Neste poema, o poeta
belga oferece-nos um canto à tenacidade humana e à sublime beleza de querer
saber, do empreendimento científico, numa sucessão de estrofes a revelarem
diferentes aspectos dessa “casa da ciência” – um espaço a um só tempo, físico,
intelectual e simbólico –, destrinchando-lhe os custos, os dramas nos quais
amiúde incorre e a sua dimensão quase espiritual.
Fascinado pela
modernidade e pelo progresso, Verhaeren mostra-nos o quanto a ciência é dinâmica,
qual flecha lançada através dos fatos até as ideias claras, a delimitar um
ecossistema vibrante de atividades e conquistas, avançando sobre o cadafalso
daqueles que ousaram desafiar os dogmas para afirmar cada “pequena certeza”,
mal ocultando a série de erros, sofrimentos e sacrifícios humanos investidos na
busca por se alcançar algo próximo à verdade.
Cada descoberta desvela
uma lei fundamental do universo, uma palavra, uma chave – pura, essencial, inédita
– a lançarem luzes sobre os enigmas do cosmos, trasladando-os do abismo penumbroso
do desconhecido para os domínios do inteligível: eis o devotado ofício dos
chamados gênios da ciência.
J.A.R. – H.C.
Émile Verhaeren
(1855-1916)
La Recherche
Chambres et pavillons,
tours et laboratoires,
Avec, sur leurs
frises, les sphinx évocatoires
Et vers le ciel,
braqués, les télescopes d’or.
C’est la maison de la
science au loin dardée,
Par à travers les
faits jusqu’aux claires idées.
Flacons jaunes,
bleus, verts, pareils à des trésors;
Cristaux monumentaux
et minéraux jaspés;
Prism es dans le
soleil et ses rayons trempés;
Creusets ardents,
godets rouges, flammes fertiles,
Où se transmuent les
poussières subtiles;
Instruments nets et
délicats,
Ainsi que des insectes,
Ressorts tendus et
balances correctes,
Cônes, segments,
angles, carrés, compas,
Sont là, vivant et
respirant dans l’atmosphère
De lutte et de
conquête autour de la matière.
Dites! quels temps
versés au gouffre des années,
Et quelle angoisse ou
quel espoir des destinées,
Et quels cerveaux
chargés de noble lassitude
A-t-il fallu pour faire
un peu de certitude?
Dites! l’erreur
plombant les fronts; les bagnes
De la croyance où le
savoir marchait au pas;
Dites ! les premiers
cris, là-haut, sur la montagne,
Tués par les bruits
sourds de la foule d’en bas.
Dites! les feux et
les bûchers; dites! les claies;
Les regards fous en
des visages d’effroi blanc;
Dites! les corps
martyrisés, dites! les plaies
Criant la vérité,
avec leur bouche en sang.
C’est la maison de la
science au loin dardée,
Par à travers les
faits jusqu’aux vastes idées.
Avec des yeux
Méticuleux ou
monstrueux,
On y surprend les
croissances ou les désastres
S’échelonner, depuis
l’atome jusqu’à l’astre.
La vie y est
fouillée, immense et solidaire,
En sa surface ou ses
replis miraculeux,
Comme la mer et ses gouffres
houleux,
Par le soleil et ses
mains d’or myriadaires.
Chacun travaille,
avec avidité,
Méthodiquement lent,
dans un effort d’ensemble;
Chacun dénoue un
nœud, en la complexité
Des problèmes qu’on y
rassemble;
Et tous scrutent et
regardent et prouvent,
Tous ont raison –
mais c’est un seul qui trouve!
Ah celui-là, dites!
de quels lointains de fête,
Il vient, plein de
clarté et plein de jour;
Dites! avec quelle
flamme au cœur et quel amour
Et quel espoir
illuminant sa tête;
Dites! comme à l’avance
et que de fois
Il a senti vibrer et
fermenter son être
Du même rythme que la
loi
Qu’il définit et fait
connaître.
Comme il est simple
et clair devant les choses
Et humble et
attentif, lorsque la nuit
Glisse le mot
énigmatique en lui
Et descelle ses
lèvres closes;
Et comme en
s’écoutant, brusquement, il atteint,
Dans la forêt
toujours plus fourmillante et verte,
La blanche et nue et
vierge découverte
Et la promulgue au
monde ainsi que le destin.
Et quand d’autres,
autant et plus que lui,
Auront a leur lumière
incendié la terre
Et fa it crier l’airain
des portes du mystère,
– Aprés combien
dejours, combien de nuits,
Combien de cris
poussés vers le néant de tout.
