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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 4 de setembro de 2026

Melech Ravitch - Doze Linhas sobre a Sarça Ardente

Este exemplar de poesia yiddish pode ser lido mais amplamente do que num contexto circunscrito à sabedoria judaica, uma vez que reflete a angústia maior do homem contemporâneo, herdeiro de tradições religiosas milenares, mas que parece estar à mercê de forças diante das quais não obtém respostas, tampouco revelações como as de outrora recepcionadas.

 

No cerne da condição humana, sente-se a proximidade do ausente. Como reflexo, o problema da fé tornou-se um diálogo entrecortado, em meio ao qual a única teofania possível passou a ser a de uma “Sarça Ardente”, incrustada no coração mesmo da existência: a dor do absentismo divino é tão aguda que não se consegue esquecê-lo nem por um momento; de outra parte, a sua natureza é tão vasta, que redunda incompreensível para toda uma eternidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Melech Ravitch

(1893-1976)

 

Doze Linhas sobre a Sarça Ardente

 

Qual vai ser o fim de nós dois – Deus?

Você vai mesmo deixar que eu morra assim

e não me vai mesmo contar o seu grande segredo?

 

Devo mesmo virar pó, que é cinzento, cinza, que é negro?

E o grande segredo, mais perto de mim que a camisa, que a

pele do corpo,

continuará sempre segredo, embora mais fundo em mim que

o coração mesmo?

 

E foi mesmo em vão que no eito dos dias esperei, no ir das

noites aguardei?

E você continuará mesmo até o último instante divinamente

cruel e duro?

A face surda feito pedra muda, feito cimento, cegamente

obstinada?

 

Não é sem razão que um dos mil nomes seus é – espinho,

espinho é você em meu espírito, na carne, nos ossos,

pungente – não se pode arrancá-lo; ardente – não se pode

apagá-lo,

um momento não é esquecível – uma eternidade não é

compreensível.

 

A Sarça Ardente

(Darius Gilmont: artista inglês)

 

Referência:

 

RAVITCH, Melech. Doze Linhas sobre a Sarça Ardente. Tradução de Jacob Guinsburg. In: GUINSBURG, Jacob; TAVARES, Zulmira Ribeiro (Orgs.). Quatro mil anos de poesia. Desenhos de Paulina Rabinovich. Vários tradutores. São Paulo, SP: Perspectiva, 1969. p. 169. (Coleção “Judaica”)

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