Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

terça-feira, 8 de setembro de 2026

Fernando Pessoa - Há doenças piores que as doenças

Este poema se situa no núcleo mais íntimo e desnudado da poesia pessoana, a confrontar a voz do poeta com os abismos de sua própria consciência, confluindo a uma epígrafe congruente com toda uma existência dedicada a pensar o vazio: se a vida concreta é nada e a vida interior é o “adejar inútil” do irreal, não resta mais nenhum salvatério do que o esquecimento químico proporcionado pelo vinho.

 

Pessoa nos descreve a beleza fria e abstrata de um universo indiferente, o movimento puro e sem significado da consciência sobre o caos informe da vida, esse “rio turvo” que flui em sua mente, fértil em produzir heterônimos, ideias, projetos truncados, amores ideais. Ao fim e ao cabo, a identidade assimila-se às criações mesmas que lhe vêm à tona, num turbilhonar das infinitas possiblidades suscitadas por tamanha angústia existencial – a qual, como se pode aferir, ao transcender o meramente psicológico, passa a incorporar dimensões ontológicas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Pessoa

(1888-1935)

 

Há doenças piores que as doenças

 

Há doenças piores que as doenças,

Há dores que não doem, nem na alma

Mas que são dolorosas mais que as outras.

Há angústias sonhadas mais reais

Que as que a vida nos traz, há sensações

Sentidas só com imaginá-las

Que são mais nossas do que a própria vida.

Há tanta cousa que, sem existir,

Existe, existe demoradamente,

E demoradamente é nossa e nós…

Por sobre o verde turvo do amplo rio

Os circunflexos brancos das gaivotas…

Por sobre a alma o adejar inútil

Do que não foi, nem pode ser, e é tudo.

 

Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.

 

19-11-1935

 

Jovem bebendo uma taça de vinho

(Jan van Bijlert: pintor holandês)

 

Referência:

 

PESSOA, Fernando. Há doenças piores que as doenças. In: __________. Obra poética. 8. ed. Rio de Janeiro, RJ: Nova Aguilar, 1981. p. 120. (Biblioteca “Luso-Brasileira”; Série “Portuguesa”; n. 5)

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