Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sábado, 3 de outubro de 2026

W. H. Auden - Lunar, esta beleza

O poeta inglês sutilmente lamenta a impossibilidade de se conciliar o reino perfeito dos ideais – a beleza mais castiça aí inclusa – com o mundo caótico e cambiante das emoções humanas, pois que tal reino paira em intocável sublimidade, inacessível e impessoal, fora do tempo ordinário, incontaminado pela história, pelo amor e pela perda.

 

A beleza, sob tal perspectiva, pode ser contemplada – como contemplamos a lua –, mas não podemos possuí-la sem que destruamos a sua essência: existe ela em uma dimensão onírica, como se propriedade do eterno fosse, imune às regras do mundo diurno, às suas vicissitudes – o que nos leva a recordar as proposições metafísicas platônicas do mundo das ideias ou das formas, tão antinômico a este nosso mundo sensível, de aparências, em constante mudança.

 

J.A.R. – H.C.

 

W. H. Auden

(1907-1973)

 

This lunar beauty

 

This lunar beauty

Has no history

Is complete and early,

If beauty later

Bear any feature

It had a lover

And is another.

 

This like a dream

Keeps other time

And daytime is

The loss of this,

For time is inches

And the heart’s changes

Where ghost has haunted

Lost and wanted.

 

But this was never

A ghost's endeavor

Nor finished this,

Was ghost at ease,

And till it pass

Love shall not near

The sweetness here

Nor sorrow take

His endless look.

 

April 1930

 

Uma ode grega

(Alfred Elmore: pintor irlandês)

 

Lunar, esta beleza

 

Lunar, esta beleza

É primeva, inteira,

Não tem nenhuma história.

Se a beleza mais tarde

Exibe algum traço,

Foi porque teve amante,

Já não é como antes.

 

Nisto, qual em sonho,

Vige um outro tempo,

Perdido se o dia

De tudo se apropria.

O tempo são centímetros

E mudanças de alma

Que espectro assombrou,

Perdeu e desejou.

 

Mas isto, por certo,

Não foi coisa de espectro,

Nem espectro, ela finda,

Sentiu-se a gosto, ainda,

E enquanto persista,

Nem se chega amor

A tal doçura e a dor

Tampouco lhe vem dar

Seu infinito olhar.

 

Abril de 1930

 

Referência:

 

AUDEN, W. H. This lunar beauty / Lunar, esta beleza. Tradução de José Paulo Paes. In: __________. Poemas. Seleção de João Moura Júnior. Tradução e introdução de José Paulo Paes e João Moura Júnior. 1. ed., 1. reimp. São Paulo, SP: Companhia das Letras, 1986. Em inglês: p. 34; em português: p. 35.

❁

Nenhum comentário:

Postar um comentário