Alpes Literários

Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Natércia Freire - Indefinida

Um delírio de poesia. Poesia plasmada nos atributos de virgindade, castidade e indefinição. Encapsulada num poema derramado de lirismo, com aquele poder de vislumbrar outras tantas relações, liames, que não os do mundo real.

Nas linhas e entrelinhas do texto da poetisa portuguesa Natércia Freire, sobressai o resgate do passado, que segundo ela mesma, “jamais dorme”. Passado envolto em poesia perturbadora, abandonada, aprisionada, esquecida, recalcada, maltratada. Mas ainda assim, poesia!

J.A.R. – H.C.

Natércia Freire
(1920-2004)

Indefinida

Oh, Poesia de andar
suspensa sobre outeiros!
Poesia de correr
Fundida nos ribeiros...
Oh, Poesia de ti,
que em mim estás a viver!
Oh, Poesia de então,
nos jardins, sob o Inverno,
pés na lama do chão,
e o dia, um dia eterno
de Poesia, a morrer!...

Poesia dos murmúrios,
dos nevoeiros densos,
dos silêncios sem luz,
dos pecados imensos,
sem gestos, qual a morte,
qual a ausência, sem vida.
Poesia de fechar
os olhos alagados
da Poesia de ti,
dos teus olhos fechados;
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida...

Poesia, dos passeios
por entre a claridade,
entre árvores tão esguias
que tocavam os Céus,
e as folhas a cair
de um oiro sem idade...
Poesia fabulosa,
de uma riqueza enorme...
Uma Poesia fina,
alada, misteriosa;
Poesia de um passado
que em mim nunca mais dorme!

Poesia perturbada,
Poesia abandonada.
Poesia na prisão,
sufocada, esquecida,    
Poesia recalcada,
Poesia maltratada.
Ai, Poesia troçada
da jovem bem-casada
na poesia da vida!...

Ai, dias sem desígnio!
Ai, noites de mistério!
Poesia de ser virgem
e casta e indefinida!...

(Em: “Anel de Sete Pedras”)

Pintura sem título
(Zdzisław Beksiński: pintor polonês)

Referência:

FREIRE, Natércia. Indefinida. In: HATHERLY, Ana (Seleção e Organização). Caminhos da moderna poesia portuguesa. 2. ed. [Lisboa, PT]: Ministério da Educação Nacional, Direção Geral de Ensino Primário, Editora Gráfica Portuguesa Ltda., 1969. p. 76-78. (Coleção Educativa - Série G - nº 8)
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domingo, 9 de agosto de 2015

Augusto Frederico Schmidt - Poema sobre o pai que o poeta não foi

Hoje se comemora o “Dia dos Pais” e, claro, o bloguinho não poderia passar em branco em tão significativa data. Mas resolvemos deixar uma mensagem-poema sobre os sentimentos de um homem que não se fez pai – pelo menos no âmbito biológico, assim se supõe.

É o próprio poeta, que não logrou ou abriu mão da paternidade. Nesse contexto, como se costuma dizer com frequência, espera-se que ele tenha deixado um legado de várias árvores plantadas, já que coletâneas de poesia deixou bastantes, sendo, por isso mesmo, condecorado em vida pela excelência de sua poética.

J.A.R. – H.C.

Augusto Frederico Schmidt
(1906-1965)

Poema

Meu coração paterno está vazio.
Ninguém o virá habitar!
A ninguém transmitirei esse amor
Puro e perfeito, que nada exige ou reclama.

A ninguém poderei dar o meu carinho paterno.
E a minha experiência de criança voltará comigo
Para a grande noite próxima.

Os meus pobres traços, não os herdará ninguém.
E desaparecerei contigo – ó tu que não vieste jamais
E que sinto misterioso e vivo, ao afagar cabelos que não cresceram
E mãos que não chegaram a se modelar.

Dia dos Pais
(David Larson Evans: pintor norte-americano)

Referência:

SCHMIDT, Augusto Frederico. Poema. In: __________. Nova antologia poética. Organização e seleção de Rubem Braga. Rio de janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 129.
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sábado, 8 de agosto de 2015

Silva Ramos - Teologia Onírica

O poema que ora postamos foi extraído da coletânea de poemas “Futuro”, de 1968, de autoria do poeta paulista Silva Ramos. Nele, nota-se a relação necessária entre Deus e o sonho, essa capacidade de criar tudo quanto existe, a partir de um estado volitivo autógeno, autorreferente dir-se-ia.

