Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

domingo, 18 de outubro de 2026

Marina Colasanti - Clara luz de Vermeer

Colasanti se apropria da reprodução de uma obra de arte num cartão – nomeadamente, da famosa pintura “Jovem lendo uma carta à janela”, que se encontra atualmente na Pinacoteca dos Mestres Antigos, de Dresden (DE) –, para, de pronto, apreciar tal epístola, cuja mensagem se desconhece, como uma metáfora da comunicação silenciosa entre a arte o espectador, uma mensagem simples que se transmite através da luz, da forma e da contemplação.

 

Com efeito, a repetição anafórica de “a mulher lê uma carta” cria um efeito de espelho: a figura pintada, o cartão comprado, a memória do museu e a própria leitura do poema se fundem, sugerindo que toda contemplação é uma reescrita silenciosa.

 

A sala que escurece à noite destaca ainda mais essa luz quase sagrada que “transborda”, uma luz que parece escrever sua própria mensagem, fazendo da carta um símbolo do que jamais é dito, mas apenas sentido – como a própria arte, que se comunica sem palavras, através daquilo que perenemente resplende.

 

J.A.R. – H.C.

 

Marina Colasanti

(1937-2025)

 

Clara luz de Vermeer

 

Sobre a minha mesa

interminavelmente

a mulher lê uma carta.

A mulher lê uma carta

no quadro de Vermeer

a mulher lê uma carta

no cartão que comprei

do quadro de Vermeer.

No museu

naquela sala em Dresden

onde a encontrei

pendente

a mulher lê uma carta

a mulher lê a carta lida por Vermeer.

Naquela sala que escurece à noite

que o vigia escurece à noite

com um toque no interruptor

naquela sala a que o vigia traz noite

toda noite

na exata hora do fechamento

naquela sala escura como caixa com tampa

a luz transborda

sobre a mulher de Vermeer

a clara luz clara água dos quadros de Vermeer

jorra se lança flui

sobre a mulher que lê frente à janela

molda o fino perfil

os leves cachos

e escreve

sem palavras

a mensagem da carta

entre suas mãos.

 

Jovem lendo uma carta à janela

(Johannes Vermeer: pintor holandês)

 

Referência:

 

COLASANTI, Marina. Clara luz de Vermeer. In: __________. Gargantas abertas. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, abr. 1998. p. 48.

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