Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2022

Henry David Thoreau - Walden (Excerto)

Esta passagem da ‘Conclusão’ de ‘Walden’ (1854), de H. D. Thoreau (1817-1862), selecionada por Garrison Keillor (n. 1942), bem poderia ter sido concebida por algum escritor místico, haja vista os cotejos encetados pelo autor entre a topografia das águas de um rio e a forma de vida de que somos dotados, ou mesmo as explanações de suas ideias à maneira dos transcendentalistas norte-americanos.

 

O discurso de Thoreau assume um tom positivo e profético, ainda que admita que suas preleções, aos ouvidos de João ou Jônatas – gente comum do povo –, não venham a ser totalmente compreendidas ou assimiladas. De todo modo arremata resolutamente: “Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. O dia não cessa de amanhecer. O sol é apenas uma estrela da manhã”.

 

J.A.R. – H.C.

 

Henry David Thoreau

(1817-1862)

 

Walden (Excerpt)

 

The life in us is like the water in the river. It may rise this year higher than man has ever known it, and flood the parched uplands; even this may be the eventful year, which will drown out all our muskrats. It was not always dry land where we dwell. I see far inland the banks which the stream anciently washed, before science began to record its freshets. Every one has heard the story which has gone the rounds of New England, of a strong and beautiful bug which came out of the dry leaf of an old table of apple-tree wood, which had stood in a farmer’s kitchen for sixty years, first in Connecticut, and afterward in Massachusetts, – from an egg deposited in the living tree many years earlier still, as appeared by counting the annual layers beyond it; which was heard gnawing out for several weeks, hatched perchance by the heat of an urn. Who does not feel his faith in a resurrection and immortality strengthened by hearing of this? Who knows what beautiful and winged life, whose egg has been buried for ages under many concentric layers of woodenness in the dead dry life of society, deposited at first in the alburnum of the green and living tree, which has been gradually converted into the semblance of its well-seasoned tomb, – heard perchance gnawing out now for years by the astonished family of man, as they sat round the festive board, – may unexpectedly come forth from amidst society’s most trivial and handselled furniture, to enjoy its perfect summer life at last!

I do not say that John or Jonathan will realize all this; but such is the character of that morrow which mere lapse of time can never make to dawn. The light which puts out our eyes is darkness to us. Only that day dawns to which we are awake. There is more day to dawn. The sun is but a morning star.

 

Homem no Bosque

(Chenlu Zhu: artista chinesa)

 

Walden (Excerto)

 

A vida em nós é como a água no rio. Ela pode aumentar este ano a um nível jamais visto e inundar os planaltos ressecados; pode até ser o ano memorável que afogará todos os nossos ratos almiscarados. Aqui onde moramos nem sempre foi terra seca. Vejo em áreas bem interiores as margens outrora banhadas pelos rios, antes que a ciência começasse a registrar suas enchentes. Todos já ouviram a história, que percorreu a Nova Inglaterra, do besouro forte e bonito que saiu do nó seco de uma velha mesa de madeira de macieira, que havia ficado sessenta anos na cozinha de um agricultor, primeiro em Connecticut e depois em Massachusetts – saído de um ovo que fora depositado na árvore viva muitos anos antes, conforme se viu depois contando as camadas anuais do tronco, e que ficou roendo audivelmente o interior durante várias semanas até conseguir sair, após ter sido incubado talvez pelo calor de uma chaleira. Quem não sente fortalecida sua fé na ressurreição e na imortalidade, ao ouvir isso? Quem sabe qual a bela vida alada, cujo ovo ficou enterrado por muitas eras sob muitas camadas concêntricas de lígneo embotamento na vida ressequida do convívio social, outrora depositado no alburno da árvore viva e verdejante, que aos poucos se converteu na imagem de sua sepultura de madeira totalmente seca – talvez roendo audivelmente o interior, desta vez durante anos, até conseguir sair, para o espanto da família sentada ao redor da mesa festiva –, que pode inesperadamente surgir do móvel mais trivial e comemorado entre o convívio social, para gozar finalmente sua plena vida estival!

Não digo que João ou José venham a entender tudo isso; mas este é o caráter daquele amanhã que o mero decorrer do tempo jamais fará alvorecer. A luz que extingue nossos olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos despertos. O dia não cessa de amanhecer. O sol é apenas uma estrela da manhã.

 

Referências:

 

Em Inglês

 

THOREAU, Henry David. Walden (excerpt). In: KEILLOR, Garrison (Selector and Introducer). Good poems. New York, NY: Penguin Books, 2003. p. 424-425.

