Este exemplar de poesia
yiddish pode ser lido mais amplamente do que num contexto circunscrito à
sabedoria judaica, uma vez que reflete a angústia maior do homem contemporâneo,
herdeiro de tradições religiosas milenares, mas que parece estar à mercê de forças
diante das quais não obtém respostas, tampouco revelações como as de outrora recepcionadas.
No cerne da condição
humana, sente-se a proximidade do ausente. Como reflexo, o problema da fé
tornou-se um diálogo entrecortado, em meio ao qual a única teofania possível passou
a ser a de uma “Sarça Ardente”, incrustada no coração mesmo da existência: a dor
do absentismo divino é tão aguda que não se consegue esquecê-lo nem por um
momento; de outra parte, a sua natureza é tão vasta, que redunda
incompreensível para toda uma eternidade.
J.A.R. – H.C.
Melech Ravitch
(1893-1976)
Doze Linhas sobre a
Sarça Ardente
Qual vai ser o fim de
nós dois – Deus?
Você vai mesmo deixar
que eu morra assim
e não me vai mesmo
contar o seu grande segredo?
Devo mesmo virar pó,
que é cinzento, cinza, que é negro?
E o grande segredo,
mais perto de mim que a camisa, que a
pele do corpo,
continuará sempre
segredo, embora mais fundo em mim que
o coração mesmo?
E foi mesmo em vão
que no eito dos dias esperei, no ir das
noites aguardei?
E você continuará
mesmo até o último instante divinamente
cruel e duro?
A face surda feito
pedra muda, feito cimento, cegamente
obstinada?
Não é sem razão que
um dos mil nomes seus é – espinho,
espinho é você em meu
espírito, na carne, nos ossos,
pungente – não se
pode arrancá-lo; ardente – não se pode
apagá-lo,
um momento não é esquecível
– uma eternidade não é
compreensível.
A Sarça Ardente
(Darius Gilmont:
artista inglês)
Referência:
RAVITCH, Melech. Doze
Linhas sobre a Sarça Ardente. Tradução de Jacob Guinsburg. In: GUINSBURG,
Jacob; TAVARES, Zulmira Ribeiro (Orgs.). Quatro mil anos de poesia. Desenhos
de Paulina Rabinovich. Vários tradutores. São Paulo, SP: Perspectiva, 1969. p.
169. (Coleção “Judaica”)
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