Paixão desenha uma
paisagem interior onde o “eu” é um rio cujas águas são todos os rostos que tem
sido – ou que poderia ter sido –, mas que, ao fluir, levam consigo a noção de um
ser unificado, cabendo à poesia, como derradeiro recurso ou refúgio, a tarefa
de capturar, ainda que de modo imperfeito como uma “pegada” ou um “respiro”, os
rastros dessa efêmera multiplicidade.
Ao final, o poema
deixa de resolver o enigma que suscita, fixando-o no leitor com a mesma perplexidade
com que o falante observa o seu próprio rosto no espelho do tempo, uma máscara
de momento à volta da qual irrompem as mesmas indagações: a quem pertence essa
identidade que ora ostenta? É mesmo sua, ou é apenas mais uma “identidade
alugada”?
J.A.R. – H.C.
Fernando Paixão
(n. 1955)
Rio das faces
Tantos que fui
conto a soma de
poucos.
Alguns nunca tiveram
semblante.
Dissiparam-se nas
horas
– nem cinzas fiquei.
Outros devastaram
cidades
e (santa ironia!)
evaporaram em loucura
quase mítica.
Muitos que sou
Ficaram à margem de
ser.
Ao menos tivessem
cicatrizado
seu corte.
Teriam sido passagem
corpo e nome
aluguel de meu
alguém.
Perdi-me entre muitos.
Fico sem mim.
Alguns poemas apenas
sujeitam
pegadas, e eram
respirações...
Foram tantos tão
pouco.
Mesmos em outros.
Que nem desdobrar sei
este agora eu
(de quem?)
fixado contra o
rosto.
Dúvidas em sonhos
míticos
(Katerina Sapozhkova:
artista ucraniana)
Referência:
PAIXÃO, Fernando. Rio
das faces. In: MASSI, Augusto (Org.). Artes e ofícios da poesia. Porto
Alegre, RS: Artes e Ofícios, 1991. p. 152.
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