Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 18 de março de 2026

Tony Mitton - Buda

Num tom minimalista, quase como se fosse um mantra, o poeta inglês cria um poema com ritmo contemplativo, à maneira de uma meditação de estrutura simples, didática, embora não dogmática, fazendo-nos ver que não devemos buscar no exterior aquilo que podemos encontrar dentro de nós mesmos – o florescer de nossa própria consciência, lenta e naturalmente expansível como uma flor de lótus.

 

Ao despojar Buda de seu halo místico, Mitton aproxima-o do leitor contemporâneo, sugerindo que a espiritualidade – e, por extensão, a paz interior, a iluminação e a sabedoria – não requerem, necessariamente, a presença de intermediários ou mesmo de ritos, mas sim de quietude e de auto-observação, ainda que estejamos enredados no “lodo” da vida, com os seus agitos agônicos, as suas mundanas dissensões.

 

J.A.R. – H.C.

 

Tony Mitton

(1951-2022)

 

Buddha

 

The Buddha is not a god,

but human.

 

The Buddha’s image

is not an icon to be worshipped.

 

The Buddha is you,

is me.

 

The Buddha you see

is just a reminder.

 

It says, simply,

‘All you need is this,

this quiet sitting.

The answer is inside you.

You carry it like a seed.

 

Only listen inwardly

to stillness and to silence,

beneath all thought,

emotion and sensation,

 

to know the lotus

as its flower unfolds.’

 

O Grande Buda

(Erich Kips: artista alemão)

 

Buda

 

O Buda não é um deus,

mas humano.

 

A imagem de Buda

não é um ícone a ser adorado.

 

O Buda és tu,

sou eu.

 

O Buda que vês

é apenas um lembrete.

 

Ele diz, simplesmente:

“Tudo de que precisas é isto,

este sentar tranquilo.

A resposta está dentro de ti.

Tu a carregas como uma semente.

 

Basta prestares atenção interiormente

à quietude e ao silêncio,

por baixo de todos os pensamentos,

emoções e sensações,

 

para conheceres o lótus

à medida que sua flor desabrocha.”

 

Referência:

 

MITTON, Tony. Buddha. In: ESIRI, Allie (Ed.). A poem for every day of the year. Illustrated by Zanna Goldhawk. 1st publ. London, EN: Macmillan Children’s Books, 2017. p. 217.

terça-feira, 17 de março de 2026

Kabir - Conta-me, ó cisne, tua história [12]

Neste poema do místico indiano, a voz poética interpela um cisne – em verdade, “hamsa”, o veículo de Brahma, frequentemente identificado como o Espírito Supremo –, tomando-o como um guia ou o alter ego para oferecer-lhe respostas acerca de sua origem, seu destino e seu propósito – indagações essas não meramente literais, pois que resultantes do humano anseio por se libertar deste mundo de samsara, ou talvez melhor, da nostalgia por um lar divino, para além desta realidade mundana.

 

Eis as eternas perquirições sobre o sentido da vida e o destino da alma, que vão a par com um chamado à consciência e ao despertar espiritual. Como se disse, não são exatamente interrogantes que aspiram a respostas racionais, lógicas, silogísticas, mas vetores que se orientam ao acesso a uma verdade extática, ao arroubo do amor divino, à união com a Realidade Suprema, à liberdade absoluta em relação a tudo que seja a expressão de maya.

 

J.A.R. – H.C.

 

Kabir

(1440-1518)

 

[XII]

 

Tell me, O Swan, your ancient tale.

From what land do you come, O Swan?

to what shore will you fly?

Where would you take your rest, O Swan,

and what do you seek?

 

Even this morning, O Swan,

awake, arise, follow me!

There is a land where no doubt

nor sorrow have rule:

where the terror of Death is no more.

 

There the woods of spring arc a-bloom,

and the fragrant scent “He is I”

is borne on the wind:

There the bee of the heart is deeply immersed,

and desires no other joy.

 

Reflexos do Cisne

(Julie E. Rogers: pintora norte-americana)

 

[12]

 

Conta-me, ó cisne, tua história.

De onde vieste? Para onde vais?

Em que margem pousarás para descansar?

A qual meta entregaste o coração?

 

Esta é a manhã da consciência!

Desperta! Segue-me! Voemos juntos!

Há um lugar livre da dúvida e da tristeza,

Onde o terror da morte não impera.