 

Em Português

 

THOREAU, Henry David. Walden (excerto). Tradução de Denise Bottmann. In: __________. Walden: conclusão. Apresentação de Eduardo Bueno. Tradução de Denise Bottmann. 1. ed. reimp. Porto Alegre, RS: L&PM, 2015. p. 313-314. (Coleção ‘L&PM Pocket’; v. 884.)

sexta-feira, 15 de outubro de 2021

Saul Bellow - O Planeta do Sr. Sammler

Como se poderia sintetizar em poucas palavras a obra de Bellow, objeto deste comento, tão permeada ela está pela filosofia – e de um tom sombrio, como não poderia deixar de ser, uma vez que o seu protagonista de primeira ordem é um judeu polaco que sobreviveu à insânia nazista?!

Nota-se uma inversão da proeminência entre literatura e filosofia quando se a coteja, v.g., com os romances da “Trilogia da Liberdade” de Sartre (“A idade da razão”; “Sursis” e “Com a morte na alma”), pois que estes se mostram muito mais como filosofia tendo a literatura por veículo, enquanto aquela é literatura em estado pleno, tendo a filosofia um substancioso peso em suas laudas.

Digo melhor: no essencial, a obra não avança em frequentes compassos dialogais ou entrecortes factuais, senão por meio de amplas digressões que se passam na mente das personagens – o Sr. Sammler à frente –, motivo por que menções a pensadores ou escritores são nelas recorrentes: Marx, Schopenhauer, Proust, André Maurois, Freud, Toynbee, Scheler, Meister Eckhart etc.

Em relação a este último, faço um aparte: Bellow parece ter um particular apreço pelo místico, filósofo e teólogo alemão (c. 1260 – c. 1328), chegando a transcrever-lhe um pensamento completo no romance (v. mais abaixo) – assim como também a ele muito se reportava o psicanalista, filósofo e sociólogo alemão, idem de origem judaica, Erich Fromm (1900-1980).

Em abrangente perspectiva, até mesmo pelo precitado matiz reflexivo, o aludido tomo de Bellow reveste-se de atemporalidade, embora haja passagens datadas, em especial aquelas que dizem respeito a eventos bélicos que se passam em Israel, ao longo da segunda metade dos anos 60. Quanto aos episódios inseridos no contexto da 2GM, por persistirem na consciência coletiva da humanidade, descolam-se, de certa forma, desse pendor mais demarcado no tempo. Veja o leitor as infratranscritas citações extraídas ao texto e bem constatará tais asserções.

Não há como deixar de deplorar o modo como as mulheres (idem, o negro, como batedor de carteiras) aparecem mal retratadas em suas páginas, como se sempre fossem padecedoras de uma pulsão sexual irreprimível – muito a lembrar as páginas, eivadas de teses naturalistas, de um Zola ou, entre nós, de um Aluísio de Azevedo –, como se a intenção do autor fosse dar razões às teorias de Freud sobre a sexualidade.

Haverá quem possa evocar, em associação a tais excessos, o episódio que se passa em obra de outro autor norte-americano, a saber, em “O teatro de Sabbath”, de Philip Roth, no curso do qual uma personagem feminina transa, num único dia, com os seus quatro ou cinco homens de quem era amante, como se tencionasse firmar o seu nome no “Guinness World Records”.

Sublinhe-se que essa mirada de Bellow, pouco afeita à figura feminina, parece não ser incidental, pois em outros de seus romances, a exemplo de “Herzog”, sucede o mesmo que por ora se conjectura – concedendo-lhe o benefício da dúvida – como mero indício.

E o que dizer das ações transcorridas nas instalações da Columbia University, onde Sammler fora pronunciar-se sobre tema específico, saindo de lá escorraçado pelos alunos, sob a justificativa de que se tratava de um reacionário? Decerto que mandatários e discentes daquela instituição de ensino, ainda que as páginas assim descritas sejam ficcionais, poderiam acolhê-las como um insulto – e melhor se haveria o autor se configurasse tais desenlaces numa universidade com um nome fantasioso, inventado. Por que não?!

De qualquer modo, “O Planeta do Sr. Sammler” não é literatura prontamente dispensável, mas uma obra entre as melhores do autor, pelo refinamento de seus argumentos, pelo trato arrebatador da linguagem, pela sofisticada irreverência de muitas de suas reflexões.

J.A.R. – H.C.

