Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 1 de maio de 2026

Giuseppe Ungaretti - Quietude

Por meio de um léxico minimalista e concentrado, Ungaretti recorre a imagens sensoriais para trabalhar a ideia de um sofrimento transcendido através de epifanias naturais, talvez aludindo às experiências traumáticas por que passou ao longo dos combates durante a GM-I, após as quais anseia imergir num estado de paz interior, para vislumbrar a realidade em sua pureza, livre das névoas que distorcem ou obscurecem a visão.

 

Trata-se de um estado muito particular de quietude, um momento liminar entre a plenitude da colheita e a prefiguração do tempo de trabalho na terra; a transição entre um calor intenso e o início do período de descanso, demarcado pelo advento do crepúsculo: a dor se dispersa, muito embora a memória de sua partida ainda tenha certo potencial para definir quão mais ou menos profunda é a calma de espírito a que se acerca o poeta, já adentrando a meia idade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Giuseppe Ungaretti

(1888-1970)

 

Quiete

 

L’uva è matura, il campo arato,

 

Si stacca il monte dalle nuvole.

 

Sui polverosi specchi dell’estate

Caduta è l’ombra,

 

Tra le dita incerte

Il loro lume è chiaro,

E lontano.

 

Colle rondini fugge

L’ultimo strazio.

 

1929

 

In: “Sentimento del Tempo” (1919-1935)

 

O voo das andorinhas

(Giacomo Balla: artista italiano)

 

Quietude

 

A uva está madura e o campo arado,

 

O monte se destaca das nuvens.

 

Nos poentos espelhos do verão

Caiu a sombra,

 

Entre os dedos incertos

Sua luz é clara

E longínqua.

 

Foge com as andorinhas

o último desespero.

 

1929

 

Em: “Sentimento do Tempo” (1919-1935)

 

Referências:

 

Em Italiano

 

UNGARETTI, Giuseppe. Quiete. In: __________. Vita d’un uomo: 106 poesie 1914-1960. 14 ed. Milano, IT: Mondadori, 2000. p. 100. (“Oscar Classici Moderni”)

 

Em Português

 

UNGARETTI, Giuseppe. Quietude. Tradução de Menotti del Picchia. In: MILLIET, Sérgio (Seleção e Notas). Obras-primas da poesia universal. 3. ed. São Paulo, SP: Livraria Martins Editora, 1957. p. 300.