Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 26 de setembro de 2026

Adrienne Rich - Para um Álbum

A poetisa norte-americana nos diz que a verdadeira crônica de um amor ou de uma vida compartilhada não se encontra nos sorrisos congelados dos álbuns de fotografias, mas nos instantes críticos, amiúde dolorosos, de confrontação e de verdade que ocorrem na mais absoluta intimidade: na emergência da potência destrutiva ou fundacional da linguagem; no combate silencioso das almas; na cumplicidade em cuja torrente se negociam as aflições e as possíveis curas, no instante mesmo em que uma notícia, entre presságios e suspenses, pode irromper e tudo mudar.

 

É uma defesa da profundidade em detrimento da superficialidade e um testemunho de que as histórias mais significativas são precisamente aquelas que não podem ser capturadas pela objetiva de uma câmera (uma vez que não exatamente vocacionadas a momentos performáticos), resultantes de uma vida interior que pulsa freneticamente sob a aparente imobilidade, em vertiginosa velocidade emocional.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adrienne Rich

(1929-2012)

 

For an Album

 

Our story isn’t a file of photographs

faces laughing under green leaves

or snowlit doorways, on the verge of driving

away, our story is not about women

victoriously perched on the one

sunny day of the conference,

nor lovers displaying love:

 

Our story is of moments

when even slow motion moved too fast

for the shutter of the camera:

words that blew our lives apart, like so,

eyes that cut and caught each other,

mime of the operating room

where gas and knives quote each other

moments before the telephone

starts ringing: our story is

how still we stood,

how fast.

 

1987

 

In: “Time’s Power” (1985-1988)

 

Duas mulheres sob uma árvore no jardim

(Edvard Munch: pintor norueguês)

 

Para um Álbum

 

Nossa história não é um arquivo de fotografias

com rostos sorridentes sob a verde ramagem

ou umbrais iluminados pela neve, à iminência da partida;

nossa história não é sobre mulheres

triunfantes posando no único

dia ensolarado da conferência,

nem sobre amantes a demonstrarem amor:

 

Nossa história é sobre momentos

em que até o mais lento curso se movia rápido demais

para o obturador da câmera:

palavras que nos destroçavam a vida, assim,

olhares que se cruzavam e se atraíam,

mímica do centro cirúrgico

onde o gás e os bisturis entabulam diálogo

instantes antes de o telefone

começar a tocar: nossa história é

sobre o quão imóveis nos quedamos,

o quão rapidamente.

 

1987

 

Em: “O Poder do Tempo” (1985-1988)

 

Referência:

 

RICH, Adrienne. For an álbum. In: __________. Collected poems: 1950-2012. Introduction by Claudia Rankine. 8th ed. New York, NY: W. W. Norton, 2016. p. 684-685.

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