 

Saul Bellow
(1915-2005)

 

Ele estava à procura do Cavaleiro da Fé, o prodígio verdadeiro. Esse prodígio verdadeiro, tendo equacionado as suas relações com o infinito, encontrava-se inteiramente à vontade no finito. Apto a carregar a joia da fé, fazendo os movimentos do infinito, e por isso não precisando nada mais além do finito, do costumeiro. Enquanto outros ainda andavam à procura do extraordinário no mundo. Havia também aqueles que queriam transformar-se naquilo diante do que os demais ficavam boquiabertos. Estes queriam ser os pássaros de penas lindas ou os peixes de formas esquisitas, as criaturas humanas cômicas. (BELLOW, 1982, p. 62-63)

 

Grandeza sem modelos? Era inconcebível. Ninguém podia ser a coisa em si – realidade. Era necessário contentar-se com símbolos. Faça disso o objeto da imitação e libere as qualidades mais altas. Estabeleça, pois, a paz com os intermediários e a representação. Mas escolha as representações mais altas, mais dignas, do contrário o indivíduo transformar-se-á no fracasso que agora vê e sabe que é. (BELLOW, 1982, p. 147)

 

A humanidade, embriagada pelo terror, poderia acalmar-se, recuperar o seu juízo. Embriagada pelo terror? Sim, e os fragmentos [...] compreenderiam; esta terra era um túmulo. Nossa vida estava emprestada a ela por seus próprios elementos, que tinham de lhe ser devolvidos: viria um tempo em que os elementos simples pareceriam demorar demais na libertação das formas mais complicadas de viver, quando cada elemento, cada célula, diria: “Agora chega!” O planeta era nossa mãe e a terra onde seríamos sepultados. Não havia como ficar admirado de que a humanidade quisesse deixá-lo. Quisesse abandonar o ventre prolífero, deixando ao mesmo tempo essa imensa sepultura. A paixão pelo infinito causada pelo terror, pelo timor mortis, tinha necessidade de acalmar-se materialmente. Timor mortis conturbat me. Dies iræ. Quid sum miser tunc dicturus [1]. (BELLOW, 1982, p. 178)

 

Todo mundo precisa ter as suas recordações. São elas que mantêm o lobo da insignificância afastado da porta. E tudo isso deverá continuar. Simplesmente continuará. Haverá mais seis bilhões de anos de vida da humanidade. Chega a paralisar o coração o contemplar tamanhas cifras. Seis bilhões de anos antes que o Sol venha a explodir. Seis bilhões de anos. E o que será de nós? Das outras espécies e de nós? Como chegaremos àquele fim? E quando tivermos de abandonar a Terra para seguir em direção a outro sistema solar, que dia mais portentoso será esse! Mas, então, a espécie humana terá se tornado muito diferente, pois a evolução continua. Olaf Stapledon [2] calculou que cada indivíduo do futuro viverá milhares de anos. A pessoa do futuro, de tamanho colossal, seria de um lindo colorido verde, com uma mão que terá evoluído, transformando-se numa espécie de caixa de instrumentos, ferramenta forte e sutil, o polegar e o dedo indicador capazes de exercer uma pressão de milhares de libras. Cada intelecto pertenceria a uma maravilhosa, analítica e coletiva mente, estudando e resolvendo seus problemas matemáticos e físicos, participando de um todo sublime. Seria uma raça de gigantes semi-imortais, esses nossos verdes descendentes, parentes e aparentados, levando, porém, em si, inevitavelmente, alguma forma das nossas amargas características, tanto como dos nossos poderes espirituais. A revolução científica estava apenas com trezentos anos. Como ficaria dentro de um milhão ou um bilhão de anos? E Deus? Continuaria escondido, mesmo destes irmãos poderosos no espírito, continuaria fora de alcance? (BELLOW, 1982, p. 186)

 

“Abençoados são os pobres de espírito. Pobre é aquele que nada tem. Aquele que é pobre de espírito torna-se receptivo a todo espírito. Ora, Deus é o Espírito dos espíritos. O fruto do espírito é o amor, a alegria e a paz. Procure libertar-se das criaturas, de toda consolação proveniente das criaturas. Pois, com certeza, enquanto as criaturas têm o poder de confortá-lo, nunca há de encontrar o verdadeiro conforto. Mas se ninguém mais pode dar-lhe conforto exceto o próprio Deus, então verdadeiramente Deus o confortará”. (MEISTER ECKHART apud BELLOW, 1982, p. 245) 

 

Capa da Obra
(Abril Cultural, 1982)


Notas:

[1] Segundo a tradutora Denise Vreuls, trata-se de excerto de um hino entoado em missas fúnebres, composto, provavelmente, pelo frade católico italiano Tomas de Celano (1185-1260) (BELLOW, 1982, n.r. 1, p. 178). Em tradução literal: “Timor mortis conturbat me. Dies iræ. Quid sum miser tunc dicturus.” [O temor da morte inquieta-me. Dia da ira. O que eu, miserável, hei de dizer.”]

[2] William Olaf Stapledon (1886-1950), filósofo inglês, famoso por suas obras de ficção científica, cujos protagonistas atormentam-se com seus conflituosos impulsos “superiores” e “inferiores”.

