Diante de um universo
que resiste a ser “lido” de uma forma clara e definitiva, tornamo-nos como que
personagens de uma história inacabada, tratando de decifrar hieróglifos dubitáveis,
enquanto o “escritor” permanece ausente: somos entidades desarrimadas, reféns
de contextos reiterados de dor, debatendo-nos com uma linguagem e um mundo
cujos símbolos são ambíguos e atemorizantes.
A ternura se converte
em algo frágil e inexprimível; a percepção imparcial vai ao encontro apenas de
questões sem resposta; a tecnologia, ameaçante, vibra à distância; e,
fundamentalmente, agarramo-nos a um chão que não compreendemos: neste plano de
existência, no qual certezas, emoções, intenções, e mesmo o destino, são
verdadeiras incógnitas que resultam de equações irresolvíveis ou dificilmente solucionáveis,
seríamos nós sujeitos ativos ou mero joguetes de forças maiores?
J.A.R. – H.C.
Laurie Sheck
(n. 1953)
We were characters in a story
the writer couldn’t bring himself to finish.
When he left us it was late, a child
was crying, newsprint smudged on our fingertips
as if to make of us a mechanism
by which the world would repeat itself, its story:
this happened – did you hear? then that.
So many disparate versions. The terror
risen into words, shrouded there, hanging, so cold.
And the tenderness – how the words barely touched
it,
as if to speak it were a further hurt.
It was night when he left us,
and the child who could not yet remember her dreams
woke saying, where are the toys of the moon,
are we the moons toys? Outside, lines
of stiff trees stood like hieroglyphs,
the configuration of the one for dagger
so close to the one that stands for shrub,
so hard to understand the difference;
or the one for fear that also could mean
reverence, the one for medicine so similar
to entreaty and to prayer.
And in the distance the red tremor
of the radio tower, and the planes that passed
above us
as we held to the earth and didn’t understand the
earth.
Árvores fantasiadas
de castelo
(Marlene Llanes: artista
mexicana)
O Inacabado
Éramos personagens de
uma história
que o escritor não
conseguia terminar.
Quando nos deixou, já
era tarde, uma criança chorava,
a tinta do jornal a
manchar a ponta de nossos dedos,
como se quisesse
fazer de nós um mecanismo
para que o mundo redissesse
a sua história, repetindo-a:
isto aconteceu – estás
a par? – e, logo após, mais aquilo.
Tantas versões
díspares. O terror
erigido em palavras,
ali envolto, suspenso, tão frio.
E a ternura – como as
palavras mal a tocavam,
como se nomeá-la
fosse uma dor a mais.
Quando ele partiu, no
meio da noite,
a criança, que mal
recordava os seus sonhos,
despertou a indagar: “Onde
estão os brinquedos da lua,
somos nós os
brinquedos da lua?” Lá fora, renques
de árvores rígidas
erguiam-se como hieróglifos,
a efígie
representativa da adaga
tão aparentada à que
representa o arbusto,
a ponto de
dificilmente se perceber a diferença;
ou a do medo, que
também pode significar
reverência; e mesmo a
da medicina,
tão semelhante à da súplica
e à da prece.
Ao longe, o tremor vermelho da torre de rádio
e os aviões que passavam por cima de nós,
enquanto nos aferrávamos
à Terra e não a compreendíamos.
Referência:
SHECK, Laurie. The unfinished. In: DOVE, Rita (Ed.). The penguin anthology of twentieth century american poetry. New York, NY: Penguin Books, 2013. p. 505.
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