Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Sully Prudhomme - Provérbio

Apesar de redigido em fins do século XIX, este soneto de Prudhomme revela suficiente atualidade, especialmente no que concerne à forma como damos trato à máxima cristã de não fazermos nada a alguém que não queiramos que este nos faça, sobretudo quando em contraste com o que se costuma chamar por “especismo”, uma discriminação moral que concede status superior aos humanos em relação a outras espécies, como forma de justificar a exploração e o tratamento injusto de animais não humanos.

 

Parece ao autor francês que há suficiente hipocrisia na prática quotidiana de uma sociedade que se beneficia da exploração de outros seres vivos, o que expõe, sem dúvida, brechas entre os ideais morais abstratos – como a sobredita “Regra de Ouro”: a seus olhos, a ética pura nada mais consiste do que num luxo incompatível com a necessidade biológica de alimentar-se e de subsistir.

 

À diferença do homem civilizado, que não considera “próximo” a nenhum ser vivo do qual se alimenta – estranha excludente que lhe permite violar o preceito em causa sem incorrer em remorsos –, o canibal comporta-se de um modo mais “franco e imparcial” – afirma o poeta –, pois não faz distinções e reconhece abertamente que se alimenta do seu próximo – outros seres humanos.

 

Sopesados todos os argumentos e afirmações de Prudhomme, subjaz nos versos uma visão pessimista da natureza humana: não seríamos capazes de viver segundo os nossos mais altos ideais e, pior ainda, construímos sofisticados sistemas de negação para autojustificar-nos, ou noutros termos, refinados mecanismos racionalizadores de autoengano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Sully Prudhomme

(1839-1907)

 

Ce précepte m’émeut...

 

Ce précepte m’émeut: “Ne fais pas au prochain

Ce que tu ne veux pas qu’il te fasse à toi-même.”

Pourtant s’il le faut suivre en sa rigueur extrême

Il n’est d’autre avenir que de mourir de faim.

 

Vivre sans nuire! Ô songe ambitieux et vain!

Le prochain, quel est-il? Voilà le grand problème.

Qu’il végète ou qu’il pense, et qu’on l’abhorre ou l’aime,

Tout être a, dès qu’il sent, quelque chose d’humain.

 

Et n’alléguons jamais, meurtriers hypocrites,

La souveraineté que nous font nos mérites.

Tout vivant souffre, aucun ne s’est donné son rang.

 

L’homme civilisé, charité bien étrange!

N’appelle son prochain nul être dont il mange.

L’anthropophage est seul impartial et franc.

 

Dans: “La Justice” (1878)

 

Pastores e ovelhas

(David Teniers, o Jovem: pintor flamengo)

 

Provérbio

 

“Não faças a ninguém aquilo que não queres

Que te façam também” – a sentença pondera –

Se é mister, com rigor, seguir estes dizeres,

É só morrer de fome o fim que nos espera.

 

Viver sem ser nocivo... ilusão! – se o disseres.

O próximo quem é? – este problema impera:

Quer vegete ou quer pense ou seja um anjo ou fera,

Algo de humano tem todo ser entre os seres.

 

Nunca aleguemos, nunca, hipócritas sangrentos,

O alto grau que nos dão nossos merecimentos;

Tudo o que vive e sofre – esta é a razão fatal.

 

O homem civilizado – é a compaixão de agora!

Não julga seus iguais os seres que devora...

O antropófago, só, é que é franco e imparcial.

 

Em: “A Justiça” (1878)

 

Referências:

 

Em Francês

 

PRUDHOMME, Sully. Ce précepte m’émeut... In: __________. Poésies de Sully Prudhomme: 1878-1879. Paris, FR: Alphonse Lemerre Éditeur, 1880. p. 104.

 

Em Português

 

PRUDHOMME, Sully. Provérbio. Tradução de Álvaro Reis. In: MAGALHÃES JR., Raymundo. Antologia de poetas franceses: do século XV ao século XX. 1. ed. Rio de Janeiro, RJ: Tupy, 1950. p. 402.

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