Referência:

BELLOW, Saul. O planeta do Sr. Sammler. Tradução de Denise Vreuls. São Paulo, SP: Abril Cultural, 1982. (Série ‘Grandes Sucessos’)

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Lao-Tzu - Tao-Te King - LXVII

Neste que é um dos mais expressivos escólios do Tao-Te King, observa-se alguma correlação com as palavras de Cristo, em especial com as presentes em Marcos 9:35, nas quais se assenta a ideia de que “se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último e servo de todos”.

Nas duas versões ao português, abaixo transcritas, tal ideia corresponderia ao terceiro tesouro – (iii) a recusa de liderar, de ser o primeiro no mundo ou, ainda, a modéstia ou humildade, sendo os outros dois (i) o amor, a bondade ou a compaixão e (ii) a sobriedade, suficiência, frugalidade ou moderação.

No seu jogo de opostos, afirma Lao-Tzu que a compaixão leva à bravura, a moderação à generosidade e a modéstia à capacidade de governar. Bravura ou valentia sem compaixão pode-se ver naqueles que se autointitulam “heróis” ou “semideuses”, a intimidar as pessoas por nenhuma outra razão além da de tornar manifesto o poder que detêm. Generosidade sem moderação leva a um desperdício de recursos sem sentido, com o que se incorre em prodigalidade vulgar e impudente. De resto, a imodéstia é o pior que se pode encontrar em um governante, porque se alguém se julga “iluminado” para governar o mundo, não poupará esforços para alcançar tal intento, afastando-se, sem pejo, da ética ou do agir correto!

J.A.R. – H.C.

Lao-Tzu
(~601 a.C. – 531 a.C.)


LXVII

O meu Tao é grande − é o que todos dizem −
mas, de algum modo, é inútil.
E é justamente por ser grande que ele é inútil.
Se fosse útil,
há muito teria ficado pequeno.
Tenho três tesouros
que aprecio e preservo.
O primeiro chama-se amor,
o segundo, sobriedade,
e o terceiro é a recusa de liderar o mundo.
Pelo amor, podemos ser corajosos.
Pela sobriedade, podemos ser generosos.
Por não ousar estar à frente do mundo,
podemos ser a cabeça dos homens de talento.
Querer ser corajoso sem amor,
querer ser generoso sem sobriedade,
querer liderar sem ficar para trás;
isso é a morte.
Se para combater tivermos amor,
sairemos vencedores.
Se usarmos amor na defesa,
seremos invencíveis.
Aquele a quem o Céu quer salvar,
Ele o protege pelo amor.

Nota Suplementar por Richard Wilhelm: O início desta seção não está inteiramente claro no texto, e por tradição assim foi considerado. Em algumas edições falta a palavra Tao, sem que isso interfira no significado. É significativa a interpretação preferida por alguns: “Todos dizem que o meu ensinamento é absolutamente inútil”. O contexto corrobora a nossa interpretação. (LAO-TZU, 2006, p. 198-199)

Um navio holandês chegando ao ancoradouro
(Willem van de Velde: pintor holandês)

67: As Três Coisas Preciosas

Dizem os homens que eu sou grande, 
Como se eu fosse algo especial.
Grande só é quem nada se importa
Com sua grandeza.
Quem deseja ser grande perante os outros,
Esse é pequeno.
Três palavras me são sagradas:
A primeira é bondade,
A segunda, suficiência,
A terceira, modéstia.
A bondade dá força,
A suficiência alarga a estreiteza,
A modéstia faz do homem um veículo
Para a atuação das forças eternas.
Hoje em dia não é assim.
O homem não conhece mais bondade,
E, ainda assim, se julga forte.
Não tem mais suficiência.
Só reclama seus direitos;
Ninguém sabe ser modesto,
Mas só pensa em sucesso.
E isto conduz à ruína.
Quem é realmente bom
Vence na luta
Porque é invencível.
Quando o inimigo avança,
Esse homem é amparado pelo céu.

Explicação filosófica por Huberto Rohden: Bondade, suficiência e modéstia representam o carisma do homem cósmico. E dessa trindade cósmica brotam todos os atos externos do homem realmente grande. Quem age em nome do seu ego humano é pequeno. Quem é agido pelo Eu cósmico, esse é grande. O grande homem assume atitude de um eterno aprendiz e nunca se considera mestre de ninguém. (LAO-TSÉ, 2009, p. 160)

Referências:

LAO-TZU. LXVII. Tradução de Margit Martincic. In: __________. Tao-Te King: texto e comentário de Richard Wilhelm. Tradução de Margit Martincic. São Paulo, SP: Pensamento, 2006. p. 106.

