O poeta e dramaturgo
polonês oferece-nos uma crítica mordaz aos regimes opressivos – a exemplo do
nazismo e do estalinismo, que bem os conheceu –, nos quais a ordem é, na
realidade, um silenciamento forçado de qualquer laivo de vitalidade, dando
ensejo a uma quietude antinatural, por ele metaforizada na figura de um elefante
que é coagido a caminhar sem ruído.
Trata-se de uma calma artificial, que faz com que “as árvores se ergam silenciosas, como os cabelos se eriçam diante do espanto”, a desvelar os caracteres de um terror paralisante engendrado por um poder político arbitrário e controlador, cujos propósitos destinam-se a eliminar eventuais traços insopitáveis de individualidade, espontaneidade ou expressões naturais.
J.A.R. – H.C.
Tymoteusz Karpowicz
(1921-2005)
Gdy motyl
Zbyt gwałtownie
Czasem złożył skrzydła –
Wołano: proszę o spokój!
Zaledwie piórko
Spłoszonego ptaka
Trąciło o promień –
Wołano: proszę o ciszę!
Tak nauczono
Bezszelestnie chodzić
Słonia po bębnie,
Człowieka po ziemi.
Wstawały drzewa
Bez szumu nad polem
Tak jak powstają
Włosy z przerażenia.
Borboletas
(Odilon Redon: pintor
francês)
Uma lição de silêncio
Quando uma borboleta
batia suas asas
forte demais,
gritavam-lhe:
Silêncio, por favor!
Se um pássaro
assustado
roçava a pluma num
raio de sol,
gritavam-lhe:
Silêncio, por favor!
Assim os elefantes
aprenderam a andar
sem som sobre o
tambor –
os homens, sobre a
terra.
As árvores nos campos
se erguiam
silenciosas
como os cabelos
quando
se eriçam de terror.
Referências:
Em Polonês
KARPOWICZ, Tymoteusz.
Lekcja ciszy. Disponível neste endereço. Acesso em: 18 out.
2026.
Em Português
KARPOWICZ, Tymoteusz.
Uma lição de silêncio. Tradução de Nelson Ascher. In: ASCHER, Nelson (Org.
& Trad.). Poesia alheira: 124 poemas traduzidos. Rio de Janeiro, RJ:
Imago, 1998. p. 348.
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