Oliver associa a
natureza vibrante e efêmera das papoulas à experiência humana da vida e da
morte, sugerindo que a felicidade pode ser uma forma de santidade, um gozo palpável,
quase sagrado, capaz de desafiar a “noite profunda” ou a “escuridão inevitável”
– metáforas empregadas pela poetisa norte-americana para representar a certeza
da perda e a inevitabilidade da dor e do fim.
Tem-se, assim, a
ideia de podermos usufruir de uma capacidade de redenção, quando decidimos
estar em presença consciente perante o mundo natural, tangendo todos os fios de
nossa intrincada rede mental, espiritual e corporal, abraçando o que nela há de
contrastante, com o claro objetivo de alcançarmos uma síntese que nos traga
consolo e paz diante da complexa tapeçaria da vida.
J.A.R. – H.C.
Mary Oliver
(1935-2019)
Poppies
The poppies send up
their
orange flares;
swaying
in the wind, their
congregations
are a levitation
of bright dust, of
thin
and lacy leaves.
There isn’t a place
in this world that
doesn’t
sooner or later drown
in the indigos of
darkness,
but now, for a while,
the roughage
shines like a miracle
as it floats above
everything
with its yellow hair.
Of course nothing
stops the cold,
black, curved blade
from hooking forward
–
of course
loss is the great
lesson.
But also I say this:
that light
is an invitation
to happiness,
and that happiness,
when it’s done right,
is a kind of
holiness,
palpable and
redemptive.
Inside the bright fields,
touched by their
rough and spongy gold,
I am washed and
washed
in the river
of earthly delight –
and what are you
going to do –
what can you do
about it –
deep, blue night?
In: “New Poems”
(1991-1992)
Papoulas vermelhas
(Georgia Mansur: pintora
norte-americana)
Papoulas
As papoulas lançam os
seus
fulgores alaranjados;
agitadas
pelo vento, suas hostes
são um levitar
de pó luzente, de
folhas
finas e rendilhadas.
Não há recanto
neste mundo que,
cedo ou tarde, não se
veja submerso
nos índigos da
escuridão,
mas agora, por
instantes,
a folhagem
resplende como um
milagre,
enquanto flutua sobre
tudo
com suas fulvas
melenas.
Claro, nada impede a
lâmina fria,
negra e curva
de se projetar para frente
–
óbvio
que a perda é a
grande lição.
Mas também digo isto:
que a luz
é um convite
à felicidade,
e que a felicidade,
quando realizada em
plenitude,
é uma espécie de
santidade,
palpável e redentora.
Dentro desses campos
luminosos,
tocada por seu ouro
áspero e esponjoso,
sou lavada e relavada
no rio
do deleite terreno –
e o que vais fazer –
o que podes fazer
a respeito –
noite azul e
profunda?
Em: “Novos Poemas”
(1991-1992)
Referência:
OLIVER, Mary.
Poppies. In: __________. New and selected poems. Volume one. Boston, MA:
Beacon Press, 1992. p. 39-40.
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