Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 30 de junho de 2026

Charles Baudelaire - Elevação

Nesta ode ao poder transcendente do espírito, Baudelaire nos guia em uma viagem desde o plano do tangível e do opressivo – tão característicos de nossa realidade terrena – até as paragens do etéreo, do puro e do sublime, sempre a empregar aquela sua forma de linguagem dominantemente sinestésica – digo melhor, sensorial –, para pormenorizar as graduações dessa progressão ascensional hiperbólica.

 

Para além do escape ao meramente físico, de seus “mórbidos miasmas”, o que o autor nos propõe é um voo interior, ascético e imaginativo – logo poético –, com o objetivo de nos guindar à iluminação, pela via de uma conexão mística com o cosmos e o universo: assim purificados, poderemos entrar num estado de êxtase, em conexão com o divino, quiçá atingindo até mesmo as lindes de onde sejamos capazes de vislumbrar os “scripts” da linguagem secreta da Criação.

 

J.A.R. – H.C.

 

Charles Baudelaire

(1821-1867)

 

Élévation

 

Au-dessus des étangs, au-dessus des vallées,

Des montagnes, des bois, des nuages, des mers,

Par delà le soleil, par delà les éthers,

Par delà les confins des sphères étoilées,

 

Mon esprit, tu te meus avec agilité,

Et, comme un bon nageur qui se pâme dans l’onde,

Tu sillonnes gaiement l’immensité profonde

Avec une indicible et mâle volupté.

 

Envole-toi bien loin de ces miasmes morbides;

Va te purifier dans l’air supérieur,

Et bois, comme une pure et divine liqueur,

Le feu clair qui remplit les espaces limpides.

 

Derrière les ennuis et les vastes chagrins

Qui chargent de leur poids l’existence brumeuse,

Heureux celui qui peut d’une aile vigoureuse

S’élancer vers les champs lumineux et sereins;

 

Celui dont les pensers, comme des alouettes,

Vers les cieux le matin prennent un libre essor,

– Qui plane sur la vie, et comprend sans effort

Le langage des fleurs et des choses muettes!

 

Elevação da alma

(Irina Rasquinet: artista chechena)

 

Elevação

 

Por sobre os pantanais, os vales orvalhados,

As montanhas, os bosques, as nuvens, os mares,

Para além do ígneo sol e do éter que há nos ares,

Para além dos confins dos tetos estrelados,

 

Flutuas, meu espírito, ágil peregrino,

E, como um nadador que nas águas afunda,

Sulcas alegremente a imensidão profunda

Com um lascivo e fluido gozo masculino.

 

Vai mais, vai mais além do lodo repelente,

Vai te purificar onde o ar se faz mais fino,

E bebe, qual licor translúcido e divino,

O puro fogo que enche o espaço transparente.

 

Depois do tédio e dos desgostos e das penas

Que gravam com seu peso a vida dolorosa,

Feliz daquele a quem uma asa vigorosa

Pode lançar às várzeas claras e serenas;

 

Aquele que, ao pensar, qual pássaro veloz,

De manhã rumo aos céus liberto se distende,

Que paira sobre a vida e sem esforço entende

A linguagem da flor e das coisas sem voz!

 

Referência:

 

BAUDELAIRE, Charles. Élévation / Elevação. Tradução de Ivan Junqueira. In: __________. As flores do mal. Apresentação de Marcelo Jacques. Tradução, introdução e notas de Ivan Junqueira. Edição especial. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 2012. Em francês: p. 136 e 138; em português: p. 137 e 139. (Coleção “Saraiva de Bolso”)

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Jorge de Sena - Os paraísos artificiais

Sena emprega contrastes e ironia para evidenciar o estado de degradação ambiental e social em seu país, decorrente do processo de desumanização e artificialização da vida urbana moderna, chegando mesmo ao sarcasmo ao afirmar que os “pardieiros só existem em outros países”, negando a própria pobreza em seu país natal.

 

O poeta constrói a imagem de uma cidade – decerto Lisboa – carente de vitalidade, onde a natureza tem sido erradicada mediante ações institucionais deliberadas e mecanizadas, ou confinada nas alturas dos apartamentos, tornando a existência algo inexprimível, “inefável”, sem sentido e sem voz, pois que refém da imposição de hierarquias econômicas e da concomitante opressão social.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Sena

(1919-1978)

 

Os paraísos artificiais

 

Na minha terra, não há terra, há ruas;

mesmo as colinas são de prédios altos

com renda muito mais alta.

