Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 22 de junho de 2026

Hermann Hesse - Esta é a minha mágoa

Hesse captura nestes versos, com rara precisão, a agonia de quem, tendo dominado a arte da máscara e da autocrítica racional, descobre que perdeu o contato com as fontes vitais de sua própria alma, com aquilo que confere a cada ser humano a sua autenticidade: a emoção espontânea, a intuição, o mistério dos sonhos e a capacidade de expressar emoções genuínas.

 

Eis aí os perigos de um autoconhecimento que, em vez de libertar, encarcera o espírito numa luta inglória entre o eu consciente – controlador e analítico – e o eu inconsciente – sensitivo, livre do cálculo e do autoexame –, em desfavor deste último, pelo que, em decorrência, se elimina quaisquer surpresas ou mistérios nas profundezas do ser, tornando a vida interior mecânica, estéril, até mesmo previsível.

 

J.A.R. – H.C.

 

Hermann Hesse

(1877-1962)

 

Das ist mein Leid

 

Das ist mein Leid, daß ich in allzuvielen

Bemalten Masken allzugut zu spielen

Und mich und andre allzugut

Zu täuschen lernte. Keine leise Regung

Zuckt in mir auf und keines Lieds Bewegung,

In der nicht Spiel und Absicht ruht.

 

Das muss ich meinen Jammer nennen:

Mich selber so ins Innerste zu kennen,

vorwissend jedes Pulses Schlag,

dass keines Traumes unbewusste Mahnung

und keiner Lust und Leides Ahnung

mir mehr die Seele rühren mag.

 

Autorretrato

ou Homem caminhando à noite

(Edvar Munch: pintor norueguês)

 

Esta é a minha mágoa

 

Esta é a minha mágoa: com tão numerosas

máscaras ter representado tanto,

a mim e aos outros igualmente bem

ter sabido enganar. Em mim não há

qualquer gesto ou qualquer menção de canto

sem algum truque ou segunda intenção.

 

Devo dizer que é esta a minha desgraça:

conhecer o meu íntimo tão bem,

antessabendo cada batida do pulso,

que não há símbolo inconsciente de sonho,

nem perspectiva de alegria ou de tristeza,

capaz de alvoroçar-me ainda o coração.

 

Referências:

 

Em Alemão

 

HESSE, Hermann. Das ist mein leid. In: __________. Die gedichte von Hermann Hesse. Zürich, CH: Fretz & Wasmuth, 1942. s. 104.

 

Em Português

 

HESSE, Hermann. Esta é a minha mágoa. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1976. p. 38.

domingo, 21 de junho de 2026

Allen Tate - O Mediterrâneo

O poeta bem expressa nestes versos a fratura da continuidade histórico-cultural do Ocidente – os EUA no centro desse corte – em relação à herança clássica, malbaratada num jogo de poder em que se desata uma fúria sem conteúdo – a não ser o afã expansionista, dominador e espoliatório – sobre os quatro cantos do mundo. Expressemo-nos imageticamente: piratas que se disfarçam com as vestes de heróis!

 

A civilização do Novo Mundo – sugere Tate – já teria nascido em plena decadência, submersa numa abundância corrupta, ou em outros termos, asfixiada num consumismo disruptivo. E mesmo o Mediterrâneo já não se lhe mostra um mar de conexão entre os povos, senão apenas um elemento recordatório de tudo quanto se perdeu ao longo de séculos de história – seu significado fundador, sua ascendência mítica e sagrada.

 

J.A.R. – H.C.

 

Allen Tate

(1899-1979)

 

The Mediterranean

 

Quem das finem, rex magne, dolorum?

 

Where we went in the boat was a long bay

A slingshot wide, walled in by towering stone –

Peaked margin of antiquity’s delay,

And we went there out of time’s monotone:

 

Where we went in the black hull no light moved

But a gull white-winged along the feckless wave,

The breeze, unseen but fierce as a body loved,

That boat drove onward like a willing slave:

 

Where we went in the small ship the seaweed

Parted and gave to us the murmuring shore

And we made feast and in our secret need

Devoured the very plates Aeneas bore:

 

Where derelict you see through the low twilight

The green coast that you, thunder-tossed, would win,

Drop sail, and hastening to drink all night

Eat dish and bowl – to take that sweet land in!

 

Where we feasted and caroused on the sandless

Pebbles, affecting our day of piracy,

What prophecy of eaten plates could landless

Wanderers fulfil by the ancient sea?

 

We for that time might taste the famous age

Eternal here yet hidden from our eyes

When lust of power undid its stuffless rage;

They, in a wineskin, bore earth’s paradise.

 

Let us lie down once more by the breathing side

Of Ocean, where our live forefathers sleep

As if the Known Sea still were a month wide –

Atlantis howls but is no longer steep!

