Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

Adélia Prado - Fluência

O olhar poético de Adélia permite-lhe celebrar a persistência da beleza no fluxo ininterrupto da vida, indo ao encontro do sagrado nas coisas mais ordinárias, mercê de uma aptidão para apreender de um modo amalgamado o espiritual e o corporal – inclusive quando está a preparar um simples café ou se põe a contemplar a neblina matutina.

 

O poema, em si, transmite ao leitor uma sensação de paz e de gratidão, mormente pelo divino se manifestar na preservação do quotidiano, meio primevo onde paira a essência mesma da poesia, não limitada, por conseguinte, à simples culminação de um objeto tangível – como um livro –, pois que se trata da contrapartida de um estado d’alma, de um dom que não se esgota, de uma forma de perceber o mundo com assombro, de um fluxo contínuo a transformar e transfigurar o espaço físico, dotando-o de mistério e profundidade.

 

J.A.R. – H.C.

 

Adélia Prado

(n. 1935)

 

Fluência

 

Eu fiz um livro, mas oh, meu Deus,

não perdi a poesia.

Hoje depois da festa,

quando me levantei para fazer café,

uma densa neblina acinzentava os pastos,

as casas, as pessoas com embrulho de pão.

O fio indesmanchável da vida tecia seu curso.

Persistindo, a necessidade dos relógios,

dos descongestionantes nasais.

Meu livro sobre a mesa contraponteava exato

com os pardais, os urinóis pela metade,

o antigo e intenso desejar de um verso.

O relógio bateu sem assustar os farelos sobre a mesa.

Como antes, graças a Deus.

 

Em: “O coração disparado” (1978)

 

Fluência

(Alexandra Miller: artista norte-americana)

 

Referência:

 

PRADO, Adélia. Fluência. In: __________. Reunião de poesias: 150 poemas selecionados. Prefácio de Adilson Citelli. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: BestBolso, 2014. p. 124.

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