Na minha terra, não há árvores nem flores.

As flores, tão escassas, dos jardins mudam ao mês,

e a Câmara tem máquinas especialíssimas

para desenraizar as árvores.

O cântico das aves – não há cânticos,

mas só canários de 3.° andar e papagaios de 5.°.

E a música do vento é frio nos pardieiros.

Na minha terra, porém, não há pardieiros,

que são todos na Pérsia ou na China,

ou em países inefáveis.

A minha terra não é inefável.

A vida na minha terra é que é inefável.

Inefável é o que não pode ser dito.

 

Esboço urbano de Alfama em Lisboa

(Elena Petrova Gancheva: artista búlgara)

 

Referência:

 

SENA, Jorge de. Os paraísos artificiais. In: TORGAL, Adosinda Providência; BOTELHO, Clotilde Correia (Organização e Nota Prévia). Lisboa com seus poetas: coletânea. Lisboa, PT: Publicações Dom Quixote, 2000. p. 208.

domingo, 28 de junho de 2026

Joan Reventós i Carner - Os vivos precisam dos mortos

Eis aqui mais um poema a girar em torno da finitude humana, com o poeta catalão fazendo-nos ver que a memória e o testemunho dos que já partiram outorgam peso e sentido às nossas existências, explico-me melhor, tornando-nos mais conscientes de que a morte espelha o paradoxo de pertencermos a um todo perdurável – a saber, a humanidade e sua memória coletiva.

 

Com efeito, o ponto final está inscrito em nosso ser, em nossa biografia. Por isso temos a tendência de, quando chegamos à velhice, passarmos a medir a vida não em quantidade de anos pelos quais passamos, senão em termos do que nos marcou profundamente – as “feridas” –, num ato de contemplação ativa que aspira, com algum lustro antecipatório, a um diálogo franco com o eterno.

 

J.A.R. – H.C.

 

Joan Reventós i Carner

(1927-2004)

 

Els vius necessitem els morts

 

Sàpigues i recorda tots els dies de la vida

que els vells escolten d’una altra manera,

perquè compten i pesen dels dies la ferida.

La vida breu no permet esperança llarga,

la natura disposa com a condició i norma

portar desplegats dins els gens de finitud.

El dubte de morir en mi o en altres sorts,

és la lluita entre finitud i infinitud.

Els vius continuem necessitant els morts.

 

Morte e Vida

(Gustave Klimt: pintor austríaco)

 

Os vivos precisam dos mortos

 

Saiba e lembre todos os dias da vida

que os velhos escutam de outra maneira,

porquanto comparam e pesam dos dias as feridas.

A vida breve não permite uma esperança longa,

a natureza dispõe como condição e norma

trazer desdobrados nos genes de finidade.

A dúvida de morrer em mim ou em outras sortes,

é a luta entre finidade e o infinito.

Os vivos continuam a precisar dos mortos.

 

Referência:

 

CARNER, Joan Reventós i. Els vius necessitem els morts / Os vivos precisam dos mortos. Tradução de Leopold Rodés i Garriga. In: __________. Els àngels no saben vetllar els morts / Os anjos não sabem velar os mortos. Edição bilíngue: Catalão x Português. Tradução de Leopold Rodés i Garriga. Introdução de Alfredo Bosi. 1. ed. São Paulo, SP: Paralaxe, 2008. Em catalão: p. 82; em português: p. 83.

sábado, 27 de junho de 2026

José Paulo Paes - Poética

Nestes quatro dísticos, Paes nos apresenta um manifesto pessoal, lapidado em numa declaração de princípios éticos e estéticos, no qual torna explícita a sua postura perante o mundo e o seu ofício, sempre comprometida com o bem comum, misto de honestidade existencial e de esperançosa resistência.

 

A exemplo de um poema-programa, esta “Poética” escora-se na solidariedade humana e na busca incansável de uma “ilha prometida” mais justa, mediante o emprego da palavra escrita como ferramenta conciliatória e como farol a orientar a jornada rumo ao aludido ideal.

