Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 10 de outubro de 2026

Paulo Mendes Campos - Poema didático

A didática que se depreende deste poema de Campos consiste em dar volta à crise íntima, ao desespero e à angústia suscitadas pelas “armações metálicas do mundo”, mediante o giro do olhar em direção àqueles que nos são semelhantes, indo ao encontro de um compromisso social e político que seja afim à luta quotidiana por uma conjuntura mais justa.

 

A vida é um gesto concreto e a injustiça social conforma uma realidade prática que deve ser combatida: não o “teorema do egoísmo” que rege as relações humanas, mas a ética da solidariedade em meio à luta coletiva; não a individualidade alienada em seus uivos “metafísicos”, mas a dignidade humana restaurada por uma aritmética da redenção, multiplicadora da esperança por um mundo mais igualitário, ainda que ao custo de mais dor.

 

J.A.R. – H.C.

 

Paulo Mendes Campos

(1922-1991)

 

Poema didático

 

Não vou sofrer mais sobre as armações metálicas do mundo

Como o fiz outrora, quando ainda me perturbava a rosa.

Minhas rugas são prantos da véspera, caminhos esquecidos,

Minha imaginação apodreceu sobre os lodos do Orco.

No alto, à vista de todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,

Clown de meus próprios fantasmas, sonhei-me,

Morto do meu próprio pensamento, destruí-me,

Pausa repentina, vocação de mentira, dispersei-me.

Quem sofreria agora sobre as armações metálicas do mundo,

Como o fiz outrora, espreitando a grande cruz sombria

Que se deita sobre a cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,

E do outro lado da tarde o mundo enigmático dos quintais.

Quem, como eu outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,

Vazio de naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio

E montes cujas vertentes descem infalíveis ao porto de mar?

 

Meu instante agora é uma supressão de saudades. Instante

Parado e opaco. Difícil se me vai tornando transpor este rio

Que me confundiu outrora. Já deixei de amar os desencontros.

Cansei-me de ser visão: agora sei que sou real em um mundo real.

Então, desprezando o outrora, impedi que a rosa me perturbasse,

E não olhei a ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia –

E não olhei a fábrica – mas o homem que se consumiu na fábrica –

E não olhei mais a estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.

Quem agora estará absorto? Quem agora estará morto?

O mundo, companheiro, decerto não é um desenho

De metafísicas magníficas (como imaginei outrora)

Mas um desencontro de frustrações em combate.

Nele, como causa primeira, existe o corpo do homem

– cabeça, tronco, membros, aspirações a bem-estar ‒

E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.

Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética

Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa

Que se sustentasse sem haste, imaginada, como o fiz outrora.

O mundo nasceu das necessidades. O caos, ou o Senhor,

Não filtraria no escuro um homem inconsequente,

Que apenas palpitasse ao sopro da imaginação. O homem

É um gesto que se faz ou não se faz. Seu absurdo –

Se podemos admiti-lo – não se redime em injustiça.

Doou-nos a terra um fruto. Força é reparti-lo

Entre os filhos da terra. Força – aos que o herdaram –

É fazer esse gesto, disputar esse fruto. Outrora,

Quando ainda me perturbava a flor e não o fruto,

Quando ainda sofria sobre as armações metálicas do mundo,

Acuado como um cão metafísico, eu gania para a eternidade,

Sem compreender que, pelo simples teorema do egoísmo,

A vida enganou a vida, o homem enganou o homem.

Por isso, agora, organizei meu sofrimento ao sofrimento

De todos: se multipliquei a minha dor,

Também multipliquei a minha esperança.

 

Em: “O Domingo Azul do Mar” (1958)

 

Florescendo no caos

(Lora Miller: pintora norte-americana)

 

Referência:

 

CAMPOS, Paulo Mendes. Poema didático. In: __________. Os melhores poemas de Paulo Mendes Campos. Seleção de Guilhermino Cesar. São Paulo, SP: Global, 1990. p. 66-67. (Coleção “Os Melhores Poemas”; v. 22)

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