O poeta se serve dos
edifícios como metáforas das estruturas culturais e sociais que sustentam o
nosso mundo, e aponta como – ao nomear, categorizar e definir – a linguagem
acaba por se tornar uma espécie de arma a que comumente se recorre nessa
constante batalha, haja vista que, mesmo sendo um instrumento de inclusão, pode
ela muito bem ser empregada para dividir, hierarquizar e excluir.
Bidart faz eco à
antiga noção de que a linguagem não é neutra, pois, se por um lado, nos serve
para impor ordem sobre o caos do mundo, por outro, também possibilita colonizar
a subjetividade alheia: nomear algo é tentar dominá-lo, controlá-lo. Assim,
cada instituição — templo, escola, mercado, banco — tenta abolir ou suprimir as
outras, porque todas elas carregam visões de mundo diferentes entre si, cada qual
com suas cargas ideológicas, funções, valores e objetivos bem demarcados, amiúde
incompatíveis.
A intitulada “injunção”
se torna mais explícita nos versos finais do poema, ao longo dos quais as palavras
tecem um chamamento à desconstrução radical, uma invocação para que se
transcendam as categorias impostas pela linguagem e pela história. Com efeito,
a imagem de se “fixar” algo “fora do tempo” poderia simbolizar o afã por
libertar-se dessas lutas semânticas, pondo fim a um ciclo interminável de
conflitos resultantes dos aparatos de dominação, simbólicos ou reais.
J.A.R. – H.C.
Frank Bidart
(n. 1939)
As if the names we use to name the uses of
buildings
x-ray our souls, war without end:
Palace. Prison. Temple. School.
Market. Theatre. Brothel. Bank.
War without end. Because to name is to possess
the dreams of strangers, the temple
is offended by, demands the abolition of brothel,
now theatre, now
school, the school despises temple, palace, market,
bank; the bank by
refusing to name depositors welcomes all, though in
rage prisoners each
night gnaw to dust another stone piling under the
palace.
War without end. Therefore time past time:
Rip through the fabric. Nail it. Not
to the wall. Rip through
the wall. Outside
time. Nail it.
In: “Star Dust”
(2005)
O Homem Quadrado
(Karel Appel: artista
holandês)
Injunção
Como se os nomes que atribuímos
às funções dos diversos prédios
nos radiografassem a
alma, dando ensejo a uma guerra sem fim:
Palácio. Prisão. Templo.
Escola.
Mercado. Teatro.
Bordel. Banco.
Uma guerra sem fim. Porque
nomear é passar a dispor
dos sonhos de estranhos,
o templo
se ofende e exige a
extinção do bordel – em seguida, do teatro, e por fim,
da escola; a escola,
por sua vez, despreza o templo, o palácio, o mercado
e o banco; enquanto o
banco,
recusando-se a identificar
seus depositantes, acolhe a todos, embora
prisioneiros em fúria,
a cada noite, reduzam
a pó mais uma pedra dos alicerces do palácio.
Uma guerra sem fim. Com
isso, o tempo transcende o próprio tempo:
Rasgue a trama.
Fixe-a. Não
sobre o muro. Derrube
o muro. Fixe-a
para além do tempo.
Em: “Poeira Estelar”
(2005)
Referência:
BIDART, Frank.
Injunction. In: PINSK, Robert (Guest Editor); LEHMAN, David (Series Editor). The
best of the best american poetry: 25th anniversary edition. 1st Scribner
Poetry edition. New York, NY: Scribner Poetry, apr. 2013. p. 29.
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