O poeta sino-francês detém-se
a falar da alquimia do sofrimento, mostrando-nos que uma determinada “ferida”,
quando experimentada em toda a sua silenciosa e obsessiva profundidade, orienta-se
à formação de um cerne indestrutível de identidade, transformando-se, convertendo-se
no crisol onde o “eu” superficial esbraseia-se para deixar a descoberto um “secreto
tu”, um núcleo essencial que, embora destinado à terra, corresponde à prova
última de que terá vivido e sofrido intensamente.
Depois da lesão, tem-se
a sua lenta ressonância no tempo que a sucede, petrificando a alma,
paralisando-a numa melancolia existencial, até que a dor do trauma tenha sido interiorizada
e absorvida por completo numa ruminação tortuosa, esgotando toda a sua
capacidade de sentir, jogando-a num vazio – não exatamente vazio – que, mediante
um processo metamórfico, encapsula-se em rígido grumo no coração, selado a
partir de então como relíquia incorporada ao ser.
J.A.R. – H.C.
François Cheng
(n. 1929)
Après la blessure
Après la blessure
Heure muette
La clepsydre de
Vaprès-midi
Distille l’ennui
humain
La lumière ne sera
pas vue
La parole ne sera pas
dite
Toutes rosées
ravalées
Toutes incandescences
bues
La saison rentre en
sa chair
Fouillant la plaie
Fouillant le ver
Fouillant à s’en
déchirer les fibres
Ce creux trop
prononcé
À la pointe du coeur
Déjà noyau durci
Que renfermera bientôt
l’argile
Renferm ant dès ici
Renferm ant jusqu’au
bout
De l’insondée lave
terrestre
Le secret tu
Dans: “Le Long d’un Amour”
(2003)
Rega
(Rita Maikova
Zaporozhets: artista ucraniana)
Depois da ferida
Depois da ferida
Hora muda
A clepsidra da tarde
Destila o tédio
humano
A luz não será vista
A palavra não será
dita
Todos os orvalhos
tragados
E as incandescências
bebidas
A sazão retorna à sua
carne
Revolvendo a chaga
Revolvendo o verme
Revolvendo até se
romperem as fibras
Este vazio acentuado
demais
Na ponta do coração
Já núcleo endurecido
Que logo a argila
encerrará
Encerrando desde aqui
Encerrando até o fim
Da insondada lava
terrestre
O segredo silenciado
Em: “Ao Longo dum
Amor” (2003)
Referência:
CHENG, François. Après la blessure / Depois da ferida. Tradução de Bruno Palma. In: __________. Duplo canto e outros poemas. Tradução, cronologia, introdução e notas de Bruno Palma. Edição bilíngue: francês x português. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2011. Em francês: p. 402; em português: p. 403.
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