A didática que se
depreende deste poema de Campos consiste em dar volta à crise íntima, ao desespero
e à angústia suscitadas pelas “armações metálicas do mundo”, mediante o giro do
olhar em direção àqueles que nos são semelhantes, indo ao encontro de um
compromisso social e político que seja afim à luta quotidiana por uma conjuntura
mais justa.
A vida é um gesto
concreto e a injustiça social conforma uma realidade prática que deve ser
combatida: não o “teorema do egoísmo” que rege as relações humanas, mas a ética
da solidariedade em meio à luta coletiva; não a individualidade alienada em
seus uivos “metafísicos”, mas a dignidade humana restaurada por uma aritmética
da redenção, multiplicadora da esperança por um mundo mais igualitário, ainda
que ao custo de mais dor.
J.A.R. – H.C.
Paulo Mendes Campos
(1922-1991)
Poema didático
Não vou sofrer mais
sobre as armações metálicas do mundo
Como o fiz outrora,
quando ainda me perturbava a rosa.
Minhas rugas são
prantos da véspera, caminhos esquecidos,
Minha imaginação
apodreceu sobre os lodos do Orco.
No alto, à vista de
todos, onde sem equilíbrio precipitei-me,
Clown de meus
próprios fantasmas, sonhei-me,
Morto do meu próprio
pensamento, destruí-me,
Pausa repentina,
vocação de mentira, dispersei-me.
Quem sofreria agora
sobre as armações metálicas do mundo,
Como o fiz outrora,
espreitando a grande cruz sombria
Que se deita sobre a
cidade, olhando a ferrovia, a fábrica,
E do outro lado da tarde
o mundo enigmático dos quintais.
Quem, como eu
outrora, andaria cheio de uma vontade infeliz,
Vazio de
naturalidade, entre as ruas poentas do subúrbio
E montes cujas
vertentes descem infalíveis ao porto de mar?
Meu instante agora é
uma supressão de saudades. Instante
Parado e opaco.
Difícil se me vai tornando transpor este rio
Que me confundiu
outrora. Já deixei de amar os desencontros.
Cansei-me de ser
visão: agora sei que sou real em um mundo real.
Então, desprezando o
outrora, impedi que a rosa me perturbasse,
E não olhei a
ferrovia – mas o homem que sangrou na ferrovia –
E não olhei a fábrica
– mas o homem que se consumiu na fábrica –
E não olhei mais a
estrela – mas o rosto que refletiu o seu fulgor.
Quem agora estará
absorto? Quem agora estará morto?
O mundo, companheiro,
decerto não é um desenho
De metafísicas
magníficas (como imaginei outrora)
Mas um desencontro de
frustrações em combate.
Nele, como causa
primeira, existe o corpo do homem
– cabeça, tronco,
membros, aspirações a bem-estar ‒
E só depois consolações, jogos e amarguras do espírito.
Não é um vago hálito de inefável ansiedade poética
Ou vaga adivinhação de poderes ocultos, rosa
Que se sustentasse
sem haste, imaginada, como o fiz outrora.
O mundo nasceu das
necessidades. O caos, ou o Senhor,
Não filtraria no
escuro um homem inconsequente,
Que apenas palpitasse
ao sopro da imaginação. O homem
É um gesto que se faz
ou não se faz. Seu absurdo –
Se podemos admiti-lo
– não se redime em injustiça.
Doou-nos a terra um
fruto. Força é reparti-lo
Entre os filhos da
terra. Força – aos que o herdaram –
É fazer esse gesto,
disputar esse fruto. Outrora,
Quando ainda me
perturbava a flor e não o fruto,
Quando ainda sofria
sobre as armações metálicas do mundo,
Acuado como um cão
metafísico, eu gania para a eternidade,
Sem compreender que,
pelo simples teorema do egoísmo,
A vida enganou a
vida, o homem enganou o homem.
Por isso, agora,
organizei meu sofrimento ao sofrimento
De todos: se multipliquei
a minha dor,
Também multipliquei a
minha esperança.
Em: “O Domingo Azul
do Mar” (1958)
Florescendo no caos
(Lora Miller: pintora
norte-americana)
Referência:
CAMPOS, Paulo Mendes. Poema didático. In: __________. Os melhores poemas de Paulo Mendes Campos. Seleção de Guilhermino Cesar. São Paulo, SP: Global, 1990. p. 66-67. (Coleção “Os Melhores Poemas”; v. 22)
❁


Nenhum comentário:
Postar um comentário