Por meio de um léxico
minimalista e concentrado, Ungaretti recorre a imagens sensoriais para
trabalhar a ideia de um sofrimento transcendido através de epifanias naturais, talvez
aludindo às experiências traumáticas por que passou ao longo dos combates
durante a GM-I, após as quais anseia imergir num estado de paz interior, para
vislumbrar a realidade em sua pureza, livre das névoas que distorcem ou
obscurecem a visão.
Trata-se de um estado
muito particular de quietude, um momento liminar entre a plenitude da colheita
e a prefiguração do tempo de trabalho na terra; a transição entre um calor
intenso e o início do período de descanso, demarcado pelo advento do crepúsculo:
a dor se dispersa, muito embora a memória de sua partida ainda tenha certo potencial
para definir quão mais ou menos profunda é a calma de espírito a que se acerca
o poeta, já adentrando a meia idade.
J.A.R. – H.C.
Giuseppe Ungaretti
(1888-1970)
Quiete
L’uva è matura, il
campo arato,
Si stacca il monte
dalle nuvole.
Sui polverosi specchi
dell’estate
Caduta è l’ombra,
Tra le dita incerte
Il loro lume è
chiaro,
E lontano.
Colle rondini fugge
L’ultimo strazio.
1929
In: “Sentimento del
Tempo” (1919-1935)
O voo das andorinhas
(Giacomo Balla: artista
italiano)
Quietude
A uva está madura e o
campo arado,
O monte se destaca
das nuvens.
Nos poentos espelhos
do verão
Caiu a sombra,
Entre os dedos
incertos
Sua luz é clara
E longínqua.
Foge com as
andorinhas
o último desespero.
1929
Em: “Sentimento do
Tempo” (1919-1935)
Referências:
Em Italiano
UNGARETTI, Giuseppe.
Quiete. In: __________. Vita d’un uomo: 106 poesie 1914-1960. 14 ed. Milano,
IT: Mondadori, 2000. p. 100. (“Oscar Classici Moderni”)
Em Português
UNGARETTI, Giuseppe. Quietude. Tradução de Menotti del Picchia. In: MILLIET, Sérgio (Seleção e Notas). Obras-primas da poesia universal. 3. ed. São Paulo, SP: Livraria Martins Editora, 1957. p. 300.
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