Vislumbrando o que há
de mais eterno na arte, o autor espanhol tece loas à conexão indissolúvel entre
o poeta e sua criação, oferecendo-nos uma visão otimista e quase mística da
morte, apresentada nestes versos não como um termo categórico, um portal por
onde se tem acesso ao nada, mas como uma continuidade dentro do fluxo
incessante da palavra poética ou, ainda, uma via por onde se entra em comunhão
com o divino.
O ato de escrever
poemas, com o objetivo de se capturar o que há de poesia no entorno ou em seu
universo mental, define a vida daquele que se entrega à Lírica, integrando o seu
ser à correspondente expressão artística, tornando-a eloquente mesmo a despeito
de sua eventual incompletude pelo advento da morte, porquanto sempre suscetível
de ser reinterpretada ou expandida por seus seguidores.
J.A.R. – H.C.
Gerardo Diego
(1896-1987)
En mitad de um verso
Murió en mitad de un
verso,
cantándolo,
floreciéndole,
y quedó el verso
abierto, disponible
para la eternidad,
mecido por la brisa,
la brisa que jamás
concluye,
verso sin terminar,
poeta eterno.
al aire de una sílaba.
Y al conocer esa muerte de poeta,
recordé otra de mis oraciones.
“Quiero vivir, morir, siempre cantando
y no quiero saber por qué ni cuándo.” (*)
Sí, en el seno del verso,
que le concluya y me concluya Dios.
A caminhada do poeta
(Lael Har: pintora
norte-americana)
Em metade de um verso
Morreu no meio de um
verso,
cantando-o, fazendo-o
florescer,
e o verso ficou aberto,
disponível
para a eternidade,
embalado pela brisa,
a brisa que jamais cessa,
verso inacabado,
poeta eterno.
Quem morreria assim,
ao sopro de uma
sílaba.
E ao conhecer essa
morte de poeta,
lembrei-me de outra
das minhas orações:
“Quero viver, morrer,
sempre cantando
e não quero saber por
quê nem quando.”
Sim, no seio do
verso,
que Deus o conclua e
me conclua.
Nota do Editor:
(*). Versos
pertencentes ao soneto “El ciprés de Silos (Ausente)”, recolhido em seu livro
“Alondra de verdad” (1941). (GAOS, 2015, p. 111, n.r.)
Referência:
DIEGO, Gerardo. En
mitad de um verso. In: GAOS, Vicente (Ed.). Antología del grupo poético de
1927. Actualizada por Carlos Sahagún. 29. ed. Madrid, ES: Cátedra, 2015. p.
111. (“Letras Hispánicas”)
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