O poeta armênio,
nesta écfrase, entoa uma ode ao próprio ato criativo, no caso, diante de uma obra
dentre as milhares com motivos marinhos produzidas pelo pintor russo – de
origem armênia – Ivan K. Ayvazovsky (1817-1900): Tumanian elogia-lhe a técnica
para apreender a beleza da força indômita do mar, deixando-a suspensa para sempre
na tela, permitindo aos simples mortais a contemplação mais detalhada desse
sublime portento, sem que a ele se exponham sob riscos.
Tal é exatamente a
essência do poema, vale dizer, a capacidade de a arte roubar um momento à caótica
fúria da natureza, domando-o e imortalizando-o mediante a autoridade do talento
de um gênio, da valência de suas concepções figurativas e plásticas, do
implemento de uma prática alquímica que transmuta essa desordenada e frenética
energia em uma nova e perene realidade estética.
J.A.R. – H.C.
Hovhannes Tumanian
(1869-1923)
Այվազովսկու նկարի առջեւ
Ելած՝ օվկիանի անզուսպ
ալիքներ,
Ծանըր հորձանքով
զարկելով դեպ վեր,
Լեռնանում էին, գոռալով
ահեղ,
Եվ մըրրիկն ուժգին
շընչում էր այնտեղ
Անեզր ու անվերջ
Տարածության մեջ։
“Կանգնեցե՛ք”, գոչեց,
վըրձինը ձեռքին,
Կախարդ ծերունին
հուզված տարերքին․
Եվ լուռ, հընազանդ
հանճարի ձայնին,
Մութ ալիքները,
փոթորկի ժամին,
Կըտավի վըրա
Կանգնած են ահա։
Entre as ondas
(Ivan K. Ayvazovsky: pintor
russo)
Em frente à pintura
de Ayvazovsky
As indomáveis ondas
do alto mar,
com volumosos
redemoinhos, colidindo contra o céu,
se erguiam como
montanhas, rugindo terrivelmente,
e a violenta
tempestade com suas rajadas de vento
perdurava incessante
e infinitamente
na imensidão do mar.
– “Parem!” – bradou,
pincel à mão,
o velho bruxo para a
agitada composição,
e caladas, obedientes
à voz do gênio,
as ondas escuras, em
meio a tempestade,
sobre a tela,
eis que se detiveram.
Referência:
TUMANIAN, Hovhannes. Այվազովսկու նկարի առջեւ / Em frente à pintura de Ayvazovsky. Tradução de Deize Crespim Pereira. In: PEREIRA, Deize Crespim (Org.). Poesia armênia moderna e contemporânea [recurso eletrônico]. Prefácio de Lusine Yeghiazaryan. São Paulo, SP: FFLCH/USP, 2020. Em armênio: p. 115; em português: p. 116.
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