Combien de voeux
dêfunts, de volontés à bout
Et d’oceans mauvais
qui rejettent les sondes –
Viendra l’instant, ou
tant d’efforts savants et ingénus,
Tant de cerveaux
tendus vers l’inconnu,
Quand même, auront
bâti sur des bases profondes
Et s’élançant au ciel,
la synthèse des mondes!
C’est la maison de la
science au loin dardée,
Par à travers les
faits, jusqu’aux fixes idées.
O astrônomo
(Johannes Vermeer: pintor
holandês)
A Procura
Câmaras, pavilhões,
torres, laboratórios,
E, em suas frisas,
esfinges evocatórias,
E, apontados ao céu,
os telescópios de ouro.
E a casa da ciência
ao distante voltada.
Dos fatos evoluindo
às ideias eternas.
Frascos verdes,
azuis, doirados quais tesouros;
Cristais monumentais
e minerais jaspeados;
Prismas ao sol com
raios irisados;
Cadinhos, recipientes
rubros, chamas febris,
Onde são transmudadas
as poeiras sutis;
Instrumentos simples e
delicados
Qual se fossem
insetos,
Molas tendidas,
balanças corretas.
Quadrados, cones,
ângulos, compassos
Lá estão, vivendo e
respirando na atmosfera
De luta e de
conquista em torno da matéria.
Ah! que tempo roubado
à voragem dos anos,
E quanta angústia,
quanta esperança nos fados,
E quantos cérebros
pesados de cansaço
São precisos pra
ter-se um pouco de certeza?
Ah! quanto erro a pesar
nas frontes; e as prisões
Da crença onde o
saber andava a passo;
Ah! os primeiros
gritos, no alto da montanha.
Mortos pelo clamor da
multidão embaixo.
Ah! fogueiras,
suplícios, a escala toda do horror;
O louco olhar em
faces brancas de pavor;
Ah! os corpos
martirizados! e as chagas
A gritar a verdade, a
boca ensanguentada.
E a casa da ciência
ao distante voltada,
Dos fatos evoluindo
às ideias eternas.
E com o olhar
Meticuloso ou
monstruoso
Se podem ver os
crescimentos e os desastres
A suceder-se, desde o
átomo até o astro.
A vida é assim
sondada, imensa e solidária,
Na superfície ou seus
desvãos miraculosos.
Como o oceano e os
seus vales agitados
Pelo sol, com suas
mãos de ouro, inumeráveis.
E cada qual trabalha,
com avidez,
Lento e metódico, num
esforço de conjunto;
Cada um desata um nó,
nessa complexidade
Dos problemas que se acumulam;
Todos escrutam e
contemplam, todos provam;
Razão têm todos – mas
é um só que encontra!
Ah, aquele que vem de
distâncias festivas
Coberto de claridade
e de luz;
Com que flama no
peito, com que amor
E que esperança a
arder-lhe na cabeça;
Ah! quanto à frente e
quantas vezes
Sentiu vibrar e
fermentar seu ser,
No mesmo ritmo da lei
Que define e faz
conhecer.
Como ele é doce e
claro frente aos fatos,
E humilde e atento,
quando a noite
Lhe passa a palavra
enigmática,
Desvela seus lábios
fechados;
E como a se escutar,
bruscamente, ele toca,
Na floresta sempre
mais formigante e verde,
A branca e nua e
virgem descoberta
E a promulga para o
mundo como o destino.
E quando outros, com
o ele e ainda mais do que ele,
Fizerem com sua luz incendiar-se
a terra
E o bronze ressoar
das portas do mistério,
– Depois de quantos
dias, e de quantas noites,
Quanto grito lançado
à pequenez de tudo,
Quanto voto defunto e
vontades extremas,
Quanto oceano
perverso rejeitando as sondas –
Virá a hora em que o
esforço sábio e ingênuo
Dos cérebros voltados
para o ignoto
Terão fundado, ao
menos, em bases profundas,
E se lançando aos
céus, a síntese dos mundos!
É a casa da ciência
ao distante voltada,
Dos fatos evoluindo
às ideias eternas.
Referência:
VERHAEREN, Émile. La recherche / A procura. Tradução de José
Jeronymo Rivera. In: __________. Cidades tentaculares. Edição bilíngue:
francês x português. Tradução e apresentação de José Jeronymo Rivera. Brasília,
DF: Thesaurus, 1999. Em francês: p. 124, 126 e 128; em português: p. 125, 127 e
129.
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