Eis a angustiosa
confissão de uma alma que, mergulhando em si mesma, encontra apenas o abismo e
se reconhece como um fragmento desorientado em um universo sem sentido: não há
respostas satisfatórias à inquirição exordial, toda ela reconvertida numa série
de imagens simbólicas que bem retratam o pessimismo existencial do
introspectivo falante – “derrocada”, “muro”, “farrapo”.
Nessa exploração de
seu vazio interior, o sujeito lírico acaba por se defrontar com mais perguntas
que respostas: parece sentir-se alheio à própria vida, imerso numa realidade
que não lhe pertence, como se experimentasse uma crise identitária, em meio à
qual as suas expectativas nunca chegam a materializar-se.
Depois, rende-se à
tentação do sonho, ao perceber que a lógica da razão dificilmente penetra o
mistério do ser, tornando-se consciente de que não é capaz de compreender cabalmente
as forças caóticas e incontroláveis que o lançam nesse mar revolto e tormentoso
do desassossego, tão característico do “modus vivendi” contemporâneo.
J.A.R. – H.C.
José Nunes de Sousa
(1848-1924)
Quem sou?
A J. P. Rosado
Tenho descido dentro
de mim mesmo,
’Spreitando o irreal
qu’em mim ’sconde,
E o Eu que não sou
eu, só me responde,
Em frases vagas,
impressões a esmo.
Vivo uma vida que não
sei se é minha,
Tudo que m’envolve é
mistério e nada,
E assentado em esta
derrocada,
Vivo numa vida que
não sei se é minha!
Quer’entender-me e
vejo tudo escuro,
Vácuos da Razão,
tolhem-me o pensar...
Talvez seja melhor,
melhor sonhar,
Não transponho, não
venço o espesso muro.
A nada aspiro, é tudo
transitório,
A minha vida nunca
teve Norte,
Nem luz, nem vida há
que me conforte,
Não sei chorar, não
tenho oratório.
Farto de pensar, fronte
esbraseada,
Fico-me mudo, tenho
dó de mim,
E quer’ainda, quero
chegar ao fim...
Para saber o quê, se
eu não sei nada?!
Sou farrapo que o
vento arrebatou
Duma vida, talvez que
positiva,
(Se a vida fosse
alguma coisa viva)
E aos trambolhões da
sorte me lançou!
Faro, 27 de XII de
1916
Dúvida Existencial
(Fernando Ruiz Pavón:
artista espanhol)
Referência:
NUNES DE SOUSA, José. Quem sou? In: JÚDICE, Nuno (Seleção e Prefácio). Poesia futurista portuguesa. 2. ed. Lisboa, PT: Vega Edições, 1993. p. 130-131. (Coleção “O chão da palavra / Poesia”)
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