 

What country shall we conquer, what fair land

Unman our conquest and locate our blood?

We’ve cracked the hemispheres with careless hand!

Now, from the Gates of Hercules we flood

 

Westward, westward till the barbarous brine

Whelms us to the tired land where tasseling corn,

Fat beans, grapes sweeter than muscadine

Rot on the vine: in that land were we born.

 

In: “The Mediterranean and Other Poems” (1936)

 

Navegando pelo Mediterrâneo

(Julius L. Stewart: pintor norte-americano)

 

O Mediterrâneo

 

Quem das finem, rex magne, dolorum? (*)

 

Para onde fomos no barco havia uma longa baía,

Larga como uma funda, ao abrigo de imponente rochedo –

A margem pontiaguda da dilação da antiguidade,

E para lá rumamos, fugindo à monotonia do tempo:

 

Por onde passamos no casco negro, luz alguma se movia,

Só uma gaivota de brancas asas ao longo de uma marola;

A brisa, invisível, semelhantemente ao ardor de quem ama,

Impelia aquele barco adiante, feito um servo complacente:

 

Por onde quer que fôssemos no pequeno escaler, as algas

Separavam-se e nos franqueavam o murmurante litoral;

E nós fazíamos festa e, em nossa irrevelada carência,

Recorríamos aos mesmos farnéis que outrora nutriram Eneias:

 

Onde, à deriva, vislumbrardes pelo Crepúsculo baixo

A verde costa que, açoitada por trovões, sonhais conquistar,

Baixai as velas e pressurosos, a beberdes por toda a noite,

Devorai pratos e concas – para aquela doce terra sujeitar!

 

Lá festejamos e farreamos sobre desarenados calhaus,

Dispensando ao nosso dia certos ares de pirataria;

Que profecia de devorados pratos poderiam cumprir

Os andarilhos sem-terra à borda do vetusto mar?

 

Em tempos idos, poderíamos usufruir aqui a célebre

Era eterna – oculta, nada obstante, a nossos olhos –,

Uma vez que a volúpia do poder nos desatou uma fúria vã;

Enquanto que eles carregavam em odres o éden terreno.

 

Voltemos a nos deitar à margem respirante do Oceano,

Onde jazem os nossos vivos antepassados,

Como se o Mar Conhecido ainda fosse um mês de largo –

A Atlântida ruge, mas nela já não há proeminência!

 

Que país haveremos de conquistar, que terra formosa

Minará nossa conquista e nos derramará o sangue?

Nós dividimos os hemisférios com mãos descuidadas!

Agora, das Colunas de Hércules, deslizemos para oeste,

 

Sempre a oeste, até que as bárbaras águas nos lancem

Sobre a terra exausta, onde o milho de borda,

Grandes feijões e uvas mais doces que a muscadínea

Definham nas lavras: essa é a terra que nos viu nascer.

 

Em: “O Mediterrâneo e Outros Poemas” (1936)

 

Nota:

 

(*). Em latim: Que fim dás, grande rei, às tristezas? Trata-se de uma adaptação latina do verso Quem das finem, rex magne, laborum? (Que fim dás, grande rei, aos trabalhos), que se encontra na “Eneida”, de Virgílio (I, 245).

 

Referência:

 

TATE, Allen. The Mediterranean. In: __________. Poems: 1922-1947. New York, NY: Charles Scribner’s Sons, 1953. p. 3-4.

sábado, 20 de junho de 2026

Alain Bosquet - Do verbo o verbo...

Eis aqui mais alguns versos sobre o processo criativo, especificamente a escrita poética, invertendo os papéis tradicionais entre o poeta e o poema, com o segundo não sendo mais visto como um objeto passivo criado pelo primeiro, mas como uma entidade ativa, viva além do mais, que “escreve através do poeta”, convertido, por conseguinte, em mero “médium”, em instrumento.

 

O poema personifica-se, então, como um “inquilino” que tomou posse do poeta, um dinâmico “ocupante”, algo autoritário, um crítico, um julgador peremptório que, por impor perda de controle e completa submissão, suscita dúvidas no senhorio – agora um “esqueleto inútil” – se ainda lhe dedica algum amor.

 

O sujeito lírico sugere, com tais lucubrações, que a linguagem possui vida e lógica próprias, particularmente quando em sua forma poética, em cujas tramas o poema atinge plenitude e fruição precisamente por meio da exclusão daquele que o engendrou, imergindo o poeta em certa resignação silenciosa, enquanto põe-se a criar mundos a seu emancipado talante.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alain Bosquet

(1919-1998)

 

Le mot par le mot

 

C’est le poème en moi qui écrit mon poème;

Le mot par le mont engendré.

Il est mon occupant; je ne sais pas s’il m’aime.

