Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 27 de setembro de 2026

António Reis - 62: Quantos navios

A influência do cinema nestes versos do poeta português é palpável: o poema funciona como um plano-sequência. De início, a câmera dirige o seu foco ao poeta num banco de jardim, depois move-se em direção às crianças a brincar, capta os reflexos do sol e, finalmente, mergulha na subjetividade do adormecido, onde a imagem dos navios se sobrepõe ao seu corpo.

 

O quotidiano aqui se transfigura num símbolo de paz e de pertencimento ao mundo, num plácido e intenso deixar-se levar pelas contingências do momento, oportunamente capturadas pelos filtros da percepção sensorial, a servirem como portas de entrada para um estado de unidade com o entorno – quer consciente quer onírico.

 

J.A.R. – H.C.

 

António Reis

(1927-1991)

 

62: Quantos navios

 

Quantos navios

vejo eu passar

estendido nos bancos dos jardins

 

É feriado

 

Jogam as crianças correndo

atrás das

sombras

de pássaros

 

O sol

bate na água

nas folhas

e nos meus olhos

 

seduzidos

 

E eu adormeço

deixando

que os navios

passem

lentos

 

sobre mim

 

Observando as embarcações, Gloucester

(Winslow Homer: pintor norte-americano)

 

Referência:

 

REIS, António. 62: Quantos navios. In: __________. Poemas quotidianos. Prefácio de Fernando J. B. Martinho. Posfácio Joaquim Sapinho. Lisboa, PT: Tinta-da-china, 2017. p. 80.

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