Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Daniel Jonas - O cansaço do canto

Jonas questiona com ironia e argumentos lógicos a ideia de que o poeta seria como que um produtor de beleza decorativa ou de fácil consolo, como se a poesia fosse uma qualidade inerente a um indivíduo, em vez de ser algo que se desenvolve e se expressa através do trabalho e da experiência. Nada, portanto, de expectativas românticas ou utilitaristas sobre o poeta e seu ofício!

 

Em lugar de satisfazer demandas externas, o poeta escolhe declamar a sua própria verdade, por mais distante do belo ou do positivo que seja, por mais incômoda que se mostre. Afinal, a arte – como a flor – não tem um significado ou função intrínseca, ambos a dependerem do uso e do contexto a que diga respeito o objeto por ela trazido à luz.

 

Contemplado sob tal perspectiva, o poema, em suma, ao expressar a fadiga profunda gerada pelo próprio exercício poético, num mundo que o mal-interpreta e o mercantiliza, acaba por converter tal cansaço, paradoxalmente, na fonte de seu mais genuíno canto.

 

J.A.R. – H.C.

 

Daniel Jonas

(n. 1973)

 

O cansaço do canto

 

As gentes no mercado os locais na praça

os irmãos de guerra pedem-me poesia dizem

se és poeta deves ter em li poesia.

Mas isso é tão ilógico quanto dizer de alguém

que se é médico deve ter em si humanidade

ou se bate-chapas amor pela folha de Flandres.

Perdoai, amigos, não sou nenhum animador de rua

nenhum entretém de ocasião nenhum rigoletto –

ponderai se o vosso negócio não será antes rosas

e eu providenciarei os espinhos.

 

Conjurais-me por beleza. Pois passai ao largo.

Que ideia tão disparatada

que um poeta cante a paixão e para aí pintassilgue

levando ao chilique peitos arfantes

por cadarços torturados. Estais enganados.

A lua ela mesma pode inspirar

tanto o romântico como o assassino (esse romântico)

e uma florista merca tanto o decesso como o enlace.

 

Oh pelos cardos me comovo evitai-me! – e pintassilgo sim

eu canto o cansaço do canto.

 

Em: “Bisonte” (2016)

 

Pintassilgo europeu

(Karolina Kijak-Dzikońska: artista polonesa)

 

Referência:

 

JONAS, Daniel. O cansaço do canto. In: __________. Os fantasmas inquilinos: poemas escolhidos. Seleção e posfácio de Mariano Marovatto. 1. ed. São Paulo, SP: Todavia, 2019. p. 105.

quarta-feira, 20 de maio de 2026

Octavio Paz - A palavra escrita

O ensaísta mexicano explora os abismos da linguagem e da consciência, apresentando-nos um poema sobre a experiência do nascimento, da queda e do caráter paradoxal da palavra escrita, sempre a nascer de uma traição necessária à mais pura intenção, com o consequente congelamento do fluxo de tal ato criador, derivativo manifesto da exaustão de sua própria magia.

 

A escrita tenciona medir, capturar, dar sentido cronológico ao efêmero, à queda inevitável: nesse salto para o poço da linguagem, o poeta busca capturar um reflexo da realidade que, ao ser fixado, se desintegra e, ainda assim, persiste numa palavra que nem é a última, nem é a verdadeira, mas é a que se tem para podermos nos sustentar sobre o abismo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Octavio Paz

(1914-1998)

 

La palabra escrita

 

Ya escrita la primera

Palabra (nunca la pensada

Sino la otra – ésta

Que no la dice, que la contradice,

Que sin decirla está diciéndola)

Ya escrita la primera

Palabra (uno, dos, três –

Arriba el sol, tu cara

En el centro del pozo,

Fija como un sol atónito)

Ya escrita la primera

Palabra (cuatro, cinco –

No acaba de caer la piedrecilla,

Mira tu cara mientras cae, cuenta

La cuenta vertical de la caída)

Ya escrita la primera

Palabra (hay otra, abajo,

No la que está cayendo,

La que sostiene al rostro, al sol, al tiempo

Sobre el abismo: la palabra

Antes de la caída y de la cuenta)

