Colasanti se apropria
da reprodução de uma obra de arte num cartão – nomeadamente, da famosa pintura “Jovem
lendo uma carta à janela”, que se encontra atualmente na Pinacoteca dos Mestres
Antigos, de Dresden (DE) –, para, de pronto, apreciar tal epístola, cuja
mensagem se desconhece, como uma metáfora da comunicação silenciosa entre a
arte o espectador, uma mensagem simples que se transmite através da luz, da
forma e da contemplação.
Com efeito, a
repetição anafórica de “a mulher lê uma carta” cria um efeito de espelho: a
figura pintada, o cartão comprado, a memória do museu e a própria leitura do
poema se fundem, sugerindo que toda contemplação é uma reescrita silenciosa.
A sala que escurece à
noite destaca ainda mais essa luz quase sagrada que “transborda”, uma luz que
parece escrever sua própria mensagem, fazendo da carta um símbolo do que jamais
é dito, mas apenas sentido – como a própria arte, que se comunica sem palavras,
através daquilo que perenemente resplende.
J.A.R. – H.C.
Marina Colasanti
(1937-2025)
Clara luz de Vermeer
Sobre a minha mesa
interminavelmente
a mulher lê uma
carta.
A mulher lê uma carta
no quadro de Vermeer
a mulher lê uma carta
no cartão que comprei
do quadro de Vermeer.
No museu
naquela sala em
Dresden
onde a encontrei
pendente
a mulher lê uma carta
a mulher lê a carta
lida por Vermeer.
Naquela sala que
escurece à noite
que o vigia escurece
à noite
com um toque no
interruptor
naquela sala a que o
vigia traz noite
toda noite
na exata hora do
fechamento
naquela sala escura
como caixa com tampa
a luz transborda
sobre a mulher de
Vermeer
a clara luz clara
água dos quadros de Vermeer
jorra se lança flui
sobre a mulher que lê
frente à janela
molda o fino perfil
os leves cachos
e escreve
sem palavras
a mensagem da carta
entre suas mãos.
Jovem lendo uma carta
à janela
(Johannes Vermeer: pintor
holandês)
Referência:
COLASANTI, Marina. Clara
luz de Vermeer. In: __________. Gargantas abertas. Rio de Janeiro, RJ:
Rocco, abr. 1998. p. 48.
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