Aiken formula nestas
linhas uma metáfora sombria sobre a devastação espiritual que se produz a
partir da perda do “lar essencial”, seja ele de ordem geográfica ou – o que é
mais provável! – emocional/existencial: transformado numa espécie de aranha, o
falante nos fala de um processo de desumanização última que um “exílio”
prolongado pode acarretar, ao longo do qual a única adaptação possível, lôbrega
e inapelável, passa pela conversão do sujeito na própria aridez que o consome.
A voz lírica aspira por
beleza e vitalidade, privativas de um paraíso exuberante no qual o ar se enche
de ditosas expectativas, tudo como antítese direta ao entorno ermo e hostil em
que se encontra. Contudo, finda o poema num tom de resignação do falante com o
seu estado vulnerável e desesperançado, de morte em vida, ao fio de uma
espectral sobrevivência sustentada pela umidade do orvalho – insuficiente, mas indispensável.
J.A.R. – H.C.
Conrad Aiken
(1889-1973)
Exile
These hills are
sandy. Trees are dwarfed here. Crows
Caw dismally in skies
of an arid brilliance,
Complain in dusty
pine-trees. Yellow daybreak
Lights on the long
brown slopes a frost-like dew,
Dew as heavy as rain;
the rabbit tracks
Show sharply in it,
as they might in snow.
But it’s soon gone in
the sun – what good does it do?
The houses, on the
slope, or among brown trees,
Are grey and
shrivelled. And the men who live here
Are small and
withered, spider-like, with large eyes.
Bring water with you
if you come to live here –
Cold tinkling
cisterns, or else wells so deep
That one looks down
to Ganges or Himalayas.
Yes, and bring mountains
with you, white, moon-bearing,
Mountains of ice. You
will have need of these
Profundities and
peaks of wet and cold.
Bring also, in a cage
of wire or osier,
Birds of a golden
colour, who will sing
Of leaves that do not
wither, watery fruits
That heavily hang on
long melodious boughs
In the blue-silver
forests of deep valleys.
I have now been here
– how many years? Years unnumbered.
My hands grow clawlike.
My eyes are large and starved.
I brought no bird
with me, I have no cistern
Where I might find
the moon, or river, or snow.
Some day, for lack of
these, I’ll spin a web
Between two dusty
pine-tree tops, and hang there
Face downward, like a
spider, blown as lightly
As ghost of leaf.
Crows will caw about me.
Morning and evening I
shall drink the dew.
Estado de Exílio
(Scott McLachlan:
artista escocês)
Exílio
Estas colinas são
arenosas. As árvores aqui se ananzam. Corvos
Crocitam lugubremente
seus gemidos em pinheiros poeirentos,
Sob céus de um árido
resplendor. A amarelada aurora
Banha as longas
encostas pardas com um orvalho escarchado,
Um orvalho tão denso
quanto a chuva; nele, as pegadas
De coelho destacam-se
com nitidez, como se sobre a neve.
Mas logo o sol o
dissipa – qual o proveito que dele resulta?
As casas, sobre a
encosta ou entre as árvores pardas,
São cinzentas e
engelhadas. E os homens que cá vivem,
Pequenos e mirrados, araneiformes,
têm grandes olhos.
Trazei água convosco,
caso venhais aqui habitar:
Cisternas frias e
tilintantes, ou então poços tão profundos
Nos quais se possam
descortinar o Ganges ou os Himalaias.
Sim, e trazei
montanhas convosco, brancas, lunares,
Montanhas de gelo.
Vós tereis necessidade de tais
Profundezas, bem
assim desses cumes úmidos e frios.
Trazei também, numa
gaiola de vime ou de aço,
Pássaros dourados,
que haverão de trinar seus cantos
Às folhagens que não
murcham, frutos aquosos
Que pendem pesadamente
de ramos longos e melódicos
Nas florestas
azul-prateadas de vales profundos.
Já cá estou há
quantos anos? Há incontáveis anos.
Minhas mãos tornam-se
garras. Meus olhos, grandes e famintos.
Não trouxe pássaro
algum comigo, não tenho cisterna
Onde eu possa
encontrar a lua, o rio ou a neve.
Um dia, por falta
disso, tecerei uma teia
Entre duas copas de
pinheiros poeirentos, e ali penderei
De ponta-cabeça, como
uma aranha, soprado tão levemente
Quanto um espectro de
folha. Corvos crocitarão à minha volta.
Ao alvorecer e ao
crepúsculo, sorverei o orvalho.
Referência:
AIKEN, Conrad. Exile. In: __________. Selected poems. With a new foreword by Harold Bloom. New York, NY: Oxford University Press, 2003. p. 44-45.
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