Mon locataire veut gérer

 

Mon espace vital et, de plus, il me gronde:

peut-être suis-je dans mon tort.

Il m’absoudra un jour; en ses couches profondes,

je lui prépare un meilleur sort.

 

Nous formerons un couple heureux; mon allégresse

aura raison de ses soucis.

Il a horreur des trémolos; il ne me laisse

aucun emploi: ni le récit,

 

ni le déroulement, ni l’air, ni la musique     

car il prétend tout décider.

Mon cerveau se rétracte et ma pauvre logique

vaut moins, dit-il, qu’un coup de dé.

 

Je suis pour mon poème un squelette inutile,

qui ferait mieux dans un linceul.

Il est adulte, il peut devenir la presqu’île,

l’oiseau, l’azur et le tilleul.

 

Je n’ai plus rien à dire, Ô poète: en silence

je rêve au défi de rêver.

Mon poème sans moi en soi-même se pense,

luxure dont il m’a privé.

 

O poeta e sua musa

(Giorgio de Chirico: pintor italiano)

 

Do verbo o verbo...

 

É o poema em mim que escreve o meu poema,

do verbo o verbo se origina.

Ele é meu ocupante; e nem sei se me ama.

Quer a poesia, essa inquilina,

 

meu espaço vital gerir e, furibunda,

ralha: quem sabe estou errado.

Há de absolver-me um dia; em sua porção mais funda,

eu lhe preparo um melhor fado.

 

Faremos par feliz; há de a minha alegria

vencer-lhe toda inquietação.

Os trêmulos detesta; a mim não cederia

emprego algum: a narração,

 

nem a trama, ou a letra, ou mesmo a melodia,

pois tudo quer decidir logo.

Meu cérebro retrai-se e a minha razão fria

não vale um dado posto em jogo.

 

Sou para o meu poema esqueleto ilusório;

numa mortalha ia melhor.

Ele é adulto, pode ser o promontório,

a ave, o azul e a tília em flor.

 

Nada mais a dizer, poeta; quieto assim

sonhando com sonhar eu vou.

Em si mesmo se pensa o poema, sem mim;

luxúria de que me privou.

 

Referência:

 

BOSQUET, Alain. Le mot par le mot / Do verbo o verbo... Tradução de Mário Laranjeira. In: LARANJEIRA, Mário (Seleção, tradução e introdução). Poetas de França hoje: 1945-1995. Edição bilíngue. Apresentação de Nelson Ascher. São Paulo, SP: Edusp, 1996. Em francês e em português: p. 56-57.

sexta-feira, 19 de junho de 2026

Ferreira Gullar - A alegria

Gullar desconstrói a ideia romântica do sofrimento como algo nobre, transpassado de um valor transcendente, haja vista que não teria o dom de acender “um halo” em volta da cabeça de ninguém. Não sendo a dor muito diferente daquela a que estão expostas quaisquer espécies animais – quer “superiores”, como gatos e cães, quer “inferiores”, como ratos e baratas –, a elas nos nivelamos perante tal miséria.

 

O desejo universal por alegria contrasta brutalmente com a realidade do padecimento e da injustiça que povoa o humano substrato cultural – e que a muitos atinge, sobretudo, diríamos nós, em razão da distribuição infame e hiperconcentrada de riquezas, tornando ainda mais ostensiva a fealdade da exclusão social, da penúria, do mal-estar, da opressão nos grandes centros urbanos.

 

Mas ela – a alegria – paira distante quando nos deparamos com as imagens antipoéticas ou antilíricas do autor, mostrando-se quase inalcançável, denotando um contraponto que torna o sofrimento – seja ele corporal, seja material – ainda mais difícil de suportar.

 

J.A.R. – H.C.

 

Ferreira Gullar

(1930-2016)

 

A alegria

 

O sofrimento não tem

nenhum valor

não acende um halo

em volta de tua cabeça, não

ilumina trecho algum

de tua carne escura

(nem mesmo o que iluminaria

a lembrança ou a ilusão

de uma alegria).

 

Sofres tu, sofre

um cachorro ferido, um inseto

que o inseticida envenena.

Será maior a tua dor

que a daquele gato que viste

a espinha quebrada a pau

arrastando-se a berrar pela sarjeta

sem ao menos poder morrer?

 

A justiça é moral, a injustiça

não. A dor

te iguala a ratos e baratas

que também de dentro dos esgotos

espiam o sol

e no seu corpo nojento

de entre fezes

  querem estar contentes.

 

Alegrias e tristezas da vida

(Purvasha Roy: artista indiano)

 

Referência:

 

GULLAR, Ferreira. A alegria. In: FERRAZ, Eucanaã (Organização e Prefácio). Veneno antimonotonia: os melhores poemas e canções contra o tédio. Rio de Janeiro, RJ: Objetiva, 2005. p. 29.