Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Ángel Crespo - A realidade inteira

Eis um convite a uma forma de conhecimento superior através da contemplação desinteressada, ativa e receptiva a um só tempo, sem intenção de julgamento ou de posse: o poeta nos dá conta de que o mistério está aqui mesmo, mostrando-se em seu esplendor a quem está disposto a tudo perscrutar, sem aquele desejo malsão de agarrar o que quer que seja somente para si, sabendo que não há dualidade entre o interior e o exterior, superfície e abismo.

 

A missão do homem é perceber a unidade de todas as coisas, a conformar um todo contínuo e coerente, para que então possa entrar em comunhão com o essencial, dissolvendo o “eu” individual no próprio ato de contemplar, à maneira das uniões místicas levadas a efeito por ascetas de todos os quadrantes – a exemplo das que experimentou o conterrâneo de Crespo, o sacerdote e também poeta São João da Cruz –, ou mesmo das iluminações súbitas e intuitivas da verdadeira natureza das coisas, consectárias aos despertares de satori, no âmbito do zen-budismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ángel Crespo

(1926-1995)

 

La realidad entera

 

El misterio no dice:

se muestra, y contemplarlo

es prodigioso oficio, pues se hace

la mirada interior una con él

aunque a sí misma no pueda mirarse.

 

No es renuncia ni entrega contemplar

– mas sin intentar poseerla –

la realidad entera silenciosa

cuya superficie nos muestra

una paisaje parejo al interior

mostrarse de su abismo

 

– en el que las palabras se transmutan

en miradas: para aceptar

lo que, al estar oculto, más se muestra.

 

En: “La realidade entera” (1989-1995)

 

São Jerônimo no Deserto

(Leonardo da Vinci: artista italiano)

 

A realidade inteira

 

O mistério nada diz:

ele se mostra, e contemplá-lo

é uma prodigiosa tarefa, pois o olhar

interior se torna um com ele,

embora a si mesmo não consiga se olhar.

 

Não é renúncia nem entrega contemplar

– mas sem tentar possuí-la –

toda a silenciosa realidade,

cuja superfície nos mostra

uma paisagem similar à que se revela

do interior de seu abismo

 

– no qual as palavras se transmutam

em olhares: para aceitar

o que, por estar oculto, mais se mostra.

 

Em: “A realidade inteira” (1989-1995)

 

Referência:

 

CRESPO, Ángel. La realidad entera. In: CASANOVA, José Francisco Ruiz (Selección y introducción). Antología cátedra de poesía de las letras hispánicas. 8. ed. Madrid, ES: Ediciones Cátedra (Grupo Anaya S.A.), 2011. p. 1030.

domingo, 26 de julho de 2026

Sophia de Mello B. Andresen - A Pequena Praça

Andresen converte um espaço urbano cotidiano – de fato, bem mais um rossio interior onde se trava a batalha entre o amor, a memória e a finitude – no cenário de um drama universal: o enfrentamento da perda irreparável de seu dileto consorte, em vias de ocorrer, por quem empreende uma tentativa de fusão identitária, quiçá um irreprimível mecanismo de defesa psicológica.

 

A voz poética, numa espécie de luto antecipatório, luta contra a aproximação da morte de seu parceiro, mediante a evocação das lembranças encarnadas nesse intitulado microcosmo – muito à volta de sua humilde existência, vivenciada em comunidade –, a súplica desesperada ao humano e ao divino, bem assim pelo consolo que lhe traz a intuição de uma eternidade inscrita na pessoa do ser amado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sophia de Mello B. Andresen

(1919-2004)

 

A Pequena Praça

 

A minha vida tinha tomado a forma da pequena praça

Naquele outono em que a tua morte se organizava

meticulosamente

Eu agarrava-me à praça porque tu amavas

A humanidade humilde e nostálgica das pequenas lojas

Onde os caixeiros dobram e desdobram fitas e fazendas

Eu procurava tornar-me tu porque tu ias morrer

E a vida toda deixava ali de ser a minha

Eu procurava sorrir como tu sorrias

Ao vendedor de jornais ao vendedor de tabaco

E à mulher sem pernas que vendia violetas

Eu pedia à mulher sem pernas que rezasse por ti

Eu acendia velas em todos os altares

Das igrejas que ficam no canto desta praça

Pois mal abri os olhos e vi foi para ler

A vocação do eterno escrita no teu rosto

Eu convocava as ruas os lugares as gentes

Que foram as testemunhas do teu rosto

Para que eles te chamassem para que eles desfizessem

O tecido que a morte entrelaçava em ti

 

Em: “Dual” (1972)

 

Um pequeno largo

(Leonid Afremov: pintor israelense)

 

Referência:

 

ANDRESEN, Sophia de Mello Breyner. A pequena praça. In: __________. Obra poética. Prefácio de Maria Andresen Sousa Tavares. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tinta-da-china Brasil, 2018. p. 586. (Coleção “Grandes Escritores Portugueses”)

sábado, 25 de julho de 2026

Rafael del Castillo - A Espera

Tem-se aqui a espera (tenho-a como um cômpar à esperança) na condição de análogo do poema, a partir da sugestão de que, em uma vida desgastada e sem brilho, torna-se ela a única via capaz de conservar os atributos dos versos sobre a página, a saber, os meios hábeis para nos arrancar à passividade, dotando-nos a existência com foco, beleza e sentido.

 

Ao mesmo tempo cética e inspiradora, a esperança é essa força paradoxal que nos visita misteriosamente sem aviso prévio, num evento episódico e gratuito, fazendo-se irromper em nosso solo árido e pedregoso, digo melhor, na monotonia mesma da vida, com promessas de nos levar aos lampejos súbitos de uma graça restauradora da fé no futuro e que nos sirva de antídoto contra a resignação total.