Ya escrita la primera

Palabra (dos, tres, cuatro –

Verás tu rostro roto,

Verás un sol que se dispersa,

Verás la piedra entre las aguas rotas,

Verás el mismo rostro, el mismo sol,

Fijo sobre las mismas aguas)

Ya escrita la primera

Palabra (sigue,

No hay más palabras que las de la cuenta)

 

En: “Salamandra” (1958-1961)

 

Sol ardente

(Jaison Cianelli: artista norte-americano)

 

A palavra escrita

 

Já escrita a primeira

Palavra (nunca a pensada

mas a outra – esta

Que não a diz, que a contradiz,

Que sem dizê-la a está dizendo)

Já escrita a primeira

Palavra (um, dois, três –

Lá em cima o sol, teu rosto

No centro do poço,

Fixo como um sol atônito)

Já escrita a primeira

Palavra (quatro, cinco –

Segue em queda a pedrinha,

Olha o teu rosto enquanto cai, conta

a medida vertical da sua queda)

Já escrita a primeira

Palavra (há outra, lá embaixo,

Não a que está caindo,

A que sustenta o rosto, o sol, o tempo

Sobre o abismo: a palavra

Antes da queda e da conta)

Já escrita a primeira

Palavra (dois, três, quatro –

Verás teu rosto disforme,

Verás um sol que se dispersa,

Verás a pedra entre as águas serpeantes,

Verás o mesmo rosto, o mesmo sol,

Fixo sobre as mesmas águas)

Já escrita a primeira

Palavra (continua,

Não há mais palavras que as da conta)

 

Em: “Salamandra” (1958-1961)

 

Referência:

 

PAZ, Octavio. La palabra escrita. In: __________. La centena: poemas (1935-1968). Barcelona, ES: Barral Editores, sept. 1969. p. 128-129.

terça-feira, 19 de maio de 2026

Victor Hugo - A Arte e o Povo

Com o seu mais do que conhecido linguajar grandiloquente, lírico, encomiástico, perpassado por imagens cristalinas, imperativos, apóstrofes e reiteradas evocações, o escritor e poeta francês revela-se um combatente otimista, ao proclamar a união indissolúvel entre a criação artística e a luta por liberdade e pela dignidade humana, ou mais amplamente, pelos ideais democráticos e republicanos.

 

Firmado nos pilares da Arte e do Povo, este manifesto poético enaltece aquela como sendo a máxima expressão do espírito humano, fonte de luz, beleza e harmonia, constituindo-se em poderoso instrumento para a libertação intelectual, zetética e política; e este – especialmente o povo francês –, como agente de progresso e de esperança para o mundo, cujo canto lança reptos aos tiranos e conclama a todos a um agir consciente contra as injustiças sociais.

 

J.A.R. – H.C.

 

Victor Hugo

(1802-1885)

 

L’Art et le Peuple

 

I

 

L’art, c’est la gloire et la joie.

Dans la tempête il flamboie;

Il éclaire le ciel bleu.

L’art, splendeur universelle,

Au front du peuple étincelle,

Comme l’astre au front de Dieu.

 

L’art est un champ magnifique

Qui plaît au coeur pacifique,

Que la cité dit aux bois,

Que l’homme dit à la femme,

Que toutes les voix de l’âme

Chantent en choeur à la fois!

 

L’art, c’est la pensée humaine

Qui va brisant toute chaîne!

L’art, c’est le doux conquérant!

A lui le Rhin et le Tibre!

Peuple esclave, il te fait libre;

Peuple libre, il te fait grand!

 

II

 

Ô bonne France invincible,

Chante ta chanson paisible!

Chante, et regarde le ciel!

Ta voix joyeuse et profonde

Est l’espérance du monde,

Ô grand peuple fraternel!

 

Bon peuple, chante à l’aurore,

Quand le soir vient, chante encore!

Le travail fait la gaîté.

Ris du vieux siècle qui passe!

Chante l’amour à voix basse,

Et tout haut la liberté!

