Merton empurra-nos a um
abismo de honestidade radical, convidando-nos a desconfiar de nossa própria
sinceridade, a abraçar a humildade de saber-nos mentirosos e preparar-nos, a
partir dessa posição de vulnerabilidade e autenticidade, para ir ao encontro de
Deus – cuja realidade não se ajusta aos nossos termos, mas que os transcende
por completo.
Com efeito, sendo a
hipocrisia um vício ou falha inerente ao ego humano, cumpre-nos não projetar em
Deus as nossas noções de justiça ou de inocência, ou de outro modo, abrir mão
de nossas mentiras em prol do silêncio estrondoso da Verdade divina: é somente
quando renunciamos à necessidade de autojustificar-nos e de julgarmos os Seus desígnios
que podemos começar a vislumbrar, ainda que apenas de relance, a pureza incomodatícia
e libertadora de Sua sinceridade.
J.A.R. – H.C.
Thomas Merton
(1915-1968)
Omnis homo mendax (*)
As for the liar, fear him less
Than one who thinks himself sincere,
Who, having deceived himself,
Can deceive you with a good conscience.
One who doubts his own truth
May mistrust another less:
Knowing in his own heart,
That all men are liars
He will be less outraged
When he is deceived by another.
So, too, will he sooner believe
In the sincerity of God.
The sincerity of God! Who never justifies
His actions to men! Who makes no bargains
With any other sincerity, because He knows
There is no other! Who does what He pleases
And never protests His innocence!
Which of us can stand the sincerity of God?
Which of us can bear a Lord
Who is neither guilty nor innocent
(Who cannot be innocent because He cannot be
guilty)?
What has our sincerity to do with His
Whose truth is no approval of our truth
And is not judged by anyone,
Even by Himself?
(Yet if I think myself sincere
I will approve the purity of God
Convinced that my own purity
Is approved by Him.)
So, when the Lord speaks, we go to sleep
Or turn quickly to some more congenial business
Since, as every liar knows,
No man can bear such sincerity.
In: “The Strange
Islands” (1957)
Os Mentirosos
(Salvador Dalí: artista
espanhol)
Sinceridade
Omnis homo mendax
Quanto ao mentiroso,
teme-o menos
Do que aquele que se
considera sincero,
Que, tendo enganado a
si mesmo,
Pode enganar-te com a
consciência tranquila.
Aquele que duvida da
sua própria verdade
Pode desconfiar menos
dos outros:
Sabendo no seu
coração
Que todos os homens
são mentirosos,
Ficará menos
indignado
Quando for enganado
por outro.
Assim, também, mais
depressa crerá
Na sinceridade de
Deus.
A sinceridade de
Deus! Que jamais justifica
As suas ações aos
homens! Que não faz barganhas
Com nenhuma outra
sinceridade, porque sabe
Que outra não há! Que
faz o que Lhe apraz
E jamais protesta a
Sua inocência!
Quem de nós pode
suportar a sinceridade de Deus?
Quem de nós pode
suportar um Senhor
Que não é culpado nem
inocente
(Que não pode ser
inocente porque não pode ser culpado)?
O que a nossa
sinceridade tem a ver com a Dele,
Cuja verdade não é a
aprovação da nossa verdade
E não é julgada por
ninguém,
Nem por Ele mesmo?
(Contudo, se eu me
julgar sincero,
Aprovarei a pureza de
Deus,
Convencido de que
minha própria pureza
É por Ele aprovada.)
Então, quando o
Senhor fala, adormecemos
Ou logo nos dedicamos
a algum assunto mais agradável,
Pois, como bem sabe todo
mentiroso,
Ninguém pode suportar
tamanha sinceridade.
Em: “As Ilhas
Estranhas” (1957)
Nota:
(*). Citação em latim do versículo 11, in fine, do Salmo 116: “Todos
os homens são mentirosos”.
Referência:
MERTON, Thomas.
Sincerity. In: __________. The collected poems of Thomas Merton. 1st
ed., 6th print. New Directions, 1977. p. 285-286.
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