Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

João Guimarães Rosa - Saudade

Tanto quanto a dor por tudo o que se encontra em outro tempo e lugar, a saudade – esse sentimento tão característico da cultura lusófona – expressa um inalcançável desejo de totalidade, pelo efeito da consciência de que somos seres fragmentados aspirando a sermos completos.

 

Detém a saudade uma capacidade para romper as barreiras do tempo linear, espargindo-se em direção ao passado, a tudo o que não se concretizou, ao desconhecido, e mesmo ao futuro, de que resulta a imersão do sujeito numa espécie de exílio de si mesmo e do “agora”.

 

Trata-se de um lanho nostálgico, por vezes melancólico, mas, ao mesmo tempo, de um motor existencial, um estado de ser, uma condição ontológica que se define como “essencial e orgânica”, uma vez que inerente à existência humana – como a respiração ou o pulsar do coração.

 

De resto, esse afã de concentrar o oceano da existência na gota do “eu” individual pode levar o aspirante a afogar-se “no fundo de si mesmo”. E aqui há suficiente ambiguidade na elocução do escritor mineiro, para que se possa afirmar que tal empreitada levaria ao perecimento desse “eu”, esmagado pela vastidão do próprio ser, ou, sob uma perspectiva mística, ao encontro com o divino, perante o qual a individualidade se dissolveria na unidade cósmica – como que a ratificar a ideia de que a morte do ego teria o condão de trazer à luz uma verdade maior.

 

J.A.R. – H.C.

 

João Guimarães Rosa

(1908-1967)

 

Saudade

 

Saudade de tudo!...

 

Saudade, essencial e orgânica,

de horas passadas,

que eu podia viver e não vivi!...

Saudade de gente que não conheço,

de amigos nascidos noutras terras,

de almas órfãs e irmãs,

de minha gente dispersa,

que talvez até hoje ainda espere por mim...

 

Saudade triste do passado,

saudade gloriosa do futuro,

saudade de todos os presentes

vividos fora de mim!...

 

Pressa!...

Ânsia voraz de me fazer em muitos,

fome angustiosa da fusão de tudo,

sede da volta final

da grande experiência:

uma só alma em um só corpo,

uma só alma-corpo,

um só,

um!...

Como quem fecha numa gota

o Oceano,

afogado no fundo de si mesmo...

 

Saudade

(Eridanus Sellen: artista norte-americano)

 

Referência:

 

ROSA, João Guimarães. Saudade. In: __________. Magma. Desenhos de Poty. 1. ed., 2. impr. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, abr. 2006. p. 132-133.

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