Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Alexei Bueno - Cacos

Nesta única oitava de versos decassílabos, Bueno retrata a angústia do homem contemporâneo, que se percebe como um puzzle incompleto sem a imagem de referência, circunstância que o faz lançar perguntas ao vazio sobre a nossa origem e propósito, bem assim sobre a possibilidade de que um ser, uma “mão” externa ou um princípio unificador com a visão do todo possa reintegrar nossos pedaços e revelar, por fim, a imagem oculta e perfeita que estamos destinados a formar.

 

Como se vê, tais perguntas podem ser interpretadas em um sentido religioso – Deus, um demiurgo –, artístico – o poeta ou o artista que dá forma ao caos – ou simplesmente metafísico – uma força do universo que impõe ordem –, muito embora, qualquer que seja a orientação, carregam elas – as perguntas, claro está – a esperança de que exista uma inteligência ou uma vontade capaz de devolver-nos à integridade, à plenitude de corpo, alma e espírito.

 

J.A.R. – H.C.

 

Alexei Bueno

(n. 1963)

 

Cacos

 

Fragmentos, sim, fragmentos, mas de quê?

Que formaremos juntos, nós, pedaços?

Que imagem, qual visão que não se vê

Nascerá da união dos nossos traços?

Nós, cacos, nós, partidos, nós, a falta

Do resto, da espantosa explicação,

No que daremos, fim que aos olhos salta,

E quem nos juntará? Qual ser? Qual mão?

 

14-10-1998

 

Um homem estilhaçado

(Vanja Kovač: artista croata)

 

Referência:

 

BUENO, Alexei. Cacos. In: __________. Em sonho. Rio de Janeiro, RJ: Record, 1999. p. 25.

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