O olhar poético de
Adélia permite-lhe celebrar a persistência da beleza no fluxo ininterrupto da
vida, indo ao encontro do sagrado nas coisas mais ordinárias, mercê de uma
aptidão para apreender de um modo amalgamado o espiritual e o corporal – inclusive
quando está a preparar um simples café ou se põe a contemplar a neblina
matutina.
O poema, em si, transmite
ao leitor uma sensação de paz e de gratidão, mormente pelo divino se manifestar
na preservação do quotidiano, meio primevo onde paira a essência mesma da
poesia, não limitada, por conseguinte, à simples culminação de um objeto
tangível – como um livro –, pois que se trata da contrapartida de um estado d’alma,
de um dom que não se esgota, de uma forma de perceber o mundo com assombro, de um
fluxo contínuo a transformar e transfigurar o espaço físico, dotando-o de mistério
e profundidade.
J.A.R. – H.C.
Adélia Prado
(n. 1935)
Fluência
Eu fiz um livro, mas
oh, meu Deus,
não perdi a poesia.
Hoje depois da festa,
quando me levantei
para fazer café,
uma densa neblina acinzentava
os pastos,
as casas, as pessoas
com embrulho de pão.
O fio indesmanchável
da vida tecia seu curso.
Persistindo, a
necessidade dos relógios,
dos
descongestionantes nasais.
Meu livro sobre a
mesa contraponteava exato
com os pardais, os
urinóis pela metade,
o antigo e intenso
desejar de um verso.
O relógio bateu sem
assustar os farelos sobre a mesa.
Como antes, graças a
Deus.
Em: “O coração
disparado” (1978)
Fluência
(Alexandra Miller: artista
norte-americana)
Referência:
PRADO, Adélia. Fluência. In: __________. Reunião de poesias: 150 poemas selecionados. Prefácio de Adilson Citelli. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2014. p. 124.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário