O poeta inglês sutilmente
lamenta a impossibilidade de se conciliar o reino perfeito dos ideais – a
beleza mais castiça aí inclusa – com o mundo caótico e cambiante das emoções
humanas, pois que tal reino paira em intocável sublimidade, inacessível e
impessoal, fora do tempo ordinário, incontaminado pela história, pelo amor e
pela perda.
A beleza, sob tal
perspectiva, pode ser contemplada – como contemplamos a lua –, mas não podemos
possuí-la sem que destruamos a sua essência: existe ela em uma dimensão
onírica, como se propriedade do eterno fosse, imune às regras do mundo diurno,
às suas vicissitudes – o que nos leva a recordar as proposições metafísicas platônicas
do mundo das ideias ou das formas, tão antinômico a este nosso mundo sensível,
de aparências, em constante mudança.
J.A.R. – H.C.
W. H. Auden
(1907-1973)
This lunar beauty
This lunar beauty
Has no history
Is complete and
early,
If beauty later
Bear any feature
It had a lover
And is another.
This like a dream
Keeps other time
And daytime is
The loss of this,
For time is inches
And the heart’s
changes
Where ghost has
haunted
Lost and wanted.
But this was never
A ghost's endeavor
Nor finished this,
Was ghost at ease,
And till it pass
Love shall not near
The sweetness here
Nor sorrow take
His endless look.
April 1930
Uma ode grega
(Alfred Elmore:
pintor irlandês)
Lunar, esta beleza
Lunar, esta beleza
É primeva, inteira,
Não tem nenhuma
história.
Se a beleza mais
tarde
Exibe algum traço,
Foi porque teve
amante,
Já não é como antes.
Nisto, qual em sonho,
Vige um outro tempo,
Perdido se o dia
De tudo se apropria.
O tempo são
centímetros
E mudanças de alma
Que espectro
assombrou,
Perdeu e desejou.
Mas isto, por certo,
Não foi coisa de
espectro,
Nem espectro, ela
finda,
Sentiu-se a gosto,
ainda,
E enquanto persista,
Nem se chega amor
A tal doçura e a dor
Tampouco lhe vem dar
Seu infinito olhar.
Abril de 1930
Referência:
AUDEN, W. H. This lunar beauty / Lunar, esta beleza. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção de João Moura Júnior. Tradução e introdução de José Paulo Paes e João Moura Júnior. 1. ed., 1. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1986. Em inglês: p. 34; em português: p. 35.
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