O vate percebe no espaço interestelar as potencialidades de um sonho, lá onde pulsam estrelas que podem ser metaforizadas em devaneios do Eterno, perceptíveis a olho nu ou ao microscópio, mas inatingíveis no breve intervalo de tempo da existência humana.

J.A.R. – H.C.

Péricles Eugênio da Silva Ramos
(1919-1992)

      Teologia Onírica

      Sem ele, tudo ruiria,
      céus e tetos,
      e ficaríamos perdidos na existência;
      é ele a face exata da verdade,
      o peito, o rosto, a fronte da verdade, em sua cândida nudez:
      porque a verdade mais vulgar
      é a simples cabeleira,
      a nuca, o dorso,
      a flecha que desliza e foge rumo ao solo,
      linha do corpo que se precipita
      para o chão geral, definitivo.

      Sem ele, sem o sonho, o céu desabaria,
      a sombra tragaria o próprio Deus,
      que sonha e é o sonho que é sonhado por si mesmo,
      ora serena, ora perdidamente,
      as mãos cheias de estrelas, nas pupilas o brilho das galáxias,
      nudez sagrada e cintilante
      a encher a noite quando o sonho sonha:
      que o sonho é Deus que sonha e cria o tempo
      – esta miragem, fonte com rumor de folhas refletidas –,
      a terra e o seu rumor de nuvens e cantigas,
      a vida e a morte, como um rosto e o seu perfil.

O Sonho de José
(Gaetano Gandolfi: pintor italiano)

Referência:

RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Poesia quase completa. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1972. p. 133.
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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Marcos Leal - Poema sem Título

Com grafia levemente adaptada para o português falado no Brasil, trazemos neste momento um sublime poema de um poeta brasileiro de origem portuguesa, nomeadamente Marcos Leal, pseudônimo de Rodrigo Leal Rodrigues (1928-2004).

O poema faz alusão aos limites da palavra falada ou escrita, para expressar tudo o que vai no interno dos seres humanos. Por conseguinte, o poeta preconiza outras tantas possibilidades de linguagem, de exteriorização de sentimentos, de anseios, frustrações. Pelos gestos, pelas expressões faciais, pelo corpo em geral, pois há “urgência no amor”!

J.A.R. – H.C.

Linguagem do Corpo IX
(Alfred Gockel: artista alemão)

I

É preciso com urgência inventar novas palavras
porque as conhecidas estão gastas e já não dizem tudo.
Como iremos explicar nossos silêncios prolongados
e as emoções úmidas que sentimos no ar
quando estamos juntos?

Como iremos descrever a música que sentimos
e que enche todo o Universo quando nos olhamos?

E quando a minha pele toca a tua pele,
(às vezes só as mãos se reconhecem...)
toda a aritmética da vida cessa de ter sentido.

E como iremos explicar a solidão do mundo,
se quando estamos juntos não descobrimos ninguém
e nos bastamos, como se basta à mãe a criança por nascer?

II

É urgente que falemos
É urgente que nossas mãos nos descubram
E urgente que a nossa pele encontre a paz que faltava
E urgente que os corpos se conheçam
e que a ternura os invada por não serem mais sós
É urgente colocar risos em nossas bocas
e sonho nos nossos olhos tantas vezes cansados
É urgente que nos demos
E urgente o amor amor

III

Povoas-me de insônia as noites
acenando com madrugadas que não chegam
Sou como pássaro cortando o espaço a quem o raio derrubasse
Morro a cada instante um pouco mais
enquanto espero

Povoam-me todos os seres que algum dia
Foram dentro de mim paz ou angústia
O peso de tudo que carrego tarda-me os voos
E falece-me a intimidade
– Vou com a manhã

Referência:

LEAL, Marcos. (Poema sem título). CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação). Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 134-136.
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quinta-feira, 6 de agosto de 2015

W. B. Yeats - Os Realistas

Extraído da obra “Responsibilities” (“Responsabilidades”), de 1914, recheada de criações satíricas, o poema “The Realists” (“Os Realistas”), do irlandês W. B. Yeats, carrega bem essa marca.

