Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Jorge de Lima - Democracia

O poeta, na linhagem do modernismo brasileiro, apresenta traços antropofágicos nestes versos, propondo “devorar” todas as influências – europeias, africanas, indígenas – para criar algo novo, singularmente pátrio: a democracia local, para o autor alagoano, torna-se, sob tal mirada, um ato de canibalismo cultural, de abraço total à contradição e à heterogeneidade.

 

Trata-se, de fato, de uma declaração de identidade mestiça, delineada pelo sincretismo cultural, racial e espiritual que conforma a essência do Brasil, profundamente arraigado no corpo, nos hábitos, na ancestralidade, até mesmo nas enfermidades que são características deste torrão natal, idem nas superstições nas quais, como que em transe, a mente se liberta do racional para entrar em contato com forças primitivas e sagradas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Jorge de Lima

(1893-1953)

 

Democracia

 

Punhos de redes embalaram o meu canto

para adoçar o meu país, ó Whitman.

Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados,

catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes,

carumã me alimentou quando eu era criança,

Mãe-negra me contou histórias de bicho,

moleque me ensinou safadezas,

massoca, tapioca, pipoca, tudo comi,

bebi cachaça com caju para limpar-me,

tive maleita, catapora e ínguas,

bicho-de-pé, saudade, poesia;

fiquei aluado, mal-assombrado, tocando maracá,

dizendo coisas, brincando com as crioulas,

vendo espíritos, abusões, mães-d’água,

conversando com os malucos, conversando sozinho,

emprenhando tudo que encontrava,

abraçando as cobras pelos matos,

me misturando, me sumindo, me acabando,

para salvar a minha alma benzida

e meu corpo pintado de urucu,

tatuado de cruzes de corações, de mãos-ligadas,

de nomes de amor em todas as línguas de branco, de mouro

ou de pagão.

 

Em: “Poemas Negros” (1947)

 

Miscigenação

(Dauri Nei Diogo: artista paulista)

 

Referência:

 

LIMA, Jorge de. Democracia. In: __________. Obra completa em dois volumes. V. I: Poesia e ensaios. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1958. p. 355. (Biblioteca “Luso-Brasileira”; Série “Brasileira”; n. 12)

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