LAO-TSÉ. 67: As três coisas preciosas. Tradução de Huberto Rohden. Tao Te Ching: o livro que revela Deus. Tradução e notas de Huberto Rohden. Texto integral. 4. ed. 1. reimp. São Paulo, SP: Martin Claret, 2009. p. 159-160. (Coleção ‘A Obra-prima de Cada Autor’; n. 136)

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

A banca nacional: a arte de comprar o mundo

Posto abaixo, excerto de uma entrevista que teria sido concedida, sob condição de anonimato, por CEO de um grande banco em São Paulo (SP) a Jessé Souza, renomado sociólogo, ex-presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), autor também de “A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato” (Leya; 2017).

A entrevista completa aparece na obra recém-lançada “A classe média no espelho” (Estação Brasil, 2018), inserindo-se num contexto de caracterização de nova proposta, sugerida pelo autor, para as classes sócio-econômicas no país, uma vez que, segundo lhe parece, as classes comumente empregadas pelo IBGE em suas estatísticas, nomeadamente “A”, “B”, “C”, “D” e “E”, conforme a faixa de renda familiar, pouco dizem sobre o os elementos que as tipificam, diferenciando-as das demais.

Com efeito, Jessé levou à frente um rol de mais de 300 (trezentas) entrevistas para o seu trabalho, selecionando algumas delas para compor a obra, eis que verdadeiros tipos ideais, segundo o conceito weberiano, de cada uma das classes preconizadas, uma das quais a de que se trata neste momento.

Como o livro encontra-se no mercado editorial pátrio, à disposição de qualquer pessoa que se habilite em adquiri-lo, imagino que as instituições detentoras da competência para investigar o que ocorre ficam na obrigação de agir (Comissão de Ética Pública e Controladoria-Geral da União), assim como o próprio Banco Central, a quem não se dispensa de ter que se explicar para convencer o público em geral, de que os fatos não são assim como despontam na entrevista.

Para quem se dispuser a assistir, apresento abaixo o vídeo da entrevista concedida por Jessé Souza ao repórter Paulo Henrique Amorim, debatendo sobre as grandes linhas de argumentação tratadas na precitada obra.

Jessé Souza e P.H.A.
(23.10.2018)

J.A.R. – H.C.

