Entre mostras de modéstia
e despretensão em relação à sua obra e inflexões irônicas diante das expectativas
– da crítica ou do público leitor – quanto à originalidade em seus trabalhos,
Celaya tenciona nos externar a ideia de que todo escritor se baseia na tradição
linguística e literária, do que resulta ser o plágio algo praticamente
inevitável, uma vez que a própria linguagem é uma herança coletiva.
Ainda que procure evitar certos modos poéticos, o poeta acaba por ser influenciado por eles, haja vista que exposto à influência de outras vidas, cujas vozes e experiências a Lírica tantas vezes absorve – num “roubo” compartilhado –, a exemplo dos versos pejados de intertextualidade, mediante os quais o verbo coletivo aflora como um tesouro artístico e sapiencial.
J.A.R. – H.C.
Gabriel Celaya
(1911-1991)
Me repiten y explican
que mis versos están llenos de defectos.
Escribo como puedo
y crean que lamento más que nadie
no haber nacido genio.
Escribo de prestado
pues que yo no he inventado el castellano.
Soy ya por eso un plagiario.
Tampoco escribiría como escribo si antes otros
no hubieran agotado ciertos modos.
Soy plagiario, en consecuencia, por rechazo.
Lo cierto es que me invaden otras vidas,
me poseen y hasta fuerzan a que diga
cosas que no son mías.
Soy plagiario pues también de esa manera.
¡Y con tanta riqueza acumulada,
tanta herencia, tanta lengua atesorada,
¿es posible que no logre salvar nada?
Hasta plagiar es difícil, ¡caramba!
En: “Operaciones
poéticas” (1971)
O Escritor
(Rex M. Oppenheimer: artista franco-americano)
Sou um péssimo
plagiário
Repetem-me e
explicam-me
que meus versos estão
cheios de defeitos.
Escrevo como posso
e eles creem que
lamento mais do que ninguém
não ter nascido um gênio.
Escrevo de empréstimo,
pois não inventei o
castelhano.
Sou já por isso um
plagiário.
Tampouco escreveria
como escrevo se antes outros
não tivessem esgotado
certos modos.
Sou plagiário, em
consequência, por rejeição.
O certo é que invadem-me
outras vidas,
possuem-me e até
forçam-me a que eu diga
coisas que não são
minhas.
Sou plagiário, pois,
também dessa maneira.
E com tanta riqueza
acumulada,
tanta herança, tanta
língua entesourada,
seria possível que
nada devesse resgatar?
Até plagiar é
difícil, caramba!
Em: “Operações
poéticas” (1971)
Referência:
CELAYA, Gabriel. Soy un pésimo plagiário. In: __________. Trayectoria poética: antología. Edición, introducción y notas de José Ángel Ascunde. Madrid, ES: Editorial Castalia, 1993. p. 330-331. (Clásicos “Castalia”)
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