O poeta convida o
leitor a questionar o que define a figura do escritor, se o seu ofício ou o
resultado de um desencanto vital – a saber, a partida de sua mulher – que lhe
tira a motivação de cuidar da aparência, até mesmo porque a atenção aos
requisitos das expectativas sociais, digo melhor, às exigências de aprovação
externa, torna-se agora de somenos importância ante a resignação e a transformação
que se processa por meio da relação do escritor com a solidão.
Com efeito, a moda e as
convenções pré-estabelecidas não mais se impõem como parâmetros a serem
prestigiados por quem, destarte, se dedica a ser autêntico em seu modo de ser
e, por extensão, na índole com que vazada a sua escrita – eficaz salvatério para
levá-lo à redenção pelas vias da ousadia, da originalidade e da criatividade, predispondo-o
a reinventar sua própria existência.
J.A.R. – H.C.
Gonçalo M. Tavares
(n. 1970)
O Escritor
É um escritor ou
então a mulher partiu com outro,
e o corpo não
recuperou a vontade
de se preocupar com a
roupa.
Espontâneo, vê-se;
tudo o que traz vestido
apareceu-lhe à frente
como numa colisão.
No entanto é
discreto.
Tem a idade em que já
não se desejam os olhares
dos outros.
Branco, o cabelo
transmite paz e
uma pequena
desistência.
Tem cachimbo, óculos,
na mesa revistas
francesas sobre a alma
e os laboratórios que
a estudam;
pega numa folha e
começa a escrever.
Tem ar sóbrio, o
corpo não dança,
vê-se que há muito
venceu o medo de não ser
igual aos outros.
Escreve; passa a mão
sobre a orelha.
É um escritor, em
definitivo.
A luta não é com a
solidão, vê-se que sabe usá-la,
percebe a sua
natureza.
O escritor
(Rex M. Oppenheimer:
artista norte-americano)
Referência:
TAVARES, Gonçalo M. O escritor. In: __________. 1: poemas. Rio de Janeiro, RJ: Bertrand Brasil, 2005. p. 18.
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