SÉRGIO: O CEO DE UM BANCO EXPLICA
COMO SE COMPRA O MUNDO

E o que eles querem? [os maiores clientes dos bancos, que têm os seus recursos por eles geridos]
(...)
Todo mundo tem um preço. Até hoje não conheci quem não tivesse. E para todo negócio é necessário uma informação privilegiada aqui, um amigo no Banco Central ali, uma sentença comprada ali ou a influência de um ministro em Brasília acolá.
Além da compra direta, em dinheiro vivo ou depósito no exterior, a gente tem que paparicar constantemente os caras. Uma forma eficaz são os presentes constantes, sem a expectativa imediata de contrafavores. Isso gera simpatia. Às vezes você ganha até um “amigo”.
(...)
E o pagamento direto por serviços específicos?
Hoje em dia existem meios ainda mais eficazes de eliminar os riscos, mas este é nosso pulo do gato, e não posso lhe contar. Mas não fica rastro, posso assegurar. Esta, afinal, é a nossa mercadoria: a segurança no investimento. E, sendo um banco, tudo fica mais fácil. Não é só no caso do nosso banco: todos os bancos, inclusive os maiores, fazem a mesma coisa.
A mina de ouro de qualquer banco comercial ou de investimento é o Banco Central. Ali só entra gente nossa. E o país é gerido a partir do Banco Central, que decide tudo de importante na economia.
É lá que a zona cinzenta entre legalidade e ilegalidade define a vida de todos. Isso não aparece em nenhum jornal.
Podemos fazer qualquer tipo de especulação com o câmbio, como nos swaps cambiais, por exemplo. Se der errado, o Banco Central cobre o prejuízo. Não existe negócio melhor. Se der errado, o famoso Erário paga a conta. Quem controla toda a economia somos nós e a nosso favor, o Congresso nem apita sobre isso. Quando, muito eventualmente, decide sobre algo, apenas assina o que nós mandamos, essa é verdade que ninguém conhece porque não sai em nenhuma TV.
Claro que tudo é justificado como mecanismo de combate à inflação, e não para enriquecer os ricos. Para quem vê isso tudo funcionar a partir de dentro, como no meu caso, é até engraçado.
Essa é a estrutura legalizada pela opacidade do Banco Central e da dívida pública. Mas e os negócios ilegais mesmo?
Não existe negócio que não seja intermediado por um banco, seja legal ou ilegal. Essa história de operador e doleiro é coisa da Lava Jato e da imprensa para desviar a atenção da participação dos agentes financeiros.
Os bancos são completamente blindados porque inventaram um meio infalível de distribuir dinheiro para quem já tem muito poder e dinheiro. Falam de todo mundo menos de nós, que comandamos tudo.
Para mim, aí é que está o poder real, o poder do dinheiro. Na verdade, são os bancos os operadores e os doleiros, e todo o dinheiro sai de bancos, seja dinheiro limpo – na realidade, sempre dinheiro que foi tornado limpo –, seja dinheiro sujo. A não ser que você fabrique dinheiro em casa.
Aliás, parte do lucro dos bancos vem de lavar dinheiro e intermediar transações. Mas o grosso da grana vem do Banco Central, das remunerações de sobras de caixa – que são ilegais, mas sobre as quais ninguém diz nada –, das operações de swap cambial, dos títulos da dívida – enfim, o Banco Central é nossa mãe. É tudo escancarado, mesmo com inflação zero e o país na ruína.
Nosso lucro é legal, ou seja, legalizado, já que somos intocáveis e ninguém se mete conosco. Boa parte dos juízes e ministros de tribunais superiores, como todo mundo no meio sabe, advogam por interposta pessoa, e nós somos os principais clientes de alguns e de quem paga melhor. São os bancos que pagam as eleições do Congresso quase inteiro. Aí você pode legalizar qualquer coisa, qualquer papel sujo que a gente mande ao Congresso os caras assinam. Nesse contexto, onde se pode tudo, as operações abertamente ilegais são uma parte menor dos lucros, mas obviamente existem.
Se ninguém imprime notas de dinheiro no quintal, é óbvio que todo o dinheiro, inclusive todo dinheiro sujo, vem dos bancos, que retiram parte do seu lucro real intermediando essas relações e lavando esse dinheiro. Os bancos controlam o que você vai fazer com o dinheiro e todo dinheiro pode ser rastreado.
Toda transferência bancária tem um chip e, se você quiser saber de onde o dinheiro vem, dá para saber. Inclusive nas transações internacionais. Se a transferência é em dólar, tudo passa por Nova York e recebe um número. Mas ninguém quer saber, essa é a verdade.
Como os bancos mandam na imprensa, nos juízes e nos políticos, a intermediação de todo dinheiro ilegal jamais é denunciada. E se for denunciar, você é que acaba preso. Isso eu garanto.

Referência:

SOUZA, Jessé. Sérgio: o CEO de um banco explica como se compra o mundo. In: A classe média no espelho: sua história, seus sonhos e ilusões, sua realidade. Rio de Janeiro, RJ: Estação Brasil, 2018. p. 169-180.

sábado, 26 de novembro de 2016

Wolfdietrich Schnurre - Camaleão

Hoje vamos de uma fábula ao estilo de Esopo ou La Fontaine, mas só que da autoria de um prolífico escritor alemão: passa-nos ele a moral atinente a procedimento muito comum em determinados países, em especial do terceiro mundo – como um certo que conheço! –, nos quais os políticos mudam de partido como se trocassem de cueca a cada manhã.

Ops... Pode ser perigoso trocar de cueca a toda hora, se ela estiver abarrotada de dinheiro cuja origem seja duvidosa, diga-se, provindo da corrupção. De todo modo, façamos de conta que a alegoria seja válida. O que importa é estar no comando, mesmo que, para tanto, se mude de cor!

Em tempo: veio-me à mente, de repente, não mais que de repente, a lembrança da película “Zelig” (1983), do cineasta Woody Allen, cujo enredo trata exatamente das peripécias de um homem-camaleão que, entre suas aventuras, consegue despontar como “papagaio de pirata” do papa Pio XI. Vale a indicação, pois é uma super-comédia!

J.A.R. – H.C.

Wolfdietrich Schnurre
(1920-1989)

Chamäleon

Ein Chamäleon, der sich gerade auf Grün
eingestellt hatte, musste entdecken, dass es
seine Gabe, die Farbe zu wechseln, verloren hatte.
− Aber warum weinst du denn? − fragte man es.
− Weil ich grün sein muss, auch wenn die
Blauen ans Ruder kommen − schluchzte es.

In: “Protest im Parterre” (1957)

O Colecionador de Camaleões
(Eric Fan: artista nascido no Havaí)

Camaleão

Um camaleão, que acabara de passar
à cor verde, teve de descobrir que
perdera o dom de mudar de cor.
– Mas por que estás chorando? – perguntaram-lhe.
– Porque terei de ficar verde, mesmo quando os
azuis chegarem ao poder – respondeu ele soluçando.

