexa e plena de significados, a conectar o humano com o divino, o terreno com o celestial, o individual com o universal.


Verdadeiro umbral que dá acesso ao desconhecido, à expansão da percepção, o poema atua como uma lente através da qual podemos vislumbrar as dualidades fundamentais de que se compõe a realidade, quer no plano externo quer no interno, neste último caso, ao se converter numa forma de cartografar as profundezas da alma humana, explorando tanto as suas superfícies mais calmas quanto os seus impetuosos “vulcões”.

 

Entregar-se incondicionalmente ao exercício da Lírica constitui, por conseguinte, uma experiência tanto física quanto emocional: ao manifestar-se por meio da linguagem – esse recurso simbólico que organiza pensamentos, emoções e significados, conectando sujeitos e mundos –, o poeta finda por transformar o poema num catalisador de mudanças, embebendo-o com os nossos esforços mais sublimes, nossos pesares, nossas paixões.

 

J.A.R. – H.C.

 

Yeda Prates Bernis

(n. 1926)

 

Arquitetura

 

O poema

e sua arquitetura:

portas e janelas

abertas ao infinito.

 

O poema

e sua filosofia:

vislumbra no vitral,

o Ser e a Coisa.

 

O poema

e sua geografia:

mapeia oceanos

e vulcões de emoção.

 

O poema

e seu corpo:

suor e lágrima

entre vogais e consoantes.

 

O poema

e sua maquinação:

asperge estrelas

no humano coração.

 

Catedral de Salisbury vista dos prados

(John Constable: pintor inglês)

 

Referência:

 

BERNIS, Yeda Prates. Arquitetura. In: __________. Cantata: antologia poética. Belo Horizonte, MG: Ed. da autora, 2004. p. 42.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Alice Moore Dunbar-Nelson - Sento-me e Costuro

A poetisa norte-americana – ativista política participante do “Renascimento do Harlem” e da luta pelos direitos civis e contra o racismo – examina nestes versos questões relacionadas à identidade e à função da mulher em sociedade: trata-se, com efeito, de uma crítica social à imposição de papéis tão apenas domésticos às mulheres, contrariando suas intenções de participar em assuntos com maiores implicações, em especial – como se depreende dos versos – no contexto de um tipo de conflito que a todos atinge, vale dizer, a guerra.

 

A costura, reiteradamente qualificada como um “ritual inútil”, simboliza a restrição da mulher ao âmbito privado, insuspeita metáfora para a paciência forçada e a repressão dos seus desejos, configuração essa a contrastar com as expectativas sociais mais amplas atribuídas ao mundo masculino, cujos papéis vocacionam-se a firmar na História os nomes e os feitos mais marcantes daqueles que obtêm maior reconhecimento e notoriedade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alice Moore Dunbar-Nelson

(1875-1915)

 

I Sit and Sew

 

I sit and sew – a useless task it seems,

My hands grown tired, my head weighed down with dreams –

The panoply of war, the martial tred of men,

Grim-faced, stern-eyed, gazing beyond the ken

Of lesser souls, whose eyes have not seen Death,

Nor learned to hold their lives but as a breath –

But – I must sit and sew.

 

I sit and sew – my heart aches with desire –

That pageant terrible, that fiercely pouring fire

On wasted fields, and writhing grotesque things

Once men. My soul in pity flings

Appealing cries, yearning only to go

There in that holocaust of hell, those fields of woe –

But – I must sit and sew.

 

The little useless seam, the idle patch;

Why dream I here beneath my homely thatch,

When there they lie in sodden mud and rain,

Pitifully calling me, the quick ones and the slain?

You need me, Christ! It is no roseate dream

That beckons me – this pretty futile seam,

It stifles me – God, must I sit and sew?

 

Mulher costurando à luz de lamparina

(Harriet Backer: pintora norueguesa)

 

Sento-me e Costuro

 

Sento-me e costuro – uma tarefa vã, ao que parece,

Minhas mãos cansadas, minha cabeça repleta de sonhos –

A panóplia da guerra, a marcha militar dos homens,

De rostos sombrios, olhares severos, a fitarem além do alcance

De almas menores, cujos olhos não divisaram a Morte,

Nem aprenderam a manter suas vidas senão como um sopro –

Mas – devo sentar-me e costurar.

