Alpes Literários

Alpes Literários

Subtítulo

UM PASSEIO PELOS ALPES LITERÁRIOS

sexta-feira, 2 de outubro de 2026

José Nunes de Sousa - Quem sou?

Eis a angustiosa confissão de uma alma que, mergulhando em si mesma, encontra apenas o abismo e se reconhece como um fragmento desorientado em um universo sem sentido: não há respostas satisfatórias à inquirição exordial, toda ela reconvertida numa série de imagens simbólicas que bem retratam o pessimismo existencial do introspectivo falante – “derrocada”, “muro”, “farrapo”.

 

Nessa exploração de seu vazio interior, o sujeito lírico acaba por se defrontar com mais perguntas que respostas: parece sentir-se alheio à própria vida, imerso numa realidade que não lhe pertence, como se experimentasse uma crise identitária, em meio à qual as suas expectativas nunca chegam a materializar-se.

 

Depois, rende-se à tentação do sonho, ao perceber que a lógica da razão dificilmente penetra o mistério do ser, tornando-se consciente de que não é capaz de compreender cabalmente as forças caóticas e incontroláveis que o lançam nesse mar revolto e tormentoso do desassossego, tão característico do “modus vivendi” contemporâneo.

 

J.A.R. – H.C.

 

José Nunes de Sousa

(1848-1924)

 

Quem sou?

 

A J. P. Rosado

 

Tenho descido dentro de mim mesmo,

’Spreitando o irreal qu’em mim ’sconde,

E o Eu que não sou eu, só me responde,

Em frases vagas, impressões a esmo.

 

Vivo uma vida que não sei se é minha,

Tudo que m’envolve é mistério e nada,

E assentado em esta derrocada,

Vivo numa vida que não sei se é minha!

 

Quer’entender-me e vejo tudo escuro,

Vácuos da Razão, tolhem-me o pensar...

Talvez seja melhor, melhor sonhar,

Não transponho, não venço o espesso muro.

 

A nada aspiro, é tudo transitório,

A minha vida nunca teve Norte,

Nem luz, nem vida há que me conforte,

Não sei chorar, não tenho oratório.

 

Farto de pensar, fronte esbraseada,

Fico-me mudo, tenho dó de mim,

E quer’ainda, quero chegar ao fim...

Para saber o quê, se eu não sei nada?!

 

Sou farrapo que o vento arrebatou

Duma vida, talvez que positiva,

(Se a vida fosse alguma coisa viva)

E aos trambolhões da sorte me lançou!

 

Faro, 27 de XII de 1916

 

Dúvida Existencial

(Fernando Ruiz Pavón: artista espanhol)

 

Referência:

 

NUNES DE SOUSA, José. Quem sou? In: JÚDICE, Nuno (Seleção e Prefácio). Poesia futurista portuguesa. 2. ed. Lisboa, PT: Vega Edições, 1993. p. 130-131. (Coleção “O chão da palavra / Poesia”)

❁

Nenhum comentário:

Postar um comentário