Em: “Protesto na Plateia” (1957)

Referência:

SCHNURRE, Wolfdietrich. Verbete: camaleão. Tradução de Paulo Rónai. In: RÓNAI, Paulo. Dicionário universal Nova Fronteira de citações. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, 1985. p. 132.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Lao-Tzu - Tao-Te King: XXXVI

Este aforismo, extraído do Tao-Te King, é um dos mais emblemáticos entre os seus 81 postulados, pois transcorre numa sequência de máximas paradoxais, como se refletir quisesse as polaridades yin e yang do antigo pensamento chinês, para o qual a existência é o resultado de opostos em interação.

A alusão diz respeito não a estados fixos em oposição, mas a ações que se orientam a sentidos distintos. As circunstâncias – ou mesmo os elementos da natureza – retraem-se ou expandem-se, enfraquecem-se ou fortalecem-se, mas, em seus fundamentos, presente está sempre o movimento. Há movimento mesmo no estado que conhecemos por morte: a matéria se decompõe para criação de novos organismos, entidades, criaturas.

À realidade em constante mudança devemos nos adaptar, pois tudo flui como numa espiral: da riqueza à pobreza, do amor ao ódio, da calma à agitação, do relaxamento à tensão – e daí aos estados iniciais de onde partiram, em perpétuo trânsito.

Ao fim da mensagem, Lao-Tzu aconselha que se ocultem as armas do Estado, como o peixe se esconde no fundo do mar. Qualquer combatente experiente há de concordar que é boa estratégia não exibir de uma vez, aos adversários, todo o poderio militar que se detém. Afinal, o que se desconhece gera mais temor do que a demonstração inequívoca das armas na linha de frente de uma batalha.

Além disso, como se pode ter certeza de nossa superioridade militar, se o adversário estiver empregando as mesmas estratégias, deixando de exibir alguns de seus recursos mais expressivos? Sob tal enfoque, ninguém é suficientemente poderoso, para ostentar provocações a quem quer que seja, pois há limites mesmo para o mais possante dos exércitos!

J.A.R. – H.C. 


XXXVI

O que queres comprimir,
primeiro deves deixar que se expanda bem.
O que queres enfraquecer,
primeiro deves deixar que se fortaleça bem.
O que queres destruir,
primeiro deves deixar que desabroche bem.
Àquele de quem queres tirar,
primeiro deves dar o bastante.
Chama-se a isso “conhecer bem o invisível”.
A brandura triunfa sobre a dureza.
A fraqueza triunfa sobre a força.
Não se deve tirar o peixe das profundezas.
Não se deve mostrar ao povo
os meios de ação do reino.

Templo Kiyomizu - Kyoto
(Thomas Wells Schaller: pintor norte-americano)

Referência:

LAO-TZU. XXXVI. In: __________. Tao-Te King: texto e comentário de Richard Wilhelm. Tradução de Margit Martincic. São Paulo, SP: Pensamento, 2006. p. 72.

terça-feira, 28 de julho de 2015

W. G. Sebald - Austerlitz

Considerado por muitos como um dos grandes romances produzidos neste início de terceiro milênio, “Austerlitz”, do alemão W. G. Sebald, é leitura ao mesmo tempo árdua e fascinante. Ele trata, sem angústia ou sentimentalismo, a história de Jacques Austerlitz, contada por seu amigo, o narrador dos eventos do livro que, por inferência, bem pode ser o próprio Sebald.

Austerlitz, um historiador da arte em Londres, mais precisamente da Arquitetura, parte em busca de suas raízes, uma vez que desconhece as circunstâncias de sua infância. Nascido em 1939, em Praga, de pais judeus, foi mandado ainda criança, com quatro ou cinco anos, ao Reino Unido, para que pudesse ser salvo dos alemães.

O fato é que Austerlitz foi criado por pais adotivos no País de Gales, com o nome de Dafydd Elias, completando seus estudos em Oxford, após o que passou à carreira acadêmica.

Foi em suas andanças como pesquisador que ele, casualmente, se encontrou com o narrador, na Estação Central de Antuérpia, mais tarde, em Bruxelas, e, posteriormente, num passeio marítimo em Zeebrugge, oportunidades em que narrou os fatos que compõem a parte mais significativa do romance de que se trata.

Já adulto, Austerlitz volta à sua cidade natal, onde revê a sua antiga babá (Vera), que lhe fala sobre sua mãe (Ágata), presa num campo de concentração, e sobre o seu pai (Maximilian), desaparecido na França. Visita ainda Terezín, local onde sua mãe passou os seus derradeiros dias e onde há um museu em memória dos mortos, que quase ninguém frequenta.