No poema, o poeta desdenha das obras de imaginação fantástica, ao mesmo tempo que responde aos que o acusam de ser quimérico ou fabulador. Afinal, se, de fato, algo se pretende realista, não há motivo para mergulhos em devaneios e fantasias que, a bem dizer, ficariam melhor entre os românticos.

J.A.R. – H.C.

William Butler Yeats
(1865-1939)

The Realists

Hope that you may understand!
What can books of men that wive
In a dragon-guarded land,
Paintings of the dolphin-drawn
Sea-nymphs in their pearly wagons
Do, but awake a hope to live
That had gone
With the dragons?

Ninfa Marinha e Tritão sobre um Delfim
(Peter Anton von Verschaffelt: artista flamengo)

Os Realistas

Espero que sejas capaz de compreender!
O que podem fazer os livros dos homens que se casam
Numa terra protegida por dragões,
Pinturas de delfins a propelir
Ninfas marinhas em suas carroças peroladas,
Senão despertar uma promessa de vida
Que havia partido
Com os dragões?

Referência:

YEATS, W. B. The realists. In: __________. The collected poems of W. B. Yeats. Revised 2nd edition. Edited by Richard J. Finneran. New York, NY: Collier Books – MacMillan Publishing Company, 1989. p. 120.
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quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Verônica de Aragão - Tratado do Tempo

Logo que pus os olhos no poema “Tratado do Tempo”, da poetisa carioca Verônica de Aragão, mais abaixo transcrito, de repente, não mais que de repente, recordei-me do livro “Pedro Páramo”, de Juan Rulfo.

É certo que a correlação entre as duas criações não se evidencia de modo assim tão manifesto. Afinal, “Pedro Páramo” retrata a passagem do tempo à luz de uma escrita ao modo fantástico, com aquele rol de personagens finadas a revolver as suas experiências em vida, aninhadas em surpreendentes guinadas, a demandar do leitor extrema atenção nas inflexões e mudanças de voz.

Mas a atmosfera do sonho, das paisagens idílicas, dos pendores mágicos que emanam da escrita de Verônica, assim como os vislumbro, são retas secantes que cruzam a curva do cultuadíssimo enredo concebido por Rulfo. Daí a associação...

J.A.R. – H.C.

Verônica de Aragão nasceu em Rio de Janeiro, em 1965. Professora de língua e literatura portuguesa. Licenciada em Literatura Brasileira pela Universidade Federal de Rio de Janeiro. A sua tese doutoral recolhe como ideia fulcral o pós-modernismo e centra-se na obra de Silviano Santiago. Tem publicado artigos em edições acadêmicas (GARCÍA, 2001, p. 499).

Tratado do Tempo

Eu vos proclamo
com toda a certeza de quem nada sabe:
só existe o presente.

O resto
são miragens que vislumbro
da minha janela, quando amanhece.

O passado é um rio incessante e pleno
interior, mágico ou sombrio,
(que física reconstrói emoções, fragmentos na memória?)
O futuro é uma janela por onde aporta a esperança
e por onde adentra o teu amor, tão certo, tão bom, tão infinito.
Mas amor, não há nada além do agora.

E é desconcertante entender que no agora não nos encontramos.

Deixemos para depois esta possibilidade,
este sonho de que um dia as almas se conheçam.

American Gothic
(Grant Wood: pintor norte-americano)

Referência:

ARAGÃO, Verônica. Tratado do tempo. In: GARCÍA, Xosé Lois. Antologia da poesia brasileira / Antología de la poesía brasileña. Edición bilingüe. Santiago de Compostela, Galiza, U.E.: Laiovento, 2001. p. 504.
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terça-feira, 4 de agosto de 2015

Hart Crane - No Túmulo de Melville

Num poema bastante representativo sobre o tema que predomina na obra do autor de “Moby Dick” (1851), o poeta norte-americano Hart Crane, em quatro rápidas quadras, sumaria a vida dos que se lançam ao mar em busca de sustento.