 

Ademais, propõe o poeta e tradutor paulista que a poesia se comprometa com a clareza dos seus propósitos, vale dizer: (i) a denúncia da arbitrariedade e a solidariedade com os mais vulneráveis; (ii) a rejeição da posse egoísta e a exaltação do valor de uma vida compartilhada; (iii) e o rechaço da adoção dos papéis extremos de autoridade ou de vítima, ou seja, nem a superioridade moral, nem a falsa humildade que busca escusas, para assim se desincumbir de sua missão fora dos jogos binários de poder e das vias labirínticas da autojustificação.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Paulo Paes

(1926-1998)

 

Poética

 

Não sei palavras dúbias. Meu sermão

Chama ao lobo verdugo e ao cordeiro irmão.

 

Com duas mãos fraternas, cumplicio

A ilha prometida à proa do navio.

 

A posse é-me aventura sem sentido.

Só compreendo o pão se dividido.

 

Não brinco de juiz, não me disfarço em réu.

Aceito meu inferno, mas falo do meu céu.

 

Em: “Cúmplices” (1951)

 

O lobo e o cordeiro:

ilustração para a fábula de La Fontaine

(Gustave Doré: gravurista francês)

 

Referência:

 

PAES, José Paulo. Poética. In: __________. Melhores poemas de José Paulo Paes. Seleção de Davi Arrigucci Jr. 3. ed. São Paulo, SP: Global, 2000. p. 103. (Série “Melhores Poemas”; v. 37)

sexta-feira, 26 de junho de 2026

Edna St. Vincent Millay - Se ficasse sabendo, de um modo bastante casual

Ler notícias triviais, como conselhos de moda e de cuidados pessoais, ao mesmo tempo que esconde uma dor profunda – como a do trágico falecimento de um ente querido –, mostra como a sociedade, com alguma frequência, impõe-nos um código de aparências – v.g., como devemos nos comportar em público –, exigindo-nos normalidade de comportamento, ainda que estejamos destroçados por dentro.

 

Há certa ironia no contexto em que a falante toma conhecimento do acidente fatal com alguém que lhe é próximo, ou seja, ao ler sobre o fato em nota fúnebre na contracapa de um jornal compulsado por alguém ao lado, dentro de um trem do metrô, o que enfatiza a banalidade de tal tragédia no contexto maior de notícias abarcado por um periódico, em linha com a natureza fragmentada e despersonalizada das informações que o compõem – como se a própria estrutura da notícia ditasse a consequente frieza de sua recepção.

 

J.A.R. – H.C.

 

Edna St. Vincent Millay

(1892-1950)

 

If I should learn, in some quite casual way

 

If I should learn, in some quite casual way,

That you were gone, not to return again –

Read from the back-page of a paper, say,

Held by a neighbor in a subway train,

How at the corner of this avenue

And such a street (so are the papers filled)

A hurrying man – who happened to be you –

At noon to-day had happened to be killed,

I should not cry aloud – I could not cry

Aloud, or wring my hands in such a place –

I should but watch the station lights rush by

With a more careful interest on my face,

Or raise my eyes and read with greater care

Where to store furs and how to treat the hair.

 

Morte na Enfermaria

(Edvard Munch: pintor norueguês)

 

Se ficasse sabendo, de um modo bastante casual

 

Se ficasse sabendo, de um modo bastante casual,

Que te foste, para não mais voltar –

Ao ler, digamos, na contracapa de um jornal

Folheado por um vizinho num dos trens do metrô,

Como na esquina desta avenida

Numa rua que tal (assim se deitam recheios aos jornais)

Um homem apressado – que por acaso eras tu –

Ao meio-dia de hoje foi morto por acaso,

Eu não deveria chorar a gritos, não poderia chorar

A gritos, nem torcer as mãos em semelhante lugar.

Apenas observaria as luzes da estação a passar velozes

Com um interesse mais apurado em meu semblante,

Ou ergueria os olhos e leria com mais atenção

Onde se guardam as peles e como se trata o cabelo.

 

Referência:

 

MILLAY, Edna St. Vincent. If I should learn, in some quite casual way. In: __________. Selected poems of Edna St. Vincent Millay: an annotaded edition. Edited by Timothy F. Jackson, with an introduction by Holly Peppe. New Haven, CT: Yale University Press, 2016. p. 20.