 

Lá florescem os bosques em eterna primavera,

E sua fragrância nos impulsiona mais e mais.

Imerso nela, o coração, qual abelha, se inebria.

Imenso nela, já não quer outra alegria. (*)

 

Nota de José Tadeu Arantes:

 

(*). Dos poemas vertidos por Tagore, este foi, talvez, o que mais repercutiu no Ocidente, impressionando profundamente Yeats e outros artistas e intelectuais que o leram. De fato, o símbolo do cisne é recorrente na cultura mundial. A história do Patinho Feio, de Hans Christian Andersen (1805-1875), que, ridicularizado por sua aparência e inadaptado ao seu meio durante a infância, cresce e amadurece como um esplêndido cisne, é uma metáfora clássica daquele que trilha o caminho espiritual. No hinduísmo, o cisne é a montaria (vahana) da deusa Saraswati, protetora do conhecimento, da música e da literatura. E o título Paramahansa (Supremo Cisne) foi atribuído a muitos mestres que alcançaram a iluminação, aludindo à capacidade do cisne em transitar entre os diferentes “elementos” (a terra, a água, o ar) sem se apegar a nenhum deles. Ramakrishna e Yogananda foram os mais famosos iogues dos tempos modernos que receberam esse título. (KABIR, 2013, p. 148)

 

Referências:

 

Em Inglês

 

KABIR. Poem nº XII: Tell me, o swan, your ancient tale. Translated by Rabindranath Tagore. In: __________. Kabir’s poems. Translated from Hindi to English by Rabindranath Tagore, assisted by Evelyn Underhill. Indian Edition. 1st ed., 10th reprint. Calcutta, IN: Macmillan, 1948. p. 12.

 

Em Português

 

KABIR. Poema nº 12: Conta-me, ó cisne, tua história. Tradução de José Tadeu Arantes. In: KABIR. Cem poemas. Seleção e tradução ao inglês de R. Tagore. Tradução, ensaios e notas de José Tadeu Arantes. São Paulo: Attar, 2013. p. 40.

segunda-feira, 16 de março de 2026

António Gedeão - Poema do homem só

Estes versos de Gedeão podem ser interpretados como uma censura à superficialidade das miríades de interações que experimentamos na sociedade contemporânea, deixando à margem, nada obstante, a essência íntima de cada ser humano – o que se oferece de verdade, sem máscaras –, um terreno solitário, sem a possibilidade de ser compartilhado plenamente, marcando a diferença entre o efêmero e o perdurável.

 

O poema nos convida, desse modo, a indagarmos sobre a possibilidade de superação dessa barreira inefável ou se, pelo contrário, estamos mesmo condenados a viver encapsulados em nossa individualidade.

 

Talvez a chave da questão se encontre no valor da própria introspecção como forma de entendermos os porquês de nossas escolhas e caminhos, e, mais categoricamente, no reconhecimento de que, a despeito de o contato físico e emocional nos trazer algum sentido de aproximação com os pares, a profundidade de cada ser subsiste como um território particular, irredutível, indevassável, inimitável.

 

J.A.R. – H.C.

 

António Gedeão

(1906-1997)

 

Poema do homem só

 

Sós,

irremediavelmente sós,

como um astro perdido que arrefece.

Todos passam por nós

e ninguém nos conhece.

 

Os que passam e os que ficam.

Todos se desconhecem.

Om astros não se explicam:

arrefecem.

 

Sesta envolvente solidão compacta,

quer se grite ou não se grite,

nenhum dar-se de dentro se refracta,

nenhum ser nós se transmite.

 

Quem sente o meu sentimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem sofre o meu sofrimento

sou eu só, e mais ninguém.

Quem estremece este meu estremecimento

sou eu só, e mais ninguém.

 

Dão-se os lábios, dão-se os braços,

dão-se os olhos, dão-se os dedos,

bocetas de mil segredos

dão-se em pasmados compassos;

dão-se as noites, dão-se os dias,

dão-se aflitivas esmolas,

abrem-se e dão-se as corolas

breves das carnes macias;

dão-se os nervos, dá-se a vida,

dá-se o sangue gota a gota,

como uma braçada rota

dá-se tudo e nada fica.

 

Mas este íntimo secreto

que no silêncio concentro,

este oferecer-se de dentro

num esgotamento completo,

este ser-se sem disfarce,

virgem de mal e de bem,

este dar-se, este entregar-se,

descobrir-se e desflorar-se,

é nosso, de mais ninguém.

