Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Denise Levertov - O Gato como Gato

Este poema vai bem além do que falar de um gato no colo de sua dona, pois que tenciona levantar a tese de que o felino, mais que um símbolo de independência ou mistério, simplesmente é um gato – e esse ser se mostra suficiente em sua condição de ser o outro, em sua inabarcável integridade e autonomia.

 

Explico-me melhor: o tema à volta do qual são os versos suscitados diz respeito à essência do real e aos limites da linguagem humana para capturá-la. Para tanto, a poetisa emprega duas metáforas contrapostas para caracterizar o bichano, uma de natureza estética – “crisântemo de pétalas peludas” –, outra mais especificamente instintiva e mortal – “algoz de esquilos”.

 

Mas tenha-se em mente que Levertov questiona esse recurso à metáfora – ferramenta fundamental do poeta! –, pois que lhe parece ser uma espécie de filtro que nos separa da realidade imediata: o olhar de um gato é um umbral fechado que não nos devolve uma imagem de nós mesmos, como se parelha ao nosso cogitar romântico, a vislumbrar a alma nos olhos de um animal.

 

Ao final, deliberadamente ou não, a poetisa lança mão de um termo que se tornou título de uma das obras mais referenciadas do pensador austro-israelense Martin Buber (1878-1965) – “Eu e Tu”, de 1923 –, mediante o qual personaliza o felino como um “Tu” completo, um ser com o qual se encontra num plano de igualdade ontológica, não como um “Isso”, numa relação de uso, experiência ou objetificação – a exemplo de quando “forçamos” o gato a ser uma metáfora, para nosso deleite poético ou intelectual.

 

J.A.R. – H.C.

 

Denise Levertov

(1923-1997)

 

The Cat as Cat

 

The cat on my bosom

sleeping and purring

– fur-petalled chrysanthemum,

squirrel-killer –

 

is a metaphor only if I

force him to be one,

looking too long in his pale, fond,

dilating, contracting eyes

 

that reject, mirrors, refuse

to observe what bides

stockstill.

 Likewise

 

flex and reflex of claws

gently pricking through sweater to skin

gently sustain their own tune,

not mine. I-Thou, cat, I-Thou.

 

O Gato Branco

(Franz Marc: pintor alemão)

 

O Gato como Gato

 

O gato em meu colo,

adormecido e ronronante

– crisântemo de pétalas peludas,

algoz de esquilos –

 

só é uma metáfora se eu

o forçar a sê-lo,

fitando por muito tempo os seus olhos

pálidos, afetuosos, que se dilatam e se contraem,

 

que rejeitam, espelham, recusam-se

a observar o que permanece

imóvel.

Do mesmo modo,

 

o fletir e o retrair das garras,

que delicadamente perfuram o suéter até a pele,

sustentam o passo leve de sua própria melodia,

não a minha. Eu-Tu, gato, Eu-Tu.

 

Referência:

 

LEVERTOV, Denise. The cat as cat. In: __________. The life around us: selected poems on nature. 2nd print. New York, NY: New Directions, 1997. p. 4.

ö

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