Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Gilberto Mendonça Teles - O Sinal

Teles dá-nos conta de sua preocupação com a linguagem e sua capacidade para capturar a realidade, dada a natureza elusiva e algo subjetiva do signo linguístico, a colidir contra a o lado essencialmente neutro ou indiferente das coisas: as palavras, enquanto fenômeno luminoso e em constante mutação, são artefatos concisos que tencionam apreender o tempo, à maneira de um “prego” em suas quinas.

 

Como resultado do processo, tem-se um objeto estático que se pretende permanente, um conversor de algo efêmero em um fundo durável – como o poema –, mas que se mostra incompleto, uma vez que o significado de muitas palavras tende a se alterar no tempo – e aquilo que um poeta fixou na página no século XX pode ser lido de maneira completamente diferente no século XXI –, o que, paradoxalmente, mantém a girar a nora de novos poemas.

 

J.A.R. – H.C.

 

Gilberto Mendonça Teles

(1931-2024)

 

O Sinal

 

Unidas às palavras, as coisas

nos agridem pelo seu lado neutro

e se ocultam sob formas espessas

reunidas no oco da noite.

 

Por impreciso, cada gesto se repete

e se adensa, concreto. Cada sopro

divulga na planície seus volumes

de nada. E cada timbre enuncia

um esmeril no lingote da fala.

 

Ambíguo e transparente, o sinal

emerge da raiz e se crava nos lábios,

conciso: prego nas quinas do tempo

ou refração no verde da piscina

onde a luz se distrai,

porosa e livre.

 

Em: “A raiz da fala” (1972)

 

Nuvens ao Luar

(Knud A. Baade: pintor dinamarquês)

 

Referência:

 

TELES, Gilberto Mendonça. O sinal. In: __________. Hora aberta: poemas reunidos. Edição comemorativa dos trinta anos de poesia. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: José Olympio; Brasília, DF: INL - Instituto Nacional do Livro, 1986. p. 331.

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