Tanto quanto a dor por
tudo o que se encontra em outro tempo e lugar, a saudade – esse sentimento tão
característico da cultura lusófona – expressa um inalcançável desejo de
totalidade, pelo efeito da consciência de que somos seres fragmentados aspirando
a sermos completos.
Detém a saudade uma
capacidade para romper as barreiras do tempo linear, espargindo-se em direção
ao passado, a tudo o que não se concretizou, ao desconhecido, e mesmo ao futuro,
de que resulta a imersão do sujeito numa espécie de exílio de si mesmo e do “agora”.
Trata-se de um lanho
nostálgico, por vezes melancólico, mas, ao mesmo tempo, de um motor existencial,
um estado de ser, uma condição ontológica que se define como “essencial e
orgânica”, uma vez que inerente à existência humana – como a respiração ou o pulsar
do coração.
De resto, esse afã de
concentrar o oceano da existência na gota do “eu” individual pode levar o aspirante
a afogar-se “no fundo de si mesmo”. E aqui há suficiente ambiguidade na elocução
do escritor mineiro, para que se possa afirmar que tal empreitada levaria ao perecimento
desse “eu”, esmagado pela vastidão do próprio ser, ou, sob uma perspectiva
mística, ao encontro com o divino, perante o qual a individualidade se dissolveria
na unidade cósmica – como que a ratificar a ideia de que a morte do ego teria o
condão de trazer à luz uma verdade maior.
J.A.R. – H.C.
João Guimarães Rosa
(1908-1967)
Saudade
Saudade de tudo!...
Saudade, essencial e
orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e
não vivi!...
Saudade de gente que
não conheço,
de amigos nascidos
noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente
dispersa,
que talvez até hoje
ainda espere por mim...
Saudade triste do
passado,
saudade gloriosa do
futuro,
saudade de todos os
presentes
vividos fora de
mim!...
Pressa!...
Ânsia voraz de me
fazer em muitos,
fome angustiosa da
fusão de tudo,
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só
corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa
gota
o Oceano,
afogado no fundo de
si mesmo...
Saudade
(Eridanus Sellen: artista
norte-americano)
Referência:
ROSA, João Guimarães.
Saudade. In: __________. Magma. Desenhos de Poty. 1. ed., 2. impr. Rio
de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, abr. 2006. p. 132-133.
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