O tom elegíaco do poema de Hart lança luzes sobre o que se mostra recorrente em qualquer livro que tenha o singrar de águas profundas como assunto: o tradicional arsenal de recursos que nem sempre asseguram uma viagem tranquila, os riscos de naufrágio, a perda inapelável de cargas e embarcações, a morte sempre à espreita.

Para quem se lança ao alto mar, o retorno a terra passa a ser sempre uma mera hipótese que pode ou não se concretizar. Essa é a lição que também se extrai de várias obras do baiano Jorge Amado. Outro baiano, Dorival Caymmi, afirma que “é doce morrer no mar”! Será mesmo?

J.A.R. – H.C.

Hart Crane
(EUA: 1899-1932)

At Melville’s Tomb

Often beneath the wave, wide from this ledge
The dice of drowned men’s bones he saw bequeath
An embassy. Their numbers as he watched,
Beat on the dusty shore and were obscured.

And wrecks passed without sound of bells,
The calyx of death’s bounty giving back
A scattered chapter, livid hieroglyph,
The portent wound in corridors of shells.

Then in the circuit calm of one vast coil,
Its lashings charmed and malice reconciled,
Frosted eyes there were that lifted altars;
And silent answers crept across the stars.

Compass, quadrant and sextant contrive
No farther tides... High in the azure steeps
Monody shall not wake the mariner.
This fabulous shadow only the sea keeps.

Herman Melville
(EUA: 1819-1891)

No Túmulo de Melville

Amiúde sob a onda, em franca mirada desde este arrecife,
Ele vira os dados de ossos dos afogados transmitirem
Uma mensagem. Seus números, quando os distinguia,
Topavam no litoral poeirento, tornando-se obscurecidos.

E despojos de naufrágios passaram sem ecoar de sinos,
O cálice do que é generoso na morte a restituir
Um capítulo disperso, lívido hieróglifo,
A ferida sinistra em corredores de conchas.

Então no circuito calmo de uma vasta espiral,
Encantados os açoites e reconciliada a malícia,
Havia olhos gelados que altares ergueram;
E silentes respostas deslizavam por entre as estrelas.

Bússola, quadrante e sextante já não prospectam
Quaisquer marés distantes... Alto nas azuis escarpas,
O canto não despertará o marinheiro.
Esta fabulosa sombra somente o mar a preserva.

Referência:

CRANE, Hart. At Melville’s tomb. In: __________. The collected poems of Hart Crane. Edited with an Introduction by Waldo Frank. New York, NY: Liveright Publish Corporation, 1933. p. 100.
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Adélia Prado - Agora, ó José

E agora, José?! Quem não se lembra dessa máxima, que surgiu depois que o cantor e compositor Paulo Diniz resolveu transformar em música, no início dos anos 70, o mais do que famoso poema “José”, de Carlos Drummond de Andrade?

E é sobre ele que a poetisa Adélia Prado, também mineira, se debruça, para tecer o seu poema sobre o mesmo José, um homem do povo, que, por isso mesmo, bem pode se chamar Pedro, haja vista que “Tu és pedra e sobre esta pedra”...

As associações não param por aí: Adélia menciona ainda um verso de outro poema do mesmo Drummond – “No meio do caminho tinha uma pedra” –, além de aludir a um excerto bíblico que muito se parece com Mateus 22, 2 – “O Reino dos céus é semelhante a um rei que mandou realizar um banquete nupcial para seu filho”.

Adélia, por fim, incita o seu José (ou Pedro, tanto faz), a ir diretamente para a cama, dormir com a sua mulher. Tudo muito lascivamente, assim como em outros poemas da mesma Adélia!

J.A.R. – H.C.

Adélia Prado
(n. 1935)

Agora, ó José

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
o que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”,
“Tu és pedra e sobre esta pedra”,
a pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(Extraído de “Bagagem”)

Homem Sozinho
(Vlad Trach: pintor russo)

Referência:

PRADO, Adélia. Agora, ó José. In: __________. Reunião de poesia: 150 poemas selecionados. Prefácio de Adilson Citelli. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2014. p. 31-32.
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domingo, 2 de agosto de 2015

Mário Chamie - Tempo Imperfeito

Seguimos em nosso fluxo de poesias jeitosas. Como poema para o dia de hoje escolhemos “Tempo Imperfeito”, do paulista Mário Chamie, a gracejar sobre as diversas formas verbais, ou melhor, tempos verbais, e suas distintas vozes.

