Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

Hermann Hesse - Pensamentos Vadios

Hesse logra condensar, neste poema em quatro estâncias, a angústia de uma época que se contextualiza em duas grandes guerras, evidenciando-lhes o horror e a sanha desumanizadora, sem perder a fé, contudo, no ato mesmo da criação, pois que se, por um lado, entoa um canto fúnebre pela humanidade que se foi, por outro, lança uma semente de esperança para a que, talvez, um dia poderia ser.

 

Permanecem a vida e a possibilidade de um recomeço na figura de um novo ser humano modelado a partir da argila primordial, mas dessa vez concebido para fazer rir e comprazer o Criador, para lhe dirigir orações, não para externar a sua febre violenta e arrogante, autêntico parêntesis destrutivo na tranquila eternidade do cosmos.

 

J.A.R. – H.C.

 

Hermann Hesse

(1877-1962)

 

Müssige Gedanken

 

Einmal wird dies alles nicht mehr sein,

Nicht mehr diese töricht genialen Kriege,

Diese teuflisch in den Feind gewehten

Gase, diese Betonwüstenein,

Diese Wälder, statt mit Dorn mit Drähten

Dicht bestachelt, diese Todeswiegen,

Drin so viele Tausend schaudernd liegen,

Die mit so viel Geist und Fleiß ersonnenen,

Die mit so viel feigem Witz gesponnenen

Todesnetze über Land, Luft, Meer.

 

Berge werden in die Bläue ragen,

Sterne werden durch die Nächte leuchten,

Zwillinge, Kassiopeia, Wagen,

Ewig, in gelassener Wiederkehr,

Laub und Gras mit seinem morgenfeuchten

Silber wird dem Tag entgegengrünen,

Und im ewigen Wind wird Meerflut schlagen

An den Fels und an die bleichen Dünen.

Doch die Weltgeschichte ist vorüber;

Mit dem Schwall von Blut, von Krampf, von Lüge

Ist die prahlerische als ein trüber

Kehrichtstrom zerronnen, ihre Züge

Sind erloschen, ihre unermessen

Schlingende Gier gestillt, der Mensch vergessen.

 

Und vergessen sind die Kinderspiele,

Deren wir so holde und berückende,

Deren wir so unersättlich viele

Uns erdacht, so fremde und entzückende.

Die Gedichte, die wir uns ersonnen,

Die Gebilde all, die unser Lieben

Rings der willigen Erde eingeschrieben,

Unsre Götter, Heiligtümer, Weihen,

Alphabet und Einmaleins sind nicht mehr.

Unsrer Orgelfugen Himmelswonnen,

Unsre Dome mit den trotzig schlanken

Türmen, unsere Bücher, Malereien,

Sprachen, Märchen, Träume und Gedanken,

Sie sind ausgelöscht. Die Erde hat kein Licht mehr.

 

Und der Schöpfer, der dem Untergange

All des Scheußlichen und all des Schönen

Stille zugeschaut, betrachtet lange

Die befreite Erde. Heiter tönen

Um ihn der Gestirne Reigen, dunkel

Schwebt die kleine Kugel im Gefunkel.

Sinnend greift er etwas Lehm und knetet.

Wieder wird er einen Menschen machen,

Einen kleinen Sohn, der zu ihm betet,

Einen kleinen Sohn, von dessen Lachen,

Dessen Kinderei’n und Siebensachen

Er sich Lust verspricht. Sein Finger waltet

Froh im Lehm. Er freut sich. Er gestaltet.

 

Paisagem com um arco-íris

(Peter Paul Rubens: pintor flamengo)

 

Pensamentos Vadios

 

Um dia tudo isto deixará de existir:

nada mais destas guerras burramente geniais,

destes gases diabólicos lançados sobre

o inimigo, destes ermos de concreto,

destas florestas farpadas de arame

em vez de espinhos, destes berços mortuários

onde aterrados jazem tantos milhares,

destas redes mortíferas tramadas

com tanto engenho e arte, em meio a tão covardes

gracejos, na terra, no mar, no ar.

 

Montanhas hão de elevar-se no azul;

constelações refulgirão na noite

– Gêmeos, Cassiopeia, Ursa Maior –

eternas em sereno gravitar;

relvas e folhas orvalhadas pela noite

voltarão a pintar de verde o dia;

e ao sopro eterno do vento as marés virão

bater nas pedras e nos pálidos barrancos.

Assim tem-se passado a história deste mundo:

com dilúvios de sangue, convulsão e mentira,

tem a arrogância de um montão de lixo,

de traços apagados, saciada

a sua desmedida gulodice

– e o ser humano esquecido.

 

Esqueceram-se os jogos infantis

que com tanta doçura e encantamento

imaginávamos, curiosos e belos;

as poesias que então concebíamos,

e todas as figuras da nossa ternura

gravadas no mundo em torno de nós;

nossos deuses, mistérios e santuários,

tabuadas e alfabetos – não existem mais.

Nossas fugas de órgão, nosso afã de céu,

nossas igrejas de torres esguias

e altaneiras, nossos livros e pinturas,

linguagens, fábulas, sonhos e ideias,

apagaram-se. A terra está sem luz.

 

E o Criador, que ao ocaso

de tudo quanto é mau e quanto é bom

silencioso assiste, longamente

se põe a observar a terra libertada:

alegremente ecoa à sua volta o gravitar dos astros

– escuro paira o pequenino globo,

entre tanto esplendor. Sempre pensando,

Ele toma nas mãos um punhado de barro

e se põe a amassá-lo: vai fazer

mais uma vez um homem – um minúsculo filho

que lhe faça orações, um minúsculo filho

em cujos risos e artes e inocências

Ele espera ainda ter algum prazer.

Alegram-se os Seus dedos, o barro modelando,

e Ele se compraz nisso, enfim: está criando!

 

Referências:

 

Em Alemão

 

HESSE, Hermann. Müssige gedanken. In: __________. Die gedichte. Erste auflage. Frankfurt am Main, DE: Suhrkamp Verlag, 1977. s. 671-672. (“Suhrkamp Taschenbuch”, b. 381)

 

Em Português

 

HESSE, Hermann. Pensamentos vadios. Tradução de Geir Campos. In: __________. Andares: antologia poética. Tradução e prólogo de Geir Campos. Rio de Janeiro, RJ: Nova Fronteira, jan. 1976. p. 193-194.

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