Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Fernando Paixão - Rio das faces

Paixão desenha uma paisagem interior onde o “eu” é um rio cujas águas são todos os rostos que tem sido – ou que poderia ter sido –, mas que, ao fluir, levam consigo a noção de um ser unificado, cabendo à poesia, como derradeiro recurso ou refúgio, a tarefa de capturar, ainda que de modo imperfeito como uma “pegada” ou um “respiro”, os rastros dessa efêmera multiplicidade.

 

Ao final, o poema deixa de resolver o enigma que suscita, fixando-o no leitor com a mesma perplexidade com que o falante observa o seu próprio rosto no espelho do tempo, uma máscara de momento à volta da qual irrompem as mesmas indagações: a quem pertence essa identidade que ora ostenta? É mesmo sua, ou é apenas mais uma “identidade alugada”?

 

J.A.R. – H.C.

 

Fernando Paixão

(n. 1955)

 

Rio das faces

 

Tantos que fui

conto a soma de poucos.

 

Alguns nunca tiveram semblante.

Dissiparam-se nas horas

– nem cinzas fiquei.

Outros devastaram cidades

e (santa ironia!)

evaporaram em loucura quase mítica.

 

Muitos que sou

Ficaram à margem de ser.

Ao menos tivessem cicatrizado

seu corte.

Teriam sido passagem

corpo e nome

aluguel de meu alguém.

 

Perdi-me entre muitos.

Fico sem mim.

Alguns poemas apenas sujeitam

pegadas, e eram respirações...

Foram tantos tão pouco.

Mesmos em outros.

 

Que nem desdobrar sei

este agora eu

(de quem?)

fixado contra o rosto.

 

Dúvidas em sonhos míticos

(Katerina Sapozhkova: artista ucraniana)

 

Referência:

 

PAIXÃO, Fernando. Rio das faces. In: MASSI, Augusto (Org.). Artes e ofícios da poesia. Porto Alegre, RS: Artes e Ofícios, 1991. p. 152.

❁

Nenhum comentário:

Postar um comentário