Nada mais sutil do que assinalar o ‘locus’ onde cada uma age: a passiva, por dentro; a ativa, por fora. E a reflexiva? Por dentro e por fora? Mais um pouco: Chamie não desconhece que as ações externalizadas pelo sujeito nada mais são que outras tantas razões que, internalizadas, movem-no em seu psiquismo. Sujeito ativo e sujeito passivo são, assim, dois lados da mesma moeda, em qualquer modalidade de tempo em que se esteja. Perfeito ou imperfeito!

J.A.R. – H.C.

Mário Chamie
(1933-2011)

Tempo Imperfeito

A voz passiva
age por dentro.
A voz ativa
por fora age
ao sopro do vento.

O sujeito que ativa
a voz de dentro
cobra por fora
a voz passiva
que sopra o vento.

Nenhum sujeito
divisa por fora
o objeto perfeito
de um verbo neutro
que o tempo acorda.

Passivo e ativo
todo sujeito
por dentro cobra
o preço e a hora
que – imperfeito –
o tempo explora.

Os néscios governam o mundo novo
(Gyuri Lohmüller: pintor romeno)

Referência:

CHAMIE, Mário. Tempo imperfeito. In: CONGÍLIO, Mariazinha (Selecção e Coordenação). Antologia de poetas brasileiros. 1. ed. Lisboa, PT: Universitária Editora, 2000. p. 141.
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sábado, 1 de agosto de 2015

António Salvado - O beijo, em Rodin

Dois poemas quase que com o mesmo tema: o amor carnal. O primeiro, com clara alusão à escultura “O Beijo”, do francês Auguste Rodin, com quatro quadras. O segundo, com quatro tercetos, selecionado na mesma recolha, embora dezenas de poemas à frente, parece haver tido a mesma fonte material de inspiração do primeiro.

Ambos são de autoria do poeta lusitano António Salvado, o prolífico autor que organizou, há algumas décadas, uma seleta de poemas de Natal, de autores portugueses, de onde extraímos vários exemplares para postagem neste blog, já lá se vão dois anos.

Os poemas de Salvado costumam ter espacejamentos maiores entre algumas palavras, dando a impressão, imagina-se, de que a pausa que o leitor deve conceder na leitura dos versos que os contêm há de ser um pouco mais prolongada do que a de uma simples vírgula, por exemplo.

Os poemas em apreço fizeram-me lembrar de alguns sonetos e outras composições sobre o mesmo assunto, de autoria do mineiro Carlos Drummond de Andrade, ora publicados pela Companhia das Letras, sob o título “Declaração de Amor”. Vai aí uma boa pedida para os amantes da ‘ars poetica’.

J.A.R. – H.C.

António Salvado
(n. 1936)

O beijo, em Rodin
(SALVADO, 1999, p. 17)
(Em “Estórias na Arte”; 1ª ed. 1995)

Entrelaçados   convulsivamente
no penetrante palpitante   agudo
enlace de seus lábios insistentes
premidos a ferir em sombra   luz,

elevam-se no ritmo do desejo
(as cabeças pungentes e pendidas)
como se em breve a floração da vida
roçasse o véu da morte à vida preso,

entretecidos   como se depois
já nada mais houvesse a descobrir,
trepam na derradeira despedida
a sensação de ainda serem dois:

e sobem   cingem, líquidos, vertigens
do momento supremo do destino,
as duas bocas – uma – perseguindo
cativas o segredo das origens.

O Beijo
(Rodin: 1840-1917)

Imoderada é a paixão à vida
(SALVADO, 1999, p. 107)
(Em “Castalia”; 1ª ed. 1997)

Imoderada é a paixão à vida:
lábios colados em furor, amantes –
um penetrando o coração do outro

sem tréguas a sorverem seduzidos
a própria carne   como se o instante
fosse no tempo os últimos arroubos:

e o cansaço em abraço agita o mar
ainda mais encapelado: corpos
que não temem indícios de naufrágio,

desenfreados   renegando a morte
sabem que ao longe a torre do farol
há-de aludir o rumo de seus passos.

Referência:

SALVADO, António. Obra III. Coimbra, PT: A Mar Arte, 1999.
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