 

Chante la sainte Italie,

La Pologne ensevelie,

Naples qu’un sang pur rougit,

La Hongrie agonisante...

Ô tyrans! le peuple chante

Comme le lion rugit!

 

(7 novembre 1851)

 

Dans: “Les Châtiments” (1853)

 

Um grupo de pessoas

(Anselmo Guinea y Ugalde: pintor espanhol)

 

A Arte e o Povo

 

I

 

Arte! és a gloria, a alegria!

Na tempestade sombria

Dos tempos, – brilhas melhor;

Vibras centelhas divinas,

E a fronte ao povo iluminas

Como um astro sedutor.

 

És um hino majestoso

Que as almas enche de um gozo

Forte, intenso, sem igual;

Cantam-te em êxtase fundo

Todas as vezes do mundo,

Como um coro universal.

 

Por armas tendo as ideias,

Quebras todas as cadeias,

– Tranquilo conquistador;

Não te resiste o mais bravo,

Tornas livre um povo escravo,

E um povo livre – maior.

 

II

 

Oh França invencível, canta!

Teu hino de paz levanta,

De olhos fitos na amplidão;

Ergue a tua voz, oh França,

Tu que és do mundo a esperança,

Povo – os povos irmão!

 

Canta aos albores da aurora,

Une a tua voz sonora

Ao teu perpetuo labor!

Ri do século à vaidade,

Alto canta a liberdade,

E à meia voz teu amor.

 

Canta a Polônia algemada,

Canta Nápoles banhada

No sangue que inunda o chão;

Um hino à Hungria levanta...

– Tiranos! – o povo canta

Rugindo como um leão!

 

(7 de novembro de 1851)

 

Em: “Os Castigos” (1853)

 

Referências:

 

Em Francês

 

HUGO, Victor. L’art et le peuple. In: __________. Oeuvres poétiques complètes. Réunies et présentées par Francis Bouvet. Paris, FR: Jean-Jacques Pauvert Éditeur, 1961. p. 283-284

 

Em Português

 

HUGO, Victor. A arte e o povo. Tradução de Martim Francisco. In: TEIXEIRA, Múcio. Hugonianas: poesias de Victor Hugo traduzidas por poetas brasileiros. 2. ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1885. p. 157-158.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Carlos Ávila - Poetry: The word I am thinking of

Ávila levanta questões acerca dos mitos que rodeiam a poesia, tencionando desarticulá-los, para então vindicar a sua essência não na beleza sublime ou em seus sentidos mais profundos, mas sim em seu poder transgressor, limítrofe e crítico, na qualidade de um ato incômodo de resistência, de uma voz “infame” e perturbadora a insinuar-se desde as cercanias da rebeldia.

 

Há certo tom de mordaz ironia nos contrastes empregados pelo poeta entre os termos franceses – a evocarem certa sofisticação ou estereótipos – e as imagens degradantes carreadas aos versos – migalhas, indigestão, inferno –, o que denota a sua intenção sutil de troçar das pretensões da linguagem poética, de suas aspirações a alcançar um significado autêntico ou perdurável no tempo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Ávila

(n. 1955)

 

Poetry: The word I am thinking of

 

& não será

a poesia

(femme fatale)

apenas uma palavra

dentro de outra palavra

que não quer dizer nada

& não será

a poesia

(femme publique)

apenas a migalha

dentro de outra migalha:

fogo de palha

& não será

a poesia

(femme de chambre)

apenas o ar assoprado

por um aloprado

no ouvido do olvido

& não será

a poesia

(femme grosse)

apenas o resto

de um almoço indigesto

entre convivas no inferno

?

 

o que será

(une femme: infâme)

será

 

Retrato de jovem com adorno nos cabelos

(Konstantin Razumov: pintor russo)

 

Referência:

 

ÁVILA, Carlos. The word I am thinking of. In: DANIEL, Claudio; BARBOSA, Frederico (Organização, seleção e notas). Na virada do século: poesia de invenção no Brasil. São Paulo, SP: Landy Editora, 2007. p. 90.