Com um título a
evocar um lago formado na cratera de um vulcão – uma beleza nascida de uma
explosão cataclísmica, imersa na calma consecutiva à destruição –, este poema
de Glück propõe-nos questionar os fundamentos de nossa cosmovisão espiritual,
apontando o elemento maior da fragilidade humana – a nossa forma de amar,
condicionada pelo medo que nos é incutido pelo mesmo corpo que nos permite
experimentá-lo.
De fato, Glück está nos
revelando como as categorias e os construtos morais que impomos às coisas modelam
a nossa percepção tanto da vida, quanto da morte e do amor: a poetisa nos deixa
à borda da sobredita cratera, para contemplarmos as águas tranquilas de uma
consciência a colocar em xeque os dogmas mais arraigados, tornando-nos
propensos a reconhecer que temos estado a combater o espectro errado durante
todo o tempo.
J.A.R. – H.C.
(1943-2023)
Crater Lake
There was a war
between good and evil.
We decided to call
the body good.
That made death evil.
It turned the soul
against death
completely.
Like a foot soldier
wanting
to serve a great
warrior, the soul
wanted to side with
the body.
It turned against the
dark,
against the forms of
death
it recognized.
Where does the voice
come from
that says suppose the
war
is evil, that says
suppose the body did
this to us,
made us afraid of
love –
In: “Averno” (2006)
Lago na Cratera
(Thomas Kinkade: pintor norte-americano)
Lago na Cratera
Houve uma guerra
entre o bem e o mal.
Decidimos chamar o
corpo de bem.
E assim à morte coube
o mal.
Isso fez a alma
virar-se de vez
contra a morte.
Como um soldado raso
querendo
servir a um grande
guerreiro, a alma
dispôs-se a cerrar fileiras
com o corpo.
Virou-se contra a
escuridão,
contra as formas de
morte
que lhe eram
reconhecíveis.
De onde vem a voz
que nos diz: e se a guerra
fosse o mal? Que nos diz:
e se fosse o corpo
que nos fez isso,
tornou-nos receosos
do amor?
Em: “Averno” (2006)
Referência:
GLÜCK, Louise. Crater
lake. In: __________. Poems: 1962-2012. 1st ed. New York, NY: Farrar,
Strauss and Giroux, 2012. p. 513.
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