Fróes apresenta-nos nestas linhas uma cartografia do ato criativo,
especificamente o do ofício de se redigir poemas, ele mesmo mirando-se com um
olhar crítico e esperançado, num testemunho de que a poesia, nascida do mais
íntimo e da forma mais “agreste”, pode oportunizar uma via de acesso a
contextos plenos de liberdade e de solidariedade.
Porque essa é a sua
razão de ser: transformar-se num termo de resistência linguística, num contentor
itinerante de todas as complexidades e contradições humanas – as do poeta,
inclusive –, numa ponte para o comunitário, enfim, num instrumento viável por
meio do qual havemos de nos aproximar do que projetamos como “ser pleno”.
Se a escrita poética,
em aparência, assoma como um empreendimento fútil (“jogo desnecessário”), é
somente porque, no combate urgente contra os jugos das “trevas”, não tem força incendiária
o bastante para lhes opor insuperável rechaço – ainda que, em sua ambição visionária,
seja capaz de insuflar vida nova por todos os “meandros planetários”.
J.A.R. – H.C.
Leonardo Fróes
(n. 1941)
O poema
Com esse modo agreste
de usar o
vocabulário,
tentando tirar o mofo
do seu emprego
diário,
tentando dar às
palavras
um valor não-Iiterário,
tentando extrair vida
de um velho
dicionário,
aí vai o poema,
e vai sem
destinatário,
assim como surgiu,
rangente, seco,
dentário,
capaz de ferir a pele
por baixo do
vestuário,
capaz de fundir num
todo
os sentimentos
contrários.
Excesso de amor
perdido
no território
solitário
de um aprendiz
comovido,
resto de gritos e
urros
num cárcere
voluntário
onde me sinto mais
livre,
o poema, sendo vário,
é sempre uma coisa
minha
de fundo comunitário,
é sempre o desenho
breve
de um gesto visionário,
uma esperança
constante
de, sempre, ser
solidário.
Símbolo tenso e aéreo
de um ébrio
noticiário,
rumo incerto
construído
com materiais
precários,
o poema é sobra e
soma
de impasses
humanitários,
é dúvida e febre,
cerco,
memória de um ser primário,
é o lance mais
gratuito
de um jogo
desnecessário
que eu disputo com as
trevas
por ímpeto
hereditário.
Meu tédio, meu
desalento,
meu triste dever
diário,
as forças de
além-do-tempo
sujeitas ao
calendário,
minha sede, meu
orgulho,
meu desgosto sedentário,
minha mão sempre
apontando
para um mundo
igualitário,
meus monstros
gesticulando
no fundo de um
relicário,
meus porres e meus
pavores,
meus nervos
incendiários,
vai tudo contido nele
em busca de
itinerário.
E se acaso esse poema
no seu ritmo arbitrário
toma fôlego e se
entranha
nos meandros
planetários,
se chega, tal como a
brisa
ou o som de um
campanário,
a pungir dentro do
peito
de onde é originário,
se reproduz, como
pode,
a forma de um
estuário
por onde meus sonhos
fluem,
eu, seu modesto
operário
– que nunca de um
talento
fui o feliz
proprietário,
cuja ambição foi só
ser um fiel
escriturário
de tudo o que vai
passando
no mundo do
imaginário –
eu me dou por
satisfeito
e, fato
extraordinário,
me suplanto, me
extasio,
me dissolvo libertário
e sou cada vez mais
eu
sendo vosso – e ainda
vário.
Em: “Língua franca”
(1968)
Vista de Collioure
(Paul Signac: pintor
francês)
Referência:
FRÓES, Leonardo. O
poema. In: __________. Vertigens: obra reunida (1968-1998). Edição
fixada e revista pelo autor, com textos introdutórios de José Thomaz Brum, Ciro
Barroso e Ivan Junqueira. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1998. p. 18-20.
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