Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 16 de outubro de 2026

Georges Bataille - Eu sonhava em tocar a tristeza do mundo

Neste poema com perceptíveis matizes surrealistas, o autor francês sugere que somente através da confrontação total com a escuridão – tocando literalmente a “tristeza do mundo” – podemos aceder a uma compreensão superior, por intermedido da qual, numa experiência limite, a dor se transfigura no dom da caridade e a morte celebra a infinitude do ser.

 

É a poética do sagrado violento, de transgressões e de excessos, da libertação e do êxtase que nascem do reconhecimento do horror – tantas vezes explorado por Bataille em seu mundo do informe e do abjeto –, aqui plasmado na imagística sombria de pântanos e animais imundos, num estado de degradação que mal espera por revelar um inaudito flanco luminoso.

 

J.A.R. – H.C.

 

Georges Bataille

(1897-1962)

 

Je rêvais de toucher la tristesse du monde

 

Je rêvais de toucher la tristesse du monde

au bord désenchanté d’un étrange marais

je rêvais d’une eau lourde où je retrouverais

les chemins égares de ta bouche profonde

 

j’ai senti dans mes mains un animal immonde

échappé à la nuit d’une affreuse forêt

et je vis que c’était le mal dont tu mourais

que j’appelle en riant la tristesse du monde

 

une lumière folle un éclat de tonnerre

un rire libérant ta longue nudité

une immense splendeur enfin m’illuminèrent

 

et je vis ta douleur comme une charité

rayonnant dans la nuit la longue forme claire

et le cri de tombeau de ton infinité.

 

O pranto do mundo

(Amelia Oleś: artista polonesa)

 

Eu sonhava em tocar a tristeza do mundo

 

Eu sonhava em tocar a tristeza do mundo

à margem desencantada de um estranho pântano

eu sonhava com uma água pesada onde eu encontraria

os caminhos extraviados de tua boca profunda

 

senti nas minhas mãos um animal imundo

fugitivo à noite de uma floresta terrível

e eu vi que era o mal do qual morrias

que eu chamo rindo a tristeza do mundo

 

uma luz louca um estrondo de trovão

um riso liberando tua longa nudez

um esplendor imenso enfim me iluminaram

 

e eu vi tua dor como uma caridade

brilhando na noite a longa forma clara

e o grito de túmulo de tua infinitude.

 

Referência:

 

BATAILLE, Georges. Je rêvais de toucher la tristesse du monde / Eu sonhava em tocar a tristeza do mundo. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. In: BATAILLE, Georges. Poemas. Tradução de Alexandre Rodrigues da Costa e Vera Casa Nova. Edição bilíngue: francês x português. Belo Horizonte, MG: Editora UFMG, 2015. Em francês: p. 274; em português: p. 275. (“Fora de Série”)

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