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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Karl Shapiro - O Interlúdio III

O poeta interroga o universo com a força de uma exclamação, neste soneto que é, a um só tempo, uma meditação sobre a consciência e a responsabilidade, sobretudo em relação aos seres que costumamos classificar como pertencentes a um mundo “inferior”, mas que, assim como todas as demais criaturas neste plano de existência, têm beleza intrínseca e direito à vida (e quiçá sejam autoconscientes de seu próprio valor, como sugere o autor).

 

O verso derradeiro do poema carrega uma ironia imensa: a lágrima, símbolo de arrependimento e de dor moral, é tão avassaladora, quando em contraste com o tamanho da vítima – um ácaro –, que lhe poderia ter causado o mesmo efeito de extinção por esmagamento pela unha do falante. Em suma: mesmo a expressão do remorso tem potencial para ser mais um meio de aniquilação!

 

J.A.R. – H.C.

 

Karl Shapiro

(1913-2000)

 

The Interlude III

 

Writing, I crushed an insect with my nail

And thought nothing at all. A bit of wing

Caught my eye then, a gossamer so frail

 

And exquisite, I saw in it a thing

That scorned the grossness of the thing I wrote.

It hung upon my finger like a sting.

 

A leg I noticed next, fine as a mote,

“And on this frail eyelash he walked,” I said,

“And climbed and walked like any mountain-goat.”

 

And in this mood I sought the little head,

But it was lost; then in my heart a fear

Cried out, “A life – why beautiful, why dead!”

 

It was a mite that held itself most dear,

So small I could have drowned it with a tear.

 

In: “V-Letter and Other Poems” (1944)

 

Diálogo de insetos

(Joan Miró: pintor espanhol)

 

O Interlúdio III

 

Enquanto escrevia, esmaguei um inseto com a unha,

E não lhe dei maior importância. Então chamou-me

A atenção um pedaço de asa, uma gaze tão frágil

 

E delicada que levou-me a cismar ter nela visto algo

Que desdenhava a crueza daquilo que eu escrevera.

Pendia como um ferrão agarrado ao meu dedo.

 

Uma perna, notei em seguida, fina como um cisco,

“E sobre esse frágil cílio ele caminhava”, discorrera,

“A escalar e andejar como qualquer cabra-montesa”.

 

E, com tal ânimo, busquei-lhe a diminuta cabeça,

Mas a havia perdido; logo um assombro vociferou-me

Ao coração: “Uma vida – por que bela, por que morta!?”

 

Era um ácaro que se tinha em grande consideração,

Tão ínfimo que eu o poderia afogar com uma lágrima.

 

Em: “V-Letter e Outros Poemas” (1944)

 

Referência:

 

SHAPIRO, Karl. The interlude III. In: __________. Selected poems. New York, NY: Random House, 1968. p. 69.

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