Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Carlos Bousoño - Enquanto em teu escritório respiras

A morte é uma sombra que nos acompanha em cada instante, latente sob o frágil verniz da realidade, experimentada de forma simultânea à nossa vida consciente – como quando polemizamos com elegância em um café –, dando ensejo a uma sensação de vertigem existencial, ao longo da qual nosso corpo expõe-se a um virtual processo de destruição.

 

O poeta, em sua queda, observa a realidade tal qual é: um mundo ao revés, onde a suposta cordura, de fato, não passa de uma insânia coletiva, e a sociedade, ainda que funcione com aparência de normalidade – preleções, ofícios, discursos –, encontra-se fundamentalmente desorientada, “de cabeça para baixo”, à borda de um abismo.

 

Mesmo a tribuna de uma aula expositiva – metáfora inescapável para o plano da racionalidade e do conhecimento – se converte num espaço onde reina a lei da gravidade e do absurdo: coexistem, assim, um plano de rotina – representado pelas ações de uma vida civilizada, intelectual e ordenada –, com outro que remete às instâncias do catastrófico, do acidental, do trágico, consorciado à supracitada vulnerabilidade palpável do corpo.

 

J.A.R. – H.C.

 

Carlos Bousoño

(1923-2015)

 

Mientras en tu oficina respiras

 

Mientras en tu oficina respiras, bostezas, te abandonas, o

dictas en tu clase una lección

ante extraños alumnos que fijamente te contemplan, con

sueño aún en la temprana hora;

mientras hablas, mientras gesticulas en el café,

o inmóvil te concentras en la meditación

de tu escritorio, o echado en el hondo diván

repasas lentamente recuerdos de tu vida; mientras quieto te

abismas en la visión de la llanura interminable, o

mientras escribes una lenta palabra y te recreas en su

dulce sonido, en su amorosa realidad,

 

caes, estás cayendo hacia atrás por una quebrada del monte,

estás rodando entre piedras y cardos por la abrupta pendiente

hacia un barranco en el que corre un río,

rápido como el viento un río corre,

estás herido en la boca, en las manos, el pecho,

sangras por un oído, te despeñas por el farallón

cabeza abajo,

con las piernas en abierto compás,

hacia el fondo, ya con los huesos rotos,

crispadas mano y boca, hacia el abismo, abajo,

súbitamente próximo,

una palabra escribes lentamente, te concentras, murmuras, en

el café discutes, muy despacio sonríes, adelantas una

noble razón,

aduces un adorno, un tejido, un recamado oro,

hablando en la tarima de tu clase diserta,

 

donde todos están cabeza abajo.

 

En: “Las monedas contra la losa” (1973)

 

(Imagem sem créditos)

 

Enquanto em teu escritório respiras

 

Enquanto em teu escritório respiras, bocejas, te descontrais, ou,

em sala de aula, dás uma palestra

a alunos estranhos que, sonolentos ainda às primeiras horas da manhã,

observam-te fixamente;

enquanto conversas, enquanto gesticulas no café,

ou imóvel te concentras em meditar

sentado à escrivaninha, ou reclinado num sofá macio

repassas lentamente memórias da tua vida; enquanto, quieto,

te perdes na visão da planície sem fim, ou

enquanto escreves uma palavra lenta e te delicias com o seu

doce som, em sua amorosa realidade,

 

tu cais, estás caindo, tombando ladeira abaixo por uma ravina,

estás rolando entre pedras e cardos pela encosta íngreme

até um barranco onde corre um rio,

um rio que corre rápido como o vento,

estás ferido na boca, nas mãos, no peito,

sangras pelo ouvido, despencas pelo penhasco

de ponta cabeça,

com as pernas em compasso aberto, em direção ao fundo,

já com os ossos partidos,

mãos e boca crispadas, até o abismo, lá embaixo,

quando subitamente próximo,

escreves uma palavra lentamente, te concentras, murmuras, discutes

no café, muito devagar sorris, declinas uma

nobre razão,

trazes à apreciação um ornato, um tecido, um bordado de ouro,

falando na tribuna de tua aula expositiva,

 

onde todos estão de cabeça para baixo.

 

Em: “As moedas contra a lápide” (1973)

 

Referência:

 

BOUSOÑO, Carlos. Mientras en tu oficina respiras. In: __________. Primavera de la muerte: poesías completas (1945-1998). 1. ed. Barcelona, ES: Tusquets Editores, oct. 1998. p. 499-500.

 

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