Teles dá-nos conta de
sua preocupação com a linguagem e sua capacidade para capturar a realidade,
dada a natureza elusiva e algo subjetiva do signo linguístico, a colidir contra
a o lado essencialmente neutro ou indiferente das coisas: as palavras, enquanto
fenômeno luminoso e em constante mutação, são artefatos concisos que tencionam apreender
o tempo, à maneira de um “prego” em suas quinas.
Como resultado do
processo, tem-se um objeto estático que se pretende permanente, um conversor de
algo efêmero em um fundo durável – como o poema –, mas que se mostra incompleto,
uma vez que o significado de muitas palavras tende a se alterar no tempo – e aquilo
que um poeta fixou na página no século XX pode ser lido de maneira
completamente diferente no século XXI –, o que, paradoxalmente, mantém a girar
a nora de novos poemas.
J.A.R. – H.C.
Gilberto Mendonça
Teles
(1931-2024)
O Sinal
Unidas às palavras,
as coisas
nos agridem pelo seu
lado neutro
e se ocultam sob
formas espessas
reunidas no oco da noite.
Por impreciso, cada
gesto se repete
e se adensa,
concreto. Cada sopro
divulga na planície
seus volumes
de nada. E cada
timbre enuncia
um esmeril no lingote
da fala.
Ambíguo e
transparente, o sinal
emerge da raiz e se
crava nos lábios,
conciso: prego nas
quinas do tempo
ou refração no verde
da piscina
onde a luz se
distrai,
porosa e livre.
Em: “A raiz da fala”
(1972)
Nuvens ao Luar
(Knud A. Baade:
pintor dinamarquês)
Referência:
TELES, Gilberto
Mendonça. O sinal. In: __________. Hora aberta: poemas reunidos. Edição
comemorativa dos trinta anos de poesia. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: José
Olympio; Brasília, DF: INL - Instituto Nacional do Livro, 1986. p. 331.
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