Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Alexandre O’Neill - Quatro Lugares-Comuns sobre Várias Artes Poéticas

O poeta desmistifica certos pontos de vista em relação ao processo criativo, rechaçando tanto a ideia de que seria o resultado de um inspiração divina – de pendor romântico –, quanto o fruto de um trabalho mecânico, circunscrevendo-se, sob tal abordagem, à falsa oposição dilemática entre a espera passiva pelo sopro inspirador da musa e o árduo labor com a palavra, ou ainda, entre as tutelas legendárias da inspiração e da transpiração –, contrapondo-lhes o enfoque de uma dinâmica mais integral e pessoal.

 

“Escrever é tramar o textual”, afirma o autor português, quer no sentido de urdir ou tecer a composição, quer na acepção conotativa de lançar mão de astúcias e de estratégias para se alcançar um resultado final que capture as perplexidades humanas, o fluxo incomodatício da vida, os seus gestos mais triviais e absurdos, sem concessões a rígidos modelos preestabelecidos ou a uma audiência tantas vezes afeita a clichês.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alexandre O’Neill

(1924-1986)

 

Quatro Lugares-Comuns sobre Várias Artes Poéticas

 

1

 

Estou sozinho diante da página em branco.

 

Cedo à inspiração?

Dedico-me ao suor?

 

Vou investir com a caneta o branco da página em branco.

 

Minha tentação era subscrever o branco,

assinar o silêncio.

Mas o branco seria o silêncio,

uma vez assinado?

 

Cedo à inspiração?

Dedico-me ao suor?

 

Nada vem de bandeja.

Nada vem do suor.

 

2

 

Não há modelo exterior a que eu deva obediência,

sequer trabalho.

O modelo exterior seria uma plateia

com centenas de lugares-comuns

ainda mal arejados dos traseiros

que neles depusessem os gomos o tempo da sessão.

O modelo exterior é uma convenção

que te obriga, se o eleges, a trabalhar como arrumador,

lanterninha na mão.

E então, sim! Deves tudo ao suor

(o nobre suor de um senhor escritor).

O modelo exterior é como o jogo do avião:

ao pé-coxinho vais biqueirando a palavra-patela,

de quadradinho em quadradinho,

até fazeres todo o avião.

 

O modelo exterior deixa-te definitivamente fora,

mas fora de ti próprio.

É como se andasses à rabiça

a arar os campos de papel.

 

3

 

A folha de papel em branco

não é o ruedo de nenhuma festa.

A folha de papel em branco

(e tu debruçado sobre ela)

 

é um slogan turístico, um “Spain is different!”

da poesia-espectáculo.

(Nem a ti próprio te dês em espectáculo

sob pretexto de reflexão.)

 

Se tens o lampo da inspiração

a crescer, em formigueiro, na mão da faina,

não te deixes embevecer por imagens toureiras.

São bonitos.

São analogias que não colam

ao trabalho de escrever.

 

Se tens o lampo da inspiração,

despede-o para o papel como instantaneidade

de incertos resultados.

Depois se verá se deixou resíduos

ou se o lampo não deu mais que um trovão.

 

4

 

Nada vem de bandeja.

Nada vem do suor.

 

Não te deixes cindir por um falso dilema.

Escrever é tramar o textual.

Bandeja e suor são problemas teus,

maneiras de ser, de agir, processos de trabalho.

 

Onde começa um poema?

Quando começa um poema?

 

No espaço quadrado da folha de papel?

No momento em que pegas da caneta?

 

Ou no espaço redondo em que te moves?

Ou quando, alheio a tudo, te pões de cócoras,

a coçar, perplexo, a cabeça?

 

Em: “Feira Cabisbaixa” (1965)

 

Chama

(Anita Louise West: artista norte-americana)

 

Referência:

 

O’NEILL, Alexandre. Quatro lugares-comuns sobre várias artes poéticas. In: MEDINA, Cremilda de Araújo (Sel. & Org.). Viagem à literatura portuguesa contemporânea. Rio de Janeiro, RJ: Nórdica, 1983. p. 233-235.

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