Alpes Literários

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UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Mary Oliver - Papoulas

Oliver associa a natureza vibrante e efêmera das papoulas à experiência humana da vida e da morte, sugerindo que a felicidade pode ser uma forma de santidade, um gozo palpável, quase sagrado, capaz de desafiar a “noite profunda” ou a “escuridão inevitável” – metáforas empregadas pela poetisa norte-americana para representar a certeza da perda e a inevitabilidade da dor e do fim.

 

Tem-se, assim, a ideia de podermos usufruir de uma capacidade de redenção, quando decidimos estar em presença consciente perante o mundo natural, tangendo todos os fios de nossa intrincada rede mental, espiritual e corporal, abraçando o que nela há de contrastante, com o claro objetivo de alcançarmos uma síntese que nos traga consolo e paz diante da complexa tapeçaria da vida.

 

J.A.R. – H.C.

 

Mary Oliver

(1935-2019)

 

Poppies

 

The poppies send up their

orange flares; swaying

in the wind, their congregations

are a levitation

 

of bright dust, of thin

and lacy leaves.

There isn’t a place

in this world that doesn’t

 

sooner or later drown

in the indigos of darkness,

but now, for a while,

the roughage

 

shines like a miracle

as it floats above everything

with its yellow hair.

Of course nothing stops the cold,

 

black, curved blade

from hooking forward –

of course

loss is the great lesson.

 

But also I say this: that light

is an invitation

to happiness,

and that happiness,

 

when it’s done right,

is a kind of holiness,

palpable and redemptive.

Inside the bright fields,

 

touched by their rough and spongy gold,

I am washed and washed

in the river

of earthly delight –

 

and what are you going to do –

what can you do

about it –

deep, blue night?

 

In: “New Poems” (1991-1992)

 

Papoulas vermelhas

(Georgia Mansur: pintora norte-americana)

 

Papoulas

 

As papoulas lançam os seus

fulgores alaranjados; agitadas

pelo vento, suas hostes

são um levitar

 

de pó luzente, de folhas

finas e rendilhadas.

Não há recanto

neste mundo que,

 

cedo ou tarde, não se veja submerso

nos índigos da escuridão,

mas agora, por instantes,

a folhagem

 

resplende como um milagre,

enquanto flutua sobre tudo

com suas fulvas melenas.

Claro, nada impede a lâmina fria,

 

negra e curva

de se projetar para frente –

óbvio

que a perda é a grande lição.

 

Mas também digo isto: que a luz

é um convite

à felicidade,

e que a felicidade,

 

quando realizada em plenitude,

é uma espécie de santidade,

palpável e redentora.

Dentro desses campos luminosos,

 

tocada por seu ouro áspero e esponjoso,

sou lavada e relavada

no rio

do deleite terreno –

 

e o que vais fazer –

o que podes fazer

a respeito –

noite azul e profunda?

 

Em: “Novos Poemas” (1991-1992)

 

Referência:

 

OLIVER, Mary. Poppies. In: __________. New and selected poems. Volume one. Boston, MA: Beacon Press, 1992. p. 39-40.

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