Neste poema, que é um
minucioso estudo de um momento de intensa vulnerabilidade humana – a espera de
um diagnóstico médico –, Szymborska fala-nos do frágil ritual que rodeia a
eventual presença de alguma enfermidade, empregando as ações de vestir-se e desvestir-se
como metáfora central para o ensejo de expor-se ao juízo da ciência, bem assim
para o receio ou o temor de algo nada favorável e o subsequente alívio, no caso
de males facilmente superáveis ou não factuais.
Tornar a colocar-se a
roupa é um trâmite de reintegração, uma espécie de ritual sagrado de recomposição,
como se estivéssemos retornando à vida, já agora com novas luzes sobre os
objetos quotidianos, transformados radicalmente em símbolos de um futuro
recuperado, de dias que nos são prometidos para que celebremos o milagre da
continuidade, das coisas que, triviais que sejam, passam a ter um prazo de
validade, de repente, prolongado.
J.A.R. – H.C.
Wisława Szymborska
(1923-2012)
Zdejmujesz,
zdejmujemy, zdejmujecie
płaszcze, żakiety, marynarki,
bluzki
z wełny, bawełny,
elanobawełny,
spódnice, spodnie, skarpetki,
bieliznę,
kładąc, wieszając, przerzucając przez
oparcia krzeseł,
skrzydła parawanów;
na razie, mówi
lekarz, to nic poważnego,
proszę się ubrać, odpocząć, wyjechać,
zażywać w razie gdyby, przed snem, po jedzeniu,
pokazać się za kwartał, za rok, za półtora;
widzisz, a ty myślałeś, a myśmy się bali,
a wyście przypuszczali, a
on podejrzewał;
czas już wiązać, zapinać drżącymi jeszcze rękami
sznurowadła,
zatrzaski, suwaki, klamerki,
paski, guziki,
krawaty, kołnierze
i wyciągać z rękawów, z torebek, z kieszeni
wymięty, w kropki, w
paski, w kwiatki, w kratkę szalik
o przedłużonej nagle przydatności.
Z: “Ludzie na Moście” (1986)
Antes da injeção
(Norman Rockwell: ilustrador
norte-americano)
Roupas
Você tira, nós
tiramos, eles tiram
casacos, jaquetas,
paletós, blusas
de lã, de algodão, de
cotton lycra,
saias, calças, meias,
lingerie,
juntando, pendurando,
jogando
nos encostos das
cadeiras, nos painéis dos biombos;
por ora, diz o
médico, não é nada grave,
pode se vestir,
descansar, fazer uma viagem,
tome no caso de,
antes de dormir, depois de comer,
volte daqui a três
meses, um ano, um ano e meio;
veja só, e você
pensou, e nós temíamos,
e vocês supuseram, e
ele suspeitou;
é hora de atar,
fechar com mãos ainda trêmulas
cadarços, velcros,
zíperes, fivelas,
cintos, botões,
gravatas, colarinhos
e tirar das mangas,
bolsas, bolsos
um xale amarrotado de
bolinhas, listras, flores, xadrez
de validade de
repente prolongada.
Em: “Gente na Ponte”
(1986)
Referência:
SZYMBORSKA, Wisława. Odzież / Roupas. Tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. In:
__________. Para o meu coração num domingo. Seleção, tradução e prefácio
de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das
Letras, 2020. Em polonês: p. 174; em português: p. 175.
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