Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Gavin Ewart - A Caixa Preta

Neste irônico poema, Ewart, poeta inglês, joga com a ideia do legado literário e a sua interpretação póstuma, sugerindo que a verdade sobre a sua obra somente se revelará após sua morte, uma vez que escondida e enterrada, em seu melhor, numa caixa preta – como no caso das aeronaves, para saber-lhes o que sucedeu enquanto em pleno voo.

 

Por trás da opção de manter oculto o que há de mais valioso em sua poesia, para então somente vir à luz depois que houver partido, melhor seria dizer, depois de cinquenta anos após o seu óbito, há a percepção do poeta de que a geração de críticos que lhe é contemporânea já terá desaparecido, quando então o conjunto total de sua obra poderá ser catalogada e julgada pelos novos críticos, a partir de outras abordagens ou miradas.

 

Sobre a “valiosa lição” que Ewart pretende ensinar, há muito de ambiguidade sobre o que exatamente se trata, embora me pareça que o autor tenha por alvo a natureza amiúde especulativa e limitada da crítica literária, cujos juízos são, por conseguinte, provisionais, podendo ser facilmente contornados por uma jogada de mestre a partir da tumba – quiçá mais consequente para oferecer contornos definitivos à imagem do poeta. Afinal, penso eu, os críticos tendem a ser mais condescendentes quando já falecido o artista.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gavin Ewart

(1916-1995)

 

The Black Box

 

As well as these poor poems

I am writing some wonderful ones.

They are all being filed separately,

nobody sees them.

 

When I die they will be buried

in a big black tin box.

In fifty years’ time

they must be dug up,

 

for so my will provides.

This is to confound the critics

and teach everybody

a valuable lesson.

 

Poema enterrado

(Ron Meeks: artista norte-americano)

 

A Caixa Preta

 

Além destes poemas medíocres,

estou escrevendo outros maravilhosos,

os quais estão sendo arquivados em separado,

para que ninguém os veja.

 

Quando eu morrer, serão enterrados

em uma grande caixa latonada preta.

Depois de cinquenta anos,

deverão ser desenterrados,

 

tal e como o estipula o meu testamento.

Isto é para confundir os críticos

e ensinar a todos

uma valiosa lição.

 

Referência:

 

EWART, Gavin. The black box. In: WASHINGTON, Peter (Sel. & Ed.). Comic poems. New York, NY: Alfred A. Knopf, 2001. p. 180. (Everyman’s Library Pockets Poets)

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