 

Em: “Teatro do Mundo” (1958)

 

Um homem a sós

(John Ehrenfeld: artista norte-americano)

 

Referência:

 

GEDEÃO, António. Poema do homem só. In: __________. Poesias completas: 1956-1967. Prólogo de Jorge de Sena. 7. ed. Lisboa, PT: Portugália, 1978. p. 76-78. (Colecção “Poetas de Hoje”; v. 17)

domingo, 15 de março de 2026

Robert Hillyer - Noturno

A noite despoja o ser humano de distrações, permitindo-lhe que confronte a essência das coisas, o fluxo inexorável do tempo a arrastar consigo fragmentos de nós mesmos, recordações e emoções que ficaram relegadas às sombras, deixando-nos – a toda evidência – confrangidos entre forças de constância, por um lado, e de deperecimento, por outro.

 

Nossas próprias “águas internas” sussurram a inquietude da alma frente à vastidão e o mistério do universo, as razões primeiras pelas quais aqui estamos, atrelados a um viver que ora transcorre como sonho ora como desassossego, plasmando ao mundo onírico noturno os revérberos de tudo quanto nos sucede em vigília – lembranças felizes, acerbos desconfortos existenciais, apreensão por contingências para além do controle.

 

J.A.R. – H.C.

 

Robert Hillyer

(1895-1961)

 

Night Piece

 

There is always the sound of falling water here;

By day, blended with birdsong and windy leaves,

By night, the only sound, steady and clear

Through the darkness and half-heard through sleepers’ dreams.

Here in the mottled shadow of glades, the deer,

Unstartled, waits until the walker is near.

Then with a silent bound, without effort is gone,

While the sound of falling water goes son and on.

 

Those are not stars reflected in the lake,

They are shadows of stars that were there aeons ago;

When you walk by these waters at night, you must forsake

All you have known of time; you are timeless, alone,

The mystery almost revealed, like the breath you take

In the summer dawn before the world is awake.

Or the last breath, when the spirit beyond recalling

Goes forth to the sound of water for ever falling

 

Swift as deer, half-throught in the summer mind

Flash with their hints of happiness and are gone;

In the dark waters of ourselves we find

No stars but shadows of stars which memory lost.

Dark are the waters under the bridge we crossed.

And the sound of their falling knows neither and nor start.

Frail are your stars, deep are your waters, mind;

And the sound of falling water troubles my heart.

 

Noite estrelada sobre o Ródano

(Vincent van Gogh: pintor holandês)

 

Noturno

 

Há sempre aqui o som da água caindo...

Confunde-se de dia com a cantiga

Dos pássaros e o ruído das folhas machucadas.

Entretanto, na noite desconforme,

É o único som firme e claro

Ouvido vagamente com nos sonhos de quem dorme.

Nas sombras matizadas das clareiras

A corça imóvel espera

Até que se aproxime o caminhante.

Então, silenciosa se insinua,

E vara o espaço na corrida...

Enquanto o som da água caindo

Continua... Continua...

 

Aquelas não são as estrelas refletidas no lago.

São sombras de estrelas que dormem ali há muitos séculos;

Quando passares à noite por essas águas

Deves abandonar tudo que sabes do passado

E ficar contigo mesmo, eterno em ti mesmo,

No mistério quase revelado como o sopro que se aspira

Ao nascer do verão, antes da terra acordar,

Ou o último hálito da saudade que antecipa

O som da água a cair, a cair devagar.

 

Velozes como a corça os pensamentos incompletos

Cintilam sugerindo felicidades e se vão...

Nas águas escuras de nós mesmos encontramos

Não estrelas, mas sombras de estrelas perdidas na memória.

Sombrias são as águas debaixo da ponte que cruzamos

E o som monótono da queda

Não tem princípio, não tem fim, nem solução.

Frágeis são as tuas estrelas, profunda as tuas águas, espírito;

E o som da água a cair perturba meu coração.

 

Referência:

 

HILLYER, Robert. Night piece / Noturno. Tradução de Olegário Mariano. In: MARQUES, Oswaldino (Organização e Prólogo). O livro de ouro da poesia dos Estados Unidos: coletânea de poemas norte-americanos. Edição bilíngue: inglês x português. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro & Tecnoprint, 1987. Em inglês: p. 200; em português: p. 201. (Coleção “Universidade de Bolso”)