A obra mescla texto com imagens, gravuras, fotos, fazendo o livro parecer um pequeno documentário, cuja pesquisa centra-se na própria memória dos acontecimentos. As imagens que perduram na mente do leitor são as estações de trem, paredes e arcos decorados, capitéis de colunas, cemitérios, água e muita névoa. Daí a sensação de hipnotismo que perpassa o livro. São particularmente belas as fotos da Estação Central de Antuérpia e do Palácio da Justiça de Bruxelas, ambos na Bélgica.

Uma observação final: tal como nas obras de José Saramago, o número de parágrafos existentes no livro de Sebald pode ser contado com apenas alguns dedos das mãos.

Nossa cotação para a obra (0-10): 8,5.

J.A.R. – H.C.

W. G. Sebald
Wertach, Alemanha: 1944
Norfolk, Reino Unido: 2001

Não me parece, disse Austerlitz, que compreendemos as leis que governam o retorno do passado, mas sinto cada vez mais como se o tempo não existisse em absoluto, somente diversos espaços que se imbricam segundo uma estereometria superior, entre os quais os vivos e os mortos podem ir de lá para cá como bem quiserem e, quanto mais penso nisso, mas me parece que nós, que ainda vivemos, somos seres irreais aos olhos do mortos e visíveis somente de vez em quando, em determinadas condições de luz e atmosfera (SEBALD, 2008, p. 182).

Wertach
(Bavária - Alemanha)

Referência:

SEBALD, W. G. Austerlitz. Tradução de José Marcos Macedo. São Paulo: Companhia das Letras, 2008.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

Carlos Ávila - Obstáculos

Há muitos obstáculos à beleza, em especial nos centros urbanos: placas de propaganda abusivamente distribuídas às margens de nossas autopistas; lixo por toda a parte e, sobretudo, o concentrado nos depósitos a céu aberto; rios degradados pelos dejetos industriais etc.

Mas a beleza resiste mesmo à pobreza: é o que comprova o artista plástico paulista, radicado nos EUA, Vik Muniz. É louvável o trabalho que ele empreendeu com os catadores de materiais recicláveis retirados do Jardim Gramacho, Duque de Caxias, Rio de Janeiro, levado às telonas pelo documentário “Lixo Extraordinário”, de 2010. Se você estiver com um tempo disponível, veja a película  que postamos a seguir:

  
J.A.R. – H.C.

Carlos Ávila
(n. 1955)

Apreciação de Manuel da Costa Pinto (2006, p. 48-49)

Com um processo criativo que se coloca sob o arco de influência da poesia concreta, Ávila trabalha aqui a relação significante-significado de um modo que assimila outras referências estéticas. A palavra “obstáculo” constitui, ela mesma, por força de sua repetição, aquilo que oblitera a “beleza/ de todo tipo/ em toda parte/ [...] de todo lado/ em todo estado”. O resultado é um poema que dá substância visual a sua “mensagem”, ou seja, em que a espacialidade e a materialidade das palavras cadenciam uma leitura feita de obstáculo em obstáculo(*). Essa correspondência rigorosa entre forma e conteúdo corresponde àquilo que os concretos chamam de “isomorfismo”, mas seria impossível não pensar também na “pedra no meio do caminho” de Drummond ou mesmo na filiação (real e simbólica) de Carlos Ávila — uma vez que, assim como seus pais (os poetas Affonso Ávila e Laís Corrêa de Araújo), o autor de Bissexto Sentido agrega ao experimentalismo poético um sentido crítico e satírico.

Principais Obras: Aqui & Agora (1981), Sinal de Menos (1989) – reunidos em Bissexto Sentido (Perspectiva, 1999), que também inclui a série Ásperos – e Obstáculos (Memória Gráfica, 2004).

(*). Originalmente, cada conjunto de quatro versos desse poema ocupa uma página ímpar do livro Obstáculos, criando uma sequência de blocos de palavras cujo efeito rítmico e visual não pôde ser reproduzido aqui.

Caos Urbano
(Randy Vosbeck: pintor norte-americano)

Obstáculos

obstáculos
à beleza
de todo tipo
em toda parte

não há país
nem paisagem
a voz não soa
a vida à toa

obstáculos
à beleza
de todo lado
em todo estado

assassinato
sem assinatura
palavra calada
mera rasura

obstáculos
à beleza
pouco ar
em todo lugar

apenas tédio
gosto médio
ofício sem ossos
oficina do ócio

obstáculos
à beleza
obstáculos
obstáculos

(De: “Obstáculos”)

Referência:

ÁVILA, Carlos. Obstáculos. In: PINTO, Manuel da Costa (Edição, Seleção e Comentários). Antologia comentada da poesia brasileira do século 21. São Paulo: Publifolha, 2006. p. 47-48.