O poeta desmistifica
certos pontos de vista em relação ao processo criativo, rechaçando tanto a
ideia de que seria o resultado de um inspiração divina – de pendor romântico –,
quanto o fruto de um trabalho mecânico, circunscrevendo-se, sob tal abordagem, à
falsa oposição dilemática entre a espera passiva pelo sopro inspirador da musa
e o árduo labor com a palavra, ou ainda, entre as tutelas legendárias da
inspiração e da transpiração –, contrapondo-lhes o enfoque de uma dinâmica mais
integral e pessoal.
“Escrever é tramar o
textual”, afirma o autor português, quer no sentido de urdir ou tecer a composição,
quer na acepção conotativa de lançar mão de astúcias e de estratégias para se
alcançar um resultado final que capture as perplexidades humanas, o fluxo
incomodatício da vida, os seus gestos mais triviais e absurdos, sem concessões a
rígidos modelos preestabelecidos ou a uma audiência tantas vezes afeita a clichês.
J.A.R. – H.C.
Alexandre O’Neill
(1924-1986)
Quatro Lugares-Comuns
sobre Várias Artes Poéticas
1
Estou sozinho diante
da página em branco.
Cedo à inspiração?
Dedico-me ao suor?
Vou investir com a
caneta o branco da página em branco.
Minha tentação era
subscrever o branco,
assinar o silêncio.
Mas o branco seria o
silêncio,
uma vez assinado?
Cedo à inspiração?
Dedico-me ao suor?
Nada vem de bandeja.
Nada vem do suor.
2
Não há modelo
exterior a que eu deva obediência,
sequer trabalho.
O modelo exterior
seria uma plateia
com centenas de
lugares-comuns
ainda mal arejados
dos traseiros
que neles depusessem
os gomos o tempo da sessão.
O modelo exterior
é uma convenção
que te obriga, se o
eleges, a trabalhar como arrumador,
lanterninha na mão.
E então, sim! Deves
tudo ao suor
(o nobre suor de um
senhor escritor).
O modelo exterior
é como o jogo do avião:
ao pé-coxinho vais
biqueirando a palavra-patela,
de quadradinho em
quadradinho,
até fazeres todo o
avião.
O modelo exterior
deixa-te definitivamente fora,
mas fora de ti
próprio.
É como se andasses à
rabiça
a arar os campos de
papel.
3
A folha de papel em
branco
não é o ruedo de
nenhuma festa.
A folha de papel em
branco
(e tu debruçado sobre
ela)
é um slogan
turístico, um “Spain is different!”
da
poesia-espectáculo.
(Nem a ti próprio te
dês em espectáculo
sob pretexto de
reflexão.)
Se tens o lampo da inspiração
a crescer, em
formigueiro, na mão da faina,
não te deixes
embevecer por imagens toureiras.
São bonitos.
São analogias que não
colam
ao trabalho de
escrever.
Se tens o lampo da
inspiração,
despede-o para o
papel como instantaneidade
de incertos resultados.
Depois se verá se
deixou resíduos
ou se o lampo não deu
mais que um trovão.
4
Nada vem de bandeja.
Nada vem do suor.
Não te deixes cindir
por um falso dilema.
Escrever é tramar o
textual.
Bandeja e suor são
problemas teus,
maneiras de ser, de
agir, processos de trabalho.
Onde começa um poema?
Quando começa um
poema?
No espaço quadrado da
folha de papel?
No momento em que
pegas da caneta?
Ou no espaço redondo
em que te moves?
Ou quando, alheio a
tudo, te pões de cócoras,
a coçar, perplexo, a
cabeça?
Em: “Feira
Cabisbaixa” (1965)
Chama
(Anita Louise West:
artista norte-americana)
Referência:
O’NEILL, Alexandre. Quatro
lugares-comuns sobre várias artes poéticas. In: MEDINA, Cremilda de Araújo
(Sel. & Org.). Viagem à literatura portuguesa contemporânea. Rio de
Janeiro, RJ: Nórdica, 1983. p. 233-235.
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