 

Sento-me e costuro – dói-me com desejos o coração –

Aquele terrível préstito, aquele fogo impetuoso que se derrama

Sobre campos devastados, e coisas grotescas e retorcidas

Que uma vez foram homens. Minha alma compadecida lança

Gritos suplicantes, almejando simplesmente unir-se

Àquele holocausto infernal, àqueles campos de aflição –

Mas – devo sentar-me e costurar.

 

A modesta e vã costura, o ocioso remendo;

Por que eu a sonhar aqui sob o meu humilde teto de palha,

Quando jazem ali, na lama encharcada e na chuva,

Chamando-me lastimosamente, os vivos e os mortos?

Precisas de mim, ó Cristo! Não é um sonho cor-de-rosa

Que me acena – esta costura bela e fútil

É o que me tolhe – Deus, devo sentar-me e costurar?

 

Referência:

 

DUNBAR-NELSON, Alice Moore. I sit and sew. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 28.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Czesław Miłosz - O que eu escrevia

Miłosz reflete sobre o ato mesmo de escrever poesia, digo melhor, dos limites do poder da linguagem para capturar o inefável, pois que lhe parece que nenhuma palavra se mostra suficiente para dar conta de tudo o que está à volta de nossas existências ou, ainda, de ir tão fundo para que seja capaz de esgotar os sentidos da beleza e do mistério de que se reveste este universo.

 

Muito de nosso vibrante entorno, por conseguinte, ainda paira no insondável e, mesmo que, a nossos olhos, expresse uma materialidade palpável – basta ver a face tangível do mundo natural –, não se deixa apreender, de todo, em suas abstrações simbólicas, sobretudo no que diz respeito ao plano do absoluto ou da eternidade – tão dessemelhante à impermanência e à fragilidade das quais somos reféns.

 

J.A.R. – H.C.

 

Czesław Miłosz

(1911-2004)

 

To co pisałem

 

To co pisałem, nagle się wydało

błazeństwem. Znaleźć nie mogłem wyrazów.

Patrzyłem na świat olbrzymi, tętniący,

z łokciami o kamienną poręcz opartymi.

Płynęły rzeki, pruły chmurę żagle,

mdlały zachody. Wszystkie piękne kraje,

wszystkie istoty, których pożądałem,

wzeszły na niebo jak wielkie księżyce.

W te lampy dziwne ruchome wpatrzony,

licząc ich łuki astrologiczne,

szeptałem: świecie, giń, litości, tonę.

Żadna na piękność nie wystarczy mowa.

Widziałem w sobie rozległe doliny

i mogłem stopą brązem uskrzydloną

iść ponad nimi na szczudłach powietrza.

Ale to gasło, noc niespamiętana.

 

Paryż, 1934

W: “Wiersze rozproszone” (1930-1936)

 

Monge à beira-mar

(Caspar David Friedrich: pintor alemão)

 

O que eu escrevia

 

O que eu escrevia de súbito pareceu

ridículo. Eu não era capaz de exprimir.

Olhei para o mundo imenso, pulsante,

os cotovelos apoiados em um corrimão de pedra.

Rios corriam, velas rasgavam nuvens,

poentes desmaiavam. Todos os belos países,

todos os seres que desejei

se ergueram no céu como grandes luas.

Olhar fixo nesses estranhos lumes moventes,

contando seus arcos astrológicos,

sussurrei: mundo, cessa, piedade, eu me afogo.

Palavra nenhuma basta para a beleza.

Eu enxergava dentro de mim extensos vales

e podia, o passo alado e brônzeo,

lançar-me acima deles em muletas de ar.

Mas isso se foi, noite sem memória.

 

Paris, 1934

Em: “Poemas dispersos” (1930-1936)

 

Referência:

 

Miłosz, Czesław. To co pisałem / O que eu escrevia. Tradução de Marcelo Paiva de Souza. In: __________. Para isso fui chamado: poemas. Seleção, tradução e introdução de Marcelo Paiva de Souza. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2023. Em polonês: p. 38; em português: p. 39.