Este poema se situa
no núcleo mais íntimo e desnudado da poesia pessoana, a confrontar a voz do poeta
com os abismos de sua própria consciência, confluindo a uma epígrafe congruente
com toda uma existência dedicada a pensar o vazio: se a vida concreta é nada e
a vida interior é o “adejar inútil” do irreal, não resta mais nenhum salvatério
do que o esquecimento químico proporcionado pelo vinho.
Pessoa nos descreve a
beleza fria e abstrata de um universo indiferente, o movimento puro e sem
significado da consciência sobre o caos informe da vida, esse “rio turvo” que
flui em sua mente, fértil em produzir heterônimos, ideias, projetos truncados,
amores ideais. Ao fim e ao cabo, a identidade assimila-se às criações mesmas
que lhe vêm à tona, num turbilhonar das infinitas possiblidades suscitadas por
tamanha angústia existencial – a qual, como se pode aferir, ao transcender o
meramente psicológico, passa a incorporar dimensões ontológicas.
J.A.R. – H.C.
Fernando Pessoa
(1888-1935)
Há doenças piores que
as doenças
Há doenças piores que
as doenças,
Há dores que não
doem, nem na alma
Mas que são dolorosas
mais que as outras.
Há angústias sonhadas
mais reais
Que as que a vida nos
traz, há sensações
Sentidas só com
imaginá-las
Que são mais nossas
do que a própria vida.
Há tanta cousa que,
sem existir,
Existe, existe
demoradamente,
E demoradamente é nossa
e nós…
Por sobre o verde
turvo do amplo rio
Os circunflexos
brancos das gaivotas…
Por sobre a alma o
adejar inútil
Do que não foi, nem pode
ser, e é tudo.
Dá-me mais vinho,
porque a vida é nada.
19-11-1935
Jovem bebendo uma
taça de vinho
(Jan van Bijlert:
pintor holandês)
Referência:
PESSOA, Fernando. Há doenças piores que as doenças. In: __________. Obra poética. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1981. p. 120. (Biblioteca “Luso-Brasileira”; Série “Portuguesa”; n. 5)
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