Gullar desconstrói a ideia romântica do sofrimento como algo nobre, transpassado de um valor transcendente, haja vista que não teria o dom de acender “um halo” em volta da cabeça de ninguém. Não sendo a dor muito diferente daquela a que estão expostas quaisquer espécies animais – quer “superiores”, como gatos e cães, quer “inferiores”, como ratos e baratas –, a elas nos nivelamos perante tal miséria.
O desejo universal
por alegria contrasta brutalmente com a realidade do padecimento e da injustiça
que povoa o humano substrato cultural – e que a muitos atinge, sobretudo,
diríamos nós, em razão da distribuição infame e hiperconcentrada de riquezas,
tornando ainda mais ostensiva a fealdade da exclusão social, da penúria, do
mal-estar, da opressão nos grandes centros urbanos.
Mas ela – a alegria –
paira distante quando nos deparamos com as imagens antipoéticas ou antilíricas
do autor, mostrando-se quase inalcançável, denotando um contraponto que torna o
sofrimento – seja ele corporal, seja material – ainda mais difícil de suportar.
J.A.R. – H.C.
Ferreira Gullar
(1930-2016)
A alegria
O sofrimento não tem
nenhum valor
não acende um halo
em volta de tua
cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que
iluminaria
a lembrança ou a
ilusão
de uma alegria).
Sofres tu, sofre
um cachorro ferido,
um inseto
que o inseticida
envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato
que viste
a espinha quebrada a
pau
arrastando-se a
berrar pela sarjeta
sem ao menos poder
morrer?
A justiça é moral, a
injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e
baratas
que também de dentro
dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo
nojento
de entre fezes
querem estar
contentes.
Alegrias e tristezas
da vida
(Purvasha Roy: artista
indiano)
Referência:
GULLAR, Ferreira. A alegria. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e Prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 29.
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