Hesse logra condensar,
neste poema em quatro estâncias, a angústia de uma época que se contextualiza em duas grandes guerras, evidenciando-lhes o horror e a sanha desumanizadora, sem
perder a fé, contudo, no ato mesmo da criação, pois que se, por um lado, entoa
um canto fúnebre pela humanidade que se foi, por outro, lança uma semente de
esperança para a que, talvez, um dia poderia ser.
Permanecem a vida e a
possibilidade de um recomeço na figura de um novo ser humano modelado a partir
da argila primordial, mas dessa vez concebido para fazer rir e comprazer o Criador,
para lhe dirigir orações, não para externar a sua febre violenta e arrogante, autêntico
parêntesis destrutivo na tranquila eternidade do cosmos.
J.A.R. – H.C.
Hermann Hesse
(1877-1962)
Müssige Gedanken
Einmal wird dies
alles nicht mehr sein,
Nicht mehr diese
töricht genialen Kriege,
Diese teuflisch in
den Feind gewehten
Gase, diese
Betonwüstenein,
Diese Wälder, statt
mit Dorn mit Drähten
Dicht bestachelt,
diese Todeswiegen,
Drin so viele Tausend
schaudernd liegen,
Die mit so viel Geist
und Fleiß ersonnenen,
Die mit so viel
feigem Witz gesponnenen
Todesnetze über Land,
Luft, Meer.
Berge werden in die
Bläue ragen,
Sterne werden durch
die Nächte leuchten,
Zwillinge,
Kassiopeia, Wagen,
Ewig, in gelassener
Wiederkehr,
Laub und Gras mit
seinem morgenfeuchten
Silber wird dem Tag
entgegengrünen,
Und im ewigen Wind wird
Meerflut schlagen
An den Fels und an
die bleichen Dünen.
Doch die
Weltgeschichte ist vorüber;
Mit dem Schwall von
Blut, von Krampf, von Lüge
Ist die prahlerische
als ein trüber
Kehrichtstrom
zerronnen, ihre Züge
Sind erloschen, ihre
unermessen
Schlingende Gier
gestillt, der Mensch vergessen.
Und vergessen sind
die Kinderspiele,
Deren wir so holde
und berückende,
Deren wir so
unersättlich viele
Uns erdacht, so
fremde und entzückende.
Die Gedichte, die wir
uns ersonnen,
Die Gebilde all, die
unser Lieben
Rings der willigen
Erde eingeschrieben,
Unsre Götter,
Heiligtümer, Weihen,
Alphabet und
Einmaleins sind nicht mehr.
Unsrer Orgelfugen
Himmelswonnen,
Unsre Dome mit den
trotzig schlanken
Türmen, unsere
Bücher, Malereien,
Sprachen, Märchen, Träume
und Gedanken,
Sie sind ausgelöscht.
Die Erde hat kein Licht mehr.
Und der Schöpfer, der
dem Untergange
All des Scheußlichen
und all des Schönen
Stille zugeschaut,
betrachtet lange
Die befreite Erde.
Heiter tönen
Um ihn der Gestirne
Reigen, dunkel
Schwebt die kleine
Kugel im Gefunkel.
Sinnend greift er
etwas Lehm und knetet.
Wieder wird er einen
Menschen machen,
Einen kleinen Sohn,
der zu ihm betet,
Einen kleinen Sohn,
von dessen Lachen,
Dessen Kinderei’n und
Siebensachen
Er sich Lust
verspricht. Sein Finger waltet
Froh im Lehm. Er
freut sich. Er gestaltet.
Paisagem com um
arco-íris
(Peter Paul Rubens:
pintor flamengo)
Pensamentos Vadios
Um dia tudo isto
deixará de existir:
nada mais destas
guerras burramente geniais,
destes gases diabólicos
lançados sobre
o inimigo, destes
ermos de concreto,
destas florestas
farpadas de arame
em vez de espinhos,
destes berços mortuários
onde aterrados jazem
tantos milhares,
destas redes
mortíferas tramadas
com tanto engenho e
arte, em meio a tão covardes
gracejos, na terra,
no mar, no ar.
Montanhas hão de
elevar-se no azul;
constelações
refulgirão na noite
– Gêmeos, Cassiopeia,
Ursa Maior –
eternas em sereno
gravitar;
relvas e folhas
orvalhadas pela noite
voltarão a pintar de
verde o dia;
e ao sopro eterno do
vento as marés virão
bater nas pedras e
nos pálidos barrancos.
Assim tem-se passado
a história deste mundo:
com dilúvios de
sangue, convulsão e mentira,
tem a arrogância de
um montão de lixo,
de traços apagados,
saciada
a sua desmedida gulodice
– e o ser humano
esquecido.
Esqueceram-se os
jogos infantis
que com tanta doçura
e encantamento
imaginávamos,
curiosos e belos;
as poesias que então
concebíamos,
e todas as figuras da
nossa ternura
gravadas no mundo em
torno de nós;
nossos deuses,
mistérios e santuários,
tabuadas e alfabetos –
não existem mais.
Nossas fugas de
órgão, nosso afã de céu,
nossas igrejas de
torres esguias
e altaneiras, nossos
livros e pinturas,
linguagens, fábulas,
sonhos e ideias,
apagaram-se. A terra
está sem luz.
E o Criador, que ao
ocaso
de tudo quanto é mau
e quanto é bom
silencioso assiste,
longamente
se põe a observar a
terra libertada:
alegremente ecoa à
sua volta o gravitar dos astros
– escuro paira o
pequenino globo,
entre tanto
esplendor. Sempre pensando,
Ele toma nas mãos um
punhado de barro
e se põe a amassá-lo:
vai fazer
mais uma vez um homem
– um minúsculo filho
que lhe faça orações,
um minúsculo filho
em cujos risos e
artes e inocências
Ele espera ainda ter
algum prazer.
Alegram-se os Seus dedos,
o barro modelando,
e Ele se compraz nisso,
enfim: está criando!
Referências:
Em Alemão
HESSE, Hermann. Müssige
gedanken. In: __________. Die gedichte. Erste auflage. Frankfurt am Main,
DE: Suhrkamp Verlag, 1977. s. 671-672. (“Suhrkamp Taschenbuch”, b. 381)
Em Português
HESSE, Hermann. Pensamentos vadios. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, jan. 1976. p. 193-194.
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