Preliminarmente,
cumpre reportar o fato de que Raymond Chandler, escritor anglo-americano, redigiu
o infratranscrito poema, ainda a experimentar a dor fresca da perda, em
homenagem à sua falecida esposa, Cissy Pascal Chandler, com que conviveu por
quase três décadas.
Trata-se, por
conseguinte, de uma elegia de Chandler à amada companheira que se foi, a que se
conjugam reflexões sobre a própria capacidade de sentir, tendente inevitavelmente
a erodir-se pela passagem do tempo, sob cujos efeitos o autor se projeta no
futuro como um estranho para as suas próprias recordações.
Deveras, a memória,
ainda que persista em forma de cartas, ter-se-á desvanecido para sempre em seu
poder de suscitar as mesmas emoções que uma vez o narrador terá sentido no gozo
de um devotado amor, como se uma borboleta efêmera fosse, destinada a perder-se
na consciência de quem o busca reviver.
J.A.R. – H.C.
Raymond Chandler
(1888-1959)
Requiem
There is a moment
after death when the face is beautiful
When the soft tired
eyes are closed and the pain is over,
And the long, long
innocence of love comes gently in
Tor a moment more in
quiet to hover.
There is a moment
after death, yet hardly a moment
When the bright
clothes hang in the scented closet
And the lost dream
fades and slowly fades,
When the silver bottles
and the glass, and the empty mirror,
And the three long
hairs in a brush and a folded kerchief,
And the fresh made
bed and the fresh, plump pillows
On which no head will
lie
Are all that is left
of the long wild dream.
But there are always
the letters.
I hold them in my
hand, tied with green ribbon
Neatly and firmly by
the soft, strong fingers of love.
The letters will not
die.
They will wait and
wait for the stranger to come and read them.
He will come slowly
out of the mists of time and change,
He will come slowly,
diffidently, down the years,
He will cut the
ribbon and spread the letters apart,
And carefully,
carefully read them page by page.
And the long, long
innocence of love will come softly in
Like a butterfly
through an open window in summer,
For a moment more in
quiet to hover.
But the stranger will
never know. The dream will be over.
The stranger will be
I.
Imagem sem créditos
Poema para Cissy
Há um momento após a
morte em que o rosto se torna belo
e os suaves olhos
fatigados se fecham; em que a dor acabou
e a antiga, antiga
inocência do amor gentilmente retorna
e fica por perto apenas
por mais um instante.
Há um momento após a
morte (que sequer é um momento)
em que as coloridas
roupas penduradas no armário perfumado
e o sonho perdido
fenecem lentamente;
em que os vidros e o
copo de prata e o espelho vazio
e os três compridos
fios de cabelo na escova e o lenço dobrado
e a cama refeita com
seus gordos travesseiros
(onde nenhuma cabeça se
pousará)
é tudo que restou de
um grande sonho selvagem.
Mas existem sempre as
cartas.
Eu as seguro nas
mãos, amarradas numa fita verde,
com firme pureza
entre os suaves e fortes dedos do amor.
As cartas não
morrerão,
esperando pelo
estranho que virá lê-las.
Virá lentamente,
emergindo da névoa do tempo e da mudança,
virá lentamente,
desafiador, pelo correr dos anos
cortará a fita e as
espalhará a sua volta
e cuidadosamente as
lerá página por página.
E a antiga inocência
do amor voltará, virá lentamente,
suave como uma
borboleta por uma janela aberta no verão,
só por mais um
momento, em silêncio, para estar perto,
mas o estranho nunca
saberá. O sonho acabou.
O estranho sou eu.
Folhetim, 02.02.86
Referências:
Em Inglês
CHANDLER, Raymond.
Requiem. In: MacSHANE, Frank. The
life of Raymond Chandler. 1st ed. New York, NY: E. P. Dutton, 1976. p.
229-230.
Em Português
CHANDLER, Raymond.
Poema para Cissy. Tradução de Newton Goldman. In: SUZUKI JR., Matinas; ASCHER,
Nelson (Orgs.). Folhetim: poemas traduzidos. Vários tradutores. São
Paulo, SP: Folha de São Paulo, 1987. p. 49-50.
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