A influência do
cinema nestes versos do poeta português é palpável: o poema funciona como um plano-sequência.
De início, a câmera dirige o seu foco ao poeta num banco de jardim, depois
move-se em direção às crianças a brincar, capta os reflexos do sol e,
finalmente, mergulha na subjetividade do adormecido, onde a imagem dos navios
se sobrepõe ao seu corpo.
O quotidiano aqui se
transfigura num símbolo de paz e de pertencimento ao mundo, num plácido e intenso
deixar-se levar pelas contingências do momento, oportunamente capturadas pelos
filtros da percepção sensorial, a servirem como portas de entrada para um
estado de unidade com o entorno – quer consciente quer onírico.
J.A.R. – H.C.
António Reis
(1927-1991)
62: Quantos navios
Quantos navios
vejo eu passar
estendido nos bancos
dos jardins
É feriado
Jogam as crianças
correndo
atrás das
sombras
de pássaros
O sol
bate na água
nas folhas
e nos meus olhos
seduzidos
E eu adormeço
deixando
que os navios
passem
lentos
sobre mim
Observando as
embarcações, Gloucester
(Winslow Homer:
pintor norte-americano)
Referência:
REIS, António. 62:
Quantos navios. In: __________. Poemas quotidianos. Prefácio de Fernando
J. B. Martinho. Posfácio Joaquim Sapinho. Lisboa, PT: Tinta-da-china, 2017. p.
80.
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