Fezes, urina, diarreia
ou outras palavras similares não são tão comuns como matéria de poesia, muito
embora apareçam aqui e ali em determinados poemas, a exemplo de algumas composições
elaboradas por grandes poetas brasileiros, como Ferreira Gullar e Adélia Prado.
Digo isso apenas como
introdução a este soneto de Vinicius, o qual, mais do que descrever a vida
rústica e bucólica que se leva em uma fazenda, discorre sobre ações mundanas do
falante em seu acercamento ao mundo natural, como mastigar grama, beber água de
um riacho, interagir com o gado e, impudentemente, urinar numa gozosa comunhão
com os animais, colocando em primeiro plano o status da dimensão biológica e
instintiva do ser humano.
J.A.R. – H.C.
Vinicius de Moraes
(1913-1980)
Soneto de Intimidade
Nas tardes da fazenda
há muito azul demais.
Eu saio às vezes,
sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim,
o peito nu de fora
No pijama irreal de
há três anos atrás.
Desço o rio no vau
dos pequenos canais
Para ir beber na
fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato
o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o
sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o
cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os
bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso
uma mijada ferve
Seguida de um olhar
não sem malícia e verve
Nós todos, animais,
sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa
festa de espuma.
Regando o Jardim
(Shannon O’Donnell: pintora norte-americana)
Referência:
MORAES, Vinicius de. Soneto de intimidade. In: __________. Soneto de fidelidade e outros poemas. Seleção de textos por Maura Sardinha. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1996. p. 63. (Coleção “Clássicos de Ouro”)
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