Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 19 de setembro de 2026

Vinicius de Moraes - Soneto de Intimidade

Fezes, urina, diarreia ou outras palavras similares não são tão comuns como matéria de poesia, muito embora apareçam aqui e ali em determinados poemas, a exemplo de algumas composições elaboradas por grandes poetas brasileiros, como Ferreira Gullar e Adélia Prado.

 

Digo isso apenas como introdução a este soneto de Vinicius, o qual, mais do que descrever a vida rústica e bucólica que se leva em uma fazenda, discorre sobre ações mundanas do falante em seu acercamento ao mundo natural, como mastigar grama, beber água de um riacho, interagir com o gado e, impudentemente, urinar numa gozosa comunhão com os animais, colocando em primeiro plano o status da dimensão biológica e instintiva do ser humano.

 

J.A.R. – H.C.

 

Vinicius de Moraes

(1913-1980)

 

Soneto de Intimidade

 

Nas tardes da fazenda há muito azul demais.

Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora

Mastigando um capim, o peito nu de fora

No pijama irreal de há três anos atrás.

 

Desço o rio no vau dos pequenos canais

Para ir beber na fonte a água fria e sonora

E se encontro no mato o rubro de uma amora

Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.

 

Fico ali respirando o cheiro bom do estrume

Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme

E quando por acaso uma mijada ferve

 

Seguida de um olhar não sem malícia e verve

Nós todos, animais, sem comoção nenhuma

Mijamos em comum numa festa de espuma.

 

Regando o Jardim

(Shannon O’Donnell: pintora norte-americana)

 

Referência:

 

MORAES, Vinicius de. Soneto de intimidade. In: __________. Soneto de fidelidade e outros poemas. Seleção de textos por Maura Sardinha. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: Ediouro, 1996. p. 63. (Coleção “Clássicos de Ouro”)

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