Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Wisława Szymborska - Roupas

Neste poema, que é um minucioso estudo de um momento de intensa vulnerabilidade humana – a espera de um diagnóstico médico –, Szymborska fala-nos do frágil ritual que rodeia a eventual presença de alguma enfermidade, empregando as ações de vestir-se e desvestir-se como metáfora central para o ensejo de expor-se ao juízo da ciência, bem assim para o receio ou o temor de algo nada favorável e o subsequente alívio, no caso de males facilmente superáveis ou não factuais.

 

Tornar a colocar-se a roupa é um trâmite de reintegração, uma espécie de ritual sagrado de recomposição, como se estivéssemos retornando à vida, já agora com novas luzes sobre os objetos quotidianos, transformados radicalmente em símbolos de um futuro recuperado, de dias que nos são prometidos para que celebremos o milagre da continuidade, das coisas que, triviais que sejam, passam a ter um prazo de validade, de repente, prolongado.

 

J.A.R. – H.C.

 

Wisława Szymborska

(1923-2012)

 

Odzież

 

Zdejmujesz, zdejmujemy, zdejmujecie

płaszcze, żakiety, marynarki, bluzki

z wełny, bawełny, elanobawełny,

spódnice, spodnie, skarpetki, bieliznę,

kładąc, wieszając, przerzucając przez

oparcia krzeseł, skrzydła parawanów;

na razie, mówi lekarz, to nic poważnego,

proszę się ubrać, odpocząć, wyjechać,

zażywać w razie gdyby, przed snem, po jedzeniu,

pokazać się za kwartał, za rok, za półtora;

widzisz, a ty myślałeś, a myśmy się bali,

a wyście przypuszczali, a on podejrzewał;

czas już wiązać, zapinać drżącymi jeszcze rękami

sznurowadła, zatrzaski, suwaki, klamerki,

paski, guziki, krawaty, kołnierze

i wyciągać z rękawów, z torebek, z kieszeni

wymięty, w kropki, w paski, w kwiatki, w kratkę szalik

o przedłużonej nagle przydatności.

 

Z: “Ludzie na Moście” (1986)

 

Antes da injeção

(Norman Rockwell: ilustrador norte-americano)

 

Roupas

 

Você tira, nós tiramos, eles tiram

casacos, jaquetas, paletós, blusas

de lã, de algodão, de cotton lycra,

saias, calças, meias, lingerie,

juntando, pendurando, jogando

nos encostos das cadeiras, nos painéis dos biombos;

por ora, diz o médico, não é nada grave,

pode se vestir, descansar, fazer uma viagem,

tome no caso de, antes de dormir, depois de comer,

volte daqui a três meses, um ano, um ano e meio;

veja só, e você pensou, e nós temíamos,

e vocês supuseram, e ele suspeitou;

é hora de atar, fechar com mãos ainda trêmulas

cadarços, velcros, zíperes, fivelas,

cintos, botões, gravatas, colarinhos

e tirar das mangas, bolsas, bolsos

um xale amarrotado de bolinhas, listras, flores, xadrez

de validade de repente prolongada.

 

Em: “Gente na Ponte” (1986)

 

Referência:

 

SZYMBORSKA, Wisława. Odzież / Roupas. Tradução de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. In: __________. Para o meu coração num domingo. Seleção, tradução e prefácio de Regina Przybycien e Gabriel Borowski. 1. ed. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2020. Em polonês: p. 174; em português: p. 175.

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