Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Lawrence Ferlinghetti - Nova York – Albany

Como o próprio Ferlinghetti o esclarece na obra em referência (ENGLE & LANGLAND, 1982, p. 172), este poema transmuta uma simples viagem de ônibus, através da paisagem outonal do vale do Hudson, em uma jornada existencial, a espelhar certa angústia metafísica do sujeito lírico diante da consciência de mortalidade que lhe assoma ao espírito, como parte do ciclo natural e implacável que este observa ao longo do trajeto, precipuamente, folhas caídas a arderem sob o fogo com uma terrível beleza.

 

Perceba-se que tal mote – a do amarelecimento das folhas das árvores e a sequente queda que as deixa em estado de latência durante as estações mais frias do ano – também deu matéria para outro importante construto poético, nomeadamente a “Ode to the West Wind” (“Ode ao Vento Oeste”), do poeta inglês Percy Bysshe Shelley (1792-1822), de onde, aliás, Ferlinghetti replica um de seus versos – ‘pestilence-stricken multitudes’ (“multidões atingidas pela pestilência”) –, para elevar, a toda evidência, o drama das sobreditas folhas em chamas a uma categoria trágica e coletiva: cada folha, cada momento, cada instante da juventude, é único e irrepetível, e, uma vez exauridas as suas promessas, desvanece-se para sempre.

 

J.A.R. – H.C.

 

Lawrence Ferlinghetti

(1919-2021)

 

New York – Albany (*)

 

God i had forgotten how

the Hudson burns

in indian autumn

Saugerties

Coxsackie

fall away through

all those trees

The leaves die turning

falling fallen

falling into loam of dark

yellow into death

Disappearing

falling fallen falling

god god those

‘pestilence-stricken multitudes’

rushed into the streets

blown all blasted

They are hurting them

with wood rakes

They are raking them

in great hills

They are burning them

lord lord

the leaves curl burning

the curled smoke gives up

to eternity

Never

never the same leaf turn again

the same leaves burn

lord lord

in a red field

a white stallion stands

and pees his oblivion

upon those leaves

washing my bus window

only now blacked out

by a covered bridge

we flash through

only once

No roundtrip ticket

Lord lord never returning

the youth years fallen

away back then

Under the Linden trees in Boston Common

Lord Lord

Trees think

through these woods of years

They flame forever

with those thoughts

Lord Lord

i did not see eternity

the other night

but now in burning

turning day

Lord Lord Lord

every bush burns

Love licks

all down

All gone

in the red end

Lord Lord Lord Lord

Small nuts fall

Mine too

 

In: “Starting from San Francisco” (1961)

 

Linha do Horizonte de Albany em Nova York

(Bri Buckley: artista irlandês)

 

Nova York – Albany

 

Deus tinha-me esquecido de como

o Hudson arde

no outono indígena

Saugerties

Coxsackie

desaparecem por entre

todas aquelas árvores

As folhas fenecem revirando-se

caindo emurchecidas

tombando no húmus escuro

e amarelo cingidas à morte

Desaparecendo

caindo emurchecidas tombando

deus deus aquelas

“multidões atingidas pela pestilência”

precipitaram-se às ruas

todas insufladas num arraso

Estão a magoá-las

com ancinhos de madeira

Estão a ajuntá-las

em grandes montes

Estão a queimá-las

senhor senhor

ao arderem as folhas encrespam-se

a fumaça em espirais rende-se

à eternidade

Nunca

nunca a mesma folha volta a revirar-se

as mesmas folhas queimam

senhor senhor

num campo vermelho

um garanhão branco se ergue

e urina a sua desmemória

sobre aquelas folhas

lavando a vidraça do meu ônibus

agora subitamente obscurecida

por uma ponte coberta

que fulgurantes atravessamos

uma única vez

Sem passagem de ida e volta

Senhor senhor sem nunca regressarmos

aos anos da juventude então perdidos

num passado deveras distante

Sob as Tílias do Boston Common

Senhor Senhor

As árvores pensam

através desses bosques de sucessivos anos

Ardem elas para sempre

com tais pensamentos

Senhor Senhor

não vi a eternidade

na noite passada

mas agora em chamas

no dia a transformar-se

Senhor Senhor Senhor

todos os arbustos ardem

As lambidelas do amor

a tudo consomem

Tudo se precipita

no vermelho final

Senhor Senhor Senhor Senhor

Pequenas nozes caem

As minhas também

 

Em: “Partindo de São Francisco” (1961)

 

Nota:

 

(*). O título do poema diz respeito à cidade de Albany, no Estado de Nova York (EUA); reporta-se ele, ademais, a outras duas cidades no mesmo Estado, a saber, Saugerties e Coxsackie.

 

Referência:

 

FERLINGHETTI, Lawrence. New York – Albany. In: ENGLE, Paul; LANGLAND, Joseph (Eds.). Poet’s choice. With an introduction by Paul Engle. Reprinting. Alexandria, VA: Time-Life Books, 1982. p. 170-172.

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