Nesta única oitava de
versos decassílabos, Bueno retrata a angústia do homem contemporâneo, que se
percebe como um puzzle incompleto sem a imagem de referência, circunstância que
o faz lançar perguntas ao vazio sobre a nossa origem e propósito, bem assim
sobre a possibilidade de que um ser, uma “mão” externa ou um princípio unificador
com a visão do todo possa reintegrar nossos pedaços e revelar, por fim, a
imagem oculta e perfeita que estamos destinados a formar.
Como se vê, tais
perguntas podem ser interpretadas em um sentido religioso – Deus, um demiurgo –,
artístico – o poeta ou o artista que dá forma ao caos – ou simplesmente metafísico
– uma força do universo que impõe ordem –, muito embora, qualquer que seja a orientação,
carregam elas – as perguntas, claro está – a esperança de que exista uma
inteligência ou uma vontade capaz de devolver-nos à integridade, à plenitude de
corpo, alma e espírito.
J.A.R. – H.C.
Alexei Bueno
(n. 1963)
Cacos
Fragmentos, sim,
fragmentos, mas de quê?
Que formaremos
juntos, nós, pedaços?
Que imagem, qual
visão que não se vê
Nascerá da união dos
nossos traços?
Nós, cacos, nós,
partidos, nós, a falta
Do resto, da
espantosa explicação,
No que daremos, fim
que aos olhos salta,
E quem nos juntará?
Qual ser? Qual mão?
14-10-1998
Um homem estilhaçado
(Vanja Kovač: artista
croata)
Referência:
BUENO, Alexei. Cacos.
In: __________. Em sonho. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1999. p. 25.
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário