A verdadeira força de
uma obra-prima expressa-se em sua capacidade para sobreviver a todas as
interpretações, inclusive as mais monstruosas: como, mais extensivamente, a
própria arte, a Nona Sinfonia de Beethoven testemunha de modo eloquente o fluxo
da história, como se fosse um espelho no qual se refletem alternadamente o
poder e a resistência, a opressão e a liberdade, demonstrando que o sentido
último de uma obra não é decidido por seu criador, mas pelo uso – e abuso – que
dela faz a complexa e contraditória condição humana.
A última estância
desta infratranscrita composição é o ápice de todas as contradições numa só
imagem – a do muro de Berlim: o símbolo máximo da divisão do mundo foi erguido
e desmoronou aos acordes da mesma sinfonia do músico alemão, servindo a Galeano
como tese máxima de sua lavra, a saber, a de que a música não é boa nem má, nem
de direita nem de esquerda, senão uma espécie de recipiente vazio que a
humanidade preenche com as suas próprias paixões, conflitos e esperanças.
J.A.R. – H.C.
Eduardo Galeano
(1940-2015)
La Novena
La sordera impidió
que Beethoven
pudiera escuchar ni
una nota
de su Novena
Sinfonía.
Y la muerte impidió
que se enterara
de las aventuras y
desventuras
de su obra maestra.
El príncipe Bismarck
proclamó
que la Novena
inspiraba
a la raza alemana.
Bakunin escuchó en
ella
la música de la
anarquía.
Engels anunció que
sería
el himno de la
Humanidad.
Y Lenin opinó que era
más revolucionaria
que la Internacional.
Von Karagán la
dirigió en concierto
para el gobierno nazi
y años después
consagró con ella
la unidad de la
Europa libre.
La Novena acompañó
a los kamikazes
japoneses
que morían por su
emperador.
y a los combatientes
que dieron la vida
peleando contra todos
los imperios.
Fue cantada por
quienes resistían
la embestida alemana
y fue tarareada por
Hitler
que en un raro ataque
de modestia
dijo que Beethoven
era
el verdadero führer.
Paul Robeson la cantó
contra el racismo
y los racistas de
África del Sur
la usaron de música
de fondo
en la propaganda del apartheid.
En 1961, al son de la
Novena
se alzó el muro de
Berlín.
En 1989, al son de la
Novena
el muro de Berlín
cayó.
En: “Espejos: una
historia casi universal” (2008)
A Orquestra
(Max Oppenheimer: pintor
austríaco)
A Nona
A surdez impossibilitou
que Beethoven
pudesse escutar uma
única nota
de sua Nona Sinfonia.
E a morte impediu-o de
se inteirar
das aventuras e
desventuras
de sua obra-prima.
O príncipe Bismarck
proclamou
que a Nona inspirava
a raça alemã.
Bakunin nela escutou
a música da anarquia.
Engels anunciou que
seria
o hino da Humanidade.
E Lenin opinou que
era
mais revolucionária
que a Internacional.
Von Karajan regeu-a
em concerto
para o governo
nazista
e anos depois
consagrou com ela
a unidade da Europa
livre.
A Nona acompanhou
os kamikazes
japoneses
que morriam por seu
imperador
e os combatentes que
deram a vida
lutando contra todos
os impérios.
Foi cantada por
aqueles que resistiam
ao avanço alemão
e foi cantarolada por
Hitler
que em um raro ataque
de modéstia
disse que Beethoven
era
o verdadeiro führer.
Paul Robeson cantou-a
contra o racismo
e os racistas da
África do Sul
usaram-na como música
de fundo
na propaganda do apartheid.
Em 1961, ao som da
Nona
ergueu-se o muro de
Berlim.
Em 1989, ao som da
Nona
o muro de Berlim
caiu.
Em: “Espelhos: uma
história quase universal” (2008)
Referência:
GALEANO, Eduardo. La novena. In: __________. Entre los poetas míos... Cuaderno de poesía crítica. Disponível neste endereço. Acesso em: 02 set. 2026. p. 23-24. (Biblioteca Virtual Omegalfa / Colección “Antología de Poesía Social”; vol. 18)
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