Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Eduardo Galeano - A Nona

A verdadeira força de uma obra-prima expressa-se em sua capacidade para sobreviver a todas as interpretações, inclusive as mais monstruosas: como, mais extensivamente, a própria arte, a Nona Sinfonia de Beethoven testemunha de modo eloquente o fluxo da história, como se fosse um espelho no qual se refletem alternadamente o poder e a resistência, a opressão e a liberdade, demonstrando que o sentido último de uma obra não é decidido por seu criador, mas pelo uso – e abuso – que dela faz a complexa e contraditória condição humana.

 

A última estância desta infratranscrita composição é o ápice de todas as contradições numa só imagem – a do muro de Berlim: o símbolo máximo da divisão do mundo foi erguido e desmoronou aos acordes da mesma sinfonia do músico alemão, servindo a Galeano como tese máxima de sua lavra, a saber, a de que a música não é boa nem má, nem de direita nem de esquerda, senão uma espécie de recipiente vazio que a humanidade preenche com as suas próprias paixões, conflitos e esperanças.

 

J.A.R. – H.C.

 

Eduardo Galeano

(1940-2015)

 

La Novena

 

La sordera impidió que Beethoven

pudiera escuchar ni una nota

de su Novena Sinfonía.

Y la muerte impidió que se enterara

de las aventuras y desventuras

de su obra maestra.

 

El príncipe Bismarck proclamó

que la Novena inspiraba

a la raza alemana.

 

Bakunin escuchó en ella

la música de la anarquía.

 

Engels anunció que sería

el himno de la Humanidad.

 

Y Lenin opinó que era

más revolucionaria

que la Internacional.

 

Von Karagán la dirigió en concierto

para el gobierno nazi

y años después consagró con ella

la unidad de la Europa libre.

 

La Novena acompañó

a los kamikazes japoneses

que morían por su emperador.

y a los combatientes que dieron la vida

peleando contra todos los imperios.

 

Fue cantada por quienes resistían

la embestida alemana

y fue tarareada por Hitler

que en un raro ataque de modestia

dijo que Beethoven era

el verdadero führer.

 

Paul Robeson la cantó contra el racismo

y los racistas de África del Sur

la usaron de música de fondo

en la propaganda del apartheid.

 

En 1961, al son de la Novena

se alzó el muro de Berlín.

En 1989, al son de la Novena

el muro de Berlín cayó.

 

En: “Espejos: una historia casi universal” (2008)

 

A Orquestra

(Max Oppenheimer: pintor austríaco)

 

A Nona

 

A surdez impossibilitou que Beethoven

pudesse escutar uma única nota

de sua Nona Sinfonia.

E a morte impediu-o de se inteirar

das aventuras e desventuras

de sua obra-prima.

 

O príncipe Bismarck proclamou

que a Nona inspirava

a raça alemã.

 

Bakunin nela escutou

a música da anarquia.

 

Engels anunciou que seria

o hino da Humanidade.

 

E Lenin opinou que era

mais revolucionária

que a Internacional.

 

Von Karajan regeu-a em concerto

para o governo nazista

e anos depois consagrou com ela

a unidade da Europa livre.

 

A Nona acompanhou

os kamikazes japoneses

que morriam por seu imperador

e os combatentes que deram a vida

lutando contra todos os impérios.

 

Foi cantada por aqueles que resistiam

ao avanço alemão

e foi cantarolada por Hitler

que em um raro ataque de modéstia

disse que Beethoven era

o verdadeiro führer.

 

Paul Robeson cantou-a contra o racismo

e os racistas da África do Sul

usaram-na como música de fundo

na propaganda do apartheid.

 

Em 1961, ao som da Nona

ergueu-se o muro de Berlim.

Em 1989, ao som da Nona

o muro de Berlim caiu.

 

Em: “Espelhos: uma história quase universal” (2008)

 

Referência:

 

GALEANO, Eduardo. La novena. In: __________. Entre los poetas míos... Cuaderno de poesía crítica. Disponível neste endereço. Acesso em: 02 set. 2026. p. 23-24. (Biblioteca Virtual Omegalfa / Colección “Antología de Poesía Social”; vol. 18)

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