Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS
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quarta-feira, 12 de junho de 2013

A Separação - Oscar 2012


Abstraindo o uso político, positivo ou negativo, que se possa atribuir ao filme, o fato é que se trata de uma obra como poucas, a provar que para se fazer bom cinema não há necessidade de orçamentos bilionários como os de Hollywood. E com relação ao enredo, tudo ali está: os diferenciais de classe – duas famílias, evidentemente, com níveis de renda bastante distintos –; tratamentos não igualitários para homens e mulheres; institutos de guarda familiar e da seara penal muito bem caracterizados; e, para fechar, um exemplar daquilo que algumas feministas denominam por “ética do cuidado”, só que mediante um caso que não convergiria para dar sustentação aos seus argumentos: a de um filho que, compreendendo a situação de incapacidade físico-mental do pai, não o abandona!

Alem disso, o filme revela algo que se deveria averiguar com mais atenção: a relação que se dá, no âmbito da questão jurídica, é direta, entre o pretendente, autor ou réu, com o juiz da causa. Isto é: não se veem advogados! Para pensar: isso de fato ocorre na sociedade iraniana?

Seja como for, a película é digna do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que recebeu em 2012!


J.A.R. - H.C.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Mediações Hedonistas - Parsons e Poe - Muito Prazer em Conhecê-los !

Quando, ainda em 1975, Alan Parsons lançou o compacto de abertura de seu projeto para divulgação do "rock progressivo" - o denominado Alan Parsons Project -, jamais imaginaria que poderia criar um disco à altura da fama que lhe sobreveio por haver também produzido uma das mais inesquecíveis obras do grupo Pink Floyd, qual seja, The Dark Side of the Moon.

Referimo-nos a Tales of Mystery and Imagination, com letras e músicas livremente concebidas à luz dos contos de horror e de suspense de Allan Poe, que se mantém como um meritório contributo à memória do autor americano.

Percebe-se, já na própria apresentação da faixa inicial A Dream a Within a Dream, a pretensão de transformar em música certas "fantasias delicadas" que, por não constituírem pensamentos, são irredutíveis aos signos linguísticos, como se fossem, mesmo num plano de realidade, um sonho imbricado em outro sonho.



Outras duas faixas fazem referência direta a dois dos mais famosos contos de Poe - The Raven (O Corvo) e The Cash of Amontillado (O Barril de Amontilado) -, estando muito bem adaptadas às letras imaginosas, como a provar que literatura e música podem muito bem combinar-se para aumentar a estatura do prazer usufruível, por intermédio do incremento gestáltico de nossas experiências sinestésicas, experiências essas que, de outro modo, permaneceriam "estanques" ao que pudéssemos extrair, de cada vez, aos nossos "olhos ou ouvidos atentos".

Pena mesmo é que os sentidos do olfato e do paladar não tenham se juntado mais prontamente ao acervo cada vez mais sincrético das artes, ainda que, marginalmente, aqui ou ali, apareçam obras que os combinem maravilhosamente bem, para colocá-los em evidência.

A conjugar visão e audição, para produzir estímulos gustativos poderosos, mencionaria o filme A Festa de Babette, de Gabriel Axel (1987). Quanto ao impacto - positivo ou negativo - do olfato, quem poderia se esquecer de O Perfume, de Tom Tykwer (2006), com roteiro adaptado ao livro homônimo do escritor alemão Patrick Süskind, publicado em 1985 ?!

(JAR/HC)

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Stanley Kubrick - De Olhos Bem Fechados

Outro filme a que assisti, no breve interregno que marcou o recesso do final de 2009, foi "De Olhos Bem Fechados" (Eyes Wide Shut, 1999), o último longa de Stanley Kubrick.

Trata-se de uma adaptação livre do romance "Breve Romance de Sonho" (Die Traumnovelle, 1926), do escritor austríaco Arthur Schnitzler, a quem Sigmund Freud denomina como sendo o seu "duplo", tanto é o paralelo entre ambos na busca de compreender - ou seria explicar ? - o inconsciente e as profundezas da alma humana.

A trama, centrada no relacionamento de um casal em crise - embora bem aquinhoado, seja pelos atributos físicos seja pelos dotes materiais, afinal, os atores são nada menos que Tom Cruise e Nicole Kidman -, transita por desejos e apelos sensuais reprimidos ou mal-resolvidos, misteriosas bacanais e vaticínios mortais.

A firme direção de Kubrick permitiu um alongamento algo desproporcional do roteiro frente ao próprio texto em que se inspirou, afirme-se, mais próximo da novela que do romance, no sentido lato do termo. Mas nada que deixe o espectador transido pelo tédio, pois a linguagem cinematográfica, apesar de suas limitações, fomenta, com mais propriedade, o voluptuoso despertar dos sentidos, tanto maior quando derivado de pulsões sexuais explicitamente filtradas pelo enredo.

Sob o "pecado" da pornografia, a história do autor austríaco foi por demais censurada na Viena ainda puritana da primeira metade do Século XX. Quanto à adaptação de Kubrick, a despeito das imagens impactantes, certamente não há escândalos que a película possa provocar em nossa sociedade sem contenções morais, sendo apenas mais uma no conjunto da obra do autor americano, permeada de polêmicas e controvérsias, pelo que bastam as menções de "A Laranja Mecânica" e de "Lolita", dois outros filmes também adaptados de renomados romances.

Ler os livros a que me referi ou ver os filmes de Kubrick são ganhos imperdíveis.

(JAR/HC)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Filme: Amantes ("Two Lovers" - EUA - 2008)

Ao assistir o filme "Amantes" de James Gray, ao final de 2009, fiquei com a sensação de haver presenciado reprises de alguns pontos já desenvolvidos por outros diretores, seja no melhor seja no pior do que se poderia reproduzir em termos cinematográficos.



A historinha de personagens que sofreram um trauma juvenil ou baque amoroso, sentimental ou de outra ordem é tão recorrente no cinema americano que o flerte destes com a morte, via tentativa de suicídio, já não causa qualquer sensação de espasmo no espectador mais experiente. Relembre-se, por exemplo, o papel interpretado por Timothy Hutton em "Gente como a Gente", filme ganhador do Oscar em 1981, dirigido por Robert Redford, a partir de roteiro adaptado ao livro "Ordinary People", de Judith Guest. Poder-se-ia, nesse caso, parodiar a chamada constante no cartaz de "Amantes": o melhor drama americano do ano ...



As alternâncias afetivas de Leonard (Joaquin Phoenix), ora com Michelle Rausch (Gwyneth Paltrow) ora com Sandra Cohen (Vinessa Shaw), tem tantas reviravoltas quantas as necessárias para levar o filme ao decurso de tempo requerido para fazer crer a quem o assiste de que Leonard terminará com Michelle. Mas não: terminará mesmo é com Sandra. Resenhando: duas mulheres em disputa por um homem indefinido e problemático, espécie eloquente de herói picaresco menor !

Paralelos ? Preferível a adaptação primorosa de Luchino Visconti para "Noites Brancas", do texto homônimo de Dostoiévski, com inversão no diferencial em disputa: dois homens - um dos quais nada menos que Marcelo Mastroianni - por uma mesma dama. E Mastroianni não levará a melhor, como se poderia supor a princípio.



Por conseguinte, não consegui inferir as razões pelas quais os críticos têm cotado a película em questão com quatro estrelas. Somente eles poderão dizê-lo ! Quanto a mim, no estoque considerável de filmes presenciados, apenas mais um !

(JAR/HC)