 

J.A.R. – H.C.

 

Rafael del Castillo

(b. 1962)

 

La Espera

 

Esta es la Espera

este el sol de la Espera

quizá lo único que le queda a tu vida parecido al poema

 

Deslucido en todos los momentos

escéptico de muy mala gana

a veces

como una inspiración

te visita la Espera

 

Luminosa

parecida a un poema

como una inspiración

 

De repente

sin que nadie la llame

a la brava

entre los secos breñales de las horas contadas

te visita la Espera

 

El poema

o algo que querría parecerse al poema:

la Espera pura

a veces,

te visita,

y entonces pareciera que la vida tiene aún qué ofrecerte...

 

À espera

(Edgar Degas: pintor francês)

 

A Espera

 

Esta é a Espera

este o sol da Espera

talvez o único que resta à tua vida parecido com o poema

 

Desbotado em todos os momentos

cético muito a contragosto

às vezes

como uma inspiração

a Espera te visita

 

Luminosa

parecida com um poema

com uma inspiração

 

De repente

sem que ninguém a chame

à força

entre as secas brenhas das horas contadas

a Espera te visita

 

O poema

ou algo que gostaria de se parecer com um poema:

a Espera pura

às vezes,

te visita,

e então pareceria que a vida ainda tem o que te oferecer...

 

Referência:

 

CASTILLO, Rafael del. La espera. In: __________. Palabras escuchadas en un café de barrio: selección de poemas. Bogotá, CO: Departamento de Publicaciones de la Universidad Externado de Colombia, dic. 2005. p. 45-46. (Colección “Un libro por centavos”; v. 17)

sexta-feira, 24 de julho de 2026

James Dickey - O Céu dos Animais

Dickey oferece-nos uma visão diferenciada do paraíso, buscando celebrar a alteridade radical do mundo animal, libertando-o de nossas projeções sentimentais e apresentando-o em seu mais puro estado: um equilíbrio eterno, indomado e sereno, onde cada criatura submete-se ao seu destino instintivo como parte de um todo perfeito e imperturbável.

 

Trata-se, como se pode deduzir, de uma reflexão ecológica sobre a casa comum (“oikos”) e as regras que a governam, reflexão essa que se deixa permear por uma perspectiva – a um só tempo – brutalmente realista (pois que reconhece a necessidade da predação) e misticamente tranquila (haja vista que a eleva a um ato de graça e de beleza cósmica).

 

Como chave para a interpretação do poema, o constante renovar no âmbito da natureza, num “loop” eterno em cujas circunvoluções a presa volta a se integrar ao paraíso, para que o ciclo de vida e de morte tenha continuidade, aperfeiçoando-se numa marcha que, pelas palavras do poeta, se cumpre sem sofrimento.

 

J.A.R. – H.C.

 

James Dickey

(1923-1997)

 

The Heaven of Animals

 

Here they are. The soft eyes open.

If they have lived in a wood

It is a wood.

If they have lived on plains

It is grass rolling

Under their feet forever.

 

Having no souls, they have come,

Anyway, beyond their knowing.

Their instincts wholly bloom

And they rise.

The soft eyes open.

 

To match them, the landscape flowers,

Outdoing, desperately

Outdoing what is required:

The richest wood,

The deepest field.

 

For some of these,

It could not be the place

It is, without blood.

These hunt, as they have done,

But with claws and teeth grown perfect,

 

More deadly than they can believe.

They stalk more silently,

And crouch on the limbs of trees,

And their descent

Upon the bright backs of their prey

 

May take years

In a sovereign floating of joy.

And those that are hunted

Know this as their life,

Their reward: to walk

 

Under such trees in full knowledge

Of what is in glory above them,

And to feel no fear,

But acceptance, compliance.

Fulfilling themselves without pain

 

At the cycle’s center,

They tremble, they walk

Under the tree,

They fall, they are torn,

They rise, they walk again.

 

O Céu dos Animais

(Nancy Tillman: ilustradora norte-americana)

 

O Céu dos Animais

 

Cá estão. Suaves olhos abertos.

Se viveram num bosque

São o bosque.

Se nos prados viveram

São a grama girando

Sob seus pés para sempre.

 

Não tendo alma chegaram,

Mesmo assim, sem perguntas.

Seus instintos brotam plenos

E eles crescem.

Suaves olhos abertos

 

Para igualá-los, viceja a paisagem,

Excede-se ansiosa

Além do que é pedido:

A selva mais rica,

O campo mais fértil.

 

Para alguns deles,

Não seria o lugar

Se não houvesse o sangue.

A caça, como convém,

Mas com garras e dentes aperfeiçoados,

 

Mais mortais do que acreditam ser.

Aproximam-se, furtivos.

Saltam dos braços das árvores,

E seu assalto

Sobre o dorso brilhante das presas

 

Pode levar anos

Num régio e alegre arremate.

Os que são caçados

Sabem-no como a própria vida

E recompensa: caminhar

 

Sob as árvores, é estar consciente

Do que acima é beatitude.

E não sentir pavor

Porém acordo, complacência.

Chegando à plenitude sem sofrer

 

No meio da jornada,

Tremem, perambulam

Sob a árvore, e

Tombam, e são massacrados.

Mas erguem-se, caminham de novo.

 

Referência:

 

DICKEY, James. The heaven of animals / O céu dos animais. Tradução de Jane Arduino Perticarati e Mário Livramento. In: KEYS, Kerry Shawn (Org.). Quingumbo: new north american poetry / nova poesia norte-americana. Antologia bilíngue. Vários tradutores. São Paulo, SP: Escrita, 1980. Em inglês: p. 64 e 66; em português: p. 65 e 67.