Neste poema com perceptíveis
matizes surrealistas, o autor francês sugere que somente através da confrontação
total com a escuridão – tocando literalmente a “tristeza do mundo” – podemos
aceder a uma compreensão superior, por intermedido da qual, numa experiência
limite, a dor se transfigura no dom da caridade e a morte celebra a infinitude
do ser.
É a poética do sagrado
violento, de transgressões e de excessos, da libertação e do êxtase que nascem
do reconhecimento do horror – tantas vezes explorado por Bataille em seu mundo
do informe e do abjeto –, aqui plasmado na imagística sombria de pântanos e
animais imundos, num estado de degradação que mal espera por revelar um inaudito
flanco luminoso.
J.A.R. – H.C.
Georges Bataille
(1897-1962)
Je rêvais de toucher
la tristesse du monde
Je rêvais de toucher
la tristesse du monde
au bord désenchanté
d’un étrange marais
je rêvais d’une eau
lourde où je retrouverais
les chemins égares de
ta bouche profonde
j’ai senti dans mes
mains un animal immonde
échappé à la nuit
d’une affreuse forêt
et je vis que c’était
le mal dont tu mourais
que j’appelle en
riant la tristesse du monde
une lumière folle un
éclat de tonnerre
un rire libérant ta
longue nudité
une immense splendeur
enfin m’illuminèrent
et je vis ta douleur
comme une charité
rayonnant dans la
nuit la longue forme claire
et le cri de tombeau
de ton infinité.
O pranto do mundo
(Amelia Oleś: artista polonesa)
Eu sonhava em tocar a
tristeza do mundo
Eu sonhava em tocar a
tristeza do mundo
à margem desencantada
de um estranho pântano
eu sonhava com uma
água pesada onde eu encontraria
os caminhos
extraviados de tua boca profunda
senti nas minhas mãos
um animal imundo
fugitivo à noite de
uma floresta terrível
e eu vi que era o mal
do qual morrias
que eu chamo rindo a
tristeza do mundo
uma luz louca um
estrondo de trovão
um riso liberando tua
longa nudez
um esplendor imenso
enfim me iluminaram
e eu vi tua dor como
uma caridade
brilhando na noite a
longa forma clara
e o grito de túmulo
de tua infinitude.
Referência:
BATAILLE, Georges. Je
rêvais de toucher la tristesse du monde / Eu sonhava em tocar a tristeza do
mundo. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: BATAILLE,
Georges. Poemas. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa
Nova. Edição bilíngue: francês x português. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG,
2015. Em francês: p. 274; em português: p. 275. (“Fora de Série”)
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